segunda-feira, 26 de junho de 2023

Novidades em Streaming - Beau Tem Medo (Beau Is Afraid)

De: Ari Aster. Com Joaquin Phoenix, Parker Posey, Patty LuPone e Amy Ryan. Comédia / Drama, EUA / Canadá / Finlândia, 2022, 179 minutos.

Joaquin Phoenix interpretando um adulto infantilizado mergulhado em traumas edipianos, tentando superar uma série de tragédias familiares - entre elas as que envolvem a conturbada relação com a própria mãe. E, como se não bastasse tudo isso, uma experiência filmada por Ari Aster - de Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (2019). Tem como dar errado? Bom, aí vai de cada fã de cinema. Afinal são três horas extravagantes, divertidas, excêntricas e ousadas. Com um tipo de narrativa menos convencional que o habitual - o que talvez exija uma paciência um pouco maior. Ao cabo, Beau Tem Medo (Beau Is Afraid) é aquele tipo de obra que costuma dividir opiniões. Quem gostar vai considerar essa uma excelente alegoria para as manifestações psicológicas e os consequentes transtornos mentais que decorrem de uma mãe castradora e narcisista. Já aqueles que não simpatizarem tenderão a achar apenas entediante ou presunçoso. Um meio termo? Talvez.

Na trama, Beau Wassermann (Phoenix) é o sujeito solitário, filho de uma ricaça, que reside em um bairro tomado pela criminalidade (o caos do entorno é tão sufocante que o simples ato de entrar em seu apartamento é um desafio). Em meio a visitas ao psiquiatra e uma rotina de poucas novidades, Beau programa uma viagem para visitar a mãe, como forma de "comemorar" o aniversário de morte do próprio pai. Só que depois de uma madrugada mal dormida em que Beau é confundido com o vizinho que está com o som alto no prédio, o protagonista perde não apenas o voo, mas também a sua bagagem e as chaves de casa, que são roubadas na cara dura. Quando Beau liga pra sua mãe pra explicar todo esse contexto, ela faz pouco caso. Mais do que isso, inicia um processo de chantagem emocional que apenas ampliará o sentimento de ansiedade de Beau. Com tudo piorando no dia seguinte quando, em nova ligação, Beau descobrir que sua genitora está morta. Em um trágico acidente doméstico envolvendo a queda de um lustre.


Nessa altura do campeonato a gente já não sabe mais o que é coisa da cabeça de Beau, o que é trauma, ou o que é o simples desejo de fuga dos conflitos familiares. Para Mona Wasserman (Patti LuPonne) seu filho parece ser sempre alguém em dívida com ela. Ela lhe deu a vida, o que talvez lhei deixe na obrigação de atender seus desejos de forma incondicional. Mesmo que esse "desejo" seja uma simples visita. A mala e as chaves perdidas por Beau, assim como a demora pra acordar e pegar o voo no dia da viagem podem ser apenas uma desculpa verdadeira de quem efetivamente não conseguiu cumprir o combinado. Mas será mesmo? Será que no inconsciente desse sujeito tão perturbado, seus traumas que envolvem quartos escuros e uma mãe que sequer lhe deixava namorar sob a desculpa de ele ter uma grave doença no coração -, não são apenas a manifestação mais concreta de quem simplesmente não quer ir ao encontro da própria mãe? Por quê, se ele vai simplesmente sofrer - ou ser cobrado - ele iria?

Sim, a narrativa é cheia de buracos pra gente preencher com as nossas percepções, com a nossa bagagem, com a nossa história. Relações complexas com a mãe? Que chame Freud quem nunca teve alguma dificuldade. No percurso de Beau ele passará por tudo quanto é dissabor - que vão de um atropelamento, passando por uma fuga desesperada até chegar a um encontro inusitado com um grupo de atores itinerantes no meio da floresta. Todos esses elementos parecem se converter em pequenas pecinhas do quebra-cabeças que nos ajudarão a compreender não apenas o que aconteceu de fato com o pai de Beau em sua juventude, mas também como se comportava verdadeiramente a sua mãe no período. O que fará com que a gente entenda, ao menos em partes, os motivos de Beau querer fugir o tempo todo de Mona. Ou ao menos fugir dessa visita. E depois se arrepender. E tentar ir ao seu encontro de qualquer maneira. E se sentir livre. E viver. Não é uma experiência fácil e a impressão que se tem é que cada um que assistir vai dar ao filme uma interpretação. Isso não é ruim - ainda que possa sugerir que as ideias estão apenas espalhadas. Mas é uma obra que tem seu ponto, soberbamente executada do ponto de vista técnico, e que nos deixa em suspense em boa parte do tempo. Mesmo que esse tempo dure três horas.

Nota: 8,0


quinta-feira, 22 de junho de 2023

Picanha em Série - Black Mirror (6ª Temporada)

Vamos combinar que talvez desde a terceira temporada a série Black Mirror já não nos comove tanto. Provavelmente a realidade anda tão dura, tão no limite do absurdo - em meio a guerras, pandemia e ascensão de grupos extremistas de direita -, que uma antologia que debate os limites do uso da tecnologia e na discussão de questões éticas, políticas e sociais da contemporaneidade, talvez não seja mais nenhuma novidade. Em meio a inovações como o Chat GPT, assistentes virtuais com recomendações personalizadas, deepfake, realidade aumentada e até mesmo stalkerwares (que permitem monitorar pessoas a distância), a impressão que temos nesta sexta temporada da série idealizada por Charlie Brooker foi a de que alguns episódios foram "menos Black Mirror que o padrão Black Mirror". É divertido de assistir? É. Dá pra passar sem ver? Talvez. Nós do Picanha assistimos aos cinco episódios e aqui damos o nosso veredicto.

Joan is Awful: esse aqui tem uma premissa sensacional que, infelizmente, na reta final soa meio apressado e até mesmo, vá lá, excessivamente debochado (ok, fazer graça pode ser uma boa, mas eu senti falta de uma imersão maior que nos conduzisse para além do rasinho em relação as consequências do que assistimos). Na trama Joan é uma CEO de uma empresa de tecnologia que é surpreendida quando percebe que os eventos de sua vida estão, literalmente, sendo recontados em uma série de uma plataforma de streaming (um certo Streamberry, que parece tanto a própria Netflix, que tem até o tradicional "tudum"). Ao contatar sua advogada, Joan descobre que essa bizarra experiência está acontecendo com ela, pelo simples fato de ela ter assinado os termos de uso da plataforma sem ter lido. Assim, uma espécie de computador quântico recria a sua história praticamente em tempo real, a partir dos dados fornecidos por ela nos seus dispositivos. É um episódio com o DNA Black Mirror, estrelado por Salma Hayek e Annie Murphy, que se estivesse na primeira temporada da antologia, talvez fosse ainda melhor. Nota: 8,0



Loch Henry: esse aqui tem um climinha de suspense adolescente genérico que não chega a empolgar tanto assim. É ok, só não inesquecível. Na história acompanhamos um casal de estudantes de Cinema, seus nomes são Davis e Pia, que, em visita a familiares em uma isolada cidade rural da Inglaterra tomam conhecimento da existência, no passado, de um certo Iain Adair - um notório serial killer que era famoso por torturar turistas. Como eles são acadêmicos da área, Pia sugere que seria legal fazer, quem sabe, um documentário, sobre esse episódio macabro. Em meio ao trabalho, a dupla descobre uma série de fitas VHS que contém segredos escabrosos que mudarão completamente o rumo da história que estão contando. Há uma surpresinha no final que subverte a ideia simples de suspense rural de horror com começo, meio e fim. Mas tudo fica meio que no quase. Nota: 6,5



Beyond the Sea: disparado o melhor episódio da temporada e, talvez se tivesse um pouco mais de metragem, poderia ser um filme isolado, descolado da antologia, talvez até com direito a elogios da crítica. Também é o mais Black Mirror de todos os episódios, ao misturar uma narrativa de viagens espaciais e réplicas robóticas de seres humanos na Terra. Na trama, os astronautas Cliff e David (Aaron Paul e Josh Hartnett) estão em uma missão espacial de seis anos, deixando nas suas casas cópias mecânicas de seus corpos, que lhes permite interagir, minimamente, com suas esposas e filhos. Só que a coisa desanda quando David fica preso na nave após a sua versão robô e a sua família serem assassinados por extremistas ligados a algum tipo de culto religioso. Incapaz de ver seu parceiro em estado catatônico dentro da nave, Cliff oferece a ele a oportunidade de ir a Terra utilizando o seu corpo - uma experiência que poderia ser terapêutica, já que David poderia "respirar" outros ares, pintar e... interagir com a esposa de Cliff. Claro que a coisa vai desandar e será impossível ficar alheio a um desfecho tão brutalmente impactante. Nota: 9,0



Mazey Day: o episódio mais curtinho da temporada mistura história de horror com tintas de realismo mágico, em meio a crítica ao universo sempre caótico de culto as celebridades e de clickbaits em páginas sensacionalistas. É uma trama meio convencional onde acompanhamos uma paparazzi que vê sua vida virar do avesso quando um famoso se suicida após ter fotos que revelavam um caso extraconjugal, vazadas. Disposta a abandonar a carreira, a fotógrafa Bo se vê atraída por um novo trabalho, que envolve a busca por um click que seja de uma certa Mazey Day, uma atriz que desapareceu após um atropelamento ocorrido na República Tcheca. Os limites éticos da profissão serão testados quando Bo decide ir até a clínica de reabilitação em que Mazey está internada. E será lá que ela será surpreendida por um acontecimento bizarro que alterará a vida de muitos. Nota: 6,5



Demon 79: sinceramente esse aqui eu penei pra concluir porque ôôô troço bem chato. Além de longo, o episódio não tem absolutamente nada de Black Mirror sendo apenas uma história de tintas políticas - essa parte é ok, gostei -, que envereda para o terror setentista. Na trama uma vendedora de loja que sofre com casos explícitos de racismo, encontra uma espécie de talismã do subsolo do departamento que trabalho. Após esfregar o amuleto, ele libera um demônio de nome Gaap, que surge vestido como Boney M. O sujeito diz a ela que será preciso assassinar três pessoas no intervalo de três dias para evitar que a Terra sofra uma espécie de apocalipse nuclear. A ideia é boa, mas por fim acaba sendo mal executada. Especialmente por apostar em um senso e humor meio excêntrico, que reduz o impacto dos temas que o episódio pretende discutir. Nota: 5,0




Média geral: 7,0

terça-feira, 20 de junho de 2023

Pitaquinho Musical - Janelle Monáe (The Age of Pleasure)

Talvez seja apenas a vida imitando a arte. Ou mesmo a Janelle Monáe "se guardando pra quando o carnaval chegar". E o carnaval, já diria Chico Buarque por aqui, há de chegar. Também nos Estados Unidos. No caso da artista americana, esse desejo de libertação de sistemas opressores que parecia estar no centro da narrativa de discos como o elogiado Dirty Computer (2018) - nosso quinto colocado na lista de melhores internacionais daquele ano -, aqui dá espaço para um senso de vitória. De exaltação. Sim, é hora de festejar. De deixar para trás a distopia capaz de evocar cenários de ficção científica, para mergulhar em uma temporada de amor, de paixão, de autodescoberta, de tesão (de muito tesão), de hedonismo. Sonhar com um mundo melhor em tempos de guerra, de pandemia e de extrema direita sempre rondando? Vem pra cá que Janelle não coloca o cropped e reage. Ela tira o cropped e arremessa ele pra longe. Se libera dele. Pra iniciar uma "era do prazer".


Sim, aquela parcela da mídia especializada essencialmente conservadora tem considerado pouco interessante esse The Age of Pleasure - o quarto trabalho da cantora - justamente por esse caráter menos cabeçudo (ou conceitual) do registro. Pra quem se acostumou a ver a artista vestida como se fosse uma deusa de um universo futurista que parece saída de alguma obra de Isaac Asimov, talvez estranhe essa desinibição toda. Essa ausência de roupa. Esse fogo, que parece fazer lembrar o tempo todo que o corpo também é político. E que com ele a mulher faz o que bem entender. "Estou me sentindo tão sexy" sussurra ela em Haute para, logo em seguida, na deliciosamente quente Water Slide, ela emendar um "se eu pudesse me comer agora mesmo eu faria isso". O disco em resumo é todo safado. O conceito aqui é a safadeza.  Com suas letras provocantes e seus ritmos que misturam dancehall, R&B, reggae e ritmos africanos. "Eu definitivamente tive uma oportunidade de evoluir, crescer e explorar as coisas que me dão prazer", resumiu em entrevistas de divulgação. 

Nota: 8,0


Novidades em Streaming - Till: A Busca por Justiça (Till)

De: Chinonye Chukwu. Com Danielle Deadwyler, Jalyn Hall, Haley Bennett e Sean Patrick Thomas. Drama, EUA, 2022, 131 minutos.

"Este é o cheiro do meu filho. Fedendo a ódio racial." (Mamie Till, educadora e ativista norte-americana)

Um dos crimes motivados por ódio racial mais brutalmente repugnantes da história dos Estados Unidos. Assim podemos chamar o assassinato à sangue frio de Emmett Till, um jovem de 14 anos nascido em Chicago, que foi linchado por homens (brancos, claro), que supostamente pretendiam vingar uma ofensa dirigida a uma certa Carolyn Bryant, moradora de Money, Mississipi. Os eventos que desencadeariam nesse ato atroz, bárbaro e invariavelmente estúpido são narrados no comovente Till: A Busca por Justiça (Till), obra dirigida por Chinonye Chukwu (de Clemência, 2019), que está disponível na plataforma Amazon Prime. Na trama retornamos ao ano de 1955, período em que os estados do Sul dos Estados Unidos ainda naturalizavam práticas segregacionistas que visavam a separar negros e brancos em ônibus, hospitais, escolas, parques e outros estabelecimentos públicos e privados. 

Sim, nos anos 50, há pouco mais de meio século, era considerado normal - e até legal -, manter brancos e negros separados em certos locais, com as leis antimiscigenação proibindo, inclusive, casamentos interraciais. Só que Emmett (Jalyn Hall) residia em Chicago, onde parecia haver uma abertura maior no que dizia respeito às questões raciais (a família havia se mudado do Mississipi durante a chamada Grande Migração, período em que centenas de milhares de norte-americanos se mudariam para os Estados do Norte, especialmente no começo do século passado). A própria mãe de Till, Mamie (Danielle Deadwyler) era a única empregada negra de uma refinaria da região, tendo se estabelecido no bairro afro-americano de Argo. O que para os padrões do preconceito do período quase possibilitava uma vida dentro de certa "normalidade". Só que Emmett queria passar férias de verão com seus primos em Money. E Mamie mal sabia que o abraço na estação de trem seria o último em seu filho.

 


Assistir a Till em um época de tanto ódio e de tanta intolerância - não há uma semana que seja que não somos impactados por alguma notícia que envolva crimes motivados por ódio racial -, torna tudo ainda mais revoltante. Durante a viagem ao Sul, Emmett é convidado a mudar de lugar ainda dentro do trem, o que já lhe gera certa estranheza. Os negros não ficam no mesmo vagão que os brancos, afinal. Só que mesmo assim ele não imaginava que uma simples cantada (um elogio seguido de um assobio, por assim dizer) dirigido a Carolyn (Haley Bennett) seria o estopim que resultaria em seu sequestro, seguido de linchamento e morte. O ódio pelo ódio, pura e simplesmente - que parece ser ampliado pela facilidade com que os americanos apontam armas uns para os outros (e isso que não estamos falando do Velho Oeste). Tudo se torna ainda mais asqueroso, mais nauseabundo, quando a dupla acusada do crime é simplesmente absolvida pelo júri (formado por aquele coletivo de homens brancos, velhos e conservadores). Crime que seria admitido pelos próprios assassinos mais tarde.

O sentimento de injustiça é tão revoltante, que Mamie resolve adotar uma medida drástica durante o velório do filho: mostrar o corpo do jovem  totalmente desfigurado, em caixão aberto. Uma atitude que não apenas confrontaria o patético sistema jurídico (e político) da época, como chamaria atenção de todo o País, com as manchetes circulando pelos principais jornais dos Estados Unidos. Em meio a questionamentos sobre o ativismo - que brotam do entorno - e a mentiras proferidas pela defesa durante o julgamento, Mamie encamparia essa luta até o limite do suportável, se convertendo em um verdadeiro símbolo da luta pelos direitos civis dos negros americanos (uma discussão que evoluiria por todos os anos 60). Ao cabo trata-se de uma obra histórica, conduzida com elegância (o desenho de produção e os figurinos são caprichados) e de grande relevância. Especialmente pelo fato de o debate sobre este tema, em pleno ano de 2023, seguir mais do que atual.

Nota: 8,5


segunda-feira, 19 de junho de 2023

Tesouros Cinéfilos - Um Plano Simples (A Simple Plan)

De: Sam Raimi. Com Bill Paxton, Billy Bob Thornton, Bridget Fonda e Brent Briscoe. Suspense / Drama, EUA / Alemanha / França / Reino Unido / Japão, 1998, 121 minutos.

"Mas a ambição do homem é tão grande que, para satisfazer uma vontade presente, não pensa no mal que daí a algum tempo pode resultar dela." (Maquiavel)

Se tem um subgênero do cinema hollywoodiano que considero fascinante é o do suspense policial que tem como cenário a área rural dos Estados Unidos. Aquele ambiente que se supõe habitado por "famílias de bem" - aquela classe média trabalhadora, de moral ilibada, que tem o seu cotidiano resumido a uma vida doméstica satisfatória (de casamento, filhos, encontros familiares) que se soma às idas dominicais à Igreja e às caçadas como forma de entretenimento. Esse País do interior, ao cabo, não se difere muito do nosso no que diz respeito ao conservadorismo e ao ideal de perpetuação de certas tradições. E talvez seja por isso que as obras que desvendam as vísceras, os meandros dessas comunidades mais fechadas, em alguns casos até retrógradas, são tão fascinantes. Afinal de contas até onde vai a retidão ética? A capacidade de fazer o certo? De não ser incorruptível?

No caso de Um Plano Simples (A Simple Plan), talvez o melhor filme do diretor Sam Raimi - que tem uma carreira meio irregular entre filmes de terror e produções baseadas em quadrinhos -, esse limite é testado quando Hank (Bill Paxton) e o seu irmão mais velho Jacob (Billy Bob Thornton, em atuação comovente) e mais o vizinho Lou (Brent Briscoe), encontram por acaso, numa região isolada do condado de Wright County, em Minnesota, um avião acidentado (escondido embaixo de uma grossa camada de neve). Até aí tudo bem, ao menos até o momento em que o trio resolve investigar o interior da aeronave e descobrem que o piloto não apenas está morto, como deixou uma enorme mala de dinheiro, contendo nada menos do que US$ 4,4 milhões de dólares. Tudo em notas de cem. A atitude mais correta seria a de avisar a polícia, claro - no filme representada pelo xerife Carl (Chelcie Ross). Bom, mas aí não haveria filme se tudo fosse tão simples né?



Voto vencido, Hank, um modesto contador de uma fábrica de rações que está esperando junto com a sua mulher Sarah (Bridget Fonda) - uma bibliotecária local - o primeiro filho, aceita que eles retenham a bolada, mas desde que o dinheiro fique em sua posse. O sujeito teme que nas mãos de Lou, um desempregado beberrão (e que adota fazer confusão) ou mesmo com Jacob, seu irmão que parece ter algum grau leve de deficiência (talvez esteja no espectro autista, nunca fica exatamente claro), possa dar alguma m**** que lhes incrimine. A ideia é aguardar o inverno passar para, ao final da estação, com a neve derretendo, esperar pela natural localização do avião. E, se ninguém falar uma linha que seja sobre o dinheiro, ficar com ele. É claro que a gente sabe que nem tudo será tão simples quanto parece e o roteiro é muito engenhoso em manter o interesse mesmo estando diante de um fiapo de história.

Hank, por exemplo, é convencido por Sarah a levar uma certa quantia de dinheiro de volta ao avião, pra não dar tão "na cara" assim em relação às autoridades locais. Só que tudo dá errado quando o homem convida Jacob pra ir junto - com eles sendo encontrados, por acaso, por um outro vizinho. O comportamento de Lou, desesperado por conseguir algum dinheiro em meio a ruína financeira e a um casamento em frangalhos também complicará tudo. E tudo piora quando Sarah descobre uma notícia no jornal que dá conta da história que envolve o sequestro de uma herdeira milionária (a origem do dinheiro, ao cabo). E tudo é absurdamente bem costurado, com a tensão sendo mantida com estratégias inteligentes, que vão desde a utilização de abutres que insistem em sobrevoar o local do acidente (há uma sequência bem no início que envolve o piloto do avião que é simplesmente notável) até chegar ao sentimento palpável de frio da alma e de desolamento proporcionado pela nevasca constante e pelos cenários desalentadores. É uma obra simples, mas extremamente bem executada e que ainda possui uma das mais devastadoras conclusões do cinema recente.


sexta-feira, 16 de junho de 2023

Tesouros Cinéfilos - Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (Lock, Stock and Two Smoking Barrels)

De: Guy Ritchie. Com Nick Moran, Jason Statham, Dexter Fletcher, Vinnie Jones, Sying e Jason Flemyng. Ação / Comédia, Reino Unido, 1998, 106 minutos.

Ok, a gente pode até concordar que, hoje em dia, o estilo um tanto frenético, com boas doses de humor cínico e de violência estilizada do Guy Ritchie pode ter dado uma saturada - como comprovam os repetitivos (e até confusos) Revolver (2005) e RocknRolla: A Grande Roubada (2007). Mas vamos combinar que os trabalhos de começo de carreira seguem sendo os mais divertidos, com suas tramas rocambolescas, personagens aleatórios e coincidências sem limite. Primeiro filme da carreira do diretor, Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (Lock, Stock and Two Smoking Barrels) é um desses exemplares, com sua coleção de criminosos desajustados que tentarão a todo o custo passar a perna uns nos outros. Com uma grande chance de, ao cabo, todo mundo se dar mal no final. Sim, Ritchie vai no limite do absurdo esticando a corda estendida por outros de sua estirpe como os Irmãos Coen e, claro, Quentin Tarantino. A gente vai rir. Ainda que o sangue jorre na nossa cara!

Na trama, um habilidoso jogador de cartas - seu nome é Eddy (Nick Moran) - convence seus três amigos Soap (Dexter Fletcher), Bacon (Jason Statham) e Tom (Jason Flemyng), todos habituados a uma existência de golpes no "baixo clero" da criminalidade, a tentar enganar o perigoso mafioso Harry Lonsdale (P. H. Moriarty) em um jogo de cartas. Eddy se considera um gênio da coisa toda, mas não percebe que quem tá sendo enganado é ele: resumo da ópera, após uma arriscada aposta no pôquer, ele e sua turma acabam com uma dívida de 500 mil libras. Que deverá ser paga em uma semana, sob pena de todos os pescoços em questão serem devidamente cortados - como comunica o ameaçador Big Chris (Vinnie Jones). E como se já não estivessem devidamente ferrados - pra não usar outra palavra -, Harry ainda ameaça tomar o bar do pai de Eddy.

Só que nesse ínterim, o destino parece sorrir para esse quarteto meio desmiolado quando, sem querer querendo, eles escutam uma conversa que ecoa do apartamento vizinho: um certo Dog (Frank Harper) planeja um assalto a um grupo de produtores de maconha da vizinhança que parecem ter uma carga gigante de dinheiro e de drogas - ainda que mantenham as aparências de uma existência paz e amor meio riponga (e a cena em que os traficantes debatem longamente sobre o uso das grades na porta de entrada da casa, dá uma noção de suas preocupações). A ideia de Eddy e companhia é a de roubar Dog - que é seu vizinho, lembremos - quando eles voltarem do golpe contra os maconheiros. O roubo do roubo servirá então para saldar a dívida com o temido Harry. O que lhes livrará a cara. Claro que a gente sabe que as coisas não serão tão simples e, obviamente, há uma chance de tudo sair do controle. Até mesmo porque há outros interessados na jogada - como é o caso de um outro chefão, o traficante barra pesada Rory Breaker (Vas Blackwood).

Sim, são muitos personagens e uma costura de roteiro que, por mais que siga uma lógica bem estabelecida, exige certo grau de atenção do espectador para que nenhum detalhe se perca. E tudo se encaixe. Porque se já não bastassem as maracutaias que envolvem o fio condutor, ainda há uma série de subtramas importantes na narrativa - como aquela que envolve a compra de duas armas valiosíssimas (itens de colecionador) e o "sequestro" de um guarda de trânsito que estava no lugar errado e na hora errada (isso só pra ficar em duas). Estiloso do ponto de vista técnico - com sua fotografia amarelecida,  cortes de câmera rápidos, ângulos oblíquos e figurinos setentistas -, o filme ainda conta com excelente trilha sonora, de nomes como James Brown, Dusty Springfield, Robbie Williams e Stooges. Premiado em diversos festivais, o filme passaria batido pelo Oscar daquele ano. Mas nada que impeça o culto sobre a obra, que é adorada por um sem fim de fãs.


Pitaquinho Musical - Jess Williamson (Time Ain't Accidental)

Jess Williamson estava assistindo ao filme Cenas de Um Casamento (1973) de Ingmar Bergman quando pausou o filme porque simplesmente não conseguia parar de chorar: "é uma representação de um relacionamento desmoronando e eu me identifiquei demais com a forma como a protagonista feminina se sente", explicou a artista. O remédio para apaziguar a dor foi migrar para a sala ao lado onde estava o seu teclado - o que faria com que a canção Two Seasons simplesmente brotasse de seus dedos (e de sua alma). Uma das músicas mais tristes de seu quinto trabalho, Time Ain't Accidental, talvez ela funcione como uma espécie de fio condutor da temática que rege o projeto durante suas onze canções - que no caso, é a separação. Jess foi casada durante nove anos. E agora parece utilizar a sua música como uma forma de tentar juntar os cacos, desobstruir a dor e, ao cabo, continuar.

Sim, numa comparação com outros discos, especialmente o elogiado Cosmic Wink (2018), a artista que mescla country, folk e indie - ela é do Texas, afinal - parece uma nota mais melancólica. A estrada anda mais empoeirada, o deserto mais seco. E o coração? Parece ter sido jogado "aos lobos" (como ela canta em Hunter). Claro, nem tudo são tristezas e a própria cantora e compositora brinca sobre os processos movediços que envolvem os altos e baixos da paixão. Em Chasing Spirits, por exemplo, ela pergunta debochada "minhas canções de amor são mentiras agora que o amor se foi?". Não, não foi para sempre, mesmo que ela tenha escrito Forever, que está no citado Cosmic Wink. As pessoas mudam, sofrem, vivem e sobrevivem, sonham, tem decepções e anseios. Talvez não seja mero acaso Jess Williamson ter lançado um de seus melhores álbuns justamente após um rompimento. Vai ver seja parte da cura. De superar essas curvas sinuosas e difíceis - que abrem espaço para a esperança. E que fazem com que a gente se identifique tanto.

Nota: 8,0


quarta-feira, 14 de junho de 2023

Picanha em Série - Yellowjackets (1ª e 2ª temporadas)

De: Ashley Lyle e Bart Nickerson. Com Melanie Lynskey, Christina Ricci, Juliette Lewis e Tayny Cypress. Drama / Suspense, EUA, 2023, 524 minutos.

Abordar o trauma sem apelar para soluções previsíveis e ainda construir uma narrativa de suspense vigorosa, daquelas que prende a atenção do espectador de forma orgânica, sem forçar a barra. Esses são alguns dos méritos de Yellowjackets, série da Paramount+ que concluiu a sua segunda temporada recentemente - e que, admito, fui conferir por causa do hype (e também pela oportunidade de ver Christina Ricci, Juliete Lewis e Melanie Lynskey juntas em ação). Na trama, criada pela dupla Ashley Lyle e Bart Nickerson, acompanhamos duas linhas temporais - sendo a primeira em 1996, onde um trágico acidente de avião faz com que um time de futebol feminino de Nova Jersey fique preso e isolado por dezenove meses em uma floresta do Canadá. O outro segmento ocorre 25 anos depois, onde acompanhamos a vida de algumas das sobreviventes - com os acontecimentos do passado ainda assombrando as mulheres, agora adultas (com famílias, filhos e... traumas, muitos traumas).

Incapazes de simplesmente esquecer tudo que ocorreu 25 anos atrás - e quais as formas encontradas para sobreviver (e quem já viu qualquer material de divulgação da série, sabe do que estou falando) - Shauna (Melanie Lynskey), Misty (Christina Ricci), Tai (Tawny Cypress) e Natalie (Juliette Lewis) tocam suas vidas na medida do possível até o momento em que recebem uma espécie de cartão postal com um símbolo sinistro do passado - o que fará com que elas acreditem estar sofrendo algum tipo de chantagem. Quem afinal teria interesse de revirar esses esqueletos há tanto tempo enterrados? Tai, por exemplo, é candidata ao Senado e teme pelo uso político do caso para prejudicá-la. Ao mesmo tempo, as coisas não parecem ir tão bem assim em casa, especialmente quando seu filho pequeno passa a se comportar de forma estranha (com direito a desenhos sinistros, agressões a colegas na escola e pinturas macabras na porta de casa).



Para as demais também não parece haver interesse em reviver os episódios de duas décadas e meia atrás. O casamento de Shauna com Jeff (Warren Cole) pode até estar meio caído, o mesmo valendo para a conturbada relação com a filha Callie (Sarah Desjardins), mas nada se compararia a uma possível investigação que pudesse levar aos eventos que levaram à morte de Jackie (Ella Purnell), a melhor amiga de Shauna, na época do acidente. Já Misty é a "doidinha de bairro" frequentadora do 4Chan e outros fóruns online (especialmente um de detetives amadores) que parece se deliciar em investigar a vida e os objetivos de seus algozes. Natalie, por sua vez, é aquilo que a gente sempre espera da Juliette Lewis: a drogadita que ela interpreta como ninguém. Entre idas e vindas no tempo descobriremos como rituais místicos e florestas que parecem assombradas e dispostas a se "comunicar" com o grupo, levarão às jovens a situações limite como a prática de canibalismo e de rituais satânicos como modus operandi de sobrevivência. Especialmente no doloroso inverno que enfrentarão. A floresta passará a escolher quem morre, lembrará uma delas após uma inesperada perseguição. Será isso mesmo? Ou os traumas somados a perda de qualquer noção de realidade farão com que elas se comportem dessa forma?

Ao cabo, a série nos deixa sempre na dúvida se o que estamos vendo tem algo, efetivamente, de sobrenatural, ou se tudo não passa de efeitos tardios das mentes perturbadas das garotas. Não são poucas às menções à medicamentos para ansiedade ou depressão e a necessidade de terapias alternativas como forma de controlar os pânicos gerais. Tudo sendo ampliado quando o grupo de mulheres descobre que Lottie (Simone Kessell), uma jovem esquizofrênica que se vendia como líder espiritual do grupo, na época do isolamento, hoje sobrevive como uma espécie de coach espiritual em uma comunidade hippie de bem-estar coletivo. Aliás, Lottie poderá ser a chave para desvendar outras questões - especialmente após o sequestro de Natalie (que pretendia dar cabo da própria vida). Sim, parece haver muita coisa acontecendo ao mesmo tempo - entre alucinações, fugas da realidade e incertezas em relação ao que vemos. Mas é tudo muito bem costurado, editado e fotografado (as premiações estão aí pra comprovar). Com a cereja do bolo sendo a excelente trilha sonora noventista - de Veruca Salt à Radiohead, passando por Elliot Smith e Tori Amos. De ficar grudado na poltrona. E que venha a terceira temporada!

Nota: 8,5