quinta-feira, 21 de setembro de 2017
Lançamento de Videoclipe - Alvvays (Dreams Tonite)
Com Antisocialites, os simpaticíssimos canadenses do Alvvays lançaram um dos registros mais divertidos do semestre - e que, certamente, deverá figurar em diversas listas de melhores do ano. Pegajoso, grudento e ensolarado, o álbum - que dá continuidade ao homônimo primeiro disco, de 2014 - é um verdadeiro caldeirão de referências pop capaz de dialogar tanto com o lo-fi empoeirado de bandas dos anos 90 quanto com os sintetizadores urgentes e certeiros, muito utilizados por artistas dos anos 80. Como forma de divulgar o trabalho, o quinteto comandado pela cantora Molly Rankin lançou, na última semana um clipe para a canção Dreams Tonite. Multicolorido, o vídeo traz uma mescla de imagens da banda com outras de uma feira realizada em Montreal, no ano de 1967. Bora conferir?
Disco da Semana - Foo Fighters (Concrete and Gold)
Em época de Rock In Rio, muito se ouve falar "cadê o rock no festival?". É uma pergunta que pode ser ampliada para além do espectro do evento que está sendo realizado no Rio de Janeiro. Cadê o rock? Onde ele se esconde? Como vive? De espírito transgressor e anárquico num passado ainda recente, hoje, o rock parece relegado a ser escutado por aquele seu tiozão cheirando a naftalina que, nas mesas de domingo, se regojiza das "novidades políticas" por aí apresentadas, deixando transbordar um indelével espírito reacionário, intolerante e conservador. Sim, hoje o rock parece muito mais datado do que qualquer outra vertente - e sujeitos de ideias anacrônicas como o Lobão e o Roger Moreira (aquele do Ultraje a Rigor, caso você não esteja ligando o nome a pessoa) contribuem e muito para essa impressão. Com tanta música boa e plural o rock parece, enfim, agonizar.
Não por acaso, grandes figuras do mundo da música, com ideias muito mais modernas, revigorantes e adequadas aos tempos em que vivemos - como por exemplo, a cantora Lady Gaga -, possuem uma atitude muito mais rock and roll do que qualquer outro desses que empunha(va) uma guitarra, como se fazer barulho com tal instrumento, representasse um tipo de subversão última, que faria corar os fãs do Bolsonaro, da panela ou da camisetinha da CBF. Aliás, vejam só, normalmente esses caras SÃO FÃS do Bolsonaro, da panela e da camisetinha da CBF. Ou você acha que reaça ouve funk? Ouve eletronices cheias de loops e sintetizadores? Ou abre o Spotify pra ouvir o Liniker? Não é regra, mas experimente observar isso no seu círculo de amizades. O Lemmy Kilmister, finado ex-vocalista do Motörhead, mantinha em sua casa um bizarro museu de objetos nazistas. Aliás, ele usava quepes com imagens de suásticas nos shows da banda. Nada de novo, então.
Bom, posto todo esse preâmbulo, será que o rock ainda tem salvação? Será que eu estou exagerando nessa minha resenha bem meia-boca? Será que alguma banda (ou algumas) ainda conseguem imprimir o espírito que já nos trouxe ao mundo sujeitos como Jimi Hendrix, David Bowie ou John Lennon? Bom, o causo é que, para o bem ou para o mal, talvez o Foo Fighters (pasme) ainda seja essa banda. Afinal de contas, Dave Grohl e companhia poucas vezes fizeram um rock tão certeiro, tão visceral, tão ao mesmo tempo pesado e pop como no mais recente registro Concrete and Gold. E o melhor de tudo: em praticamente todas as entrevistas prévias, o vocalista Dave Grohl fez duras críticas ao misógino e xenófobo governo Trump, transformando a chegada deste nono trabalho em uma espécie de pequeno líbelo para uma América desesperançosa, pessimista e afundada em um sistema político que privilegia poucos. (e que, para nós brasileiros, é impossível não se identificar)
"Estamos de frente a um sujeito que tem um claro desprezo pelo futuro do meio ambiente e pelos direitos das mulheres, diplomaticamente... Eu tenho três filhas que vão viver mais décadas do que eu - como elas vão continuar se não há nenhuma mudança positiva ou progressista?" comentou Grohl em entrevista recente à revista britânica Kerrang. As preocupações com o sistema político adotado pelo líder da mais importante nação do mundo também estão nas letras das canções do novo disco. Mind is a battlefield / All hope is gone (a mente é um campo de batalha / toda a esperança se foi) canta o vocalista no single niilista The Sky is a Neighbourhood. O expediente se repete em outras, como no grudento hit Run - I need some space to breathe / You can stay asleep / If you wanted to (Eu preciso espaço pra respirar / Você pode ficar adormecido / Se você quiser).
Representando ainda uma natural evolução desde o dispensável álbum anterior (o conceitual e fraco Sonic Highways), o Foo Fighters, com Concrete and Gold, volta a se reposicionar como uma das mais relevantes bandas de rock da atualidade, talvez ao lado do Queens Of The Stone Age. (e, não por acaso, ambas as bandas excursionarão juntas no próximo ano, com direito a parada em Porto Alegre) Equilibrando ainda momentos mais pesados e roqueiros (como no petardo La Dee Da) com outras mais intimistas e sutis (como no caso da excelente Dirty Water) Grohl e companhia nos lembram que, no fim das contas, esse estilo musical tão maltratado hoje em dia, ou mesmo tão alinhado a idéias retrógradas de um passado que insiste em reaparecer, ainda está aí para que todos possam se divertir. Petralhas, coxinhas, reacionários, progressistas. Se puder ser em um mundo com menos Trump, menos Bolsonaro, menos ódio, intolerância e preconceito de todos os tipos, ou mesmo com mais empatia e respeito as diferenças - bem a moda do espírito questionador ligado a essa vertente, no passado -, ainda melhor!
Nota: 7,9
Não por acaso, grandes figuras do mundo da música, com ideias muito mais modernas, revigorantes e adequadas aos tempos em que vivemos - como por exemplo, a cantora Lady Gaga -, possuem uma atitude muito mais rock and roll do que qualquer outro desses que empunha(va) uma guitarra, como se fazer barulho com tal instrumento, representasse um tipo de subversão última, que faria corar os fãs do Bolsonaro, da panela ou da camisetinha da CBF. Aliás, vejam só, normalmente esses caras SÃO FÃS do Bolsonaro, da panela e da camisetinha da CBF. Ou você acha que reaça ouve funk? Ouve eletronices cheias de loops e sintetizadores? Ou abre o Spotify pra ouvir o Liniker? Não é regra, mas experimente observar isso no seu círculo de amizades. O Lemmy Kilmister, finado ex-vocalista do Motörhead, mantinha em sua casa um bizarro museu de objetos nazistas. Aliás, ele usava quepes com imagens de suásticas nos shows da banda. Nada de novo, então.
Bom, posto todo esse preâmbulo, será que o rock ainda tem salvação? Será que eu estou exagerando nessa minha resenha bem meia-boca? Será que alguma banda (ou algumas) ainda conseguem imprimir o espírito que já nos trouxe ao mundo sujeitos como Jimi Hendrix, David Bowie ou John Lennon? Bom, o causo é que, para o bem ou para o mal, talvez o Foo Fighters (pasme) ainda seja essa banda. Afinal de contas, Dave Grohl e companhia poucas vezes fizeram um rock tão certeiro, tão visceral, tão ao mesmo tempo pesado e pop como no mais recente registro Concrete and Gold. E o melhor de tudo: em praticamente todas as entrevistas prévias, o vocalista Dave Grohl fez duras críticas ao misógino e xenófobo governo Trump, transformando a chegada deste nono trabalho em uma espécie de pequeno líbelo para uma América desesperançosa, pessimista e afundada em um sistema político que privilegia poucos. (e que, para nós brasileiros, é impossível não se identificar)
"Estamos de frente a um sujeito que tem um claro desprezo pelo futuro do meio ambiente e pelos direitos das mulheres, diplomaticamente... Eu tenho três filhas que vão viver mais décadas do que eu - como elas vão continuar se não há nenhuma mudança positiva ou progressista?" comentou Grohl em entrevista recente à revista britânica Kerrang. As preocupações com o sistema político adotado pelo líder da mais importante nação do mundo também estão nas letras das canções do novo disco. Mind is a battlefield / All hope is gone (a mente é um campo de batalha / toda a esperança se foi) canta o vocalista no single niilista The Sky is a Neighbourhood. O expediente se repete em outras, como no grudento hit Run - I need some space to breathe / You can stay asleep / If you wanted to (Eu preciso espaço pra respirar / Você pode ficar adormecido / Se você quiser).
Representando ainda uma natural evolução desde o dispensável álbum anterior (o conceitual e fraco Sonic Highways), o Foo Fighters, com Concrete and Gold, volta a se reposicionar como uma das mais relevantes bandas de rock da atualidade, talvez ao lado do Queens Of The Stone Age. (e, não por acaso, ambas as bandas excursionarão juntas no próximo ano, com direito a parada em Porto Alegre) Equilibrando ainda momentos mais pesados e roqueiros (como no petardo La Dee Da) com outras mais intimistas e sutis (como no caso da excelente Dirty Water) Grohl e companhia nos lembram que, no fim das contas, esse estilo musical tão maltratado hoje em dia, ou mesmo tão alinhado a idéias retrógradas de um passado que insiste em reaparecer, ainda está aí para que todos possam se divertir. Petralhas, coxinhas, reacionários, progressistas. Se puder ser em um mundo com menos Trump, menos Bolsonaro, menos ódio, intolerância e preconceito de todos os tipos, ou mesmo com mais empatia e respeito as diferenças - bem a moda do espírito questionador ligado a essa vertente, no passado -, ainda melhor!
Nota: 7,9
terça-feira, 19 de setembro de 2017
Grandes Cenas do Cinema - A Um Passo da Eternidade (From Here to Eternity)
Filme: A Um Passo da Eternidade
Cena: Um beijo romântico na beira da praia
Ganhadora de oito estatuetas do Oscar (entre elas a de Melhor Filme) na edição de 1954, a obra A Um Passo da Eternidade (From Here to Eternity), do diretor Fred Zinnemann, é, atualmente, considerada datada. Ainda que conte com grandes interpretações de todo o elenco de protagonistas, a história de um grupo de soldados de uma base militar no Hawaí, as vésperas do ataque militar a Pearl Harbor, parece parada em um tempo em que mais importante do que que qualquer virtuosismo artístico, era exorcizar os traumas e as feridas relativas à Segunda Guerra Mundial. O que talvez explique o carinho dos americanos (sempre patriotas) em relação a película - ainda que, nunca seja demais lembrar, que, para aquela época, temas como adultério, abuso de poder e prostituição, representavam novidades em alguma medida impactantes e que traziam, por que não, algum frescor para o cinema.
Ainda que sofra do mesmo "problema", a clássica sequência que mostra os personagens de Burt Lancaster e Deborah Kerr rolando na areia da praia em um beijo acalorado, até hoje se mantém como uma das mais românticas da história do cinema, sendo lembrada e parodiada por diversos outros filmes e séries. Na trama Lancaster é o sargento Milton Warden, um homem de caráter que não hesita em se aproximar da Sra. Holmes, esposa de seu superior, mas que vive um casamento de aparências e de mentiras. Se o adultério é um componente capaz de dar outro sentido à cena protagonizada pela dupla, a atitude de Warden diante de outro personagem - no caso o trompetista e ex-boxeador Prewitt (um magnético Montgomety Clift) -, é o que faz com que torçamos descaradamente por este amor proibido. O que, inegavelmente, faz com que a sequência passe da surpresa para o deleite em poucos segundos.
Por se negar a lutar boxe para a equipe de seu batalhão, Prewitt é constantemente humilhado pelos seus colegas, encontrando alento não apenas nas atitudes amistosas de Warden, mas também na amizade de Maggio (Frank Sinatra em um grande papel coadjuvante) e no "amor" da prostituta Lorene, em interpretação comovente de Donna Reed. E se Ernest Bornigne está inesquecível na pele do inescrupuloso sargento Fatso é no toque absolutamente realista que a película de Zinnemann ainda mantém boa parte de sua força - chegando a ser surpreendente a violência apresentada ao espectador em seu terceiro ato. Com boa fotografia e trilha sonora magnética, a obra conta com outras sequências memoráveis - como a cena de luta envolvendo Fatso e Prewitt. Mas o beijo, ao mesmo romântico e lascivo em meio a paisagem litorânea, capaz de resumir o sentimento de plenitude de ambas as personagens, é o que torna esta obra verdadeiramente inesquecível.
Cena: Um beijo romântico na beira da praia
Ganhadora de oito estatuetas do Oscar (entre elas a de Melhor Filme) na edição de 1954, a obra A Um Passo da Eternidade (From Here to Eternity), do diretor Fred Zinnemann, é, atualmente, considerada datada. Ainda que conte com grandes interpretações de todo o elenco de protagonistas, a história de um grupo de soldados de uma base militar no Hawaí, as vésperas do ataque militar a Pearl Harbor, parece parada em um tempo em que mais importante do que que qualquer virtuosismo artístico, era exorcizar os traumas e as feridas relativas à Segunda Guerra Mundial. O que talvez explique o carinho dos americanos (sempre patriotas) em relação a película - ainda que, nunca seja demais lembrar, que, para aquela época, temas como adultério, abuso de poder e prostituição, representavam novidades em alguma medida impactantes e que traziam, por que não, algum frescor para o cinema.
Ainda que sofra do mesmo "problema", a clássica sequência que mostra os personagens de Burt Lancaster e Deborah Kerr rolando na areia da praia em um beijo acalorado, até hoje se mantém como uma das mais românticas da história do cinema, sendo lembrada e parodiada por diversos outros filmes e séries. Na trama Lancaster é o sargento Milton Warden, um homem de caráter que não hesita em se aproximar da Sra. Holmes, esposa de seu superior, mas que vive um casamento de aparências e de mentiras. Se o adultério é um componente capaz de dar outro sentido à cena protagonizada pela dupla, a atitude de Warden diante de outro personagem - no caso o trompetista e ex-boxeador Prewitt (um magnético Montgomety Clift) -, é o que faz com que torçamos descaradamente por este amor proibido. O que, inegavelmente, faz com que a sequência passe da surpresa para o deleite em poucos segundos.
Por se negar a lutar boxe para a equipe de seu batalhão, Prewitt é constantemente humilhado pelos seus colegas, encontrando alento não apenas nas atitudes amistosas de Warden, mas também na amizade de Maggio (Frank Sinatra em um grande papel coadjuvante) e no "amor" da prostituta Lorene, em interpretação comovente de Donna Reed. E se Ernest Bornigne está inesquecível na pele do inescrupuloso sargento Fatso é no toque absolutamente realista que a película de Zinnemann ainda mantém boa parte de sua força - chegando a ser surpreendente a violência apresentada ao espectador em seu terceiro ato. Com boa fotografia e trilha sonora magnética, a obra conta com outras sequências memoráveis - como a cena de luta envolvendo Fatso e Prewitt. Mas o beijo, ao mesmo romântico e lascivo em meio a paisagem litorânea, capaz de resumir o sentimento de plenitude de ambas as personagens, é o que torna esta obra verdadeiramente inesquecível.
segunda-feira, 18 de setembro de 2017
Lançamento de Videoclipe - Lana Del Rey (White Mustang)
É provável que, com o disco Lust For Life - sério candidato a figurar nas listas de melhores de 2017 - a cantora Lana Del Rey tenha atingido o ápice do estilo retrô/enfumaçado/weirdromance, que teve início ainda em 2011, com a chegada de seu primeiro registro, Born To Die. Como se escutá-la já não fosse um exercício absolutamente saboroso, os seus videoclipes costumam ser um deleite, sempre trafegando no limite entre os excessos etéreos e uma certa energia pop. No mais recente, para a ótima canção White Mustang, ela aparece entre idas e vindas com um rapaz de quem ela, aparentemente, tenta chamar a atenção. Tudo em um clima meio futurista, Do mesmo disco também já receberam vídeos as imperdíveis Love e a faixa-título, que conta com a participação do The Weeknd. Bora conferir!
quinta-feira, 14 de setembro de 2017
Disco da Semana - Maglore (Todas as bandeiras)
Quando terminamos a audição do mais recente disco dos baianos do Maglore, intitulado Todas as Bandeiras, ficamos com o refrão da última canção na cabeça - a música se chama Valeu, Valeu. Grudado como se fosse uma espécie de mantra, permanecemos com aquele valeu, valeu, valeu, valeu, valeeeeeeeeeeeu rodando em loop quase infinito em nossa mente, o que faz com que nós mesmos pensemos em todos os eventos do dia a dia que nos ocorrem, bons ou ruins, e que, no fim das contas, nos farão fortalecer, fazer crescer e encarar o dia seguinte com disposição. Parece papo de autoajuda, mas não. É só uma forma de lembrar que valeu. Valeu mesmo, valeu por tudo. Valeu por existir uma banda como vocês, Maglore, talentosa, cheia de grandes músicos e boas composições. Valeu por nos permitir escutá-los e, a cada audição, querer ouvir mais e mais por que, afinal de contas, esse é o famoso caso do "discão da porra".
Como se não fosse possível qualificar ainda mais aquilo que já estava sendo muito bem feito, o quarteto atualmente formado por Teago Oliveira (voz e guitarra), Lelo Brandão (guitarra, teclado e voz), Felipe Dieder (bateria) e Lucas Oliveira (baixo e voz) encontra no limite entre o rock alternativo e a MPB a matéria-prima para mais dez composições feitas sem firulas, com ótimas melodias, grandes refrões e letras valiosas. Se no registro anterior intitulado III (2015) - "casa" de canções maravilhosas, como Ai, Ai, Dança Diferente, Mantra e Se Você Fosse Minha - parecia haver um permanente ar de "melancolia psicodélica" aqui e ali - talvez até resultado de uma sutileza maior -, agora o grupo pontua o trabalho com arranjos e outros elementos multicoloridos e ensolarados. E que são capazes de, em muitos casos, formar uma mistura de referências que, propositais ou não, nos jogam diretamente para os anos 80 de bandas como The Smiths e Paralamas do Sucesso.
Só que a inspiração oitentista, é preciso que se diga, jamais transforma Todas as Bandeiras em um produto anacrônico, ou mesmo deslocado de seu tempo. Muito pelo contrário, se a guitarrinha efervescente de uma música como Clonazepam 2mg - terceira do registro - nos faz lembrar o ska praiano feito por Herbert Vianna e companhia na década já citada, a letra cheia de personalidade e o estilo próprio do grupo se sobressaem em cada curva da melodiosa canção, transformando-a em candidata instantânea a hit. A letra da mesma música - O mundo muda e isso não dói / Talvez goste de ser diferente / Mas é normal / Dor de Amor e contas pra vencer - também atualiza os temas preferidos do quarteto (relacionamentos, vida cotidiana e urbana, sujeito e rotina), sem ignorar o mal-estar da pós-modernidade fruto de uma sociedade individualista e hedonista.
E se no irrepreensível segundo álbum - intitulado Vamos Pra Rua (2013) - a banda já flertava levemente com os temas políticos, agora, mais segura de si, se sente mais à vontade para fazer a crítica ao contexto ao qual está inserida. Conservar a força / Que faça crer que o futuro será nosso amigo / A mesma força / Que tem o grito do tigre quando corre perigo, canta o eu lírico na saborosíssima Aquela Força que instiga o ouvinte a se manter de cabeça erguida, mesmo num cenário de crise e de descrença. Outras, como a música título são ainda mais diretas - É toda vez vê que a gente morre / E a gente morre / E a gente morre / E eles põem a culpa toda na cabeça de quem tem que morrer / Mas depois tem que limpar o chão.
Curioso notar que, mesmo nas canções mais pesadas, o clima positivo, ao mesmo tempo urbano e primaveril, urgente e reflexivo se mantém, formando um todo ao mesmo tempo homogêneo e multifacetado. Jogue Tudo Fora, por exemplo, é capaz de tornar leve e divertido um caso de separação. O mesmo vale para Eu Consegui que, com temática semelhante e cadência de "quase samba", versa sobre a fossa, resultado da perda de um grande amor. Pequeno em tamanho - são apenas 37 minutos e 10 canções - o registro é extremamente representativo da evolução do quarteto que, chegando apenas ao quarto registro, se posiciona como uma das mais inventivas e interessantes bandas nacionais. Quem não estiver familiarizado com o grupo, certamente encontrará em Todas as Bandeiras uma excelente porta de entrada, com o seu clima absolutamente jovial, ainda que totalmente maduro. Um disco imperdível. Valeu. Mesmo.
Nota: 9,0
Como se não fosse possível qualificar ainda mais aquilo que já estava sendo muito bem feito, o quarteto atualmente formado por Teago Oliveira (voz e guitarra), Lelo Brandão (guitarra, teclado e voz), Felipe Dieder (bateria) e Lucas Oliveira (baixo e voz) encontra no limite entre o rock alternativo e a MPB a matéria-prima para mais dez composições feitas sem firulas, com ótimas melodias, grandes refrões e letras valiosas. Se no registro anterior intitulado III (2015) - "casa" de canções maravilhosas, como Ai, Ai, Dança Diferente, Mantra e Se Você Fosse Minha - parecia haver um permanente ar de "melancolia psicodélica" aqui e ali - talvez até resultado de uma sutileza maior -, agora o grupo pontua o trabalho com arranjos e outros elementos multicoloridos e ensolarados. E que são capazes de, em muitos casos, formar uma mistura de referências que, propositais ou não, nos jogam diretamente para os anos 80 de bandas como The Smiths e Paralamas do Sucesso.
Só que a inspiração oitentista, é preciso que se diga, jamais transforma Todas as Bandeiras em um produto anacrônico, ou mesmo deslocado de seu tempo. Muito pelo contrário, se a guitarrinha efervescente de uma música como Clonazepam 2mg - terceira do registro - nos faz lembrar o ska praiano feito por Herbert Vianna e companhia na década já citada, a letra cheia de personalidade e o estilo próprio do grupo se sobressaem em cada curva da melodiosa canção, transformando-a em candidata instantânea a hit. A letra da mesma música - O mundo muda e isso não dói / Talvez goste de ser diferente / Mas é normal / Dor de Amor e contas pra vencer - também atualiza os temas preferidos do quarteto (relacionamentos, vida cotidiana e urbana, sujeito e rotina), sem ignorar o mal-estar da pós-modernidade fruto de uma sociedade individualista e hedonista.
E se no irrepreensível segundo álbum - intitulado Vamos Pra Rua (2013) - a banda já flertava levemente com os temas políticos, agora, mais segura de si, se sente mais à vontade para fazer a crítica ao contexto ao qual está inserida. Conservar a força / Que faça crer que o futuro será nosso amigo / A mesma força / Que tem o grito do tigre quando corre perigo, canta o eu lírico na saborosíssima Aquela Força que instiga o ouvinte a se manter de cabeça erguida, mesmo num cenário de crise e de descrença. Outras, como a música título são ainda mais diretas - É toda vez vê que a gente morre / E a gente morre / E a gente morre / E eles põem a culpa toda na cabeça de quem tem que morrer / Mas depois tem que limpar o chão.
Curioso notar que, mesmo nas canções mais pesadas, o clima positivo, ao mesmo tempo urbano e primaveril, urgente e reflexivo se mantém, formando um todo ao mesmo tempo homogêneo e multifacetado. Jogue Tudo Fora, por exemplo, é capaz de tornar leve e divertido um caso de separação. O mesmo vale para Eu Consegui que, com temática semelhante e cadência de "quase samba", versa sobre a fossa, resultado da perda de um grande amor. Pequeno em tamanho - são apenas 37 minutos e 10 canções - o registro é extremamente representativo da evolução do quarteto que, chegando apenas ao quarto registro, se posiciona como uma das mais inventivas e interessantes bandas nacionais. Quem não estiver familiarizado com o grupo, certamente encontrará em Todas as Bandeiras uma excelente porta de entrada, com o seu clima absolutamente jovial, ainda que totalmente maduro. Um disco imperdível. Valeu. Mesmo.
Nota: 9,0
quarta-feira, 13 de setembro de 2017
Tesouros Cinéfilos - Caiu do Céu (Millions)
De: Danny Boyle. Com Alex Etel, Lewis Owen, James Nesbitt e Daisy Donovam. Comédia dramática / Fantasia, EUA, Reino Unido, 2004, 97 minutos.
O diretor Danny Boyle já fez tantas obras marcantes e distintas - Trainspotting (1996), Quem Quer Ser Um Milionário (2008) e 127 Horas (2010), só para citar algumas - que o singelo Caiu do Céu (Millions) até parece uma nota menor dentro da sua filmografia. Mas só parece, já que é absolutamente impossível permanecer alheio ou não se sentir tocado pela história dos dois irmãos que "encontram" uma mala de dinheiro com mais de duzentas mil libras esterlinas, próxima de um trilho de trem, apenas uma semana antes de a moeda inglesa corrente passar a ser o Euro. A história simples, edificante, leve e divertida, ainda que pudesse soar excessivamente demagógica no que diz respeito ao uso do dinheiro, acaba por nos emocionar de forma absolutamente naturalista, sem forçação, despertando em que assiste sentimentos relacionados a empatia, a generosidade e o espírito filantrópico. E que, no fim das contas, possibilitarão sonhar com uma vida mais harmoniosa em sociedade. Sim, em tempos de ódio, preconceito e intolerância, "sonhar" é a palavra.
O clima de "aventura infanto-juvenil" é reforçado pelo divertido fato de os irmãos terem personalidades absolutamente distintas. Enquanto Anthony (Lewis Owen) adota uma postura pragmática e até mesmo ambiciosa diante da situação - ele sempre está pensando diversas maneiras de, particularmente, se beneficiar da pequena fortuna, utilizando até mesmo a morte da mãe para se favorecer -, Damian (Alex Etel), com uma bondade quase inacreditável para um menino de apenas sete anos, está sempre analisando de que forma poderá beneficiar outras pessoas com o dinheiro, não hesitando em entregar parte dos recursos para causas sociais, para vizinhos mais pobres ou mesmo para amigos que terão o seu silêncio comprado. E essas diferenças de comportamento resultarão, inegavelmente, em alguns dos momentos mais engraçados da história - especialmente aqueles em que Anthony demonstra insatisfação diante da generosidade do irmão.
Ainda que pudesse soar como um elemento deslocado dentro do roteiro, o componente religioso - Damian recebe a visita de diversas entidades, santos e outros personagens bíblicos - serve apenas para reforçar o caráter fantasioso da película. Condição ampliada por outros eventuais exageros visuais e que contribuem para a constituição de um contexto lúdico e quase onírico da obra - repare como a mala de dinheiro que cai próxima dos meninos, quica de uma maneira totalmente irreal! Utilizando ainda uma paleta de cores totalmente diversificada, o diretor de fotografia Anthony Mantle é capaz de utilizar tonalidades mais quentes nas cenas que envolvem o amoroso pai dos meninos (o talentoso James Nesbitt) para, no instante seguinte, utilizar uma coloração mais saturada, em uma sequência que apresenta um flashback envolvendo a origem do dinheiro. (aliás, repare como este estilo de cores seria utilizado novamente mais tarde em Quem Quer Ser Um Milionário?, uma vez que Mantle retornaria para colaboração com Boyle também neste filme)
Com diálogos rápidos e divertidos, como no caso da cena da escola em que os meninos falam sobre os seus "heróis", sendo que a maioria deles são jogadores de futebol de algum clube de Manchester, a obra não poupa o espectador de momentos tocantes, como no caso do surpreendente reencontro dos meninos com a falecida mãe, em uma das sequências mais arrebatadoras da obra. E, como o filme é narrado pelo pequeno protagonista, é ele quem decidirá os rumos da história, que envolverão ainda a presença de uma assistente social (vivida pela atriz Daisy Donovan). E, como se não bastasse o deleite visual e o clima de feel good movei da película, o espectador ainda é arrebatado por uma sequência final ao som de Nirvana, do grupo new age Il Bosco, que está para sempre eternizada no coração de cada cinéfilo. Uma conclusão apaixonante, singela e que nos fará sair da sessão com o melhor dos sentimentos. E, ainda, digna de um dos melhores diretores de nossa geração.
O diretor Danny Boyle já fez tantas obras marcantes e distintas - Trainspotting (1996), Quem Quer Ser Um Milionário (2008) e 127 Horas (2010), só para citar algumas - que o singelo Caiu do Céu (Millions) até parece uma nota menor dentro da sua filmografia. Mas só parece, já que é absolutamente impossível permanecer alheio ou não se sentir tocado pela história dos dois irmãos que "encontram" uma mala de dinheiro com mais de duzentas mil libras esterlinas, próxima de um trilho de trem, apenas uma semana antes de a moeda inglesa corrente passar a ser o Euro. A história simples, edificante, leve e divertida, ainda que pudesse soar excessivamente demagógica no que diz respeito ao uso do dinheiro, acaba por nos emocionar de forma absolutamente naturalista, sem forçação, despertando em que assiste sentimentos relacionados a empatia, a generosidade e o espírito filantrópico. E que, no fim das contas, possibilitarão sonhar com uma vida mais harmoniosa em sociedade. Sim, em tempos de ódio, preconceito e intolerância, "sonhar" é a palavra.
O clima de "aventura infanto-juvenil" é reforçado pelo divertido fato de os irmãos terem personalidades absolutamente distintas. Enquanto Anthony (Lewis Owen) adota uma postura pragmática e até mesmo ambiciosa diante da situação - ele sempre está pensando diversas maneiras de, particularmente, se beneficiar da pequena fortuna, utilizando até mesmo a morte da mãe para se favorecer -, Damian (Alex Etel), com uma bondade quase inacreditável para um menino de apenas sete anos, está sempre analisando de que forma poderá beneficiar outras pessoas com o dinheiro, não hesitando em entregar parte dos recursos para causas sociais, para vizinhos mais pobres ou mesmo para amigos que terão o seu silêncio comprado. E essas diferenças de comportamento resultarão, inegavelmente, em alguns dos momentos mais engraçados da história - especialmente aqueles em que Anthony demonstra insatisfação diante da generosidade do irmão.
Ainda que pudesse soar como um elemento deslocado dentro do roteiro, o componente religioso - Damian recebe a visita de diversas entidades, santos e outros personagens bíblicos - serve apenas para reforçar o caráter fantasioso da película. Condição ampliada por outros eventuais exageros visuais e que contribuem para a constituição de um contexto lúdico e quase onírico da obra - repare como a mala de dinheiro que cai próxima dos meninos, quica de uma maneira totalmente irreal! Utilizando ainda uma paleta de cores totalmente diversificada, o diretor de fotografia Anthony Mantle é capaz de utilizar tonalidades mais quentes nas cenas que envolvem o amoroso pai dos meninos (o talentoso James Nesbitt) para, no instante seguinte, utilizar uma coloração mais saturada, em uma sequência que apresenta um flashback envolvendo a origem do dinheiro. (aliás, repare como este estilo de cores seria utilizado novamente mais tarde em Quem Quer Ser Um Milionário?, uma vez que Mantle retornaria para colaboração com Boyle também neste filme)
Com diálogos rápidos e divertidos, como no caso da cena da escola em que os meninos falam sobre os seus "heróis", sendo que a maioria deles são jogadores de futebol de algum clube de Manchester, a obra não poupa o espectador de momentos tocantes, como no caso do surpreendente reencontro dos meninos com a falecida mãe, em uma das sequências mais arrebatadoras da obra. E, como o filme é narrado pelo pequeno protagonista, é ele quem decidirá os rumos da história, que envolverão ainda a presença de uma assistente social (vivida pela atriz Daisy Donovan). E, como se não bastasse o deleite visual e o clima de feel good movei da película, o espectador ainda é arrebatado por uma sequência final ao som de Nirvana, do grupo new age Il Bosco, que está para sempre eternizada no coração de cada cinéfilo. Uma conclusão apaixonante, singela e que nos fará sair da sessão com o melhor dos sentimentos. E, ainda, digna de um dos melhores diretores de nossa geração.
terça-feira, 12 de setembro de 2017
Na Espera - The Shape Of Water (Filme)
Que o cinema de Guillermo Del Toro sempre é motivo de expectativa para os cinéfilos, não chega a ser exatamente uma novidade. Diretor de clássicos modernos como O Labirinto do Fauno (2006) e A Colina Escarlate (2015), o mexicano parece disposto a, novamente, investir em uma trama que mistura realidade e fantasia, equilibrando um tom mais sombrio com outro mais leve em igual medida - assim como já havia ocorrido em ambos os filmes aqui citados. Ao menos é esta a impressão passada pelo trailer do curioso The Shape Of Water - ainda sem título em português -, previsto para estrear por aqui no dia 11 de janeiro de 2018. Cheiro de indicação ao Oscar no ar? É o que apontam algumas bolsas de apostas.
A trama se passa na década de 60 quando, em meio a grandes conflitos políticos e bélicos, em um cenário de amplas transformações sociais, uma zeladora de nome Elisa (Sally Hawkins), funcionária de uma espécie de laboratório experimental secreto do Governo americano, conhece e se afeiçoa por uma criatura fantástica, que é mantida presa no local. Aparentemente ela tentará elaborar um plano de fuga para a criatura, recorrendo a outras pessoas para isso. Tudo em meio a um clima soturno que, eventualmente, poderá partir para o existencialismo em suas conclusões - o que poderá tornar tudo melhor! O bom elenco conta ainda com Octavia Spencer, Richard Jenkins, Michael Shannon e Michael Stuhlbarg. Por aqui, já estamos Na Espera!
A trama se passa na década de 60 quando, em meio a grandes conflitos políticos e bélicos, em um cenário de amplas transformações sociais, uma zeladora de nome Elisa (Sally Hawkins), funcionária de uma espécie de laboratório experimental secreto do Governo americano, conhece e se afeiçoa por uma criatura fantástica, que é mantida presa no local. Aparentemente ela tentará elaborar um plano de fuga para a criatura, recorrendo a outras pessoas para isso. Tudo em meio a um clima soturno que, eventualmente, poderá partir para o existencialismo em suas conclusões - o que poderá tornar tudo melhor! O bom elenco conta ainda com Octavia Spencer, Richard Jenkins, Michael Shannon e Michael Stuhlbarg. Por aqui, já estamos Na Espera!
Cine Baú - Fahrenheit 451 (Fahrenheit 451)
De: François Truffaut. Com Oskar Werner, Julie Chritie e Cyril Cusack. Ficção científica / Fantasia, Reino Unido / França, 1966, 112 minutos.
Não é de surpreender o fato de que as distopias imaginadas por autores de ficção científica, traduzam tão bem os tempos que vivemos. E o mais intrigante: muitas delas se mantém inadvertidamente atemporais, ainda que se refiram a uma realidade que, a exceção do campo das metáforas, não existe. Quando escreveu Fahrenheit 451 (Fahrenheit 451) o inglês Ray Bradbury tinha a intenção de criticar a presença da televisão nos lares europeus. E também o fato de esta diversão puramente hedonista e eventualmente pobre do ponto de vista intelectual, ser capaz de destruir o interesse das pessoas pelos livros. Mas quando somos surpreendidos por notícias como a desta semana, relativas ao cancelamento de uma exposição artística no Santander Cultural, em Porto Alegre, percebe-se que a ficção proposta por Bradbury, adquire outros sentidos. Sentidos dolorosamente mais atuais, diga-se.
Filmada por François Truffaut em 1966, a trama se passa em um futuro próximo, onde, em um Estado totalitário, os "bombeiros" têm como principal função localizar e queimar qualquer tipo de material impresso. "Os livros trariam infelicidade, tornando também as pessoas antissociais", declara um membro dessa brigada, em determinado momento da película. Só que o protagonista Montag (Oskar Werner), ainda que cumpra o seu dever com zelo - ele, inclusive, está próximo de receber uma promoção - passa a questionar o sistema após se aproximar de uma revolucionária professora e também ao ver uma mulher preferir ser queimada junto com a sua ampla biblioteca ao invés de permanecer viva. Evidentemente que o comportamento suspeito de Montag chamará a atenção de seus superiores, não demorando para que passe ele a ser o perseguido pela mesma brigada em que atua.
Ainda que não seja tão literal em sua provocação, tanto livro como filme permitem traçar um paralelo em relação aos dias de obscurantismo que vivemos hoje em nosso País, com a cultura sendo relegada (pasmem!) a condição de "vilã" dos gastos públicos - afinal de contas o minguado orçamento destinado anualmente à peças de teatro, exposições, filmes e espetáculos poderia, de acordo com os economistas de plantão (e a internet está cheia deles), ser bem melhor empregado em saúde ou segurança pública. Pra quê pensar? Pra que buscar procurar sentido diante daquilo que nos tira da zona de conforto? Pra que promover a reflexão a partir da arte - como se os quadros e instalações vistos na exposição do Santander não servissem, eventualmente, como uma forma de expurgo para os males de nossa sociedade? Ou mesmo de transgressão? Ou vá lá, da simples visão/ideia de algum artista? Para quê tentar compreender o que está por trás de uma obra, se é tão mais fácil "queimar os livros"? "Eles fazem mal, tornam as pessoas ruins, e promovem comportamentos inadequados e antissociais", lembra o filme.
Longe de ser o melhor filme de Truffaut - Os Incompreendidos (1959) e Jules e Jim - Uma Mulher Para Dois (1961) seguem sendo os preferidos da casa - Fahrenheit 451 merece crédito por se manter essa espécie de líbelo da importância da liberdade artística, em meio a regimes totalitários. Especialmente em um período trevoso em que o "planeta" parece ser devastado por uma onda conservadora, retrógrada e, aparentemente, incapaz de compreender a arte e todo o seu espírito iconoclasta, como veículo promotor de debates e de questionamento do status quo estabelecido. Nesse sentido, enquanto na trama as "pessoas-livro" são mostradas como sujeitos empáticos e generosos, figuras como a esposa de Montag, Linda (Julie Christie), parecem apenas preocupadas com aquilo que sairá do televisor, com a sua aparência e com a vida amplamente vazia e fútil, ao lado das amigas. O que dá uma dimensão da diferença de comportamento entre aqueles que apreciam as artes - e seu poder humanizador - e os demais. Não que seja regra, claro.
Com excelente trilha sonora de Bernard Hermann, o filme pode soar um pouco datado do ponto de vista tecnológico ou mesmo da fotografia e dos figurinos, com suas cores berrantes. Ainda que algumas soluções encontradas soem divertidas - como não perceber a completa ausência de palavras no filme (não há placas de publicidade, ou nomes de ruas visíveis, por exemplo)? Christie em papel duplo - ela também é a professora Clarisse, que desperta o interesse de Montag - é o destaque no campo das interpretações, conferindo uma boa dose de realismo a personas absolutamente distintas. Mas a força MESMO da película está, como já mencionado anteriormente, no seu recado a respeito da importância da liberdade intelectual. O que é traduzido de forma elegante pelo roteiro, incapaz de livrar a raça humana de seu caráter vilanesco. Especialmente quando esta surge acompanhada do ódio, da intolerância e do preconceito.
Não é de surpreender o fato de que as distopias imaginadas por autores de ficção científica, traduzam tão bem os tempos que vivemos. E o mais intrigante: muitas delas se mantém inadvertidamente atemporais, ainda que se refiram a uma realidade que, a exceção do campo das metáforas, não existe. Quando escreveu Fahrenheit 451 (Fahrenheit 451) o inglês Ray Bradbury tinha a intenção de criticar a presença da televisão nos lares europeus. E também o fato de esta diversão puramente hedonista e eventualmente pobre do ponto de vista intelectual, ser capaz de destruir o interesse das pessoas pelos livros. Mas quando somos surpreendidos por notícias como a desta semana, relativas ao cancelamento de uma exposição artística no Santander Cultural, em Porto Alegre, percebe-se que a ficção proposta por Bradbury, adquire outros sentidos. Sentidos dolorosamente mais atuais, diga-se.
Filmada por François Truffaut em 1966, a trama se passa em um futuro próximo, onde, em um Estado totalitário, os "bombeiros" têm como principal função localizar e queimar qualquer tipo de material impresso. "Os livros trariam infelicidade, tornando também as pessoas antissociais", declara um membro dessa brigada, em determinado momento da película. Só que o protagonista Montag (Oskar Werner), ainda que cumpra o seu dever com zelo - ele, inclusive, está próximo de receber uma promoção - passa a questionar o sistema após se aproximar de uma revolucionária professora e também ao ver uma mulher preferir ser queimada junto com a sua ampla biblioteca ao invés de permanecer viva. Evidentemente que o comportamento suspeito de Montag chamará a atenção de seus superiores, não demorando para que passe ele a ser o perseguido pela mesma brigada em que atua.
Ainda que não seja tão literal em sua provocação, tanto livro como filme permitem traçar um paralelo em relação aos dias de obscurantismo que vivemos hoje em nosso País, com a cultura sendo relegada (pasmem!) a condição de "vilã" dos gastos públicos - afinal de contas o minguado orçamento destinado anualmente à peças de teatro, exposições, filmes e espetáculos poderia, de acordo com os economistas de plantão (e a internet está cheia deles), ser bem melhor empregado em saúde ou segurança pública. Pra quê pensar? Pra que buscar procurar sentido diante daquilo que nos tira da zona de conforto? Pra que promover a reflexão a partir da arte - como se os quadros e instalações vistos na exposição do Santander não servissem, eventualmente, como uma forma de expurgo para os males de nossa sociedade? Ou mesmo de transgressão? Ou vá lá, da simples visão/ideia de algum artista? Para quê tentar compreender o que está por trás de uma obra, se é tão mais fácil "queimar os livros"? "Eles fazem mal, tornam as pessoas ruins, e promovem comportamentos inadequados e antissociais", lembra o filme.
Longe de ser o melhor filme de Truffaut - Os Incompreendidos (1959) e Jules e Jim - Uma Mulher Para Dois (1961) seguem sendo os preferidos da casa - Fahrenheit 451 merece crédito por se manter essa espécie de líbelo da importância da liberdade artística, em meio a regimes totalitários. Especialmente em um período trevoso em que o "planeta" parece ser devastado por uma onda conservadora, retrógrada e, aparentemente, incapaz de compreender a arte e todo o seu espírito iconoclasta, como veículo promotor de debates e de questionamento do status quo estabelecido. Nesse sentido, enquanto na trama as "pessoas-livro" são mostradas como sujeitos empáticos e generosos, figuras como a esposa de Montag, Linda (Julie Christie), parecem apenas preocupadas com aquilo que sairá do televisor, com a sua aparência e com a vida amplamente vazia e fútil, ao lado das amigas. O que dá uma dimensão da diferença de comportamento entre aqueles que apreciam as artes - e seu poder humanizador - e os demais. Não que seja regra, claro.
Assinar:
Postagens (Atom)





