sábado, 10 de setembro de 2016

Disco da Semana - Carne Doce (Princesa)

Enérgico. Cru. Visceral. Sanguíneo. Lânguido. Potente. Selvagem. Transgressor. São tantos os adjetivos possíveis para definir o segundo registro dos goianos do Carne Doce, intitulado Princesa, que a impressão que se tem é a de que eles jamais serão suficientes - funcionando apenas como semântica eventualmente vazia e sem muito significado. Se com o inaugural e homônimo disco de estreia lançado em 2014, o quinteto - formado por Salma Jô, João Victor Santana, Ricardo Machado, Macloys Aquino e Anderson Maia - já foi o responsável por sacudir a cena independente nacional ao apresentar um registro que equilibrava a psicodelia bucólica com o clima intempestivo da urbe, com o mais recente lançamento toda e qualquer ideia explorada naquele trabalho parece agora ampliada, num exercício não apenas de maturidade mas também de sintonia entre os integrantes.

E que resultam em uma nova coleção de canções que abandona, ao menos em partes, a dicotomia campo x cidade - da ótima Amigo dos Bichos e da hoje já clássica Sertão Urbano - para apostar muito mais em temas que envolvem a presença da mulher na sociedade, o empoderamento e o combate a misoginia. Este último que, inacreditavelmente, ainda aparece em debates ideológicos, legitimados por aberrações políticas da (não tão) extrema direita, que bem preferiria uma cantora de estilo submisso e que fosse "bela, recatada e do lar". E certamente não é por acaso que a provocadora canção Falo (num dos melhores títulos de música em duplo sentido da história) brinca com esta condição em seus versos - Já tá cansado da minha voz porque / O tempo todo um timbre feminino é / Pra maioria algo enjoativo / Que tal se agora entrasse um homem aqui?.



Diga-se de passagem a patética condição do homem capaz de "provar" a sua masculinidade da forma mais incorreta possível - seja na base da força ou da virilidade torta fruto de uma sociedade patriarcal -, já é denunciada na inaugural Cetapensâno, grande candidata a música do ano. Com uma saborosa mistura de neotropicalismo e pop minimalista, Salma polvilha cada curva da canção com sua voz selvagem, que tira sarro daquele sujeito que gosta de aparecer, mesmo que pouco tenha a oferecer - Aí, vê! Como eu falei / Co rabo entre as pernas / Taí, como eu previ / Só é macho pras donzela. E, como se fosse um justo complemento, Princesa, que dá nome ao disco, com a sua bateria bem pontuada e guitarra marcante oferece aos (e as) ouvintes outras possibilidades, em um canto que transpira sensualidade.

Longe de parecer um mero "panfleto feminista" (como poderiam acusar alguns), o disco ainda apresenta uma grande variedade de temas. Nesse sentido, diga-se, não seria nenhuma surpresa o álbum se chamar Mil Mulheres, tamanha a quantidade diferente de "eus líricos" encarnados por Salma em cada um dos 57 irresistíveis minutos desse trabalho. E se Eu Te Odeio brinca com as contradições de um relacionamento de forma leve e divertida, Sombra, com seus efeitos eletrônicos e vocal terno retorna para os temas mais pesados, ao passar de raspão pelo tema do suicídio (ainda que de forma poética). E se amizade, admiração e uma vontade única de ficar em casa em uma noite de sábado aparecem na singular Amiga, em Artemísia é o aborto, tratado da forma mais objetiva possível, que dá as caras - doa a quem doer.


"Muitos escrevem a partir de respostas. A Salma escreve a partir de perguntas" resumiu Aquino em entrevista a Revista Rolling Stone, sobre a diversidade e o impacto dos temas tratados pela vocalista e compositora no disco, gravado no Red Bull Station. E que, inevitavelmente, se estendem ao instrumental ora sutil, ora agressivo, capaz de equilibrar na medida certa a guitarra e a bateria pontuadas com efeitos eletrônicos na medida certa. E se o trabalho por vezes parece fragmentado e contemplativo - ainda que em um cenário de "cores" vivas (experimente ouvir Carne Lab sem viajar) - o álbum, ainda que eventualmente heterogêneo, representa um condensado de uma banda segura de seus caminhos e pronta para levar a cena goiana, já tão onipresente no cenário nacional, a outros rincões. Se você ainda não conhece, tá esperando o quê pra dar o play?

Nota: 9,4

Lançamento de Videoclipe - Red Hot Chili Peppers (Go Robot)

O debate sobre o novo álbum do Red Hot Chili Peppers, intitulado The Getaway, segue forte nas redes sociais e até mesmo em sites de música, com fãs das antigas alegando certa perda da verve mais roqueira/funky, ao passo que outros ouvintes têm apreciado as incursões mais eletrônicas ou mesmo o retorno a um pop seguro e radiofônico - e que ao menos deixa para trás as ideias apresentadas no péssimo I'm With You (2011). Independente disso, a banda de Anthony Kiedis e companhia tem trabalhado forte na divulgação do registro, que na sexta-feira (09/09) recebeu mais um videoclipe, desta para a ótima canção Go Robot. O clipe parece meio estranho, com Kiedis caminhando pelas ruas vestido de Freddie Mercury Prateado, indo em direção a uma boate para o que parece ser uma espécie de competição de dança. Em seu percurso ele encontra diversas pessoas e também os demais integrantes e, no fim, todo o mundo se diverte. Se você ainda não assistiu, vale clicar e conferir!

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Tesouros Cinéfilos - Las Acacias

De: Pablo Giorgelli. Com Germán De Silva, Hebe Duarte e Nayra Calle Mamani. Espanha / Argentina, Drama, 2011, 85 minutos.

O cinema sul-americano, especialmente aquele que se passa no interior, possui uma "aridez" tão natural que, salvo algumas raras exceções, os filmes hollywoodianos dificilmente conseguem alcançar. Não sei se é a expressão sofrida das personagens, os cenários desoladores (e cheios de pobreza e simplicidade), as claras e verdadeiras diferenças sociais ou a geografia acidentada, mas o caso é que as obras colombianas, peruanas, argentinas e brasileiras tem um charme local que, é preciso que se diga, não é apenas bairrismo. É algo maior, que faz com que histórias, por mínimas que sejam, se transformem em amplos painéis a respeito da realidade não apenas de um sujeito, mas de uma nação - ou até de um continente - inteiro. É exatamente este o caso do premiadíssimo Las Acacias (Las Acacias) do diretor Pablo Giorgelli, que inaugura o nosso quadro dos Tesouros Cinéfilos, que busca aquelas obras pequenas do circuito alternativo - independente do País de origem - e que merecem ser vistas (ou descobertas).

A ideia com este preâmbulo não é a de reduzir a importância dos astros do cinema americano na caracterização de personas, quaisquer que sejam. Talvez seja viagem de minha parte - vocês me digam -, mas uma coisa é o Brad Pitt ou o George Clooney interpretando um caminhoneiro solitário, taciturno ou de modos rudes. A outra é o absolutamente convincente Germán De Silva que, no caso de Las Acacias, é quem representa este papel. Pitt e Clooney sempre estarão no imaginário coletivo como superestrelas famosíssimas, ricas e cheias de convites para tudo quanto é filme e programa de TV - o que talvez possa dificultar, eventualmente, qualquer tipo de dissociação de interpretação em  relação ao meio em que vivem. Já Germán... quem será ele? O fato de, após uma busca no Google, descobrir que o nome dele aparece atrás do de um maratonista mexicano famoso e homônimo, pode dizer muita coisa. Talvez ele seja um caminhoneiro verdadeiramente. Eu não duvidaria.



No filme, o ator interpreta Rubén, que trabalha para uma empresa que "corta e transporta mato" - como conhecemos por aqui os operários que passam os seus dias derrubando árvores de Acácia Negra, que serão transformados em madeira de queima tanto na indústria, como nas lareiras de famílias mais abastadas. Assim parece ser a muitos anos - e o seu olhar distante e pouco esperançoso, já no início dessa pequena obra-prima, parece nos acenar para uma rotina repetitiva e com baixa perspectiva de mudança. Em um certo dia, partindo de Assunção, no Paraguai, com uma carga de dezenas de toneladas de toras de madeira, ele é incumbido pelo seu chefe, de nome Fernando, a dar carona a uma mulher até Buenos Aires. O que já não parecia ser lá uma tarefa muito atraente, de saída - mais de mil quilômetros na companhia de alguém que ele não conhece - se torna pior quando a mulher, de nome Jacinta (Hebe Duarte), aparece atrasada e com um bebê a tiracolo.

Inicialmente somente o que conseguimos é lamentar por ambos os protagonistas. Rubén parece ser um sujeito grosseiro e estúpido, não hesitando inclusive em fumar na frente de Jacinta e da criança - com as janelas fechadas - como forma de demonstrar o seu desgosto pela situação. Já Jacinta, por estar recebendo uma carona, parece fadada a ter de suportar os caprichos de um caminhoneiro mau humorado e desinteressante. Mas ocorre que de Assunção a Buenos Aires são mais de vinte horas de viagem, de paisagens contemplativas, de dias que se tornam noites, de paradas obrigatórias e de solidão sufocante. Condição que fará com que o cenário, aos poucos vá se modificando, com as primeiras (e secas) trocas de palavras, até o encontro de pontos em comum, de trocas de confidências e de uma improvável aproximação.


Giorgelli, que recebeu a premiação na Mostra Um Certo Olhar de Cannes - que agracia diretores estreantes - realiza a obra sem nenhuma pressa. Não à toa, a aproximação inicial se dá com muito menos palavras e muito mais gestos e trocas de olhares. (e o olhar ao mesmo tempo terno e melancólico de Jacinta a Rubén em dezenas de momentos, torna tudo ainda mais arrebatador). Utilizando muitas vezes o espelho retrovisor como uma espécie de metáfora para aquilo que representa o passado em transição para um futuro - que pode ser igual, ou não - o diretor ainda utiliza a sutileza ao seu favor, sendo absolutamente fenomenal assistir o nervosismo de Ruben, que praticamente COME um cigarro ao descer do caminhão, tamanho o seu nervosismo diante de fatos que ele mal consegue explicação, já no terço final. E se a cenografia e o desenho de produção contribuem para a condição de verossimilhança - reparem como os vidros sujos do caminhão, por exemplo, representam a persistência não apenas do homem, mas do veículo, em suas infinitas horas na estrada - a conclusão absolutamente singela, emocionante e irresistível fecha esse verdadeiro tesouro de uma forma que, certamente, não aconteceria se os protagonistas fossem Pitt ou Clooney. Sem exagero. Com calma. Sem pressa. É a verdadeira poesia em forma de cinema. Vale ver.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Grandes Filmes Nacionais - Boi Neon

De: Gabriel Mascaro. Com Juliano Cazarré, Maeve Jinkings, Alyne Santana, Carlos Pessoa e Josinaldo Alves. Drama, Brasil / Uruguai / Holanda, 2015, 101 minutos.

Diferentemente do que ocorre com as classes mais abastadas, as escolhas profissionais das camadas mais humildes da população ocorrem muito mais pelas circunstâncias do meio em que estão inseridas, do que pelo incentivo dos pais - que, no caso dos mais ricos, não veem problemas em bancar as melhores escolas, os cursinhos particulares e as aulas de inglês. Por mais que você já tenha ouvido falar por aí que a conquista profissional daquele filho de médico famoso foi fruto de muito esforço - pensa que é fácil fechar direitinho o pote de Neston? - a grande verdade é que, para a grande maioria das pessoas, trabalhar naquilo que se gosta é tarefa praticamente impossível. E no sertão nordestino, então, por mais que boas políticas públicas para formação de jovens, como o Programa Universidade para Todos (Prouni), criado em 2004 pelo Governo Lula, tenham contribuído para que milhares de pessoas alcançassem seus sonhos, é possível dizer que o cenário ainda é um tanto desolador. (com tendência de piora com a consolidação do golpe)

Bom, nessa altura do campeonato, você já deve estar se perguntando o que todo esse preâmbulo tem a ver com o espetacular Boi Neon, dirigido por Gabriel Mascaro (de Doméstica) - e, desde já, um dos grandes candidatos a melhor filme nacional do ano. A obra, que marca a estreia do quadro Grandes Filmes Nacionais - que corrige certa injustiça que andávamos cometendo, ao não abordar as boas películas lançadas em nosso País - nos apresenta ao curraleiro Iremar (Juliano Cazarré) que trabalha ao lado de Galega (Maeve Jinkings), Zé (Carlos Pessoa) e Mário (Josinaldo Alves), além da pequena Cacá (Alyne Santana), em vaquejadas realizadas em pequenas feiras e eventos recreativos do interior. Só que, por mais que tenha carinho no trato com os animais e demonstre dedicação total a sua atividade, o sonho mesmo de Iremar era ser estilista.


O estranhamento que todos nós possamos ter por, eventualmente, um homem heterossexual, que passa os seus dias sujando as botas em meio a bosta de vaca, passando talco nas crinas e no rabo dos cavalos e andando em meio a currais apertados e feitos com madeira velha, se vai embora com 15 minutos de película, dado o naturalismo com que nos são apresentados os ideais do protagonista. Sem apelar para o estereótipo do sujeito excessivamente afetado - que poderia, eventualmente, colocar a obra na vala comum (ou no mesmo nível de esquetes de "humor" do século passado ou mesmo do Zorra Total)  - Mascaro trata as pretensões de Irandir sem nunca apelar para o deboche. Assim, quando o vemos recolhendo restos de revistas e de manequins nas feiras em que o grupo passa, para que possa exercitar o seu hobby, não apenas passamos a acreditar fielmente nesse contexto, como também passamos a torcer para um desfecho favorável de seu principal personagem.

Utilizando-se ainda de uma espécie de saborosa iconoclastia, o diretor faz uma curiosa mescla entre a lida rural e campeira com os elementos que poderiam compor um exótico desfile de moda com o envolvimento de bois, vacas ou mesmo outros animais. Nesse sentido, a presença lancinante de Galega executando danças sensuais enquanto utiliza não apenas as roupas costuradas por Irandir, mas também máscaras de cavalos, funciona bem para delimitar qual o exato alcance que a arte  (e o sonho) tão pretendidos pelo vaqueiro pode chegar. (e não ignoremos a presença magnética de Jinkings e sua Galega, uma das mulheres mais fortes do cinema atual) E quando acompanhamos a ida tímida (e levemente melancólica) do protagonista a uma espécie de gráfica para pedir o preço de fôlderes, percebemos o quanto a falta de tato para o linguajar do meio, poderia facilmente ser suplantada com a ampliação de oportunidades e com o acesso maior ao conhecimento. Especialmente pelo fato de percebermos que a parte "prática" não é o problema.


Já tradicional em filmes sul-americanos, as interpretações absolutamente naturalistas não nos fazem duvidar em nenhum momento do fato de estar diante de pessoas que levam efetivamente este estilo de vida. E se o cenário desolador e recheado de erosão e lama de alguns pontos do Nordeste serve de indicativo do estado de espírito dos sujeitos, o clima levemente divertido da interação entre o grupo, com trocas de "xingamentos" imprevisíveis, dão conta da sensação de intimidade e de amizade que permeia as suas rotinas - mesmo em circunstâncias adversas. Equilibrando ainda momentos mais evocativos - como o das patas de cavalo que executam um caminhar que se assemelha ao de uma mulher de salto alto - com outros mais singelos - como os de conversas lúdicas entre Irandir e Cacá -, Mascaro constrói uma obra plena de significados (e que essa resenha certamente não é capaz de contemplar em sua totalidade) que, se não apresenta exatamente um final feliz, da conta do profundo exercício de resignação para aqueles que não foram fruto da meritocracia. O que não é pouco.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Na Espera - La La Land: Cantando Estações (Filme)

Após a excelente recepção de público e crítica para Whiplash: Em Busca da Perfeição (2014) - com direito a algumas estatuetas douradas a tiracolo - a expectativa para o filme seguinte do jovem Damien Chazelle não poderia ser mais alta! Previsto para estrear por aqui no dia 12 de janeiro, La La Land: Cantando Estações (La La Land), reúne Ryan Gosling e Emma Stone (em mais uma parceria), além de J. K. Simmons para mais um filme que parece ter a música como pano de fundo. Na trama, Gosling é o pianista de jazz Sebastian, que chega em Los Angeles a procura de alguma oportunidade na competitiva cidade. Em meio a busca por fama e sucesso, o rapaz conhece a atriz iniciante Mia (Stone), que tem objetivos semelhantes e com quem inicia um relacionamento.



O trailer não entrega muito e a única certeza que podemos ter é a de que se trata de uma comédia romântica charmosa e sensual, com fotografia elegante e figurinos arrebatadores. Ah, e sem falar na música, que também promete ser um espetáculo a parte - com direito a participação de nomes como John Legend (que dá as caras no trailer). Sobre possíveis indicações ao Oscar, por mais que já estejamos em setembro, talvez ainda seja meio cedo para qualquer projeção, ainda que a obra apareça em diversas bolsas de apostas com boas possibilidades - e não apenas na categoria principal, é preciso que se diga. Bom, independentemente de nominações para a principal premiação do cinema, uma coisa é certa: aqui no Picanha, já estamos Na Espera!

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Cinema - Julieta (Julieta)

De: Pedro Almodóvar. Com Emma Suárez, Adriana Ugarte, Daniel Grao, Blanca Parés e Rossy De Palma. Drama, Espanha, 2016, 99 minutos.

Sou um grande fã do estilo transgressor de Pedro Almodóvar e de seu olhar todo especial para as pessoas à margem da sociedade - sejam elas os gays, as transexuais, as prostitutas ou os drogados que costumam compor o universo de suas histórias. Em muitos casos, especialmente em sua filmografia mais antiga, esses personagens vêm acompanhados de uma caracterização um tanto expansiva fazendo com que o resultado beire o teatral ou o farsesco - no melhor sentido de ambas as palavras. Assim sendo, não deixa de surpreender o clima de "novelão mexicano", estilo que o espanhol abraça de vez em Julieta (Julieta), seu mais recente trabalho - drama que fala de escolhas (e de perdas) no que diz respeito ao relacionamento familiar. E, esse contexto, é preciso que se diga, de forma alguma se constitui em um demérito, já que o estilo elegante do formato certamente cairá no gosto até mesmo daquela fatia do público que costuma ser mais conservadora - e portanto avessa aos acontecimentos vistos em obras essenciais como Má Educação (2003) ou A Pele Que Habito (2011).

Existe um lugar-comum que diz que "família não se escolhe, simplesmente acontece", e, num sentido mais amplo, pode-se dizer que a frase combina bem com o que se vê no filme. No começo da película, somos apresentadas a uma Julieta (Emma Suárez) já na meia-idade, disposta a abandonar Madri para morar em Portugal ao lado do namorado Lorenzo (Dario Grandinetti). Em sua expressão ao mesmo tempo doce e melancólica parece haver também um tanto de amargura, que aflorará ainda mais após um encontro fortuito com a jovem Bea (Michelle Jenner), uma antiga amiga de sua filha. Pois esse encontro de poucos segundos e de, aparentemente, inexpressivas trocas de palavras, será o suficiente para que Julieta mude de ideia, não apenas permanecendo na capital espanhola, como se mudando para o antigo apartamento em que morava. O encontro com o passado recheado de pendências e de casos mal resolvidos, será feito por meio de uma carta, destinada a sua filha Antía (Bianca Parés).



Revelar mais do que isto seria estragar algumas das boas surpresas que o diretor - que toma por base textos da canadense Alice Munro, vencedora do Nobel de Literatura em 2013 - entrega ao espectador, com toda a calma do mundo, aludindo ainda a um clima de suspense à Hitchcock, visto também em outras obras, casos de Volver (2005) e Abraços Partidos (2009). Na carta de Julieta, agora jovem (e vivida por Adriana Ugarte), há, entre outras, as memórias relacionadas ao seu primeiro marido, o pescador Xoan (Daniel Grao), que ela conhece em uma viagem de trem. Ainda que o primeiro encontro, com o rapaz ainda casado, represente o início de uma paixão tórrida, parece haver mistério em cada curva que fazemos no acompanhamento da obra. Sentimento acentuado pela trilha sonora propositalmente sufocante de Alberto Iglesias ou mesmo por acontecimentos curiosos, como o aparente suicídio de um excêntrico sujeito de meia-idade que estava no mesmo trem de Julieta e Xoan e que, anteriormente, tentara puxar conversa com ela.

O sentimento de tensão - não apenas sexual (com a presença da sexy artista plástica Ava, amiga de Xoan), mas também em relação a rotina do casal - comporão um quadro em que tragédias familiares serão praticamente inevitáveis. O que fará com que a jovem Antía tome uma decisão que modificará para sempre o relacionamento com a sua mãe. Como se fosse um artesão das imagens, Almodóvar esquadrinha cada sequência utilizando-se de cores primárias fortes e saturadas (o vermelho já é um clássico), que, aparecendo de maneira contrastante, funcionam como metáfora perfeita para o relacionamento daqueles que vemos na tela. Da mesma forma, o espanhol filma objetos - como as esculturas compostas por Ava, muitas delas em formato de homens "despedaçados" - como forma de tornar palpável aquilo que está apenas no ar ou no campo das ideias.


Utilizando-se ainda de uma fotografia que ilustra de maneira inteligente (cortesia do diretor Jean Claude Larrieu) as variações de sentimento das personagens - repare como a paleta de cores é muito mais viva nas cenas da juventude de Julieta, por exemplo - o diretor ainda possibilita a atriz e amiga de longa data Rossy De Palma um dos mais instigantes, curiosos e divertidos papeis da obra - uma espécie de governanta de Xoan, que se mete em tudo que diz respeito a sua vida. É muito provável que Julieta não seja o melhor filme do espanhol. Mas sua melancolia sutil, sua sincera elegância, a grande quantidade de mulheres fortes e o arrebatador argumento, certamente apagam a má impressão deixada pelo inexplicável Os Amantes Passageiros (2013), seu trabalho anterior. E se serve como dica, levem a caixa de lenços junto. Ela pode ser necessária.

Nota: 8,3

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Lançamento de Videoclipe - Emicida (Chapa)

Melhor disco nacional lançado no ano passado, o álbum Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa do rapper paulistano Emicida, segue rendendo bons vídeos de divulgação. Após o sensacional trabalho realizado no clipe de Mãe, que foi disponibilizado no último mês de maio, agora foi a vez da canção Chapa receber vídeo. A obra, em estilo documental, tem como tema a violência policial e presta homenagem ao grupo Mães de Maio, formado por mães que tiveram seus filhos mortos por policiais. O vídeo mostra cenas do música cantando em fundo preto e imagens e depoimentos dessas mulheres. Além do clipe, é possível encontrar também uma entrevista com o música, concedida ao site Ponte.org, em que Emicida ressalta o fato de o tema da música ser a saudade. Dois dias após a consolidação do golpe e da derrocada da democracia - aliada a exacerbação do racismo, do fascismo, da misoginia, do preconceito, da violência e do ódio - um material como o apresentado pelo paulistano ainda funciona como peça artística de resistência diante de um Governo, agora consolidado, que não costuma olhar para as classes menos favorecidas ou a margem da sociedade.




quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Palco Picanha - Cine Floyd no Teatro da Univates

Como o próprio slogan do Picanha diz, nossas maiores paixões são música e cinema. Quando um evento une essas duas formas de arte então, melhor ainda! E foi exatamente o sentimento de satisfação que tomou conta dos que tiveram a oportunidade de conferir, neste último dia 31 de agosto, a apresentação do projeto porto-alegrense Cine Floyd no Centro Cultural da Univates. Pra quem não conhece, a banda formada por Arthur Tabbal (Guitarra e Vocal), Ettore Sanfelice (Baixo), Gabriel Sacks (Bateria e Vocal) e Max Sudbrack (Teclados) traz para os palcos a famosa sincronia do incensado disco The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, com o filme O Mágico de Oz (obra de 1939 do diretor Victor Fleming, de ... E o Vento Levou).

Particularmente, nunca havia experimentado assistir à junção das duas obras para verificar a veracidade de que ambos se complementariam e, como bom fã de Pink Floyd, poder assistir à execução ao vivo da obra-prima de uma de minhas bandas favoritas e, ainda assim, matar a curiosidade em relação a esta lenda urbana era um compromisso imperdível. E, de fato, foi uma noite especial: a banda executou com precisão milimétrica todos os compassos de forma a tornar a sincronia perfeita e, embora alguns elementos do álbum original não estivessem presentes (os corais femininos e inserções de saxofone), a qualidade do som apresentado foi digno de um exímio concerto musical. Não bastasse tudo isso, a porção final do espetáculo contou com a performance da clássica (e extensa) canção Echoes (do álbum Meddle, de 1971) em sincronia com a porção final do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, obra máxima do gênio Stanley Kubrick.


Mas e aí, seria realmente proposital a composição de The Dark Side of the Moon de forma a fazer sentido com a execução do filme? Confesso que permaneço sem uma resposta clara sobre isso. É inegável reconhecer algumas coincidências durante a película e as músicas executadas, mais precisamente a partir da quinta faixa, The Great Gig in the Sky, a qual coincide com a cena em que Dorothy presencia um furação, o "espetáculo no céu" do qual a música fala, ou o momento em que Money começa a ser executada e as imagens se transformam em cores vibrantes, bem como sua batida que sincroniza perfeitamente com a marcha dos personagens em cena. Quando a menina encontra o personagem Espantalho, podemos ouvir a frase "the lunatic is on the grass" da faixa Brain Damage, enquanto o mesmo personagem apresenta um comportamento um tanto estranho (seria o lunático da música? Pouco provável, visto que a canção refere-se a Syd Barrett, fundador e líder da banda que teve que se afastar devido a problemas mentais e com drogas).

A livre interpretação também é parte da graça toda. Confesso que achei curioso que, no momento da execução de Us and Them, em especial na frase "which is which, and who is who", apareça uma bruxa em cena (que em inglês é witch, cuja pronúncia é similar a which, que significa "cujo"). Outra brincadeira interessante é que, durante a derradeira faixa Eclipse, Dorothy encontra o Homem de Lata e, praticamente durante a frase "beg, borrow or steal", ela encoste na lataria - o que não deixa de ser curioso pois a pronúncia de steal (roubar, em inglês) é similar a steel (aço). São momentos isolados que fazem com que fique praticamente impossível se livrar da sensação de estranhamento mas que, devido à capacidade do cérebro humano de reconhecer padrões e buscar familiaridades, podem sim representar apenas uma coincidência - afinal, na maior parte do tempo nada que nos chame muito a atenção acontece.


No entanto foi no momento final, com Echoes e a viagem literal e lisérgica proporcionada por Kubrick em seu 2001, que houve o melhor momento da noite, com a canção elevando ainda mais os sentimentos das imagens evocadas na tela - quem assistiu a Interestelar (de Christopher Nolan, 2014) verá de onde saiu a referencia de seu terço final - e é assombroso pensar que aqueles efeitos todos foram filmados durante a década de 70. Não à toa, conta-se que à época pessoas reuniam-se para assistir 2001 sob efeito de LSD para embarcar na viagem de Kubrick - e não é de se duvidar que o Pink Floyd tenha realizado o mesmo feito para compor esta maravilhosa canção.


Ademais, resta-nos parabenizar a iniciativa da Univates em trazer mais um grande espetáculo para a nossa região. Que venham muitos mais!