sexta-feira, 28 de junho de 2019

Lado B Classe A - Rhye (Woman)

Registros como Woman da banda canadense Rhye são daquele tipo capaz de expandir a importância do sussurro. Que tornam ampla a sutileza. Que transformam o minimalismo em matéria-prima para composições que, ainda que doces, resguardam força. Para a banda menos é mais e é na irresistível economia que o trabalho se sobressai. Para quem gosta do R&B anos 90, tente pensar num Everything But The Girl sem os excessos eletrônicos. Ou numa Lisa Stansfield sem o sintetizador que vibra no ritmo da pista de dança. Uma guitarrinha melódica aqui. Um tecladinho ali. Tudo posicionado de forma branda, trazendo calmaria para o coração e transformando a voz do vocalista Mike Milosh (sim, acredite, trata-se de um homem) no principal "instrumento musical" do registro, um amálgama de emanações vocais que ficam no limite entre o etéreo e o sensual, entre o melancólico e o luxurioso.

É um álbum agradável de se ouvir e, ainda que beba de fontes já há tanto exploradas na década já citada - é impossível não lembrar de artistas como Sade ou Des'ree, por exemplo - é impressionante o frescor trazido pelo disco. É como se todos aqueles referenciais que a gente já conhece fossem enfiados dentro de um liquidificador, para resultar num caldo que foi devidamente depurado, decantado, para que o melhor seja "bebido". Em uma playlist digamos, mais quente, o trabalho não faria feio ao lado de outros contemporâneos, como The xx, Cigarettes After Sex, Jessie Ware ou Miguel ainda que, com personalidade própria, as canções ecoem suas próprias angústias existencialistas. Dilemas do homem moderno distribuídas em pequenas doses, para serem saboreadas com calma, sem pressa - assim como provavelmente será um jantar romântico, com o melhor vinho e a melhor companhia.


Peça central do trabalho, a sinuosa segunda composição do disco, chamada The Fall, servirá como uma espécie de guia natural para as idas e vindas que encontraremos na audição do material. Com seu teclado angustiado, até meio apressado, o vocal de Milosh se torna o contraponto discreto, que acalma, que coloca as coisas no lugar, em maio as confusões imprevisíveis do coração. Oooh, faça amor comigo / Mais uma vez, antes de você ir embora / Porque você não pode ficar? praticamente suplica um eu lírico dolorido, que mostra que o amor tem suas complexidades, formatos difusos. O mesmo tipo de expediente é repetido em canções levemente mais animadas, como Hunger (Eu não estou sozinha / Só me sinto como uma sombra) ou na inaugural Open (Quero fazer isso dar certo / Oh, eu sei que você está desbotando).

Após o lançamento de Woman, o Rhye, como que enfeitiçado pelo trauma das bandas que surgem para o mundo com um grande álbum de estreia, jamais conseguiu repetir o feito nos registros seguintes. Se o trabalho inaugural foi saudado pela crítica - o Pitchfork lhe concedeu uma nota 8,5, considerando-o um material "gentil, suave e fácil de se perder" e "que tem arranjos e canto que raramente se elevam acima do nível de uma conversa" - Blood (2018), o trabalho seguinte, chegou a público de forma bastante discreta. O mesmo valendo para o pequeno EP Spirit (2019), lançado em maio desse ano. Mas nada que apague o que Pilosh alcançou com o classudo álbum de estreia. Uma obra que materializa musicalmente os tapetes felpudos e acolhedores, os abajures de luz ambiente e os lençóis de cetim que, certamente mais tarde, serão bagunçados.


quinta-feira, 27 de junho de 2019

A Volta ao Mundo em 80 Filmes - Timbuktu (Mauritânia)

De: Abderrahmane Sissako. Com Ibrahim Ahmed, Toulou Kiki e Layla Walet Mohamed. Drama, Mauritânia / França, 2014, 96 minutos.

Em uma das tantas cenas desoladoras do melancólico Timbuktu (Timbuktu) um grupo de crianças joga futebol. Mas com um detalhe: sem a bola. Dezenas de crianças e adolescentes com abrigos falsificados da Adidas e camisetas de craques como o Messi correm desvairadamente em uma espécie de balé em que o esporte mais popular do planeta é apenas um faz de conta. A bola foi confiscada pelos militares, afinal de contas é proibido jogar futebol no norte de Mali, local ocupado por extremistas religiosos jihadistas e onde ocorre a ação do filme. Aliás, não é só o futebol que é proibido. Ouvir (e produzir) música também é. Fumar. Enfim, existir. Para as mulheres é ainda pior: além de terem de conviver com uma sociedade patriarcal que lhes determina praticamente tudo que ocorre em suas existências - do casamento arranjado até o que elas devem vestir -, ainda há o risco de morrer em caso de tentativa de fuga desse sistema.

Não é preciso ser um especialista em contextos político/religiosos/sociais de países africanos para saber que a equação fanatismo religioso mais militarismo dificilmente dá certo em algum lugar. E se esses seis meses de Bolsonaro já nos deram uma mostra do que é um Governo ditatorial - com imprensa sendo censurada, políticos de outras correntes sendo ameaçados de morte e cortes generalizados em políticas públicas e programas que destroçam as camadas mais vulneráveis da população -, o que dizer de um povo em que quase a totalidade de seus habitantes vive abaixo da linha da pobreza, muitos deles morando em regiões áridas que, de quebra, ainda são controladas por militares? A situação parece ser ainda mais crítica ao norte onde milícias armadas tornam o local uma espécie de terra sem lei - ou melhor, com o Islã (e o que determina Alá) e os jihadistas sendo a lei.


Sobre o filme, é preciso salientar que não há um protagonista específico, havendo um núcleo em que a morte "acidental" de uma vaca se torna o principal episódio. Só que Kidane (Ibrahim Ahmed) o proprietário do rebanho que teve a vaca sacrificada resolve ir tirar satisfação com o responsável pela morte do animal. Resultado: após uma briga entre os dois sujeitos, o reclamante mata o outro. E, tomado como assassino, ele fica a mercê das duras leis locais, que prevem pena de morte para esses casos. Não adianta ter esposa, ter uma filha e estar arrependido do ocorrido. Está tudo nas mãos de Alá e, Alá, tal qual o Deus do Velho Testamento, parece gostar é de ver sangue derramado. E enquanto o julgamento do protagonista não ocorre, outros pequenos episódios vão se descortinando, caso da morte por apedrejamento de um casal adúltero, da punição a um homem que jogou futebol e de uma sequência infinita de chibatadas para um grupo de jovens que INVENTOU de tocar violão e percussão.

O filme é dolorido porque mostra que nessas terras sem lei, a lei na verdade é subjetiva, como atesta a cena em que um dos líderes dos militares aparece fumando (o que é proibido). E se o adultério é proibido, por que pessoas ligadas a autoridades religiosas locais insistem em assediar Satima (Toulou Kiki) uma mulher casada? Na obra, pequenos momentos de resistência - como o da mulher que pede que suas mãos sejam cortadas (ela se recusa a usar luvas) ou de uma mãe que nega entregar a sua filha para ser desposada por um desconhecido - são apenas pequenos respiros que, de forma circular, farão com que a ponta mais fraca dessa equação acabe sofrendo as consequências mais adiante. No fim o que fica nem é tanto a crítica à ocidentalização dos países islâmicos e sim a interminável guerra entre diferentes vertentes religiosas do islã. No diálogo inicial entre Kidane e Satima as dúvidas sobre o futuro, sobre fugir desse local, sobre se libertar - o que de maneira simbólica é, de alguma forma, alcançado na espetacular sequência final desse poético e arrebatador filme.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Lançamento de Videoclipe - Emicida (AmarElo feat. Majur e Pabllo Vittar)

Se depender daquilo que assistimos no espetacular clipe de AmarElo, lançado hoje pelo Emicida, é possível afirmar que vem disco FODA do rapper pela frente. A canção integrará o terceiro registro de inéditas do paulistano, que deverá chegar no começo do segundo semestre, interrompendo um pequeno hiato desde Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa (2015). O vídeo, dirigido por Sandiego Fernandes, tem participação especial da baiana Majur e de Pabllo Vittar. Nele, o compositor inicia com um sampler da música Sujeito de Sorte, que integra o disco Alucinação (1976) do Belchior, para espalhar (e até ampliar) ideias otimistas de superação de dificuldades, disseminadas pelo artista há mais de 40 anos. "A nossa intenção é a de que as pessoas observem ao redor e se enxerguem maiores do que os seus problemas, independente de quais sejam", destacou Emicida, no material de divulgação do vídeo, que teve como uma de suas locações o Complexo do Alemão.



Novidades em DVD - O Gênio e o Louco (The Professor and The Madman)

De Farhad Safinia. Com Mel Gibson, Sean Penn, Natalie Dormer, Jennifer Ehle e Eddie Marsan. Drama / Biografia, EUA, 2019, 125 minutos.

Filme que passou meio despercebido pelas salas de cinema do País, O Gênio e o Louco (The Professor and The Madman) é daqueles que merece ser (re)descoberto na telinha. Não apenas por reunir dois astros do calibre de Sean Penn e Mel Gibson em grandes interpretações, mas também por apresentar ao mundo uma excelente história: a do ambicioso projeto iniciado em 1857, que visava à criação da primeira edição do Dicionário Oxford de língua inglesa. Um trabalho árduo, longo, exasperante, que contou com a colaboração de dezenas de pessoas até a sua conclusão, mais de 70 anos depois, com mais de 400 mil verbetes inclusos. Em cena, duas figuras que realmente existiram: o professor James Murray (Gibson) e o doutor W.C. Minor (Penn), traumatizado veterano de guerra que comete um crime logo no começo da película, ao confundir a vítima com outra pessoa.

Enviado para uma espécie de sanatório para criminosos, Minor tenta superar o sentimento de culpa, ao passo em que se aproxima da viúva Eliza (Natalie Dormer) que, agora sem o marido, luta para sustentar os seis filhos. Já Murray, se oferece para a laboriosa tarefa do dicionário - e a angústia em evoluir apenas na letra "A" já dá uma boa dimensão da dificuldade enfrentada pelo grupo que se empenha na atividade. O cenário muda quando Murray resolve convidar, literalmente, qualquer pessoa que esteja disposta a auxiliar na elaboração dos tomos. Uma dessas cartas chegará até Minor que encontrará nesta tarefa uma forma de se ocupar, enviando milhares de verbetes para o dicionário que se constituía. Ali nasce uma amizade. Uma amizade entre dois sujeitos que têm suas vidas ligadas pela ambição, pela loucura e pelo desejo de concluir algo nada menos do que genial.


Nesse sentido, o filme do estreante Farhad Safinia se consiste em uma verdadeira homenagem aos vocábulos, com seus significados saltando da boca dos protagonistas, escapando pelos ares, fazendo curvas e retornando - e nos fazendo pensar no quão lindo pode ser o estudo da linguagem, a constituição de sentido ou a revelação de sinônimos. Metaforicamente, palavras como "Arte" aparecem como sendo daquelas de difícil fruição, com mais exigências, mais revisões e mais reencontros com volumes do passado, que poderão auxiliar na questão. É uma obra que homenageia as letras, o simbolismo da importância da leitura e que é representada não apenas por personagens que presenteiam outros com livros, mas que também sugerem ensinar um ao outro a ler (que é o caso de Minor, que propõe o tutoramento a Eliza como uma forma de se redimir da culpa carregada e de tentar fazer com que a jovem lhe perdoe).

A propósito do perdão, a obra também trata deste tema. E da amizade. Na aproximação de Murray e Minor, uma excêntrica parceria (e os poucos encontros entre os dois sujeitos se constituem de pontos altos). Já Eliza aparece, inicialmente, como uma figura naturalmente amargurada, mas que aos poucos vai dando espaço para a absolvição de Minor - especialmente ao descobrir que ele sofre de um severo caso de esquizofrenia. Com bom desenho de produção, que recria de forma fidedigna a segunda metade do século 19, uma fotografia acinzentada (que dá conta da melancolia que rege a existência daqueles que assistimos em cena) e ótimos e carismáticos atores em papeis secundários (Eddie Marsan e Jennifer Ehle, especialmente), O Gênio e o Louco é um filme gostoso de assistir e que, provavelmente, seria ainda melhor se fosse uns 20 minutos mais curto (às vezes tudo se torna meio arrastaaaado). Mas nada que comprometa.

Nota: 7,5

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Picanha.doc - Democracia Em Vertigem

De: Petra Costa. Documentário, Brasil, 2019, 119 minutos.

Em uma das tantas passagens marcantes do incrível Democracia em Vertigem da diretora Petra Costa, a presidente Dilma Rousseff está em vias de sofrer o impeachment. Diante de um bando de "homens de bem", defensores da família engravatados, uma estadista de cabeça erguida afirma que sentiu medo da morte apenas duas vezes na vida: quando foi torturada durante a Ditadura Militar e quando padeceu de um câncer, cerca de 10 anos atrás. "Hoje, eu só temo a morte da democracia", finaliza ela. Esse momento hoje já clássico da nossa política moderna, talvez seja o resumo perfeito do espírito que rege o documentário: o de perceber como a nossa ainda jovem democracia pode estar, diante de tantos desastrosos eventos recentes, sucumbindo. O que nos direciona, nas palavras da própria Petra, "para um futuro tão sombrio quanto o nosso passado mais obscuro e que faz cair a máscara da civilidade".

Para narrar essa história da derrocada da democracia como a conhecemos, a documentarista traça um paralelo em que a sua vida pessoal e a de sua família se cruzam com os eventos políticos recentes. O que humaniza (ainda mais) a obra, afinal de contas a história de esperança dela, poderia ser a história de esperança de cada um de nós. Tomando como ponto de partida as eleições que culminariam no primeiro governo do presidente Lula - ocasião em que Petra votou pela primeira vez -, a diretora recorda, com vibrantes imagens de arquivo, as manifestações dos metalúrgicos do ABC em 1979 e as sequenciais derrotas em pleitos até que, em 2002, ocorre a primeira vitória de Lula nas urnas. As conquistas sociais, com famílias vulneráveis saindo da linha de pobreza extrema, o desemprego em apenas 4% e estabilidade econômica também são recordados. Ao mesmo tempo, o filme não ignora eventos como o Mensalão - que prendeu líderes do PT -, e as alianças com desastrosas siglas, ligadas à velha oligarquia do País, caso do PMDB que, no fim das contas, culminaria no Golpe.


Todo esse didatismo da diretora, é apresentado com grande riqueza de imagens de arquivo, conversas de bastidores, entrevistas variadas e mesmo belas tomadas de câmera (especialmente aquelas de Brasília vista de cima, desde a sua construção, até os dias de hoje). Petra adota um tom melancólico em sua narrativa e chama a atenção para questões que passaram despercebidas por todos nós - caso do "abismo" que havia entre Temer e Dilma quando da posse da segunda como presidente ou mesmo episódios constrangedores como o dos procuradores da Lava-Jato admitindo não haver provas contra Lula em relação a ele ser proprietário do triplex, fazendo ao mesmo tempo a opinião pública acreditar que a ausência de provas seria a prova em si. (e, nesse sentido, não poderia haver melhor timing para o lançamento da obra do que esta ocorrer na mesma semana em que tiveram início os vazamentos de documentos do Intercept, que comprovam a farsa da operação como um todo).

Durante o filme, a diretora repassa diversos episódios recentes e marcantes de nossa política, caso dos protestos pelo aumento das passagens em 2013, dos equívocos - especialmente na seara econômica - da Dilma, da ascensão de uma extrema-direita difusa e incendiária (que gestaria Bolsonaro) e da vergonha que perpetrou um impeachment baseado em "pedaladas fiscais". No decorrer da narrativa, Petra obtém ricas entrevistas - especialmente com Dilma que recorda, de forma comovente, a prisão e a tortura durante a ditadura (impossível não se emocionar na cena em que ela "explica" como aguentava as agressões de seus torturadores), a resistência em se tornar candidata a presidência e a forma como recebeu a notícia de que estava sendo destituída do cargo. Tudo se descortinando sem sensacionalismo, de forma naturalista, com a câmera próxima do rosto dos envolvidos, o que confere um espírito de cumplicidade ainda maior com aqueles que assistimos.


Utilizando-se de citações à Kafka (O Processo) e Shakespeare e com trilha sonora que conta com composições como Canto de Ossanha, do Vinícius de Moraes, Petra Costa constrói um verdadeiro documento de nosso tempo, que apresenta a democracia conquistada como uma espécie de "sonho efêmero". Recheado por frases fortes, imagens impactantes (e revoltantes) e eventos marcantes, a película dá conta de um País que se mostra atualmente dividido, com seu tecido social fissurado e com pouquíssima possibilidade de conciliação. "Democracias frágeis tem uma vantagem sobre as sólidas: elas sabem quando acabam", narra Petra sem esconder o desalento. Ainda é cedo para saber se a nossa, de fato, acabou, mas seguimos esperando que a primavera chegue e assim se acabe a matança de rosas. E o que esse filme monumental - que já tem sido apontado como um dos possíveis candidatos para a categoria Melhor Documentário no próximo Oscar - consegue, é nos fazer prestar ainda mais atenção nisso tudo.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Novidades em Streaming - Democracia em Vertigem (Filme)

Os leitores do Picanha têm nos parado nas ruas e ABARROTADO as nossas caixas de e-mail para perguntar "tá, e aí, cadê a resenha do Democracia em Vertigem"? Sim, não estamos em um universo paralelo de desinformação ou mesmo alheios à obra da diretora Petra Costa - que está sendo contada, inclusive, para a próxima edição do Oscar, como projetou o site Indie Wire -, mas, o caso é que ainda não assistimos à película, o que deverá ocorrer neste final de semana. E, assim que assistirmos, evidentemente faremos as nossas considerações! De qualquer maneira, uma obra que trata do colapso da democracia que viria a gestar tempos tão sombrios como estes que estamos vivendo, é o legítimo caso de "nem vi, já gostei". E, enquanto não fazemos a nossa análise da obra que está disponível lá na Netflix, convidamos vocês a prestigiar o o ótimo texto do nosso parça Carlos Eduardo Lima, lá no Célula Pop, que analisa os acontecimentos vistos em tela. Vale conferir!


Grandes Filmes Nacionais - Cinema, Aspirinas e Urubus

De: Marcelo Gomes. Com João Miguel, Peter Ketnath, Hermila Guedes e Irandhir Santos. Drama / Aventura, Brasil, 2005, 101 minutos.

Uma velha caminhonete cruza o sertão nordestino. Em meio a estradas curtas e arenosas o barulho de motor se mistura com o zumbido dos insetos. O calor escaldante é palpável. A aridez é opulenta, em meio a uma vegetação rala, disforme, sem vida. O suor que escorre do rosto. A água e a gasolina escassas. A caminhonete e seu motorista - um alemão de nome Johann (Peter Ketnath) que está no Brasil para fugir dos horrores da Segunda Guerra - persistem. Tentam chegar em algum lugar, em meio ao nada. E no nada encontrarão um caroneiro. Na forma que o diretor Marcelo Gomes apresenta o preâmbulo do espetacular Cinema, Aspirinas e Urubus, há uma palpável sensação de desalento que percorrerá toda a película. Um Nordeste difícil, seco, distante. Tão distante que a "guerra não alcança", como constatará mais tarde Ranulpho (João Miguel), o seu involuntário parceiro de negócios (e de viagem). O caroneiro em questão.

Septuagésimo quinto melhor filme brasileiro da história, de acordo com votação feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), Cinema, Aspirinas e Urubus é uma obra sobre amizades improváveis, que podem brotar em locais mais improváveis ainda. Mas é também um filme sobre resiliência (ou perseverança) em tempos difíceis. E até mesmo sobre a esperança por dias melhores. E, talvez ainda e em menor medida, essa verdadeira obra-prima do nosso cinema nacional possa ser considerada uma verdadeira homenagem a sétima arte em si. E não apenas pela película possuir uma atmosfera artisticamente superior, mas também pelo caráter mágico que se estabelece na relação entre os moradores dos pequenos povoados visitados por Johann e Ranulpho, quando colocados diante dos filmes publicitários que pretendem vender a aspirina - uma novidade que, aos poucos, começava a chegar ao País.


É muito provável que muitos moradores gastassem os seus parcos contos de réis em um remédio que prometia milagres, muito por conta da comoção causada pelos filmes publicitários exibidos por Johann - esse, no caso, é o "Cinema", do título. E, não por acaso, considero bastante comovente a sequência em que um morador de um dos tantos povoados visitados pela dupla protagonista, solicite que o filme seja repetido, de tão maravilhado que este está (e a homenagem ao cinema prossegue nas cenas em que, secretamente, Ranulpho investiga os equipamentos utilizados por Johann em suas exibições, os rolos de filme, o cinematógrafo, entre outros). São instantes em que pequenos choques de realidade se estabelecem de forma contrastante, assim como é contrastante o cenário de guerra que ocorre na Alemanha, com a aridez do Nordeste, a fome, a sede, a falta de provisões.

Nesse sentido, o filme se estabelece como uma série de instantes em que, de povoado em povoado, Johann e Ranulpho conhecerão outras pessoas, que lhes ajudarão nos momentos de dificuldades (como na cena em que o alemão é picado por uma cobra), lhes darão de comer, lhes bajularão (sempre haverá um empresário ambicioso de olho no negócio) e lhes "amarão". No meio do caminho um encontro com a retirante Jovelina (Hermila Guedes), pequenas mudanças de rota, idas e vindas e a certeza de que uma amizade se fortalece em meio a um cenário inóspito. E tudo isso, é preciso que se diga, dá conta da força de um filme que parece pequeno, mas que fala "grande" quando o assunto é a abordagem do absurdo da guerra - que faz com que um alemão prefira se esconder nos confins do Brasil, já que ali não "caem bombas".


Com uma verdadeira coleção de músicas de artistas como Carmen Miranda e Francisco Alves (impossível não se comover enquanto a desalentadora Serra da Boa Esperança é tocada), a obra ainda diverte ao trazer boletins de rádio do Repórter Esso, exibidos na época - e que, de forma surpreendente, abordam a participação "involuntária" do Brasil na Segunda Guerra, quando do episódio do bombardeio de submarinos brasileiros no litoral de Pernambuco. Trazendo ainda a ufanista mensagem que faz com que carreguemos um eterno "complexo de viralata" (repare no desdém de Ranulpho com os próprios moradores do Nordeste), o filme ainda conta com interpretações naturalista (João Miguel é destaque sempre) e um desenho de produção tão crível, que temos a real impressão de estarmos em meio ao Brasil da Era Vargas. Um filmaço que merece ser (re)descoberto e que está disponível na Netflix.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Lançamento de Videoclipe - Dingo Bells (Tudo Trocado)

A gurizada gente fina da Dingo Bells lançou recentemente um clipe para a canção Tudo Trocado - música que faz parte do álbum Todo Mundo Vai Mudar (nosso terceiro colocado na lista de melhores nacionais de 2018). Parte da série Videoclipers, organizada pelos cineastas Léo Longo e Diana Boccara (da produtora Couple Of Things), o vídeo, gravado todo em um plano-sequência, tem como cenário o espaço cultural Vila Flores, complexo arquitetônico que congrega artistas, produtores e outros em Porto Alegre. O clipe, bastante colorido, é pura diversão e brinca com a ruptura proposta pela letra (o que pode ser visto nos figurinos excêntricos e no comportamento das personagens). "Quisemos nos desafiar a fazer algo que nos tirasse da zona de conforto e digamos que dançar uma coreografia foi como um arremesso pra fora dessa zona", comentou o vocalista/baterista Rodrigo Fischmann. O resultado pode ser conferido abaixo, então, bora clicar!