terça-feira, 28 de março de 2017

Pérolas da Netflix - A Estreita Faixa Amarela (La Delgada Línea Amarilla)

De: Celso R. Garcia. Com Damian Alcazar, Joaquim Cosio, Silverio Palacios e Gustavo Sanchez Parra. Drama, México, 2015, 95 minutos.

"Em um desmanche os carros vão para morrer. E eu estava pronto para morrer lá também. Mas, um dia, fui substituído por um cachorro". Essa frase um tanto melancólica é dita logo no começo de A Estreita Faixa Amarela (La Delgada Línea Amarilla) pelo protagonista Tonio (Damian Alcazar, visto na série Narcos). Desabafando com um amigo de longa data, ele fala das vicissitudes relacionadas ao mercado de trabalho e sobre a facilidade com que as empresas da iniciativa privada têm para demitir os seus empregados, se assim lhes der na telha. Ainda que, inicialmente, o debate principal dessa verdadeira pérola do cinema mexicano pareça ser esse, logo o tom muda e passamos a entender que a obra dirigida pelo novato Celso R. Garcia é muito mais sobre recomeços, sobre reencontros, sobre talvez buscar aquilo que já se considerasse perdido do que sobre desemprego, por exemplo. E é por isso que, paradoxalmente, a morte aguardada por Tonío, no começo da película, dará lugar a motivação para viver.

Ainda que o caminho trilhado, evidentemente, não seja fácil. Ao lado de outros quatro operários, o protagonista será contratado por uma empreiteira para pintar a faixa amarela central - aquela que serve de guia para os motoristas - por mais de 200 quilômetros de uma estrada que liga as cidades de San Jacinto e San Carlos. O trabalho renderá um bom dinheiro, mas deve ser concluído em apenas 15 dias - no caso, antes que chegue a estação das chuvas e com ela os desabamentos de terras que podem resultar em acidentes (condição traumática que já ocorrera no passado). Os homens são todos diferentes entre si, com seus sonhos, anseios, traumas, medos e arrependimentos, o que fará com que um pequeno fiapo de história, se transforme em um painel maior da sociedade, em que sentimentos como empatia, tolerância e respeito devem ser estimulados para que haja uma boa convivência.



Se já não bastasse a execução da tarefa ser complicada em meio ao sol escaldante, ao clima seco e as paisagens áridas, o grupo ainda passará por algumas surpresas, como o roubo de seu único veículo, o convívio com animais como cobras e a escassez de água. Sem apelar para um clima excessivamente desalentador, Garcia faz uma mescla de humor e drama na jornada desses cinco homens - o que transforma a obra em um curioso road movie a pé. Se os momentos de irritação de Tonío (quase) nos arrancam risadas por conta da ingenuidade das ações dos demais integrantes do grupo, a introspecção dos sujeitos, somada às revelações que vão sendo disponibilizadas em pequenas doses, tornam a experiência de assistir a obra algo não menos do que agradável. O que não significa necessariamente leveza, já que a alta carga dramática do filme poderá ser quase sufocante em seu terço final.

Utilizando a estrada e sua pintura como uma óbvia - ainda que inegavelmente criativa - metáfora para os caminhos que todos nós seguimos em nossas vidas, e que envolvem descobertas, sonhos e realizações que projetamos (e as marcas que nelas ficam), García ainda centra seu foco na lógica de que aquilo que queremos em nossas existências, em muitos casos depende exclusivamente de nós. Ou ao menos de nossos esforços. A curiosa inclusão de uma cachorra perdida na trama - Tonío odeia cachorros com todas as suas forças, especialmente após perder o "emprego" para um - será o estopim para que o protagonista reveja aquilo que fez em sua existência e repense algumas escolhas que podem estar relacionadas a mágoas e frustrações do passado. Mas não sem antes, ao lado do grupo, passar por uma situação extrema - e que envolverá uma rima visual não menos do que impressionante.


Em resumo, A Estreita Faixa Amarela é o tipo de obra que prova que não são necessárias grandes tramas, cheias de reviravoltas, para que haja bons filmes, capazes de discutir conceitos simples mas importantes - como amizade ou companheirismo. Não bastasse a fotografia belíssima - o calor dos homens em suas rotinas é palpável - o filme ainda toma por base o naturalismo, condição que sempre torna a experiência mais verossímil. Ainda mais se levarmos em conta as interpretações. (e essa é uma característica típica dos filmes latinos, com os atores tendo a aparência real das "pessoas" que estão caracterizando) Para quem procura um bom filme no serviço de streaming, este é um verdadeiro achado.

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