quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Novidades em Streaming - Golda: A Mulher de Uma Nação (Golda)

De: Guy Nattiv. Com Helen Mirren, Liev Schreiber e Camille Cottin. Drama, EUA / Reino Unido, 2023, 103 minutos.

Em uma época em que todo o mundo se tornou, inesperadamente, especialista em Israel e em conflitos do Oriente Médio - da tia Nelci do zap ao vereador de extrema direita do pequeno município gaúcho -, um filme como Golda: A Mulher de Uma Nação (Golda) pode suscitar algumas paixões meio desmesuradas. Habituados a defesa cega do País - e até da política bizarra do primeiro ministro Benjamin Netanyahu - os conservadores e evangélicos poderão encontrar na ex primeira-ministra de Israel uma líder carismática e preocupada em defender sua Nação a qualquer custo. Nem que isso envolva um aparato bélico gigantesco, com o apoio inevitável dos Estados Unidos. "Israel acima de tudo", talvez dirão os mais emocionados. Para aqueles que repudiam fortemente a luta contra o terrorismo do Hamas como uma desculpa pra bombardear a tudo e a todos - de mulheres, crianças, civis e qualquer ser humano que se mova -, será meio difícil se comover com os esforços da líder que se vê em tela. Até mesmo pela sua história controversa.

Alguns poderão dizer que é um filme que sai na hora certa. Ou talvez seja na errada. Mas o caso é de que os conflitos na região se arrastam por décadas e certamente sem um historiador bem informado - com dados, documentos históricos e outros registros - sempre será difícil apontar o lado certo dessa disputa. Aliás, há lado certo? Em uma briga política e religiosa que busca ocupação de territórios, supressão de povos e outras medidas, no mínimo, questionáveis? Aparentemente, o que o diretor Guy Nattiv (do premiado curta Skin) tenta, com toda a força do mundo, é humanizar Golda (que sob a maquiagem carregada de Helen Mirren, parece ainda mais caricata). Nesse sentido, ela surge em tela como uma senhorinha de ombros curvados, que padece de um câncer, ainda que isso não a impeça de praticamente emendar um cigarro no outro. E enquanto ela lida com os problemas de saúde pessoais, precisa se ocupar de algo muito mais sério: no caso com os acontecimentos da Guerra do Yom Kippur, ocorrida há 50 anos.

 

 

Pra quem não está muito familiarizado - aliás, meu caso -, pode ser meio complicado entender os detalhes desse conflito. Ou mesmo as suas motivações. Em linhas gerais o que aconteceu à época foi uma batalha próxima do Canal de Suez, junto à fronteira do Estado de Israel com o Egito. A ideia do ex-presidente egípcio Anwar Al Sadat era invadir o País vizinho justamente durante o Yom Kippur, importante feriado para os judeus e que é conhecido também como o Dia do Perdão. E se não bastasse ter de lidar com o Egito por um lado, havia ainda a Síria tentando atacar por outro, junto às Colinas de Golã. Resumo da ópera: Israel pretendia preservar os territórios conquistados na Guerra dos Seis Dias, de 1967, mas os árabes não estavam muito satisfeitos. O resultado? Vinte dias de bombas, tiros, mortes e escolhas questionáveis, que desencadeariam ainda uma crise petrolífera no ocidente, com o aumentos dos preços dos barris. No fim, tudo é sobre dinheiro. Sobre economia. Sobre capital. Com a religião sendo um pano de fundo onipresente. Golda estava entrando nos anos finais de sua vida. O que não a impediu de mover as peças nesse complexo tabuleiro geográfico.

Ok, não se trata de um filme ruim ou desprezível. Há um grande empenho da produção em focar nos bastidores, nos diálogos feitos em gabinetes fechados, que envolvem tomadas de decisão complicadas e uma verborragia militarista que parece intensificar ainda mais o senso de ameaça. Mas talvez aqui o problema esteja no recorte excessivamente diminuto para uma obra que pretende levar o nome de Golda. Para o desavisado, talvez essa pudesse ser uma experiência mais ampla sobre a história de vida da líder política - aliás, a primeira (e única) mulher da história a ocupar o cargo em Israel. Até se tornar signatária pela independência de Israel ela moraria nos Estados Unidos, trabalharia como professora, se envolveria no movimento sionista trabalhista. Todos esses aspectos que adicionariam camadas à personalidade de Golda são ignorados no filme. Não há algo que a conecte com os judeus ucranianos da sua Kiev natal. Ou sobre a sua atividade como Ministra do Trabalho - o que envolveu um empenho em políticas habitacionais para os imigrantes judeus. Ou mesmo sobre controvérsias relacionadas a temas como racismo, xenofobia e mesmo políticas genocidas. Em tempos em que os olhos se voltam tão atentamente para Israel, talvez tudo isso fosse importante. Afinal, Golda não parece ser apenas uma idosa fragilizada a caminho da morte, que fuma compulsivamente. No limite, pareceu meio que isso.

Nota: 5,5


Pitaquinho Musical - Ducks Ltd. (Harm's Way)

"Estou aqui pensando que esse pode ter sido o ponto mais baixo de todos os tempos / Mas vocês está certa em apontar que eu sempre fui um idiota". Vamos combinar que existe uma certa ironia melancólica que parece combinar à perfeição com o jangle pop. Se por um lado as guitarras aceleradas e polidas acenam para um aspecto mais ensolarado da nossa existência, por outro as letras povoadas por metáforas existenciais e paradoxos humanos jogam o cenário para o espectro oposto, o dos tormentos da alma. É esse o caso, por exemplo, de Train Full of Gasoline, canção que está em Harm's Way, segundo trabalho do Ducks Ltd. - e que tem uma parte da letra na abertura dessa pequena resenha. É aquele tipo de situação em que a gente quer rir mas também chorar, como se vida ao cabo fosse essa série de acontecimentos meio aleatórios e que muitas vezes fogem do nosso controle.


 

O próprio vocalista e guitarrista Tom McGreevy explicou em entrevista ao site Under the Radar que músicas como Train Full of Gasoline partem de eventos reais - no caso aqui um desastre ferroviário ocorrido em Quebec quando um trem com 73 vagões cheio de petróleo se desgovernou atingindo uma cidade. E que refletirão, de forma alegórica, erros que se acumulam. E que resultam em catástrofes muito mais pessoais, que se manifestam onde a gente menos espera. Esse tipo de expediente é repetido em outros momentos, como no caso do single Catedral City, que coloca em lados opostos a cidade acinzentada e seus parques arbóreos (algo que pode ser visto em alguma medida na capa desse segundo disco), enquanto discorre sobre cidades típicas do Reino Unido, com suas voluptuosas catedrais. O que encontramos aqui é uma simplicidade comovente em que o brilho emerge em refrões grudentos, vozes duplicadas e melodias adocicadas. Mesmo que por dentro não estejamos nos melhores dias.

Nota: 8,0


terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Picanha.doc - Jon Batiste: American Symphony

De: Matthew Heineman. Com Jon Batiste e Suleika Jouaoud. Documentário / Drama / Biografia, EUA, 2023, 103 minutos.

Vamos combinar que histórias de personalidades que são selecionadas para virar filmes, muitas vezes são feitas de escolhas. Tomemos como exemplo o caso de Jon Batiste, que tem um pequeno recorte de sua vida apresentado no projeto Jon Batiste: American Symphony, um dos indicados ao Oscar na categoria Documentário. Ainda que meio desconhecido do público brasileiro, o carismático artista "ataca" nas mais diversas frentes. É cantor, compositor, instrumentista, líder de banda televisiva e uma espécie de ativista da música como expressão artística. Aliás, essa última parte foi aquilo que o fez criar, ao lado do saxofonista Eddie Barbash e do tocador de tuba Ibanda Ruhumbika, além do baixista Phil Kuehn e do baterista Joe Saylor o coletivo Stay Human - espécie de supergrupo que fazia performances improvisadas e efervescentes de R&B e jazz fusion nas ruas, no metrô ou onde fosse em Nova York. Tudo na crença de conectar pessoas com pessoas. De se elevar, de aproximar.

Nesse sentido, é preciso que se diga que só essa parte do Stay Human, de como ele surge, se consolida e pavimenta o caminho para que, mais adiante, Batiste se torne o diretor musical do Late Show com Stephen Colbert, já seria motivo suficiente para uma narrativa de excelência. Mas tem mais: como homem negro nascido em uma pequena cidade da Louisiana, certamente a trajetória até o ingresso no prestigiado conservatório Julliard, talvez não tenha sido tão simples. Especialmente pelo seu perfil descontraído, extrovertido - ainda que ele integre uma família de músicos de Nova Orleans e desde os oito anos tenha tido contato com percussão e piano. Talentoso, transcreveria trilhas sonoras de jogos de videogame como Street Fighter e Sonic. Tudo isso ainda na adolescência. É muita coisa. Aliás, muita coisa interessante que poderia ser melhor explorada - não apenas como uma nota de rodapé de um filme que aposta no melodrama meio novelesco como matéria-prima.

 

 

Ok, eu não quero reduzir as boas intenções da obra que está disponível na Netflix e que foi dirigida pelo premiado Matthew Haineman (de City of Ghosts, 2015 e Cartel Land, 2017). Ele sabe o que e como faz, é óbvio. Mas o caso é que tive um pouco de dificuldade de me conectar com a história de Batiste. Ou talvez com a parte que foi selecionada para virar filme - no caso um ano de vida ainda dentro da pandemia, no final de 2021, em que ele se empenha em gestar a sua primeira sinfonia para uma apresentação no Carnegie Hall. Como se já não bastassem os desafios da construção da peça musical em si, o artista ainda precisa lidar, de forma concomitante, com os esforços de sua esposa, a escritora, colunista, ativista e palestrante motivacional Suleika Jauouad na luta contra uma forma rara de leucemia - que retorna após dez anos de remissão. É um ano turbulento que é filmado em tomadas fragmentadas e bastante íntimas, que se alternam entre a vida doméstica (com vários momentos ao lado de Suleika) e os demorados ensaios de bastidores, com a construção dos trechos que formarão a sinfonia.

Evidentemente que, dada essa escolha, a obra parece querer condicionar o espectador à emoção, fazendo ecoar as notas emocionantes do trabalho de Batiste, ao mesmo tempo em que apresenta sequências em hospitais, consultórios, de exames médicos de outros procedimentos. E, aqui é importante afirmar: ninguém está minimizando a dor que envolve o tratamento de um câncer não apenas para quem padece da doença, mas também dos familiares. Mas o caso é que, em alguns instantes, ficou meio difícil não achar que o diretor estava dando uma forçadinha na barra para que o espectador fosse as lágrimas. Em tempo: Suleika está viva, após dois transplantes de medula óssea e tratamentos com células tronco. E há que se respeitar a sua perseverança e resiliência no tratamento. Já Batiste entregou o seu projeto - o que no filme funciona como uma metáfora para a ideia de sobrevivência como um ato criativo. Só que eu confesso que queria ver mais de outras partes da história do protagonista com a música. Como no caso da vitória no Grammy de 2021, desbancando grandonas do pop como Olivia Rodrigo e Billie Eilish. Ou mais sobre seus recorrentes ataques de pânico. Pena que tudo isso passe tão rapidamente no filme. Enfim, escolhas. Há que se respeitá-las.

 

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Novidades em Streaming - Ficção Americana (American Fiction)

De: Cord Jefferson. Com Jeffrey Wright, Sterling K. Brown, Issa Rae e Leslie Uggams. Drama / Comédia, EUA, 2023, 118 minutos.

Ambientes domésticos inóspitos, infâncias difíceis, problemas relacionados ao uso de drogas, prostituição, violência policial - vamos combinar que o combo que reflete a experiência afroamericana na literatura dificilmente foge desses clichês. É uma coisa quase automática. Aliás, quanto mais próxima desse tipo de estereótipo, mais a obra parece adequada para que o branco médio disposto a consumi-la, se sinta absolvido de algum tipo de culpa. Especialmente no campo acadêmico progressista, onde demorados debates a respeito desses livros "viscerais, crus, realistas", parecem apenas uma forma de fetichizar os traumas negros, que ficam reduzidos a esses lugares comuns. Para a indústria e para as editoras, talvez essa seja uma forma de apelar para a suposta diversidade. Autores negros, lutando por representatividade, em um ambiente de branquitude reinante. Uma espécie de "pornografia da pobreza" travestida de ficção. Isso é salutar?

O caso é que tudo que o escritor Thelonious Ellison (Jeffrey Wright), o protagonista do indicado ao Oscar Ficção Americana (American Fiction), quer, é lançar um novo livro. E já há algum tempo ele tem se empenhado em tentar conseguir uma editora que tope publicar seu romance Os Persas - que tem encontrado uma série de barreiras por não ser um legítimo "livro de negros" (ou seja lá o que isso signifique). E como desgraça pouca é bobagem, ele acaba suspenso da universidade em que leciona, em Los Angeles, após uma discussão com uma de suas alunas. Para arejar um pouco a mente ele resolve retornar a sua Boston natal, onde visitará seus irmãos e sua mãe e também participará de um sarau literário. Ao cabo, Thelonious é até alguém respeitado em seu meio. É um novelista de estilo rebuscado, sofisticado. Só que suas obras não vendem. Ainda assim, o painel excessivamente esvaziado o surpreende. E não demorará para que ele entenda o motivo: um seminário concomitante com a escritora negra do momento, uma certa Sintara Golden (Issa Rae), que tem atraído a atenção do público com o seu pungente (e altamente estereotipado) "Nós vive no gueto" (sim, assim mesmo como está escrito), sua recente obra.

 

 

E para quem está tentando emplacar um novo romance, ver um produto que esvazia a pauta racial ao apelar para a vulgaridade empobrecida do chavão, é algo que o decepciona. E tudo piora com os problemas familiares que passam a surgir aos borbotões - que vão da irmã médica Lisa (Tracee Ellis Ross) que sofre um inesperado infarto fulminante à mãe Agnes (Leslie Uggams), que passa a padecer do Mal de Alzheimer. Enquanto tenta encontrar algum equilíbrio na vida doméstica, que envolve ainda o complicado irmão Cliff (Sterling K. Brown, nosso eterno Randall de This Is Us) e uma candidata a namorada, a advogada Coraline (Erika Alexander), Thelonious toma uma drástica decisão: escrever um romance satírico literário, que debocha de todos os clichês esperados na literatura negra. Sob o pseudônimo de Stagg R. Leigh, um suposto (e falso) fugitivo da polícia, constroi My Pafology. Que mais adiante simplesmente se chamará Fuck! Só que a ideia de zombar do mercado editorial dá meio errado, quando uma editora fornece um inacreditável adiantamento de US$ 750 mil ao autor. O que envolve ainda a aquisição de direitos que converterá o projeto em filme.

Sim, tudo soa meio exagerado, satírico, no filme de estreia de Cord Jefferson, que está disponível na Amazon Prime. Condição reforçada pelos diálogos ferinos, que não deixam de apontar a sua mira para a hipocrisia do mercado editorial, que utiliza a desculpa da diversificação do catálogo como uma mera ferramenta de marketing. Em certa altura, por exemplo, um editor conversa com Thelonious sobre a adaptação do livro para as telonas e se surpreende quando ele pede um vinho sofisticado. Ou simplesmente não conversa como um mano da quebrada. Em alguma medida o filme está sempre brincando com esses clichês de forma a subvertê-los. Em uma sequência, acreditamos que possa haver um episódio de violência quando o namorado de Coraline aparece. O policial que surge é gente boa. Os negros vistos em tela são bem sucedidos. O que não evitará o fato de eles precisarem enfrentar as expectativas do mundo que os rodeia. Engraçado, reflexivo e ousado, esse é aquele tipo de projeto que coloca o dedo na ferida quando o assunto é a complexidade das vivências e experiências negras - que, sim, são inegáveis vítimas dentro do tecido social. Mas que certamente tem mais para entregar para além dos estereótipos e do apelo a uma diversidade encapsulada e pronta para o consumo de brancos progressistas.

Nota: 9,0

 

Curta Um Curta - The Last Repair Shop

Um documentário em curta metragem sobre o poder transformador da música. Ou talvez uma pequena obra que nos faça lembrar a infinidade de histórias profundas, comoventes que, em muitos casos, podem passar despercebidas. Assim como em O ABC da Proibição de Livros, o pano de fundo de The Last Repair Shop tem a ver com o mundo das artes. Mas não exatamente com quem toca esse ou aquele instrumento musical ou integra uma banda. E sim com aqueles que estão por trás e que se empenham em, de forma anônima, abnegada, trabalhar pra que a coisa aconteça. Na trama dessa produção capitaneada pela dupla Ben Proudfoot e Chris Bowers, que venceram o Oscar por The Queen of Basketball, está o dedicado esforço de um coletivo de artesãos que se empenha em manter em bom estado de conservação, mais de 80 mil instrumentos musicais de um armazém de Los Angeles.


 

Sim, as quatro pessoas que conhecemos no curta - Dana Atkinson, Paty Moreno, Duane Michaels e Steve Bagmavyan - consertam instrumentos musicais gratuitamente para alunos de escolas públicas. Intercalando sequências dos próprios alunos -que tem suas vidas transformadas pelo simples contato com violões, saxofones e pianos - com as de suas vidas, compreendemos como a música pode ter sido espaço de abrigo para cada um deles, como no exemplo de Bagmanyan, um refugiado armênio do Azerbaijão, que vai parar nos Estados Unidos para fugir da guerra, e se torna técnico de piano. Closes e planos aproximados das estruturas de cada instrumento - com seus botões, texturas, cordas e outros -, majestosamente manuseados, contribuem para um senso de proximidade, que é ampliado pelos tons quentes da fotografia. Ao cabo trata-se de uma obra inspiradora e de grande beleza, que tem boa chance de sair com o Oscar em sua categoria.


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Cinema - Eu, Capitão (Io Capitano)

De: Matteo Garrone. Com Seydou Sarr, Moustapha Fall e Issaka Sawagodo. Drama / Aventura, Itália / Bélgica / França, 2023, 121 minutos.

Vamos combinar que um filme como Eu, Capitão (Io Capitano) estar entre os indicados ao Oscar na categoria Filme em Língua Estrangeira só pode ter a ver com um lobby muito bem feito. Ok, a obra realizada pelo versátil Matteo Garrone - de Reality: A Grande Ilusão (2012) e Dogman (2018) - não chega a ser ruim. Mas o que incomoda aqui é aquele formato embaladinho, que dá uma suavizada em um tema sério como forma de tornar a experiência mais palatável pro espectador. Sim, porque todo mundo sabe dos problemas atuais que envolvem as crises imigratórias pelo mundo - ainda mais as que dizem respeito a saída de africanos em direção à Europa. E por mais sedutora que seja a boa e velha história de superação de dificuldades há que se observar os eventuais esvaziamentos de pauta. Que podem apenas banalizar a problemática a partir da mera espetacularização.

Falo isso especialmente em relação a uma sequência do terço final, em que centenas de africanos das mais variadas nacionalidades estão a bordo de um barco, cruzando o Mar Mediterrâneo, para tentar chegar até a Itália. Uma viagem longa, de mais de um dia, cansativa. E é exatamente nesse momento, que Seydou (o ótimo Seydou Sarr) se torna uma espécie de herói involuntário, que sai de alguém que é incapaz de navegar em alto mar, para um sujeito que precisa resolver absolutamente todas as pendengas do lugar. É mulher grávida, é gente passando mal, é falta de água e comida. E lá vai Seydou pra lá e pra cá, saltando por sobre as pessoas, buscando contato pelo rádio de forma desesperada, tentando algum socorro terrestre. Até o ponto em que, exaurido, ele garante, com a câmera em um contra plongée que o torna maior do que ele é, enquanto a trilha sonora sobe: "ninguém aqui vai morrer!". Será mesmo?

 

 

Sim, tudo ali parece ter uma certa beleza estética, a despeito do caos reinante na embarcação - um aspecto meio glamourizante da pobreza que, no mínimo, nos deixa com uma pulguinha atrás da orelha. Vale o mesmo para o início da produção, quando somos jogados para o Senegal natal de Seydou - que parece ser uma nação, sim, bastante pobre, mas também muito feliz. As roupas são coloridas, sua mãe é uma dançarina de ritmos locais, que participa de eventos festivos. Mas por quê Seydou quer tanto sair dali se a harmonia de tudo parece ser tão idílica? Ok, talvez haja um aspecto de não recorrer ao componente da miséria humana como motivador de tudo. Seydou apenas deseja ir pra França ao lado do seu primo Moussa (Moustapha Fall) para tentarem a sorte como músicos de rap. Para tentar vender a sua arte para os brancos daquele continente. E resolvem embarcar em uma jornada de vida ou morte que envolve a travessia pesada do deserto do Saara - com seus 1800 quilômetros escaldantes.

E como se já não bastassem os perigos do deserto em si - reforçados com imagens impactantes de cadáveres mortos que ficam pelo caminho -, Seydou e Moussa ainda precisam lidar com contrabandistas, milicianos, policiais corruptos e representantes de governos de índole questionável no caminho que passa por Mali, Nigéria e Líbia. O que envolverá uma série de violências - inclusive torturas. E aqui entra mais um probleminha que, a meu ver, me incomodou. E que teve a ver com certo maniqueísmo da história. Afinal de contas, a gente sabe que há um lado certo pelo qual somos direcionados a torcer. Mas precisava os sujeitos bons serem absolutamente bons o tempo todo? Nenhum desvio de caráter? Nenhuma decisão etica ou moralmente questionável? Já no lado dos vilões, como não poderia deixar de ser, todos são broncos, toscos, obtusos - o que é reforçado pelos seus comportamentos truculentos, suas expressões faciais brutas e seus figurinos de gângster de jogo de videogame.


 

Como eu disse ali em cima, creio que Eu, Capitão tem seu ponto - inclusive no final levemente ambíguo (que me agradou bastante). Afinal de contas uma jornada longa dessas, cheia de percalços e incertezas, não resolverá o problema em si. Aliás, uma questão que parece longe de qualquer solução - ainda mais se pensarmos em outros países como a Palestina e a Síria. Mas do ponto de vista fílmico não consegui me conectar com o idealismo dos personagens. Nem com suas motivações. E quando Garrone apela pra uma certa dose de realismo fantástico também não consigo compreender muito bem o seu uso. É uma forma de santificar, de glorificar ainda mais os seus protagonistas? Essas figuras que superam todas as suas fraquezas por um objetivo maior? Ok, talvez esteja cobrando uma verossimilhança que atravessa o fato de Garrone ser um realizador branco, ocidental, bem sucedido (por melhores que sejam suas intenções). Em um filme premiado - inclusive no Festival de Veneza. Ainda assim coloco essas questões. É pra refletir mesmo. E por isso estamos aqui.

Nota: 5,0

Pitaquinho Musical - Declan McKenna (What Happened to the Beach?)

Às vezes experimental, noutras acessível - mas sempre com aquele ar descolado, descompromissado. Talvez seja a pandemia que passou. Ou mesmo a expectativa por um mundo melhor - especialmente para alguém que mal completou 25 anos (ainda que já tenha uma carreira de mais de uma década, iniciada em um daqueles programas de novos talentos, da TV britânica). Mas a impressão que temos com What Happened to the Beach?, é a de um Declan McKenna mais leve, mais caloroso. Especialmente se comparado ao taciturno trabalho anterior, Zeros (2020). Tomemos como base o single Sympathy, uma peça festiva com palminhas otimistas, efeitos primaveris e uma vibração açucarada que culmina no refrão grudento que mais parece com o Animal Collective em uma parceria com o Vampire Weekend. Aliás, o tipo de canção que flui com uma naturalidade desconcertante.


 

O senso de humor meio psicodélico surge em outros instantes, como no caso do folk à Sufjan Stevens Mulholland's Dinner and Wine, que tem batida econômica e uma letra divertida e estranha sobre uma dupla criminosa saída de um desenho animado. "Os versos vieram de observações enquanto dirigia pelas colinas de Los Angeles no caminho para festas estranhas e descoladas", comentaria o artista no material de divulgação. Para McKenna parece haver algo de libertador na música - algo evidenciado nas baterias meio irregulares, nos efeitinhos nem sempre óbvios ou nas melodias volumosas. Ainda assim, não quer dizer que o cantor não fale sério, como no caso da ótima Nothing Works. O clima apressadinho estilo Blur em Parklife pode enganar, já que a letra fala justamente sobre se sentir encurralado ou preso às expectativas (Pra que me esforçar? / Não é como se eu ainda fosse novidade). Mas o recado é claro: todos podem (e devem) ser livres.

Nota: 8,5


terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Livro do Mês - Velhos Demais Para Morrer (Vinícius Neves Mariano)

Editora Malê, 2020, 280 páginas.

"Em um mundo que luta contra o envelhecimento, falar sobre o passado é um ato de coragem".

Vamos combinar que a premissa de Velhos Demais Para Morrer, segundo romance do mineiro Vinícius Neves Mariano, não poderia ser mais interessante. Na trama estamos em algum lugar do futuro, em um período em que o número de idosos alcançou 50% da população total, o que instaurou uma crise econômica e social sem precedentes. E é nesse cenário de iminente catástrofe, que o governo estabelece uma política radical, que envolve um pacote de medidas de transição para a maturidade. Conhecido pela sigla TranMat e lançado naquele que ficou conhecido como Ano Anacrônico, o programa tinha como slogan "Maturidade para construir um novo futuro". Sim, o nome pode parecer até simpático em um primeiro momento. Mas nas entrelinhas está uma lógica quase perversa: em um mundo em que a medicina avançou e os idosos vivem mais é preciso estancar essa discrepância. Mas como suprimir idosos sem mais nem menos, sem que esse procedimento seja traumático para quem vai (e também para quem fica)?

Em tempos em que tantos tipos de preconceitos são discutidos, o etarismo também entra nesse combo. E na distopia exagerada mas nunca irreal de Mariano está nesse universo em que envelhecer é uma ofensa. "É mendigar arfando um resto de fôlego para alimentar os pulmões". E para que a transição para o ocaso da existência seja uma oportunidade para um gesto de altruísmo e de coragem, o governo oferece como caminho uma espécie de partida voluntária. Assim, quando chegam aos 65 anos, os idosos podem participar de uma cerimônia supostamente digna em uma das casas de Félix Mortem. Reunidos, familiares e amigos acompanham o último discurso daquele seu familiar que, sedado em três etapas, oferece seu corpo obsoleto para o alívio das finanças do Estado. O que garantirá estabilidade - e uma polpuda herança, chamada de Bônus Pelo Compromisso com a Nação - para que os mais jovens deem continuidade aquilo que os velhos, com suas carnes estafadas, não conseguem. Sim, os anciãos simplesmente se oferecem pra morrer. Em favor da população economicamente ativa.

 

 

E é claro que em um cenário tão apocalíptico não será fácil para a população simplesmente aceitar, na maior, essas duras medidas. Afinal, quem abriria mão da presença de seus parentes, de seus amigos, maridos e esposas, avós e etc para que a nação não definhe? Pior, quem se ofereceria? É nesse contexto que surge Piedade, uma professora grávida que já ultrapassou a idade limite e está em fuga, indo parar em uma espécie de comunidade de refugiados, conhecida apenas como Território Escuro - geralmente um espaço distante dos grandes centros urbanos que, agora, em muitos casos, não passam de cidades fantasmas. Em outra linha narrativa temos o pequeno Perdigueiro, um adolescente de treze anos que é obrigado pelo seu pai, com quem tem péssima relação, a caçar velhos para um grupo de milicianos. Em uma terceira linha acompanhamos Daren, um Faria Limer de 35 anos que trabalha para uma poderosíssima empresa de cosméticos - aliás, um ramo que cresce desenfreadamente em tempos em que a aparência pode, literalmente, salvar vidas.

Em cada um desses segmentos está a luta pela sobrevivência em um cenário onde todos sabem quando vão morrer. E em um mundo que estabelece um ponto final para a vida qual o sentido de tudo? De forma filosófica, o autor costura a sua prosa alternando as histórias de seus protagonistas que, por mais separados que estejam, parecem unidos na mesma jornada. Uma jornada de escapada da alienação e que possa acenar para mudanças sobre como as coisas se estruturam em relação ao envelhecimento. E por mais que os temas sejam pesados, reflexivos, é importante salientar que a obra, lançada pela editora Malê e finalista do Prêmio Jabuti, é um excelente entretenimento. E, como ficção científica, estabelece a possibilidade de reflexão sobre questões humanas sensíveis, sendo uma delas a forma como algumas sociedades da atualidade encaram o ato de envelhecer como um mal-estar. E a gente já faz isso, vamos combinar. O que torna esse livro ainda mais impactante.