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terça-feira, 28 de abril de 2020
Músicas (Tri)Gêmeas - The Hollies x Radiohead x Lana Del Rey
Como brincou um "internauta" comentando no Youtube: "Creep do Radiohead, é a minha música preferida da Lana Del Hollies". Bom, esse é um caso raro de plágio que atravessa gerações, em uma maçaroca de grandes canções e de melodias semelhantes. Até mesmo porque quando o The Hollies lançou The Air That I Breathe num longínquo 1973, jamais poderia imaginar que o Radiohead recuperasse o fraseado sonoro da canção para a composição de Creep, que integra o disco Pablo Honey. E como se já não bastasse o plágio - o tribunal obrigou a banda de Thom Yorke a pagar os royalties da música para Albert Hammond e Mike Hazlewood -, a cantora Lana Del Rey tratou de fazer o "plágio do plágio" ao incluir a música Get Free, no ótimo disco Lust For Life. Bom, o Radiohead que já estava pagando royalties pro Hollies exigiu de Lana 100% do faturamento sobre a canção, em um litígio que desobrigou a artista a creditar à canção a Yorke e companhia. Sobre as semelhanças entre as três composições? Bom, vocês que me digam - eu continuo gostando das três!
quarta-feira, 4 de março de 2020
Lado B Classe A - Radiohead (Kid A)
Bug do milênio, tecnologia desenfreada, superpopulação, novas mídias, degradação do meio ambiente, individualismo, doenças, mal estar, paranoias... poucos discos conseguiram traduzir a ansiedade coletiva do mundo, na virada dos anos 2000, quanto este Kid A, do Radiohead. Era um tempo de mudanças, definitivamente - algo que se estendia também para o mundo da música. O pós-grunge do Creed e o hardcore melódico de coletivos como Blink 182, já tinham nascido desgastados e bandas como Red Hot Chili Peppers e Foo Fighters persistiam, já naquela época, em tipo de rock de estrutura mais convencional. Na eletrônica não era diferente já que parecia faltar aquele aceno para a modernidade, mas de forma mais imersiva, transformadora - algo que fosse para além dos celebrados inferninhos trazidos à tona por bandas como Underworld e Spiritualized. Era preciso buscar algum oxigênio nesse contexto que mergulhava em algo que não sabíamos mais aonde iria parar. E que vinte anos depois, vamos combinar, parece que ainda não sabemos. Ou sabemos menos.
Nesse sentido foi estranho ouvir o Kid A quando ele foi lançado. Na mesma época em que conseguia comprar o meu primeiro celular - uma coisa meio rudimentar da Nokia, que levava o nome de 5120 -, começava a ler as primeiras e elogiosas resenhas nas revistas do coração (especialmente a finada Bizz). E eu já sabia que o Radiohead era diferente por que, naquele momento, o Ok Computer, já era um dos discos da vida. Um registro que me apresentou à lógica de mundo daquele universo torto, de yuppies capitalistas persistentes e trabalhadores, de naves alienígenas que podem aparecer, de decadência e de melancolia, de reações químicas e de rotina, de corações sofridos e de doenças que não curam. A verdade é que o trabalho de 1997 - talvez empatado com Nevermind do Nirvana na estante dos melhores dos anos 90 -, já se apresentava como um grande ensaio para o Kid A. Um ensaio que tentava diagnosticar o mundo - e que retirava definitivamente da lógica guitarra, baixo e bateria, a estrutura do rock convencional como a conhecíamos até então. Bom, não é exagero dizer que aquilo tudo meio que reinventou o rock para o novo milênio.
Sobre as músicas, um caldeirão de estilos, de texturas, de melodias, de andamentos. Quebras de lógicas. Idas e vindas no tempo. Estruturas alteradas. Ausência total de refrões. Ideais que se repetem e se repetem, como no caso da abertura com Everything in Its Right Place em que a frase que nomeia a canção é repetida como um mantra polifônico, enquanto uma base feita ao piano aproxima a música para as tensões da ficção científica cheia de suspense das megalópoles cosmopolitas. Aliás, um tipo de ideia geral que se repetirá em outros momentos e que servirá de norte para o registro - como no caso da autoexplicativa (e fantasmagórica) How to Disappear Completely ou na ruidosa The National Anthem, com sua linha de baixo e seus sopros envolventes. Até chegarmos a colorida (se é que se pode chamar assim) Motion Picture Soundtrack, - que parece extraída de algum filme da Disney na deep web -, há espaço para a dança hipnótica no bunker durante a era do gelo de Idioteque, para a psicodelia onírica de Morning Bell e até para algo que se pode considerar uma canção comercial, a despeito da letra pessimista, caso de Optimistic (que parece um Lado B de Ok Computer).
Bom, se você nunca escutou na vida o Kid A, é muito provável que as palavras não sejam suficientes para consolidar o poder transformador desse registro absolutamente diferente de tudo que já tínhamos ouvido até aquele momento. Bom, pra se ter uma ideia, corria uma lenda na época (e eu não consegui confirmá-la na internet), de que as pessoas estavam devolvendo o disco às lojas, falando que ele estava com problema, que as canções pulavam, que eram estranhas - e uma audição nem muito atenta da já citada Everything in Its Right Place faz com que essa história seja perfeitamente crível. O que dá conta também das técnicas de gravação nada ortodoxas, eventualmente robóticas, ainda que, paradoxalmente, orgânicas, calorosas. Pode não ser um álbum fácil. Bom, não é um álbum fácil. Mas quem se entregou a ele, persistiu, descobriu definitivamente a música que resumiu a década passada em 53 minutos de duração. Não foi por acaso que o Pitchfork o escolheu o melhor daquele período. Não é por acaso que ele figura em tudo quanto é lista de melhores daqueles anos. Um trabalho que segue ecoando. Ecoando como uma antena que capta e replica fragmentos e transmissões que conversam com um universo que ainda não sabemos qual será. E isso não é pouco.
Nesse sentido foi estranho ouvir o Kid A quando ele foi lançado. Na mesma época em que conseguia comprar o meu primeiro celular - uma coisa meio rudimentar da Nokia, que levava o nome de 5120 -, começava a ler as primeiras e elogiosas resenhas nas revistas do coração (especialmente a finada Bizz). E eu já sabia que o Radiohead era diferente por que, naquele momento, o Ok Computer, já era um dos discos da vida. Um registro que me apresentou à lógica de mundo daquele universo torto, de yuppies capitalistas persistentes e trabalhadores, de naves alienígenas que podem aparecer, de decadência e de melancolia, de reações químicas e de rotina, de corações sofridos e de doenças que não curam. A verdade é que o trabalho de 1997 - talvez empatado com Nevermind do Nirvana na estante dos melhores dos anos 90 -, já se apresentava como um grande ensaio para o Kid A. Um ensaio que tentava diagnosticar o mundo - e que retirava definitivamente da lógica guitarra, baixo e bateria, a estrutura do rock convencional como a conhecíamos até então. Bom, não é exagero dizer que aquilo tudo meio que reinventou o rock para o novo milênio.
Sobre as músicas, um caldeirão de estilos, de texturas, de melodias, de andamentos. Quebras de lógicas. Idas e vindas no tempo. Estruturas alteradas. Ausência total de refrões. Ideais que se repetem e se repetem, como no caso da abertura com Everything in Its Right Place em que a frase que nomeia a canção é repetida como um mantra polifônico, enquanto uma base feita ao piano aproxima a música para as tensões da ficção científica cheia de suspense das megalópoles cosmopolitas. Aliás, um tipo de ideia geral que se repetirá em outros momentos e que servirá de norte para o registro - como no caso da autoexplicativa (e fantasmagórica) How to Disappear Completely ou na ruidosa The National Anthem, com sua linha de baixo e seus sopros envolventes. Até chegarmos a colorida (se é que se pode chamar assim) Motion Picture Soundtrack, - que parece extraída de algum filme da Disney na deep web -, há espaço para a dança hipnótica no bunker durante a era do gelo de Idioteque, para a psicodelia onírica de Morning Bell e até para algo que se pode considerar uma canção comercial, a despeito da letra pessimista, caso de Optimistic (que parece um Lado B de Ok Computer).
Bom, se você nunca escutou na vida o Kid A, é muito provável que as palavras não sejam suficientes para consolidar o poder transformador desse registro absolutamente diferente de tudo que já tínhamos ouvido até aquele momento. Bom, pra se ter uma ideia, corria uma lenda na época (e eu não consegui confirmá-la na internet), de que as pessoas estavam devolvendo o disco às lojas, falando que ele estava com problema, que as canções pulavam, que eram estranhas - e uma audição nem muito atenta da já citada Everything in Its Right Place faz com que essa história seja perfeitamente crível. O que dá conta também das técnicas de gravação nada ortodoxas, eventualmente robóticas, ainda que, paradoxalmente, orgânicas, calorosas. Pode não ser um álbum fácil. Bom, não é um álbum fácil. Mas quem se entregou a ele, persistiu, descobriu definitivamente a música que resumiu a década passada em 53 minutos de duração. Não foi por acaso que o Pitchfork o escolheu o melhor daquele período. Não é por acaso que ele figura em tudo quanto é lista de melhores daqueles anos. Um trabalho que segue ecoando. Ecoando como uma antena que capta e replica fragmentos e transmissões que conversam com um universo que ainda não sabemos qual será. E isso não é pouco.
quarta-feira, 12 de abril de 2017
Foi um Disco Que Passou Em Minha Vida - Radiohead (OK Computer)
Lembro que tinha dezesseis anos quando assisti ao clipe de Paranoid Android, do Radiohead, pela primeira vez. Era uma daquelas tardes invernais em que a MTV Brasil ainda exibia programas vespertinos bacanas, como o Gás Total. Admito ter ficado paralisado na ocasião. Que música era aquela? Cheia de idas e vindas, de curvas nunca óbvias e de andamentos curiosos amparados por um vocal lamurioso que colocava a canção no limite entre os rockões para serem cantados no estádio e a musiqueta intimista pra ouvir trancado no quarto. E o que dizer da parte visual do clipe? Uma sequência de imagens em animação capaz de denunciar um certo desencanto com uma sociedade doente, violenta, intolerante e individualista. Sim, agora em maio - mais precisamente no dia 21 - faz 20 anos que o grupo inglês lançou o clássico OK Computer - Paranoid Android é a segunda canção do álbum. Mas o impacto causado pelo lançamento na época não chega a superar o fato de que o registro, nos tempos que vivemos hoje, nunca foi tão atual.
Comprar o disco envolveu uma pequena epopeia que aliava a junção dos trocados necessários para a aquisição do registro e a torcida para que ele de fato EXISTISSE em uma loja do shopping local que, há muitos anos, já nem existe mais - e que certamente, na ocasião, estava mais interessada em comercializar os álbuns de alguma boy band. Com o sucesso na empreitada - os R$ 16,50 mais bem empregados DA VIDA - corri para casa para poder escutar o trabalho (na época lembro que o videoclipe de Karma Police já era figurinha fácil na programação da mesma MTV). Mas devo confessar que a experiência, inicialmente, não foi fácil. Quem conhece o OK Computer sabe que não se trata de um registro simples. O clima desalentador, as letras potentes (e, inicialmente, incompreensíveis), os excessos eletrônicos, a melancolia sôfrega, os refrões escassos... para alguém de 16 anos, definitivamente, aquela foi uma experiência difícil, mas transformadora. E que me fazia perceber algo diferente e a gostar mais do disco quanto mais eu insistisse em ouvi-lo!
Aliás, até hoje escuto o trabalho envolvido por um amontoado de sentimentos que me fazem não cansar nunca do álbum. Se hoje, para escutar música, basta dar um play no Spotify, no final dos anos 90 a aquisição de um CD qualquer de um grupo ou artista que amávamos representava uma espécie de conquista particular. E não foram poucas as noites em que peguei escutando o disco com um pequeno dicionário de inglês ao lado, com o objetivo de traduzir as letras metafóricas, irônicas, complexas e abundantes de sentidos. E que, hoje, me fazem perceber o quão genial era - e ainda é - Thom Yorke e companhia. Fitter, healthier and more productive / A pig / In a cage / On antibiotics canta o vocalista em Fitter, Happier, capaz de resumir de maneira completa o espírito de uma sociedade individualista, hedonista, niilista e alienada. (aliás, a canção "divide" o álbum e acaba funcionando como elemento central do fluxo de ideias previsto por Yorke para a concepção do trabalho)
O caos do cotidiano trazido por OK Computer pode ser resumido ainda por uma vida em que alienígenas, acidentes automobilísticos, yuppies que trabalham em busca do sonho americano, reações químicas, doenças, politicagem, capitalismo desenfreado, corações machucados, trabalhos que nos matam lentamente e feridas que não curam "convivem" permanentemente ao lado do homem, que parece o tempo todo lutar para sobreviver. O espírito anárquico das melodias - e dos elementos eletrônicos e de uso de instrumentos musicais pouco usuais - transforma o registro em um material riquíssimo do ponto de vista sonoro, nunca previsível e invariavelmente surpreendente. Tudo combinando com o trabalho gráfico apresentado pelo encarte, que provoca inquietação, instiga e nos faz olhar atentamente em busca de significados escondidos em meio a símbolos e ícones que transformariam qualquer aula de semiótica em algo muito mais divertido.
Como não poderia deixar de ser, o disco me fez perceber que o rock and roll podia oferecer muito mais do que os cabelos compridos, as camisas de flanela e os All Star de cano alto do grunge - que a algum tempo já definhava. Foi a partir de OK Computer que todos nós nos sentimos (é possível assim dizer) impelidos a descobrir outras bandas, grupos e artistas de cenas mais independentes ou alternativas, o que provavelmente forjou o gosto musical de uma geração inteira - e não é por acaso que o registro de Thom Yorke e companhia é colocado AO LADO de Nevermind, do Nirvana, como um dos mais importantes dos anos 90. A partir do trabalho o Radiohead atingiu outro patamar dentro da indústria da música. Bom para os fãs que encontrariam, mais adiante, um outro registro espetacular, chamado Kid A (2000). Mas essa, é outra história.
Comprar o disco envolveu uma pequena epopeia que aliava a junção dos trocados necessários para a aquisição do registro e a torcida para que ele de fato EXISTISSE em uma loja do shopping local que, há muitos anos, já nem existe mais - e que certamente, na ocasião, estava mais interessada em comercializar os álbuns de alguma boy band. Com o sucesso na empreitada - os R$ 16,50 mais bem empregados DA VIDA - corri para casa para poder escutar o trabalho (na época lembro que o videoclipe de Karma Police já era figurinha fácil na programação da mesma MTV). Mas devo confessar que a experiência, inicialmente, não foi fácil. Quem conhece o OK Computer sabe que não se trata de um registro simples. O clima desalentador, as letras potentes (e, inicialmente, incompreensíveis), os excessos eletrônicos, a melancolia sôfrega, os refrões escassos... para alguém de 16 anos, definitivamente, aquela foi uma experiência difícil, mas transformadora. E que me fazia perceber algo diferente e a gostar mais do disco quanto mais eu insistisse em ouvi-lo!
Aliás, até hoje escuto o trabalho envolvido por um amontoado de sentimentos que me fazem não cansar nunca do álbum. Se hoje, para escutar música, basta dar um play no Spotify, no final dos anos 90 a aquisição de um CD qualquer de um grupo ou artista que amávamos representava uma espécie de conquista particular. E não foram poucas as noites em que peguei escutando o disco com um pequeno dicionário de inglês ao lado, com o objetivo de traduzir as letras metafóricas, irônicas, complexas e abundantes de sentidos. E que, hoje, me fazem perceber o quão genial era - e ainda é - Thom Yorke e companhia. Fitter, healthier and more productive / A pig / In a cage / On antibiotics canta o vocalista em Fitter, Happier, capaz de resumir de maneira completa o espírito de uma sociedade individualista, hedonista, niilista e alienada. (aliás, a canção "divide" o álbum e acaba funcionando como elemento central do fluxo de ideias previsto por Yorke para a concepção do trabalho)
O caos do cotidiano trazido por OK Computer pode ser resumido ainda por uma vida em que alienígenas, acidentes automobilísticos, yuppies que trabalham em busca do sonho americano, reações químicas, doenças, politicagem, capitalismo desenfreado, corações machucados, trabalhos que nos matam lentamente e feridas que não curam "convivem" permanentemente ao lado do homem, que parece o tempo todo lutar para sobreviver. O espírito anárquico das melodias - e dos elementos eletrônicos e de uso de instrumentos musicais pouco usuais - transforma o registro em um material riquíssimo do ponto de vista sonoro, nunca previsível e invariavelmente surpreendente. Tudo combinando com o trabalho gráfico apresentado pelo encarte, que provoca inquietação, instiga e nos faz olhar atentamente em busca de significados escondidos em meio a símbolos e ícones que transformariam qualquer aula de semiótica em algo muito mais divertido.
Como não poderia deixar de ser, o disco me fez perceber que o rock and roll podia oferecer muito mais do que os cabelos compridos, as camisas de flanela e os All Star de cano alto do grunge - que a algum tempo já definhava. Foi a partir de OK Computer que todos nós nos sentimos (é possível assim dizer) impelidos a descobrir outras bandas, grupos e artistas de cenas mais independentes ou alternativas, o que provavelmente forjou o gosto musical de uma geração inteira - e não é por acaso que o registro de Thom Yorke e companhia é colocado AO LADO de Nevermind, do Nirvana, como um dos mais importantes dos anos 90. A partir do trabalho o Radiohead atingiu outro patamar dentro da indústria da música. Bom para os fãs que encontrariam, mais adiante, um outro registro espetacular, chamado Kid A (2000). Mas essa, é outra história.
sexta-feira, 23 de setembro de 2016
Lançamento de Videoclipe - Radiohead (Present Tense)
Responsável por um dos melhores discos de 2016 até o momento - no caso, o elogiadíssimo A Moon Shaped Pool -, o Radiohead, banda capitaneada por Thom Yorke, lançou na semana passada um videoclipe para a ótima canção Presente Tense - no caso, a terceira música a receber registro visual, depois de Burn The Witch e Daydreaming. Assim como ocorreu com Daydreaming, o clipe foi novamente dirigido por Paul Thomas Anderson - responsável por "clássicos modernos", como Magnólia (1999), Sangue Negro (2007) e O Mestre (2012). Visualmente simples, com fotografia escurecida e iluminação amarelada, o vídeo mostra Yorke e o guitarrista Johnny Greenwood em uma espécie de performance intimista e melancólica ao vivo, acompanhados de uma drum machine CR-78. Não precisa mais do que isso para uma das maiores bandas do planeta. Bora clicar!?
terça-feira, 10 de maio de 2016
Disco da Semana - Radiohead (A Moon Shaped Pool)
Os amigos mais chegados sabem como funciona para este jornalista e blogueiro o processo de apreciação de um disco - até mesmo para a elaboração das resenhas aqui pro Picanha: são necessárias no mínimo cinco audições do álbum em questão para que haja um entendimento razoável daquilo que o artista quis dizer com o trabalho. Evidentemente existem uma infinidade de registros em que este número é insuficiente, dada a complexidade de elementos, a abrangência sonora e a ampla diversidade de ideias e possibilidades escondidas em cada curva de determinado disco, em cada detalhe instrumental, em cada movimento lírico ou execução vocal. Com o Radiohead sempre foi assim. Não à toa, sempre que escuto discos como Ok Computer (1997) e, especialmente, Kid A (2000), pareço sempre encontrar novos detalhes, sentidos, significados naquilo que estou ouvindo. E isto, indubitavelmente, tem a ver com qualidade artística.
É bem provável que também sejam necessárias uma boa quantidade de audições do novo disco dos ingleses, intitulado A Moon Shaped Pool, para que haja um pleno senso de compreensão das ideias postas em prática por Thom Yorke em companhia. Em uma época em que tudo é tão urgente, instantâneo e imediato, exigir dos ouvintes "audições infinitas" é mais ou menos como colocá-los em uma câmara de tortura em que é executada música clássica 24 horas ao dia (o comparativo não é por acaso). Nesse sentido, é muito provável que os que optarem por encarar a empreitada, sejam plenamente recompensados. E para os birrentos que consideram o Radiohead uma banda chata, cansativa e repetitiva, sempre haverá um bom disco do Coldplay para ser ouvido - e aqui a minha intenção não é dar uma de pretensioso, juro. É mais ou menos como assistir a algum clássico do Bergman ou do Godard: em seu lugar sempre será mais fácil olhar o novo filme do Adam Sandler. Consistem-se em diferentes graus de exigências.
Somente a abertura, com a essencialmente claustrofóbica Burn the Witch, já seria suficiente para elevar A Moon Shaped Pool a um outro patamar. Em meio ao instrumental - exclusividade da London Contemporary Orchestra - que emula guinchos de lâminas, que quase fazem lembrar a sonoridade concebida por Bernard Hermann em Psicose (1960), temos o vocal absolutamente fantasmagórico de Yorke entoando versos, como, red crosses on wooden doors / and if you float you burn. A tensão é quase palpável e sempre crescente - como se estivéssemos em um filme de suspense em que algo muito grave irá ocorrer. E, juro, faz arrepiar. Como numa jogada de mestre, a segunda canção, Daydreaming, mais parece Radiohead das antigas, com o drama de sempre, os versos existencialistas (e o videoclipe idem) e um instrumental que toma por base a execução de um piano ao mesmo tempo sutil e elegante.
O trabalho segue com diversas canções no melhor estilo da tradição dos ingleses, a grande maioria delas pautada pela melancolia e pela desilusão em relação ao mundo em que se vive. Algo que também pode ser percebido nas letras introspectivas, como em Identikit (Sweet-faced ones with nothing left inside / That we all can love) ou na contemplativa The Numbers (We are of the earth / To her we do return / The future is inside us / It's not somewhere else). As músicas também são bastante variadas no que dizem respeito à execução. Decks Dark, por exemplo, tem efeitinhos eletrônicos e coral eclesiástico ao fundo. Já Ful Stop é minimalista e tensa. Glass Eye, por outro lado, é dominada pelo violino luxuriante, ao passo que Desert Island Disk possui um surpreendente clima country - à John Denver - com direito a violãozinho acústico. Tudo soberbamente realizado, com vocal limpo e produção caprichada.
Ainda assim, é muito provável que parte da crítica e dos fãs se queixem da inclusão de faixas que já vinham, há um bom tempo, sendo executadas em shows do grupo desde o início do milênio. Afinal de contas, o que haveria de novo em ouvir Identikit, Present Tense e, mais especificamente, True Love Waits? Oras, ouvi-las finalmente bem arranjadas e trabalhadas em um disco completo, como sempre sonhou quem gosta da banda. No fim das contas, pode ser que Yorke e companhia tenham exagerado um pouco na jogada de marketing - fazendo desaparecer as suas páginas e contas em redes sociais e disponibilizando teasers e imagens misteriosas antes do lançamento guardado a sete chaves. Bom, mas se tem uma banda que pode fazer isso na atualidade, esta é o Radiohead. E, definitivamente, o lançamento de A Moon Shaped Pool, pelo bem ou pelo mal, já é o acontecimento musical do ano. O que não é pouco.
Nota: 9,0
É bem provável que também sejam necessárias uma boa quantidade de audições do novo disco dos ingleses, intitulado A Moon Shaped Pool, para que haja um pleno senso de compreensão das ideias postas em prática por Thom Yorke em companhia. Em uma época em que tudo é tão urgente, instantâneo e imediato, exigir dos ouvintes "audições infinitas" é mais ou menos como colocá-los em uma câmara de tortura em que é executada música clássica 24 horas ao dia (o comparativo não é por acaso). Nesse sentido, é muito provável que os que optarem por encarar a empreitada, sejam plenamente recompensados. E para os birrentos que consideram o Radiohead uma banda chata, cansativa e repetitiva, sempre haverá um bom disco do Coldplay para ser ouvido - e aqui a minha intenção não é dar uma de pretensioso, juro. É mais ou menos como assistir a algum clássico do Bergman ou do Godard: em seu lugar sempre será mais fácil olhar o novo filme do Adam Sandler. Consistem-se em diferentes graus de exigências.
Somente a abertura, com a essencialmente claustrofóbica Burn the Witch, já seria suficiente para elevar A Moon Shaped Pool a um outro patamar. Em meio ao instrumental - exclusividade da London Contemporary Orchestra - que emula guinchos de lâminas, que quase fazem lembrar a sonoridade concebida por Bernard Hermann em Psicose (1960), temos o vocal absolutamente fantasmagórico de Yorke entoando versos, como, red crosses on wooden doors / and if you float you burn. A tensão é quase palpável e sempre crescente - como se estivéssemos em um filme de suspense em que algo muito grave irá ocorrer. E, juro, faz arrepiar. Como numa jogada de mestre, a segunda canção, Daydreaming, mais parece Radiohead das antigas, com o drama de sempre, os versos existencialistas (e o videoclipe idem) e um instrumental que toma por base a execução de um piano ao mesmo tempo sutil e elegante.
O trabalho segue com diversas canções no melhor estilo da tradição dos ingleses, a grande maioria delas pautada pela melancolia e pela desilusão em relação ao mundo em que se vive. Algo que também pode ser percebido nas letras introspectivas, como em Identikit (Sweet-faced ones with nothing left inside / That we all can love) ou na contemplativa The Numbers (We are of the earth / To her we do return / The future is inside us / It's not somewhere else). As músicas também são bastante variadas no que dizem respeito à execução. Decks Dark, por exemplo, tem efeitinhos eletrônicos e coral eclesiástico ao fundo. Já Ful Stop é minimalista e tensa. Glass Eye, por outro lado, é dominada pelo violino luxuriante, ao passo que Desert Island Disk possui um surpreendente clima country - à John Denver - com direito a violãozinho acústico. Tudo soberbamente realizado, com vocal limpo e produção caprichada.
Ainda assim, é muito provável que parte da crítica e dos fãs se queixem da inclusão de faixas que já vinham, há um bom tempo, sendo executadas em shows do grupo desde o início do milênio. Afinal de contas, o que haveria de novo em ouvir Identikit, Present Tense e, mais especificamente, True Love Waits? Oras, ouvi-las finalmente bem arranjadas e trabalhadas em um disco completo, como sempre sonhou quem gosta da banda. No fim das contas, pode ser que Yorke e companhia tenham exagerado um pouco na jogada de marketing - fazendo desaparecer as suas páginas e contas em redes sociais e disponibilizando teasers e imagens misteriosas antes do lançamento guardado a sete chaves. Bom, mas se tem uma banda que pode fazer isso na atualidade, esta é o Radiohead. E, definitivamente, o lançamento de A Moon Shaped Pool, pelo bem ou pelo mal, já é o acontecimento musical do ano. O que não é pouco.
Nota: 9,0
quarta-feira, 4 de maio de 2016
Na Espera - Radiohead (Disco)
Poucos lançamentos têm gerado tanta expectativa nesse 2016, quanto o próximo registro dos ingleses do Radiohead. E a cada dia que passa, a impressão que se tem é de se estar cada vez mais perto do tão aguardado momento da chegada do sucessor de The King Of Limbs (2011). Mas ocorre que a palavra de ordem tem sido "mistério", no que diz respeito a Thom Yorke e companhia. Por exemplo, não há data de lançamento do trabalho, algo que os artistas tradicionalmente indicam, até como forma de promover o futuro álbum. Lista de músicas? Capa? Nome do registro? Nada. Pra complicar ainda mais, os ingleses resolveram deletar, na última semana, todas as suas contas em redes sociais. Oh céus!
Mas como nem tudo são trevas, nessa semana, começaram a aparecer as primeiras pistas do que vem por aí. Primeiro, foram divulgados dois teasers em uma nova conta do Instagram, publicados na segunda-feira (02/05). Os vídeos - esquisitíssimos, como não poderia deixar de ser - mostravam um pássaro em animação piando em loop e uma espécie de ritual em que homens mascarados pareciam queimar uma bruxa. Foi somente com o lançamento do vídeo em stop motion de Burn the Witch - dirigido por Chris Hopewell - nesta terça-feira (03/05), que parte do mistério foi sanado! Este é o primeiro single daquele que deverá ser o novo trabalho dos caras. Os segredos continuam mantidos a sete chaves. Mas a espetacular canção já permite se ter uma ideia do que vem pela frente. Já assistiu? Clica e confere, que vale muito a pena!
Mas como nem tudo são trevas, nessa semana, começaram a aparecer as primeiras pistas do que vem por aí. Primeiro, foram divulgados dois teasers em uma nova conta do Instagram, publicados na segunda-feira (02/05). Os vídeos - esquisitíssimos, como não poderia deixar de ser - mostravam um pássaro em animação piando em loop e uma espécie de ritual em que homens mascarados pareciam queimar uma bruxa. Foi somente com o lançamento do vídeo em stop motion de Burn the Witch - dirigido por Chris Hopewell - nesta terça-feira (03/05), que parte do mistério foi sanado! Este é o primeiro single daquele que deverá ser o novo trabalho dos caras. Os segredos continuam mantidos a sete chaves. Mas a espetacular canção já permite se ter uma ideia do que vem pela frente. Já assistiu? Clica e confere, que vale muito a pena!
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