"Você não me contou qual o seu pedido. Eu queria que as coisas... mudassem". É possível ter esperança em relação ao futuro? Em relação ao mundo que habitamos? Vamos combinar que, às portas de uma nova guerra mundial, em um contexto de crises políticas, sociais e ambientais, uma obra mais ou menos otimista como a singela animação Arco (Arco) parece quase excessivamente ingênua. Utópica, em alguma medida. As mudanças sonhadas pela pequena Íris (Margot Oldra) podem sugerir certa ambiguidade de quem é apenas uma pré-adolescente cheia de dúvidas, medos e incertezas. Mas ela também funciona como uma ideia mais ampla, naquele cenário - o ano é 2075 e o mundo parece em direção a um colapso inevitável. Aliás, no universo habitado por Íris e seus familiares, as casas são equipadas com reforçadas e enormes redomas de vidro, que as protegem de queimadas, tornados e outras catástrofes climáticas. Um processo que chegou a um ponto de não retorno.
Mas a parte em que Íris surge na história dirigida por Ugo Bienvenu - e que é uma das indicadas ao Oscar na categoria Animação - é a segunda. Porque no começo de tudo estamos no ano de 2932, em um mundo em que a devastação climática fez com que a Terra ficasse alagada de forma permanente, com as residências sendo construídas sobre altas palafitas. Em cada habitação há toda uma energia de sustentabilidade, o que é reforçado pela ampla biodiversidade que rodeia cada casa - e não demora para que compreendamos os motivos desse ambiente ecologicamente favorável: às portas do terceiro milênio as viagens no tempo já são uma realidade, o que faz com que os pais do protagonista Arco (Oscar Tresanini), retornem ao passado sempre voltando com alguma variedade de planta a tiracolo, que será propagada após plantada. Sim, aparentemente o mundo aprendeu algum tipo de lição de que sem florestas, árvores, fotossíntese e todo o resto, não há vida.
Só que nem tudo são flores para Arco, que se ressente com uma medida de Governo que impede que crianças viajem no tempo - o que só é permitido a partir dos 12 anos. Insatisfeito, o menino resolve furtar a capa mágica de sua irmã, bem como o diamante de refração que permite a conclusão da jornada, na ideia de voltar ao tempo dos dinossauros (o garoto parece ser fã da turma do Jurassic Park). Só que, claro, as coisas saem errado e Arco acaba caindo justamente em 2075, sendo encontrado no meio do mato por Íris. A mesma que fará de tudo para proteger o visitante inesperado, principalmente de um trio meio maluquete de conspiradores - seus nomes são Dougie (Vicente Macaigna), Stewie (Luís Garrel) e Frankie (William Lebghil) - que querem capturar o menino de todas as formas, por acreditarem já terem visto aparições do tipo duas décadas antes. Desesperado, como se fosse um ET de Spielberg, Arco fará de tudo para tentar voltar para casa. Tendo como barreira o fato de ter perdido a sua pedra preciosa em meio à queda.
E como se as coisas não fossem excessivamente complicadas, Arco e Íris precisam lidar com outras preocupações - os pais da menina, por exemplo, nunca estão em casa (aparecem apenas como hologramas que trabalham, pelo visto, em escala 7x0). Já o carismático robô Mikki (o próprio Ugo Bienvenu), a despeito dos seus esforços em ser uma espécie de babá que é pau pra toda obra, acaba pifando em certa altura, o que atrairá a atenção de outros robôs. E tudo piora quando um enorme incêndio florestal se inicia, sendo que uma das únicas chances de Arco poder voltar envolve a possibilidade de um dia com sol e chuva ao mesmo tempo. Discutindo temas relacionados à importância das amizades, memória e infância a obra, que está em cartaz no cinemas, equilibra bem instantes singelos, divertidos, tensos e reflexivos. Nos fazendo pensar sobre futuro, especialmente no que diz respeito aos impactos da tecnologia e do clima para as próximas gerações.
Nota: 8,0

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