De: Dominik Moll. Com Léa Drucker, Guslagie Malanga, Jonathan Turnbull e Stanislas Merhar. Drama / Policial, França, 2025, 115 minutos.
Ainda no começo de Caso 137 (Dossier 137), a investigadora Stephanie Bertrand (Léa Drucker) encontra um gato inusitadamente preso junto a um gradil, na base de um prédio. É meio que impossível saber como ele foi parar lá, mas Stephanie se esforça para retirá-lo daquela prisão. Adotando, em seguida, o bichano. E, bom, nem é preciso ser nenhum grande expert na interpretação de alegorias cinematográficas para compreender que aquele instante fortuito, talvez aluda à condição da própria protagonista. Afinal, ela tem uma ingrata tarefa como funcionária da Inspetoria Geral da Polícia Nacional: investigar excessos, exageros e eventuais crimes cometidos pela própria polícia. Por seus pares, no caso. O que em um contexto de protestos, como os ocorridos no final de 2018, na França, pode tornar esse trabalho um tanto mais complicado. De mãos atadas dentro de um sistema.
Ocorre que em um desses protestos perpetrados pelo grupo conhecido como Coletes Amarelos - em tese um grupo que não era ligado a nenhum lado político mas que, naquele contexto, reivindicava melhores condições de trabalho, aumento do poder de compra da população e a redução de preços de combustíveis (sim, só muda o País) - um jovem de apenas 20 anos acaba gravemente ferido na cabeça - por um disparo de flash ball -, após uma desastrosa ação policial (eu falei que só muda o País?). Quando recebe Joëlle (Sandra Colombo), a mãe do jovem, pela primeira vez em seu escritório para um depoimento, Stephanie não tem muito material, que não seja a revolta e o desespero de uma mãe que precisa lidar com um filho na UTI e com o genro, Rémi (Valentin Campagne), que também participava dos protestos - assim como sua filha e um outro filho -, preso por desacato.
A situação é nebulosa e Joëlle explica que eles nunca haviam antes participado de ações do tipo. Após perseguições e bombas de gás lacrimogêneo disparados pela polícia, a família acaba separada entre si. Até a ocorrência da tragédia. E há ainda um detalhe que deixa Stephanie meio esbugalhada da cabeça: a família Girard, Joëlle e seus filhos, reside na mesma Saint-Dizier em que moram seus pais. Que, mais tarde, ela descobrirá, possuem algum tipo de vínculo entre si, como muitas vezes ocorre em cidades pequenas. O conflito de interesses de lado a lado fica pra depois, com a protagonista empenhada em descobrir qualquer pista que possa lhe levar aos autores dos disparos. E em quais circunstâncias eles teriam ocorrido. Houve afinal excesso de violência? Abuso de poder? Ou os jovens teriam cometido algum ato ilícito? Com tudo piorando no contexto social de uma França fraturada, onde os próprios policiais como força de Estado também estavam engajados, via sindicato, na busca por condições melhores de trabalho.
Construindo esse quebra-cabeças sem pressa, o diretor Dominik Moll, de A Noite do Dia 12 (2022), brinda o espectador com uma série de instantes que permitem uma evolução vagarosa, de lento cozimento - quase ao estilo da burocracia jurídica -, com a entrada, aqui e ali, de outros personagens que fazem o caso evoluir. Da mesma forma, vídeos gravados durante a manifestação, imagens das câmeras de segurança e mesmo depoimentos de figuras-chave auxiliam nessa elaboração que, ao cabo, também funciona como veículo de denúncia da crise polícia a que estamos expostos há mais de uma década. O que se intensifica com o avanço de grupos extremistas de direita, que naturalizam a violência e o medo, utilizando-a inclusive como veículo de reforço de suas ideias. Talvez por isso que uma briga filmada na rua, entre dois homens desconhecidos, nem surpreenda. Ou mesmo a alienação completa, quando a mãe de Stephanie adere aos vídeos de gatinhos nas redes sociais, como uma espécie de refúgio. O mundo segue brutal e as pessoas inseguras. "Por que as pessoas odeiam tanto a polícia?", pergunta o exasperado filho da protagonista em certa altura. Talvez ele ainda não perceba que essa estrutura também contribui para essa fissura. Talvez até demais.
Nota: 8,0

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