terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Novidades em DVD - Destino Especial (Midnight Special)

De: Jeff Nichols. Com Michael Shannon, Joel Edgerton, Sam Shepard, Kirsten Dunst e Jaeden Lieberher. Ficção científica / Drama, EUA, 2016, 111 minutos.

Existem obras que, mais do que filmes com começo, meio e fim bem delineados, se constituem em verdadeiras experiências cinematográficas. São filmes nem sempre fáceis, eventualmente complexos e que, inclusive, muitas vezes desafiam as convicções ou mesmo os códigos morais dos espectadores. Em partes, pode-se dizer que é o que ocorre com o etéreo, denso e incomum Destino Especial (Midnight Special), mais recente empreitada do diretor Jeff Nichols (do igualmente belo O Abrigo) e que chega diretamente para a telinha. (aliás, absolutamente inexplicável o fato de não ter sido exibido nos cinemas) São filmes que, muito provavelmente provocarão muito mais perguntas do que respostas e que, nesse caso, nos fará refletir sobre perda, relacionamento entre pais e filhos e temor a Deus ou a qualquer tipo de energia "superior".

Quando o filme começa, somos apresentados a dois homens que, aparentemente, estão sequestrando um menino. O rosto sempre anguloso de Michael Shannon e sua expressão dura e angustiada na pele de Roy, não nos impede de compreender logo o fato de que ele - um dos raptores - é, na verdade, o pai do menino. Especialmente pela ternura nos gestos direcionados ao rapaz. O outro homem é Lucas (Joel Edgerton) que está ajudando Roy na tarefa. Em meio a divulgações na televisão envolvendo o caso, o pastor Calvin Meyer (Sam Shepard, sempre competente) é preso enquanto realiza uma espécie de pregação com o envolvimento de dezenas de fiéis de modos ortodoxos. Os fiéis, que vivem em um local conhecido apenas como "Rancho", também são presos, já que todos que rodeavam o menino, que teria sido criado no local, passam a ser suspeitos do caso.



Até aí a obra parece simples: dois sequestradores e um menino em fuga pelo interior dos Estados Unidos. Investigações com o envolvimento da Segurança Nacional e do FBI. Um grupo de extremistas religiosos que passa a ser suspeito do caso. Só que o jovem (vivido com carisma pelo pequeno Jaeden Lieberher) tem poderes especiais, resultado de uma espécie de doença, que o impede de ver a luz do dia. E quando seus olhos recebem doses de claridão, eles não apenas emitem raios de luz azulada, como ainda são capazes de modificar a geografia ao redor por meio de telepatia e outros tipos de reações mediúnicas que lhe concedem, inclusive, a condição de enxergar o futuro, alterar as ações presentes ou conversar em outras línguas que não a sua. Uma espécie de ser superior e cheio de dádivas que fará com que tenhamos a exata compreensão a respeito da comoção causada pelos habitantes do Rancho.

A adição da mãe do menino, Sarah (Kirsten Dunst, que andava meio sumida), transformará o quarteto em um grupo de fugitivos que viverá uma espécie de road movie paranormal (e existencial) - com direito a escapadas mirabolantes de barreiras policiais e de raptores violentos, tudo com o auxílio do agente Sevier (o ótimo Adam Driver), que parece ter descoberto algo muito particular nos números aparentemente sem sentido proferidos pelo jovem (e que servem de base para correlações com as escrituras e para alguma reação exacerbada envolvendo fanatismo religioso). Aliás, reparem no elenco estelar reunido por Nichols, em uma obra que ainda possui excelente montagem, com todos os elementos se encaixando cedo ou tarde - como no caso da cena aparentemente inexplicável da chuva de "objetos de metal" em um posto de gasolina. Sem falar na atmosférica trilha sonora.


É um filme de ficção científica quase a moda antiga - não por acaso que a crítica o comparou ao clássico Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977), de Steven Spielberg. Mas para aqueles espectadores que tiverem alguma dificuldade em mergulhar no estilo fantasioso e até mesmo onírico da película, relacionando-a com os elementos terrenos (e muito humanos) citados no final do primeiro parágrafo, certamente não será fácil de captar a mensagem por trás do trabalho de Nichols. E se é possível dar uma dica, ela pode envolver - nada é definitivo - os limites a que são capazes de chegar os pais de uma criança "doente" para que o seu sofrimento seja amenizado. Tudo para que ela possa encontrar o seu caminho. Nem que esse seja em uma espécie de mundo paralelo. Ou outra dimensão. Uma reflexão que, vamos combinar, jamais será pequena.

Nota: 8,3

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