sábado, 29 de outubro de 2016

Disco da Semana - Kings Of Leon (WALLS)

O Kings Of Leon sempre pareceu trafegar no limite entre o mainstream e a música alternativa, entre os hits radiofônicos e a aparição no Lado B. Se no começo da carreira, época dos disco Youth and Young Manhood (2003) e Aha Shake Heartbreak (2004), a banda até fez algum sucesso fora dos Estados Unidos - na Inglaterra principalmente - era em apresentações em pequenos locais do País que uma massa dedicada de fãs cantava com toda a vontade canções como Molly's Chambers e The Bucket. A situação só se modificaria mesmo com o álbum Only By The Night (2008). Da noite para o dia, os irmãos Followill, criados sob a rigidez religiosa de uma família de Nashville, no Tenessee - diz a história que eles sequer podiam assistir televisão entre uma aula e outra - foi catapultada ao estrelato por conta dos incensados hits Use Somebody e Sex On Fire. Quem não cantou essas até cansar?

De lá para cá foram mais dois registros - o bom Come Around Sundown (2010) e o chatinho Mechanical Bull (2013). Em ambos os casos as porções de southern rock mais cru e certamente mais direto que marcava presença nos trabalhos iniciais se encontrava, eventualmente, com o pós-grunge mais garageiro com um pé no alternativo, a marca dos álbuns mais recentes. Não chegava a ser exatamente uma esquizofrenia musical, mas, se os arranjos se fortaleceram no que diz respeito a complexidade - com mais efeitos, distorções e outros instrumentos - por outro lado o sentimento parecia meio confuso em relação ao caminho que a banda deveria seguir em seu sétimo disco. Se reinventar? Se apropriar de outras vertentes? Voltar as origens? Ou entregar um trabalho a moda do Kings Of Leon a que estamos acostumados? Bom, acertou MAIS quem arriscou esta última alternativa.



Poucas vezes o Kings Of Leon soou tão à moda do... Kings Of Leon, aquele mesmo a que estamos acostumados, como em WALLS, o seu mais recente trabalho. Uma audição despretensiosa no primeiro single, Waste a Moment, já nos dá aquela impressão de "já ouvi isso antes". Desde a guitarrinha certeira que abre a canção, somado ao baixão característico, até a entrada do vocal anasalado de Caleb Followill... tudo juntado até entrar um dos refrões mais ganchudos do ano, a impressão que temos é a de estarmos diante de uma espécie de Use Somebody 2. E a sensação não muda ao ouvirmos Reverend, Around the World, Find Me, Over. Sem medo de apresentar um material familiar, o quarteto consegue a rara proeza de lançar um álbum com 10 músicas com potencial radiofônico. Alguma vergonha nisso? Nenhuma. Isso é simplesmente garantir aos fãs mais algumas boas doses de diversão.

É evidente que o lançamento de mais uma boa coleção de canções pegajosas não representa, necessariamente, obviedade e há que se ter cuidado sobre isso. Ainda que a crítica esteja saudando WALLS - um acrônimo simpático para We Are Like Love Songs - como um retorno aos primórdios, há muito mais a ser considerado. Não é por acaso que a própria capa, um trabalho bem diferente do convencional, tem suscitado debates e comparações com a registrada pelo The Byrds em Byrdmaniax - certamente uma referência para os Followill. Da mesma forma a sonoridade aparentemente tradicional do quarteto, aqui e ali, é capaz de revelar elementos inovadores, e que atestam a relação dos Kings com outras vertentes. É o caso, por exemplo, da percussão latina e dos ecos quentes de Muchacho, uma das mais legais do disco.


Se apresentando ainda como uma espécie de voz da geração, Followill segue construindo as suas letras a partir do ponto de vista macro das angústias humanas, poucas vezes invadindo o íntimo, mas sempre falando sobre aquilo que efetivamente queremos ouvir. Assim, não é difícil encontrar versos que analisam relacionamentos complicados (Waste a Moment), amores nostálgicos e fracassados (Over) ou mesmo divagações cotidianas (Around The World). São lugares de voz que podem até parecer complexos em um primeiro momento, mas que se tornam de fácil identificação a partir daí. E que talvez também expliquem a verdadeira comoção que os irmãos causam em sua relação com os fãs. Bem longe de querer construir o disco do ano, o KOL segue lançando e agradando. Para eles não parece ser necessário mais do que isso.

Nota: 7,7

Lançamento de Videoclipe - Wilco (Someone to Lose)

O Wilco anda produtivo desde o ano passado e, assim, sem fazer muito alarde, lançou um dos discos mais simpáticos do ano até o momento, o elogiado Schmilco. Com o registro, que possui uma sonoridade mais acústica do que barulhenta, a banda de Jeff Tweedy marca aquilo que pode ser considerado uma espécie de retorno as origens e a uma musicalidade mais "pura" no que diz respeito ao country alternativo - e não chegam a ser por acaso e nem exageradas as comparações com o clássico moderno Yankee Hotel Foxtrot (2002). E como forma de seguir divulgando o álbum, o grupo de Chicago disponibilizou, na tarde de ontem, um clipe muito legal para a canção Someone to Lose. Todo gravado em stop motion (a famosa técnica da massinha de modelar), o vídeo - dirigido por Joseph Baughman - narra a curiosa história da invasão de um bolo de casamento por um ser rastejante. Sim, acredite! Ficou curioso? Clica pra conferir, que é bem legal!



sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Na Espera - Capitão Fantástico (Filme)

A expectativa pela chegada do primeiro filme do ator Matt Ross (visto em séries como Big Love e American Horror Story) como diretor, não poderia ser maior. Com os primeiros elogios da crítica e a ótima recepção em festivais - como o de Sundance - Capitão Fantástico (Captain Fantastic) tem tudo para ser o filme alternativo da temporada. Na trama, Viggo Mortensen é Ben, um dedicado pai de seis crianças pequenas que decide fugir da civilização para criar os filhos nas florestas selvagens do Pacífico Norte. Entre uma lição e outra às crianças, o homem os ensina a praticar esportes e a combater inimigos. As coisas mudam quando a família é forçada a deixar o local para retornar a vida na cidade, situação em que todos deverão se habituar a modernidade.


O trailer deixa escapar o fato de que há, também na história, um drama familiar por trás envolvendo a mãe das crianças. O choque cultural envolvendo uma vida no meio do mato e outra, bem diferente, em um grande centro urbano, também formará um arco dramático interessante e que certamente fará o espectador rir e chorar ao mesmo tempo - além de provocar a reflexão a respeito de nossas próprias vidas e como a vivemos. Contando ainda com um elenco de jovens atores - a única outra presença bastante conhecida, além de Mortensen, é a do veterano Frank Langella - essa pequena fábula sobre diferenças culturais estreia por aqui no dia 08 de dezembro. Nem é preciso dizer: nós, do Picanha, estamos mais do que Na Espera!

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Foi um Disco que Passou Em Minha Vida - Belchior (Alucinação)

Tenho vinte e cinco anos
De sonho e de sangue
E de América do Sul
Por força deste destino
Um tango argentino
Me vai bem melhor que um blues
Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 76
E eu quero é que esse canto torto
Feito faca, corte a carne de vocês

A Palo Seco - Belchior


Poucas vezes o desencanto e a letargia de uma geração foram tão bem retratados em um disco, como no clássico Alucinação, lançado em 1976 pelo cantor Belchior. Com apenas 30 anos na época do lançamento do trabalho, o cearense de Sobral sentia que a mesma juventude que poucos anos atrás abraçava a bandeira do flower power e de outros movimentos que tomavam por base o espírito iconoclasta e anárquico das revoluções - fossem elas políticas, sociais ou culturais - agora se entregava a um estilo de vida conformista e que se espelhava na lógica de existência de nossos antepassados. Condição em que ideais mais libertários e questionadores do status quo davam lugar a apatia. Onde estaria o clamor? A luta? Teriam os jovens se cansado disso, se transformando em uma massa que, agora madura, se alinhava a ideais mais moderados, se mantendo passiva?

Era latente o lamento do compositor, que não se furtava de utilizar a sua voz à moda dos poetas repentistas e melancólicos do Nordeste para denunciar a condição que se estabelecia. Fosse em canções com uma poética mais direta, caso de Como Nossos Pais - E hoje eu sei, eu sei / Que quem me deu a ideia / De uma nova consciência / E juventude / Está em casa / Guardado por Deus / Contando os seus metais - ou mesmo em linguagem mais figurada, como em Velha Roupa Colorida - Nunca mais meu pai falou: She's leaving home / E meteu o pé na estrada, Like a Rolling Stone / Nunca mais eu convidei minha menina / Para correr no meu carro (loucura, chiclete e som) / Nunca mais você saiu a rua em grupo reunido / O dedo em V, cabelo ao vento, amor e flor -, era possível identificar em sua lírica o desgosto por ver a vida de uma geração inteira passando sem que se pudesse "sair do chão".



É evidente o fato de não se poder ignorar o contexto político da época, no Brasil. Ainda que o governo de Ernesto Geisel apontasse para uma abertura institucional lenta, gradual e segura - período que ficou conhecido como "distensão" - eram latentes as feridas de uma ditadura militar que sugou da juventude da época toda a sua capacidade de mobilização. Não é por acaso que, consciente do poder das palavras e do que elas poderiam representar para quem as ouvisse, Belchior também transforma Alucinação em um veículo de amparo em que a empatia, a consciência social e o senso de justiça falavam mais alto. Assim, quando canta na espetacular Fotografia 3X4 que A minha história é talvez / É talvez igual a tua, jovem que desceu do norte / Que no sul viveu na rua / Que ficou desnorteado, como é comum no seu tempo, canta como alguém que reconhece esta realidade como sua, bem como as implicações necessárias para uma adequadão a esse modo de vida.

Nesse sentido, é possível constatar que, em cada curva do trabalho, em cada lamento em verso e prosa, era também para as camadas mais desfavorecidas ou em vulnerabilidade social que Belchior destinava as suas conjurações. Para o preto, o pobre, a mulher sozinha ou os humilhados, além do já citado estudante, como na clássica canção-título. Mas a eventual contestação do artista não se insurgia em um sentido de afronta do ponto de vista bélico. E jamais se mostrava desalinhada a seu tempo. Pelo contrário, a sua melancolia doce, ainda encontrava espaço para o bom humor em meio as dificuldades - como não sorrir desajeitadamente com as desventuras do protagonista de Apenas Um Rapaz Latino Americano - e para um sem fim de citações culturais - Laranja Mecânica, hot dog, Isaac Newton, cabarés, Rolling Stones, Edgar Allan Poe, tiros no salloon - capaz de transformar cada canção em um verdadeiro almanaque das coisas, de tudo, enfim, do mundo.


Com Alucinação Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes - que completa 70 anos, hoje - não fez apenas o seu melhor disco. Fez um verdadeiro tratado sobre a vida na América do Sul, suas dificuldades, superações de obstáculos, diferenças culturais e sociais e mesmo de resistência ao capitalismo e de forças limitadoras que vem varrendo tudo, transformando as pessoas em uma massa cinza, sem vida, alienada e vazia em ideias. Um álbum não apenas artístico, ainda que "fácil" do ponto de vista instrumental, e recheado de hits, mas que utiliza o poder da fala para "rasgar a carne" de quem o escuta - como metaforiza o cantor em A Palo Seco (uma das melhores músicas brasileiras da história). Como que se fizesse força para acordar as pessoas na marra, no grito, no choro se for preciso. Quarenta anos depois de seu lançamento, o álbum nunca foi tão atual, afinal de contas as novas gerações de hoje em dia poucas vezes imitaram tão bem o modus operandi de seus pais - e seu comportamento eventualmente anacrônico. Mas certamente ainda há quem prefira o tango argentino ao blues. É para estes que Belchior destinou seu lugar de fala. Onde quer que ele esteja nesse momento - no Uruguai, em Porto Alegre ou no mundo.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Cinema - O Lar das Crianças Peculiares (Miss Peregrine's Home For Peculiar Children)

De: Tim Burton. Com Eva Green, Asa Butterfield, Samuel L. Jackson, Judi Dench e Terence Stamp. Aventura / Fantasia, EUA / Bélgica / Reino Unidos, 2016, 127 minutos.

Em seu filme anterior, o injustiçado Grandes Olhos (2014), Tim Burton parecia ter abandonado, ao menos em partes, o tão característico estilo sombrio, de personagens excêntricos e de figurinos espalhafatosos, para apostar em uma paleta mais colorida, sóbria e menos soturna, a despeito da alta carga dramática da película protagonizada por Amy Adams e Christoph Waltz. Parecia uma nova guinada artística para o diretor? Qual nada. Bastou o anúncio de que já estava engatilhada uma adaptação para o livro O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares, do escritor Ransom Riggs, para que o público tivesse a certeza de que veria, novamente, mais uma película bem ao estilo Tim Burton. E, como filme (não li o livro), pode-se dizer que, se O Lar das Crianças Peculiares (Miss Peregrine's Home For Peculiar Children) não chega a ter o impacto de um Edward Mãos de Tesoura (1990) ou de um A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (1999), ao menos não decepciona.

A trama tem bem o estilo daquelas que fariam (ou farão, vai saber) sucesso na Sessão da Tarde, com crianças que convivem com o bullying na escola e com o distanciamento dos pais, tendo que superar os problemas emocionais que as colocam na condição de seres isolados em um mundo que não é o delas. Aliás, um mundo ao qual, literalmente, elas não pertencem - numa metáfora muito bem conduzida para aqueles baixinhos com problemas de adaptação a qualquer tipo de ambiente em que não se sintam confortáveis. Sim, é um filme infantil e há que se respeitar essa lógica que, tradicionalmente, acompanha os filmes de Burton. Se há personagens fantásticos eles nunca serão terrivelmente amedrontadores, estando sempre no limite entre o farsesco e o assustador, entre o engraçado e o temível. Não é por acaso que, se num instante eles provocam (e até assustam), no seguinte soltam uma gracinha, um alívio cômico - ou uma risada histriônica, que seja - que lembrará a todos os espectadores de que aquilo não passa de uma ficção (deliciosa de se assistir, por sinal).


A história segue os passos de Jake (Asa Butterfield) que, após a estranha morte de seu avô, de nome Abe (Terrence Stamp), parte com seu pai para o País de Gales, atrás de pistas que possam esclarecer o que pode ser ocorrido com o idoso, que teve os seus olhos arrancados em um aparente caso de assassinato. Em seus últimos instantes, o homem balbucia algumas palavras desconexas a Jake, relacionadas a histórias de infância que este lhe contava e sobre a existência de uma certa Srta. Peregrine (Eva Green), que poderia ser a chave para que o enigma fosse esclarecido. Ao chegar ao seu destino, o rapaz percebe que o local é uma mansão em ruínas, que foi atingida por um míssil durante a Segunda Guerra Mundial. Após uma investigação na área, Jake descobre a existência de uma fenda temporal que lhe conduz ao local onde Peregrine vive e protege crianças dotadas de poderes especiais de seres do mal conhecidos como "etéreos".

Sim, não há exatamente uma novidade no que diz respeito ao arco dramático e a maioria dos filmes do gênero bebem na fonte dessa cartilha, com jovens personagens vivendo grandes aventuras na busca da superação de problemas. As comparações com os X-Men são inevitáveis e é realmente impossível não pensar nos mutantes capitaneados pelo Professor Xavier, conforme vão sendo apresentadas na tela cada uma das habilidades das crianças peculiares - uma delas com poder de invisibilidade, outra com o estômago cheio de abelhas (!), uma terceira tão leve que precisa utilizar sapatos de chumbo, e por aí vai. Por sinal, parte da diversão está justamente na descoberta dessas características, que vão sendo desvendadas aos poucos, e que culminam em revelações relacionadas ao protagonista que, a moda de Percy Jackson, Katniss Everdeen (de Jogos Vorazes) ou Tris (da série Divergente) - para citar três outros exemplos da literatura infanto-juvenil - também passa por um período de provação.


Longe de querer transformar O Lar das Crianças Peculiares em um ato maior dentro de sua filmografia, Burton parece muito mais interessado em divertir e se divertir. E se a inclusão de Samuel L. Jackson como um excêntrico e exagerado vilão se constitui em um dos pontos positivos do filme - o mesmo valendo para a atuação segura de Green, que chega até mesmo a comover na pele de Peregrine - o mesmo não se pode dizer de Butterfield, que, apático, não parece muito a vontade em um papel deste tamanho. Outro ponto questionável envolve o clímax. Sem uma grande batalha ou um enfrentamento final apoteótico, a impressão que se tem é a de que o epílogo fica apenas diluído e, sem maiores emoções, perde força. Isso sem falar na bagunça, com um emaranhado um tanto confuso, em que distinguir o que se está vendo se torna tarefa bastante complicada - algo piorado com a adoção do 3D, apenas como um (aparente) capricho. Ainda assim, em uma análise geral, dado o visual bacana e os personagens interessantes, o saldo é positivo.

Nota: 7,3

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Novidades em DVD - Ave, César! (Hail, Caesar!)

Subversão de gêneros, humor nonsense, alguma dose de realismo fantástico e construção de personagens excêntricos e despidos de qualquer tipo de vaidade. Na vasta filmografia dos Irmãos Coen não é difícil relacionar os elementos que caracterizam o seu cinema. Em Ave, César! (Hail, Caesar!) há uma pitada de cada uma dessas particularidades, somando-se ainda a outro tema caríssimo a dupla de realizadores: a metalinguagem (ou a pura e simples homenagem ao cinema). Joel e Ethan Coen são, claramente, apaixonados pela sétima arte. Assim, utilizam seus filmes não apenas para divertir as plateias a partir de suas improváveis sátiras. Mas também para eles mesmos se regozijarem com aquilo que sabem fazer como poucos - e quem já assistiu a clássicos modernos, como, Fargo (1996), O Grande Lebowsi (1998), E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (2000) e Onde os Fracos Não Tem Vez (2007) sabe do que estamos falando.

Em Ave, César! os Irmãos homenageiam a Era de Ouro do cinema, deslocando a trama para a Hollywood dos anos 50. É lá que vive Edward Mannix (Josh Brolin), produtor responsável não apenas pela carreira profissional dos artistas da Capitol Pictures, onde trabalha, mas também por suas vidas particulares, imagem pessoal, ou mesmo relacionamento com a imprensa e com o público. Um dia na vida de Mannix é trafegar por estúdios onde são realizados épicos bíblicos, filmes de faroeste ou musicais variados. É estar em contato com diretores exigentes, atores problemáticos, astros canastrões, empresários chiliquentos e colunistas de cinema ávidos pelas mais recentes fofocas. E, nesse ecossistema, tudo vai mais ou menos bem na vida do produtor até o dia em que uma de suas principais estrelas, o ator Baird Whitlock (George Clooney) é sequestrado por um grupo de escritores comunistas.


Sim, ainda que em um contexto meio desviado, há espaço para o debate político-ideológico em Ave, César! E não poderia ser diferente, já que a paranoia anticomunista pós Segunda Guerra Mundial (também) é alvo da sátira dos Irmãos, que transformam os sequestradores em um exótico grupo (de estudos), que se apropria de referenciais históricos até na hora de dar o nome para o cachorro - "quieto Engels", brada um dos integrantes, em dado momento. Como não poderia deixar de ser, o temor religioso também está na mira dos Coen. E se, em certo momento, assistimos Mannix ir ao confessionário para dizer que cometeu o terrível pecado de fumar, em outra sequência presenciamos um hilário debate entre um pastor, um rabino, um reverendo e um padre que discutem com o produtor a abordagem dos filmes produzidos pela indústria e se eles estão de acordo com o que pregam os seus dogmas. Sendo que eles são incapazes de se entender entre si.

Mas mais do que debater religião ou política, Ave, César! parece muito mais interessado em revirar as nossas memórias cinéfilas. Funcionando como se fosse uma verdadeira colcha de retalhos da Hollywood daquele período, somos levados, aqui e ali, a uma série de sequências que mais parecem esquetes nostálgicas, multicoloridas e curtas relativas a um período que não volta mais. Assim, quando assistimos a Burt Garney (personagem de Channing Tatum) em uma apresentação musical e de sapateado inacreditavelmente engraçada e com coreografia que nos remete à obras de Gene Kelly ou Fred Astaire, ou apreciamos Hobie Doyle (o ótimo Alden Ehrenreich) entoando a sua viola à moda Shane de Os Brutos Também Amam (1953) sob um céu de Cinemascope, tudo o que temos são as nossas vísceras fanáticas pela invenção dos Irmãos Lumiére invadidas - no melhor sentido da observação.


E, vamos combinar, este fato por si só, já seria suficiente para que este filme, que passou praticamente batido pelas salas de cinema, receba o merecido reconhecimento, agora que foi lançado em DVD. Só que a obra ainda tem outros méritos, como a belíssima fotografia de Roger Deakins e o elenco absolutamente estelar - além dos já citados, Ralph Fiennes, Scarlett Johansson, Christopher Lambert, Tilda Swinton, Frances McDormand e Jonah Hill interpretam papeis que podem até ter poucos minutos (ou segundos) em cena, mas que contribuem para a construção da história e do contexto pretendido pelos Coen. Experimente não rir na cena em que o diretor Laurence Laurentz (Fiennes) passa instruções de uma cena (e de sua importante fala) para Doyle. Se você já está acostumado com a linguagem utilizada pelos Irmãos, pode ir sem medo que certamente será mais uma ótima sessão. Para quem ainda não está familiarizado, bom, o filme pode ser uma boa porta de entrada.

Nota: 8,0

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Grandes Filmes Nacionais - Narradores de Javé

De: Eliane Caffé. Com José Dumont, Nelson Xavier, Nelson Dantas, Matheus Nachtergaele e Gero Camilo. Drama, França / Brasil, 2003, 101 minutos.

Patrimônio cultural imaterial. Também conhecido por patrimônio cultural intangível abrange, de acordo com a Unesco, as expressões e tradições que um grupo de indivíduos preserva em respeito a sua ancestralidade, para as gerações futuras. Assim são exemplos de patrimônio imaterial os modos de fazer, as formas de expressão, as celebrações, as festas, as danças populares, as lendas, as músicas e os costumes. É aquilo que passa de geração para geração por meio da palavra - e de outras manifestações artísticas e culturais - e que se constitui como importante elemento para a formação da identidade de um povo. Ainda que não seja algo exatamente palpável. Todos nós já ouvimos falar, por exemplo, do queijo artesanal mineiro. Pois este conhecimento, transmitido há muito pelas famílias de lá, constitui-se de patrimônio imaterial. Vale o mesma para festas como a do Divino no Espírito Santo e tantas outras espalhadas pelo País.

Pois essa verdadeira pérola que é o filme Narradores de Javé, da diretora Eliane Caffé, fala exatamente sobre isso. Sobre a importância da manutenção de sua história para um povo e do que significa este fato para as suas existências - por mais simplórias que estas possam ser. Geralmente patrimônio cultural imaterial pouco valor tem para aqueles que pensam exclusivamente no potencial econômico das coisas, dos objetos, das pessoas. Para a sociedade tecnicista - e que se pauta exclusivamente pela linguagem do "economês" (do PIB, da rentabilidade, da balança comercial e das exportações, dos lucros e dos dividendos) um povoado pequeno, repleto de pessoas humildes e semianalfabetas pode representar apenas uma faixa de terra desperdiçada que, com o investimento correto, poderia gerar riquezas para meia dúzia de pessoas. E tristezas para muitas outras.


Javé, a cidade fictícia do filme, se localiza em um Vale. A obra começa com a notícia de que um grupo de investidores quer construir uma barragem, com a intenção de transformar o vilarejo em uma represa. Como tudo iria ficar debaixo da água, a retirada das famílias do local - no caso, "a maior desgraça que pode cair sobre um povo", como relata Zaqueu, personagem de Nelson Xavier - já iria começar em breve. A única salvação dos habitantes de Javé, de acordo com Zaqueu, seria tombar a cidade como Patrimônio Histórico. O que poderia ser feito por meio da elaboração de um documento que reconhecesse a importância da localidade, a partir do relato de seus moradores, como espaço de "valor inestimável para o País". Assim, a construção do dossiê, a partir da apropriação do patrimônio imaterial da população de Javé, poderia representar a sua continuidade. Mas como fazer isso em tão pouco tempo?

A cidade vai atrás de um certo Antônio Biá (José Dumont), funcionário dos Correios, um dos únicos que sabe usar esse "negócio das letras, os floreios, a juntada da escrita, tudo com formosura, de acordo com as regras da escritura", como ele mesmo afirma. Biá fica encarregado do relato e vai de morador em morador, de casa em casa, com poucas ou muitas pessoas, para ouvir as histórias sobre os antepassados que, com seus movimentos heroicos, conduziram os habitantes de Javé até seu destino, após fuga da guerra com a Coroa Portuguesa. Cada morador conta a história de seus personagens distintos - Indalécio, Indaleu, Mariadina - de uma forma, tornando a tarefa exaustiva para o amanuense, mas absolutamente prazerosa para o espectador. Que se diverte a cada segundo com o naturalismo das interpretações, a presença de espírito infinita de seus personagens - pessoas claramente simples, mas povoadas por conhecimentos empíricos -, o nonsense das lembranças e a diversidade de sequências memoráveis (como esquecer por exemplo da hilária conversa entre Biá e Vado, personagem de Rui Rezende, sobre tipos de peido, em uma noite de bebedeira?)


José Dumont, com quase uma centena de interpretações em novelas, séries e cinema pode-se dizer que é a alma do filme. Adotando uma postura zombeteira com seu Biá, parece ter uma tirada, um ditado ou uma frase espirituosa para definir qualquer situação. Se ele não gosta de usar caneta diz que o problema é a "disenteria de tinta" provocada pelo objeto. Diante de um morador que recebeu uma dentadura nova, brinca que este parece um "jacaré apaixonado". É a partir de suas divagações e análises que Eliane Caffé transforma um filme que poderia ser pesado - com sua aridez natural, fotografia amarelada e trilha sonora melancólica - em uma obra absolutamente leve, fluída e gostosa de assistir. E se a inevitável modernidade vem, na forma de água, arrastando tudo, de uma coisa se pode ter certeza: onde quer que esteja o povo de Javé, qualquer que seja o local em que ele se estabeleça, a sua história, esse patrimônio imaterial transmitido de geração para geração, permanecerá.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Cine Baú - A Classe Operária Vai ao Paraíso (La Classe Operaia Va In Paradiso)

De: Elio Petri. Com Gian Maria Volonte, Mariangela Melato, Salvo Rondone e Mietta Albertini. Drama / Itália, 1971, 126 minutos.

Existe uma frase atribuída a escritora, filósofa e ativista política Simone de Beauvoir que se aplica bem ao contexto apresentado na obra-prima do cinema italiano A Classe Operária Vai ao Paraíso (La Classe Operaia Va In Paradiso). Afirmava ela que o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos. Sim, vocês bem sabem que tal sentença se mantém mais do que atual, especialmente no nosso País que assiste a uma verdadeira caçada a direitos e conquistas sociais, que são vilipendiados diariamente por um Governo ilegítimo. E o que é pior, corroborando a tese de Simone: sou o aplauso e a bateção de panela da turba da camiseta da CBF. Da família de bem que parece conviver com uma espécie de Síndrome de Estocolmo política em que é capaz de encontrar regozijo por ser saqueado, invadido, subtraído. "Dormia, a nossa Pátria tão distraída" já dizia Chico Buarque. Vai passar, esperamos.

Pois na Itália do final dos anos 60 e início dos 70 - período que veio a ser conhecido mais tarde como Outono Quente, por conta da série de protestos, greves e outras agitações sociais que chacoalharam o País que, alinhado ao Plano Marshall americano, experimentava um crescimento econômico desenfreado - a frase de Simone também encontra pouso. Encontra pouso em Lulu (Gian Maria Volonte), o protagonista. Lulu é o que pode ser chamado de "operário-padrão" pra usar um jargão do meio. É dedicado e admirado pelos seus chefes pelo trabalho que desempenha, com muito esforço e suor, em uma indústria metalúrgica. Ao lado de outros empregados, passa os seus dias operando máquinas que produzirão roldanas, porcas, parafusos e correias de transmissão que, sabe-se lá onde vão parar e para que uso serão aplicadas. Mas serão, certamente, assim imaginam os colaboradores.


Apesar das condições absolutamente insalubres de trabalho, em um ambiente úmido, escuro e barulhento, em que os empregados, que sequer podem sentar durante suas atividades, ainda convivem com metas altíssimas, Lulu se mantém alheio a qualquer manifesto contra a visível opressão a que são submetidos os operários. Enquanto sindicalistas, jovens colegas e estudantes - oras, sempre esses estudantes "vagabundos" querendo "incomodar" (quem sabe se o Governo italiano tivesse congelado os investimentos em Educação durante 20 anos?) - distribuem panfletos em frente a fábrica, conclamando os trabalhadores para greves que poderão resultar em cargas horárias mais justas, salários mais adequados e melhores condições gerais, Lulu se mantém em seu mundinho particular. Mundinho em que recebe tapinhas nas costas dos superiores por desenvolver sistemas que aumentam a produtividade. E que servem apenas para jogar mais pressão nos colegas de trabalho, já que o salário de ninguém, a não ser dos donos, aumenta. Aliás, os colegas não gostam de Lulu, que se sente patrão. Tem o sonho de consumo da classe média, seus carros e televisores. Mas quando volta pra sua casa minúscula e excruciantemente quente está tão exausto que sequer consegue ter um convívio familiar razoável, com o problema se estendendo até mesmo para a parte sexual.

Digamos que a ficha cai - lembram da ficha do Laerte, que ainda esperamos que caia por aqui? - para Lulu quando, num dia de trabalho exaustivo, ele perde um dedo. Desassistido pelo Plano de Saúde ocupacional, que lhe fornece o mínimo dos mínimos, Lulu resolve que é hora de se engajar, aderindo ao pleito do sindicato, que organiza uma greve que faz com que as operações da fábrica fiquem paralizadas por duas horas. Mas as conquistas dos grupos sociais e revolucionários ainda que impactantes para o período acabam insuficientes em relação a vida particular de Lulu, que perde o emprego logo após retornar de sua licença sob a desculpa de que, sem um dedo, sua produtividade se torna muito menor. Sim, os tapinhas nas costas dão lugar ao pé na bunda. Tudo isso em um arco dramático que poucas vezes foi tão contundente no chamado "cinema político" e na abordagem da relação patrão-operário que, pode-se dizer, iniciou, ainda que de maneira mais tímida, durante o neorrealismo italiano de filmes como Ladrões de Bicicletas.


Elio Petri constrói o seu filme não sem injetar uma boa dose de melancolia, apresentando a classe operária como uma massa ignorante do ponto de vista político, capaz de se glorificar apenas ao assistir a TV a noite, com suas novelas e programas de auditório repletos de personagens exuberantes. E é por meio desse "espelho" que ela sonha com a ascensão social, alienada ao mundo e devota a um contexto que, de maneira quase invisível, lhe consome o corpo e a alma. (e não é por acaso que, em dado momento, sequer nos surpreendemos com a revelação do protagonista que diz ter apenas 31 anos, apesar de aparentar 50) "Vocês não seriam nada sem os patrões" brada a namorada de Lulu em determinado momento, deixando aflorar um indelével caráter reacionário. Todas essas questões abordadas na película - ganhadora da Palma de Ouro de Cannes em 1972 -, que não tem vergonha de tomar partido no debate, culminam em um dos finais mais acachapantes da história do cinema (spoiler!), em que o grupo de operários, como que vivendo uma espécie de transe coletivo, trafega entre a loucura da rotina e a realidade da repetição mecânica de suas tarefas (bem ao modo de Chaplin em Tempos Modernos), bradando uma série de frases sem sentido. Tudo embalado pela ostensiva trilha sonora de Ennio Morricone. Fundamental.