De: Mariana Brennand. Com Jamilli Corrêa, Rômulo Braga, Dira Paes e Fátima Macedo. Drama, Brasil, 2024, 101 minutos.
"Não existe felicidade fora do projeto de Deus. Do projeto de Deus chamado família". Vamos combinar que a cena de uma pastora da igreja evangélica discursando em favor da família - enquanto que meio que todo o mundo sabe que grande parte da violência sofrida por crianças e adolescente da região de Marajó, no Pará, cenário do filme Manas, emerge do ambiente doméstico -, é só uma forma de evidenciar a hipocrisia não apenas daquelas pessoas, mas da nossa sociedade. "Tem coisa que não adianta tu querer mexer", alerta uma desalentada Danielle (Fátima Macedo), que está grávida de mais um filho do marido Marcílio (Rômulo Braga), enquanto trava uma luta interior para acobertar os abusos praticados pelo homem contra a sua filha Marcielli (Jamilli Corrêa), ao mesmo tempo em que parece sonhar, com o olhar duro, vulnerável e melancólico, com o fim do ciclo de violência.
Ao cabo, a obra de estreia da diretora Marianna Brennand nunca é fácil. E talvez por ser tão evidente - ainda que, paradoxalmente, sutil - em sua abordagem, o desconforto se amplie. O histórico de violência naquela localidade (aliás, no Brasil como um todo) não é novidade - inclusive com a pauta sendo apropriada politicamente pelas piores pessoas do planeta, em sua ignorância gritante, sempre acreditando que Deus pode ser a cura de tudo. Marcílio, Danielle e as filhas alternam os dias em um templo improvisado junto às águas, em que cantos evangélicos meio constrangedores ecoam, ao mesmo tempo em que sobrevivem colhendo açaí e camarão, que será comercializado, especialmente na balsa - local em que os moradores sabem que as violências sexuais se ampliam, com a presença de forasteiros, homens adultos, oferecendo dinheiro ou comida para as adolescentes.
Quando o filme começa, meio que a ficha demora para cair para o espectador. Se a balsa parece suspeita, o ambiente doméstico soa parcialmente seguro - especialmente pela presença ensolarada de Marcílio, que alterna algum tipo de afeto rústico, com gestos disciplinadores de quem ensina desde cedo valores como trabalho. Mas é aí que reside o pulo do gato, já que a confiança no adulto também tende a burlar a identificação dos limites por parte da ponta mais vulnerável da equação. E, de fato, a coisa começa a ficar estranha quando a rede de Marcielle estraga e o pai a convida para deitar em sua cama. O que poderia ser apenas a sugestão de algo carinhoso, se torna mais evidentemente desprezível quando o sujeito convida a filha para uma caçada no mato. A primeira caçada - num simbolismo torpe e repulsivo do ato que ele está prestes a praticar. Ciente do que acontece, a jovem tenta forjar, em vão, uma carteira de identidade falsa no posto local, o que poderia lhe possibilitar uma espécie de fuga, assim como fez a sua irmã mais velha Cláudia que, aos 19 anos, foi embora dali para nunca mais voltar.
Naturalista e em estilo documental - aliás, Mariana Brennand é documentarista -, a obra, que esteve na nossa pré-lista do Oscar desse ano e recebeu dezenas de prêmios internacionais, tem uma fluidez própria, não tendo pressa em expor suas ideias. Tecnicamente bem executada, a produção é daquelas que utiliza os sons da natureza - o zumbido dos bichos repetitivo e letárgico, ou mesmo a ondulação constante das águas -, como forma de evidenciar ainda mais o caos interior e a moral abjeta das ocorrências locais. Um tipo de entorpecimento visto em outros filmes como A Febre (2019) ou mesmo nas obras do diretor Apichatpong Weerasethakul - guardadas as devidas proporções temáticas, claro. "Eu fui caçar sozinha com o pai", praticamente grita a protagonista à Jaci (Ingrid Trigueiri) uma exasperada comerciante local, que a lembra que isso não acontece só com ela. "Você tem que tentar a vida na cidade", a alerta. A presença da delegada Aretha (Dira Paes), uma funcionária do Estado que surge como figura de proteção, parece acender em Marcielle uma faísca que já estava pronta para queimar. Como se interrompe um ciclo de violência que se perpetua de geração em geração? Talvez a medida tenha de ser mais drástica. Alegórica ou não. É o recado que fica dessa experiência vigorosa e cheia de simbolismos, que vale ser conferida.
Nota: 9,0

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