De: Jim Jarmusch. Com Tom Waits, Charlotte Rampling, Cate Blanchett, Adam Driver, Indya Moore, Vicky Krieps ou Mayim Bialik. Drama, EUA / França / Itália / Japão / Irlanda, 2025, 110 minutos.
Vamos combinar que, por melhor que sejam as intenções das antologias cinematográficas, elas invariavelmente pecam pela irregularidade. Afinal, não é algo tão simples realizar uma coletânea de pequenas histórias que consiga manter, com certa fluidez, o padrão de qualidade. Talvez dê pra contar nos dedos - e, sem pensar muito, só consigo lembrar de imediato do ótimo Relatos Selvagens (2014) que, não por acaso, foi indicado ao Oscar naquele ano. Ou, vá lá, com alguma boa vontade, dá pra incluir aí o bizarro e divertido A Balada de Buster Scruggs (2018), dos Irmãos Coen. No caso do vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza do ano passado Pai Mãe Irmã Irmão (Father Mother Sister Brother) temos uma coletânea de três histórias que tem como fio condutor as relações familiares, e todos os traumas, frustrações, memórias e sonhos que envolvem esses laços. Tudo com um tom bastante contemplativo, meditativo.
E, como já comentei, nem todas as histórias geram aquela conexão imediata e creio que a mais envolvente seja justamente Father, o primeiro capítulo. Ao cabo trata-se de uma narrativa bastante sutil que evidencia o desconforto gerado por uma visita protocolar de dois filhos Jeff (Adam Driver) e Emily (Mayim Bialik) a seu pai idoso (Tom Waits). E de como, dadas as circunstâncias do dia a dia - a rotina e suas atribulações -, nos afastamos de forma quase natural daqueles que compartilham do nosso sangue. Para o bem ou para o mal, diga-se, o que faz com que preservemos e naturalizemos certa distância meio calculada daqueles que são lembrados apenas em datas específicas - ou em caso de algum tipo de necessidade financeira (ou emocional). Na trama, Jeff e Emily resolvem visitar o pai após a morte da mãe em sua idílica casa de campo - um lugar que parece ainda mais isolado e bucólico por conta do branco esplendoroso da neve, que inunda o local de forma opressiva.
E, vale destacar aqui como, a cada movimento, podemos mudar a nossa percepção a respeito do trio central. Quando o pai aparece pela primeira vez, mal conseguindo se movimentar (ou falar), mas fazendo ao mesmo tempo um esforço homérico para atender bem e de forma carinhosa seus filhos - com direito a uma grande cerimônia para servir um simples copo de água -, a tendência é a de nos compadecermos daquele senhor. Tão prestativo e solitário, que talvez desejasse que seus familiares estivessem mais próximos. Mas será mesmo? Com um fogão a lenha, tendo o ato de rachar madeira como uma terapia, e residindo em uma casa à beira de um lago, num sossego absoluto, numa calmaria distante, o homem ocupa seus dias lendo Diógenes ou Chomsky, com Jeff lhe auxiliando com o envio de cestas básicas e valores em dinheiro. O final surpreende ao evidenciar que as chantagens e tentativas indiretas de manipulação podem ser apenas parte do show. E, talvez com um pouco mais de ângulos, essa história pudesse ser um ótimo longa.
Nas duas outras histórias a temática permanece, mas com pequenas alterações nas dinâmicas de poder entre os envolvidos. Em Mother, a mãe escritora, uma intelectual de perfil controlador vivido por Charlotte Rampling, aguarda a visita das filhas Timothea (Cate Blanchett) e Lilith (Vicky Krieps) para uma sorumbática e esquemática tarde de chá na capital irlandesa Dublin. Nas conversas, preocupações mundanas sobre questões financeiras - Lilith sonha em ser influencer e parece meio ferrada de grana, ao passo que Timothea foi promovida recentemente. Com a idosa mantendo uma pompa incômoda. Na terceira e menos impactante parte, Sister Brother, os irmãos Skye (Indya Moore) e Billy (Luka Sabbat), que perderam os pais em um acidente de avião, resgatam memórias passadas no antigo apartamento da família, em Paris. Sombrias e eventualmente engraçadas, as tramas, com suas alegorias tortas sobre e vida que segue inexorável, nos lembram que família só muda de endereço. Serão imperfeitas, qualquer que seja o caso.
Nota: 7,0

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