quinta-feira, 30 de abril de 2015

Cinema - Frank

De: Lenny Abrahamson. Com Domhnall Gleeson, Maggie Gyllenhall e Scott McNairy. Comédia dramática, Reino Unido / Irlanda, 2014, 95 minutos.

A trama de Frank (Frank), boa surpresa do início da temporada, de alguma forma faz lembrar a do filme Quase Famosos, lançado há 15 anos. Só que, enquanto no filme do diretor Cameron Crowe o que se vê é a trajetória de um jovem jornalista da revista Rolling Stone, que é escalado para acompanhar a turnê dos seus ídolos - no caso a banda Stillwater -, na película do novato Lenny Abrahamson o jovem em questão é o tecladista John Burroughs (Gleeson), que sonha em ser famoso e fazer parte de uma grande banda. Algo que ocorre da noite para o dia quando, em um de seus passeios a procura de inspiração para letras de músicas, ele encontra os integrantes do grupo The Soronprfbs (sim, assim mesmo, praticamente impronunciável), que tentam salvar, vejam só, o seu tecladista, que tenta se suicidar depois de uma espécie de surto psicótico.

John é convidado para fazer uma apresentação local com a banda, enquanto o tecladista oficial se recupera. No local ele conhece o vocalista e compositor do grupo, o tal Frank do título. E é nesse momento que a obra ganha muitos pontos no quesito "filmes com personagens esquisitões que passaram algum tipo de trauma na infância, ou que sofrem de determinado transtorno mental". Frank é um sujeito de voz doce, extremamente metódico e criativo e que tem uma particularidade: ele usa uma cabeça falsa, o tempo todo. Exatamente como você vê na foto abaixo. Inclusive pra comer, tomar banho e dormir. A cabeça, inevitavelmente com a mesma expressão, o acompanha em toda a parte, onde quer que ele vá e independente do que ele faça. Frank não mostra o rosto e, conforme o filme avança, será possível entender parte de suas motivações.


Após a apresentação com o grupo, John é convidado a fazer uma espécie de retiro espiritual com os demais integrantes em uma casa de campo, com o objetivo de gravar o primeiro disco. Algo que, ao mesmo em que servirá como grande experiência para o jovem, se mostrará um processo doloroso e nem sempre agradável. O que será reforçado pelas diferenças criativas entre eles, já que John, em seu íntimo, sonha em ser um grande artista pop, enquanto Frank, com o seu perfeccionismo, procura retirar sons de objetos, galhos de árvores e instrumentos musicais exóticos, tentando encontrar a beleza em cada elemento, com a intenção de fazer o melhor álbum da história. Algo que, em uma espécie de contraponto, formará uma série de elementos desconexos e, inevitavelmente, de difícil assimilação para o "ouvinte médio". O que gerará certa impaciência da parte de John.

O filme - imperdível para quem gosta de música ou é instrumentista - dialoga bem com aspectos relacionados a modernidade. Não à toa um dos principais passatempos de John é postar vídeos e fotos da banda "trabalhando", jogando-os no Youtube e no Twitter - e quem acompanha artistas em processo criativo, sabe que isto é parte fundamental do jogo. As cenas em que o jovem tenta compor, com dificuldade, muitas vezes produzindo canções enfadonhas e de baixa qualidade, em contraponto a um Frank totalmente inspirado, capaz de criar música a partir dos pêlos arrepiados de uma manta (!) colocada sobre o sofá, estão entre as melhores desse longa saboroso, que não dramatiza e que encara seus personagens com leveza quase infantil. E que, além de oferecer uma série de discussões espertas sobre o fazer música na atualidade, ainda surpreende ao revelar o rosto por trás da máscara

Nota: 8,0


quarta-feira, 29 de abril de 2015

Separados no Nascimento: Gerson Hepp x Zach Galifianakis

Hoje o Separados no Nascimento traz uma presença ilustre aqui no blogue: o destaque da vez é o estrelense, coloradasso, amigo, leitor e figuraça Gerson Hepp, mais conhecido como "Geba".

Quem conhece o Geba sabe o quanto já falamos da sua semelhança com o ator Zach Galifianakis, famoso pelo personagem Alan Garner da série de filmes Se Beber Não Case. Recentemente, Zach demonstrou também ser um ótimo ator dramático no oscarizado Birdman. Esperamos que a semelhança entre os dois fique só na aparência, tendo em vista as diversas confusões criadas pelo personagem na obra supra citada.

Quem é quem?

E aí, o que acharam da semelhança?

Quem sabe como seria se o Gerson fosse convidado pruma refilmagem brasileira da famigerada trilogia Se Beber Não Case, juntamente do "rei da comédia" (ironia mode on) brasileiro Leandro Hassum?

Se souberem de alguém que seja sósia de alguma celebridade, mande para gente!
Até o próximo Separados no Nascimento! 

terça-feira, 28 de abril de 2015

Disco da Semana - Cícero (A Praia)

É preciso que se diga que, após o lançamento do pretensioso, experimental e pouco acessível Sábado, álbum de 2013, havia uma expectativa toda especial para o novo registro do cantor e compositor carioca Cícero. Sábado era tudo aquilo que o seu primeiro disco, Canções de Apartamento, de 2011, não era: complexo, difícil e, em muitas medidas, irritante. Ao menos para o "ouvinte médio" - e eu, aqui, me incluo entre esses. Canções..., ainda que tivesse certo experimentalismo, era pop, sonoro, certeiro e recheado de hits que, até hoje, se mantém entre os favoritos dos fãs. É o caso das inesquecíveis Tempo de Pipa e Ensaio Sobre Ela que, não apenas representa(va)m um recorte fidedigno para aquilo que se convencionou chamar de "Nova MPB", como também eram o retrato de um artista em pleno estado criativo.

Pois o recém lançado A Praia, serve para "resgatar" esse Cícero que andava perdido pelas introspecções balbuciadas e excessivamente incompreensíveis do trabalho anterior, para recolocá-lo novamente no caminho daqueles que aprenderam a gostar dele não pelos recortes e fragmentos concretistas, que servem apenas como demonstração de um eventual virtuosismo, mas pela música pura e simples. Aquela que a gente gosta de cantar junto nos shows. Que nos acompanha. Que significa. Que nos faz mais leve a hora de limpar a casa ou de lavar a louça. Ainda que ninguém seja obrigado a agradar o público e muito menos as rádios - que todos nós sabemos que, atualmente, tocam qualquer coisa menos música (Univates FM, isso não é com vocês, tá?). Mas ficamos mal acostumados. E estamos felizes com o "reencontro".


Ainda assim, nunca é demais lembrar que se o trabalho, em sua aparência, tem uma "cara" mais acessível, é nos detalhes, nos barulhos, na colocação de um sopro aqui e ali, de um pianinho bem posicionado acolá, que Cícero continua se mostrando um artista de grande qualidade técnica, preocupado em explorar o melhor de suas influências - fruto da repetição da parceria com o produtor Bruno Schulz. A música título, por exemplo, não faria feio em um disco como o Amnesiac, do Radiohead, dado o seu instrumental pouco convencional e acabamento nada óbvio, com uma percussão quebrada, incomum. Já a melancólica, De Passagem, flerta com a música regionalista, especialmente pelo uso do triângulo. A divertida Isabel (Carta de um Pai Aflito), lembra Chico Buarque. E Cecília e a Máquina, cantada por Luiza Mayall, mais parece uma canção de ninar.

As letras são um espetáculo a parte e não tem como tema exclusivo o litoral - diferentemente do que ocorre com o ótimo Vista pro Mar, do capixaba SILVA. Cícero versa sobre a alegria de ir a praia depois de um convite inesperado, na faixa título; sobre as aflições de um pai que reza para que nada aconteça a sua filha, quando ela sai de casa, em Isabel; sobre um fim de tarde entre os arranha-céus, em Albatroz e até sobre o descompasso no tempo e no espaço provocado por um dia de chuva, em Soneto de Santa Cruz - Não teve som de obra / Não teve sol na sala / Choveu o dia inteiro lá em casa / Não teve pipoqueiro / Nem tristeza tava. O final, com a ótima Terminal Alvorada, encerra um disco curto em tempo - pouco mais de 30 minutos - mas grande em significados, especialmente em relação aos caminhos a serem tomados pelos artistas da música alternativa nacional. Salve Ciço!

Nota: 8,0


Grandes Cenas do Cinema (Ou Não!): O Incrível Mágico Burt Wonderstone

Filme: O Incrível Mágico Burt Wonderstone
Cena: Pimenta nos olhos dos outros...

Quem assistiu a O Incrível Mágico Burt Wonderstone (The Incredible Burt Wonderstone) sabe: o filme, sobre dois ilusionistas famosíssimos - talvez inspirados na dupla Siegfried e Roy - que começam a perder espaço quando um mágico de rua se torna famoso, após seus vídeos cheios de trucagens viralizarem, é uma bomba daquelas sem tamanho. Digna de Framboesa de Ouro. O "problema" é que a película do diretor Don Scardino conta com um Jim Carrey absolutamente impagável como o tal mágico de rua. A cena em que ele se apresenta desafiando qualquer lógica, com o objetivo de ficar 12 minutos sem piscar é daquelas de dobrar a barriga de tanto rir. O que faz lembrar o Jim Carrey das antigas, de filmes como O Máskara, Ace Ventura, Débi & Loide e outros tantos que assistimos na nossa juventude.


A cena fica mais engraçada, com o personagem do Steve Carell recebendo massagem, em sua mansão, enquanto vai se revoltando com as inovações do personagem de Carrey. Só que, como já dissemos, a cena é muito superior ao filme. Que, definitivamente, tem pouca graça.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Espaço do Leitor - Qual o Filme de Sua Vida?

Hoje, no Espaço do Leitor, quem participa é a super talentosa e querida repórter do Jornal A Hora, Tammy Moraes. A Tammy, além de escrever matérias incríveis no veículo em que trabalha, também é cinéfila de carteirinha - assim como a gente.

E a escolha de filme não poderia ser mais peculiar: o cultuado e complexo Waking Life, do diretor Richard Linklater, responsável por outras obras bem conhecidas e diversas, tanto em tema quanto estilo, como Boyhood e Escola de Rock.

"Uau, como é difícil falar de um filme só! Confesso que essa escolha é completamente baseada no momento em que estou passando agora. O nome Linklater foi bastante falado nos últimos meses por conta de Boyhood. Porém, antes do resultado desses 12 anos de gravações, veio Waking Life. Para mim, essa é a obra prima do diretor. O filme divide opiniões. Muitos o acharam um tanto difícil de acompanhar, pois não segue uma história contínua, e sim várias cenas “aleatórias” de pessoas conversando, filosofando e contando histórias sobre os mais variados temas. Apesar de usar atores reais, é como uma animação, tudo para dar a sensação de sonho. Fala muito sobre a forma que assumimos enquanto dormimos, e como a separamos de quem somos enquanto estamos na vida “desperta”. É uma viagem do começo ao fim, que rende muita reflexão."

Então, não deixem de conferir essa e outras dicas aqui no Picanha.
E continuem participando do nosso Espaço do Leitor. Uma boa semana a todos!

sábado, 25 de abril de 2015

Picanha Cast 23/04/2015

Resumo da semana no Picanha Cultural, com Tiago Bald. Espaço do leitor com Bette Davis e "Cinema Paradiso", o novo filme do diretor Paul Thomas Anderson ("Vício Inerente"), o quadro Pérolas do Netflix (Depois de Lúcia) e o novo álbum da banda Alabama Shakes são alguns dos temas abordados. Confiram!

www.picanhacultural.com.br
www.facebook.com/picanhacultural

Programa Enciclopédia 95&1 apresentado por Tiago Segabinazzi.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Um encontro e um documentário: A Cidade, de Liliana Sulzbach

Sempre considerei o documentário como um dos grandes gêneros cinematográficos, embora pouco apreciado. Existem histórias que, de tão absurdas, só poderiam ser reais e cuja ficção seria taxada de inverossímil. E, justamente por saber que as situações ali retratadas são reais, o impacto torna-se ainda maior.

Há alguns dias atrás tive o prazer de encontrar a prima Liliana Sulzbach na festa da nossa família que ocorre anualmente, onde fui presenteado com um exemplar do curta-metragem A Cidade, uma de suas mais recentes produções. Pra quem não sabe, a Liliana é uma cineasta gaúcha com vasta experiência em documentários, tendo inclusive trabalhado na Alemanha. A maioria dos seus filmes são curta-metragens, tendo seu único longa-metragem (O Cárcere e a Rua, de 2004) sido premiado como melhor documentário no Festival de Cinema de Gramado. Dentre outras premiações, podemos ainda citar passagens por festivais como o de Berlim e Chicago, dentre outros - o que não é pouca coisa. Tentando deixar a corujisse de lado, afinal fazemos parte da mesma família, é um orgulho enorme poder me deparar com um trabalho tão belo por alguém tão próxima.


Jornalista com mestrado em Ciências Políticas, Liliana tem a sensibilidade necessária para tratar de temas sociais e delicados. Foi assim com o supracitado O Cárcere e a Rua, onde acompanhou a vida de três detentas de uma penitenciária em Porto Alegre, e acontece novamente neste A Cidade. Realizado sob forma de um webdocumentário (pode ser assistido online em um site interativo), este curta-metragem mostra um pouco da realidade da Colônia de Itapuã, localizada em Viamão/RS, onde a população é de apenas 35 moradores (todos acima de 60 anos). Ou seja, uma comunidade prestes a desaparecer. Como essas pessoas foram parar ali? De que forma criou-se esta situação? Confesso que não sabia nada da história antes de assistir, o que tornou o impacto da obra ainda maior.

A rotina dos moradores, com seus hábitos bem característicos, é retratada com extremo carinho pela câmera que, nas diversas horas de filmagens cuja equipe passou com os moradores, parece desaparecer - em um belo trabalho de edição. A fotografia nos presenteia com imagens lindas do local a medida em que elegantemente ocorrem as transições de imagens de arquivo até o tempo presente. Impossível também não se emocionar e envolver com os carismáticos moradores da localidade e suas histórias de vida, bem como a amizade que nutrem uns pelos outros. Mesmo com a curta duração do filme (o DVD possui duas versões do filme, uma de 15 e outra de 25 minutos), nos tornamos íntimos daquelas figuras tão amáveis, o que talvez seja o maior mérito da obra.

Liliana atualmente está envolvida em uma mini-série para a TV baseada nas canções do lendário grupo gaúcho Saracura, que teve na sua formação Nico Nicolaiewsky (Tangos & Tragédias) e esteve na ativa entre os anos 70 e 80. Dirigida e roterizada pela cineasta, a série deve ir ao ar até o final do ano.

Para assistir A Cidade online, além de navegar pelos menus interativos, acesse www.acidadeinventada.com.br.




quinta-feira, 23 de abril de 2015

Picanha em Série - Unbreakable Kimmy Schmidt

A divertidíssima e recém lançada série original do Netflix, Unbreakable Kimmy Schmidt, não é aquele tipo de programa que te pega imediatamente. Assim como ocorre com Seinfeld, Scrubs, Modern Family e outras tantas comédias americanas, é preciso uma boa dose de paciência nos primeiros episódios, até que tenhamos nos familiarizado não apenas com os personagens, mas com o conceito como um todo. Mas é preciso que se diga: quem se aventurar a ultrapassar a eventual desconfiança inicial, será recompensado por uma série recheada de piadas inteligentes e sarcásticas, que fazem uma espécie de de crítica generalizada ao modo americano de vida, com seus tabus religiosos, ânsia por consumismo, diferenças sociais, preconceito, sonhos, frustrações, entre outros. Nada mais natural, já que se trata de uma série concebida pela comediante Tina Fey - a mente por trás da ótima 30 Rock -, que se uniu ao roteirista Robert Carlock.

Kimmy, a protagonista, viveu durante 15 anos - desde que era uma jovem adolescente - em uma espécie de bunker, ao lado de outras três mulheres. As quatro foram sequestradas por um fanático religioso, que acreditava que o fim estava próximo e que ele ocorreria exatamente no dia 06 de junho de 2006 - algo relacionado ao tal number of the beast. Bom, o mundo não acabou e, após serem resgatadas por uma equipe da Swat, Kimmy e companhia devem redescobrir a vida e reaprender a viver, algo que, numa grande metrópole como Nova York, não será tarefa fácil. Kimmy precisa arrumar um lugar pra viver e isso implica em conseguir trabalho, dinheiro e todas essas coisa que lhe possibilitem um mínimo conforto. O problema é que ela ainda parece presa a um tempo em que a Cristina Aguilera era número um nas paradas e Friends era a série do momento.


A propósito das referências culturais, elas são uma das partes que tornam a experiência saborosa. Não são poucos os atores, cantores, comediantes e outras personalidades americanas ou não, que são citadas, conforme Kimmy vai tomando conhecimento do que a vida se tornou nos últimos anos. E é só pensarmos em quanto evoluiu a tecnologia na última década e meia para termos a certeza de que o processo de adaptação da protagonista - vivida de maneira altamente otimista pela atriz Ellie Kamper, de The Office - não será tarefa fácil. Não à toa, o simples fato de escolher uma roupa adequada aos tempos atuais, se torna algo complexo. Algo que inevitavelmente diverte, já que Kimmy, quase como uma Amelie Poulain nova-iorquina, pouco parece se preocupar, tão deslumbrada que está com a sua nova vida.

Outro ponto positivo são os coadjuvantes que, em muitos casos, roubam a cena. Titus Burgess, que já havia trabalhado com Tina em 30 Rock, é o amigo gay que sonha em ser famoso. Jane Krakowski é Jenna, a madame rica, cheia de frescuras, que se tornará chefe de Kimmy. E a veterana Carol Kane é Lillian, a estranha e desconfiada senhoria, que acredita em teorias conspiratórias. Mas esses são apenas alguns dos personagens que passarão a fazer parte da vida da protagonista, colocando-a nas situações mais curiosas. As participações especiais são um capítulo a parte, devendo gerar muitas gargalhadas, especialmente para aqueles que estiverem familiarizados com outros programas. Enfim, uma série que não fez nem a metade do barulho feito por House of Cards ou Orange is the New Black, mas que parece ter caído no gosto do público, que já aguarda ansioso pela segunda temporada, que já está confirmada.