De: Paul Greengrass. Com Matthew McCounaghey e America Ferrera. Drama / Suspense, EUA, 2025, 129 minutos.
Praticamente duas horas ininterruptas de um ônibus cheio de crianças em idade escolar, tentando se livrar a qualquer custo de um incêndio de proporções devastadoras. Bom, digamos que se você é masoquista o suficiente, bem-vindo à O Ônibus Perdido (The Lost Bus), obra do diretor Paul Greengrass - de Relatos do Mundo (2020) - e que só dei play por causa da maratona Oscar 2026 (a produção tem uma única e merecida indicação na categoria Efeitos Visuais). Por que eu preciso dizer a vocês que, com mais de três décadas como fã de cinema e sem soar presunçoso, a gente meio que fica com o faro apurado na hora de detectar filme ruim. Sabe aquela coisa que hoje em dia a gente tem de identificar bolsonarista só de olhar pra estampa do sujeito? Pois é, é meio que uma habilidade desenvolvida e, vamos combinar que filme catástrofe talvez combinasse mais com meados dos anos 90. Ou talvez, vá lá, fosse melhor se não fosse tão focado no heroísmo do sujeito taciturno que resolve salvar o dia por conta própria.
E por mais que as queimadas - e as tempestades, as nevascas, os tornados e outros problemas climáticos - estejam se intensificando a cada ano, a gente não vai ver uma linha a mais sobre como o aquecimento global e as crises do setor podem ser decisivas a cada nova catástrofe. Ainda no começo do filme, enquanto o motorista de ônibus Kevin Mckay (Matthew McConaughey) leva as crianças em segurança para as suas casas - em meio a avisos sobre colocarem o cinto, não chegarem perto da janela ou não bagunçarem -, o rádio alerta para os mais de 210 dias sem chuvas no norte da Califórnia. Com a tendência de a situação se agravar nos próximos dias. Some-se a isso as instalações precárias das torres de transmissão da concessionária Pacific Gas & Eletric (PGE), que fornece luz e gás natural para a região, e tá feito o estrago. Uma fagulha que seja de um equipamento mal ajustado e o resultado pode ser fatal.
Aliás, como foi nesse caso - o evento ocorreu em novembro de 2018, destruindo 13.500 casas e deixando 85 mortos. Fora a devastação ambiental, com seus danos incalculáveis. Poderia ser este um filme de denúncia sobre o absurdo de deixar nas mãos de empresas preocupadas apenas com o lucro, o destino de milhares de pessoas? Poderia. Mas esse não é um projeto sobre a tragédia do capitalismo tardio e sobre como muita gente queimará meio que praticamente viva se práticas mais sustentáveis não forem adotadas meio que pra ontem - o que só piora com o governo Trump. Aqui, em meio a bandeiras estadunidenses que se espalham a cada gabinete ou fachada de prédio, e bombeiros com caras de poucos amigos sem saber muito bem que rumo tomar diante do caos, emerge o destemido Kevin, um ferrado que afundou em meio a decadência do sonho americano.
E como nesse tipo de projeto clichê pouco é bobagem é claro que o protagonista é aquele sujeito poucas ideias, que adia o conserto do próprio ônibus colocando todo mundo em risco, ao mesmo tempo em que precisa lidar com traumas pessoais como a superação do luto pela morte do pai, com quem ele não teve contato por mais de duas décadas, enquanto tenta se aproximar do filho, que não o tolera. Nesse contexto há ainda a mãe de Kevin, Sherry (Mary Kathlene McCabe), uma idosa dependente. Ah, ele é separado. E odeia seu emprego. Mas claro que, mesmo sendo alguém meio intragável, será ele o recrutado para salvar um grupo de alunos que está isolado em uma escola próxima a uma zona de evacuação de Paradise, aos cuidados da carismática professora Mary (America Ferrera). Ali pelos vinte e poucos minutos ele chega no local, recolhe todo mundo iniciando a interminável tentativa de escapada. Tudo em meio a embates de bastidores envolvendo burocratas sem graça alguma e o caos total no trânsito. E boa sorte pra quem aguentar o suplício até a conclusão.
Nota: 2,5
