Sim, eu devo ser um dos únicos fãs de música que se empolga genuinamente com um novo disco do Kings of Leon - então, estou animado para o novo registro da família Followill, que está previsto para o próximo dia 05 de março. Com o nome de When You See Yourself, o sucessor do bom WALLS (2016) contará com 11 faixas produzidas por Markus Dravs. Quem acompanha os irmãos Caleb, Nathan e Jared, além do primo Matthew, sabe que o anúncio do novo trabalho já vinha sendo gestado nos últimos meses - e a especulação ganhou ainda mais força já no primeiro dia do ano, quando alguns teasers foram disponibilizados, além da divulgação dos singlesThe Bandit e 100.000 People, que já se encontram nas plataformas de streaming e que tem aquele tradicional climinha KOL. É óbvio que em se tratando dos norte-americanos não dá pra cantar vitória antes da hora - até mesmo pela discografia bastante irregular produzida pela banda. Mas nós, aqui do Picanha, já estamos aguardando este que pode ser considerado um dos grandes lançamentos desse começo de 2021.
Tracklist
01 – When You See Yourself, Are You Far Away 02 – The Bandit 03 – 100,000 People 04 – Stormy Weather 05 – A Wave 06 – Golden Restless Age 07 – Time In Disguise 08 – Supermarket 09 – Claire And Eddie 10 – Echoing 11 – Fairytale
Ainda que não tenha entrado na nossa lista com 25 Melhores Discos Internacionais do ano passado, o álbum WALLS, do Kings Of Leon agradou, sendo muito bem recebido pelo público - ainda que boa parte da crítica não tenha resistido em colocar sobre o trabalho o selo de "mais do mesmo". Mas o quarteto de Nashville, Tenessee, não deve estar nem aí pra isso, como mostra a campanha de divulgação do disco. Em pouco mais de meio ano o grupo já divulgou cinco videoclipes, sendo o mais recente, lançado na semana passada, para a música Reverend - a favorita do cast do Picanha, diga-se. O clipe tem um clima nostálgico, com a banda funcionando como parte de uma equipe policial de uma pequena cidade, que investiga a queda de uma pequena nave brilhante de formato orbital, que provoca uma série de acontecimentos estranhos. Vale clicar!
O Kings Of Leon sempre pareceu trafegar no limite entre o mainstream e a música alternativa, entre os hits radiofônicos e a aparição no Lado B. Se no começo da carreira, época dos disco Youth and Young Manhood (2003) e Aha Shake Heartbreak (2004), a banda até fez algum sucesso fora dos Estados Unidos - na Inglaterra principalmente - era em apresentações em pequenos locais do País que uma massa dedicada de fãs cantava com toda a vontade canções como Molly's Chambers e The Bucket. A situação só se modificaria mesmo com o álbum Only By The Night (2008). Da noite para o dia, os irmãos Followill, criados sob a rigidez religiosa de uma família de Nashville, no Tenessee - diz a história que eles sequer podiam assistir televisão entre uma aula e outra - foi catapultada ao estrelato por conta dos incensados hits Use Somebody e Sex On Fire. Quem não cantou essas até cansar?
De lá para cá foram mais dois registros - o bom Come Around Sundown (2010) e o chatinho Mechanical Bull (2013). Em ambos os casos as porções de southern rock mais cru e certamente mais direto que marcava presença nos trabalhos iniciais se encontrava, eventualmente, com o pós-grunge mais garageiro com um pé no alternativo, a marca dos álbuns mais recentes. Não chegava a ser exatamente uma esquizofrenia musical, mas, se os arranjos se fortaleceram no que diz respeito a complexidade - com mais efeitos, distorções e outros instrumentos - por outro lado o sentimento parecia meio confuso em relação ao caminho que a banda deveria seguir em seu sétimo disco. Se reinventar? Se apropriar de outras vertentes? Voltar as origens? Ou entregar um trabalho a moda do Kings Of Leon a que estamos acostumados? Bom, acertou MAIS quem arriscou esta última alternativa.
Poucas vezes o Kings Of Leon soou tão à moda do... Kings Of Leon, aquele mesmo a que estamos acostumados, como em WALLS, o seu mais recente trabalho. Uma audição despretensiosa no primeiro single, Waste a Moment, já nos dá aquela impressão de "já ouvi isso antes". Desde a guitarrinha certeira que abre a canção, somado ao baixão característico, até a entrada do vocal anasalado de Caleb Followill... tudo juntado até entrar um dos refrões mais ganchudos do ano, a impressão que temos é a de estarmos diante de uma espécie de Use Somebody 2. E a sensação não muda ao ouvirmos Reverend, Around the World, Find Me, Over. Sem medo de apresentar um material familiar, o quarteto consegue a rara proeza de lançar um álbum com 10 músicas com potencial radiofônico. Alguma vergonha nisso? Nenhuma. Isso é simplesmente garantir aos fãs mais algumas boas doses de diversão.
É evidente que o lançamento de mais uma boa coleção de canções pegajosas não representa, necessariamente, obviedade e há que se ter cuidado sobre isso. Ainda que a crítica esteja saudando WALLS - um acrônimo simpático para We Are Like Love Songs - como um retorno aos primórdios, há muito mais a ser considerado. Não é por acaso que a própria capa, um trabalho bem diferente do convencional, tem suscitado debates e comparações com a registrada pelo The Byrds em Byrdmaniax - certamente uma referência para os Followill. Da mesma forma a sonoridade aparentemente tradicional do quarteto, aqui e ali, é capaz de revelar elementos inovadores, e que atestam a relação dos Kings com outras vertentes. É o caso, por exemplo, da percussão latina e dos ecos quentes de Muchacho, uma das mais legais do disco.
Se apresentando ainda como uma espécie de voz da geração, Followill segue construindo as suas letras a partir do ponto de vista macro das angústias humanas, poucas vezes invadindo o íntimo, mas sempre falando sobre aquilo que efetivamente queremos ouvir. Assim, não é difícil encontrar versos que analisam relacionamentos complicados (Waste a Moment), amores nostálgicos e fracassados (Over) ou mesmo divagações cotidianas (Around The World). São lugares de voz que podem até parecer complexos em um primeiro momento, mas que se tornam de fácil identificação a partir daí. E que talvez também expliquem a verdadeira comoção que os irmãos causam em sua relação com os fãs. Bem longe de querer construir o disco do ano, o KOL segue lançando e agradando. Para eles não parece ser necessário mais do que isso.