sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Pitaquinho Musical - The Killers (Pressure Machine)

Um The Killers muito mais reflexivo, contemplativo e sutil é aquilo que encontramos no ótimo sétimo disco Pressure Machine, lançado nesta sexta-feira (13/08). Sim, a festa purpurinada, dançante e explosivamente roqueira vista nos trabalhos anteriores dá lugar agora a um registro mais íntimo, de essência nostálgica, que pretende navegar sem pressa em meio a esse contexto urgente, tecnológico, de pandemia e de incertezas que vivemos. E, nesse sentido, confesso que esse álbum faz muito bem. Aliás, talvez seja o melhor de Brandon Flowers e companhia em anos. É da economia, afinal, que brotam as grandes canções do disco - casos de Quiet Town, Cody e a perfeita Runaway Horses, que conta com a participação de Phoebe Bridgers, Isso sem contar a inaugural West Hills, com seu instrumental folk à moda Mutual Benefit que já nos insere naquele clima "cidade pequena do interior que pede para ser abraçada". A crítica, aparentemente, está saudando a mudança de rumo. Aliás, a gente muitas vezes espera isso de uma banda. Alguma alteração, um sopro de novidade. Um algo diferente que saia da mesmice. O Killers conseguiu.


quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Na Espera - Casa Gucci (House of Gucci)

A gente sabe que ainda é cedo pra falar em prováveis indicados ao Oscar 2022 - a cerimônia acontece em 27 de março do ano que vem -, mas aos poucos as bolsas de apostas vão sendo ocupadas por obras que, muito provavelmente, deverão figurar na premiação. E esse é o caso de Casa Gucci (House of Gucci), mais recente produção de Ridley Scott (Alien: O Oitavo Passageiro). Com estreia prevista para o dia 27 de janeiro próximo, a trama volta no tempo para contar a história de como Patrizia Reggiani (vivida por Lady Gaga), então esposa do membro da família fundadora da marca italiana Gucci, conspirou para matar o marido Fabrizio (Adam Driver), em 1995. O elenco estelar é completado por Al Pacino, Jeremy Irons, Jared Leto e Salma Hayek e as nominações em categorias como Filme, Roteiro Adaptado, Diretor, Ator (Driver), Atriz (Gaga) e até Ator Coadjuvante (Pacino) são dadas como quase certas.

Sim, a gente não pode esquecer do efeito Era Uma Vez Um Sonho (2020), do Ron Howard, que saiu de favorito ao carecão dourado para candidato ao Framboesa de Ouro, depois que as primeiras exibições começaram a ocorrer. Mas consideramos difícil que isso se repita. O trailer estilizado, cheio de trucagens técnicas e uma trilha sonora cheia de firulas com Heart of Glass do Blondie, sendo entoada quase como um mantra, dão um bom indicativo que vem coisa boa por aí. É aguardar. Por aqui já estamos Na Espera!

Tesouros Cinéfilos - Raça (Race)

De: Stephen Hopkins. Com Stephan James, Jason Sudeikis, Clarice van Houten, William Hurt e Jeremy Irons. Drama, Alemanha / França / Canadá, 2016, 134 minutos.

Vamos combinar, cada edição dos Jogos Olímpicos revela um sem fim de histórias sensacionais envolvendo os atletas - muitas delas com potencial para virar livro, filme, documentário. Sem muito esforço, puxando pela memória, somente na recém finalizada edição de Tóquio 2020, é possível lembrar do arremessador de peso que treinava em um terreno baldio, da ginasta que teve de abandonar os jogos devido à pressão sofrida (e ao trauma decorrente de abusos) e da boxeadora que, após faturar a medalha de ouro em sua categoria, voltará a trabalhar no hospital em que atua como enfermeira. Sim, e isso que nem mencionei a praticante de skate que, com apenas 13 anos, barbariza nas pistas - após ter viralizado há seis anos, fazendo uma manobra impossível, vestida de... fada. Fadinha, no caso. Tem de tudo e acho que a beleza das Olimpíadas está também nisso: ela revela contextos. Sociais, políticos, culturais, religiosos. Esportivos, claro. De cada País envolvido. Sua bagagem, suas tradições. Tudo parece estar lá. Em meio a braços, pernas, dorsos, sorrisos, choros e caretas de cada atleta. Suor e sangue. É algo meio mágico, na real. Até apaixonante.

E, nesse sentido, acho que não existe história olímpica mais inesquecível do que aquela envolvendo o atleta Jesse Owens que, nos jogos de Berlim, em 1936, em plano nazismo, faturaria quatro medalhas de ouro - escancarando o fato de que o alegado (e bizarro) conceito de superioridade racial nada tinha a ver com a cor da pele. Negro, Owens quase não participou daqueles jogos. Havia um impasse envolvendo o Comitê Olímpico Norte Americano que, naturalmente insatisfeito com o modelo político adotado pelo führer, quase boicotou a competição. Esse contexto de bastidores, os preconceitos raciais à época - inclusive nos Estados Unidos -, as discussões e incertezas familiares e o esforço do próprio Owens (Stephan James) em alcançar o lugar mais alto pódio, é o que acompanhamos no agradável Raça (Race), obra disponível no catálogo da HBO Max. Dirigido por Stephen Hopkins (de A Sombra e a Escuridão), essa é aquele filme do subgênero "história de superação" que costuma cair no gosto do espectador.

Em linhas gerais a gente sabe o final da história. Mas ainda assim não deixa de ser valioso conhecer o percurso. Que envolve, por exemplo, a existência do treinador Larry Snyder (o sempre simpático Jason Sudeikis), que sai da desconfiança inicial para o apoio incondicional ao seu principal atleta. Como integrantes do comitê, Jeremiah Mahoney (William Hurt) e Avery Brundage (Jeremy Irons) ficam em lados opostos no que diz respeito às decisões sobre ir ou não aos jogos. Ceder à Hitler não seria uma forma de demonstrar "fraqueza"? Superá-lo em sua casa não poderia se configurar como uma bela lição sobre o conceito de supremacia? Em meio a tudo, figuras conhecidas como a diretora Leni Riefenstahl (Clarice von Houten) e Joseph Goebbels (Barnaby Metschurat) se empenharam em transformar os jogos daquele ano em um verdadeiro circo midiático - e, olhando para as imagens que ficaram para a história, podemos afirmar sem medo: bendita mania de grandeza do führer, que possibilitou que cada detalhe dessa sua pequena humilhação particular fosse filmado.

Como espectador, senti um pouco de falta de um contexto que nos apresentasse um pouco mais a juventude de Owens, e de como seria "formatado" o atleta inigualável, um retumbante recordista mundial, que ele seria. O mesmo valendo para a desastrosa política racial norte-americana que, nos anos 30, até poderia se vender como um espectro mais progressista (ao menos se comparada ao nazismo), mas que também mantinha suas esquisitices pós período escravocrata (caso da política que obrigava negros e brancos a se manterem separados na maioria dos locais). Em geral o tom é otimista. Quase fabulesco. As tomadas são belas - há muito uso de câmera lenta, closes. Assim como o desenho de produção, que recria o período de forma bastante fidedigna. A nota menor no que diz respeito a parte técnica fica com a exagerada trilha sonora, que às vezes mais parece retirada e um filme de ação com o Liam Neeson como protagonista (indo atrás da filha sequestrada). No mais é cinemão que acerta em cheio e faz com que saiamos da sessão com um belo (e esperançoso) sorriso. O que não é pouco, em tempos em que o racismo estrutural segue sendo política pseudo-oficial de tantos governos.

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Cinema - Um Lugar Silencioso 2 (A Quiet Place Part 2)

De: John Krasinski. Com Emily Blunt, Cillian Murphy, Millicent Simons, Noah Jupe e John Krasinski. Suspense / Terror, EUA, 2021, 96 minutos.

Infelizmente, a existência de Um Lugar Silencioso 2 (A Quiet Place Part 2) nos faz constatar o óbvio: nem sempre uma continuação de filme é necessária. Aliás, em pouquíssimos casos eu diria. Vale para as séries também, que se repetem indefinidamente, apenas para faturar em cima do hype (um abraço Stranger Things). E pouco acrescentam de novidade, de fato. No caso da obra dirigida por John Krasinkski (o eterno Jim Halpert de The Office), a sensação é a de ficarmos no mesmo lugar no decorrer das pouco mais de uma hora e meia de duração do filme. Ok, passados os eventos da primeira parte, que foi concluída com a morte de Lee (o próprio Krasinski) e com a destruição da propriedade em que moravam, a viúva Evelyn (Emily Blunt) e os filhos Regan (Millicent Simons) e Marcus (Noah Jupe) precisam encontrar um novo lugar para viver. E sem fazer barulho, claro, por mais que, agora, eles saibam como enfrentar as criaturas alienígenas que são "ativadas" por meio do som.

No caminho, quando tentam entrar em um depósito aparentemente abandonado, Marcus acaba pisando em uma armadilha. Com a família sendo socorrida/aprisionada por um certo Emmett (Cillian Murphy), um antigo vizinho dos Abbott. Mais ou menos protegidos, mas ainda inseguros, eles recebem, de uma forma meio inesperada, uma transmissão de rádio em que a canção Beyond The Sea, de Bobby Darin está sendo executada. Não bastasse a letra sugestiva - Felizes nós seremos / Além do mar -, a música pode ser a chave para a existência de algo a mais no entorno (outras pessoas, será?). Intrigada com o caso, Regan parte em uma jornada meio solitária atrás de respostas. Para desespero de Evelyn, que pede socorro para Emmett, que parte atrás da menina, juntando-se a ela em seu objetivo. Tudo isso em meio a um sem fim de sequências de ação, com todos eles, em algum momento, precisando escapar das sangrentas criaturas.


Nesse sentido, os fãs de obras mais movimentadas se deleitarão já que, diferentemente da primeira parte - em que pareciam predominar as sequências silenciosas, em que a tensão era proporcionada pela necessidade plena de não haver barulho, o que tornava sufocante uma simples "caminhada no meio do mato" -, aqui o bicho pega, literalmente, com muito mais correria, perseguições, explosões, e tentativas desesperadas de sobrevivência. A execução técnica segue sendo o ponto alto, com detalhe para a engenharia de som, que muito provavelmente deverá ser lembrada no Oscar do ano que vem. Já o desenho de produção, combinado com a riqueza dos enquadramentos e a trilha sonora econômica, transforma os primeiros quinze minutos em uma experiência não menos do que aterradora em meio a um prosaico jogo de beisebol - o que, para  mim, se constitui no ponto alto. Aliás, eu adoraria ter continuado ali mesmo, sem que o filme avançasse para o dia quatrocentos e alguma coisa.

Só que, no fim das contas, como já dito, a sensação é a de andarmos em círculos. Agora já sabemos que os monstrengos não suportam frequências sonoras mais "agudas", o que oportuniza aos Abbott o contra-ataque. E aí surge uma forma de mostrar, ao menos em partes, que os inimigos podem ser outros (nada que já não tenhamos visto em séries como The Walking Dead quando, lá pelas tantas, os zumbis passam a ser o menor dos problemas). Há todo um esforço do elenco e um certo carinho por aquilo que procuram entregar - e os paralelos com a existência da covid-19 podem até formar uma curiosa metáfora narrativa. Mas ainda assim parece ser pouco. Quando os créditos sobem, fica difícil não se sentir meio frustrado. Especialmente pela expectativa criada. Sabe o Jim Halpert olhando pra câmera, com aquele tom de deboche que lhe é peculiar, a cada tentativa de passar a perna no Dwight (personagem do Rainn Wilson)? Pois é, nesse caso somos tal qual o Dwight. Enganados por um filme.

Nota: 4,5


segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Picanha em Série - The Flight Attendant

De: Batan Silva, Glen Winter, John Srickland, Marcos Siega, Susanna Fogel e Tom Vaughan. Com Kaley Cuoco, Michiel Huisman, Michelle Gomez e Rosie Perez. Drama / Comédia / Thriller, EUA, 2020, 340 minutos.

Vamos combinar que, não fossem as indicações ao Emmy e talvez The Flight Attendant passasse meio batida. Sim, é uma produção da HBO Max - o que costuma ser sinônimo de qualidade. Tem a Kaley Cuoco como protagonista - finalmente se vendo livre de encarnar a Penny de The Big Bang Theory. E ainda há a trama meio inusitada, um suspense meio rocambolesco à moda de um Hitchcock no aeroporto, com direito a assassinatos, flashbacks e um curioso senso de humor. A trama nos apresenta à comissária de bordo Cassie (Cuoco), uma alcoólatra que ocupa o seu tempo entre um voo e outro se relacionando com caras aleatórios. Em um desses encontros fortuitos, em uma noitada em Bangkoc, na Tailândia, ela conhece um certo Alex Sokolov (Michiel Huisman), passando a noite com ele. Após acordar com uma pesada ressaca, ela se depara com Alex morto na cama, ao seu lado, com um corte na garganta. Ela não lembra de nada. E resolve fugir, com medo da polícia, em um País que não tem lá uma fama muito boa quando o assunto é o sistema prisional.

A partir daí, a série de oito episódios se transforma num pequeno jogo de gato e rato, com Cassie tentando montar o quebra-cabeças que possa solucionar o que teria acontecido naquela noite. Ao mesmo tempo, o FBI passa a investigar a aeromoça, especialmente após ela tentar fugir na chegada aos EUA. Nas memórias da protagonista, o caos se estabelece. Permanentemente alcoolizada, as suas lembranças sobre os eventos no hotel surgem de forma episódica, com Alex "retornando à vida" para tentar auxiliá-la - o que, em muitos casos, confere a produção um clima exoticamente surrealista - tão violento quanto onírico. Também entra em cena, a melhor amiga da Cassie, a advogada Annie (a ótima Zosia Mamet) - um tipo de relação instável, repleta de segredos não revelados. E há ainda a colega de trabalho Megan (Rosie Perez), que parece ter uma vida dupla que envolve receptação de drogas, tráfico de informação e outros crimes.

Trata-se, ao cabo, de uma colcha de retalhos que segue o fio condutor da narrativa. E que é completado pela misteriosa Miranda (Michelle Gomez), que surge de forma difusa nas memórias de Cassie e que pode ser a chave para que os eventos ocorridos na Tailândia possam ser esclarecidos. É uma trama que parece complexa, mas que se desenvolve de forma fluída, em meio a doses cavalares de vodka e traumas de infância que vão sendo, aos poucos, esclarecidos. Especialmente no que diz respeito a complicada relação da protagonista com seu irmão Davey (T.R. Knight), um homossexual que sempre foi "renegado" pelo pai violento e conservador e que tenta uma aproximação com a irmã, a despeito de Cassie parecer uma figura tão egoísta quanto solitária (e as memórias de infância de ambos nos deixam, invariavelmente, com um gosto amargo na boca, condição que é ampliada pelo belíssimo desenho de produção e pela fotografia de saturação baixa, que reforçam o caráter melancólico de cada flashback).

E é por isso tudo que eu considerei meio curiosas as nominações ao Emmy nas categorias de comédia já que, em muitos casos, a série não é nada engraçada. Pelo contrário, debate sem falsos moralismos, temas como o alcoolismo (e o quão instável emocionalmente Cassie se torna a partir de seu hábito), a mitomania - a cena em que Cassie e Annie constatam a existência repleta de mentiras em que vivem é apenas melancólica -, os traumas de infância e a irresponsabilidade emocional. Com ótimas interpretações, a série escavoca os segredos da família de Alex, numa trama que envolve ainda grandes corporações e crimes como lavagem de dinheiro, empresas de fachada e espionagem corporativa. Tudo embalado num clima meio de realismo fantástico, com direito a coelhos gigantes que surgem inesperadamente e "mortos que falam" sem problema algum. Renovada para o segundo ano, foi uma das surpresas da temporada. É aguardar quais os caminhos que a série tomará, após as reviravoltas vistas nos capítulos finais.

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Podcast do Picanha Cultural #9 (Segunda Temporada) - Grandes Vencedores do Festival de Cannes

Realizada nesse último mês de julho, a 74ª edição do Festival de Cannes concedeu a Palma de Ouro ao aguardado Titane, da francesa Julia Ducornau -  filme sobre uma jovem que sobrevive a um acidente automobilístico na infância e passa a ter uma relação peculiar com carros, na vida adulta. Um dos festivais mais bacanas do cinema, Cannes costuma ser uma ótima porta de entrada para quem quiser mergulhar em um campo dominado por ótimos filmes - muitos deles de cunho histórico, político ou social, que não se eximem de colocar o "dedo na ferida" na hora de criticar as mais variadas instituições, governos e outros. Não por acaso, Parasita (2019) foi um dos recentes vencedores, pra ficar num exemplo. E foi pensando nisso que o Bernardo e eu resolvemos fazer uma relação de grandes obras que já faturaram a Palma de Ouro. A nata da nata! Do brasileiro O Pagador de Promessas (1962) de Anselmo Duarte, passando por clássicos como A Doce Vida (1960), de Fellini, até chegar em obras atuais como Ventos da Liberdade (2006), do onipresente Ken Loach, a lista é só filmão. E tudo debatido com aquele clima bem humorado que vocês já estão acostumados. Bora dar play?


quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Cinemúsica - Carruagens de Fogo (Chariots of Fire)

De: Hugh Hudson. Com Ben Cross, Ian Charleson, Ian Holm e Cheryl Campbell. Drama, Reino Unido, 1981, 123 minutos.

Esse é um caso emblemático de filme que, para a história, é muito mais lembrado pela sua inesquecível trilha sonora, composta por Vangelis, do que por qualquer outro motivo. Aliás, muito provavelmente em uma lista com as maiores esquisitices da história do Oscar, a vitória de Carruagens de Fogo (Chariots of Fire) como Melhor Filme, segue como um dos maiores mistérios da maior cerimônia do cinema. Não há nenhuma explicação plausível. A obra é brega, conservadora, com uma mensagem meio ultrapassada que une apoteose esportiva com religião e que, na atualidade, soa apenas datada. Mas eram outros tempos, claro. A Academia evoluiria, deixaria de lado esse ideal do cinema como algo mais tradicional, que manda um afago para o cidadão médio. Só que ficou a música. Replicada, parodiada, imitada. Que surge em esquetes de humor, aberturas de formatura, palestras motivacionais de gosto duvidoso. E em qualquer evento esportivo, claro.

É a trilha sonora oficial de "alguém correndo em câmera lenta". Qualquer que seja o contexto. No filme de Hugh Hudson tudo acontece já na sequência inicial. Um bando de jovens correndo de pés descalços na beira da praia. A câmera vagarosa indo de um rosto a outro, entre sorrisos, caretas e expressões de sofrimento. A música evocativa de Vangelis, surge com sua batida hipnótica, que é invadida pelos sintetizadores grandiosos que fornecem uma espécie de transe para o espectador. Instantaneamente somos catapultados para um filme sobre atletismo. Que é baseado em fatos reais - e que narra a história das primeiras conquistas da equipe olímpica de corrida da Grã-Bretanha, nos Jogos de Paris, em 1924. O período é o entre-guerras. Há muita desconfiança de todos os lados - e até recusas a competir por motivos religiosos (o domingo, pelo visto não foi feito para colocar os tênis e para uma ida no parque).


Na trama somos apresentados a dois velocistas. Um deles, de nome Harold Abrahams (Ben Cross), é um filho de judeu que pretende provar a sua capacidade na corrida - a despeito da desconfiança da família, que possui uma confortável situação financeira. O outro é o devoto cristão Eric Lidell (Ian Charleson), um missionário escocês que acredita que a sua capacidade atlética nata é uma espécie de dádiva divina (e cabe a ele cumprir os desígnios de Deus em Terra, como forma de honrar a sua virtude). Da chegada a Universidade de Cambridge - com as primeiras e divertidas corridas -, até o chaveamento que lhes levará aos Jogos Olímpicos, ambos percorrem caminhos distintos. Lidell possui um talento natural, do qual se sobressai de forma espontânea. Já Abrahams contrata um treinador ítalo-árabe de nome Mussabini (Ian Holm), que também gera dissabores entre os católicos mais fervorosos, com a competição entre a dupla sendo o combustível para que ambos prossigam em seus objetivos.

Em meio a disputas entre eles, que envolvem ainda longos debates com os reitores da Universidade, com líderes religiosos e com familiares - muitos eles desgostosos com o conceito de prática de esportes como um ideal de vida -, o filme funciona como um pequeno libelo sobre triunfo e redenção, com o atletismo permeando a narrativa. E, nesse sentido, não deixa de ser soberbo o trabalho técnico de reconstrução das corridas, com toda a sua emoção, e que testa aqueles que acompanhamos até os seus limites físicos. Nesse sentido, se há alguma beleza em Carruagens de Fogo está na cruzada da dupla central que acaba por confrontar as instituições mais ortodoxas pelo bem do esporte. E sobre como a disputa saudável entre todos eles, se torna estímulo natural para todos os colegas da equipe britânica. Sim, hoje o filme é datado. Quase enfadonho. Mas a imagem de exaltação física e de competividade seguem inabaláveis. Assim como a trilha de Vangelis.

terça-feira, 3 de agosto de 2021

Cinema - Caros Camaradas (Dorogie Tovarishchi)

De: Andrey Konchalovskiy. Com: Yuliya Vysotskaya, Yuliya Burova e Andrei Gusev. Drama, Rússia, 2020, 119 minutos.

Se compreender os meandros políticos do nosso Brasil já não é tarefa fácil, imagina então os da antiga União Soviética. Ainda assim, os que se aventurarem a uma sessão do ótimo Caros Camaradas (Dorogie Tovarishchi) - o enviado da Rússia na categoria Filme em Língua Estrangeira no último Oscar - certamente serão recompensados. Há, pra começo de conversa, um fio condutor da narrativa, que culminará no episódio que ficou conhecido como Revolta de Novocherkassk - ocasião em que empregados de uma fábrica de construção de locomotivas entram em greve pelo fato de a comida estar a cada dia mais cara (e escassa), as condições de trabalho serem precárias e os salários estarem a míngua. O ano é 1962 e a promessa, com o Governo de Nikita Khrushchov, era o de criar um novo paradigma para o comunismo, muito mais distante da violenta herança estalinista que, com seu radicalismo - especialmente no que diz respeito às severas políticas agrárias -, acabaria levando milhares de pessoas à morte.

Só que os preços altos e o desabastecimento parecem estar batendo na porta. E os trabalhadores, no limite, avançam com o protesto. Que é reprimido de forma violenta pelo Exército Vermelho do Governo Soviético, com o apoio da KGB. O resultado? Vinte e seis pessoas mortas e outras 87 feridas pelas forças armadas de Khrushchov. E é aqui que entra o grande dilema da película: quando somos apresentados à uma certa Lyuda Semina (Yuliya Vysotskaya), percebemos logo que ela é uma saudosista de Stalin e que as correntes comunistas na Rússia podem ter várias vertentes. Como funcionária do Comitê do Partido Comunista ela atua de forma crítica ao Governo Khrushchov. Mais do que isso: tem saudade do período de bonança experimentado durante a Era Stalin. Por outro lado, sua filha Svetka (Yuliya Burova) representa o "outro lado" dessa equação. Como funcionária da fábrica se vê envolvida nas manifestações. E acaba desaparecendo após o massacre promovido pelo Governo. Para desespero da mãe que, com o coração "politicamente ferido", deve ir em busca do paradeiro da jovem.


Ao cabo, trata-se de um filme de forte teor político, que, em meio a discussões sobre a importância da greve e da sindicalização, faz lembrar clássicos como o nacional Eles Não Usam Black-Tie (1982) ou mesmo o ótimo alemão Adeus, Lênin (2003) - especialmente no que diz respeito à conduta antagônica de pais e filhos no debate político. Segura de suas convicções, Lyuda trafega entre gabinetes, comitês e outros setores ligados ao Partido Comunista, sem deixar de expressar o seu repúdio à massa trabalhadora (um coletivo que ela não hesita em taxar, preconceituosamente, de bêbados, vagabundos e outros adjetivos). "Antigamente as pessoas trabalhavam 16 horas ao dia e não reclamavam", argumenta em certa altura. Só que quando o comportamento extremista das forças de segurança do Governo a afetam diretamente, não lhe resta alternativa que não seja questionar as metodologias beligerantes aplicadas por Khrushchov. Aliás, ela mesma passa a ser perseguida, em certa altura.

Dura, árida, sem concessões, a obra do diretor Andrey Konchalovskiy utiliza a fotografia em preto e branco a seu favor - o que resulta em uma espécie de tributo ao conterrâneo Sergei Einsenstein que, em 1924, filmaria A Greve, outra obra-prima com título autoexplicativo. Lenta, de fluidez demorada, levemente introspectiva, a película chafurda nos meandros da podridão de uma política militarizada, em que o único recurso possível parece ser o uso da violência. Aliás, nesse sentido, por mais que faça a crítica ao modelo extremista de esquerda, o filme parece funcionar quase como uma distopia de um outro tempo, que se aplica ao momento que vivemos em nosso País - quando direitos são cassados, empregos são sucateados, trabalhadores são exauridos, sindicatos são suprimidos e a população como um todo se vê ameaçada. Há, no decorrer da narrativa, uma sequência quase simbólica desse tipo de falência, quando uma enfermeira é obrigada a assinar papéis que lhe obrigam a silenciar sobre os horrores presenciados no hospital, após o massacre. Esconder documentos, abafar verdades, burocratizar processos... o modus operandi, no fim das contas não muda. Independente do País que se esteja.
 
Nota: 8,0