De: Robin Campillo. Com Eloy Pohu, Maksym Slivinskyi, Élodie Bouchez e Pierfrancisco Favino. Drama, França / Bélgica / Itália, 2025, 103 minutos.
Quem acompanha a carreira do diretor Robin Campillo sabe que seus filmes costumam ser atravessados por questões ligadas ao universo LGBTQIA+, algumas vezes de maneira mais explícita, como no ótimo 120 Batimentos por Minuto (2017), em outras de forma mais sutil, como no caso do recente Enzo (Enzo), que chega para aluguel nas plataformas da Apple TV e da Amazon Prime. No ponto central, independente da obra, parecem estar as ideias de pertencimento, desejo, exclusão e negação em diferentes graus. E que muitas vezes são exploradas em historias que tensionam esses temas que, inclusive, quebram em alguma medida o que prevê o status quo. E talvez não seja por acaso que no universo do protagonista que dá nome ao mais recente projeto do realizador haja uma predileção pelo trabalho na construção civil. Como pedreiro mesmo.
O que, inicialmente, parece ser uma forma de confrontar os pais Paolo (Pierfrancisco Favino) e Marion (Élodie Bouchez) - algo bastante natural para um adolescente de 16 anos como Enzo (Eloy Pohu) -, não demorará para soar como uma espécie de alegoria de expiação dos próprios desejos do rapaz. Talvez estar perto de homens suados em uma construção, para alguém que está amadurecendo e formando suas noções de sexualidade, seja algum tipo de propósito. Ou talvez não. Enzo, afinal, tem uma jovem namorada. Ou ao menos faz de conta que tem. Talvez para se exibir para os demais - em uma idade que a elaboração da masculinidade e da identidade parecem em eterno movimento. Mas quem parece lhe deixar efetivamente animado no canteiro de obras é Vlad (Maksym Slivinskyi), um ucraniano que está fugindo da guerra, enquanto busca uma existência mais digna na França.
E creio que seja que nesse ponto da mescla entre narrativa queer e debate político-social e imigração que o filme se perde um pouco. Ao cabo, alguns dos temas parecem mais importantes do que a forma como são trabalhados. Indo de lá para cá, entre a voluptuosa casa dos pais e sua rotina como aprendiz de servente, Enzo parece o típico jovem descompromissado no que diz respeito ao futuro (por mais contraditório que tudo possa ser, uma vez que ele já trabalha). Mas ao mesmo tempo em que seu irmão mais velho (Nathan Japy) parece pronto para entrar numa universidade, convivendo harmonicamente com seus colegas que também frequentam a casa dos pais, o protagonista parece apenas um revoltadinho pequeno-burguês, que tem alguma aptidão para as artes, e que soa apenas meio rebelde sem muita causa. Afinal, não deixa de ser bastante cômodo ser desobediente em meio a um sem fim de braçadas na piscina enorme do casarão da família (ou eu tô militando demais?).
E, bom, não é que não haja bons momentos, mas talvez esse fosse um filme bem melhor se fosse mais centrado na figura de Vlad que, ao lado do companheiro de trabalho Miroslav (Vladislav Holyk), vive de fato uma situação angustiante. Especialmente depois de o segundo receber uma ligação do governo, convocando-o para participar do conflito contra a Rússia. Só que Enzo, com o perdão do trocadilho, parece o legítimo Enzo - e talvez o interesse pelos ucranianos, pela sua rotina, as idas à boate e o convívio com pessoas de outros estratos sociais seja apenas uma fuga do mundo, frente a um cenário de privilégios. Há uma cena em que o chefe de Enzo fica embasbacado ao descobrir que ele vive em uma mansão com vista para o mar, que talvez custe alguns milhões de euros. E, sim, por mais que a obra trate das exclusões em suas mais variadas formas, o que falta aqui é um pouco mais de conflito. Algo que faça com que a gente se importe um pouco com um Enzo birrento.
Nota: 6,0

Nenhum comentário:
Postar um comentário