terça-feira, 10 de setembro de 2019

Novidades em DVD/Now - Deslembro

De: Flávia Castro. Com Jeanne Boudier, Sara Antunes, Jesuíta Barbosa e Eliane Giardini. Drama, Brasil / França / Qatar, 2019, 95 minutos.

"Aqueles que não conhecem a sua história estão fadados a repeti-la". Não deixa de ser curioso pensar que essa frase, tão relevante nos tempos sombrios que vivemos em nosso País, seja atribuída ao teórico político Edmund Burke, filósofo conservador que foi um grande crítico da Revolução Francesa. Em nosso contexto, especialmente se pensarmos na Ditadura Militar - e no aparente desejo de muitos de simplesmente "deletar" esse período traumático de nossa história recente -, ela soa atualíssima. Nesse sentido, quando nos deparamos com um esforço artístico que, de alguma forma, resgata aquele momento, ele já nasce digno de nota. E é exatamente este o caso de Deslembro, de Flávia Castro - obra que nos joga de volta para o final dos anos 70 (no período que em que foi decretada a Lei da Anistia), para contar a história de uma família de exilados, que está voltando para o Brasil.

Mas o retorno ao nosso País tropical não será fácil. Especialmente para a jovem Joana (Jeanne Boudier) que, após ter passado toda a sua infância e adolescência em Paris, na França, reluta em retornar com a família para a terra natal da mãe. A sensação de desconforto da menina irá para além do estranhamento natural de se estar em um novo lugar em que não se tem amigos e os antigos colegas ficaram para trás: haverá alguma coisa incômoda nesse novo cenário que, aos poucos, virá a tona, revelando traumas do passado que pareciam "escondidos" na memória da adolescente. E é impressionante notar como Flávia é hábil na construção de uma narrativa que sufoca mesmo nas cenas mais prosaicas - como um piquenique em família na floresta (que não dá muito certo) ou em eventuais flashbacks em que seu pai, um ativista de esquerda, reaparece em cenas embotadas, tensas, confusas. E eu fiquei particularmente maravilhado com a habilidade da diretora no uso de vozes, barulhos e outros sons que surgem no formato de sussurros, como rimas sonoras ou zumbidos que ligam um frame a outro, ampliando a sensação de crescente desconforto.



Já que está de volta ao Brasil, Joana encafifa com o passado do pai biológico (Jesuíta Barbosa), sujeito que teria desaparecido e sido assassinado pelo Estado durante o regime. Montando um quebra-cabeças ela reencontra uma antiga casa que era ocupada por um grupo de resistência do qual seu pai fazia parte e entra também em contato com a sua avó - a mãe de seu pai (vivida com ternura por Eliane Giardini). Em meio a um universo de incertezas que geram um tipo de suspense involuntário de que simpatizo muito - será que o pai dela não estaria vivo? Ela poderia encontra-lo até o final da película? - a jovem vai amadurecendo, descobrindo o amor e funcionando como uma adolescente como qualquer outra, que briga com a mãe Ana (Sara Antunes), que sofre, que fuma maconha, que gosta de ir a praia, que absorve a cultura a sua volta e que tem consciência do significado da luta de seu pai (ainda que utilize justamente este fato para "atacar" sua mãe em certa sequência).

É uma obra familiar, que apresenta com eficiência o contexto político da época - ainda que alguns excessos didáticos pudessem ter sido evitados. É o caso dos jovens que, invariavelmente levam o nome de proeminentes figuras políticas de esquerda (Ernesto, Leon, etc) ou mesmo o instante em que Joana chama um vizinho exaltado de fascista, para ele responder um onipresente "vai pra Cuba!". Ainda assim, como diz o Henrique, meu parça aqui do Picanha, as vezes mesmo o ÓBVIO necessita ser esfregado NA CARA - e é por isso que este fato não compromete a apreciação do filme. Colocando volta e meia a luta política e a necessidade de exumar os "esqueletos do armário" como condição básica para a felicidade familiar, a película é hábil ao captar os eventos do período de forma sutil, econômica, mas, altamente relevante. Joana, a seu modo, se esforça para pertencer aquele universo que, agora, lhe é novo. E ela só conseguirá fazer isso se deixar o passado para trás, não desejando JAMAIS repeti-lo.

Nota: 8,5

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Na Espera - Coringa (Filme)

Desde o inesquecível Coringa interpretado por Heath Ledger em Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008) criou-se uma mística ainda maior pelo perturbador personagem. O nível de interpretação foi tão alto que qualquer um que viesse a encarnar o próximo teria grandes chances de falhar miseravelmente - como aconteceu com Jared Leto no duramente criticado Esquadrão Suicida (2016). Ficou a cargo do polêmico e excelente ator Joaquin Phoenix (Ela, O Mestre, Johnny and June, Vício Inerente, dentre outros) dar vida ao primeiro filme dedicado exclusivamente ao personagem.


Após o lançamento do trailer oficial ficou claro que, muito além de um filme de super-herói, a obra Coringa (Joker) parece mais um drama psicológico com toques de suspense sobre a personalidade do notório vilão. Para completar, a interpretação de Phoenix vem recebendo elogios entusiasmados da crítica que já cogita a sua atuação como uma das favoritas ao Oscar 2020. Dirigido por Todd Phillips (da franquia Se Beber Não Case) o filme venceu o Leão de Ouro em Veneza este ano - algo inédito para um personagem de quadrinhos - o que credencia a película como uma das grandes favoritas às premiações de final de ano. Quanto a nós só resta ficar Na Espera da estreia deste filmaço nos cinemas brasileiros.


10 Filmes com Temática LGBTQI+

Vivemos tempos difíceis, de ódio, intolerância, autoritarismo. A mais nova façanha do ano de 2019 foi do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, que mandou censurar uma HQ da Bienal do Livro onde aparecem dois rapazes se beijando. Então, para auxiliar o prefeito na divulgação de obras com temática LGBTQI+, trazemos uma lista de 10 filmes sobre o assunto que merecem ser vistos. Bora resistir!


#1 Azul é a Cor Mais Quente


Famosa por sua longa e gráfica cena de sexo entre as duas atrizes principais a obra é, muito além da cena citada, uma visceral história de amor e um estudo de personagem sensível que acompanha, ao longo de suas três horas de duração, a vida de Adèle (Adèle Exarchopoulos), sua rotina do acordar ao fim do dia, até o momento em que cruza seu caminho Emma (Léa Seydoux) e a inevitável paixão que brotará a partir dali. Com um naturalismo impressionante, o filme faz com que as sensações do amor e as dores decorrentes deste sentimento sejam vivenciados pelo público. Uma experiência ousada, em uma entrega pelas atrizes poucas vezes vistas na história do cinema.


#2 Me Chame Pelo Seu Nome


Baseado no livro homônimo de André Aciman, o filme narra a história de amor entre Elio (Timothée Chalamet), um rapaz de 17 anos, e Oliver (Armie Hammer), um homem mais velho que vai se hospedar na casa do seu pai durante um verão na Itália dos anos 80. Com belas paisagens e de forma muito sensível, a obra mostra a descoberta das inclinações sexuais e amorosas de Elio e, consequentemente, as marcas que um grande amor pode deixar naqueles que o vivenciam. Contando ainda com um monólogo final arrebatador e uma trilha sonora lindíssima (composta pelo músico Sujfan Stevens), Me Chame Pelo Seu Nome é um tratado incrível sobre o amor em todas as suas formas, independente de orientação sexual. Qualquer pessoa que já tenha vivido uma grande paixão certamente irá se emocionar.


#3 Priscilla, a Rainha do Deserto


Filme de muito sucesso nos anos 90, Priscilla, a Rainha do Deserto, é um road movie que mostra a trajetória das personagens Tick (Hugo Weaving), uma drag queen, Bernadette (Terrence Stamp), uma mulher trans, e Adam Whitely (Guy Pearce), drag queen que, a bordo do ônibus Priscilla, atravessam o deserto australiano levando seu show para uma população que, por vezes, os recepcionará de maneira hostil. Apesar de momentos dramáticos, a leveza do filme vem do carisma de seus protagonistas e também da trilha sonora que conta com músicas de Gloria Gaynor, Village People, ABBA, entre outros, o que fez com que diversos espectadores do mundo todo se familiarizassem com a cultura queer.


#4 O Segredo de Brokeback Mountain


Uma das mais tristes e emocionantes histórias de amor do cinema, o premiado filme do cineasta Ang Lee narra a história de dois cowboys que, ao passarem um período na montanha do título afim de trabalhar lidando com um bando de ovelhas, acabam se apaixonando. Sim, o estereótipo do machão americano - que toma um trago e fala grosso - também possui sentimentos. Pra complicar ainda mais ambos são casados e estão vivendo na década de 60. O poder da obra vem da representação deste amor que, mesmo sendo considerado proibido, atravessará o tempo - e as atuações de Heath Ledger e Jake Gyllenhaal são maravilhosas em demonstrar o júbilo e a tragédia deste sentimento inevitável e que será vítima, como tantos outros casos, da intolerância de uma sociedade.


#5 Carol


Premiado em diversos festivais, o filme do diretor Todd Haynes conta a história de duas mulheres: a jovem Therese Belivet (Rooney Mara), que tem um emprego entediante na seção de brinquedos de uma loja de departamentos, e a elegante Carol Aird (Cate Blanchett), uma cliente que busca um presente de Natal para a sua filha. As duas se aproximarão em uma época - no caso a Nova York dos anos 50 - em que o papel da mulher na sociedade deveria ser apenas o de esperar o marido no fim do dia com o jantar pronto e a casa arrumada. Absolutamente charmoso, o filme tem a sua força nas sutilezas, nos detalhes, nos gestos e na voz tranquila. E nas interpretações magníficas da dupla de protagonistas.


#6 Moonlight: Sob a Luz do Luar


Película desenvolvida de forma fluída, sem exageros, nos mostra três momentos da vida de Chiron, um jovem negro morador de uma comunidade pobre de Miami. Do bullying da infância, passando pela crise de identidade da adolescência e a tentação do universo do crime e das drogas, essa verdadeira obra-prima moderna, realiza um belo estudo de personagem. Nunca estereotipado, Chiron é mostrado como alguém que alcança certo status, mas que guarda para si uma série de segredos, resultado de uma sociedade preconceituosa e racista. O terço final, absolutamente poético e romântico, está entre os grandes momentos do cinema moderno. Talvez para eternidade o filme sempre seja lembrado pela confusão gerada ao final da cerimônia do Oscar daquele ano. Mas, justiça seja feita, Moonlight é MUITO MAIS FILME que La La Land.


#7 Hoje Eu Quero Voltar Sozinho


Poucos filmes serão mais tocantes e afetuosos na abordagem do amor do este belo exemplar de nosso cinema. A trama é centrada em Leonardo (Guilherme Lobo), adolescente cego que, ao mesmo tempo em que tenta lidar com a mãe superprotetora, tenta obter a sua independência. A chegada de um outro menino a cidade, de nome Gabriel (Fabio Audi) fará com que novos sentimentos surjam em Leonardo, modificando totalmente a sua percepção sobre a sexualidade. Com ambientação extremamente naturalista, a obra alterna momentos divertidos, dramáticos e românticos em igual medida, transformando a película em um verdadeiro tratado geral sobre a adolescência, apresentando um viés muito mais romântico do que, necessariamente, engajado (o que não é um demérito, nesse caso).


#8 Tudo Sobre Minha Mãe


É até difícil escolher apenas um filme do Almodóvar para figurar nessa lista, já que não são poucos os que, de alguma forma, abordam a temática LGBTQI+ - sendo Má Educação (2003) um dos mais provocativos e o recente Dor e Glória (2019) um dos mais poéticos. Neste, acompanhamos o drama de Manuela (Cecilia Roth), que perde o filho Esteban (Eloy Azorín) na noite do aniversário do jovem. Alguns dias depois, lendo os diários do filho, Manuela encontra um manuscrito que dá conta do desejo do rapaz de conhecer o seu pai. É neste momento que a devastada mãe resolve ir a Barcelona para tentar um encontro com o pai de Esteban, vivido por Toni Cantó. Mas há um problema: o homem atualmente é a travesti Lola. E faz 18 anos que Manuela não lhe vê. O filme é uma jornada divertida e comovente, voltada a "todas as mulheres".



#9 Milk: A Voz da Igualdade



Filme que deu a Sean Penn a estatueta do Oscar na categoria Melhor Ator na cerimônia de 2009, a obra de Gus Van Sant retorna aos anos 70 para contar a história do ativista gay Harvey Milk, primeiro homossexual a ser eleito para um cargo público nos Estados Unidos. A trama começa com Milk se mudando para San Francisco ao lado do namorado Scott (James Franco), onde abre uma loja para a revelação de filmes fotográficos. Enfrentando o preconceito e a intolerância que marcam o período, o protagonista passa a buscar direitos iguais para todos, sem discriminação sexual. Trata-se de um filme vibrante, que marca o esforço de um sujeito que enfrenta a violência e que conta com o apoio de amigos e voluntários para alcançar os seus objetivos.



#10 Traídos Pelo Desejo



Café da Manhã em Plutão (2005) pode até ser o filme mais contundente do diretor Neil Jordan sobre a temática, mas dificilmente algum será mais surpreendentemente inesquecível do que a obra lançada em 1992. Na trama, um soldado inglês vivido por Forest Whitaker é sequestrado pelo IRA, mas desenvolve uma curiosa amizade com o guerrilheiro (Stephen Rea) encarregado de vigiá-lo. Quando o soldado morre, o guerrilheiro resolve ir atrás de sua ex-mulher para comunicar o ocorrido - mas acaba se apaixonando por ela. Misturando política, ataques terroristas e romance LGBTQI+, o filme reserva para seu segundo ato uma sequência que pegará o espectador de "surpresa", numa obra que subverte estereótipos, sendo extremamente original (não por acaso, seu Roteiro foi o vencedor no Oscar).

Bom, é óbvio que existem muitos outros filmes sobre o tema mas, o que acharam da lista? Deem suas opiniões!

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Cinema - Bacurau

De: Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Com Udo Kier, Sônia Braga, Karine Teles e Barbara Colen. Aventura / Mistério / Ficção Científica / Faroeste, Brasil / França, 2019, 131 minutos.

Eu teria tudo para odiar Bacurau, longa-metragem dos diretores Kleber Mendonça Filho (dos maravilhosos O Som ao Redor e Aquarius) e Juliano Dornelles. Sou homem, heterossexual, branco, de sobrenome alemão, classe média. Moro na região sul do país, que deu aproximadamente 70% dos votos para Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições, uma região que se acha tão autossuficiente que possui um movimento para se emancipar do resto do país. Uma região que recebe aqueles que não deseja na bala e de relho. No meu estado tem "justiça" que prefere retomar antigo nome de uma avenida - que possui termos como "legalidade" e "democracia" - para homenagear general ditador. Como diria o hino riograndense, "sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra" (#SQN). Na minha cidade tem movimento neofascista querendo censurar evento jornalístico, e também tem vereadores destilando desinformação, homofobia, e acusações sem provas. Aqui pertinho tem gente que não respeita a arte e a cultura, que não suporta a livre manifestação e a crítica. Tem gente que se acha superior ao resto do país devido ao suposto sangue europeu de seus antecessores. Tem gente que certamente vai odiar com todas as forças Bacurau. Não foi o meu caso.

Em um futuro não muito distante o povoado da cidadezinha nordestina de Bacurau (cujo nome remete a um pássaro de hábitos noturnos que, quando aparece, significa mau presságio) está velando a avó de Teresa (Colen), que está retornando à localidade para se despedir trazendo consigo um lote de vacinas e medicamentos. A partir da morte da matriarca somos apresentados lentamente aos personagens do vilarejo - cuja maior característica é o senso de comunidade - em toda a sua diversidade e peculiaridade. Tudo muda no momento em que um casal de turistas supostamente fazendo trilha pelo local altera a rotina dos moradores, quando estes descobrem que a cidade não faz mais parte do mapa (mais especificamente, do Google Maps - sim, a cidade é pobre, mas neste futuro a tecnologia está disponível para todos em seus smartphones). A partir daí as tensões aumentam (uma característica do cinema de Mendonça Filho) levando a desfechos violentos e inesperados. Se você é ligado em cinema já deve ter lido muito sobre o filme e até ter sido vítima de alguns spoilers, portanto não nos aprofundaremos na trama visto que a melhor parte da experiência é ir descobrindo o filme aos poucos e, de preferência, na tela grande.


Ao abrir com um plano brilhante em sua ironia junto ao uso da trilha sonora, percebemos que não estamos diante de um filme convencional. Vender o filme como sendo de ação, ficção científica e faroeste foi uma estratégia poderosa para atrair os espectadores ao cinema. Espectadores que, lamentavelmente, ainda enxergam com preconceito as produções nacionais - uma das mais versáteis e originais do mundo. A julgar pela recepção calorosa do público (que vem lotando salas e mais salas) e a empolgação da crítica (quase unânime em reconhecer os méritos da obra), Bacurau já é um dos filmes mais comentados e hypados dos últimos tempos no Brasil - e também no mundo. E não é pra menos: muito além do cinema de gênero, os diretores entregaram aqui um produto que não fica nem um pouco a dever a produções internacionais. Referências mil respingam pela rede, e uma das que me saltou aos olhos foi o faroeste El Topo, de Jodorowsky, pela lisergia e o alto teor alegórico. Mas tem muito mais: tem ação, suspense, terror, tiroteio, efeitos especiais e, principalmente, RELEVÂNCIA.

São raros os filmes que captam o espírito de seu tempo e, a julgar os acontecimentos atuais no país, o B de Bacurau pode muito bem ser, em seu microcosmo, o B de Brasil. O que vemos em tela é uma alegoria perfeita: as escolas sucateadas, os políticos que só aparecem em época de eleição e exploram seu povo, a animalização do diferente, a exploração de áreas pertencentes a outras pessoas em benefício próprio, o extermínio do povo negro e pobre, o abandono das crianças, a legitimação da violência, o entretenimento a qualquer custo, a frustração do homem branco e a fetichização das armas, o fascismo, a RESISTÊNCIA. Resistência esta que brota das minorias, das mulheres, dos homossexuais, dos trans, dos negros, dos nordestinos, de tudo aquilo que mais irrita os reacionários de plantão. Enquanto a escola é o último refúgio das crianças para sobreviver, é no museu da cidade onde repousa a memória do cangaço - e é justamente esta memória que poderá salvar uma população em risco de extinção.


Premiado internacionalmente (o mais notório deles o Prêmio do Júri do Festival de Cannes), Bacurau é uma bofetada bem dada na cara da elite mesquinha brasileira, do vira-lata, daquele que "se acha" mais importante ou superior que o resto do país, dos que perderam a humanidade, dos que avalizaram tudo de absurdo que acontece dia após dia nesse governo imbecil. Daqueles que preferem se anestesiar e continuar (como uma cena brilhantemente sugere) tomando no cu. Porque todos são o povo, quase ninguém é elite - mas tem muita gente que pensa que é. Se alguma cena peca pela falta de sutileza em sua crítica, creio que este seja um dos maiores méritos do filme: vivemos em tempos em que o óbvio PRECISA ser dito. Que as memórias e as feridas do passado precisam ser revistas para que o terror não volte a ocorrer. E se há algo de aterrorizante em sua emblemática cena final é a certeza de nunca estarmos a salvo do gene da barbárie.

Eu teria tudo para odiar Bacurau. Felizmente, desde cedo, minha família sempre me colocou em contato com a arte. O cinema, a música, o teatro, a dança, são as formas mais eficazes de desenvolver a empatia por nossos semelhantes. Quando digo semelhante, quero dizer a humanidade. Que ela possa conviver e aceitar as diferenças entre si é um imperativo do sucesso civilizatório. Todo governo autoritário deixa de financiar a arte, a cultura e a educação pois sabe que não há arma maior contra a tirania do que o conhecimento. E é por isso que todo mundo deve assistir Bacurau. Porque é um filme espetacular, DO CARALHO. E porque está fazendo história. Em tempo real.

Nota: 10

Cinema - Retrato de Amor (Photograph)

De: Ritesh Batra. Com Nawazuddin Siddiqui, Sanya Malhotra e Farrukh Jaffar. Romance / Drama, Índia / Alemanha / EUA, 2019, 109 minutos.

Retrato de Amor (Photograph) pode até ser um filme de estrutura convencional - talvez até previsível -, mas é contado com tanta sensibilidade e sem floreios, que se torna uma sessão imperdível. E, de quebra, ainda nos faz conhecer um pouco mais da cultura indiana e seus hábitos, especialmente no que diz respeito aos relacionamentos. Na trama, um homem de trinta e poucos anos, é pressionado pela sua família (materializada por sua avó) a se casar. O homem é o fotógrafo Rafi (Nawazuddin Siddiqui), que passa os dias nos arredores de Mumbai tentando comercializar fotografias da região para turistas ou visitantes. Em uma de suas investidas fotografa a jovem Miloni (Sanya Malhotra). Ao entregar a foto, vem com ele um inesperado convite: fazer de conta que é a sua noiva durante a visita da avó, que está para acontecer. Tímida, a moça reluta. Mas, no fim, aceita a ideia.

Bom, não é preciso ser nenhum adivinho para saber que a aproximação entre Rafi e Miloni, inicialmente completos desconhecidos, se transformará em um algo a mais no decorrer da história. Do silêncio e das poucas palavras iniciais - quando ainda da montagem do estratagema que engambelará a avó - até o final da história, a dupla se tornará mais íntima, encontrará pontos em comum, fará amizade e em algum momento romperá. Aliás, o tipo de estrutura típica das comédias românticas americanas. Poético, o filme utilizará a metáfora da fotografia, o instantâneo que captura a imagem, memorizando-a, para falar de permanência e materialização de uma realidade que dura por apenas um segundo, mas que poderá ser eternizada em um clique. Desajeitada, a dupla sustentará o seu segredo, sendo esta uma das maiores diversões do filme: assistir as interações da avó, que avança sobre a dupla, eventualmente desconfiada, mas invariavelmente divertida.


Não é um filme ostensivo naquilo que ele se propõe. Ao contrário, todas as suas eventuais mensagens são sutis, sugeridas. Miloni, por exemplo, é estudante e de uma família mais abastada, como percebemos nas interações dela com as empregadas da casa. Já Rafi estaria na classe social oposta, com amigos barulhentos, histriônicos, lutando dia após dia para, com as suas fotos, poder botar comida na mesa. Esses contrastes surgem de forma eficiente, no comportamento de cada personagem, sem a necessidade de se esfregar nada na cara do espectador.  E talvez por isso o esforço de Rafi para conseguir um tipo particular de bebida, uma das preferidas de Miloni, como assistimos no terceiro ato, é tão comovente. É o valor das pequenas coisas: um sorvete na rua, uma correntinha dada de presente por um parente, um filme assistido (nem que já se saiba o final).

Divertido, dramático e até romântica em doses parecidas, o filme ainda aproveita ao máximo a presença luminosa da veterana do cinema indiano Farrukh Jaffar que, aos 85 anos, transforma a avó (a Dadi), numa figura ao mesmo tempo histriônica e enigmática, engraçada e sisuda. Seja na cena em que ela tira uma foto do casal, dizendo para eles se aproximarem ("ela não é um arame farpado"), ou nos momentos em que ela se diverte (e é ranzinza) no albergue que Rafi divide com os amigos, cada sequência em que ela aparece, se torna especial. O que faz com que compreendamos, inclusive, a devoção (e o respeito) do neto em relação a idosa. Com um divertido final metalinguístico - um dos melhores do ano, diga-se - Retrato de Amor jamais será aquele filme inesquecível. Mas, tal qual um retrato valioso, deixará a sua marca por algum tempo.

Nota: 8,0

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Novidades em Streaming - Lana Del Rey (Disco)

E eis que temos mais um disco para entrar diretamente na nossa listinha de cinco melhores internacionais do ano, até o momento. Aqui no Picanha a gente sempre gostou da Lana Del Rey e a impressão que temos é de que ela melhora a cada registro. Em Norman Fucking Rockwell o estilo retrô/enfumaçado/romântico/lânguido permanece o mesmo de seus trabalhos anteriores - com o ápice alcançado no disco Lust For Life, não por acaso o nosso terceiro na relação de grandes álbuns de 2017. No novo trabalho, uma elegância elevada, evocativa, que desconstrói o "sonho americano" já no seu título (Rockwell foi retratista de presidentes americanos como Richard Nixon), enquanto Lana sussurra seus versos de forma provocativa, fragmentada. Há espaço para o pop, como comprovam as candidatas a hit California e a irônica Next Best American Record. Mas o álbum é mais do que isso, e quem tiver a paciência de encarar os seus mais de 60 minutos com as letras a tiracolo, se surpreenderá ainda com o refino de seus versos - ao mesmo tempo autoindulgentes e sarcásticos. Vale cada segundo.


Tesouros Cinéfilos - Dor e Glória (Dolor y Gloria)

De: Pedro Almodóvar. Com Antonio Banderas, Asier Etxeandia, Penélope Cruz e Leonardo Sbaraglia. Drama, Espanha, 2019, 103 minutos.

Vamos dizer que Dor e Glória (Dolor y Gloria) talvez seja um filme muito mais bonito do que profundo. Mais sensível, mais leve. Menos impactante ou provocativo - como eventualmente ocorre na carreira de Pedro Almodóvar. Mas isso não é nenhum demérito. Olhar com carinho para o passado, fazer um filme com ares autobiográficos, que homenageia o cinema e outras artes, também é afagar o espectador. De vez em quando a gente quer uma película que nos envolva, sem necessariamente nos intrigar de maneira comovente. E esta obra parece fazer isso sem forçar a barra, na base da gentileza, da graça. Continua sendo um legítimo Almodóvar - estão lá o uso de cores vivas e a fotografia saturada, Antonio Banderas e Penélope Cruz interpretando, um roteiro com algum grau de mistério cheio de idas e vindas e, claro, as paixões que não olham cor, gênero, tipo físico ou idade. O tipo de obra perfumada pela experiência, talvez. E que por isso tão bela, tão introspectiva.

Na trama, Banderas é Salvador, um decadente diretor de cinema cheio de ideias nunca postas em prática que seguem guardadas em seu computador e que, agora, a convite da cinemateca espanhola, revisitará uma de suas primeiras obras, de nome Sabor, que está para completar 30 anos de seu lançamento. Viajar até o passado para reencontrar esse filme, também será confrontar com um antigo ator que trabalhou com ele em tal película e que, por ter modificado completamente a personalidade do personagem que Salvador havia escrito, se tornou seu desafeto. O ator em questão é Alberto Crespo (Asier Etxeandia), sujeito recluso, intenso usuário de drogas e que anda afastado do mundo das artes. Do reencontro entre ambos os homens surge uma curiosa amizade. E também uma oportunidade para que Alberto "renasça": ele se convida para levar aos palcos uma das tantas ideias deixadas de lado por Salvador em seu notebook - uma peça que lhe comove profundamente.


Muito mais do que homenagear o meio em que vivem estes homens, Dor e Glória também é uma ode ao passado, às escolhas que fazemos e sobre como elas definem quem seremos no futuro. Com  muitas idas e vindas no tempo, conheceremos um Salvador ainda menino (o ótimo Asier Flores), sua relação com a mãe Jacinta (Penelope Cruz) e seu esforço na direção transformadora do aprendizado - sendo particularmente comovente o instante em que o garoto de apenas oito anos passa a ser o professor de Albanil (César Vicente), pintor e instalador que trabalha na "casa" do jovem - e que lhe permitirá descobrir a homossexualidade. Nas sequências que mostram Salvador adulto, vemos um sujeito fragilizado, adoecido e hipocondríaco, que esconde suas vivências em textos nunca revelados, mas que tem uma grata surpresa quando reaparece um antigo amigo/namorado do passado, um certo Federico (Leonardo Sbaraglia). Aliás, difícil não se emocionar com a sequência em que ambos contracenam: uma cena profunda, dolorosa, comovente. Ainda que eventualmente otimista, à sua maneira.

Em linhas gerais o filme não possuirá uma reviravolta ou algum tipo de arco dramático bem estruturado entre começo meio e fim. Alberto levará a peça aos palcos, Salvador recordará do passado. Confrontará este mesmo passado no presente. Perdoará, mais de uma vez. Seguirá adiante, curando as feridas não apenas da alma, mas também físicas. Mestre em utilizar gráficos, montagens e outras trucagens visuais em seus filmes, Almodóvar transforma a sequência em que Salvador fala de todos os males que lhe afligem em um curioso tour de force das dores do mundo - o que se desenvolve de maneira curiosamente divertida. Assim como é divertida a "descoberta" tardia da heroína, como uma alternativa para aplacar essas mesmas dores vividas pelo protagonista. Em uma obra que utiliza as cores não com um propósito específico, mas para salientar a importância delas nas artes, na vida, no redescobrir do mundo, o que fica docruzamento entre passado e presente são as experiências, afinal. E, assim como um belo desenho impregnado em nossa memória, elas jamais podem ser apagadas.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Cinema - Era Uma Vez em... Hollywood (Once Upon a Time in... Hollywood)

De: Quentin Tarantino. Com Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie e Al Pacino. Comédia dramática / Policial, EUA, 2019, 165 minutos.

Opinião sobre filme do Tarantino é que nem c*: todo mundo tem a sua. Seja na mesa de bar (pseudo)cinéfila ou em fóruns gloriosos de redes sociais, cada um de nós tem seu pitaco a dar. "É o filme menos Tarantino do diretor", "ele fez uma ode ao cinema", "as referências à cultura do final dos anos 60 conferem um charme a mais", "é cinema mais arrastado e menos violento". Sim, você vai ouvir um pouco de tudo sobre Era Uma Vez em... Hollywood (Once Upon a Time in... Hollywood) e tudo tem, sim, um tanto de sentido - a despeito do pedantismo dos fãs do diretor, quando resolvem discorrer sobre sua obra. É, como todos os filmes do Tarantino, um bom filme. Cheio de diálogos divertidos, situações imprevisíveis, metalinguagem e também aquela que tem sido uma de suas marcas, em seu cinema mais recente: subverter a lógica de eventos reais do passado, reimaginando-os em um novo contexto. E isso ele faz de forma avassaladoramente maluca, curiosa, excêntrica.

A trama nos joga para o ano de 1969. O cinema de faroeste está em queda e com isso uma de suas grandes estrelas, o astro Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), vê as oportunidades em Hollywood rarearem. Papéis para ele, agora quase um veterano, apenas de vilão para mocinhos que serão os novos astros da Meca do Cinema. Ao seu lado, para lá e para cá, anda o inseparável Cliff Booth (Brad Pitt), seu dublê e, digamos, amigo, a despeito do contraste que há em suas vidas - enquanto um curte um drink na piscina ao final de um dia de trabalho, o outro vai para o trailer decadente comer um miojo grotesco, enquanto alimenta um cachorro com comida sabor "rato" (um dos tantos detalhes divertidos, com a marca do diretor). O contraste não está só nisso. Está nas mudanças que ocorrem no mundo e qua perfumam a trama com um panorama político que coloca hippies de um lado, yuppies do outro, que movimenta o cinema, a percepção do público sobre ele e, consequentemente, seus astros.



Sharon Tate (Margot Robbie), por exemplo, surge como a vizinha de Rick. Em um "relacionamento sério" com Roman Polanski - ela havia filmado com ele o ótimo A Dança dos Vampiros (1967) -, viria a morrer em 1969, história conhecida por todos, a partir de um ataque perpetrado por sádicos seguidores de Charles Manson (um crime amplamente coberto pela mídia na época). O que a obra faz é retornar no tempo, para os meses que antecedem este episódio - utilizando a própria Hollywood, o conceito do filme dentro do filme e da solução para um "confronto final" contra vilões, algo tão típico no cinema do período (especialmente nos faroestes), como a matéria-prima para esta obra. O que resulta em uma saborosa experiência cinematográfica, cheia de participações especiais - de integrantes do Mamas and The Papas, passando por Steve McQueen, até chegar em Bruce Lee. Aliás, desde já a sequência em que Lee desafia Cliff para um "duelo" está entre as melhores e mais inacreditáveis do ano.

Ainda que siga um fio narrativo, o filme muitas vezes mais parece uma grande colagem de eventos aleatórios, uma colcha de retalhos que envolvem não apenas os bastidores do cult movie Arma Secreta Contra Matt Helm (1969) - que estava sendo gravado à época -, mas também as tentativas de Rick Dalton de se manter na indústria a despeito de suas inseguranças, as festas animadas, a presença dos hippies, da contracultura e dos seguidores de Charles Manson, fora o emaranhado de referências à filmes, séries, músicas e publicações do período, que funcionam como um grande arquivo nostálgico de uma época de transformações. Não por acaso, a cena em que uma menina de oito anos dá sugestões à Dalton sobre leitura, interpretação de texto e caracterização de personagens, serve como metáfora para tudo aquilo que vemos: o velho ficando para trás, ultrapassado, o novo chegando para "substituir" - personificado também em Tate. E o mundo em ebulição, efervescente, buscando novos ídolos para "cultuar". Usando-os como desculpa até para matar.


E como se não bastasse a obra trafegar de forma fluída e descompromissada entre gêneros - é possível rir e se emocionar em poucos minutos (e até se assustar!) -, o filme ainda é um primor do ponto de vista técnico. O desenho de produção é caprichado e o próprio Tarantino admitiu em entrevistas que se valeu não apenas da pesquisa, mas também de sua memória afetiva (novidade!) para inserir um sem fim de pôsteres, propagandas de revistas, programas de TV, outdoors e outros que rolavam na época e que evocam o período. O mesmo vale para a fotografia num amarelo saturado, empoeirado e para os figurinos. Talvez não seja o melhor filme do Tarantino e nem era essa a intenção: mas é o que mais parece se importar com seus personagens, em fazer com que transmitam mais com menos, se valendo de diálogos e gestos relevantes. É filme grande e que, muito provavelmente, estará na próxima cerimônia do Oscar, em busca de estatuetas. É aguardar pra ver.

Nota: 8,5