Vamos combinar que, em política, muito se usa a palavra multilateralismo para definir as formas como diversas nações trabalham de forma cooperativa, na intenção de resolver seus problemas. E, bom, se fosse possível a utilização do mesmo substantivo na música, talvez ele pudesse ser definido por aquilo que artistas como o Bemti, conseguem em álbuns como Adeus Atlântico, seu terceiro registro de inéditas. Sim, porque se anteriormente o mineiro tinha como marca da MPB mais tradicional - como no anterior Logo Ali (2021) -, aqui temos a impressão de estar em um encontro sonoro global, tamanha a quantidade de referências utilizadas pelo artista. Reflexo de suas constantes viagens não apenas pelo interior do Brasil - de Rio de Janeiro à Bahia, passando pela sua própria terra natal -, e por países, como, Portugal e Inglaterra.
E ainda que siga tendo como base a viola caipira - espécie de marca registrada -, Bemti amplia as referências, incorporando, aqui e ali, elementos de britpop, new age, indie rock, psicodelia e até estilos em alta, atualmente, como o amapiano, da África do Sul. O resultado é um registro de raríssima beleza, capaz de navegar pelo rock rural de Sá e Guarabyra, como na irresistível e calorosa Quase Sertão, pelo folk alternativo à Bon Iver da faixa-título, e pelo soft rock oitentista de Euforia. Direto, orgânico, humano, onírico e altamente sofisticado, esse é daqueles álbuns pequenos, mas que só crescem a cada audição. E que materializam sentimentos ligados à memória, à saudade de casa e ao deslocamento contínuo, como parte da experiência humana. Se estiver em dúvida, comece por Miragem (Viver de futuro é ensaio / Preso na função dos triunfos / Dentro de um aquário / Que todo mundo vê). Seguramente uma das melhores canções lançadas em 2026.
Nota: 9,5

Nenhum comentário:
Postar um comentário