segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Picanha em Série - Years and Years

De: Russel T. Davies. Com Emma Thompson Rory Kinnear, Jessica Hynes, Anne Reid e Russel Tovey. Drama / Ficção Científica, Grã Bretanha e Irlanda do Norte, 2019, 350 minutos.

É simplesmente impossível assistir a Years and Years e não pensar naquilo que estamos vivendo na atualidade, no Brasil, enquanto experiência democrática, política, social. De que maneira estamos rompendo com os limites que separam as esferas pública e privada para nos transformar em figuras individualistas, niilistas e intolerantes. Se para haver mal-estar na civilização é preciso haver civilização - como afirma o professor de psicanálise da USP, Rinaldo Voltolini -, a impressão que temos é a de que estamos nos esforçando ao máximo para romper com qualquer código moral, ético. Estamos doentes. Depressivos. Ansiosos. Sem forças para lutar contra um mal onipresente, que se infiltra em nossas vidas, que nos ataca. Que nos torna pessoas mesquinhas, infelizes. Trabalhamos em empregos cada vez mais precários. Não nos aposentamos. Estamos sem saúde, sem educação, sem perspectivas. Acreditando em algum tipo de salvação mágica que, sabe-se lá de onde pode vir, enquanto destruímos a nossa sanidade e a nossa capacidade de convivência.

Na primeira cena da série - coprodução entre BBC e HBO -, assistimos a uma política assombrada com a polarização, com o ódio ao diferente. Com a falta de diálogo. Verborrágica, se apresenta como alguém autêntica, que não tem papas na língua, que fala a voz do povo e que parece disposta a, de forma iconoclasta, romper o status quo. Quebrando a lógica de existência das instituições, cativa pelo espírito anárquico, pela política feita no "empurrão", na marra, as turras. Ninguém parece dar muita bola para ela, que discursa em meio a outras figuras políticas, no horário nobre inglês. Ela está e estará lá. Onipresente. Determinando o futuro daqueles que lhe assistem, em meio a letargia dos dias, em meio as preocupações mesquinhas - sejam elas as festas que estão por vir ou alguma nova tecnologia que permite facilitar as comunicações. A política em questão é uma certa Vivienne Rook (encarnada com paixão desmedida por Emma Thompson).


A família Lyons ainda não sabe, mas figuras políticas como Vivienne - e tantas outras ao redor do mundo - determinarão praticamente TUDO que ocorrerá em suas vidas pelos próximos 15 anos, a partir de 2019. Enquanto a série parece uma espécie de This Is Us, com uma avó e quatro netos, mais cônjuges (e bisnetos) sobrevivendo, tendo pequenos momentos de alegria familiar, se frustrando, ficando ansiosas ou brigando, o mundo se arrastará para um cenário de caos, de guerras, de falta de diálogo e de avanço tecnológico. De desemprego galopante, de crise imobiliária, de quebra de bancos e de precarização da vida. Se por um lado, alimentos sintéticos representarão alternativas para que recursos naturais não se esgotem, países conviverão com crises diplomáticas, com conservadorismo, com xenofobia, com Brexit. Enquanto Trump se reelege e Angela Merkel morre (sim, a série projeta isso para logo ali adiante), os anos vão passando. E passando e passando. Com o mundo ficando pior. Mais difícil. Mais separado. Mais injusto.

De forma magistral, a jornalista Eliane Brum escreveu recentemente um artigo chamado Doente de Brasil, em que atribuía o mal-estar de nossos dias a uma força que avança e nos enclausura, nos deixando psicologicamente letárgicos e politicamente paralisados. Em meio aos absurdos proferidos (e cometidos) pelo nosso presidente, às mentiras inacreditáveis, uma descrença generalizada na força das instituições e uma censura das atitudes que já vem na "fonte", antes de acontecer. Que nos abate. Nos enfraquece. E, assim aceitamos as reformas Trabalhista, da Previdência, o desemprego, o aumento de preços e todo o descalabro, na esperança por dias melhores que nunca chegam. Anos e anos em que nós mesmos tratamos de destruir aquele mínimo de democracia que talvez tenhamos gestado no passado. Years and Years de forma muitíssimo resumida é sobre isso. É sobre como nós mesmos nos massacramos com as nossas atitudes, sem nem perceber. Seja votando em uma Vivenne Rook, seja aceitando aquilo que nos é imposto permanecendo calado, com medo.


Vale destacar ainda que poucas série oferecerão tantos arcos dramáticos interessantes, com tão poucos episódios - são apenas seis. Enquanto algumas obras da Netflix são a mais pura encheção de linguiça, a atração de Russel T. Davies preenche cada uma de suas curvas com sequências intensas que nos fazem refletir, se emocionar e se embasbacar. A inserção da tecnologia - que a aproxima de uma Black Mirror beeem melhorada - nos faz perceber o quanto estamos próximos e distantes ao mesmo tempo. Há o choque geracional, mas há o cultural - como é o caso daquele que não permite a um imigrante atravessar uma fronteira. E, enquanto na esfera privada cada um de seus indivíduos se esforça em perceber quem são os culpados - irmão, pai, filho, avó -, ninguém percebe que se está diante de um mal maior. Um mal que desestabiliza a civilização. Que lhe leva ao limite, lhe suga e que lhe faz ter atitudes extremas que, no fim das contas, podem até simbolizar um respiro. É a melhor série de 2019. Simplesmente isso.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Novidades em Streaming - Bon Iver (Disco)

Arranjos delicados que se mesclam a ambientações eletrônicas e a um vocal que parece "grudado" às melodias invernais, ainda que aconchegantes. Desde sempre o trabalho de Justin Vernon como Bon Iver foi assim, ainda que a aproximação com os sintetizadores tenha se ampliado na experiência um tanto mais hermética de seu disco anterior - o ótimo 22, A Million, o nosso sexto colocado entre os melhores daquele ano. Em i,i, mais recente registro, o padrão se mantém, com cada composição sendo apresentada como um fragmento levemente caótico, que retira um pouco da melancolia doce dos primeiros trabalhos, para apostar em um folk mais desordenado. Ainda assim, em uma primeira impressão, o que nos parece é que Vernon "limpou" as arestas daquilo que foi testado no trabalho anterior, abrindo espaço para composições um pouco mais leves, com direito até mesmo a refrão - como comprova a graciosa Hey, Ma. Bora clicar e ouvir?



quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Disco da Semana - Karina Buhr (Desmanche)

Não sei como acontece para vocês, mas para este jornalista que vos tecla muitas das manifestações artísticas e culturais da atualidade funcionam como uma espécie de refúgio onde podemos encontrar disposição para a luta e para resistir a tudo que está aí. São muitos os absurdos e a vontade de gritar por vezes parece abafada, como se fôssemos invadidos por uma espécie de letargia propagada pelo entorno, pela falta de força, pela descrença generalizada nas instituições ou naqueles que nos governam. Bom, e aí restam a música, os livros, os filmes, as séries. Aquilo que, por vezes, parece colocar um pouco a nossa cabeça no lugar para que percebamos que não estamos sozinhos nesse mundo de trevas. E que pode haver algum fiapo de esperança em meio ao niilismo, a angústia e a desolação. Bom, o trabalho da artista Karina Buhr, desde sempre nos auxilia nesse processo - e com o recém-lançado Desmanche, não é diferente.

Essa percepção da artista como uma voz que ecoa o grito dos oprimidos em um contexto de ódio e intolerância não é algo observado apenas nas letras, mas também nas melodias eventualmente selvagens, caóticas, cruas. Como se na balbúrdia sonora pudesse estar representada a angústia de quem não se cala. Como se em cada guitarra mais nervosa, ou numa percussão mais animalesca, tribal, Karina surgisse como uma espécie de porta-voz que te resgata, que te reergue. Sim, a gente sabe que ouve música para se divertir, para descontrair. Mas a cantora parece saber que em tempos como os que vivemos - que legitimam, inacreditavelmente, o machismo e a homofobia pelo voto -, não dá pra ficar só no "tchurururu, como é lindo o seu amor". Ainda em 2017, quando do lançamento do furioso Selvática, seu trabalho anterior, Karina disse a revista Noize que "tudo o que faz na vida é no sentido de viver em paz e isso inclui o feminismo".


Daquela vez a artista apareceu sem camisa na capa do álbum e, bom, vocês podem imaginar a comoção que foi - com direito ao Facebook censurando a imagem que ilustrava o trabalho. "É ridículo ninguém poder ver peito de mulher sem ser num contexto de objetificação machista", comentou ela na mesma entrevista para a Noize. E se de lá para cá, com a eleição de Bolsonaro e com a desculpa da "polarização política" a opressão às mulheres só aumentou, nada mais natural do que a artista voltar com um disco que atualiza os temas que lhe são caros. E, assim, Desmanche, surge como um álbum de versos políticos, urgentes e de rápida compreensão. Basta ouvirmos a artista repetir como num mantra que o "Exército tá matador" na inaugural Sangue Frio, que já compreenderemos o seu propósito.

Alternando momentos mais "poéticos", caso de Amora, com outros de maior intensidade, como Temperos Destruidores, a compositora constrói um painel que resume a atualidade - com o sujeito trafegando no limite, amando, lutando, persistindo, trabalhando. Na grudenta Lama, uma batida regionalista, que lembra o manguebeat de Chico Science, o eu lírico suplica: De ação em ação vive a besta em cada um / Sem raiva padece nenhum. O expediente se repete em Filme de Terror que, em meio a citações a Alfred Hitchcock e a melancolia generalizada lembra: "Ânimo, valentia, coragem". Eventualmente herméticas, as letras se apresentam como pequenos fragmentos recheados por figuras de linguagem, metáforas, paródias. O óbvio não sendo o óbvio em meio ao caos estabelecido. Mas em meio à tanta secura, ainda há espaço para a esperança, como comprova a adocicada Peixes Tranquilos, quase ao final do registro. Uma obra forte, empoderada. E necessária.

Nota: 8,5

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Tesouros Cinéfilos - 3 Faces (Se Rokh)

De: Jafar Panahi. Com Jafar Panahi, Behnaz Jafari e Marziyeh Rezaei. Drama, Irã, 2018, 100 minutos.

Tá aí uma profissão que não deve ser nada fácil: ser diretor de cinema no Irã. E Jafar Panahi que o diga. Proibido de filmar desde 2010 em seu País de origem por, supostamente, utilizar a sua obra para criticar o Governo, o diretor tem feito verdadeiros malabarismos para seguir trabalhando. Em prisão domiciliar, o realizador também está impedido de deixar o Irã pelos próximos 20 anos. E o que ele fez diante da censura? Filmes. Como? Da maneira que deu, misturando metalinguagem e documentário, dramatizando não apenas a sua situação - que representa a de muitos artistas que são vigiados de perto pelos aiatolás -, mas também a da atrasada sociedade iraniana, machista, patriarcal, excessivamente conservadora e provinciana. E esse 3 Faces (Se Rokh) pode ser considerado a sua obra-prima, desde que a sua clausura, e a produção clandestina (e ainda mais provocativa), começou.

Nele, Panahi junta todos os elementos que têm feito o seu cinema recente: a economia, a mensagem que sai pelas frestas ou pelo não dito. As poucas palavras, mas que dizem muito. A imagem que surge avassaladora, poderosa, com grande investimento em planos-sequência, amplamente naturalistas. É o melhor "não cinema" que a gente pode assistir. Se Isso Não É Um Filme (2011) era o retrato do dia a dia de um diretor em cárcere privado (mas cheio de ideias) e Táxi Teerã (2013) era uma saborosa (e curiosa) experiência cinematográfica em que o diretor encarnava um taxista que recebia passageiros para uma discussão geral sobre as dificuldades socioculturais do País, 3 Faces é um misto de suspense com drama que dá conta do talento de um realizador que faz mais com menos. E que nem por isso deixar de enfiar o dedo na ferida, quebrando regras estabelecidas e usando a sua própria existência para a crítica ao status quo, à religiosidade beligerante e aos costumes ultrapassados.



A trama começa com uma filmagem amadora de uma jovem apaixonada por cinema, que pede socorro à famosa atriz Behnaz Jafari (interpretando a ela mesma) para fugir de sua família, que não aceita o estilo de vida que ela deseja levar - ser artista e não cumprir com o papel destinado às mulheres de seu vilarejo (casar, ter família, filhos, etc), no norte do Irã, seria motivo de desonra. O vídeo termina com um aparente suicídio: há uma corda, um tronco e um rochedo que sugere um lugar mais alto, ermo, além de uma filmagem confusa. Comovida com o material recebido, Jafari pede ajuda ao amigo Panahi (também ele mesmo) para descobrir o que de fato aconteceu. Assim, migram para o Norte do Irã, em busca de informações que possam levá-los ao vilarejo de onde partiu o material, tentando descobrir ainda se ele é real ou fruto de algum tipo de montagem ou manipulação.

No caminho, encontrarão diversos moradores das regiões remotas, o que escancarará uma série de contrastes. E de contradições também. Se por um lado, o irmão da jovem desaparecida não consegue suportar a ideia de ver a irmã enveredando para o lado das artes - provavelmente coisa de "vagabundo" que não tem Deus no coração -, por outro chega a comover o tratamento dado à Jafari, quando os locais percebem se tratar da atriz que está nas novelas em que consomem. Há respeito e admiração, mas há também mesquinharia, na ideia de que Jafari e Panahi poderiam resolver os problemas estruturais daquele local, ou que tivessem de ter um motivo maior para estar lá, que não apenas o de (tentar) salvar uma vida. É a admiração, seguida da chantagem, como na impagável sequência em que um morador local envia uma carta com um material bastante "peculiar" para que Jafari entregue a um outro ator - este, um sujeito que interpreta figuras duronas em filmes de ação.



Ainda que a película não demore em esclarecer o ocorrido, é preciso que se diga que ela é muito mais um eco de resistência do papel da mulher em uma sociedade amplamente machista. Se Jafari representa a realização alcançada, a jovem desaparecida é a luta contra um sistema que oprime, que agride, que não prevê a liberdade de pensamento, de ações. No filme dentro do filme, há também uma homenagem ao cinema: seja na "obra" da jovem suicida (que deixa o final em aberto), seja na ligação da mão de Panahi, que não quer que ele faça filmes para não ter problemas com o Governo (ele diz que ele não está fazendo), seja no esforço do próprio diretor em fazer uma obra de arte com poucos recursos - e ver Jafari lhe provocando sobre a existência de um "próximo filme" é um deleite. Com boas metáforas - a do boi no meio da estrada é uma das melhores -, a obra venceu o prêmio de Melhor Roteiro no último Festival de Cannes. Panahi não estava lá - está proibido de sair do País, como já dissemos. Mas a sua voz segue ecoando pelo mundo. Para a alegria dos cinéfilos.

Na Espera - The New Pornographers (Disco)

Uma das bandas mais legais do planeta, o The New Pornographers, anunciou na última sexta-feira (02/08), a chegada de seu oitavo registro de estúdio. Intitulado In The Morse Code Of Brake Lights, o álbum será lançado no dia 27 de setembro, dando continuidade a série de ótimos discos que misturam power pop e música alternativa - caso de Twin Cinema, que já figurou aqui no nosso Lado B Classe A. O single Falling Down the Stairs Of Your Smile é um recorte em que se percebem poucas mudanças em relação ao material entregue anteriormente, estando lá o refrão grudento, a melodia ensolarada e o clima festivo típico do coletivo canadense.


Em entrevistas e nos materiais de divulgação, AC Newman, que também produz o álbum, explica que esse é um disco sobre amor, mas não na acepção clássica da palavra. "É mais um disco sobre como você lida com as ideias de amor ou de felicidade em um mundo como este de agora, cheio de eventos atuais estressantes", resumiu, indicando ainda que o registro busca refletir sobre felicidade em um relacionamento, "em um mundo tão feio". A própria gravadora do coletivo, a Collected Work, lançará o trabalho em parceria com a Concord e nós, aqui no Picanha, já estamos Na Espera!

In the Morse Code of Brake Lights:

01 You’ll Need a Backseat Driver
02 The Surprise Knock
03 Falling Down the Stairs of Your Smile
04 Colossus of Rhodes
05 Higher Beams
06 Dreamlike and on the Rush
07 You Won’t Need Those Where You’re Going
08 Need Some Giants
09 Opening Ceremony
10 One Kind of Solomon
11 Leather on the Seat





segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Novidades em DVD - Rocketman (Rocketman)

De: Dexter Fletcher. Com Taron Egerton, Jamie Bell, Bryce Dallas Howard e Richard Madden. Drama / Musical, EUA / Grã-Bretanha / Irlanda do Norte, 2019, 120 minutos.

Se você colocar no sistema de busca do Youtube as palavras "Elton John oven manual song" você vai encontrar um dos vídeos mais divertidos da história da internet. Nele, o ator Richard E. Grant intima o astro da música pop a criar, do nada, no meio de uma entrevista, uma nova música tendo como matéria-prima o manual de instruções de seu novo forno elétrico. Sim, o MANUAL DE INSTRUÇÕES de um FORNO ELÉTRICO. Bom, o resultado é algo simplesmente inacreditável - e eu sinceramente adoraria que este vídeo já existisse com legendas em português. A capacidade de improviso de Elton nessa situação, serve pra dar conta de seu talento. Um talento que gerou um sem fim de grandes discos de rock and roll e uma quantidade inacreditável de hits capazes de tornar os seus shows de cerca de três horas de duração quase insuficientes, no que diz respeito a ideia de contemplar tanta música boa.

O Elton que se vê nesse vídeo é um artista animado, leve, divertido. Aliás, como vem sendo há quase 30 anos, período em que o astro está "limpo" - ou livre da dependência de álcool e de drogas mais pesadas, como a cocaína. Em Rocketman, como não poderia deixar de ser em uma cinebiografia de uma estrela tão retumbante quanto Elton John (Taron Egerton), estamos diante da clássica história de ascensão e queda. E de ascensão novamente. E de persistência. E de enfrentamento de preconceitos, claro. Em uma época (os anos 60) em que se declarar gay era quase um "crime inafiançável", o astro surge para o mundo da música com suas canções sensíveis mas potentes, reflexivas mas radiofônicas. Os figurinos ousados, festivos, chamativos, surgiriam mais tarde como forma de referendar o seu estilo. Para desgosto de sua família - pai e mãe ausentes, pouco amorosos, distantes -, e até de alguns de seus pares, que pareciam não acreditar no potencial de cada uma das criações ao piano do astro.


Mas o mundo não é feito só de familiares abjetos e de produtores desconfiados. Pra cada um desses, surgia um Bernie Taupin (Jamie Bell) disposto a contribuir. A dar sentido a cada uma das melodias mágicas de Elton. E a obra se ocupa de nos mostrar como essa parceria conturbada, mas cheia de amor, rendeu tantos bons frutos. E a nos mostrar as idas e vindas no tempo, as inseguranças do começo da carreira, a necessidade de ser aceito em seu meio, as frustrações com o mercado e com as pessoas. E assim é o filme do diretor Dexter Fletcher: uma história de um jovem de infância dificil, um talento nato, tendo de superar dificuldades, chegando ao limite, dando com a cara na porta. E nos entregando tantas canções maravilhosas, que duas horas de película não são suficientes para contemplar as suas criações.

O filme, por exemplo, nem chega musicalmente nos anos 90, ainda que I Want Love seja uma das primeiras músicas mostradas. O foco maior é na produção dos anos 70 e 80, com canções como Crocodile Rock, Goodbye Yellow Brick Road, Honky Cat, Your Song, Tiny Dancer e, claro, Rocket Man, sendo apresentadas de forma desordenada, mas com força, com coreografias descoladas, apaixonadas, vivas. Saturday Night Alright For Fighting, por exemplo, ganha número com Elton ainda no começo de carreira, como que conquistando o impulso necessário para levá-lo a um outro patamar. E, sinceramente, eu estou aqui escrevendo essa resenha cheia de palavras e de "análise detalhada", mas o filme é pura catarse. Elevação - assim como fazia Elton, se elevando ao piano como uma espécie de emanação mágica, mística, espiritual que pula e salta e frente a uma platéia despudorada, mas que também aconchega, afaga, acolhe.


Aliás, não é fácil escrever qualquer material sobre o teu artista preferido. Impossível não ser invadido pela paixão inflamada, ainda mais diante de uma obra com tantos predicados. Com Taron Egerton se empenhando em uma entrega comovente, assim como o restante do elenco. Com uma recriação de época fidedigna e com um tratamento sem endeusamento do biografado: se a primeira hora de filme é pura magia, música e dança, a segunda metade é a do baque, da porrada, da descida ladeira abaixo. Afinal, Elton John, um artista tão talentoso, também é gente como a gente: com dores, fraquezas, incertezas e anseios. E talvez por humanizar tanto uma figura que já seja tão humana, que esse filme acerta em cheio o coração de fãs e dos não fãs. É impossível não tamborilar os dedos. Não sorrir. E não se emocionar. Elton é puro carinho em cada apresentação que faz. Com os fãs. Com quem gosta dele. Ele faz uma música sobre um manual de instruções de um forno, se precisar. Porque ele já desceu até o fundo do poço e voltou. E é isso o que importa.

Nota: 9,5

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Cinema - Rafiki (Rafiki)

De: Wanuri Kahiu. Com Samantha Mugatsia, Sheyla Munyiva e Muthoni Gathecha. Drama, Quênia / África do Sul / Alemanha / França / Líbano / Noruega e Holanda, 2019, 82 minutos.

Só o fato de um filme do Quênia ter a ousadia de tratar da temática homossexual já seria o suficiente para que Rafiki (Rafiki) merecesse todo o crédito do mundo. Foi notícia alguns meses atrás o fato de que o Tribunal de Justiça do País africano decidiu por seguir considerando crime a união entre pessoas do mesmo sexo, podendo os "infratores" serem punidos com até 14 anos de prisão. Sim, enquanto em alguns países o mundo parece andar pra trás (alguém aí falou em Brasil?), em outros lugares parece meio difícil de se andar pra frente. Aliás, a situação em outros países africanos, caso do Sudão, por exemplo, é ainda mais absurda, com os réus podendo ser condenados até a morte. Bom, já disse isso no começo da resenha e repito: em um País em que as pessoas são presas por serem gays, um filme foi feito pra discutir o assunto. Não para provocar, mas para naturalizar o amor, para tentar demover as lideranças do absurdo de se condenar o público LGBTQI por simplesmente ser quem é.

Bom, não adiantou muito. Rafiki foi proibido no Quênia. Ao invés de orgulho por uma película bem executada, cheia de paixão, de cores e de música, ainda que com uma ou outra deficiência técnica, o desprezo. O desprezo, como certamente ocorre aqui no Brasil, por aqueles que abominam as artes e o que elas representam enquanto oportunidade para que se quebre o status quo, se questione aquilo que se está estabelecido e se incomode. O filme não tem nada de diferente em relação a qualquer outros que tenha a temática LGBTQI. Nada. Ao contrário, é até bastante econômico e sensível ao mostrar a impossível relação entre Kena (Samantha Mugatsia) e Ziki (Sheyla Munyiva). Não há nudez, não há beijos quentes e sexo intenso. Há apenas o que se insinua, que se está guardado para os olhares, para os sorrisos, para um silêncio capaz de preencher muito mais do que um amontoado de palavras.


Em si a história até parte de um clássico clichê: Kena e Ziki são filhas de dois homens que são adversários políticos na cidade em que moram. O pai de Ziki parece ser bastante conservador, religioso, temente à Deus. Já o pai de Kena parece ser levemente mais progressista, está separado e esperando um filho com a sua segunda esposa. De qualquer maneira, a aproximação entre as jovens representará um baque para todos, descortinando uma série de cenas de violência, de agressões e de dores não apenas físicas, mas da alma. Impossível tentar imaginar como é amar alguém e não poder manifestar isso na rua, na frente de todo mundo. Não poder pegar na mão, dar um beijo carinhoso, afagar os cabelos, abraçar com firmeza e ternura, sem estar sendo julgado e imediatamente condenado. Aliás, a sociedade que julga e condena é representada no filme pela personagem Mama Atim (Muthoni Gathecha), a fofoqueira do bairro.

Como não poderia deixar de ser é uma obra dura, ainda que extremamente poética, valendo-se ainda de contrastes para reforçar aquilo que pretende. Como exemplo, é interessante notar como a cidade surge como um amontoado de prédios cinzento e sem vida, ao passo que Kena e Ziki, com suas roupas e acessórios multicoloridos, surgem como uma representação da África viva, apaixonada, vibrante. O mesmo vale para rica trilha sonora composta por ritmos como o trap e o hip hop, que surgem como a antítese da Igreja dura, quadrada, parada e de seu pastor disposto à inquirir jovens que estão florescendo, descobrindo o amor, vivendo. Nas imperfeições técnicas de uma cãmera mal ajustada ou de uma edição de som que coloca voz nas personagens mesmo que elas não mexam a boca, o charme de um filme que desafia, que pulsa, que ama. É a resistência, mas com a guarda baixa, carinhosa, gentil, diante dos punhos, das armas, da violência em um mundo que, a cada dia, parece mais atrasado, mais parado no tempo e mais distante de um ideal de justiça social e de respeito às diferenças.

Nota: 8,0


Na Espera - O Farol (Filme)

Causou burburinho nessa semana, o lançamento do trailer aguardado segundo filme do diretor Robert Eggers - do elogiado A Bruxa (2016). Intitulada O Farol (The Lighthouse), a obra reúne Willem Dafoe e Robert Pattinson em uma trama de paranoia, claustrofobia e loucura. Pelo material de divulgação, é possível saber que o tal farol do título está situado em uma ilha isolada na Nova Inglaterra, no final do século XIX. No local trabalha Thomas (Dafoe), que contrata o jovem Ephraim (Pattinson) para substituir o ajudante anterior e colaborar nas tarefas diárias.


Só que o faro é mantido fechado ao novato, que se torna a cada dia mais curioso sobre o que poderia haver dentro desse espaço. Será no jogo de provocações e de palavras entre esses homens que parecerá residir uma das forças da película - ao menos é o que se pode depreender do trailer, que é bastante sombrio e lindamente fotografado em preto e branco. Serão os inevitáveis fenômenos estranhos que eles presenciarão apenas frutos da imaginação? A obra estreia por aqui no dia 31 de outubro de 2019 e, como de praxe, já estamos Na Espera.