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quarta-feira, 13 de maio de 2026

Pitaquinho Musical - Yaya Bey (Fidelity)

"Diga o que pensa, pense no que diz / É um novo dia, não há como fugir de si mesmo". Vamos combinar que, muito provavelmente, não foi por acaso que a primeira canção escrita por Yaya Bey para Fidelity, seu quinto registro de inéditas, tenha sido justamente Blue. Ao cabo, ela parece uma música ao mesmo tempo vulnerável e resiliente, e que emerge em um momento em que a artista se sentia meio que no fundo do poço. Algo que ela mesma mencionou no material de divulgação, quando detalhou o fato de ter desabado emocionalmente, em um hotel de Miami, justamente na semana de lançamento de Do It Afraid (2024), seu trabalho anterior. Quem acompanha a carreira da cantora sabe que ela perdeu o pai em 2024, tendo ainda de lutar contra outras pressões da indústria - e que certamente tem a ver com o fato de ser uma mulher negra, buscando sobreviver nessa máquina trituradora de famosos que é o showbiz, com a sua avidez ininterrupta em busca da mais recente novidade.

 


E tudo isso talvez explique porque esse registro parece ser tão nostalgicamente anos noventa - com aquele R&B classudo, mesclado com pop caloroso e uma neo soul ao mesmo tempo contemporânea, urbana e melancólica -, mas com menos apego ao aparato comercial, de melodias acessíveis, ou refrãos cantaroláveis. Aqui, a artista bebe da fonte de cantoras daquela década, como Brandy ou Aaliyah, para apresentar uma coleção de canções discretas, quase sonolentas, em que os versos surgem minimalistas mas sensuais, quentes mas elegantes. O resultado são canções que fluem gostoso, ainda que sejam menos palatáveis, o que talvez exija alguma persistência do ouvinte que se acostumou com joias como as movimentadas Merlot and Grigio ou End of the World, do disco anterior. Em geral esse pode até ser um trabalho meio que de ressaca emocional. Mas é uma ressaca de boas canções, como Forty Days, Higher e a já citada Blue.

Nota: 8,0 


quarta-feira, 29 de maio de 2024

Pitaquinho Musical - Yaya Bey (Ten Fold)

Sedutor, sofisticado, aconchegante, hipnótico, vívido. Vamos combinar que não serão poucos os adjetivos na hora de caracterizar as qualidades de Ten Fold, o quinto registro de inéditas da cantora e compositora Yaya Bey. Assim como já ocorrera no anterior Remember Your North Star (2022), aqui a artista investe novamente na mistura contemporânea de R&B, pop, funk e soul, com algumas pitadinhas de trip hop - algo como um encontro entre FKA Twigs e Mary J. Blige. Como se o sussurro fosse um estado de espírito, Bey investe no minimalismo e na potência dos versos como o caminho para estabelecer suas vulnerabilidades, anseios, dores e incertezas - ainda mais após a perda do pai Ayub Bey, rapper que, sob o sugestivo pseudônimo Grand Daddy IU, fazia parte do coletivo dos anos 80 Juice Crew. "Foi uma forma de fugir da tristeza, se ocupar, trabalhar, escrever", revelou em entrevistas de divulgação.


A real é que Bey sempre foi uma consumidora de cultura negra - de livros de Toni Morrison, passando pelos programas de humor de Richard Pryor e pelos discos incendiários de Chaka Khan e Tina Turner. Para além da tentativa pessoal de superar o luto, a cantora utiliza a sua arte como veículo para discussões mais amplas sobre racismo, igualdade entre gêneros, problemas ambientais, falta de dinheiro e direitos das minorias. Só que os temas mais sérios ou pesados não significam melodias sisudas ou um estilo excessivamente hermético: há um paradoxo que torna tudo colorido, leve e dançante, o que faz com que questões sociais complexas emerjam em meio a uma sonoridade refrescante, revigorante. Não é preciso ser cabeçudo pra falar do que importa. Dá pra ser artístico e analítico, mantendo o brilho, a polidez e a suavidade - como comprovam canções de títulos divertidos, como Eric Adams in the Club, Slow Dancing in the Kitchen e Sir Princess Bad Bitch.

Nota: 8,5