segunda-feira, 30 de março de 2026

Novidades em Streaming - Dreams (Drømmer)

De: Dag Johan Haugerud. Com Ella Øverbye, Selome Emnetu, Ane Dahl Torp e Anne Marit Jacobsen. Drama / Romance, Noruega, 2024, 111 minutos.

Creio que, poucas vezes na história do cinema, me deparei com a descrição de uma paixão avassaladora de forma tão poética, inteligente e vigorosa como na primeira meia hora do surpreendente e tocante Dreams (Drømmer) - o vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim do ano passado, e que foi incorporado, recentemente, ao catálogo da sempre ótima plataforma Reserva Imovision. Que atire a primeira pedra quem nunca se apaixonou por seu professor ou professora, e esse é exatamente o caso de Johanne (Ella Øverbye), uma estudante de ensino médio que tem uma atração instantânea e quase obsessiva por sua charmosa professora de francês Johanna (Selome Emnetu) - sim, com direito a peculiaridade de o nome de ambas ser diferenciado por apenas uma letra. Quando Johanna aparece pela primeira vez, com seu cacheado sedoso e um sorriso cheio de afeto, que parece ainda mais amplo em uma contraluz que a inunda pelo sol, o efeito parece meio que imediato sobre Johanne. E talvez seja.

Só que, em pleno processo de amadurecimento, entre não compreender bem aquilo que agonia o seu peito - um sentimento que parece ao mesmo tempo inconcebível e maravilhoso - a jovem também busca outros tipos de conexões, especialmente com o universo das artes, da dança e da literatura, que parecem aflorar a sua sensibilidade. E a sua percepção para o significado daquilo - para além do debate ético e quase meio lógico que poderia rondar uma adolescente de 15 ou 16 anos anos desejando de uma forma intensa a sua professora. Aliás, é justamente quando ela torce o pé e lê um livro - uma novela bastante romântica estilo Mulherzinhas -, que esse desabrochar inicia, ao menos em teoria. E ver Johanne em uma longa divagação em off nunca entediante, descrevendo as pequenas interações com a professora - seja em sala de aula, no pátio, nos corredores ou em outras situações - sempre em um estilo sublime, de devaneio quase transcendental, é comovente.

 


E, honestamente, é difícil não se conectar. Ou pensar em outras obras de arte - de canções populares como Apenas Mais Uma de Amor, do Lulu Santos (Eu gosto tanto de você / Que até prefiro esconder / Deixa assim ficar subentendido), a filmes como o clássico cult Encontros e Desencontros (2003), de Sofia Coppola -, que contribuam na definição do que é uma paixão platônica. Mas o caso é que é complicado para Johanne, por mais evoluídas que as pessoas ao seu redor sejam - inclusive a mãe progressista Kristin (Ane Dahl Torp), ou avó escritora Karin (Anne Marit Jacobsen) - verbalizar o seu amor. Mesmo para as suas amigas que, muitas vezes, a pegam olhando meio que para o nada sem muita explicação. Ao cabo, a fantasia se converte em um diário/livro com descrições bastante íntimas e cheias de vulnerabilidade que unem a narradora e seu objeto de desejo. Algo sexy mas secreto, e que ela morre de medo de contar para Johanna - por receio de que esta possa rir, "como riem os adultos quando uma criança fala algo fofo".

E vocês que leem essa resenha talvez achem curioso como um filme meio aleatório - que, na realidade, integra uma trilogia da diretora Dag Johan Haugerud (é a terceira parte depois de Sex e Love) - e que trata sobre o mais universal dos temas, possa ter tanto impacto. Mas é possível citar exemplos, como no instante em que Johanne descreve a forma elegante e cheia de personalidade com que a professora se veste - e de como a lã de suas blusas de tricô se conecta de forma bonita à sua pele -, ou mesmo em outro momento em que a protagonista admite que a realidade é sempre pior do que aquilo que idealizamos, em relação aos caminhos que nos conduzem àqueles que amamos. Pode parecer óbvio, mas a obra ganha ainda mais profundidade na segunda parte, quando o manuscrito do livro chega às mãos da avó e da mãe e de como elas tratam o caso - no limite entre o ensaio à denúncia de um crime sexual e a beleza do florescimento de alguém que está em pleno controle da situação e em processo de descoberta da própria sexualidade. Repleto de metáforas e alegorias, esse é um filme de fluidez magnética que, de quebra, ainda nos deixa meio nostálgicos em seu exame arrebatador das dores e delícias embriagantes das primeiras paixões.

Nota: 9,0 

 

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