terça-feira, 30 de junho de 2026

Pitaquinho Musical - Vince Staples (Cry Baby)

Vamos combinar que basta uma olhadinha na capa (e no título) do sétimo e mais recente disco do rapper Vince Staples, para que tenhamos a certeza: sua caneta segue incandescente. Sim, o bebê chorão e gordinho embrulhado na bandeira americana, e que talvez se ache meio que o dono do mundo, pode até ser a metáfora mais óbvia para a situação atual dos Estados Unidos. Mas a força do registro, que leva o sugestivo nome de Cry Baby, segue nos versos vigorosos e cheios de potência que capturam a tensão, o absurdo e o peso emocional da contemporaneidade - e de como, vá lá, a derrocada do sonho americano parece um processo de difícil reversão em uma nação comandada pelo líder de extrema direita mais patético do planeta. "Deus abençoe os EUA / Deus abençoe os EUA / Você pode viver pela arma, morrer pela arma (apenas na América)", verbaliza o artista na pungente e ótima Only In America - um libelo de resistência à glorificação da violência -, como que resumindo o conceito que se espalha por toda a obra.

 


Como um todo, o disco parece muito mais uma experiência sombria, soturna e que desconstrói esse patriotismo de boutique excessivamente militar e religioso que rege a atualidade. Com Staples se aproximando, para além do rap, de outros estilos, como o pós punk, o noise rock e até o indie garageiro. Esse tipo de percepção ecoa com força em canções como a inaugural Blackberry Marmalade que, com sua eletrônica oitentista à Siouxsie and the Banshees, fala de como a cultura negra é explorada em uma sociedade ao mesmo tempo preconceituosa, vigilante e que gera o medo constante. Manipulação midiática (TV Guide), violência policial (Go! Go! Gorilla), fadiga em um sistema que não muda (White Flag) e o histórico de lutas raciais (na espetacular Cotton), são temas que se alternam em versos que conseguem ser pesados e realistas, mas também movimentados e dançantes. "A música me faz sentir como algodão / Me levanta quando penso que vou cair", verbaliza o artista na já citada Cotton. É uma sensação que parece se espalhar por cada fragmento do trabalho.

Nota: 9,0 

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