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quarta-feira, 5 de julho de 2023

Cine Baú - Terra de Ninguém (Badlands)

De: Terrence Mallick. Com Martin Sheen, Sissy Spacek, Warren Oates e Ramon Bieri. Drama / Policial, EUA, 1973, 94 minutos.

[ATENÇÃO: ESSE TEXTO TEM SPOILERS]

Muito antes de apostar num cinema mais contemplativo, quase elegíaco, que se tornaria uma espécie de marca registrada, Terrence Mallick filmou, no comecinho de sua carreira, o elogiado Terra de Ninguém (Badlands). É um filme pequeno sobre a violência que brota de forma meio inesperada em regiões inóspitas - nesse caso o meio oeste americano -, se alastra deixando uma trilha de sangue e que funciona como uma alegoria mais do que perfeita para a desesperança e para o niilismo que se espalha pelo terreno arenoso do local. Afinal de contas é esse certo pessimismo de quem não sabe muito bem para onde ir, que parece mover o intempestivo Kit Carruthers (Martin Sheen, fazendo cosplay de James Dean), um lixeiro da Dakota do Sul, metido a machão. Em suas andanças ele cruzará com a jovem Holly Sargis (Sissy Spacek), uma adolescente que tem um relacionamento conturbado com seu pai (Warren Oates).

Como nas mais tradicionais histórias de "amor" - ou algo nesse sentido -, o pai desaprova esse relacionamento, naturalmente. Kit é dez anos mais velho do que Holly. Só que Kit também se parece muito com James Dean - inclusive no estilo sedutor e levemente descompromissado. Quando o pai de Holly descobre que ela está se encontrando com Kit as escondidas, lhe dá uma punição exagerada: mata o cachorro da própria garota com um tiro. Esse é só o primeiro indicativo de que as coisas não serão boas. Na tentativa de buscar uma espécie de compensação, Kit resolve confrontar o pai da adolescente. Após uma discussão e a ameaça de ir a polícia, o rapaz abre fogo contra o homem. Tudo com a conivência de uma desolada Holly. Como forma de tentar acobertar o crime, a dupla coloca fogo na casa. Deixando uma gravação que dá a entender que houve um assassinato seguido de suicídio. Enquanto pegam o carro e fogem para uma região isolada do Estado de Montana.




Terra de Ninguém pode não ter o estilo absorto de filmes como A Árvore da Vida (2011) ou Uma Vida Oculta (2020). Ainda assim as seguidas narrações em off feitas por Holly, combinadas com um estilo meio bucólico do enredo - especialmente na segunda parte, quando a dupla busca abrigo no meio do mato, com direito à construção de uma casa improvisada nas árvores, rodeada por riachos, montanhas, caçadas e pescarias - dão o tom que aproximaria a obra das futuras produções de Mallick. Há um quê de novela policial no contexto todo, já que Kit e Holly, como se fossem uma espécie de Bonnie e Clyde dos anos 70, estão sempre em fuga. Quando são encontrados por acaso na floresta, são ameaçados por um trio de caçadores armados. Só que Kit arma uma emboscada e consegue matar os três. A trilha de sangue segue a pleno. Mesmo quando, em rota de fuga, o casal central se encontra com um antigo colega e amigo de Kit, de nome Cato (Ramon Dieri).

Em sua trama, Mallick não parece muito preocupado em evidenciar de onde vem tanta violência - nem as ligações com política, religião ou outros temas. A brutalidade é apenas... a brutalidade. Pior do que tudo isso é assistir a derrocada da personagem de Spacek que, na busca de um amor paternal (um substituto para o próprio pai), se alia a um sociopata perturbado que, de quebra, ainda parece padecer de uma síndrome narcísica (a sequência do terço final em que ele encanta a polícia que está lhe prendendo é trágica e cômica em igual medida). Árido, desesperançoso, de alguma maneira até perturbador, o filme seria elogiado pela crítica em seu lançamento, aparecendo em listas de melhores como a dos 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer. Mais do que isso, pavimentaria o caminho para que Mallick se tornasse um dos grandes diretores de seu tempo.


segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Novidades no Now/VOD - Uma Vida Oculta (A Hidden Life)

"...o bem crescente do mundo depende, em parte, de atos não históricos; se as coisas não vão tão mal para nós como poderiam ter ido, metade devemos àqueles que viveram fielmente uma vida anônima e repousam em túmulos que ninguém visita."

(George Eliot)

De: Terrence Mallick. Com August Diehl, Valerie Pachner, Sophie Rois e Bruno Ganz. Drama / Romance, Alemanha / EUA, 2020, 175 minutos.

Quem gosta da filmografia de Terrence Mallick (de A Árvore da Vida) vai se deleitar com Uma Vida Oculta (A Hidden Life), afinal, todas as características das obras do diretor estão lá - do clima vagaroso e envolvente da narrativa até os cenários vivos e bucólicos o filme é, ainda, um primor do ponto de vista técnico. Há, como de praxe, um carinho todo especial por aqueles personagens que acompanhamos, com a câmera trafegando entre eles como se fosse uma espécie de bem-vindo observador a espionar seus comportamentos afáveis, seus diálogos espirituosos, num indo e vindo em que campos verdejantes de trigo se alternam com crianças pequenas correndo nos potreiros. Aliás, a forma de Mallick criticar a aspereza do mundo - e, aqui, neste caso mais específico, o absurdo da guerra -, é sempre elegante, contemplativa, sem pressa. Como se a brutalidade estivesse instalada em um outro local e que valesse o empenho em favor de uma vida elegíaca, em um cenário idílico, longe da morte, do sangue e dos conflitos sem sentido. A vida em família ideal: com ternura, carinho, compaixão, empatia, abraços, beijos e afagos.

Baseada em fatos reais, a obra volta para a Áustria rural do final dos anos 30, no período em que se inicia a Segunda Guerra Mundial, para mostrar uma família de agricultores que vive em perfeita comunhão com a natureza, produzindo alimentos para sobreviver em meio a um cenário de florestas, rios, montanhas e estradas, casinhas, estrebarias e igrejinhas, que formam o combo de uma vida quase idealizada. Só que o nazismo se avizinha e os homens das famílias têm sido convocados para lutar ao lado do exército alemão, sendo exatamente este o caso de Franz (August Diehk), que deverá deixar a esposa Fani (Valerie Pachner) e os três filhos para trás para participar do projeto genocida imaginado pelo Führer. Só que, para Franz, isso significa ir contra tudo aquilo que ele acredita e que demonstra em seu comportamento afável em todo o filme. O resultado? Ele se recusa a aceitar a convocação, tornando-se preso político para ser condenado, mais adiante, por traição à Pátria.


De forma bem resumida, Uma Vida Oculta pode ser encarado como um belíssimo líbelo antiguerra, que ainda traz uma importante mensagem sobre a manutenção das convicções na tentativa de tornar este um mundo minimamente melhor para quem nele permanece. Franz poderia ter sucumbido as pressões e estaria livre. Mas sob qual preço? Oprimir judeus? Matar minorias? Assassinar estrangeiros ou aqueles tidos como diferentes? No pequeno povoado em que vive, o protagonista acaba se tornando uma espécie de pária momentâneo: a comunidade lhe renega. Ele e sua família são proibidos de, sequer, entrar na capela - aliás, não chega nem a surpreender o comportamento da Igreja na guerra, que, sem cerimônia, se coloca ao lado do regime nazista. Quando o prefeito aparece, é para lhe pressionar. Todo esse clima de inconstância vai sendo instalado aos poucos na narrativa, numa série de pequenas sequências com vizinhos e parentes que não hesitam em demonstrar sua contrariedade, enquanto a família permanece convicta em suas crenças. Sabe quando você mora em uma cidade em que a maioria das pessoas votaram no Bolsonaro, são adeptas da extrema-direita mais abjeta e você é uma pessoa progressista, de esquerda? Guardadas todas as proporções - estamos falando da guerra, afinal -, o sentimento é exatamente esse.

Uma das maiores críticas ao filme tem sido a sua longa metragem de quase três horas e eu admito que uma pequena passadinha na ilha de edição poderia ter ajudado Mallick a não conceber tantas sequências repetitivas e até excessivamente expositivas. Mas, confesso, a mim, a mensagem acabou por ser ainda mais fortemente "martelada", com a espera infinita por alguma notícia (ou mesmo pelo anúncio do fim dos conflitos), gerando um sentimento ainda mais revoltante diante do absurdo daquilo que acompanhamos. Em certa altura Fani renova suas esperanças, dizendo que eles são apenas agricultores e as pessoas do mundo "precisam comer, não?". Sim, precisam. Mas se você for contrário ao regime, não importa se é agricultor, médico ou padre: nos regimes totalitários parece haver apenas um destino. "Melhor sofrer as injustiças do que promovê-las", se esforça em anunciar a mãe do protagonista a certa altura, tentando esfregar para quem talvez não tenha entendido, qual o lado certo naquele contexto de abuso. E se há algo a celebrar enquanto as lágrimas escorrem ao final do filme, é o fato de que a luta silenciosa de muitos anônimos, pode ter contribuído para que, na atualidade, a gente sofra menos do que naqueles tempos. O sino toca. As pessoas despertam. É um filme belo, poético, potente e necessário.

Nota: 9,0