Vamos combinar que a Karina Buhr pode até ter mudado seu nome artístico - agora ela responde apenas por BUHR que, verdade seja dita, parece uma onomatopeia cheia de força, com o sobrenome reforçando sua identidade não-binária -, mas a potência de suas músicas como um todo, segue em altíssima voltagem. Afinal, quem acompanha a carreira da artista sabe que seus discos sempre funcionaram como um refúgio entre a esperança e a resistência, a paixão e a luta. Fazer música brasileira tentando fugir do rótulo não é tarefa fácil, e nessa transição marcada pelo processo natural de amadurecimento, um álbum como Feixe de Fogo parece encontrar esse equilíbrio. Sim, os ritmos brasileiros seguem mesclados com a MPB, o rock, o maracatu, o reggae e o manguebeat, mas em uma experiência um tantinho menos selvagem do que no registro anterior, o impressionante Desmanche (2019), disco marcado pela percussão.
Aqui, tem-se a impressão de um álbum mais urbano, eletrônico, imediato e abrasivo - talvez menos antropofágico do que os anteriores, incluindo aí o excelente Selvática (2015), com seu título autoexplicativo. O que talvez tenha a ver com as próprias andanças da cantora, que organiza sua vida atual em três cidade distintas - Recife, Fortaleza e Salvador. Fora as tantas outras geografias e identidades. "É a faísca do disco, dessas andanças todas, porque ele foi feito por todos esses lugares. É o que acompanha, é esse caminho da turbina, da fogueira", resumiu a artista em entrevista à Folha de Pernambuco, citando ainda que esse é um projeto movediço que "avança, ilumina e consome". O resultado é um conjunto de canções cheias de participações especiais - de Josyara a Russopassapusso -, e que navegam entre paixões furiosas (na faixa-título), tensões cotidianas (Ânsia), caos da metrópole (Voaria), amores enigmáticos (70 Cigarros) e nostalgia evocativa (Oxê, uma das melhores canções do ano).
Nota: 8,5

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