segunda-feira, 11 de julho de 2016

Encontro com a Professora - Phoenix (Phoenix)

De: Christian Petzold. Com Nina Hoss, Ronald Zehrfeld, Uwe Preuss e Nina Kunzendorf. Drama, Alemanha, 2014, 98 minutos.

Conta a mitologia egípcia que a fênix é uma bela ave de asas coloridas, única da sua espécie, que, quando sente que vai morrer, faz um ninho de folhas aromáticas, deita-se nele e incendeia-se. Das cinzas, renasce como uma nova fênix, cuja missão é transportar os restos de sua antecessora para o altar do deus Sol. Com base nesse mito, em uma interpretação possível, se constrói Phoenix, filme alemão de 2014, dirigido por Christian Petzold. No elenco, estão Nina Hoss, Ronald Zehrfeld, Uwe Preuss, Nina Kunzendorf. Há momentos em que lembra um pouco Ida, aquela maravilha de 2013. E, para melhorar, é um filme embalado por um delicioso cancioneiro jazzístico, com destaque para Speak low, de Kurt Weil.

A trama, ambientada na devastada Alemanha pós-Segunda Guerra, conta a história de Nelly, cantora que fora aprisionada pelos nazistas. Durante o tempo no campo de concentração, seu rosto foi desfigurado por um tiro. De volta à liberdade, um cirurgião plástico restaura a sua face. Agora, ela está pronta para procurar o marido desaparecido, Johnny, e ela transforma esta busca no seu objetivo de vida. No entanto, quando Nelly finalmente o reencontra, no bar Phoenix, ele não a reconhece. Ou, pior, percebe que é muito parecida com a “falecida” e arma um plano: ele irá treiná-la para que finja ser Nelly. Assim, ele poderá usurpar a fortuna da esposa. Meio tonta pela situação, a mulher aceita o embuste, sempre na esperança de que Johnny a reconheça ou que demonstre, de alguma forma, que ainda ama a esposa desaparecida. Mas, na medida em que convivem, o marido que ela imagina vai se desvanecendo, apesar da sutil atração que existe entre ambos.



Este plot facilmente poderia se transformar num clichê romântico. Mas a direção segura de Petzold não permite isso. Às vezes, o filme quase escorrega para o melodrama. Uma cena como o suicídio de Lene, amiga de Nelly, poderia parecer improvável. No entanto, demarca bem o desespero do pós-guerra. Propositalmente minuciosa, seguimos passo a passo a transformação da protagonista, o rosto ferido, depois marcado pela cirurgia e pela longa reabilitação. Isso cria, apesar da morosidade narrativa, uma expectativa ante o provável reconhecimento de Johnny em relação à esposa. Parece-nos que, na medida em que ela for recuperando a aparência, ele irá percebê-la como sua mulher. Mas ela está morta para ele.

Não deixa de ser, retomando o mito da fênix, o momento em que Nelly deveria renascer. Só que ela não está preparada para deixar as próprias cinzas. Encontrar o marido é a única coisa concreta que existe neste mundo novo e brutal. Felizmente, chega um momento em que ela consegue cantar de novo. É quando Speak low se fixa na cabeça da gente, contando uma história que só a genialidade de Kurt Weil poderia compor.


Texto: Rosane Cardoso

sábado, 9 de julho de 2016

Picanha Cast - 01/07/2016

Neste Picanha Cast, falamos um pouco sobre o disco "Grace" do Jeff Buckley e do stand-up original da Netflix, Bo Burnham: Make Happy.

Apresentação: Ariana de Oliveira
Programa Enciclopédia 95&1 FM, da rádio Univates FM.

www.univates.br/radio
www.picanhacultural.com.br

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Disco da Semana - Wado (Ivete)

O cantor Wado talvez seja, na atualidade, um dos artistas que melhor represente aquilo que conhecemos por "novas formas de se consumir música". Em 15 anos de carreira, são nove discos lançados. Sim, NOVE. Todos eles disponíveis em seu site, para download gratuito. Sério, com alguma habilidade da arte de clicar e de extrair música dos arquivos, em talvez no máximo sete minutos, é possível ter todos os registros à sua disposição. Não existe mais música boa sendo feita no País, atualmente? Ao contrário, nunca se fez tanta música boa, diversificada, acessível, capaz de dialogar com todos os extratos da sociedade, indistintamente. O que mudou foi como ouvimos. Se o Wado não tem nenhuma música tocando nas rádios - não sejamos injustos com os nossos queridos da Univates FM, aqui de Lajeado, que desde a semana passada já incorporou o single Alabama à sua programação - não importa. NÓS podemos escolher o que ouvir. E isso, é verdade, a tecnologia tem de bom.

Em sua diversificada obra, o catarinense sempre foi mestre em se apropriar dos mais variados estilos, absorvendo características sonoras distintas e transformando-as em um produto ao mesmo tempo divertido, irônico, repleto de crítica social e MUITO brasileiro. E tudo isso sem esquecer daqueles elementos capazes de transformar uma canção em uma arte de consumo imediato, direto, sem firulas. Wado é pop, mas é hip hop, rap - esses dois estilos muito presentes em seu cancioneiro e em discos variados, como, Cinema Auditivo (Diabos), A Farsa do Samba Nublado (Grande Poder) e Atlântico Negro (Boa Tarde Povo, Rap Guerra do Iraque), mas é rock, música eletrônica, samba, funk, baladinha romântica, reggae... e agora é axé, como entrega o nome de seu mais recente registro, Ivete.



Produzido pelo próprio cantor - e gravado no estúdio Gravamusic - o álbum procura, de acordo com o material de divulgação, ir além daquilo que já foi feito anteriormente em Atlântico Negro (2009), buscando esmiuçar e vasculhar os guetos. "Ivete é a musa a não ser alcançada, ela é norte, mas não é ela quem canta no disco", explica o artista. "Ela é a musa intocada da empreitada". Uma atenta audição ao disco nos permitirá inferir que, para o cantor, a escolha pela vertente também está relacionada a um caráter ideológico, social e racial. O axé, enquanto manifestação artística, surge em meados dos anos 80, na Bahia, promovendo uma mistura de ritmos africanos e latinos, com reggae, forró e maracatu. "Musicalmente, procura-se evocar os primeiros discos solo de Moraes Moreira", explica Wado, em alusão ao cantor baiano, que poderia ser considerado um dos precursores da vertente que, mais tarde, seria impulsionada pela mídia.

Não à toa, o catarinense regrava Gilberto Gil e Moreno Veloso (Filhos de Ghandi), apresentando ainda uma nova coleção de canções capazes de evocar artistas diversos como Timbalada e Carlinhos Brown. Se o disco é enxuto em tamanho - são apenas 24 (imperdíveis) minutos - ele é grande no que se propõe, sando da zona de conforto naquilo que poderíamos considerar um artista já estabelecido, e com uma boa gama de fãs, dentro do nosso cancioneiro. Se as letras saem um pouco do caráter mais questionador em relação ao contexto político atual, observado anteriormente, para apostar num clima mais festivo - e até mesmo sensual (Um Passo a Frente, Sexo, Você Não Vem) -, é porque Wado também quer se divertir, gerando uma música que equilibra frescor e leveza a partir do diálogo entre a tradição e o moderno. Os fãs agradecem.

Nota: 8,0


quinta-feira, 7 de julho de 2016

Lançamento de Videoclipe - Courtney Barnett (Elevator Operator)

He said “I think you’re projecting the way that you’re feeling.
I’m not suicidal, just idling insignificantly.
I come up here for perception and clarity,
I like to imagine I’m playing Sim City.
All the people look like ants from up here,
and the wind’s the only traffic you can hear.”

(Courtney Barnett - Elevator Operator)

A australiana Courtney Barnett lançou, no ano passado, o disco Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit, trabalho que figurou entre os 25 melhores de 2015 - e se você ainda não o escutou, faça um bem a si mesmo e ouça-o, porque é maravilhoso! Como forma de seguir divulgando o registro, a cantora publicou na tarde de ontem um clipe para a deliciosa canção Elevator Operator. Recheado de participações especiais - entre elas, as meninas do Sleater-Kinney e o vocalista do Wilco Jeff Tweedy - o vídeo mostra a artista como uma ascensorista que encontra os mais variados (e esquisitos) tipos de pessoas. Abusando do bom humor - algo que também ocorre em suas letras ácidas, que versam sobre o cotidiano e a banalidade da vida durante a juventude - Courtney constroi uma divertida narrativa, no vídeo assinado pelo diretor Sunny Leunig. Vale clicar e conferir!


quarta-feira, 6 de julho de 2016

Cinema - Independence Day: O Ressurgimento (Independence Day: Resurgence)

De: Roland Emmerich. Com Liam Hemsworth, Jeff Goldblum, Bill Pullmann, Jessie Usher, Sela Ward, Maika Monroe e Charlotte Gainsbourg. Ficção científica / Ação, EUA, 2016, 115 minutos.

Em geral não sou avesso à continuações no cinema, desde que haja boas histórias a ser contadas. Se é assim com séries, que muitas vezes esgotam todas as suas possibilidades em intermináveis temporadas, por quê não haveria de ser também com os filmes? Ocorre que, na maioria dos casos, as sequências funcionam claramente como um veículo destinado a gerar dinheiro para produtores e executivos do setor, na ânsia de faturar uns pilas a mais com produtos já há muito desgastados. E, infelizmente, é preciso que se diga que o que ocorre com esse Independence Day: O Ressurgimento (Independence Day: Resurgence), é exatamente isso. Prestes a completar 20 anos do lançamento do primeiro filme, num agora já longínquo 1996, a data era uma ótima ocasião para, na onda dos reboots, retomar a série. Não havia por quê não acreditar: a tecnologia avançou, o mundo mudou bem como o pensamento, enfim... juro que acreditei que esta podia ser uma ótima continuação. Mas não é.

Tudo o que primeiro filme tinha de legal, de tenso, de divertido, inexiste nessa sequência. Posso estar sendo nostálgico talvez, mas em 1996 tudo era diferente. Para assistir um filme era realmente necessário ir ao cinema - ou aguardar o lançamento em vídeo cassete. Netflix? Internet para buscar alguma versão online? Nada. Lembro de ter ido com a família assistir a obra estrelada por Will Smith no antigo cinema do Geneshopping. Foi um dos acontecimentos do ano. Passamos dias falando do filme, que depois chegou a criar uma certa aura cult - a obra (pasme) figura até mesmo no livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer. Mas não é por acaso. A história era levemente inovadora - ao menos no que dizia respeito ao quesito "destruição do mundo" -, o elenco era absolutamente carismático - a química entre Smith e Jeff Goldblum é impagável -, o suspense tornava o filme quase sufocante - a cena em que, pela primeira vez, a sombra da grande nave mãe toma mãe toma conta de tudo, certamente está na memória dos fãs de cinema. Só que tudo isso se perdeu nessa sequência. Até as cenas de ação conseguem ser piores. E isso que o diretor é o mesmo.


A trama, praticamente igual a do primeiro, retoma os eventos ocorridos 20 anos atrás. De lá para cá, a Terra se uniu para combater o perigo alienígena, com direito a instalações construídas em Saturno e na Lua para monitoramento da movimentação dos OVNIs. Como os ETs também gostam de comemorar o 04 de julho - o Dia da Independência americana - eles resolvem retornar ao nosso planeta exatamente nesse dia, após receberem uma espécie de "pedido de socorro" interplanetário, vindo dos presos "políticos" mantidos em nosso solo. Isso significará uma nave-mãe ainda maior e aparentemente mais poderosa, que chegará ao nosso planeta sem nenhum tipo de suspense, de modo grosseiro, com o objetivo de sugar a energia de nosso núcleo magnético (se é que entendi direito), comprometendo assim a nossa existência.

Digamos que a parte do "se é que não entendi direito" não é de graça. Ainda que a obra se trate de uma diversão escapista e "nada cerebral", poucas vezes assisti a um filme tão confuso. Seja nas explosões, nas batalhas aéreas ou de solo, tudo é uma bagunça só, sensação ampliada pela fotografia permanentemente escurecida e pelo desenho de produção artificial. Além disso, ID2 tem dezenas de personagens. Além de resgatar Goldblum (que vive o cientista David Levinson) e Pullmann (o agora ex-presidente Whitmore), além de outros do original, era necessário acrescentar novos personagens, que despertassem a empatia das novas gerações, o que ocorre com o piloto Hiller (Usher), filho do personagem de Smith, a agente Patrícia (Monroe) filha de Whitmore e Jake Morrison (Hemsworth), que interpreta o bonitão descolado, que faz tudo ao contrário mas salva o dia, porque, afinal de contas, cinema catástrofe precisa de bons clichês no que diz respeito aos personagens, quase como um atestado de sua lógica de existência. Mas isso é quase nada, se comparado ao amontoado de personagens secundários absolutamente dispensáveis e que não causam NENHUMA comoção em quem assiste. Até a Charlotte Gainsbourg tá lá no meio, sabe-se lá fazendo o quê. E, nesse contexto, nada pior do que assistir a morte de um personagem que deveria ter alguma importância e não fazer muito caso já que, afinal de contas, os próprios personagens parecem não se importar muito, fazendo piadinhas bobas (e sem graça) o tempo todo, mesmo em situações de real perigo. E, muitas vezes, pouco depois da morte de algum ente querido.


Abusando, ainda, da paciência dos espectadores com diálogos quase surreais de tão improváveis ("vamos chutar algumas bundas alienígenas", "compraremos aquela casa que você tanto sonhou se ela ainda estiver lá quando voltarmos"), a obra ainda peca naquilo que poderia ter de mais representativo, no caso o significado e a importância da união dos povos enquanto IGUAIS na "luta" por uma causa maior e comum. Algo mostrado ao final do primeiro filme e, muito melhor explorado no até hoje clássico O Dia em Que a Terra Parou (1951). Sem se preocupar ainda com uma eventual misoginia, o filme parece retratar as mulheres apenas como "acessórios" de seus maridos/namorados/pais, cabendo a elas o papel apenas de aguardar o retorno de seus fortes, machos e patriotas homens de volta para casa. (e de preferência com o jantar já posto) Para um filme que gerou tanta expectativa, ID2 é mais catastrófico do que o próprio gênero do qual faz parte. E a perspectiva de uma série de filmes já encomendada daqui para frente, não é nada menos do que tenebrosa. Nesse caso, acho que nem os aliens nos salvarão.

Nota: 1,6

terça-feira, 5 de julho de 2016

Grandes Cenas do Cinema - Luzes da Cidade (City Lights)

Filme: Luzes da Cidade
Cena: Vendedora de flores finalmente encontra o seu benfeitor

Vamos combinar que não seria nenhum exagero fazer o quadro Grandes Cenas do Cinema apenas com os filmes do "vagabundo" mais famoso da sétima arte, dada a quantidade quase infinita de sequências icônicas entregues pelo mestre Charles Chaplin em suas obras. O próprio Luzes da Cidade (City Lights), lançado em 1931, tem muitas cenas clássicas, mas certamente nenhuma delas supera o epílogo, momento revelador em que a vendedora de flores - vivida de forma absolutamente tocante pela atriz Virgínia Cherril -, finalmente encontra e reconhece o seu benfeitor.



O nosso querido protagonista passa o filme inteiro fazendo a plateia rir em meio a uma série de desventuras após salvar um excêntrico milionário de um suicídio, fazendo amizade com ele. Só que o ricaço não o reconhece quando está sóbrio, apenas quando está bebaço, o que resultará em alguns mal-entendidos - além de várias sequências engraçadas, como a da janta, em que Carlitos se confunde e come uma serpentina como se fosse espaguete. Em paralelo a isso, o nobre vagabundo conhece uma vendedora de flores cega e resolve fazer de tudo para levantar a grana que possa ajudá-la a fazer uma cirurgia para recobrar a visão.

Carlitos acredita que o ricaço possa ser o caminho para alcançar seu objetivo, se sujeitando, inclusive, a alguns "empregos" fajutos que não dão muito certo - como o de lutador de boxe (em mais uma cena memorável). Após muitas tentativas, Carlitos alcança o seu objetivo mas acaba preso pela polícia. Quando ele é solto, em um dia inesperado, ele reencontra a florista, que não o reconhece de imediato. O que se vê a partir daí é absolutamente comovente, com a vendedora, que agora pode ver, inicialmente utilizando um tom de deboche em relação do homem que parece "paralisado" em frente a loja em que trabalha. Ao sair e perceber, após tocar seu braço, que se trata de seu benfeitor, ela tem uma epifania, proferindo a frase de duplo sentido - "agora eu posso ver" - mais icônica do cinema. Não é uma cena para chorar. É uma cena para derrubar RIOS de lágrimas. E tudo feito da forma mais natural possível, com interpretações singelas, sutis e que se valem muito mais dos olhares e dos silêncios, do que das palavras. (até mesmo pelo fato de Chaplin ter renegado a tecnologia sonora, optando pelo cinema mudo até quase o final de sua carreira) Simplesmente inesquecível!


segunda-feira, 4 de julho de 2016

10 Discos Para Morrer Antes de Ouvir (De Artistas que Gostamos)

O pessoal da Revista Bula fez, recentemente, um divertidíssimo post com os 20 Livros Para Morrer Antes de Ler, que procurava ajudar as pessoas a evitarem o "desperdício da existência", ao sugerir obras em que era preferível manter a distância - e olha que tinha muito autor consagrado lá no meio! Como nós, do Picanha, adoramos copiar boas ideias somos muito criativos, resolvemos aplicar a mesma lógica para bandas e cantores que gostamos e que, em algum momento de suas carreiras, pisaram feio na bola com algum registro absolutamente dispensável. O velho chavão diz que "é melhor ser surdo do que ouvir certas coisas". Bom, "certas coisas", no nosso caso são os 10 Discos Para Morrer Antes de Ouvir. Boa leitura!

#10 Belle and Sebastian (Fold Your Hands Child, You Walk Like a Peasant, 2000): os escoceses têm muitos discos legais, para que você se preocupe em perder tempo com o pior registro da carreira de Stuart Murdoch e companhia. Após três álbuns absolutamente matadores - Tigermilk (1996), If You're Feeling Sinister (1996) e The Boy With The Arab Strap (1998) - todos eles recheados por aquela fofura urgente, ao mesmo tempo melancólica e ensolada que conquistou todos os indiezinhos dos anos 90, a banda resolveu dar uma invetadinha básica: baixou um pouco o ritmo, incorporou elementos excessivamente sutis de orquestração romântica e soou repetitiva até mesmo quando não era. O resultado foi um álbum cansativo, chato e, hoje, só lembrado com carinho pelos fãs mais ardorosos. E olhe lá.


#09 Silversun Pickups (Better Nature, 2015): quando surgiu em 2006 com o ótimo Carnavas, o Silversun Pickups apareceu como uma grata surpresa que mergulhava diretamente nos anos 90, bebendo de fontes tão distintas como o Smashing Pumpkins e o bem... o Smashing Pumpkins, novamente. Sim, a banda parecia DEMAIS com o grupo comandado por Billy Corgan, mas os hits do registro eram tão efervescentes e de uma alma roqueira tão intensa que o trabalho chegou a figurar em listas de melhores daquele ano. De lá para cá foram mais três discos. Todos eles repetindo fórmulas que foram se tornando a cada dia mais cansativas. Hoje, o Silversun Pickups - pela sua absoluta falta de capacidade para se reinventar - pode ser considerada apenas a "banda chata que parece o Smashing Pumpkins". Uma pena.


#08 The Strokes (Angles, 2011): quando foi divulgado o single Under Cover Of Darkness, os fãs chegaram a salivar pela real possibilidade de reencontrar o Strokes de início de carreira, aquele mesmo de Is This It (2001) e que todo mundo amava - especialmente após o lançamento do apenas regular First Impressions Of Earth (2006), hoje vendido em lojas de músicas nos balaios, a "preço de banana". Mas a canção se mostrou um legítimo oásis no meio do deserto. Em um disco absolutamente irregular Julian Casablancas e companhia fizeram uma maçaroca sonora que tinha música caribenha (Machu Picchu), rock oitentista (Two Kind Of Hapiness), cancioneiro eletrônico de gosto duvidoso (You're So Right) e outras tantas invencionices. A sensação foi a mesma de perder Gre-Nal em casa. Terrível.


#07 Coldplay (Ghost Stories, 2014): o Coldplay nunca foi o bicho, todos sabemos, mas nesse disco, lançado em 2014, o grupo abusou da paciência até do fã mais devoto. Com o relacionamento com a atriz Gwyneth Palthrow terminado no começo daquele ano - para desespero das revistas de fofocas -, Martin resolveu injetar toda a sua "força criativa" nesse registro. Quer dizer, "força criativa" é mais uma expressão. Com um apanhado de músicas lentas, melancólicas e de letras sobre sofrimento amoroso, o vocalista exorciza os demônios - e quase manda junto o ouvinte pra bem longe, com tanta tristeza traduzida em música ruim. Sorte que, quase ao final do álbum, a belíssima A Sky Full Of Stars - traz de volta aquela bandas que, em algum momento lááá do disco Parachutes (2000), aprendemos a gostar.


#06 Manic Street Preachers (Send Away The Tigers, 2007): existe um certo paradoxo nesse álbum, já que uma das canções que mais ouvi da banda, o megahit You're Love Alone Is Not Alone, está nesse registro. Mas, definitivamente essa música - que conta com a parceria da cantora Nina Persson do Cardigans - não representa de maneira alguma o cancioneiro dos galeses, que tão bem misturam britpop com rock melódico. Não bastasse esse fato, o restante do disco jamais alcança a grandiosidade, a imponência e o significado de trabalhos fundamentais como The Holy Bible (1994), Everything Must Go (1996) e This Is My Truth Tell Me Yours (1998). Foi, definitivamente, uma pequena bola fora. Tanto que, no trabalho seguinte, a banda já voltou a boa forma com o até hoje lembrado Journal for Plague Lovers (2009).


#05 Cícero (Sábado, 2013): com o disco Canções de Apartamento (2011) o músico carioca Cícero deu uma verdadeira aula de como fazer um grande disco. Gravou e tocou todos os instrumentos, se apropriou de um referencial diversificado da música moderna, misturou tudo com uma MPB sofisticada, mas sem soar rebuscada, e cunhou, talvez, o melhor trabalho nacional daquele ano. Com direito a, no mínimo três canções inesquecíveis: Tempo de Pipa, Ensaio Sobre Ela e Vagalumes Cegos. Com o jogo todo ganho, qual deve ser o passo seguinte? Um disco todo ao contrário, desconstruído, hermético, de verve concretista, voltado a satisfazer absolutamente ninguém que não seja a si próprio. Cícero poderia ter demonstrado o eventual virtuosismo ou mesmo refinamento de outras formas. Assim, fez um disco chato, sem pé nem cabeça, com o pior da MPB moderna que tanto irrita parte da crítica.


#04 Smashing Pumpkins (Zeitgeist, 2007): tudo o que o Smashing Pumpkins tinha de versátil e de bacana no início de carreira, com uma vasta capacidade de explorar sonoridades distintas - fosse com a potente psicodelia roqueira de Cherub Rock, o pop adocicado de Today ou mesmo as orquestrações elaboradas e surrealistas de Tonight Tonight se perdem completamente com esse dispensável registro de 2007. Billy Corgan, com uma inadvertida ânsia de reaparecer para o mainstream, tocou (praticamente) todos os instrumentos, tornando o disco uma sequência de canções excessivamente soturnas, pouco inspiradas e repetitivas. Pode até parecer uma espécie de maldição, mas desde esse trabalho, o Smashing Pumpkins jamais foi o mesmo, lançando com Oceania (2012) e Monuments Of a Elegy (2014), trabalhos não mais do que médios.


#03 The Killers (Battle Born): tudo que a banda de Brandon Flowers tinha de legal - as emanações pop/oitentistas, os refrões pegajosos, as letras sarcásticas - parecem ter desaparecido nesse registro, que dá a impressão de ter sido feito a toque de caixa. Infelizmente nada se salva nesse trabalho, que é só aborrecimento em meio a construções óbvias e vocal choroso. Até mesmo a capa do disco parece estranha. A crítica já tinha torcido o nariz para o irregular Day & Age, lançado em 2008. Só que quando Battle Born veio ao mundo ele se mostrou etão ruim, que o disco anterior, recheado de hits - Human, This Is Your Life, Spaceman, The World We Live In - ficava parecendo uma obra-prima. Sorte que Flowers já recuperou a boa forma com uma ótima carreira solo de, até agora, dois discos lançados.


#02 The Decemberists (Hazards Of Love, 2009): O Decemberists vinha de uma sequência de três discos fundamentais - Her Majesty (2003), Picaresque (2005) e The Crane Wife (2006). Neles, apresentavam o melhor de seu som, uma mistura de "rock de cabaré", música circense e vaudeville, com instrumentos distintos como violino, xilofone e acordeão e personagens enigmáticos, como, baronesas, prostitutas, concubinas e reis mouros. A propósito, uma banda criativa e original como poucas, nos dias de hoje. Agora, entender os motivos pelos quais o grupo resolveu fazer uma espécie de opera-rock com ecos de heavy metal neste intragável Hazards Of Love) é algo que até o fã mais engajado deve se perguntar até hoje. Não à toa, a banda superou esse (quase inadmissível) tropeço, lançando, no trabalho seguinte, seu disco mais acessível: The King Is Dead (2011).


#01 Mumford and Sons (Babel, 2012): o mais incrível do Mumford and Sons é que, muito provavelmente, eles mesmo perceberam que são uma banda chata pra cacete e resolveram mudar de estilo no mais recente registro, intitulado Wilder Mind (2015). Não tá escrito em lugar nenhum que se você se apropriar de um filão mais do que batido - o das musiquetas country tocadas com banjo, com letrinhas chorosas e autocomiserativas e, ainda amparadas, por uma inadvertida aura de culto religioso - será garantia de música boa. Tudo nesse disco parece certinho demais, coxa demais, como se o quarteto fosse uma espécie de gaveta organizadora em que tudo está no seu devido lugar, resultando num trabalho oco, pouco inspirado e nada autêntico. Talvez não seja nem justa a presença do M&S nessa lista, já que, em geral, seus discos são muito fracos. Mas não resisti.

E pra vocês? Existe algum disco em que é preferível morrer do que ouvir? Nos escreva nos comentários! =D

sábado, 2 de julho de 2016

Disco da Semana - Red Hot Chili Peppers (The Getaway)

Coisa mais legal quando uma banda que a gente gosta - ou, minimamente, simpatiza - consegue manter um certo padrão de qualidade com os seus lançamentos (e com a sua carreira como um todo). E é exatamente esse o caso do Red Hot Chili Peppers que, após um hiato de cinco anos desde I'm With You (2011), chega agora ao seu décimo primeiro registro, com o recém lançado The Getaway. Você talvez escute alguns setores da crítica "especializada" - não é o nosso, evidentemente - dizer que a banda de Anthony Kiedis está repetindo fórmulas, apostando demais nas músicas mais calmas e outros chavões do gênero. Sim, se comparado com o 99% roqueiro - mas aquele 1% baladinha - que era o álbum de 2011, talvez a impressão que se tenha é a de que o quinteto tirou um pouco o pé do rock, para apostar mais ainda nas melodias pop. Mas isso não poderia ser considerado uma pequena reinvenção?

E outra, desde quanto o RHCP é apenas rock e barulho o tempo todo? Desde NUNCA diria eu. Mesmo nos trabalhos iniciais, mais recheados de groove e pontuados por uma indelével alma funk, era possível encontrar alguma calmaria de ares praianos ou assobiáveis. Oras, um dos maiores hits de início de carreira, a multicolorida, pop e ensolarada Behind The Sun - presente no essencial The Upflift Mofo Party (1987) - não seria mais uma canção acessível, comercial, radiofônica? E como esquecer de outro grande disco, Blood Sugar Sex Magik (1991), que promovia uma mistureba sonora capaz de consolidar no mesmo registro canções tão distintas como Give It Away e Under The Bridge. Outros exemplos, como By The Way (2002) também mostraram uma banda capaz de trafegar muito bem pelos mais variados estilos, pontuando momentos mais agridoces (The Zephyr Song), com outros mais potentes (Can't Stop).




Então, por quê os californianos fariam agora, DO NADA, um disco muito diferente, que representasse uma grande reviravolta em suas carreiras ou um outro caminho para Kiedis, Flea, Chad Smith e companhia? Não, não agora. Kiedis já passa dos 50 anos, podendo ser considerado um senhor dentro do mundo do rock, com o RHCP (pasme), completando 32 anos de carreira. Aos poucos as coisas vão se acalmando e, nesse caso, nada melhor do que pisar naquele terreno em que já se está familiarizado - valendo a premissa para fãs e para grupo. Ou seja, se você ouvir sobre uma banda cansada, pouco inovadora e etc, ignore. Evidentemente, cada um tem a sua percepção sobre cultura e nunca devemos ser definitivos. Mas aqui no Picanha estamos saudando este bom registro.

Como já deu para perceber, o disco novamente equilibra os momentos mais mansos, com outros mais "raivosos", mas o essencial da banda, que é a sua vocação para a consolidação da boa música acessível aos mais variados públicos, permanece inalterado. Uma primeira audição já faz chamar a atenção DE CARA para o single Dark Necessities, balada saborosa, de refrão grudento, que remonta a algumas sonoridades experimentadas por bandas como o Stereophonics, no início dos anos 2000 (impossível não pensar em Maybe Tomorrow enquanto a escutamos). As emanações de grupos britânicos não param por aí, sendo possível encontrar na quente e noturna The Longest Wave um inadvertido (e paradoxal) "Clima Oasis", caso a banda dos irmãos Gallagher fosse afeita as emanações mais litorâneas.


Nesse sentido, não deixa de ser curioso o clima meio britpop de algumas canções, uma vez que o trabalho foi produzido pela americano Danger Mouse - em substituição a Rick Rubin, que era o produtor oficial da banda desde o já citado Blood Sugar Sex Magik. Já o guitarrista Josh Klinghoffer - que desde 2009 substitui John Frusciante - aos poucos vai puxando um pouco mais a frente, sendo possível perceber de forma mais impactante o seu trabalho em canções mais roqueiras como Detroit e This Ticonderoga. Já Flea, segue imbatível com o baixão bem pontuado e onipresente, que pode ser "sentido" já nos instantes iniciais da faixa título. E se faltava alguma certeza em relação ao momento vivido pelo RHCP, a presença de Elton John na saborosíssima Sick Love (candidata a single e também a música do ano) é um bom exemplo de que os caras só querem fazer boas canções e se diverir. Os fãs agradecem.

Nota: 7,6