Um The Killers muito mais reflexivo, contemplativo e sutil é aquilo que encontramos no ótimo sétimo disco Pressure Machine, lançado nesta sexta-feira (13/08). Sim, a festa purpurinada, dançante e explosivamente roqueira vista nos trabalhos anteriores dá lugar agora a um registro mais íntimo, de essência nostálgica, que pretende navegar sem pressa em meio a esse contexto urgente, tecnológico, de pandemia e de incertezas que vivemos. E, nesse sentido, confesso que esse álbum faz muito bem. Aliás, talvez seja o melhor de Brandon Flowers e companhia em anos. É da economia, afinal, que brotam as grandes canções do disco - casos de Quiet Town, Cody e a perfeita Runaway Horses, que conta com a participação de Phoebe Bridgers, Isso sem contar a inaugural West Hills, com seu instrumental folk à moda Mutual Benefit que já nos insere naquele clima "cidade pequena do interior que pede para ser abraçada". A crítica, aparentemente, está saudando a mudança de rumo. Aliás, a gente muitas vezes espera isso de uma banda. Alguma alteração, um sopro de novidade. Um algo diferente que saia da mesmice. O Killers conseguiu.
sexta-feira, 13 de agosto de 2021
quinta-feira, 12 de agosto de 2021
Na Espera - Casa Gucci (House of Gucci)
A gente sabe que ainda é cedo pra falar em prováveis indicados ao Oscar 2022 - a cerimônia acontece em 27 de março do ano que vem -, mas aos poucos as bolsas de apostas vão sendo ocupadas por obras que, muito provavelmente, deverão figurar na premiação. E esse é o caso de Casa Gucci (House of Gucci), mais recente produção de Ridley Scott (Alien: O Oitavo Passageiro). Com estreia prevista para o dia 27 de janeiro próximo, a trama volta no tempo para contar a história de como Patrizia Reggiani (vivida por Lady Gaga), então esposa do membro da família fundadora da marca italiana Gucci, conspirou para matar o marido Fabrizio (Adam Driver), em 1995. O elenco estelar é completado por Al Pacino, Jeremy Irons, Jared Leto e Salma Hayek e as nominações em categorias como Filme, Roteiro Adaptado, Diretor, Ator (Driver), Atriz (Gaga) e até Ator Coadjuvante (Pacino) são dadas como quase certas.
Sim, a gente não pode esquecer do efeito Era Uma Vez Um Sonho (2020), do Ron Howard, que saiu de favorito ao carecão dourado para candidato ao Framboesa de Ouro, depois que as primeiras exibições começaram a ocorrer. Mas consideramos difícil que isso se repita. O trailer estilizado, cheio de trucagens técnicas e uma trilha sonora cheia de firulas com Heart of Glass do Blondie, sendo entoada quase como um mantra, dão um bom indicativo que vem coisa boa por aí. É aguardar. Por aqui já estamos Na Espera!
Tesouros Cinéfilos - Raça (Race)
De: Stephen Hopkins. Com Stephan James, Jason Sudeikis, Clarice van Houten, William Hurt e Jeremy Irons. Drama, Alemanha / França / Canadá, 2016, 134 minutos.
Vamos combinar, cada edição dos Jogos Olímpicos revela um sem fim de histórias sensacionais envolvendo os atletas - muitas delas com potencial para virar livro, filme, documentário. Sem muito esforço, puxando pela memória, somente na recém finalizada edição de Tóquio 2020, é possível lembrar do arremessador de peso que treinava em um terreno baldio, da ginasta que teve de abandonar os jogos devido à pressão sofrida (e ao trauma decorrente de abusos) e da boxeadora que, após faturar a medalha de ouro em sua categoria, voltará a trabalhar no hospital em que atua como enfermeira. Sim, e isso que nem mencionei a praticante de skate que, com apenas 13 anos, barbariza nas pistas - após ter viralizado há seis anos, fazendo uma manobra impossível, vestida de... fada. Fadinha, no caso. Tem de tudo e acho que a beleza das Olimpíadas está também nisso: ela revela contextos. Sociais, políticos, culturais, religiosos. Esportivos, claro. De cada País envolvido. Sua bagagem, suas tradições. Tudo parece estar lá. Em meio a braços, pernas, dorsos, sorrisos, choros e caretas de cada atleta. Suor e sangue. É algo meio mágico, na real. Até apaixonante.
E, nesse sentido, acho que não existe história olímpica mais inesquecível do que aquela envolvendo o atleta Jesse Owens que, nos jogos de Berlim, em 1936, em plano nazismo, faturaria quatro medalhas de ouro - escancarando o fato de que o alegado (e bizarro) conceito de superioridade racial nada tinha a ver com a cor da pele. Negro, Owens quase não participou daqueles jogos. Havia um impasse envolvendo o Comitê Olímpico Norte Americano que, naturalmente insatisfeito com o modelo político adotado pelo führer, quase boicotou a competição. Esse contexto de bastidores, os preconceitos raciais à época - inclusive nos Estados Unidos -, as discussões e incertezas familiares e o esforço do próprio Owens (Stephan James) em alcançar o lugar mais alto pódio, é o que acompanhamos no agradável Raça (Race), obra disponível no catálogo da HBO Max. Dirigido por Stephen Hopkins (de A Sombra e a Escuridão), essa é aquele filme do subgênero "história de superação" que costuma cair no gosto do espectador.
Em linhas gerais a gente sabe o final da história. Mas ainda assim não deixa de ser valioso conhecer o percurso. Que envolve, por exemplo, a existência do treinador Larry Snyder (o sempre simpático Jason Sudeikis), que sai da desconfiança inicial para o apoio incondicional ao seu principal atleta. Como integrantes do comitê, Jeremiah Mahoney (William Hurt) e Avery Brundage (Jeremy Irons) ficam em lados opostos no que diz respeito às decisões sobre ir ou não aos jogos. Ceder à Hitler não seria uma forma de demonstrar "fraqueza"? Superá-lo em sua casa não poderia se configurar como uma bela lição sobre o conceito de supremacia? Em meio a tudo, figuras conhecidas como a diretora Leni Riefenstahl (Clarice von Houten) e Joseph Goebbels (Barnaby Metschurat) se empenharam em transformar os jogos daquele ano em um verdadeiro circo midiático - e, olhando para as imagens que ficaram para a história, podemos afirmar sem medo: bendita mania de grandeza do führer, que possibilitou que cada detalhe dessa sua pequena humilhação particular fosse filmado.
Como espectador, senti um pouco de falta de um contexto que nos apresentasse um pouco mais a juventude de Owens, e de como seria "formatado" o atleta inigualável, um retumbante recordista mundial, que ele seria. O mesmo valendo para a desastrosa política racial norte-americana que, nos anos 30, até poderia se vender como um espectro mais progressista (ao menos se comparada ao nazismo), mas que também mantinha suas esquisitices pós período escravocrata (caso da política que obrigava negros e brancos a se manterem separados na maioria dos locais). Em geral o tom é otimista. Quase fabulesco. As tomadas são belas - há muito uso de câmera lenta, closes. Assim como o desenho de produção, que recria o período de forma bastante fidedigna. A nota menor no que diz respeito a parte técnica fica com a exagerada trilha sonora, que às vezes mais parece retirada e um filme de ação com o Liam Neeson como protagonista (indo atrás da filha sequestrada). No mais é cinemão que acerta em cheio e faz com que saiamos da sessão com um belo (e esperançoso) sorriso. O que não é pouco, em tempos em que o racismo estrutural segue sendo política pseudo-oficial de tantos governos.
terça-feira, 10 de agosto de 2021
Cinema - Um Lugar Silencioso 2 (A Quiet Place Part 2)
segunda-feira, 9 de agosto de 2021
Picanha em Série - The Flight Attendant
De: Batan Silva, Glen Winter, John Srickland, Marcos Siega, Susanna Fogel e Tom Vaughan. Com Kaley Cuoco, Michiel Huisman, Michelle Gomez e Rosie Perez. Drama / Comédia / Thriller, EUA, 2020, 340 minutos.
Vamos combinar que, não fossem as indicações ao Emmy e talvez The Flight Attendant passasse meio batida. Sim, é uma produção da HBO Max - o que costuma ser sinônimo de qualidade. Tem a Kaley Cuoco como protagonista - finalmente se vendo livre de encarnar a Penny de The Big Bang Theory. E ainda há a trama meio inusitada, um suspense meio rocambolesco à moda de um Hitchcock no aeroporto, com direito a assassinatos, flashbacks e um curioso senso de humor. A trama nos apresenta à comissária de bordo Cassie (Cuoco), uma alcoólatra que ocupa o seu tempo entre um voo e outro se relacionando com caras aleatórios. Em um desses encontros fortuitos, em uma noitada em Bangkoc, na Tailândia, ela conhece um certo Alex Sokolov (Michiel Huisman), passando a noite com ele. Após acordar com uma pesada ressaca, ela se depara com Alex morto na cama, ao seu lado, com um corte na garganta. Ela não lembra de nada. E resolve fugir, com medo da polícia, em um País que não tem lá uma fama muito boa quando o assunto é o sistema prisional.
A partir daí, a série de oito episódios se transforma num pequeno jogo de gato e rato, com Cassie tentando montar o quebra-cabeças que possa solucionar o que teria acontecido naquela noite. Ao mesmo tempo, o FBI passa a investigar a aeromoça, especialmente após ela tentar fugir na chegada aos EUA. Nas memórias da protagonista, o caos se estabelece. Permanentemente alcoolizada, as suas lembranças sobre os eventos no hotel surgem de forma episódica, com Alex "retornando à vida" para tentar auxiliá-la - o que, em muitos casos, confere a produção um clima exoticamente surrealista - tão violento quanto onírico. Também entra em cena, a melhor amiga da Cassie, a advogada Annie (a ótima Zosia Mamet) - um tipo de relação instável, repleta de segredos não revelados. E há ainda a colega de trabalho Megan (Rosie Perez), que parece ter uma vida dupla que envolve receptação de drogas, tráfico de informação e outros crimes.
Trata-se, ao cabo, de uma colcha de retalhos que segue o fio condutor da narrativa. E que é completado pela misteriosa Miranda (Michelle Gomez), que surge de forma difusa nas memórias de Cassie e que pode ser a chave para que os eventos ocorridos na Tailândia possam ser esclarecidos. É uma trama que parece complexa, mas que se desenvolve de forma fluída, em meio a doses cavalares de vodka e traumas de infância que vão sendo, aos poucos, esclarecidos. Especialmente no que diz respeito a complicada relação da protagonista com seu irmão Davey (T.R. Knight), um homossexual que sempre foi "renegado" pelo pai violento e conservador e que tenta uma aproximação com a irmã, a despeito de Cassie parecer uma figura tão egoísta quanto solitária (e as memórias de infância de ambos nos deixam, invariavelmente, com um gosto amargo na boca, condição que é ampliada pelo belíssimo desenho de produção e pela fotografia de saturação baixa, que reforçam o caráter melancólico de cada flashback).
E é por isso tudo que eu considerei meio curiosas as nominações ao Emmy nas categorias de comédia já que, em muitos casos, a série não é nada engraçada. Pelo contrário, debate sem falsos moralismos, temas como o alcoolismo (e o quão instável emocionalmente Cassie se torna a partir de seu hábito), a mitomania - a cena em que Cassie e Annie constatam a existência repleta de mentiras em que vivem é apenas melancólica -, os traumas de infância e a irresponsabilidade emocional. Com ótimas interpretações, a série escavoca os segredos da família de Alex, numa trama que envolve ainda grandes corporações e crimes como lavagem de dinheiro, empresas de fachada e espionagem corporativa. Tudo embalado num clima meio de realismo fantástico, com direito a coelhos gigantes que surgem inesperadamente e "mortos que falam" sem problema algum. Renovada para o segundo ano, foi uma das surpresas da temporada. É aguardar quais os caminhos que a série tomará, após as reviravoltas vistas nos capítulos finais.
sexta-feira, 6 de agosto de 2021
Podcast do Picanha Cultural #9 (Segunda Temporada) - Grandes Vencedores do Festival de Cannes
Realizada nesse último mês de julho, a 74ª edição do Festival de Cannes concedeu a Palma de Ouro ao aguardado Titane, da francesa Julia Ducornau - filme sobre uma jovem que sobrevive a um acidente automobilístico na infância e passa a ter uma relação peculiar com carros, na vida adulta. Um dos festivais mais bacanas do cinema, Cannes costuma ser uma ótima porta de entrada para quem quiser mergulhar em um campo dominado por ótimos filmes - muitos deles de cunho histórico, político ou social, que não se eximem de colocar o "dedo na ferida" na hora de criticar as mais variadas instituições, governos e outros. Não por acaso, Parasita (2019) foi um dos recentes vencedores, pra ficar num exemplo. E foi pensando nisso que o Bernardo e eu resolvemos fazer uma relação de grandes obras que já faturaram a Palma de Ouro. A nata da nata! Do brasileiro O Pagador de Promessas (1962) de Anselmo Duarte, passando por clássicos como A Doce Vida (1960), de Fellini, até chegar em obras atuais como Ventos da Liberdade (2006), do onipresente Ken Loach, a lista é só filmão. E tudo debatido com aquele clima bem humorado que vocês já estão acostumados. Bora dar play?







