Basta uma passada de olhos não apenas na imagem de capa, mas também no título do novo disco da rapperNegra Li, para que saibamos: esse é mais um registro que busca dar voz a quem, muitas vezes, é silenciado. Aliás, esse costuma ser também parte do papel de artistas do gênero: o de ecoar vozes vulneráveis, marginalizadas, especialmente nesse caso o de mulheres pretas, pobres, de periferia. Em entrevistas, a própria paulistana afirmou que precisou se reinventar - o que explicaria certa demora para que O Silêncio Que Grita encontrasse a luz, chegando sete anos após o ótimo Raízes, o nosso 17º colocado na relação de melhores de 2018. "Nesse movimento de buscar a minha essência, quis me aproximar ainda mais da minha identidade preta", revelou em entrevista à Veja São Paulo, a respeito dessa reconexão com aquilo que, de fato, era importante.
O resultado é um conjunto de músicas de temas diversos e cheios de potência sobre racismo e violência policial (Olha o Menino 2.0); hipocrisia e vidas de faz de conta (Fake); estupro, aborto e outros tipos de agressões sexuais (Uma Menina) e trabalho e direito ao lazer (Sambando). Claro que, para além das complexidades que envolvem os inescapáveis assuntos políticos e sociais, o álbum também abre espaço para a celebração, como no caso de Abençoada, um afrobeat saboroso a respeito do poder da fé e da superação ou mesmo Amor Preto, essa com a participação da Liniker, e que também é embalada por ritmos africanos. Aliás, curioso notar como a segunda metade do registro é justamente aquela de tintas mais festivas, como no caso, por exemplo, de África, um reggae ondulante, de refrão pegajoso e cheio de referências culturais e de orgulho racial, que fecha com perfeição um dos grandes discos nacionais lançados nesse ano.
De: Saulė Bliuvaitė. Com Vesta Matulytė, Ieva Rupeikaitė e Giedrius Savickas. Drama, Lituânia, 2024, 99 minutos.
Está lá no dicionário: tóxico é tudo aquilo que produz efeitos nocivos no organismo. E, nesse sentido, é preciso saudar a escolha do título do longa de estreia da diretora Saulė Bliuvaitė, que acaba de estrear na Mubi. Existe uma cena perturbadora no filme, em que a jovem Kristina (Ieva Rupeikaitė) pesquisa na internet sobre ovos de tênia. Tênia, aquela da solitária. Eu, do alto da minha ingenuidade, cheguei a achar que a busca na web envolvia algum trabalho de aula, para alguma matéria de Biologia. É só mais tarde, quando um amigo da adolescente lhe entrega o que seriam pílulas com ovos do parasita - adquiridas, como não poderia deixar de ser, na darkweb -, que compreendo o propósito daquilo. Para tentar uma vida melhor, Kristina, do alto dos seus 13 anos, esté empenhada em uma futura carreira de modelo. Um ambiente de sonho e de muitas exigências. Inclusive tóxicas, de agressão ao próprio corpo.
Drama tenso e pungente, que quase vai ao limite do terror Tóxico (Akiplėša), o vencedor do Leopoardo de Ouro, em Locarno, é, curiosamente, mais um filme a abordar esse desejo íntimo de fama e de sucesso, que permita à meninas nascidas em ambientes pobres ou vulneráveis, um futuro mais promissor. Assim como no recente e perturbador Diamante Bruto (2024) - sobre uma jovem adulta determinada a emplacar a sua presença em um reality show de gosto duvidoso, apenas para aumentar o número de seguidores no Instagram, que lhe permitam uma maior conversão em vendas ou melhores publis -, aqui também as garotas parecem iludidas por adultos cheios de promessas, o que envolve um comportamento abnegado e totalmente distante do que seria a existência de meninas que mal entraram na puberdade. Nesse sentido, não deixa de ser curioso ver Kristina alternando sequências em que surge (supostamente) confiante, de maiô e salto alto, com outras em que, ainda como uma criança, penteia os cabelos de uma Barbie.
Esse limite entre a infantilidade e a maturidade obrigatoriamente antecipada também gera no espectador um sentimento meio que de repulsa. Saber que um ambiente tão misógino e de tanta cobrança como o das supermodelos siga sendo alvo para muitas meninas - algumas delas, inclusive, estimuladas por pais narcisistas - é algo que é parte do incômodo. O que torna a experiência bastante efetiva. Mas para além deste ser um projeto sobre os bastidores de agências de modelos ou de desfiles improvisados em cenários modestos, esta também é uma obra sobre amizade. E sobre crescer nesse mundo brutalizado. No começo do filme, vemos um vestiário feminino desses típicos de escolinha de natação, em que Marija (Vesta Matulytė) sofre bullying. Mais alta que as demais, meio desajeitada e antissocial - o que é reforçado por uma deficiência na perna, o que lhe impede de caminhar sem mancar -, ela é uma espécie de novidade no vilarejo em que a trama se passa. Sofre agressões gerais. Até roubada é.
Mas quando começa a frequentar a mesma escola para modelos de Kristina - uma das bullyers -, uma amizade meio que inesperada tem início. Ambas passam a fazer tudo que meio que juntas. E a conviver nesse contexto estranho que lhes leva a passarelas tortas, a amizades cheias de más intenções e a professoras que não hesitam em afirmar que elas só serão escolhidas se mantiverem as suas medidas abaixo de um certo padrão. Não são poucas as vezes que a fita métrica é estendida, para dar a volta nas magricelas cinturas das adolescentes. No desespero em não perder uma das vagas, Kristina apela para os ovos de tênia. A real é que tudo é tóxico naquele contexto. Os ovos, por óbvio; uma vida pobre e de pouca esperança - por mais que pais e avós pareçam empenhados em possibilitar os sonhos juvenis -, e os próprios bastidores dessas agências. O tóxico aqui é literal, mas também alegórico. É concreto e abstrato. E é meio difícil não sair de estômago embrulhado.
De: Kurdwin Ayub. Com Florentina Holzinger, Celina Sarhan, Andria Tayeh e Nagham Abu Baker. Drama, Áustria, 2024, 93 minutos.
Existe uma pequena cena em Moon (Mond) que, fosse esse um outro filme qualquer, e talvez passasse meio batida. Nela, a protagonista Sarah (Florentina Holzinger), uma lutadora de artes marciais aposentada, que leva uma vida sem grandes emoções como professora em uma academia de Viena, na Áustria, ouve atentamente as instruções de seu novo contratante. "O nosso contrato é de confidencialidade. Sem fotos, sem redes sociais. É um procedimento normal, regular, de privacidade, que fazemos com todos os nossos empregados. Espero não ser um inconveniente". Para ela parece ok até porque, pelo visto, ela vai ganhar uma grana boa como personal trainer de três jovens de uma família abastada da Jordânia. Ao menos é o que atestam as ótimas condições em que ela está instalada, em um hotel luxuosíssimo de ampla piscina, que contrasta com o cenário arenoso do País do Oriente Médio.
Tanto na entrevista como na chegada à casa em si, Sarah é recebida pelo afável irmão mais velho das garotas - seu nome é Abdul (Omar Almajali). Nas conversas, a ideia de ensinar as artes marciais para as meninas, por ser algo que está na moda (é trendy), sendo o MMA muito popular na Jordânia. E por mais que os amigos de Sarah tirem uma com a sua cara, especialmente no que diz respeito às diferenças culturais entre os dois países - "você vai usar um hijab?", questiona um deles -, ela jamais imagina estar adentrando um ambiente de absoluta opressão e de patriarcalismo atordoante. As condições de vida são refinadíssimas em uma mansão suntuosa. Mas essa aparência de elegância vai só até ali. Impedidas de sair de casa sem um dos seguranças, as jovens também não podem usar as redes sociais, se relacionar, ir para uma boate dançar. Enfim, viver.
E, no começo, Sarah acha estranho o comportamento reticente e quase infantilizado das jovens durante os treinos. Meia dúzia de movimentos e elas se mostram cansadas, enfastiadas, com pouca vontade. Talvez na cabeça da protagonista, isso seja apenas algo típico da idade. Adolescentes não estão muito a fim dessa ou de qualquer outra programação. Mas os dias parecem evoluir apenas para trás. Quando Sarah resolve investigar por conta própria o que pode estar acontecendo nos cômodos daquela casa - uma decisão complicada, dado o clima silenciosamente beligerante de tudo (sem esquecer da confidencialidade) -, ela faz descobertas surpreendentes. Antes disso, ela se empenha em interagir de outras formas com as meninas, como na excêntrica cena em que Fatima (Celina Sarhan) a utiliza como uma "boneca", penteando seus cabelos grosseiramente. O que gera um pequeno e quase inexplicável conflito, que funciona como uma metáfora estranha pra esse contexto de confinamento.
Sem muita pressa em fortalecer seu ponto, a diretora Kurdwin Ayub converte a experiência em um thriller vagaroso, em que pequenos acontecimentos dizem muito mais do que momentos maiores (por mais que haja um, em específico, bem impactante). Em certo ponto, Nour (Andria Tayeh) furta o celular da professora, sem que ela possa retomá-lo imediatamente. Quando ela obtém o aparelho de volta, ela entende o risco enfrentado pelas meninas. Bem como seu papel quase alegórico de mulher forte - em um esporte de alto grau de intensidade -, para confrontar aquele ambiente misógino, em um País que, por mais que tenha avanços sociais, culturais e políticos, ainda parece delegar às mulheres um papel restrito à vida doméstica. Naturalista e cheia de sutilezas, mas também inquietante e potente, esta é uma obra repleta de significados e de reflexões a respeito de temas como vigilância, liberdade, relações de poder e (des)igualdade entre gêneros. Tá na Mubi e vale espiar.
De: Boris Lojkine. Com Abou Sangare, Nina Meurisse e Mamadou Barry. Drama, França, 2024, 93 minutos.
[ATENÇÃO: ESSE TEXTO TEM SPOILERS]
"Qual é a sua história? A sua história de verdade?". É quase no momento final de A História de Souleymane (L'histoire de Souleymane), que o protagonista do premiado filme de Boris Lojkine é instigado por uma agente que dá assistência a refugiados para que ele pare de mentir. E seja honesto com aquilo que está passando, está vivendo. E desafio qualquer espectador que assiste a essa pequena joia do cinema alternativo a não se debulhar em lágrimas naquele instante. Segurando o choro - e com a cabeça baixa, claramente envergonhado de tudo (da violência que sofre em um País estrangeiro, das dificuldades em ser reconhecido como cidadão, do trabalho precarizado que lhe fornece o mínimo), Souleymane (Abou Sangare, em performance impressionante) desaba. "Minha mãe me deu a vida. E eu só queria poder devolver a ela alguma dignidade", explica o rapaz em frente a consternada funcionária.
Vamos combinar que em tempos de perseguição à imigrantes, de xenofobia, de ódio e de intolerância, uma produção como esta parece se tornar ainda mais impactante. Ainda mais potente. Por menor que seja o microcosmo apresentado. Souleymane é um imigrante da Guiné, uma das tantas colônias francesas. Ele está em Paris para tentar uma vida melhor para a sua família. Sua mãe acabou saindo de casa após problemas psicológicos. O rapaz queria fazer algo que lhe permitisse alguma dignidade. Algo que lhe fizesse bem, como descobrimos no momento decisivo do filme. Em Paris ele tenta a vida como entregador de comida para uma plataforma estilo IFood. Vai pra lá e pra cá de bicicleta, sujeito a todos os tipos de situações complicadas, entrecortando as ruas, evitando (ou não) possíveis acidentes com os carros e seus motoristas desatentos. Tendo de confrontar ainda clientes mal humorados ou mal educados mesmo. Insensíveis. E mesmo gerentes de restaurantes atrapalhados.
No transcorrer da obra a gente vai percebendo que Souleymane é um sujeito que, juridicamente, está ilegal na capital francesa. Pra conseguir os documentos ele tem de pagar uma grana forte em uma espécie de mercado paralelo com pessoas que ele não sabe bem se pode, de fato, confiar - imigrantes como ele, que estão há mais tempo por lá. Para trabalhar, precisa pedir emprestado o nome de uma outra pessoa - um empregado de uma loja local -, para poder operar por baixo dos panos. Há um instante em que ele leva um pacote de comida para um grupo de policiais, que ocupa uma rua escurecida. O medo parece ser iminente - e a gente torce para que ele consiga escapar dali sem nenhuma violência física ou psicológica. Ou qualquer trauma a mais em sua vida. Com o dinheiro em mãos. É tudo tenso e urgente em uma bicicleta que simplesmente não para, com a câmera colada a ela. Em alguns momentos até parece que estamos em um documentário sobre trabalhadores precarizados vulneráveis.
Os poucos momentos de sossego do protagonista envolvem encontros fortuitos e esporádicos com outros refugiados que circulam alucinadamente pela cidade, também em suas bicicletas. É com eles que ele conversa amenidades, pequenas bobagens, assuntos futebolísticos, ou a respeito de clientes gostosas que passaram por eles durante o dia. São pessoas, como quaisquer outras, com virtudes, defeitos, medos e sonhos. A ideia de conseguir se estabelecer na França envolve um plano de fuga da Guiné, por supostas perseguições políticas. O interlocutor que atende os imigrantes junto a assistência social, garante que o relatório fictício pode dar bom resultado. Só que as coisas são mais complexas do que aparentam. Mais cruas, doloridas e verdadeiras. Souleymane quer a proteção do governo francês para que tenha o mínimo. Para poder trabalhar. Deixa pra trás sua família, o amor da sua vida, para sobreviver em pátria estrangeira, que não a sua. Longe de casa, de tudo. O ápice do filme nem seria necessário para que nos compadecêssemos. Mas ele serve como a cereja do bolo de uma experiência dolorida, desalentadora, mas que preserva uma pontinha de esperança.
De: Kiyoshi Kurosawa.Com Masaki Suda, Daiken Okudaira, Masataka Kubota e Kotone Furukawa. Suspense / Drama / Ação, Japão, 2024, 124 minutos.
Quem acompanha a carreira do diretor Kiyoshi Kurosawa sabe que seus filmes podem até ter um caráter mais experimental, ainda que, em muitos casos, sejam apenas um veículo para o exame de questões um tanto mundanas. Em clássicos cult como Pulse (2001), uma história de terror abstrato, com assombrações que aparecem e somem por meio de um computador depois que um suicídio acontece, parece haver apenas uma análise desse mal estar proveniente do uso da tecnologia que, verdade seja dita, apenas escalaria nas décadas seguintes. Nesse sentido, talvez não seja por acaso que projetos como o recente Cloud: Nuvem de Vingança (Cloud) bebam na mesma fonte temática. Aqui, o aparato tecnológico já evoluiu. Até chegar onde estamos atualmente: em uma sociedade adoentada, individualista, niilista e violenta, com o ambiente online sendo apenas o meio para a exacerbação do ódio.
Na trama, Ryosuke Yoshii (Masaki Suda) é um tipo de picareta que adquire produtos no mercado paralelo - em muitos casos itens falsos, como bolsas; ou de colecionador, como bonecas da cultura pop -, para revendê-los na internet. Na primeira cena da obra, ele está barganhando com um casal de idosos a compra de aparelhos terapêuticos supostamente milagrosos (uma mercadoria que parece ter sido roubada). Após levar pra casa - seu depósito improvisado - 30 desses equipamentos por três mil ienes cada, ele os revende pela bagatela de 200 mil ienes online. Um dinheiro fácil e que chega até ele com muito mais velocidade do que aquele que ele obtém como um modesto empregado da indústria têxtil. Tanto é que, por mais que seu chefe insista na ideia de promovê-lo para que ele permaneça no local (ele parece ter o perfil ideal para chefiar), ele se recusa. Pede as contas. E passa a investir ainda mais fortemente no comércio online.
E, bom, como não poderia deixar de ser, não demora para que os negócios, que parecem estar indo de vento em popa - com direito até mesmo a compra de uma casa mais espaçosa (e afastada) para uma melhor organização logística, a sombra de tudo - desandem. Especialmente após um grupo de pessoas que se sente lesada, formar uma espécie de milícia digital com o objetivo de fazer com que Yoshii, que mantém nas suas redes o nome falso de Ratel, seja devidamente punido. Em linhas gerais, o que Kurosawa pretende evidenciar nessa escalada de violência que parece meio inevitável é que, nesse ecossistema moderno em que todo o mundo se acha mais esperto que o outro (em tempos de Tigrinho, de jogos digitais e de promessas de grana fácil), não há mocinhos. Movendo-se pelas sombras, pelas bordas, o protagonista sente a ameaça chegar não se sabe exatamente de onde. Mas ela está prometida. Na janela quebrada, na sensação de ser observado ou em um simples arame esticado na rua.
Hábil nessa construção das sensações como parte da experiência - a gente sabe o tempo todo que as coisas podem ficar ruins, seja pelo uso das sombras ou da fotografia que parece mais escurecida do que o normal -, o realizador converte o filme em um espetáculo selvagem no terço final, com uma perseguição digna dos melhores filmes de ação. Em tese pode parecer uma solução meio óbvia e que acaba contrastando com a ambientação mais sofisticada, de pesadelo onírico da hora inicial. Mas parece ser o ideal para evidenciar o fato de que ninguém está livre do ódio online (especialmente quando ele deixa de ser um mero xingamento em uma rede social). Os tempos de hoje são brutos. Preconceito, intolerância, extremismo, autoritarismo, vigilância, medo. Pulse parecia apenas um ensaio sobrenatural do tipo de tensão que seria mostrado em Cloud. E quando a ficha cai a respeito do absurdo de tudo aquilo - com pessoas desumanizadas e reduzidas a nada -, não há choro que resolva.
Talvez um pouquinho menos agitado como no anterior sketchy. (2021), mas ainda o Tune-Yards que conhecemos bem. Aliás, taí uma banda que faz o seu trabalho direitinho e, em muitos casos, acaba passando meio fora do radar. Bom, pra quem não conhece, a banda capitaneada por Merril Garbus faz uma mistura saborosíssima de folk psicodélico e pop experimental, com influências de afrobeat, hip hop e eletrônica - tudo isso servindo de base para letras políticas, eventualmente alegóricas, em que os temas mais íntimos, mais mundanos, servem como metáfora para questões mais amplas. O que pode ser comprovado em canções, como o ótimo single Limelight, que integra o recém lançado sexto álbum (e talvez o melhor da carreira) Better Dreaming.
Em Limelight, a letra ambígua (O bebê está bem, as crianças estão bem) conduz o ouvinte em meio a uma sonoridade sessentista, funky e quente, com batidas hipnóticas, vocais em loop e percussão pontuada por barulhinhos bem encaixados. Aliás, esse contraste entre as melodias festivas e o estilo primaveril frente aos versos potentes é uma marca registrada. "Esta (Limelight) quase não entrou no álbum porque parecia banal, especialmente considerando vários genocídios em todo o mundo e o impacto particular nas crianças", citou a artista no material de divulgação, comentando ainda a resposta positiva do público para que ela fosse inclusa no disco. Há uma série de outros momentos de brilho no registro, como nos casos da Heartbreak e na sofisticadíssima Get Through, forte candidata a ser uma das músicas do ano. Provavelmente Better Dreaming passará batido nas listas de final de ano. Mas faça um favor a você mesmo: não o ignore.
De: Amalia Ulman. Com Chloé Sevigny, Alex Wolff, Valeria Lois e Camila Del Campo. Comédia, Argentina / EUA / Reino Unido, 2025, 93 minutos.
Vamos combinar que Magic Farm consegue um feito raro: ser um filme nonsense sem nenhum tipo de apego à realidade. Sim, em linhas gerais o cinema excêntrico e que vai no limite do absurdo talvez não necessite de verossimilhança. Mas o caso é que acaba sendo totalmente incoerente assistir à uma equipe de filmagem tão ignorante acerca de seu próprio papel frente ao que pretendem retratar em vídeo. Ok, a ideia central talvez esteja justamente em evidenciar o quão alienado e despreparado é aquele coletivo - que acaba no interior da Argentina após uma confusão envolvendo o nome da cidade que eles procuram (San Cristóbal que, ao que tudo indica, se repete em todo e em qualquer País latino). Só que essa falta de organização travestida de preconceito colonialista vai escalando até o ponto da irritação, conforme a obra da diretora Amalia Ulman avança.
E preciso dizer que quando li a sinopse fiquei bastante animado com o que parecia ser uma produção que satirizava a exploração da mídia e esse ideal bastante contemporâneo da viralização a qualquer preço. Quando chegam à San Cristóbal, o grupo liderado por Edna (Chloé Sevigny), que realiza uma série sobre subculturas diferentonas ao redor do mundo, está atrás de um músico que se veste com orelhas de coelho e que responde pelo nome bastante sugestivo de Super Carlitos. Sim, isso mesmo. Só que, como dito, eles dão com os burros na água justamente por não terem se estabelecido no local correto. E pra não desperdiçar a pauta (ou algo do tipo) e as diárias já contratadas na improvisada pousada capitaneada por um carismático recepcionista (Guillermo Jacubowicz), eles resolvem percorrer o vilarejo atrás de alguma boa história que possa render pra série.
Tudo parece promissor quando a obra inicia, com um estilo de filmagem pouco óbvio do ponto de vista estético e com o uso de cores berrantes, que contrastam com a melancolia provinciana e letárgica dessa pequena comunidade rural argentina. Só que o poderia ser a deixa óbvia para uma série de comentários bem humorados sobre diferenças culturais entre nova iorquinos bem nascidos em contraste com interioranos raiz, logo apela para a obviedade galopante sobre o excesso de cachorros da região, a ausência de uma infraestrutura mais adequada para atender os caprichos daqueles sujeitos ou o uso de roupas excessivamente de grife em estradas de chão poeirentas. Edna está acompanhada de uma equipe de produtores estúpida e mesquinha (pra não dizer escrota), que bate cabeça, enquanto se aproxima de forma entortada dos habitantes locais - como no caso de Popa (Valeria Lois) e sua filha Manchi (Camila Del Campo), que deixa o produtor Jeff (Alex Wolff) caidinho de paixão (ao menos até a hora de eles irem para os "finalmentes").
Além de Jeff, a própria Amalia no papel de Elena funciona como a intérprete do grupo, mediando as conversas entre os nativos e a equipe, o que auxiliará na fabricação de um documentário forjado a respeito de um novo culto religioso, com pessoas que utilizam um adereço bastante peculiar sobre a cabeça. Que a pior equipe de produção do planeta não perceba onde verdadeiramente estava a pauta - os moradores da região sofrendo permanentemente com a pulverização de agrotóxicos, inclusive espalhados por aviões (o que resulta em pessoas com deformações, deficiências e outros problemas), é só a cereja do bolo desse ambiente de alienação que povoa as redes sociais na atualidade (com sua presunção torpe, falta de criatividade e ignorância sobre tudo que não está em volta do próprio umbigo). Essa acaba por ser a parte mais efetiva ao final. O que não salva a experiência do mero escapismo tolo e tedioso, que nunca aprofunda as suas questões.
De: Petra Costa. Com Silas Malafaia, Sóstenes Cavalcante, Lula e Jair Bolsonato. Documentário / Drama, Brasil / EUA / Dinamarca, 2025, 109 minutos.
Em uma das tantas cenas impactantes de Apocalipse nos Trópicos estamos no fatídico 8 de janeiro de 2023. Após as "velhinhas de Bíblia na mão" invadirem e destruírem a sede dos três poderes, um grupo é filmado no interior do prédio do Supremo Tribunal Federal (STF) ajoelhado, mãos em concha, rezando. Em meio aos escombros, à fumaça e ao caos completo reforçado pela câmera trepidante, o que se vê parece uma cena saída de uma distopia estranha sobre uma seita fundamentalista que toma o poder. Zumbificadas, alienadas em sua forma mais extrema, aquelas pessoas entoam cânticos e clamam a Deus - ao seu Deus, aquele que elas idealizam - por algum tipo de salvação. Ao cabo, a guerra não é entre esquerda ou direita - ou sobre qualquer outro campo do espectro democrático. A batalha é do bem contra o mal. Ou ao menos é essa a ideia que vem sendo vendida pelos setores mais reacionários da Igreja Evangélica. E que tem sido replicado junto a uma população de crentes que mais do que quintuplicou nas últimas décadas.
E é partindo disso que a documentarista Petra Costa - do igualmente imperdível Democracia em Vertigem (2019) - traça um panorama de como a influência dos evangélicos têm sido determinante para as decisões políticas de nosso País nos anos recentes, com o aumento considerável de integrantes da chamada Bancada da Bíblia, no Congresso; a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 (um ungido do Senhor, uma espécie de escolhido por Deus para livrar a população de todo o mal, ao menos de acordo com esses profetas da modernidade) e até a indicação de um integrante do STF que receberia a sugestiva alcunha de "terrivelmente evangélico", no caso André Mendonça. Um conjunto de ações que teve (e tem) como objetivo barrar qualquer avanço do espectro progressista - seja em questões sociais, trabalhistas ou de costumes -, mas combater também o mais famoso fantasma dos delírios da extrema direita: o do comunismo. E que tantas pessoas - muitas delas trabalhadoras, periféricas, vulneráveis -embarquem nessa jornada delirante de fanatismo, é algo que entristece. Ainda que não surpreenda.
Centrando a narrativa na figura do pastor Silas Malafaia, a quem Petra acompanha de perto - com direito a entrevistas em sua casa, carro ou jatinho particular (uma ninharia de R$ 1,4 milhões, que a mídia insiste em dizer que custa muito mais, o que seria uma injustiça de acordo com o líder evangélico) - a cineasta constrói um painel sobre como esse grande espectro político tem no pânico moral - com seus banheiros povoados por trans e abortistas depravadas, além de kits gays e mamadeiras de piroca sendo fartamente distribuídos pela esquerda às crianças nas escolas, contagiando-as com suas ideologias dissonantes - uma de suas grandes forças. Em certa altura da produção uma mulher de origem humilde é questionada sobre em quem votaria nas eleições de 2022. "Eu até acho que o Lula tem coisas boas, mas não posso votar nele por causa da minha crença", pondera. Já a sua filha parece revelar um voto envergonhado em Lula. "Ainda que eu não goste dessa história de banheiro unissex", verbaliza. Sim, o impacto é inegável. E decisivo para o voto.
Com uma grande riqueza de imagens de arquivo - algumas já conhecidas, outras inéditas - a realizadora explica ainda como a ascensão evangélica se deu também por influência de líderes carismáticos dos Estados Unidos, que desde o governo Reagan e o ambiente da Guerra Fria já estabelecia esse campo de batalha de nós contra eles como um ideal de colonialismo teológico, que tinha também como objetivo central desmobilizar a Teologia da Libertação, que surgiria na América Latina como uma resposta da Igreja Católica com o objetivo de interpretar os ensinamentos de Jesus à luz da justiça social, e que seria oposta à opressão. O contrário do que prevê um ideal pautado por Deus e o Diabo em sua acepção mais simples do ponto de vista maniqueísta, que utiliza a fé como fachada para um laboratório brutal de capitalismo tardio. E não é por acaso que, para além do filme, as tais igrejas church, com seus legendários, coachs do abstrato, jogos de azar e individualismo atroz parecem o incubatório perfeito para a extrema direita vigente nos nossos tempos.
Em alguma medida o filme de Petra, dividido em seis partes com nomes bíblicos sugestivos - Deus nos Tempos do Cólera, Domínio, Gênesis - é ao mesmo tempo melancólico e preocupante, mas também esperançoso e iluminado. E confesso que me comovi ao reassistir as cenas da vitória de Lula em 2022, sob a desconfiança de todos e a crença cega, inclusive de Malafaia, de que sem a ajuda da Igreja Evangélica, que representa atualmente cerca de 30% da população atual, ele não venceria. E isso depois de todo o descalabro da pandemia, com mais de 700 mil mortes - muitas delas ocorridas por atraso na compra das vacinas (o que é lembrado na produção como mais um efeito colateral danoso desse segmento que, ao invés de acreditar na ciência, optava por delírios que envolviam greves de fome, orações e outros subterfúgios sem nenhum efeito do ponto de vista prático). Talvez para alguns espectadores, a obra não represente nenhuma grande novidade no espírito dos tempos atuais - de um Brasil que, por muito pouco, não descambou para uma versão piorada do impressionante Divino Amor (2019), filme de Gabriel Mascaro. Mas há perigos que não podem ser esquecidos. Ou ignorados. E isso Petra faz muito bem - ainda que seja importante mencionar o fato de a obra se empenhar em evidenciar o fato de haver um outro lado, quase desconhecido, de líderes evangélicos que abominam os métodos de Malafaia e sua gangue. Ainda assim, já diria Brecht, "o fascismo é uma cadela sempre no cio". E essa cadela receberá, muito provavelmente, a bênção de algum pastor. Sempre perto da urna mais próxima.