quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Cine Baú - Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso)

De: Giuseppe Tornatore. Com Marco Leonardi, Philippe Noiret, Jacques Perrin e Agnese Nano. Drama, França / Itália, 1988, 124 minutos.

Confesso que em tempos tão brutos como os que vivemos, revisitar um clássico juvenil como Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso) me fez bem. É um filme açucarado, leve, divertido. Com uma dupla de protagonistas - no caso o menino Totó (Marco Leonardi) e o projecionista de cinema Alfredo (Philippe Noiret) -, que nos comove o tempo inteiro e que nos faz pensar no quão magnífica é essa paixão que nos "alimenta" (e que emana da tela grande). Sim, quem gosta de cinema tem um motivo a mais para já ter assistido à obra-prima de Guiseppe Tornatore mais de um punhado de vezes. Na história de ascensão e queda do cinema que dá nome ao título - localizado em uma Sicília ainda nos anos 50 -, uma verdadeira homenagem à sétima arte, seus astros, estrelas, produtores e diretores, incansáveis no objetivo de entreter o espectador. Aliás, não apenas entreter: fazer pensar, a partir do poder transformador da arte.

O menino Totó (ou Salvatore) é o que cada um de nós já foi na infância: curioso, destemido, incompreendido, sapeca. Logo no começo do filme ele surge na versão adulta, quando recebe uma triste notícia. E será a partir dela que ele rememorará todos os principais episódios de sua juventude, especialmente aqueles que envolvem a amizade com Alfredo. Aliás, uma amizade que se estabelece de forma meio truncada, torta, já que o garoto insiste em "invadir" a sala de projeção, sem necessariamente ter sido convidado. Não por acaso, entre uma ida a escola e outra (onde ele não é o melhor aluno), Totó usa o dinheiro que a sua sofrida mãe lhe dá para pagar contas ou comprar mantimentos para assistir a mais recente película. Em uma enternecedora sequência, Alfredo salva a pele dele, lhe devolvendo de maneira inesperada o dinheiro "perdido". E lhe livrando de uma surra, em um episódio que reafirma a amizade de ambos.



Agrupando sequências divertidas e memoráveis - como a que envolve o padre que censura as cenas de beijo ou aquela em que Alfredo pede cola para Totó na sala de aula -, com outras que devastarão o espectador (como esquecer do acidente que destrói o cinema, tornando Alfredo cego?), o filme fará um salto no tempo para mostrar Salvatore já na vida adulta (Jacques Perrin). Apaixonado por Elena (Agnese Nano) e trabalhando com um novo empresário local de nome Spaccafico (Enzo Cannavale), o rapaz agora moverá mundos e fundos na tentativa de conquistar o seu amor. É o momento em que o filme perde um pouco da sua graciosidade juvenil, para investir no romance brega a moda dos anos 80 - com direito a trilha sonora ultramelosa concebida pelo mestre Ennio Morricone. Mas nem tudo serão rosas e Totó terá de sair de sua terra Natal, em busca de novas oportunidades (para mim, um dos acertos da obra é não centrar a felicidade exclusivamente nas oportunidades do amor).

Ultrapassada em alguns aspectos (o que é a cena da professora SURRANDO um aluno que não sabe a tabuada, com direito a bater a cabeça dele na parede?), romanticamente kitsch em outros (Salvatore espera por 100 dias que a sua amada Elena abra uma janela como demonstração de amor), o filme é uma sucessão de eventos cômicos e trágicos sendo um verdadeiro triunfo que dificilmente não deixará o cinéfilo comovido. E que culminarão no retorno de Salvatore ao seu local de origem, que resultará na inesquecível cena final, que faz com que o homem relembre o seu primeiro encontro com Alfredo. Uma obra sobre o poder da amizade, sobre a força e a paixão provocados pelo cinema. Aliás, não é por acaso que Cinema Paradiso não apenas ganhou o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira na cerimônia de 1990, como costuma figurar em todas as listas de grandes obras da história do cinema. Simplesmente inesquecível.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Novidades em DVD/Now - Boas Intenções (Les Bonnes Intentions)

De: Gilles Legrand. Com Agnés Jaoui, Claire Sermonne e Alvan Ivanov. Comédia dramática, França, 2019, 103 minutos.

São as mais variadas as formas das classes mais abastadas expiarem a culpa pelas diferenças sociais existentes no mundo. Da participação no Rotary ao envolvimento em projetos locais, vale tudo para reduzir o sentimento de desigualdade que, em muitos casos, tem muito mais a ver com massagem no próprio ego do que um efetivo pensamento em uma política mais igualitária. Aliás, se assim fosse, a grande maioria dos ricos não votaria em candidatos que buscam a manutenção do status quo. E assim, aquela madame generosa que vai a Igreja todo o domingo, segue fazendo caridade enquanto o mundo gira com milhares de pessoas passando fome, em guerra, morrendo. Com ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres. Bom, em partes o que o filme Boas Intenções (Les Bonnes Intentions) mostra, é uma dessas tantas histórias: no caso, a da voluntária em projetos humanitários Isabelle (Agnés Jaoui).

Isabelle, diferentemente da "madame" que mencionei no parágrafo anterior, dedica todos os minutos de sua vida ao ativismo. Com uma vida confortável (não luxuosa), um marido e dois filhos, auxilia imigrantes doando roupas e ministrando aulas de francês para estrangeiros. Em sua rotina, se vê rodeada por chineses, búlgaros, congoleses e até brasileiros. O envolvimento é tanto, que ela até esquece que tem uma família em casa. E tudo piora quando aparece uma nova professora, a graciosa alemã Elke (Claire Sermonne) que, com uma nova e moderna metodologia, faz Isabelle se sentir ultrapassada. Lembra do que falei sobre ego? É nesse momento que a nobre intenção da protagonista da lugar a uma espécie de "guerra particular" para ver quem se sai melhor na tarefa. Com tudo piorando quando o instrutor de CFC Attila (Alvan Ivanov), "entra" abruptamente em sua vida.


Com narrativa fragmentada, o filme de estreia do diretor Gilles Legrand possui vários arcos dramáticos, discutindo muita coisa ao mesmo tempo - de dramas familiares, passando pela busca da aceitação até chegar a tentativa angustiada de "resolver" a miséria do mundo. De alguma forma, a obra também coloca em cheque o caráter ilibado dos bem-feitores de nossa sociedade - não teriam eles também seus preconceitos, como a gente percebe em uma das primeiras sequências em que Isabelle interage com os imigrantes? Com momentos de leveza, alternados com outros mais comoventes, a película parece em muitos momentos ter dificuldade de se decidir entre a comédia e o drama, entre a crítica política ou o escracho social. Sem tomar partido, estabelece a problematização a partir dos mais variados ângulos: não há certo ou errado e sim pessoas sonhando, exercitando suas vocações, tentando, errando e tentando novamente, errando mais um pouco e acertando.

Na ânsia de ajudar os "seus" imigrantes, Isabelle acaba brigando com praticamente toda a sua família. Mas ela está certa em adotar essa postura? Ela precisa individualizar um problema tão grande, gerando outros tantos conflitos? O filme te faz pensar nessas questões e nos faz também colocar a mão na consciência a respeito de nossas atitudes para tornar este um mundo melhor - ou minimamente com menos ódio, preconceito e intolerância entre povos. Com fotografia naturalista e trilha sonora econômica, o filme caminha para um terço final em que todos procurarão compreender, de forma coletiva, as suas motivações. Aliás, eu acredito que, para filmes do gênero funcionarem, é preciso que a gente se importe com aqueles que assistimos: isso em partes acontece. Sim, em partes, afinal de contas aqueles que assistimos não passam de humanos.

Nota: 7,0

Novidades em Streaming - Cigarettes After Sex (Disco)

Os fãs do Cigarettes After Sex finalmente podem celebrar o lançamento de seu novo álbum: Cry foi disponibilizado na última sexta (25/10) e já chegou arrebatando os corações de quem acompanha a eletrônica enfumaçada e atmosférica da banda. O padrão permanece o mesmo do homônimo registro de estreia: composições sobre amores sinuosos, suas idas e vindas, dores e frustrações, embalados por melodias econômicas, minimalistas, que sugerem uma espécie de mistura gostosa do Interpol com o The xx. Eu costumo brincar que o Cigarettes, com seu lo-fi potente e romantismo flamejante, é a trilha sonora ideal pra quem aguarda a chegada do parceiro(a) que te acompanhará até a madrugada, com um bom vinho, pouca luz e muito lençol desarrumado. Se você ainda não testou isso, faça. E se tiver sozinho faça também, já que ninguém resiste a um bom pop de melodia elegante.


segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Picanha.doc - Estou Me Guardando Pra Quando o Carnaval Chegar

Eu vejo a barra do dia surgindo
Pedindo pra gente cantar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu tenho tanta alegria, adiada
Abafada, quem dera gritar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

(Chico Buarque - Quando o Carnaval Chegar)

De: Marcelo Gomes. Documentário, Brasil, 2019, 85 minutos.

Era o ano de 1972 quando Chico Buarque de Holanda lançou a canção Quando o Carnaval Chegar. Ele tinha retornado do exílio, mas suas ações eram observadas de perto pelos militares. Sempre habilidoso com as palavras, utilizou esta, assim como tantas outras músicas, para, metaforicamente, atacar o regime que oprimia a população. O Carnaval, a festa, a cor, a vida e a alegria eram o símbolo para a liberdade política, social e cultural almejada, que tardaria mas chegaria. Quarenta e sete anos depois, o ótimo documentário Estou Me Guardando Pra Quando o Carnaval Chegar, de Marcelo Gomes, utiliza expediente semelhante ao tratar a festa máxima de nosso País como um refúgio, um pequeno espaço de celebração para o combalido povo trabalhador do agreste pernambucano. Mais precisamente, para a população de Toritama, que é conhecida por ser a "capital nacional do jeans".

Com ares autobiográficos, Gomes retorna ao local em que cresceu - uma cidadela calma e pacata -, para encontrar um município invadido por um sistema de fabricação industrial de peças jeans, que movimentam a economia, exaurindo sua população. Praticamente em todas as casas de Toritama o que se ouve são máquinas de costura e outros equipamentos, trabalhando por praticamente 24 horas diárias, numa lógica que determina que "quanto mais se produzir, mais se vai ganhar". Com cada peça produzida rendendo de 10 a 20 centavos para o operário, o valor ao final do dia será diferente se a produção for de mil ou de duas mil calças. O que podem representar jornadas de quase 18 horas diárias, em alguns casos. Tudo sem direitos trabalhistas. Sem equipamentos de proteção - o barulho é ensurdecedor. E, o pior, sem nenhuma consciência a respeito do massacre que praticamente os escraviza em troca de algum dinheiro: a grande maioria dos trabalhadores está feliz, por reconhecer o poder de "decidir" sobre aquilo que fará com o seu tempo.



Muito mais do que um filme que denuncia a precarização do trabalho nos rincões brasileiros, a obra parece dar conta do estado de letargia coletiva que move a nossa população. Muitos valorizam a oportunidade de trabalhar, ignorando o mal-estar promovido pelas jornadas exasperantes (e não são poucos os instantes em que a câmera sinuosa do diretor flagrará algum dos moradores dormindo em qualquer canto e em qualquer oportunidade). O cansaço é latente, mas ninguém desanima. Ao contrário: a população de Toritama se orgulha de ser responsável por 20% (pasme!) do mercado nacional de jeans, com 20 milhões de peças produzidas ao ano. Detalhe: o município conta com cerca de 40 mil habitantes. Que trabalharão exaustivamente durante todo o ano, para tentar levantar o dinheiro que lhes possibilite ir a praia durante o Carnaval. Tentar, já que muitos precisarão vender móveis e eletrodomésticos para alcançar esse objetivo. O Carnaval, já dizia Chico, era custoso pra chegar.

No desenvolvimento da película, Gomes utiliza alguns recursos que transformam a obra em uma experiência ao mesmo tempo excêntrica, melancólica e sensorial. O contraste entre os corpos suados dos trabalhadores e as máquinas barulhentas, com os mesmos movimentos sendo repetidos indefinidamente, dão conta da estupidez dos dias que correm sempre do mesmo jeito, e sempre e sempre e sempre (alguns planos-sequência do trabalho ocorrendo chegam quase a gerar alguma angústia e o uso do som nesses instantes é avassalador). Entre as personalidades locais, um homem de nome Léo diverte com as suas divagações sobre tudo, apresentando inclusive um tipo de consciência meio torta a respeito daquilo que se vive em Toritama. Com dificuldade pra falar de seus sonhos - a vida é apenas trabalhar -, a população avança com poucas perspectivas, orgulhosa daquilo que não deveria se orgulhar: de ser escravizada enquanto aguarda o Carnaval chegar. Um filme duro, áspero e sutil que expõe a ideologia neoliberal como um modelo que impede o oprimido de enxergar a própria opressão.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Pérolas da Netflix - A Lavanderia (The Laundromat)

De Steven Soderbergh. Com Meryl Streep, Antonio Banderas, Gary Oldman, Sharon Stone e James Cromwell. Comédia dramática, EUA, 2019, 96 minutos.

Um filme como A Lavanderia (The Laundromat) teria tudo para ser verborragicamente chato se fosse um drama. Imagina pegar um tema real como o caso dos Panama Papers que, em 2016, denunciaram um esquema de fraudes milionário e que envolvia empresas de diversos países, para tratá-lo de forma solene e séria? Talvez funcionasse em um bem organizado documentário, mas o que o sempre versátil diretor Steven Soderbergh (Traffic) faz aqui é utilizar um tom de deboche que combina bem com o absurdo da ação de figuras inescrupulosas que, instaladas em escritórios fictícios, criam empresas de fachada que, por meio de evasão fiscal e outras negociatas, ganharão milhões às custas de pessoas comuns. Sim, o filme toma partido, tendo como alvo os próprios Estados Unidos e as suas brechas que permitem, por exemplo, que 60 de suas maiores empresas sejam isentas de pagar qualquer imposto sobre US$ 79 bilhões de renda bruta. BILHÕES!

Bom, um desses escritórios de advocacia fraudulentos era comandado por Ramón Fonseca (Antonio Banderas) e Jürgen Mossack (Gary Oldman), diretamente do Panamá. O filme começa com a dupla conversando diretamente conosco, quebrando a quarta parede, enquanto explicam de forma bastante didática sobre "crédito" e sobre como ele foi criado para que não precisemos mais levar conosco "milhares de tirinhas de papel no bolso", que também podem ser transformadas na grana que vem do futuro. Commodities, empréstimos, ações, títulos, fundos, mercados futuros, derivativos, securitização, chamada de margem e outros termos servem para introduzir o tema e para dizer que o dinheiro - aliás, nunca houve tanto dele! - pode ter outros nomes. O cenário em que ambos trafegam vai da pré-história até chegar a uma galante festa, em um plano sequência de quase cinco minutos, que dará o tom da película. Leve, colorido, sarcástico.



Mas ainda que o assunto seja tratado com leveza, a severidade das ações inescrupulosas dos protagonistas logo serão despejadas na tela quando um acidente de barco que levava um grupo de férias, resulta na morte de 21 pessoas. Impedida de ter uma indenização justa e sem conseguir o apartamento que desejava no acordo que resultou na morte de seu marido, uma mulher de nome Ellen Martin (Meryl Streep, que provavelmente será indicada ao Oscar pelo papel), resolve investigar por conta própria a empresa que está lhe dando o calote. É a partir das ações dela que o filme se desenvolverá em capítulos, que servirão como pequenas esquetes que mostrarão as mais variadas faces dos esquemas. Ás vezes a gente vai achar meio estranho que a obra enverede por um caminho diferente daquele que esperávamos para, mais adiante, retornar para os trilhos. Tudo terá sentido com o fio condutor sendo as tramoias da dupla por trás da empresa Mossack e Fonseca.

Recheada de participações especiais - de Sharon Stone à David Schwimmer, passando por James Cromwell e Will Forte -, o filme flanará com leveza, ainda que aborde o mal-estar da modernidade, que pode ser provocado pela ganância e pela ânsia de obter vantagens financeiras. Brigas familiares, ocultação de informações, chantagens diversas e outros estratagemas surgem com uma naturalidade que não surpreende, quando o assunto é a pretensão da riqueza. Reservando uma pequena surpresa para o final, o filme ganha um tom mais austero em sua reviravolta, com uma de suas figuras centrais personificando a busca por justiça e estabelecendo o debate sobre Reforma Tributária ou Fiscal como mais do que urgente. Sobra até para a brasileira Odebrecht, que é citada por pagamento de propinas para favorecer obras ao redor do mundo. A gente se diverte mas, no final, está rindo mesmo é do absurdo.

Na Espera - Jojo Rabbit (Filme)

Entre os filmes que aparecem na bolsa de apostas para a próxima edição do Oscar é provável que nenhum desperte tanta curiosidade quanto este Jojo Rabbit (Jojo Rabbit), que tem sua estreia prevista para o próximo dia 6 de fevereiro de 2020 - e que provavelmente deve estar na principal categoria da maior premiação do cinema. A obra, dirigida por Taika Waititi (de Thor: Ragnarok) parece uma bem elaborada sátira a respeito do absurdo dos sistemas totalitários - nesse caso, mais especificamente do Nazismo - ao narrar a história do jovem Jojo (Roman Griffin Davis) que, em meio a Segunda Guerra Mundial, tem seu mundo virado de cabeça para baixo quando descobre que sua mãe (Scarlett Johansson) esconde uma jovem judia (Thomasin McKenzie) no sótão de sua casa.


Com a ajuda de um estúpido amigo imaginário que é a cara de Adolf Hitler (o próprio diretor interpreta), o menino precisará confrontar o seu nacionalismo cego, quando uma amizade entre ele e a jovem começar a surgir. O tom do trailer é de completo deboche, com direito a cores leves e vibrantes, piadas engraçadas e trilha sonora acolhedora (tem um David Bowie lá no meio). Tendo em Bastardos Inglórios (2009), o último grande filme que debochava do Nazismo - e não são poucos, de O Grande Ditador (1940) até o recente Ele Está de Volta (2015) -, a expectativa é alta, ainda mais se levarmos em conta a participação de atores coadjuvantes como Sam Rockwell (que interpreta um oficial do Reich) e Rebel Wilson. Bom, a gente nem precisa dizer que já está Na Espera!





segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Cinema - A Luz no Fim do Mundo (Light of My Life)

De: Casey Affleck. Com Anna Pniowsky, Casey Affleck, Elisabeth Moss e Tom Bower. Drama / Ficção Científica, EUA, 2019, 118 minutos.

No cenário pós-apocalíptico pensado para o filme A Luz no Fim do Mundo (Light of My Life), uma doença de difícil explicação praticamente dizimou as mulheres do mundo. É nesse contexto que um pai (vivido por Casey Affleck, que também dirige e produz) deve se esforçar para proteger a sua filha (a ótima Anna Pniowksy) de algum perigo que, não sabemos exatamente qual. A trama começa com os dois isolados em uma floresta, dormindo em uma barraca não muito distante da cidade, mas evitando qualquer contato com outros humanos, especialmente os homens - como comprovará a pequena participação do ator Tom Bower, que aparece como um curioso andarilho, logo nos primeiros minutos. Será justamente esse acontecimento que motivará a dupla central a sair de onde está, para buscar refúgio em algum outro local. Aliás, eles estarão sempre em movimento, fugindo. O mundo parece ter ficado perigoso e, enfim, é preciso andar. E evitar as pessoas.

Alguns poucos flashbacks mostrarão a mãe (Elisabeth Moss), o que nos fará entender que o mal que atingiu a população mundial, uma espécie de pandemia, era irreversível. E como as mulheres foram as mais afetadas, o pai opta por esconder o real gênero de sua filha: a veste como um menino e impede de todas as formas que ela exerça qualquer tipo de comportamento que denuncie a sua verdadeiro identidade. Nesse sentido, a história comove nos pequenos instantes, como aquele em que, dentro de uma casa abandonada, a jovem encontra diversas roupas infantis para menina, sendo impedida de usá-las pelo pai. E a gente perceberá mais tarde que esse tipo de reação aparentemente exacerbada terá lá sua razão de existir. Especialmente após a sequência em que a dupla vai até a cidade para a obtenção de mantimentos básicos, atraindo olhares de pessoas que, no fim das contas, se mostrarão pouco amistosas.



Bom, trata-se de um filme de uma fluência bastante lenta, vagarosa, o que poderá incomodar alguns cinéfilos que anseiam por um pouco mais de ação. Mas a meu ver isso tem lá a sua razão de existir: em um mundo em que o apocalipse se instalou, as horas passam devagar e só a sobrevivência interessa. Histórias metafóricas que subvertem a lenda da Arca de Noé - ao final uma heroína salva o dia -, e mesmo a leitura de livros obtidos em uma biblioteca abandonada, servem para tentar superar a letargia dos minutos que custam a avançar, além de manter algum fiapo de humanidade, evidentemente. E quando alguma eventual perseguição tem início, é o momento em que a gente "reenquadra" o corpo no sofá e percebe que há algo maior pelo que lutar, ainda que o filme jamais deixe claro quais os objetivos daqueles que perseguem a jovem - seriam pessoas do Governo? da Igreja? De empresas de tecnologia? Ou apenas bandidos perseguidores?

Sem apresentar soluções fáceis, A Luz no Fim do Mundo se mostra muito mais como uma obra de sensações, de sutilezas. Não são poucos os longos planos sequência, que nos colocam muito próximos das personagens. A fotografia evita a saturação ou a "febre do cinza", que povoa algumas obras de ficção e pequenos detalhes nas cores - repare como a casa abandonada e empoeirada ganha um pouco de "vida" nos tons, após eles se instalarem nela - evocam um fiapo que seja de otimismo ou de esperança. Sobre o diretor e protagonista ter sido acusado de assédio sexual recentemente - ele admitiu o ocorrido e aqui estou fazendo um esforço para separar a pessoa da obra de arte analisada -, não deixa de ser curioso o fato de que, em seu primeiro filme de ficção oficial (anteriormente ele tinha feito o esquisito pseudo-documentário Eu Ainda Estou Aqui), ele execute uma película que dê conta do desaparecimento das mulheres por causa de uma doença. Expiação do machismo ou da misoginia? Ou mera coincidência? Sinceramente, não sei se há um motivo maior por trás. Vocês que me digam. Como filme, A Luz no Fim do Mundo funciona direitinho.

Nota: 8,0


sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Lançamento de Videoclipe - Harry Styles (Lights Up)

Interessante notar como, a cada lançamento, o músico Harry Styles parece se afastar mais do tipo de material apresentado por ele anteriormente, quando integrava o coletivo One Direction. De essência heterogênea (e pop), capaz de trafegar com naturalidade pelos mais variados estilos, o registro de estreia do artista, que chegou ao mercado dois anos atrás, figurou em diversas listas de melhores do ano - na do Picanha ficou em 11º lugar. O álbum oxigenou a carreira do jovem, que parece disposto a descolar ainda mais a sua imagem da da boyband, como comprova o recém-lançado videoclipe para Lights Up. Com uma pegada mais comercial, ainda que insidiosamente sexy, a faixa pode indicar o caminho para a chegada de um novo registro - o músico já estaria trabalhando nele. Enquanto a gente aguarda, vale clicar e conferir a nova música.