De: Diego Céspedes. Com Tamara Cortés, Matías Catalán e Paula Dinamarca. Drama, Chile / Espanha / França / Bélgica / Alemanha, 2025, 107 minutos.
Quem acompanha o cinema brasileiro de perto, certamente não deixou passar batido o ainda recente Os Primeiros Soldados (2021), obra tão sutil quanto comovente, que retorna ao início dos anos 80 para uma narrativa a respeito dos primeiros casos de contaminação de AIDS no Brasil - doença que, em uma época de pouca informação, chegou a ser apelidada de "peste gay", o que reforçaria o estigma em relação ao público LGBTQIA+. Em alguma medida, o tema central do filme dirigido por Rodrigo Oliveira, retorna em O Olhar Misterioso do Flamingo (La Misteriosa Mirada del Flamingo), obra enviada pelo Chile ao Oscar desse ano (não chegou a estar entre as finalistas), e que está em cartaz nas salas de cinema do País. Na trama, uma cidade mineradora no norte do País é assolada por uma doença mortal e que é transmitida pelo olhar, quando duas pessoas se apaixonam.
Parece simples até demais e uma alegoria quase óbvia quando pensamos no ano de 1982, em um espaço ermo, isolado e essencialmente arenoso. É nesse cenário que os trabalhadores - homens brutos, suados e solitários -, encontram conforto nos braços de um coletivo queer que habita o único bordel da região. Tudo corre mais ou menos bem até o dia em que a peste se espalha - e com ela o terror. Não por acaso, em uma das primeiras sequências, a pequena Lídia (Tamara Cortés) é acossada à beira de um lago por um grupo nada amistoso de adolescentes. Quando a notícia chega à Flamenco (Matías Catalán), mãe de Lídia, ela e suas colegas trans resolvem dar o troco: emboscam os meninos no mesmo local, obrigando o principal agressor a abrir bem os olhos. Em uma mirada profunda, Flamenco verbaliza em sussurro quase mortal: "peste". É como se a transmissão tivesse ocorrido. O destino fosse selado. Sem espaço para negociação.
O caso é que Flamenco padece há semanas de uma série de sintomas que fazem com que ela emagreça, em meio a tosses com sangue e crises de diarreia. Tomada pela peste, ela gera revolta de seu antigo amante, Yovani (Pedro Muñoz), que, desiludido, tenta assassiná-la, o que gera uma confusão na boate, justamente em uma noite que se pretende festiva. E, por mais sombrio que cada instante possa parecer - com armas sendo empunhadas e caras de poucos amigos -, o filme é conduzido pelo estreante Diego Céspedes com uma leveza quase onírica, que eleva à produção ao limite do realismo fantástico (o que é reforçado pela inebriante sequência na floresta, em que Yovani se apaixona perdidamente por Flamenco, após cruzar com seu olhar penetrante). E mesmo tomada por uma essência eventualmente calorosa, a obra nunca deixa de apontar o absurdo do preconceito que, verdade seja dita, podia ser bem maior há quase cinquenta anos, mas que ainda segue a galope em um mundo reacionário.
Não por acaso, quando Yovani padece da doença ainda desconhecida, a pequena Lídia questiona a mãe do rapaz, que vem da cidade para recolher o corpo do filho: "você chegou a ver algo de estranho nos olhos dele?". Ao que a idosa responde: "você é muito jovem para acreditar nessas histórias de sujeitos covardes que se escondem atrás da doença". Ao cabo, a tal peste podia ser até uma novidade, mas jamais transmitida apenas pelo olhar. A paralisia pode ter mais a ver com o amor interrompido do que por qualquer outra coisa - e o sexo tem papel central nisso. Caótico, naturalista, divertido, pouco convencional, folclórico e afetuoso com suas personagens - em especialmente a dona do bordel, a Mamãe Boa (Paula Dinamarca) -, esse é aquele tipo de projeto imprevisível. Quando parece que tudo vai descambar pra violência inevitável, somos surpreendidos por instantes agridoces. O tema é sério, mas tratado com delicadeza. E leveza. O que torna a experiência irresistível.
Nota: 8,0

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