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segunda-feira, 15 de julho de 2019

Cinema - Divino Amor

De: Gabriel Mascaro. Com Dira Paes e Júlio Machado. Ficção Científica / Drama, Brasil / Uruguai / Dinamarca / Suécia / Chile / França / Noruega, 2019, 102 minutos.

A ideia para o filme Divino Amor é absurdamente original. A trama viaja para o futuro para imaginar um Brasil do ano de 2027. Nele, o Estado definitivamente deixou de ser laico, a família tradicional está estabelecida exclusivamente no padrão homem, mulher e filho, a burocracia é galopante e o Governo funciona num misto de opressão religiosa e conservadorismo extremo. Enfim, é o tipo de distopia tão verossímil nesses recém-iniciados anos de Bolsonaro, Damares, Olavo de Carvalho e Alexandre Frota que a sensação, na verdade, é a de que não estarmos necessariamente vendo o futuro e, sim, o presente. Afinal de contas, hoje em dia, homem deve vestir azul e mulher deve vestir rosa. O Estatuto da Família busca restringir a sua composição a heteronormatividade. Deputados da bancada evangélica rezam o Pai Nosso na Câmara, em dia de votação de pautas. E por aí vai. Esse é o nosso Brasil da atualidade. Retrógrado. Cafona.

Em 2027 esses aspectos parecem apenas ter se ampliado. Ou se legitimado pelo voto - e aqui cabe saudar o diretor Gabriel Mascaro (Boi Neon) por ser uma espécie de visionário com esta pequena obra, que foi produzida e concluída antes das últimas eleições. No universo que ele concebe não existe mais o Carnaval, que foi agora substituído por um tipo de rave gospel em que fundamentalistas religiosos aguardam pela chegada do Messias. Pessoas que precisam de conselhos de algum pastor podem acessar uma espécie de drive thru da salvação em que liturgia e música sacra se misturam para expiação das dores dos fiéis. A tecnologia serve as instituições e para identificar pessoas pelo seu Estado civil - solteiro, casado, divorciado e, no caso das mulheres, se estão grávidas ou não. É o tipo de opressão que não é necessariamente escancarada, mas que estabelece rótulos e que busca uniformizar uma sociedade que, consequentemente, perde a sua identidade. Tudo é sombrio, triste, desolador.


A protagonista Joana (Dira Paes, em ótima performance) é uma escrivã de cartório profundamente religiosa, devota à idéia de fidelidade conjugal e que tenta evitar que casais se separem. Sim, é um dos objetivos do Estado impedir que uma de suas instituições máximas - no caso, o matrimônio - não seja arruinada. Que os casais continuem. Persistam. Sejam felizes na marra e superem as "fases ruins". Mas o que fazer quando ela própria tem as suas convicções questionadas, a partir de um evento que modificará a sua vida e a de seu marido Danilo (Julio Machado) para sempre? Incapazes de ter filhos, eles procuram todo o tipo de solução médica e tecnológica, com direito a cenas constrangedoras de busca de "fertilidade". Mas, e quando o milagre acontece, mas não é bem como se esperava, como lidar?

O filme, que mais parece uma espécie de apocalipse enfumaçado em cores neon, procurará lidar com essas questões, ao passo que mostrará as interações de Joana e Danilo na entidade que dá nome ao filme e que busca algo como "a ressignificação do casamento" por meio de terapia - o que deverá ocorrer com muito sexo entre os envolvidos, mas apenas como forma de estímulo, sem amor (o que dá conta da hipocrisia das famílias de bem que não se furtam em pular a cerca, tal qual ocorre na metafórica sequência de um cachorro no cio ainda no primeiro ato). Utilizando-se de longos planos, Mascaro inundará a tela de cenas em que os dogmas religiosos são desconstruídos, com os sujeitos se vendo reféns da mesquinharia que rege a grande maioria das igrejas, que jamais almejam o bem estar coletivo e, sim, apenas a satisfação individual de poucos, numa espécie de hedonismo às avessas.


Pecando apenas por não ampliar o contexto político/social/religioso, o filme acaba "pegando leve" ao não mostrar possíveis focos de resistência em um Governo totalitário (não seria interessante o submundo dos divórcios obtidos no mercado negro?) ou mesmo as outras formas de opressão do Estado, possíveis em um universo em que absolutamente TUDO gira em torno da religião. Por exemplo, as pessoas ouvem música gospel porque as outras não são permitidas? E como seria o comportamento da imprensa nesse cenário apocalípitico? Seria chapa branca? Panfleto do Governo? Haveria outros partidos políticos? Outras possibilidades? A tecnologia não avançou tanto por quê? Há equipamentos proibidos (não se vê nenhum celular em cena)? A meu ver, ao limitar a obra para os limites daquilo que acontecia no entorno da família protagonista, muitos aspectos que enriqueceriam a experiência foram deixados de lado. Ainda assim trata-se de um filme superior, visionário e essencialmente plausível diante desse cenário catastrófico que se encontra a nossa política.

Nota: 8,5

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Na Espera - Divino Amor (Filme)

Desde que foi liberado o teaser de Divino Amor ele se tornou, para nós aqui do Picanha, o filme mais aguardado de 2019! Aliás, esqueça só por um momento o Tarantino ou o Scorsese - que geram expectativa com O Irlandês e Era Uma Vez Em... Hollywood - e preste atenção em Gabriel Mascaro que, com o ótimo Boi Neon, já tinha realizado uma das melhores películas nacionais desse milênio. Em seu novo filme, assistimos uma realidade distópica em um Brasil do ano de 2027. Um Brasil em que não mais existe o carnaval, entrando em seu lugar a "Festa do Amor Supremo" em que se espera a volta do Messias. E em que claramente o fanatismo religioso, o preconceito e a intolerância funcionarão como um verdadeiro espelho da nossa sociedade atual ficando a inevitável pergunta sobre o que queremos, de fato, para o futuro.


A trama, de acordo com o que foi divulgado, envolve uma devota religiosa que, no cartório, se trabalha para dificultar os divórcios, enquanto espera algum tipo de sinal divino de reconhecimento aos seus esforços. Só que o seu casamento entrará em crise e como fica esse contexto perante Deus? Só que o trailer, num estilo kitsch-modernoso, nos dá conta de algo muito maior, mais iconoclasta, mais contestador e com uma nada velada crítica aos absurdos vividos no governo Bolsonaro - ou em governos conservadores como um todo. Mascaro parece tentar adivinhar o futuro, olhando para aquilo que acontece agora. E o resultado, sinceramente, é de arrepiar. Não sou de fazer isso nos posts aqui do Na Espera, mas, chega logo 15 de agosto. Precisamos assistir a esse filme!