Vamos combinar que a gente tende a pensar que os problemas do sistema prisional - superpopulação, condições insalubres e violação de direitos humanos, só pra ficar em alguns exemplos -, são exclusividade do Brasil. Mas basta assistir a um documentário impactante como Alabama: Presos do Sistema (The Alabama Solution), que está disponível na HBO Max, para percebermos que isso também ocorre em países como os Estados Unidos. Aliás, se o sistema judiciário da terra do Tio Sam já costuma ser pra lá de questionável em qualquer circunstância, tudo tende a ser muito pior quando se tem um presidente que navega na antessala do fascismo - e teríamos de ser muito ingênuos pra acreditar que uma coisa não influencia a outra. Enfim, a obra dos cineastas Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman, e que foi uma das indicadas ao Oscar em sua categoria, é revoltante em muitas medidas.
Por que, vamos ser honestos, como é possível pensar em ressocialização de encarcerados se os presos permanecem em celas lotadas - com o dobro da capacidade ocupada -, sem qualquer tipo de higiene mínima que seja (com ratos, baratas e outros bichos espalhados), convivendo ainda com mofo, umidade, calor e outras condições precárias? Isso sem falar na falta de atendimento de saúde ou mesmo de agentes capacitados para a gestão das prisões. E que não desejem simplesmente assassinar presos por motivos fúteis, como no absurdo caso da morte de Steven Davis, que foi espancado até vir a óbito - e uma boa parte da trama é centrada nesse caso (que é só mais um entre tantos, em que a violência estatal surge como alternativa de contenção). E tudo que a mãe de Davis, Sandy, tem, é uma foto do filho desfigurado e muita vontade de obter algum tipo de justiça.
Em linhas gerais, o que o filme nos sugere é que há um problema meio generalizado no sistema carcerário estadunidense, que parece ser ainda mais grave no Sul dos Estados Unidos, onde costuma residir aquele tipo de cidadão de bem médio, o redneck de arma em punho que acredita que "bandido bom é bandido morto". Aliás, não é difícil imaginar essa parcela da população, sempre com a Bíblia a tiracolo, absolutamente indignada por esse desejo de dignidade, mínima que seja, para quem desviou da rota e veio a cometer algo ilícito. O punitivismo, aqui e ali, também aparece no cerne da narrativa - especialmente quando um grupo de presos começa a estudar e a ganhar força de forma coletiva, com o surgimento de movimentos como o Alabama Livre, que lutava por melhores condições nos presídios, além de remuneração de presos por trabalho prisional, possibilidade de revisão de sentenças, especialmente as mais longas, e diminuição sistemática da violência.
Claro que, em uma situação como a vista no documentário, é fácil saber qual a ponta mais fraca da equação - tanto que a ideia para a obra surge quando a dupla de diretores vai a um dos presídios para filmar um evento supostamente festivo e passa a achar estranho o comportamento taciturno dos presos que, por medo de retaliações, fazem revelações escabrosas sobre abusos e falhas do sistema. E nada do que vemos no filme seria possível se não fossem os celulares contrabandeados, que circulam nas celas, permitindo àqueles homens apresentarem o seu lado de uma narrativa que, quase sempre, só ouve a outra parte. Dando destaque a outros presos que também integraram o movimento Alabama Livre, que resultou em greves e paralisações que chamaram a atenção da opinião pública no País, como Robert Council e Melvin Ray, a produção ainda evidencia outras complexidades de um sistema corroído, com dificuldades para acessar advogados, para julgamentos mais justos ou mesmo para a liberdade de pensamento. "Vá para a Igreja ou o diabo te pega" aponta uma placa nada singela nas ruas floridas e meio insólitas do Alabama. Só que o inferno aqui, vem com derramamento de sangue, torturas psicológicas e dificuldade de manter a sanidade. É quase intragável.

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