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quarta-feira, 29 de abril de 2026

Cine Baú - O Destino Bate à Sua Porta (The Postman Always Rings Twice)

De: Tay Garnett. Com Lana Turner, John Garfield e Cecil Kellaway. Suspense / Drama, EUA, 1946, 113 minutos.

Lançado no mesmo ano de Interlúdio (1946), O Destino Bate à Sua Porta (The Postman Always Rings Twice) parece um filme mais Hitchcock do que o próprio Hitchcock. Cheio de reviravoltas engenhosas e diálogos espirituosos, o clássico de Tay Garnett, que completa 80 anos de lançamento em maio, é poucas vezes lembrado como um dos grandes suspenses da história. E é preciso que se diga que ele merecia mais crédito, até mesmo pelo caráter um tanto imprevisível dos acontecimentos. Sim, em linhas gerais a narrativa, inspirada em um romance de James M. Cain - que receberia diversas adaptações -, parece até convencional: casal de amantes se une para planejar o assassinato do marido da adúltera, com o objetivo de herdar o restaurante deste. Só que, nesse caso, as coisas saem totalmente de controle. Primeiro quando uma das tentativas dá errado despertando a atenção dos investigadores locais. Depois, quando em uma nova ação, o resultado também não é o desejado.

E não é que Cora Smith (Lana Turner) não emane a energia da femme fatale assim que ela surge em cena pela primeira vez - em roupas curtas e alvíssimas, de pernas de fora, com um olhar enigmático e inquisidor para o novo visitante, um certo Frank Chambers (John Garfield), um forasteiro que chega ao restaurante de beira de estrada junto à uma empoeirada rodovia nos arredores de Los Angeles, interessado em uma vaga de emprego. Recebido com entusiasmo pelo dono da lancheira, o carismático e otimista Nick (Cecil Kellaway) - um homem mais velho que, por acaso, é também o marido de Cora -, Frank começa a trabalhar com o casal. Recebendo ordens poucos simpáticas da mulher. Isso até o instante em que ele comete uma ousadia: a beija após uma discussão. Que evoluirá para uma paixão. Os dois resolvem fugir, com Cora deixando um bilhete pedindo a separação. Só que ela nem chega na parada de ônibus e já meio que se arrepende, ao perceber que a vida com um pobretão como Frank não promete um futuro dos melhores.

 


Mas mesmo assim eles se gostam e elaboram um plano para dar cabo de Nick, que sempre toma um banho demorado de banheira, com direito à cantoria no final do dia. A ideia é que Cora espalhe bolinhas de gude pelo banheiro, para que uma queda seja simulada. Só que tudo desanda quando um policial passa por lá fazendo uma ronda de rotina. Com tudo piorando quando um gato é eletrocutado - o que causa uma queda de energia. Nick até cai em meio a isso, mas sobrevive e, bom o plano é deixado meio que de lado. Frank vai a Los Angeles pra trabalhar nas docas, mas acaba reencontrando um atabalhoado Nick, que quer que ele volte pra propriedade - que leva o bucólico nome de Twin Oaks -, para um anúncio: ele quer vender a propriedade pra que ele e Cora se mudem para o Norte do Canadá, para cuidarem da irmã adoentada do idoso. Essa é a deixa para que, em desespero, a dupla resolva colocar um novo plano de assassinato em prática: esse envolvendo a queda do carro de um penhasco após uma noite de bebedeira.

Sim, são muitas ocorrências em sequência e não deixa de ser um deleite acompanhar uma dupla de criminosos tão destrambelhada, num esforço para colocar a sua ideia mirabolante em prática. Apaixonados, Cora e Frank volta e meia encontram uma brecha para um banho de mar daqueles que funciona como uma alegoria do fortalecimento da paixão de ambos. E as imagens tanto da praia, como do deserto ventoso - o que faz com que uma placa caia, necessitando de reparos -, geram uma tensão meio torta, como se não soubéssemos o momento exato em que a violência explodirá (se é que ela explodirá, dadas as trapalhadas do casal central). Outro ponto interessante é perceber como Nick não apenas jamais desconfia das intenções da dupla, como ainda age como um sujeito amistoso em tempo integral e até eventualmente estúpido - o que torna tudo mais complexo e, não nego, divertido. Enfim, uma experiência com boas surpresas, que garante duas horinhas de entretenimento - ainda que tudo possa soar limpinho demais, no auge da aplicação do Código Hays.

 

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Cine Baú: Matar ou Morrer

É com muita alegria que passamos da marca de 100 curtidas em nossa página do Facebook e, para comemorar, estamos estreando um novo quadro aqui no blogue: o Cine Baú. O objetivo deste quadro é falar um pouco de filmes antigos (clássicos) que achamos possuir relevância ainda nos dias de hoje. Uma espécie de arqueologia cinéfila. Para os amantes dos antigos e também para os jovens interessados em aprender (e apreciar) um pouco mais da sétima arte.

Para estrear em grande estilo começaremos com o filme Matar ou Morrer (High Noon), de 1952.


De: Fred Zinnemann. Com Gary Cooper, Grace Kelly e Thomas Mitchel. Faroeste, 85 min.

No dia de seu casamento, o xerife recém aposentado Will Kane (Gary Cooper) recebe a notícia de que um homem perigoso que havia sido enviado à prisão por ele anos antes, está solto e planeja retornar para a cidade com seus capangas em busca de vingança. Inicialmente decidido a deixar a cidade junto à sua esposa (Grace Kelly), Kane decide - sendo contrariado por toda a população local - a permanecer na cidade e enfrentar o seu antagonista.

Ao contrário dos faroestes tradicionais, Matar ou Morrer inova ao trazer tensão por algumas características peculiares: a trama ocorre toda em tempo real, com diversos relógios aparecendo em cena para demonstrar a passagem do tempo. Além disso, valoriza muito mais o psicológico dos personagens ao invés da tradicional troca de tiros que tanta notoriedade trouxe ao gênero. Soma-se a isso um enredo com subtexto muito relevante à época, sendo considerado uma alegoria ao período do Macartismo. Há aqui a tomada de consciência de um homem perante uma realidade hostil que insiste em tentar convencê-lo a fugir, funcionando também como um estudo sobre covardia e coragem. O roteiro foi escrito por Carl Foreman a partir da pequena história "The Thin Star", de autoria de John W. Cunningham. Foreman foi incluído na lista negra de Hollywood no período do governo McCarthy, sendo obrigado a sair dos Estados Unidos. 

Considerado um clássico do cinema mundial, o filme obteve 7 indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, diretor e roteiro. Gary Cooper venceu o Oscar de melhor ator pela excelente interpretação do xerife Will Kane. Filme obrigatório não só para os fãs do gênero western, mas para qualquer amante da sétima arte.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Pérolas do Netflix: Quanto Mais Quente Melhor

O Netflix é o serviço de streaming de filmes mais popular do momento. Embora este tipo de sistema não possua quantidade substancial de lançamentos, vez por outra nos deparamos com alguma surpresa. Algum filme raro de se encontrar, outros clássicos e alguns bem alternativos. O objetivo deste quadro é dar dica de filmes que consideramos verdadeiras 'pérolas', para auxiliar a diminuir o tempo gasto 'zapeando' o extenso catálogo. Para os não-usuários da plataforma, #ficadica para a próxima visita à sua locadora preferida.


A dica de hoje é o filme Quanto Mais Quente Melhor (Some Like It Hot), de 1959. Dirigido pelo versátil Billy Wilder (1906-2002), é considerada por muitos a melhor comédia de todos os tempos. Neste filme Wilder, diretor de clássicos como Pacto de Sangue (Double Indemnity, 1944) e Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950), dentre inúmeros outros, provou que é um mestre na arte da comédia. No filme os atores Tony Curtis e Jack Lemmon - impagáveis - vivem dois músicos desempregados que acidentalmente testemunham um ataque da máfia na Chicago do ano de 1929, sendo obrigados a fugir e arrumar qualquer trabalho que aparecer: no caso, como músicos em uma banda exclusivamente de mulheres. Esta trupe é acompanhada pela lenda (e linda) Marilyn Monroe. Para isso, eles se travestem do sexo oposto e a partir daí as confusões só aumentam - e o riso também. Vou parar por aqui para evitar revelar muito da trama, mas vale dizer que a última frase do filme já está na história como um dos melhores encerramentos ever! Diversão garantida.