terça-feira, 31 de maio de 2016

Cinema - O Valor de Um Homem (La Loi du Marché)

De: Stéphane Brizé. Com Vincent Lindon, Karine De Mirbeck e Matthieu Schaller. Drama, França, 2015, 93 minutos.

A França que o diretor Stéphane Brizé - do belo Mademoiselle Chambon (2010) - costuma mostrar em seus filmes em nada lembra o glamour romanceado de sua capital, bem como o de pontos turísticos como a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo ou mesmo a badalada Champs-Elysées. Pouco ou nada se vê sobre o seu passado artístico suntuoso, sobre a Belle Époque ou sobre pintores impressionistas do final do século 19. Não, a "cidade luz" de Brizé é a do trabalhador que paga impostos, que luta para se manter, que enfrenta um sistema em que os ricos e pobres permanecem a algumas léguas de distância uns dos outros. E que em 2015 alcançou um índice de desemprego próximo dos 11% da população trabalhadora ativa. Estou falando da França, só pra lembrar. E lá não houve impeachment ao que me consta.

É nesse contexto que está estabelecida a trama do amargo e melancólico O Valor de Um Homem (La Loi du Marché), que estreou nesta semana nos cinemas. Homem de cinquenta e poucos anos, Thierry (o sempre competente Vincent Lindon) está desempregado. Mas isso não significa leniência. Ao contrário, interessado em retornar ao mercado de trabalho, o homem, casado e pai de um filho deficiente, participa de cursos técnicos e outros tipos de extensão - além de exasperantes capacitações -, sem conseguir ser efetivado para os cargos a que concorre - seja por não cumprir os pré-requisitos ou mesmo por não possuir o perfil desejado para esta ou aquela atividade. No Brasil parece haver tantas pessoas frustradas por não conseguirem aquela vaga tão sonhada? Bom, esta não é exclusividade da nossa querida Pátria.


A obra, silenciosa, reflexiva, sutil, é pavimentada por uma série de sequências naturalistas capazes de tornar o clima, em sua introspecção, praticamente sufocante durante a busca de Thierry. Se na primeira cena já somos apresentados a ele como um sujeito que procura argumentar, em vão, ainda que de forma digna e eloquente, a respeito das injustiças cometidas por uma escola que vende cursos técnicos que não levarão praticamente ninguém ao mercado, no instante seguinte encontramos o sujeito em sua rotina simplória de cursos de dança com a esposa e de "afeto distante" com o filho. As humilhações provocadas por entrevistas mal-sucedidas e a franqueza de colegas em relação a sua postura autocomiserativa em atividades "preparatórias", torna tudo ainda mais dilacerante. (e é praticamente impossível não se identificar com a situação, já que a grande maioria das pessoas já deve ter vivido alguma situação semelhante)

Sem jamais exagerar no tom, o filme ainda apresenta os seus personagens como sujeitos complexos, capazes de apresentar nuances de caráter que contribuem para tornar o filme muito mais do que um líbelo do "bem contra o mal" ou mesmo do homem comum diante do "capitalismo selvagem". E se numa cena percebemos um entrevistador levemente constrangido por ocupar aquela posição, em outra sequência vemos Thierry e sua esposa com uma transformadora firmeza de propósito, ao não se desfazerem de seu único bem - que ainda possui valor sentimental - apenas por estarem precisando urgentemente de dinheiro. Algo reforçado pelas interpretações absolutamente convincentes de todos aqueles que vemos na película - com destaque para Lindon, que foi eleito Melhor Ator em Cannes pelo papel. Não bastassem todos esses valores, essa pequena obra-prima moderna ainda guardará para o seu terço final a sua mais grata surpresa. Ao conseguir um emprego - não para aquilo ao qual o homem sonhava exatamente - Thierry perceberá, da pior maneira possível, que a falsa sensação de "poder" gerada pelo cargo - e que ele claramente não gosta -, de nada valerá diante de quem é realmente poderoso nessa engrenagem.


Nota: 9,0



Grandes Cenas do Cinema - Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spottless Mind)

Filme: Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças
Cena: Meet me in Montauk (Encontre-me em Montauk)

Se existe um filme que retrata com perfeição a vida a dois desde o início até o rompimento, usando e abusando do lirismo, existencialismo, surrealismo, toques experimentais e uma edição complexa para transmitir sentimentos, este filme é o Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spottless Mind), dirigido por Michel Gondry em 2004, estrelado por Jim Carrey e Kate Winslet e um dos favoritos de todos os tempos aqui da casa.


Vencedor do Oscar de melhor roteiro original, a história concebida por Charlie Kaufman (Quero Ser John Malkovich, Adaptação) mostra o personagem Joel (Carrey) descobrindo que, após uma briga, a sua namorada Clementine (Winslet) passou por um procedimento para apagar as lembranças do seu parceiro, não reconhecendo-o mais. "Descornado", Joel decide realizar o mesmo procedimento para apagar as suas memórias e tentar sair da "fossa". Acontece que o ritual ocorre de trás pra frente, apagando as lembranças mais recentes e deixando as antigas para o final. Ao mostrar estas memórias sendo apagadas na mente do protagonista enquanto este está sedado, acompanhamos o drama de Joel para tentar salvar as coisas boas (que aumentam proporcionalmente a medida em que o relacionamento volta ao início) e que, para isso, deverá tentar abortar o procedimento tendo que fugir (e levar Clementine junto) nos labirintos de sua mente.

Toda inventividade e maluquice do extremamente complexo roteiro lida com questões universais tais como perda, passado e memória, utilizando elementos de suspense, drama, romance e até ficção científica. E o ápice ocorre em uma das cenas finais, onde o mesmo relembra de um encontro fracassado e lida com o arrependimento de não ter agido de forma diferente. Dilacerante, poética e embalada em uma trilha sonora capaz de cortar qualquer pessoa que tenha passado por situação semelhante, a cena nos mostra uma casa a beira mar desmoronando, num reflexo de suas lembranças sendo apagadas, ao relembrar o primeiro encontro e seu ato de covardia e até mesmo humilhação, e a última frase sussurrada por Clementine: "meet me in Montauk"("encontre-me em Montauk") - algo que ficará no seu inconsciente e acabará por repercutir no desfecho desta magnífica e sensível obra que emocionou e ainda há de emocionar muita gente - que tenha um coração, ao menos.


- I thought maybe you were a nut, but you were exciting.
- I wish you'd stayed.
- I wish I'd stayed too. Now I wish I'd stayed. I wish I'd done a lot of things.
- Oh, God, I wish I had...
- I wish I'd stayed. I do.
- Well, I came back downstairs, and you were gone. 
- I walked out. I walked out the door.
- Why? 
- I don't know. I felt like a scared little kid. I was like... It was above my head. I don't know.
- You were scared?
- Yeah.
- Thought you knew that about me.
- I ran back to the bonfire, trying to outrun my humiliation, I think.
- Was it something I said? 
- Yeah. You said, "So go"... with such disdain, you know?
- Oh, I'm sorry. 
- It's okay.
- Joely? What if you stayed this time?
- I walked out the door. There's no memory left.
- Come back and makeup a good-bye, at least. Let's pretend we had one. Bye, Joel.
- I love you.
- Meet me in Montauk.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Novidades em DVD - Joy: O Nome do Sucesso (Joy)

De: David O. Russel. Com Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Bradley Cooper, Virginia Madsen e Isabela Rossellini. Biografia / Drama / Comédia. EUA, 2015, 126 minutos.

Com uma filmografia (propositalmente) exagerada e caricata, o diretor David O. Russel parece ter se especializado, com o passar dos anos, em apresentar ao público toda a ilusão delirante do american way of life, com seus personagens e histórias que mais pareciam saídos de alguma telessérie ou filme para a TV vindos diretamente dos anos 60 ou 70, dado o anacronismo de cada obra. Foi assim em alguns filmes apenas razoáveis, como Trapaça (2013) e em outros tantos bons, como O Vencedor (2010) e O Lado Bom da Vida (2012), ocasiões em que, mais do que obras com histórias bem costuradas ou amarradas éramos apresentados a uma verdadeira coleção de personagens interessantes - ainda que em em muitos casos, estereotipados - interpretados por gente talentosa como Jennifer Lawrence, Bradley Cooper, Christian Bale, Mark Wahlberg e Robert De Niro.

Nesse sentido, é justamente a capacidade de compor em seus roteiros personagens multidimensionais e dotados de um mínimo de complexidade o fato que possibilitou indicações ao Oscar - e até algumas conquistas da estatueta mais cobiçada - a alguns dos atores com as quais já trabalhou. Não à toa, O. Russel é tido como um diretor com grande capacidade de condução de atores, ainda que seus filmes possuam pouco valor no que diz respeito aos elementos estéticos ou a seus arcos dramáticos - nunca ousados e quase sempre previsíveis. Pois o tom novelesco e farsesco, ou mesmo de paródia metalinguística, parece atingir seu auge com o recém chegado em DVD Joy: O Nome do Sucesso (Joy), que, já em sua primeira cena, brinca com o modelo ao apresentar uma sequência, parte de uma novela ficcional, que servirá para ditar o tom da narrativa que encontraremos pela frente. Acreditar ou não naquilo que o filme tenta vender dependerá de cada um.



Na trama, baseada em fatos reais, Jennifer Lawrence vive a Joy do título. Como em qualquer caso de história de superação, Joy é uma sonhadora que luta, e muito, para conseguir colocar em prática os planos e ideias que lhe possibilitem uma vida mais digna e feliz - e com mais dinheiro, como manda o figurino das histórias americanas e invariavelmente capitalistas. Como desgraça pouca é bobagem, Joy tem uma família absolutamente disfuncional, sendo esta, em muitos casos, a grande responsável por fazer com que a jovem não "saia do chão". Não bastasse a mãe alienada do mundo e interessada apenas em suas farsescas novelas (Madsen), Joy ainda conta com um pai ausente que retorna para casa após um segundo casamento mal sucedido (De Niro), um ex-marido que mora no porão da casa (Rámirez) e uma irmã ciumenta e competitiva (Elisabeth Röhm). A relação com a avó (Diane Ladd), com uma amiga dedicada (Dascha Polanco) e com os dois filhos parece dar a sustentação para que a garota não enlouqueça.

A situação muda de figura quando Joy - criativa desde a infância, como mostram alguns flashbacks - inventa um utensílio doméstico que poderá ajudar as "donas de casa" mundo afora. Sim, se trata de uma espécie de esfregão muito mais prático do que os comuns, por não necessitar do uso da mãos para torcê-lo e por ser muito mais prático de ser lavado. Você certamente já viu o produto nos polishops da vida. E se você estranhou o uso do termo "dona de casa" nessa resenha, saiba que este é apenas um dos problemas do filme. Sem esconder um certo machismo, a película alça a protagonista à condição de estrela de televisão justamente após uma sequência em que um homem, contratado do canal em que o produto será comercializado, se mostra incapaz de usar o novo objeto. Afinal de contas, vassoura é algo feito para a mulher, né? Assim como limpar a casa? Ao menos de acordo com as ideias ultrapassadas do diretor. E mesmo que a trama se passe em outra época, essa sequência poderia ter sido facilmente solucionada sem a inclusão de um senhor branco e de meia idade "apanhando" do objeto.


Pecando também ao apresentar a família da protagonista como um emaranhado de pessoas ao mesmo tempo distantes e desinteressadas - o que torna tudo tão falso quanto as novelas vistas - a obra ainda faz uma mistura estranha de romance, comédia e até mesmo (pasme) drama de tribunal com pitadas de faroeste no seu terço final. Os diálogos, pouco inspirados, também não contribuem para que a verossimilhança seja preservada, soando algumas vezes absurdos e nada realistas - e se em Trapaça o exagero parecia proposital em tudo, figurinos, cabelos, cenografia, interpretações, aqui parece haver um certo tom solene na evolução da protagonista que nada tem a ver com a forma como percebemos tudo aquilo a que estamos assistindo. É como se fosse uma espécie de fantasia em que o criador não estava muito inspirado. O que, é preciso que se diga, é uma pena, já que a instigante história tinha tudo pra render um filme melhor.

Nota: 4,5

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Lançamento de Videoclipe: Biffy Clyro (Wolves of Winter)

A banda escocesa Biffy Clyro é pouco conhecida por aqui, mas desde 2002, com o lançamento de seu primeiro disco, Blackened Sky, vem prestando uma série de bons serviços ao rock com suas performances explosivas em um perfeito equilíbrio entre peso e melodia em suas canções - algo que o Smashing Pumpkins fazia com perfeição nos anos 90 (embora a comparação entre as duas bandas pare por aqui).

Com o passar do tempo o grupo vem aprimorando seu modus operandi, chegando ao ápice com o lançamento do álbum duplo Opposites, em 2013, que lhes rendeu o título de melhor banda do Reino Unido pelo New Musical Express (NME), desbancando nomes consagrados como o Arctic Monkeys, por exemplo. E por isso mesmo, a espera pelo novo disco, que se intitulará Ellipsis, tem sido precedida de grande curiosidade pelos fãs e crítica. Segundo o vocalista Simon Neil, este será o disco mais experimental e conciso que já fizeram, com bastante uso de elementos eletrônicos, e a banda está muito satisfeita com o resultado.

O primeiro aperitivo desta nova leva de canções chama-se Wolves of Winter, cujo videoclipe já está disponível na rede e você pode conferir abaixo. A canção traz todos os elementos descritos acima, mas sem perder a verve demonstrada pela banda nos trabalhos anteriores. Vale dar uma conferida neste videoclipe, todo feito em animação e com uma temática bem "viajante", com diversos elementos que perpassam por diferentes épocas, complementando este lado experimental da canção. Vale conferir!


terça-feira, 24 de maio de 2016

Disco da Semana - Mahmundi (Mahmundi)

Final de verão / Fiz um hit pra entoar você. Curioso notar como o verso que inaugura o maravilhoso e homônimo disco de estreia da carioca Mahmundi, bem poderia funcionar como um resumo daquilo que encontraremos em toda a obra: um disco por vezes ensolarado, com aquele clima de fim de tarde na praia, ou de noite quente em clima de romance. Assim são as características de um registro capaz de utilizar sintetizadores, teclados, linhas de baixo e guitarra, além de outros efeitinhos diversos para entregar uma verdadeira coleção de canções absolutamente radiofônicas, refrescantes na medida certa e com refrões certeiros prontinhos para tocar nas rádios mais descoladas do País. Não à toa, o clima litorâneo à anos 80 pode ser percebido não apenas na sonoridade e nas letras, mas também no nome das canções - Eterno Verão, Calor do Amor - ou mesmo na ensolada e quente capa do álbum.

Mahmundi, ou Marcela Vale, seu nome artístico "anterior" não é exatamente uma novidade no mundo da música. Ainda que já tenha trabalhado em lugares como o Kentucky Fried Chicken (KFC), a artista e compositora - que já foi vocalista e guitarrista da banda Velho Irlandês e técnica de áudio no Circo Voador, no Rio de Janeiro - aguardava o momento de mostrar ao mundo a sua arte. E lá se foram alguns bons quatro anos até apresentar este trabalho de estreia, que conta com direção artística do gaúcho Carlos Eduardo Miranda. "Como fui assistente de produção de grandes discos, ficava com a mão coçando para mostrar para os meus áudios para pessoas ligadas a música, mas sabia que ia ser apenas mais uma devo que eles iriam ouvir", explicou em entrevista para o site Monkeybuzz.



Nesse sentido, Mahmundi parece estar sendo recompensada pela paciência - a chegada da internet e de outras plataformas de distribuição de música a ajudaram muito -, já que o trabalho de estreia, ainda que enxuto - são apenas 10 música e pouco mais de 40 minutos - é grandioso em suas emanações românticas, capazes de envolver e confortar o ouvinte, em um clima embalado por boas doses de new wave, lo-fi, R&B e música eletrônica. Quem acompanha de perto o trabalho da artista sabe que canções como Leve, Calor do Amor, Desaguar, Sentimento e Quase Sempre já foram apresentadas anteriormente, em EPs como Efeito das Cores e Setembro. Para quem optar por descobrir agora o trabalho da cantora encontrará um tanto de nostalgia (Leve), alegria juvenil (Eterno Verão) e o pleno prazer de ter alguém para amar (Desaguar, talvez a melhor do disco).

Como se fosse uma mistura de Marina Lima com Silva - com uma pequena pitada de Lulu Santos -, Mahumndi não se envergonha de abrir o seu coração em letras sinceras e diretas no que diz respeito aos relacionamentos - e que formam grande parte do material entregue pela artista. O amor é um mar difícil / Mas é tão fácil de se ver e admirar / Todo amor tem um artifício /Que não acaba e ninguém pode mudar canta em Sentimento música que fecha o registro e que condensa as ideias apresentadas durante toda a obra e que são capazes de jogar o ouvinte diretamente para este ambiente. O clima á praiano, por vezes festivo e colorido. Mas quando o entardecer chega e com ele vem a noite, mesmo no verão, fundamental é ter alguém pra dividir as doçuras dessa estação.

Nota: 8,4


Grandes Cenas do Cinema - Perfume de Mulher (Scent Of a Woman)

Filme: Perfume de Mulher
Cena: Dando aula de tango

Existem alguns filmes que, se não foram assim tão marcantes no que diz respeito a recepção da crítica, o mesmo não se pode dizer em relação ao público. E é exatamente esse o caso de Perfume de Mulher (Scent Of a Woman), lançado em 1992 e protagonizado por Al Pacino. Na trama, o astro é o tenente-coronel Frank Slade, que fica cego após a guerra, tornando-se um sujeito progressivamente amargurado, infeliz, solitário e odioso na mesma medida, uma vez que não hesita em tratar as outras pessoas de maneira preconceituosa e racista, tudo travestido pelo mais completo deboche. A chegada de um jovem - vivido por Chris O'Donell - que lhe servirá de acompanhante em uma viagem a Nova York, enquanto sua família está de férias, modificará a sua vida pra sempre. Fazendo, inclusive, com que ele altere algumas de suas convicções.




O filme é bacana e Pacino está irretocável como esse reformado do exército de modos sisudos e conservadores, bem ao estilo dos votantes de Donald Trump. Mas é provável que muitos nem lembrem direito de todos os eventos ocorridos na obra dirigida por Martin Brest (de Um Tira da Pesada), sendo certamente a cena mais marcante a indefectível sequência em que Frank dança tango com uma jovem, ao som de Por Una Cabeza, de Carlos Gardel. Uma sequência de imagens tocante, ao mesmo tempo sensual e singela, e que mostra um outro lado dessa persona tão complexa encarnada por Pacino na película. Perfume de Mulher é definitivamente o filme da "cena do tango". E é preciso que se diga que este inesquecível momento do cinema só seria mais impactante se fosse executado por um artista realmente cego. Ainda assim é preciso dar todos os méritos a Pacino, que conduz esse momento, certamente uma das Grandes Cenas do Cinema de maneira soberba.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Cine Baú - Rastros de Ódio (The Searchers)

De: John Ford. Com John Wayne, Jeffrey Hunter, Natalie Wood e Vera Miles. Faroeste / Aventura, EUA, 1956, 118 minutos.

Durante muitos anos Hollywood personificou a luta do bem contra o mal por meio de faroestes em que podíamos assistir a luta dos "mocinhos" - homens brancos, polidos, de educação religiosa e que não hesitariam em apontar seus imponentes revólveres - contra os "bandidos" - no caso os índios, maltrapilhos, sujos, com uma língua que não era o inglês e de caráter duvidoso. Essa dicotomia esteve especialmente presente entre os anos 40 e 60, após a Segunda Guerra e início da Guerra Fria, quando era necessário reafirmar a todo custo o patriotismo e o crescimento pregado pelo sistema capitalista, na Terra do Tio Sam. Não dá para negar que o diretor John Ford - talvez o maior nome do estilo na história - levasse, sim, essa lógica ao pé da letra. Ainda que, em sua filmografia, fosse capaz de apresentar,  nem que fosse de forma sutil, outras nuances para cada película lançada.

É exatamente esse o caso do clássico Rastros de Ódio (The Searchers), lançado em 1956, que aparece aqui no nosso Cine Baú. Na trama, Wayne é o veterano da Guerra da Secessão Ethan Edwards, que chega ao Texas três anos após o final do conflito para visitar o irmão, a cunhada Martha (Dorothy Jordan) - por quem parece nutrir certa paixão - e suas duas sobrinhas. O sossego dura apenas um dia já que, na manhã seguinte, após retornar de uma investigação a campo relacionada a roubo de bovinos, Ethan encontra seu irmão e a cunhada mortos, após um ataque provocado pelos comanches, que, de quebra, ainda sequestram as duas filhas do casal. É o início da jornada de vingança de um homem amargurado pelo trauma, bem de acordo com script maniqueísta do gênero. Não fosse por um "pequeno detalhe": Ethan é um sujeito racista e xenófobo, que usa o preconceito e o ódio para atacar, inclusive, aqueles que lhe são mais próximos.



E é exatamente nesse ponto que reside a força desse imperdível filme. Ao contrário do que se poderia imaginar, o caubói leva mais de 10 anos, entre idas e vindas e buscas intermináveis por pistas para encontrar qualquer indício que possa lhe conduzir em direção a parente há tantos anos desaparecida. Mas quanto mais tempo Ethan demora em seu objetivo, mais uma dúvida lhe atormenta a alma: estando viva a doce Debbie (Wood), a sua sobrinha querida e de bons modos, será ela a mesma após uma temporada de anos nas mãos dos comanches? Terá ela se transformado numa "indígena", ofendendo a honra de sua família que agora jazia sob a terra? Como lidar com esse sentimento que lhe devasta o peito a cada pista ou caminho desencontrado? A que ponto poderia chegar um homem decepcionado com aquilo que restou da sua família? São perguntas que tornam essa obra-prima não apenas um bom faroeste de aventura, mas ainda um filme em que se sobressai um certo clima de suspense permanente.

Ainda que seja um sujeito de moral duvidosa, Ethan é interpretado por Wayne com um magnetismo e uma complexidade dilacerantes, capazes de fazer com que o espectador minimamente entenda as suas angústias - por mais descabidas que sejam suas atitudes. Em sua viagem, o veterano é acompanhado pelo mestiço Martin (Hunter), que fazia parte da família por ter sido adotado pelo irmão. Chamando-o eventualmente de "cherokee de segunda" ou de "cabeça de cobertor", o homem demonstra todo o seu ódio racista comum a colonizadores daquele período. Com imagens grandiosas do Monument Valley e trilha sonora certeira (de Max Steiner), a obra conta ainda com uma série de personagens secundários interessantes - ainda que eventualmente caricatos - que contribuem de maneira determinante para a construção da história.



Em uma época em que entes políticos patéticos como o deputado federal Jair Bolsonaro (o "Bolsomito") destilam toda a sua raiva fascista contra as minorias em todos os canais disponíveis - ele prefere ver seu filho morto a ser gay - uma revisão a este filme de Ford serve para mostrar que o pensamento vigente há quase 150 anos (o filme se passa em 1868), ainda pode estar vivo, nas mais variadas formas. A obra pavimentou o terreno para que Ford discutisse em outras ocasiões a questão do racismo, como no caso do também imperdível O Homem que Matou o Facínora (1962), elevando os filmes de faroeste a um outro patamar. Ainda que Rastros de Ódio tenha sido completamente ignorado no Oscar, à época, a película costuma aparecer em inúmeras listas de melhores da história. No Top 50 da Sight and Sound Magazine foi o sétimo melhor de todos os tempos. Já na lista de 2007 do American Film Institute (AFI) foi escolhido como o 12º mais importante da história. O que, definitivamente, não é pouco.

sábado, 21 de maio de 2016

Lançamento de Videoclipe - Boogarins (Benzin)

Se quando você pensa na cena musical de Goiás a primeira imagem que lhe vem a cabeça é a da dupla de sertanejo universitário Jorge e Mateus, está mais do que na hora de você rever os seus conceitos. É de lá uma das cenas mais efervescentes do rock alternativo nacional, com destaque cada vez maior para bandas como Peixefante, Carne Doce e Boogarins - isso sem falar no Violins. Todas elas favoritaças da casa! A propósito do Boogarins, o quarteto segue divulgando o seu mais recente trabalho, o onírico e psicodélico Manual - que aqui no Picanha ficou em quinto lugar na nossa relação de 25 melhores registros de 2015. O clipe para a faixa Benzin, lançado nesta semana, conta com a participação da vocalista do Carne Doce, Salma Jô, que trabalhou na composição da faixa, além dos demais integrantes do Boogarins. Gravado na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, o vídeo, dirigido pela Granada Filmes, possui belas e coloridas imagens. Vale clicar e conferir!