De Timur Bekmambetov. Com Chris Pratt, Rebecca Ferguson e Chris Sullivan. Suspense / Ficção científica, EUA, 2025, 100 minutos.
Quando vi a premissa de Justiça Artificial (Mercy), que tá na Apple TV, admito que fiquei animado. Afinal, um filme que discute os limites do uso da inteligência artificial, em uma sociedade pós-moderna essencialmente punitivista, parecia uma boa ideia. Ou, no mínimo, uma boa oportunidade de discussões ou reflexões um pouco mais profundas a respeito destes temas. Bom, santa ingenuidade - e talvez se eu tivesse ligado o nome do diretor à pessoa, talvez nem tivesse dado play. Afinal de contas, Timur Bekmambetov foi um dos produtores da tenebrosa releitura de A Guerra dos Mundos (2025), que foi meio que onipresente em qualquer lista de piores de 2025. Só que eu gosto de ficção científica, ainda mais se tiver uma pegada mais existencialista, então porque não um projeto meio Minority Report: A Nova Lei (2002) meio Jogos Mortais (2004) pra dar aquela agitada, né?
Só que não. Na trama estamos em um futuro mais ou menos próximo - um punhadinho e anos na frente - e com o aumento da criminalidade em uma Los Angeles turbulenta e à beira do colapso social, qual poderia ser o problema de utilizar o ChatGPT para decidir se este ou aquele sujeito é culpado de algo ilícito? É nesse cenário escabroso que o delegado de polícia local Chris Raven (Chris Pratt) surge, mas não como inquisidor - algo que ele até já foi, já que auxiliou na construção da engenhoca que funciona como juiz digital para crimes violentos - e, sim, como alguém que está sendo acusado. Aliás, acusado de assassinar a própria esposa, Nicole (Anabelle Wallis), em circunstâncias estranhas. Violento e viciado em bebida alcoólica, esse sujeito detestável - que não temos nenhum motivo em especial para torcer -, não lembra de nada que ocorreu durante a manhã. E tem apenas 90 minutos para tentar provar sua inocência.
Preso a uma espécie de cadeira elétrica, o homem tem acesso a uma série de documentos - fotos, vídeos, redes sociais dos envolvidos, imagens de câmeras corporais ou de segurança -, que podem ajudar a montar o quebra cabeças que solucione o caso. Enquanto um robô com o rosto e a voz de Rebecca Ferguson (seu nome é Maddox e ela integra o programa Mercy, que já julgou e condenou 18 réus, economizando recursos e agilizando os processos) lhe dá as instruções, lhe conduzindo de lá para cá e de cá para lá em um emaranhado de telas, pessoas e sons (e é quase um desafio não ficar tonto em meio a tudo aquilo, que só tem sentido em um filme mal feito, que tenta compensar as falhas com um aparato técnico ostensivo). Entre os contatos de Chris está sua filha Brit (Kylie Rogers), que mantém um misterioso segundo perfil no Instagram, além de outras figuras do entorno, como colegas policiais e companheiros de trabalho de Nicole, que podem ser a chave para a solução do caso.
Só que para além do dilema ético que poderia rondar esse tipo de decisão - capaz de deixar a galera do "bandido bom é bandido morto" mais ou menos excitada -, e que poderia ser melhor explorado na obra, tudo o que temos é um sujeito péssimo com a sua família (talvez ele não tenha matado a própria esposa, mas a impressão que dá é que ele tá sempre pronto a agredi-la física ou psicologicamente), essencialmente corrupto, já que integra um sistema de justiça falho interessado apenas em agradar parte da opinião pública, e que não tem nenhum tipo de personalidade mais complexa. Aliás, essa é mais uma produção que talvez fizesse sentido nos anos 90, afinal, quem, em pleno ano de 2026, ainda acha que dá pra torcer por um policial em um filme? E mais, um policial dos Estados Unidos? Nas ruas dessa Los Angeles turbulenta e dividida em guetos, fica ainda mais claro o racismo abjeto, com os habitantes da cidade sendo retratados como uma massa uniforme, latina (ou preta), pobre e sempre violenta. Mas quem vai salvar o dia e desmantelar o sistema? O policial misógino, claro. O cidadão de bem que vai se redimir. E que na próxima não vai socar a parede, quando ficar brabinho. Vai vendo.
Nota: 2,0

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