terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Pitaquinho Musical - The Smile (Wall of Eyes)

Vamos combinar que existem discos que a gente escuta, cantarola o refrão, decora as letras e consome instantaneamente. E há, por outro lado, aqueles álbuns que são feitos para serem saboreados aos poucos. Que nem sempre são fáceis - e que exigem do ouvinte uma atenção a mais, uma persistência que, em muitos casos, nem combina tanto com essa coisa moderna da absorção cultural imediata, mas que parece estar sempre olhando para o seguinte, para o que vem depois, para o próximo. Que o Thom Yorke é uma espécie de elo de resistência a esses modelos mais óbvios, mais comerciais, não chega a ser exatamente uma novidade. Era assim no Radiohead, com sua música cósmica, etérea, enevoada e alienígena funcionando como uma metáfora pra tempos tecnológicos, urgentes e um tanto caóticos que antecipariam a virada do milênio. É assim também com o The Smile, que chega ao segundo trabalho com Wall of Eyes.



Mais uma vez trabalhando ao lado do parceiro de longa data, o guitarrista Jonny Greenwood, e de Tom Skinner - o baterista do coletivo Sons of Kemet - Yorke volta novamente seu olhar para questões contemporâneas e fatalistas, casos da pandemia (Friend of a Friend) ou de disputas de espaços políticos (Teleharmonic). Tudo por meio das letras enigmáticas, ambíguas, que se somam às melodias caleidoscópicas, que nos levam de lá para cá em uma mistura de jazz, eletrônica minimalista e algo que se aproxima do rock. Um bom exemplo desse expediente, pode ser encontrado em Read the Room, que remonta a um Radiohead da era King of Limbs. Mesmo com guitarra, baixo e bateria mais tradicionais, neste caso chama a atenção a forma pouco convencional que o instrumental ondula como se feito de fragmentos, que vão no limite entre a inquietação e a desordem. São músicas harmoniosas mas conflitantes, que se comprimem e se expandem, criando um universo próprio. Caso de outras joias, como a instigante Bending Hectic.

Nota: 8,5


Cinema - Vidas Passadas (Past Lives)

De: Celine Song. Com Greta Lee, John Magaro e Teo Yoo. Drama / Romance, EUA, 2023, 106 minutos.

Vamos combinar que talvez o grande mérito de Vidas Passadas (Past Lives) seja justamente fugir da narrativa óbvia, previsível, que, muito provavelmente em outros tempos, movimentaria romances como esse. Sim, a obra da Celine Song te pega pela nostalgia - e não há absolutamente ninguém que não vá se recordar de uma paixão juvenil, de um amor ainda ingênuo, enquanto acompanha a história. Como seria? como poderia ter sido? Enfim, esse tipo de coisa. Mas ao mesmo tempo a experiência não é mesquinha ou romanticamente vazia ao imaginar que tudo seria um mar de rosas se, efetivamente, tivéssemos permanecido com o primeiro amor. Aliás, é muito raro alguém namorar, casar, constituir família e ficar eternamente com aquele coleguinha de sala de aula, ou com a vizinha do bairro que era companhia de brincadeiras (quando a sexualidade mal tinha despertado). Dá pra contar esses casos nos dedos. E olhe lá.

Nesse sentido, há uma parte que gosto bastante no filme, que é o instante em que Nora (Greta Lee) e Arthur (John Magaro) estão deitados na cama, quando ela finalmente conseguiu ter o primeiro encontro com Hae Sung (Teo Yoo), 24 anos depois de sua família deixar a Coréia do Sul, em direção ao Canadá (por motivos de trabalho). Num misto de ciúmes contidos e senso de humor, Arthur brinca sobre esta ser a etapa da história em que ele, o norte americano branco, está interferindo no destino dos dois, que só se casaram pra que ela obtivesse o Green Card e que isso poderia ter ocorrido com qualquer outro homem. "Aliás, esse é o momento em que você me abandona para retornar a Coreia do Sul com ele, sua grande paixão da juventude", ele completa. Sim, como eu disse acima, talvez se esse fosse um filme previsivelmente romântico. Mas ocorre que Nora agora tem uma carreira como escritora em Nova York. E, como dito por sua própria mãe, deixar algo pra trás também pode significar ganhos.

E o caso é que a gente percebe, durante a experiência com o filme, que somos seres em transformação. Que estamos mudando o tempo todo. E que talvez coisas que tivessem profundo significado lá no passado, sejam agora apenas isso. Coisas do passado. Na nossa memória. Que, aqui e ali, regressarão de forma afetuosa em nossa mente. Em certa altura, Nora - que quando era uma adolescente moradora de Seul recebia o nome de Na Young - comenta com o atual marido sobre o fato de não se sentir nada coreana depois de tantos anos. "Mas ao mesmo tempo eu me sinto extremamente coreana quando estou com ele", verbaliza ao companheiro, sobre os encontros com Hae Sung. Afinal de contas, aquele homem por quem ela nutriu uma paixonite na juventude, é extremamente coreano. No sentido mais tradicional da coisa: meio conservador, taciturno, sério, com um carisma quase negativo. Não há idealização aqui ou a conversão de Hae Sung num sujeito dinâmico, extrovertido, magnético, sedutor. Ele talvez siga sendo mais ou menos quem ele era. Já Nora? Bom, Nora hoje é Nora. Com outro nome e tudo.

Todos esses pontos são interessantes no filme: uma mulher que não abre mão de sua carreira de escritora em ascensão por uma utopia amorosa, a quebra de paradigma em relação ao casal que deveria ficar junto no final (em detrimento do casal possível), o certo apelo à nostalgia que mexe com as nossas próprias recordações e memórias. São muitas sequências interessantes, inclusive as que envolvem o antagonismo da própria cidade acinzentada - o caso de Nova York -, em um comparativo com certo bucolismo asiático, com suas estátuas, áreas verdes e outros. Tudo isso é elegante, instigante, o que envolve ainda uma trilha sonora existencialista, que se soma à observações culturais da própria Coreia, como a sedutora história do In-Yun - que dá conta de uma lenda sobre nos encontrarmos em milhares de vidas passadas (nos esbarrando, que seja) para, a partir desse acúmulo, nos relacionarmos. "É há algo que usamos para seduzir alguém", comenta Nora em tom de deboche, em um dos primeiros encontros com o futuro marido. Ao cabo, esse é um filme que seduz em todos os sentidos. Por mais simples que seja.

Nota: 8,5


segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Livro do Mês - Suíte Tóquio (Giovana Madalosso)

Editora Todavia, 2020, 210 páginas.

[ATENÇÃO: ESSE TEXTO TEM ALGUNS SPOILERS]

Uma das partes mais impactantes e, paradoxalmente divertidas, de Suíte Tóquio, livro da paranaense Giovana Madalosso, ocorre já no terço final. Nela, Fernanda, uma das protagonistas, está começando a entrar em desespero por causa do desaparecimento de sua filha Cora. Já foi até a polícia, já percorreu a cidade, tudo meio em vão. A solução encontrada por Cacá, o marido gratiluz de Fernanda? Dispor um baralho de tarô na mesa de centro da bela casa em que residem, pra ver o que dizem as cartas. "O meu oráculo", como ele afirma. Não bastasse o absurdo da sequência em si, Cacá ainda faz questão de retirar a carta com um movimento devagar, supostamente calculado - aquela coisa de terapeuta holístico de ocasião, um tipo de negócio que a classe média adora (e que talvez os ajude, em alguma medida, com seus males). Quando vê um carro na carta, Cacá fica exultante. "O carro indica iniciativa, conquista", comenta o homem para, mais adiante, concluir: "ela certamente não foi a pé, e sim de táxi".

E eu admito a vocês que essa é a só a ponta do iceberg no que diz respeito ao desleixo de Fernanda e Cacá, em relação a criação de Cora. Pais ausentes e narcisistas, parecem muito mais preocupados com suas próprias existências - que incluem hedonismos escapistas e prazeres furtivos, que dão conta do completo vazio existencial que percorre suas almas. Fernanda é uma diretora de conteúdo de um programa de TV e é sondada para um cargo mais alto no canal em que trabalha. Anda pra lá e pra cá em viagens pelo Brasil, prestando contas para a produtora estrangeira a respeito de um documentário que está filmando. Numa dessas andanças, conhece (e se apaixona) por Yara, uma diretora de fotografia daquele tipo descolada, que não parece muito interessada em se prender a alguém. Ainda mais se esse alguém for uma mulher casada, insatisfeita com o seu casamento meia bomba e que, de quebra, ainda tem uma filha. Sobre Cacá, ele é apenas o marido "falso bobo", que a gente nem entende bem que papel que tem nesse mundo.

Tanto é que, quando o livro começa, nem chegamos a nos surpreender com os eventos em si: a obra inicia com Maju, a empregada do casal "sequestrando" Cora. Sim, do susto inicial, afinal de contas o roubo de crianças é um crime grave e uma chaga que assola o País e assombra pais dia e noite, a uma certa compreensão das intenções por trás do seu ato, não demora muito. E aqui, a meu ver, está o mérito inicial de Giovana: ao burlar os limites maniqueístas da equação óbvia entre mocinhos e bandidos, a escritora adiciona complexidade aos seus personagens (e a sua trama). Maju é a mulher de vida humilde que sempre foi uma espécie de segunda mãe para Cora. Aliás, talvez em alguns casos até primeira mãe (como a gente já cansou de ver por aí). Supostamente da "família" foi contratada por Fernanda para um regime quase servil, que envolvia dias seguidos de trabalho e eventuais folgas quinzenais - e nestas tinha direito, tal qual uma prisioneira de fato, a uma visita íntima em seu quartinho (a tal Suíte Tóquio do título).

Com uma prosa fluída, a autora conduz a trama em duas linhas narrativas. Em uma delas, Maju e Cora iniciam a sua jornada de ônibus, numa espécie de road movie improvisado. Que resultará acidentado mais adiante, quando perdem suas malas e a condução, indo parar em um motel decadente, tendo ainda de se virar a pé e em caronas pouco convidativas de caminhoneiros de beira de estrada. Nesta parte, também será possível perceber como Maju teve uma vida sofrida, também do ponto de vista do amor (o que parece estar diretamente relacionado a sua absurda rotina como doméstica, que lhe impedia de ter uma vida pra chamar de sua). Já na outra linha, acompanhamos a pasmaceira do casal central, com suas crises pessoais mesquinhas, suas idas e vindas e a inacreditável demora até constatar o que havia ocorrido com sua própria filha - um descaso que, vá lá, talvez beirasse o criminoso. O que também nos faz pensar sobre os delitos ocorridos no romance. Ao cabo, aqui temos a obra pé na estrada típica, com a vida dos personagens sendo movida por uma eterna busca de qualquer fiapo que seja - de ternura, de amor, de afeto, de sexo ou de redenção. Um projeto imperdível, vertiginoso e excentricamente cômico.


sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Curta Um Curta - O ABC da Proibição de Livros (The ABC of Book Banning)

O que os livros O Olho Mais Azul, de Toni Morrison, O Senhor das Moscas, de William Golding, O Conto da Aia, de Margaret Atwood, Matadouro 5, de Kurt Vonnegut e O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini têm em comum? Bom, além de serem grandes obras da literatura universal, eles integram uma bizarra lista de mais de duas mil publicações eliminadas de distritos escolares dos Estados Unidos. Classificados como restritos, questionados ou simplesmente banidos, os livros não estão disponíveis para milhares de estudantes em 37 estados do País. Sim, uma medida de apagamento que remonta o nazifascismo europeu e que censura obras de literatura queer e sobre questões raciais, além de publicações de cunho feminista ou de igualdade de gênero. Quem decide se este ou aquele livro pode ser lido? Muitas vezes integrantes das próprias comunidades escolares, representados por aquele "cidadão de bem" habituado à teorias conspiratórias, que variam do pânico moral à delírio comunista.

E o que o documentário em curta O ABC da Proibição de Livros (The ABC of Book Banning) faz? Bom, de forma muito corajosa o trio de diretoras Nazenet Habtezghi, Sheila Nevins e Trish Adlesic joga luz à essa questão, apontando as contradições por trás desse banimento, que busca supostamente "limpar" as prateleiras daquilo que consideram inadequado. Mesclando animações, imagens documentais e entrevistas, as realizadoras reúnem um grupo de crianças para discutir com naturalidade o tema - bem como o absurdo de proibir qualquer obra que seja. Nesse contexto, surge ainda uma voz relevante nessa luta, no caso o da centenária Grace Linn, uma defensora da democracia, da liberdade e da proteção da literatura, que realizou um discurso para mais de 500 pessoas em um condado da Flórida, no Texas (como não poderia deixar de ser, o paraíso desse perigoso tipo de controle). Carismática, criativa e muito dinâmica, a obra está disponível no Paramount Plus e é uma das indicadas na categoria Curta Documentário. Vale cada segundo!


quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Cinema - Folhas de Outono (Kuolleet Lehdet)

De: Ari Kaurismäki. Com Alma Pöysti, Jussi Vatanen e Janne Hyyti'inen. Drama / Comédia, Finlândia, 2023, 81 minutos.

Quem acompanha a carreira do diretor Ari Kaurismäki já sabe que há uma certa tradição na sua obra, de unir o universo do trabalho com o das relações pessoais, estabelecendo um vínculo entre esses ambientes, apontando como um afeta o outro. Em seus filmes - sempre experiências meio secas, dotadas de um humor sombrio, torto, que parece até mesmo rir do absurdo do mundo - somos apresentados a figuras que parecem buscar seu lugar no mundo, ao passo que vivem rotinas vazias, ocas, repetitivas. Ainda assim é nesse aspecto mais ordinário da existência - em seus acasos, surpresas, pequenos acontecimentos -, que parece residir a sua força narrativa. Sim, não há grandes eventos aqui. Ainda que a violência meio institucionalizada esteja meio pelas frestas. Com as personagens e suas expressões opacas funcionando como uma espécie de resposta resignada, letárgica. O que, em alguma medida os deixa imobilizados.

E talvez não seja por acaso que uma de suas principais trilogias tenha recebido o sugestivo nome de Trilogia do Proletariado. Nessa trinca de filmes intitulados de Sombras no Paraíso (1986), Ariel (1988) e A Garota da Fábrica da Caixas de Fósforos (1990), a pasmaceira existencial é evidenciada em rimas visuais que colocam seus protagonistas como figuras vulneráveis, eventualmente alienadas, que apenas subsistem em meio a mecanicidade do mundo. Na terceira obra da trilogia, talvez não seja por acaso, por exemplo, que o diretor se prenda tanto em sequências que mostrem os maquinários em funcionamento, em cenas meio repetidas, que se alternam pela busca niilista de algum tipo de prazer eventual - seja em cigarros infinitamente acendidos, seja em boates aleatórias, com músicas estranhas. É um universo meio que de fanfarronice, que vai no limite entre o documental e o excêntrico, entre a crítica social e a besteirada.

Sim, já vi muita gente falando que não gosta tanto do estilo do realizador justamente por esse certo apelo ao deboche, como forma de analisar a tragédia da vida. E tá tudo bem. Mas um olhar mais apurado possibilitará justamente entender essa contraposição entre indústrias barulhentas e seus chefes cheios de exigências pra cima do proletariado, que contrastam com bares, karaokês, bebidas e hoteis decadentes. A propósito, a Finlândia que o diretor apresenta costuma se distanciar daquela que nos acostumamos a ouvir falar - a da qualidade de vida acima de tudo. Nas suas obras sobram criminosos, estelionatários, cenários sombrios, grosserias diversas. No recente Folhas de Outono (Kuolleet Lehdet), que venceu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, todo esse expediente se repete, sendo reforçado e martelado por notícias que saem do rádio e da televisão, a respeito das guerras do mundo e de outras tragédias universais - o que talvez tornasse ainda mais mesquinha a busca particular (e hedonista) por felicidade? Talvez.

Na trama, Ansa (Alma Pöysti) é uma funcionária que trabalha no estoque de um supermercado e que perde o emprego após tentar esconder um sanduíche vencido que deveria ir para o lixo. Por outro lado, Holappa (Jussi Vatanen) é um operário de uma empresa de jateamento de areia, que também está por um fio no seu cargo por conta do alcoolismo. Duas almas solitárias que se cruzarão, a partir de um acontecimento absolutamente fortuito: no caso a prisão do novo chefe de Ansa, em seu novo emprego. Só que as tentativas de estabelecer vínculo meio que falharão miseravelmente: Holappa simplesmente perderá o bilhete em que Ansa escreve o seu número de telefone. O que fará com que os dois batam cabeça pela cidade, em meio a calçadas, ruas e cinemas. Com diálogos curtos e muitos silêncios, esse é aquele tipo de experiência que se vale de olhares e de movimentos corporais sutis mas que dizem muito. Pode não ser tão palatável, mas tem aquela coisa do cinema pelo cinema, da arte acima de tudo. Que foge de convenções e que tem personalidade própria em sua análise contemporânea das relações humanas.

Nota: 8,5


terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Pitaquinho Musical - Bill Ryder-Jones (Iechid Ya)

Uma mistura de Arcade Fire com Mercury Rev - especialmente o da fase Deserter's Songs (1998) -, adicionada de um tequinho de MPB e muito provavelmente teremos o resultado, em termos de sonoridade, do que é Iechid Ya, o quinto disco de Bill Ryder-Jones em carreira solo. Ex-integrante do The Coral, o artista inglês elabora, aqui, uma coleção de canções que evoluem para além do folk mais simplificado visto em trabalhos anteriores - caso de Yawn (2018) -, para adicionar uma série de outros ingredientes. O resultado são canções que vão no limite entre o onírico e o agridoce, o nostálgico e o encantador - o que pode ser percebido já na inaugural I Know That It's Like This (Baby), uma música que homenageia a ex-namorada, a brasileira Christinha (o que também explica a presença do sampler de Baby, entoado por uma Gal Costa que parece diluída no mundo dos sonhos).

 



Em linhas gerais esta também é uma obra de contrastes. Se por um lado as letras podem pender pra certo existencialismo, como no caso do single If Tomorrow Starts Without Me  (Valeu a pena esperar? / Quanto isso vale para você? / E parece bom estar de passagem), uma música sem refrão e imersa em uma sofisticação pegajosa, por outro o coralzinho infantil que surge na ótima We Don't Need Them insere um componente meio lúdico à coisa toda. Sentimento ampliado pelo tambor de fanfarra, pelo pianinho agridoce e pelo refrão popíssimo. Mas o brilho mesmo vem de composições angustiadas, meio empoeiradas, que versam sobre as lutas para manter sanidade mental (não podemos esquecer que depois do último disco houve uma tal de pandemia), e que dialogam com o melhor da psicodelia noventista, casos de This Can't Go On e e Thankfully for Anthony (esta última, sério, será a melhor do ano).

Nota: 8,5


Onze Considerações Sobre os Indicados ao Oscar 2024

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas revelou na manhã desta terça-feira (23/01), os indicados ao Oscar 2024. A cerimônia ocorre na noite do dia 10 de março, o que permite uma boa janela para que consigamos nos atualizar - e conferir o maior número de filmes possíveis (o que sempre é algo prazeroso, especialmente para os que gostam da temporada de premiações). Como de praxe, a gente faz uma pequena listinha com algumas análises sobre os nominados, destacando esnobes, ausências e obviedades da relação!

1) Começando pela lista de Melhor Filme que, a bem da verdade, não teve nenhuma grande surpresa. Quem acompanha de perto as prévias, já tinha mais ou menos o desenho estabelecido. E, honestamente, fico feliz em ver blockbusters como Barbie disputando o mesmo espaço com queridinhos do cinema alternativo, como Vidas Passadas. O favorito da categoria parece ser Oppenheimer que, com suas treze indicações, chega com força à disputa.

2) Nas categorias de interpretação não há dúvida de que a ausência mais sentida pelos fãs é a de Margot Robbie, a nossa atual (e eterna) Barbie. Só que, de forma diametralmente oposta, a presença de America Ferrera entre as lembradas como Atriz Coadjuvante, foi uma boa surpresa! Falando em surpresa, não levava muita fé na Annette Bening por Nyad, até mesmo porque o filme não é aquilo tudo. Mas tanto a veterana quanto Jodie Foster foram lembradas pela obra.

 

3) Já entre os atores, um leve esnobe rolou para o Bradley Cooper que, a despeito da campanha massiva, foi ignorado por seu trabalho em Maestro (ainda que o filme tenha sido lembrado em muitas outras categorias). O mesmo valendo para o Leonardo DiCaprio, que ficou de fora por Assassinos da Lua das Flores. Entre os coadjuvantes, imaginava-se que Charles Melton poderia ter sido lembrado por Segredos de Um Escândalo. Aliás, em linhas gerais é possível afirmar que a obra de Todd Haynes foi uma decepção - especialmente nas categorias de interpretação, onde havia grande expectativa. Além de Melton, Natalie Portman e Juliane Moore ficaram de lado (o que não tira o brilho do filme, que terá resenha em breve por aqui). Em tempo: muito bom ver o Sterling K. Brown - o eterno Randall, de This Is Us, lembrado por American Fiction, filme que ainda não vimos (mas já amamos).

4) Foi muito legal ver a Justine Triet, de Anatomia de Uma Queda, sendo lembrada na categoria Direção. Só que a presença dela significou a ausência da Greta Gerwig que, imaginava-se, podia concorrer por Barbie. No mais, esta também foi uma categoria sem grandes surpresas.

5) Agora, surpresa MESMO veio da categoria Documentário - algo que, aliás, tem ocorrido nos últimos anos. Como assim o Still: A História de Michael J. Fox sendo solenemente ignorado? E o que dizer de American Symphony, com toda a campanha massiva feita pela Netflix?  Bom, por outro lado, esse cenário também significa visibilidade para filmes que, até então, eram menos comentados, caso de Bobi Wine: O Presidente do Povo.

 

6) Uma esnobada FORTE parece ter sido na categoria Roteiro Adaptado, com a ausência de Assassinos da Lua das Flores. Não li o livro base, mas até onde entendi, a equipe que trabalhou o roteiro teria mexido bastante no texto (especialmente nas partes que se referem ao FBI), o que fez com que o apelo fosse reduzido. 

7) Em relação aos filmes estrangeiros, o Dalenogare passou a temporada toda dizendo que a França jogou no LIXO não apenas a chance ter um indicado forte como Anatomia de Uma Queda, como muito provavelmente seria o favorito na sua categoria. Resultado: Sabor da Vida, o enviado oficial, ficou de fora. Assim como Folhas de Outono, o novo projeto do sempre excêntrico Ari Kaurismäki (aliás, uma pena).

8) Uma surpresa enorme na categoria Animação foi a presença de Meu Amigo Robô entre os lembrados - o que deixa para trás mesmices como o novo das Tartarugas Ninja.

9) A gente quase não fala das categorias de curta, mas na relação de live action creio que a ausência mais sentida seja a de Estranha Forma de Vida, o famoso filme dirigido por Pedro Almodóvar, que é estrelado por Pedro Pascal e Ethan Hawke. 

10) Nas categorias técnicas, uma das mais aplaudidas pelo público presente foi a lembrança de Godzilla Minus One para Efeitos Visuais. O hype em cima desse filme tá tanto que essa indicação talvez seja o empurrãozinho que faltava para assistir o filme. Já em Fotografia, que bacana ver O Conde sendo lembrado - um filme do começo do ano passado, muitas vezes ignorado, mas que vale ser (re)descoberto. Surpresa das boas)

11) E o Saltburn, hein galera? Que sai com simplesmente ZERO indicações?

 

Confira a lista completa:

Melhor Filme

    American Fiction
    Anatomia de Uma Queda
    Barbie
    Os Rejeitados
    Assassinos da Lua das Flores
    Maestro
    Oppenheimer
    Vidas Passadas
    Pobres Criaturas
    Zona de interesse

Melhor Ator Coadjuvante

    Sterling K. Brown (American Fiction)
    Robert de Niro (Assassinos da Lua das Flores)
    Robert Downey Jr. (Oppenheimer)
    Ryan Gosling (Barbie)
    Mark Ruffalo (Pobres Criaturas)

Melhor Atriz Coadjuvante

    Emily Blunt (Oppenheimer)
    Danielle Brooks (A Cor Púrpura)
    American Ferrera (Barbie)
    Jodie Foster (Nyad)
    Da'vine Joy Randolph (Os Rejeitados)

Melhor Figurino

    Barbie
    Assassinos da Lua das Flores
    Napoleão
    Oppenheimer
    Pobres Criaturas

Melhor Maquiagem e Cabelo

    Golda
    Maestro
    Oppenheimer
    Pobres Criaturas
    Sociedade de Neve

Melhor Curta Metragem em Live

    The After
    Invincible
    Knight of Fortune
    Red, White and Blue
    The Wonderful Story of Henry Sugar

Melhor Curta de Animação

    Letter to a Pig
    Ninety-Five Senses
    Our Uniform
    Pachyderme
    War Is Over! Inspired by the Music of John & Yoko

Melhor Roteiro Adaptado

    American Fiction
    Barbie
    Oppenheimer
    Pobres Criaturas
    Zona de Interesse

Melhor Roteiro Original

    Anatomia de uma Queda
    Os Rejeitados
    Maestro
    May December
    Past Lives

Melhor Canção Original

    “The Fire Inside” (Flamin’ Hot)
    “I’m Just Ken” (Barbie)
    “It Never Went Away” (American Symphony)
    “Wahzhazhe (A Song For My People)” (Assassinos da Lua das Flores)
    “What Was I Made For?” (Barbie)

Melhor Trilha Sonora

    American Fiction
    Indiana Jones e a Relíquia do Destino
    Assassinos da Lua das Flores
    Oppenheimer
    Pobres Criaturas

Melhor Documentário

    Bobi Wine: The People’s President
    The Eternal Memory
    Four Daughters
    To Kill a Tiger
    20 Days in Mariupol

Melhor Documentário Curta

    The ABCs of Book Banning
    The Barber of Little Rock
    Island in Between
    The Last Repair Shop
    Nǎi Nai & Wài Pó

Melhor Filme Internacional

    Io Capitano (Itália)
    Perfect Days (Japão)
    Sociedade da Neve (Espanha)
    The Teachers’ Lounge (Alemanha)
    Zona de Interesse (Reino Unido)

Melhor Animação

    O Menino e a Garça
    Elementos
    Nimona
    Homem-Aranha: Através do Aranhaverso
    Robot Dreams

Melhor Design de Produção

    Barbie
    Assassinos da Lua das Flores
    Napoleão
    Oppenheimer
    Pobres Criaturas

Melhor Montagem

    Anatomia de Uma Queda
    Os Rejeitados
    Assassinos da Lua das Flores
    Oppenheimer
    Pobres Criaturas

Melhor Som

    Resistência
    Maestro
    Missão: Impossível - Acerto de Contas Parte Um
    Oppenheimer
    Zona de Interesse

Melhores Efeitos Visuais

    Resistência
    Godzilla Minus One
    Guardiões da Galáxia Vol. 3
    Missão: Impossível - Acerto de Contas Parte Um
    Napoleão

Melhor Fotografia

    El Conde
    Assassinos da Lua das Flores
    Maestro
    Oppenheimer
    Pobres Criaturas

Melhor Ator

    Bradley Cooper (Maestro)
    Colman Domingo (Rustin)
    Paul Giamatti (Os Rejeitados)
    Cillian Murphy (Oppenheimer)
    Jeffrey Wright (American Fiction)

Melhor Atriz

    Annette Bening (Nyad)
    Lily Gladstone (Assassinos da Lua das Flores)
    Sandra Hüller (Anatomia de uma Queda)
    Carey Mulligan (Maestro)
    Emma Stone (Pobres Criaturas)

Melhor Direção

    Justine Triet (Anatomia de uma Queda)
    Yorgos Lanthimos (Pobres Criaturas)
    Christopher Nolan (Oppenheimer)
    Martin Scorsese (Assassinos da Lua das Flores)
    Jonathan Glazer (Zona de Interesse)

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Novidades em Streaming - How to Have Sex

De: Molly Manning Walker. Com Mia McKenna-Bruce, Lara Peake e Enva Lewis. Drama, Grécia / Reino Unido, 2023, 91 minutos.

Quando chegam à ilha grega de Malía para passar as férias de verão, Tara (Mia McKenna-Bruce), Em (Enva Lewis) e Skye (Lara Peake) são pura empolgação juvenil. Do alto dos seus cerca de dezessete anos, estão no local só pelas festas, pela bebedeira, pela azaração. Pelos encontros e desencontros típicos da idade - e enquanto assistia a How to Have Sex, a magnética estreia em longas da diretora Molly Manning Walker, me perguntava onde essa trama ia desembocar. Tara, especialmente, chega ao lugar como uma jovem iluminada, que parece bem no meio da transição entre certa infantilidade destemida - ela se agarra as demais, brinca o tempo todo, gargalha - e a necessidade urgente de chegar à vida adulta. Com uma espécie de barreira que parece demarcar esse limite entre um ponto e outro, no caso o fato de, entre as três amigas, ser a única que ainda não transou (ainda que o conceito de virgindade, nos dias de hoje, pareça ser bem mais amplo do que a mera penetração em si).

E mesmo que se divirta muito com as demais amigas, é interessante notar como essa pressão angustia Tara. O que fará com que, aos poucos, e no decorrer daqueles dias insuportavelmente agitados de verão, seu brilho vá se apagando. Tara é uma garota absolutamente linda - ou ao menos atende certo padrão, naquilo que se estabelece como belo nessa sociedade de aparências acima de tudo. E ela deveria ter, ao menos em tese, total tranquilidade para decidir como, quando, onde e por quê deveria se relacionar (ou transar) com quem quer que fosse. Só que não é o que acontece - e a meu ver é isso que torna esse projeto, que venceu a mostra Um Certo Olhar no mais recente Festival de Cannes - tão especial. No final da adolescência, ao cabo, parece que precisamos fazer tudo para ontem sendo que temos toda a vida ainda pela frente. E, imaturos, talvez sejamos incapazes de perceber as coisas que nos rodeiam de uma forma mais ampla, mais crítica e fazendo valer as nossas vontades que vão para além dos papeis previamente "escritos" (ainda mais para as mulheres, diante de todas as violências que sofrem o tempo todo).

Nesse sentido, não deixa de ser interessante notar como Tara, aparentemente, vai cansando de tudo aquilo. Daquele ambiente que, não demorará, se apresentará inóspito para uma menina tão jovem, tão pequena e pressionada pelas incertezas que misturam baixa autoestima, com necessidade permanente de validação. Aos poucos a carga vai ficando pesada, as bebedeiras parecem perder o sentido em meio a vômitos, mal estar generalizado e sentimento de solidão - com tudo piorando quando a protagonista sofre uma violência grotesca que, geração a geração, parece se perpetuar uma sociedade machista, misógina e invariavelmente estúpida. O que não deixa de ser uma espécie de paradoxo, uma vez que jovens que se vendem como quebradores de regras, que bebem, se drogam e praticam sexo mais livremente do que nunca, parecem incapazes de se livrar de práticas que, ao cabo, não deveriam ser repetidas. Ainda mais sem consentimento.

De estilo frenético e claustrofóbico o filme discute, em apenas noventa minutos, um sem fim de temas que assolam a juventude - de sensação (e necessidade) de pertencimento, passando por responsabilidade afetiva, aceitação, hipervalorização do sexo, aparências, sororidade, conceitos de masculinidade e relacionamentos abusivos (sendo importante veículo de identificação dessas ocorrências). Pouco antes de efetivar sua primeira transa com um esquisito qualquer - um gurizinho com a autoestima na lua -, Tara afirma não estar à vontade, por estarem na praia, com areia por toda a parte. Ao que o jovem responde com um "não seja estranha" - já que forçar a barra na orla deve ser, em sua visão deturpada, algo entre o romântico e o safado. Em alguns momentos a obra, que está disponível na Mubi, pode soar incômoda, não apenas pela temática em si, mas pelo frenesi constante, que nos leva do riso à reflexão em segundos. Mas essa é uma experiência bastante sensorial também sobre rupturas. E sobre quando percebemos o aumento de nossa capacidade em tomar decisões, deixando para trás inclusive certas amizades (se assim for necessário).

Nota: 8,5