Vamos combinar que existem certas bandas que nunca alcançaram um público maior, ainda que tenham uma discografia que, em nada, as desabone. E nessa seara, talvez um dos melhores representantes sejam os escoceses do Trashcan Sinatras que, recentemente, lançaram seu sétimo disco na carreira - o ótimo Ever The Optimist. Com aquela pegada indie ensolarada ao estilo dos conterrâneos do Teenage Fanclub, o grupo sempre foi marcado pelas letras existencialistas, que colidem a perfeição com as melodias primaveris típicas do jangle pop e com os refrãos pegajosos - vide clássicos passados como Obscurity Knocks, do álbum Cake (1990) ou Best Days on Earth, do anterior Wild Pendulum (2016). E tudo isso em um contexto marcado por dificuldades financeiras no transcorrer da carreira e até a morte ainda recente do vocalista e guitarrista John Douglas, pouco depois da chegada do último álbum.
Da abertura com a faixa título à Beatles numa mistura com o Blur, à conclusão com a premonitória Learning to Love Your Ghost, tem-se aqui um registro polido e de brilho particular, que nem parece de um coletivo que está prestes a completar quarenta anos de carreira - e que possui um tempo próprio, bastante particular, de vida simplesmente acontecendo. Em antigas entrevistas, o vocalista Francis Reader chegou a brincar sobre as vantagens do processo de espera e dos longos hiatos entre um trabalho e outro. "Uma delas é que nos impede de lançar álbuns horríveis", afirmou. Com título quase autoexplicativo a baladona Hold On Today, que parece saída de um disco do Girls, tem letra paradoxal e contemplativa sobre evitarmos domar o futuro, nos centrando no presente. Mas há outros destaques, como na dobradinha Bad Husband, que conta com a participação de Tracyanne Campbell, do Camera Obscura, e, especialmente, The Bitter End, séria candidata a uma das músicas do ano. Vale o play.
De: Fernando Eimbcke. Com Teresita Sánchez, Bastian Escobar e Hugo Ramírez. Drama / Comédia, México, 2026, 99 minutos.
Devo admitir que, assim que comecei a assistir ao premiado Moscas (Moscas), novidade da Mubi nesta semana, me recordei imediatamente de Fly, o clássico e divisivo episódio da terceira temporada de Breaking Bad - que é aquele em que Walter White (Bryan Cranston) constata a presença de uma mosca no seu higieniquíssimo laboratório de produção de metanfetamina. O que faz com que ele empreenda uma verdadeira missão particular, no sentido de tentar eliminá-la. Na obra do diretor Fernando Eimbcke também é uma mosca que perturba a tranquilidade de Olga (Teresita Sánchez), em sua rotina ordinária de partidas de sudoku ao computador e outras mesmices cotidianas. Só que há uma diferença entre Walter e a sua obsessiva necessidade de controle, que é parte de sua deterioração psicológica e Olga, que apenas abre a janela para expulsar o inseto. O que funcionará como uma alegoria do exterior que, aos poucos, invadirá sua rotina, com seus barulhos, movimentos, pessoas.
Olga mora sozinha, mas está mal de grana. Pior, uma grave unha encravada que, inclusive, dificulta seu movimento, exigirá dela um investimento de três mil pesos para o tratamento. Uma cirurgia que não é complexa, mas é cara. Para quem conta as moedas a cada ia ao armazém ou à farmácia, trata-se de um dinheirão. Em busca de alguma solução, a protagonista - uma figura taciturna, rude, de carisma negativo -, oferece um quarto do seu apartamento para interessados em alugá-los por curtos períodos. Especialmente para familiares que acompanham adoentados no hospital vizinho e que não possuem muitos recursos - sendo exatamente esse o caso de Túlio (Hugo Ramírez), cuja esposa está internada com câncer. Para lá e para cá pelas ruas fervilhantes, o sujeito leva à tiracolo o pequeno Cristian (Bastian Escobar), seu filho de dez anos aficionado pelo jogo de fliperama Cosmic Defenders Pro, que, em um primeiro momento, ele esconde de Olga para não ter de pagar mais pela estada.
Ao cabo, trata-se de um fiapo de história em que vidas diametralmente opostas colidem, encontrando, aqui e ali, pontos de contato em meio ao mal-estar generalizado da vida em sociedade, com seu individualismo atroz e certo pendor à introversão (pra não dizer misantropia). Olga chega a avisar Túlio de que, de preferência, ele sequer fale com ele. Use o banheiro interno o mais rápido possível e não compartilhe com ela outros cômodos da casa, a exceção do quarto que está sendo alugado. Pouco lhe interessa a vida daquele pai com seu filho empobrecidos, quase numa versão latina de Ladrões de Bicicletas (1948) - sendo uma experiência, assim como no clássico de Vittorio de Sica, bastante naturalista para países com tantos contrastes sociais como o México (vale também pro nosso Brasil). Sentimento ainda mais evidenciado por instantes em que Túlio sofre para comprar medicamentos ou garantir o suprimento mínimo alimentar para ele e o filho.
Onipresente, a mosca reaparece aqui e ali, como uma memória daquilo que chega, invade, faz barulho, incomoda e, enfim, nos obriga a sair do sofá e deixar a letargia de lado, nem que seja pra dar uma chinelada. Só que Túlio e Cristian não são insetos e quando o pai do menino simplesmente desaparece em circunstâncias um tanto misteriosas, cabe à taciturna protagonista uma aproximação meio a contragosto do jovem - o que resultará em uma troca inesperada de afeto, que terá como ponto de vínculo as perdas familiares, o luto e a necessidade de seguir em frente diante da tragédia (e não deixa de ser impactante o pequeno instante em que Túlio segura o rosto de Olga de forma carinhosa, enquanto ela padece de uma febre que lhe paralisa). Sim, o tipo de dinâmica que assistimos aqui não tem basicamente nenhuma novidade que não tem senha sido vista ou explorada de forma bastante efetiva em produções como Central do Brasil (1998) ou A Língua das Mariposas (1999). Mas há um certo charme enigmático reforçado pela fotografia em preto e branco, que nos deixa meio vidrados.
De: Pauline Loquès. Com Théodore Pellerin, Salomé Dewaels, Camille Rutherford e Jeanne Balibar. Drama, França, 2025, 96 minutos.
Vamos combinar que, em muitos casos de filmes com pessoas que precisam lidar com doenças graves, as questões mais prosaicas do cotidiano são ignoradas em prol de uma narrativa melancólica mais direta sobre superação da dor. Quando Nino (o ótimo Théodore Pellerin, que tem uma energia meio Adam Driver francês, ainda que seja canadense) recebe, ainda no começo de Nino de Sexta a Segunda (Nino) o diagnóstico de um câncer na garganta, para além do seu olhar surpreso e desorientado - ele é apenas um jovem de 28 anos, sem um aparente histórico familiar -, ele é informado a respeito de, entre outras coisas, a possibilidade de congelar espermatozoides para o caso de, no futuro, desejar ter filhos. Naquele contexto, a médica lhe comunica sobre o quão invasivo é o tratamento que iniciará dali a três dias e sobre a necessidade de, urgentemente, tomar essa decisão.
Em alguma medida, é mais ou menos assim quando alguém morre. Ou é preso. Em obras de ficção as complexas logísticas que envolvem esse entorno muitas vezes são ignoradas. Mas não aqui. Nino sai de um andar do hospital para outro, onde se depara com uma longa fila de casais - certamente interessados em óvulos fecundados e inseminações artificiais -, para receber um copinho de uma enfermeira, que lhe dá um tempo de uma hora pra concluir o "serviço". A coisa toda é tão caótica que o protagonista não percebe, num primeiro momento, que perdeu as chaves de casa. E essa habilidade da diretora Pauline Loquès, em sua premiada obra de estreia, em metaforizar essa perda de rumo, de direção, de sentido ou meio que de tudo, depois do diagnóstico de uma doença severa, é meio que rara. Nino está desorientado em uma sexta-feira qualquer que, ainda por cima, antecede o seu aniversário. Com um diagnóstico agressivo debaixo do braço, que ele sequer tem coragem de verbalizar àqueles que o rodeiam.
Em conversa com sua carinhosa mãe (Jeanne Balibar), ele tenta investigar os motivos da trágica morte de seu próprio pai aos 44 anos, em circunstâncias nem sempre claras, ao mesmo tempo em que mente estar com depressão - apenas para esconder o câncer, o que evitará deixá-la preocupada. No apartamento do amigo e colega de trabalho (ou talvez candidato a namorado, não fica bem claro) Sofián (William Lebghil) que organiza uma festa surpresa, Nino trafega como uma espécie de ectoplasma pelos cômodos, talvez percebendo a inutilidade daqueles vínculos aleatórios que, agora, se esfarelam, frente à iminência provável da finitude. Ainda sem as chaves de casa - ele volta ao hospital, mas não as encontra, o que reforça a alegoria da falta de direcionamento que temos diante de situações do tipo -, o rapaz vai parar na casa de uma ex (Camille Rutherford), sendo surpreendido por ela justamente no instante em que pretendia lhe deixar um cartão postal. Que lhe alertava para os riscos das doenças sexualmente transmissíveis - o que podia estar na origem do seu tumor.
Em linhas gerais, para o espectador que talvez aguarde que esse filme aterrisse em local seguro pode ser frustrante ver apenas Nino zanzando em um final de semana, estando com amigos, com a ex, com a mãe, indo pra boate, ou mesmo frequentando o brechó da ex-colega de aula Zoé (papel da bela Salomé Dewaels) que ele encontra aleatoriamente no restaurante em que entra para tentar, em vão, se masturbar para reservar seu sêmen. Ao cabo, aqui temos aquele típico filme europeu, de fotografia cinza azulada, que reforça o sentimento de melancolia geral, de desalento, o que também é evidenciado pelas notas sutis mas agoniantes, da trilha sonora. Há, aqui e ali, um certo afeto geral no olhar para aqueles que acompanhamos, com direito a citações à Marina Abramovich e suas experiências artísticas essencialmente humanas. Muitas vezes basta um olhar para que saibamos tudo que envolve esta ou aquela pessoa. Não é preciso dizer muito. E, aqui, parece estar nos longos silêncios uma parte dessa força. Tá na Reserva Imovision.
De: Rafaela Camelo. Com Laura Brandão, Serena, Larissa Mauro, Camila Márdila e Aline Marta Maia. Drama, Brasil, 2025, 90 minutos.
É uma sequência quase despretensiosa do ótimo A Natureza das Pequenas Coisas aquela em que a pequena Sofia (Serena) revela à sua nova melhor amiga Glória (Laura Brandão) que ela é uma menina trans. Um instante de grande naturalidade e extremamente afetuoso - talvez como devesse ser na vida real. Aliás, verdade seja dita, talvez um dos grandes méritos dessa pequena joia do nosso cinema - e que é uma das pré-indicadas ao Oscar 2027 -, seja a capacidade de tratar dos grandes assuntos (luto, formação da identidade, rede de apoio feminina, crenças populares, medos infantis) de uma forma bastante sutil e, ainda assim, muito impactante. Até aquela altura, havia uma desconfiança de que Sofia pudesse ser trans - especialmente pela forma com que ela trata o falecido irmão Bento, sempre envolto em mistérios, como numa névoa que evaporou, para reaparecer reconfigurado. Ou reconfigurada.
Sim, a pequena ousadia da diretora Rafaela Camelo - de tratar de temas que ainda são considerados tabus em uma sociedade essencialmente conservadora como a nossa (ainda preocupada, em pleno 2026, com o pânico moral generalizado de um kit gay) -, já foi vista em outras produções, como no casso da tocante Close (2022). Todo o mundo deveria saber saber que esconder crianças (e adolescentes) LGBTQIA+ no armário, não vai fazer com que elas simplesmente desapareçam. Pior, vai fazer com que elas encarem a própria sexualidade com vergonha, reforçada por um ambiente de opressão e de preconceitos. Mas, ao cabo, esse não é um filme sobre uma grande revelação de uma criança trans. Como comentei, esse é um dos assuntos. Mais um. Em uma experiência magnética e de grande sensibilidade. Com uma mensagem maravilhosa sobre autoaceitação. E a respeito da importância de nos mantermos civilizados acima de tudo.
Na trama, Glória é a menininha que passa os dias zanzando no hospital, ao lado da enfermeira Antônia (Larissa Mauro), sua mãe solo que se exaure de tanto trabalhar, o que impede a pequena de poder viver suas férias como uma criança - tanto que ela vai parar com Antônia no hospital, onde interage de forma amistosa com os idosos atendidos (o que faz com que percebamos que sua presença ali pareça ser constante). Nesse contexto, Sofia chega ao local após um pedido de socorro: sua bisavó sofreu uma queda em casa e teve de ser levada às pressas ao pronto atendimento. Sem ter muita solução, Antônia sugere à Sofia uma aproximação de Glória, enquanto a dupla simplesmente espera. O que resultará em uma amizade comovente entre duas meninas perdidas em um ambiente essencialmente de adultos (e muitas vezes de velhos), tendo de lidar com perdas inesperadas, temores aleatórios e alterações de rota não calculadas.
Cheia de simbolismos, a obra aposta em pequenas alegorias que fortalecem a ideia de uma narrativa em que às personagens estão em permanente movimento e que as leva a novas configurações. Lá pelas tantas, sabemos que Glória passou por uma grave cirurgia no coração quando tinha apenas dois anos - e que quase a levou à morte. Ou descobrimos que Antonia, que é convidada pela mãe de Sofia, Simone (Camila Márdila, de Que Horas Ela Volta?, 2015), para um forró, não sai para dançar há anos - o que evidencia a sobrecarga das mulheres no que diz respeito à maternidade. Sobre a bisavó (a sempre ótima Aline Marta Maia, de Pedágio, 2023), que surge como um espectro que conecta passado e futuro - com uma presença fantasmagórica e carismática - sabemos que ela sofre de demência. E que pode estar sempre entre a vida e a morte, entre o real e o abstrato, entre a luz e o crepúsculo. Resumir um filme como esse, tão repleto de possibilidades em suas minúcias, não é tarefa fácil. A boa notícia é que ele está disponível na Netflix. É só dar o play.
De: Simón Mesa Soto. Com Ubeimar Rios, Rebeca Andrade e Guillermo Cardona. Comédia / Drama, Colômbia / Suécia / Alemanha, 2025, 120 minutos.
Devo confessar que poucas vezes nos últimos anos, vi um filme escalar de forma tão desvairadamente engraçada como neste Um Poeta (Un Poeta) - pequena joia do cinema colombiano (aliás, foi o enviado do País para o Oscar 2026). Ao cabo, esta parece ser uma obra que tem em seu cerne uma questão bastante simples: quem ainda lê (ou mesmo se preocupa) com poesia nos dias de hoje? Muitas vezes relegada a saraus acadêmicos performáticos e presunçosos, essa manifestação artística que legou ao mundo nomes como Carlos Drummond de Andrade, Gabriela Mistral e Pablo Neruda (só pra ficar nos sul-americanos) ainda mobiliza Oscar Restrepo (o ótimo Ubeimar Rios), com sua roupa troncha e óculos feios de homem de meia idade que, na juventude, quando lançou dois livros, sonhava com uma espécie de estrelato literário que, verdade seja dita, nunca foi alcançado.
Falido e ainda tendo de cuidar da mãe doente, Oscar zanza pela cidade como uma Baby Jane (1962) das letras - ressentido por não ter reconhecimento, sendo integrante de uma espécie de segunda divisão da poesia (ninguém sequer se lembra exatamente de quem é ele, o que é reforçado pelos livros carcomidos e desgastados que ele carrega à tiracolo e que são um detalhe do desenho de produção não menos do que genial). Assim como já dito, é seu figurino desastrado que reforça sua imagem como um sujeito quadrado, sem nenhum carisma, mas que talvez tenha algum talento médio para os versos ou as reflexões cotidianas - e nem temos como saber direito, fora os encontros verborrágicos com os doidinhos de bairro que trafegam pelas ruas, após as madrugadas frustradas de bebedeira em que o protagonista vai parar na sarjeta.
Depois de relutar em sair da pindaíba para ministrar aulas - sua família já não aguentava mais a sua arrogância pseudointelectual de um homem infantilizado, choroso e cheio de dívidas -, ele topa, a contragosto, ser professor de um grupo de alunos de uma escola de poesia local. Isso após ter se humilhado perante o escritor Efrain Mendoza (Guillermo Cardona), um dos diretores da Instituição, que chega ao ridículo de lhe enviar a um bizarro canal de TV local, como estratégia para atrair possíveis leitores para as suas mofadas obras (sequência que integra a primeira parte que, não por acaso, recebe o nome de O Fracasso). Como professor, ele se encanta pela jovem Yurlady (Rebeca Andrade), que parece ter um talento não apenas nato, mas, orgânico para a poesia, com sua fruição de frases, liberdade e sensibilidade saltando os olhos. O que faz com que ele empreenda uma verdadeira via-sacra para ampliar a visibilidade da adolescente que, aos 15 anos, parece ter outros interesses, como unhas com esmaltação em gel e mesmo ficar com as amigas. Ou, vá lá, no mínimo, não frequentar encontros culturais de gosto duvidoso, que reúnem idosos decrépitos da área de humanas, capazes de tornar os cubículos da universidade em espaços em que reinam o egocentrismo.
[ALGUNS SPOILERS A PARTIR DAQUI] E tudo se torna ainda mais complexo, no (des)encontro com a numerosa família de Yurlady, que conta com um tio trambiqueiro que acredita na possibilidade de sucesso da sobrinha por seu talento. Aliás, o próprio Oscar se ressente do distanciamento de sua filha, que parece ter vergonha dele (Você me odeia? Não, eu tenho é pena de você. Parece uma criança.) A despeito de todo esse conjunto, a pupila aceita participar da abertura de um sarau, que conta com a presença da embaixadora da Holanda, que destina recursos para o evento (a parte dois recebe o nome de Magnus Opus). E é próximo da terceira parte - A Arte Vai nos Salvar -, que a coisa escala. Yurlady passa mal após beber pela primeira vez, e Oscar é acusado de abuso de forma um tanto inusta, o que resultará em um sem fim de sequências inesperadamente engraçadas - como a da perseguição do irmão furioso da jovem. Com uma energia que lembra as obras da dupla de realizadores Gaston Duprat e Mariano Cohn - como O Homem ao Lado (2009) e Cidadão Ilustre (2017) - essa é uma experiência que diverte e emociona, com seu anti-heroi atípico, errático e completamente f*dido, mas que nos apaixona inesperadamente. Tá no Telecine Play e vale demais.
De: Damiano Michieletto. Com Tecla Insolia, Michele Riondino, Andrea Pennacchi e Stefano Accorsi. Drama, Itália / França, 2025, 111 minutos.
Vamos combinar que talvez eu não tenha sido o único a cair em um clickbait cinematográfico. Afinal, um filme chamado Primavera (Primavera), que tem como um de seus personagens centrais justamente o compositor Antonio Vivaldi (Michele Riondino), por óbvio, deveria ter alguma menção que fosse a respeito do clássico concerto para violino ou mesmo sobre os bastidores de sua criação? Bom, não no filme do diretor Damiano Michieletto - e, verdade seja dita, para além da obra que eu esperava encontrar há aquela que existe e, aqui, talvez a primavera tenha mais a ver com alguma metáfora para o florescer, ou algum tipo de simbolismo relacionado à libertação das amarras patriarcais. Ainda mais em um ambiente tão fechado e conservador como o de um orfanato exclusivamente voltado a meninas, o Ospedalle Della Pietá, situado na Europa do começo do século 18.
É nesse ambiente invariavelmente hostil para as mulheres - e que é conduzido com rigidez por uma madre superiora não muito amistosa (papel de Fabrizia Sacchi) -, que um grupo de adolescentes, estando entre elas a jovem talentosa Cecília (Tecla Insolia), ocupa seus dias em aulas de música. Com a instituição perdendo patrocinadores - normalmente representantes da elite econômica que possuem outros interesses nesses locais (como casamentos arranjados com as garotas) - para outros educandários, a diretoria dá um ousado passo: recontratar justamente Vivaldi, que já havia trabalhado na Pietá. E que, na realidade, atuaria por décadas no convento. Em uma das primeiras audições, o compositor se impressiona com a habilidade e virtuosismo de Cecília, selecionando-a como spalla (a primeira violinista, um papel nobilíssimo em uma orquestra).
Mas esse é um filme em que as oportunidades financeiras ou artísticas para as mulheres entram em choque com a possibilidade de bons matrimônios - e Cecília está prometida para um certo Sanfermo (Stefano Accorsi), um oficial do exército que está para retornar da Guerra Otomano-Veneziana (1499-1503), tanto que sequer faz objeção quanto a isso. Aliás, como órfã que não está autorizada a exibir o rosto para homens desconhecidos (tanto que as apresentações dominicais são feitas em mezaninos da igreja, com as jovens distantes da balaustrada), ela acredita que a união com um homem mais velho possa lhe garantir não apenas o seu futuro. Mas também o da Pietá, que receberia um valor em dinheiro em troca. Todas essas elucubrações, essas divagações, Cecília faz em cartas que direciona a uma mãe que ela sequer sabe se está viva - e que lhe abandona no educandário na juventude. Talvez ela seria uma prostituta. O que, na época, seria um crime. Aliás, hoje em dia, pra extrema direita raivosa, talvez seja crime também.
Ainda assim, Cecília segue estudando com Vivaldi e auxiliando-o na preparação de um concerto para o Rei da Dinamarca - e não é preciso ser um cinéfilo veterano para saber que a coisa vai escalar, ainda mais quando certos segredos íntimos envolvendo a protagonista virem à tona. Com excelente desenho de produção que faz com que nos sintamos, de fato, em um ambiente suntuoso e áspero como o dos corredores da Pietá; trilha sonora de notas de violino meio onipresentes e fotografia acinzentada, puxando pra um azul escuro que acentua a melancolia geral já que o sol quase nunca aparece, essa é uma produção bem ao estilo das de época, com seus figurinos e maquiagens empoladas e uma discussão embrionária sobre independência feminina, sororidade e busca por emancipação - emocional, financeira, social. Sobre a concepção da Primavera que se daria na própria Pietá? Fica para um outro filme. A despeito do título, que nos enganou.
De: Carine Tardieu. Com Valeria Bruni Tedeschi, César Blotti, Pio Marmaï e Vimala Pons. Drama, Bélgica / França, 2024, 106 minutos.
"De vez em quando / Duas pessoas se encontram / Aparentemente sem nenhum motivo / Elas apenas passam pela rua" (Don't Get Me Wrong - The Pretenders)
[ATENÇÃO: TEXTO COM ALGUNS SPOILERS]
"Qual a diferença entre amor e apego?". Vamos combinar que não foram poucos os pensadores a teorizarem a respeito do assunto central do tocante O Apego (L'attachement), que está em cartaz nas salas de cinema do País. Do psicanalista Erich Fromm, passando pela filósofa Simone Wei, até chegar ao psicólogo John Bowlby - criador não apenas da Teoria do Apego, mas de ideias a respeito da necessidade central dos seres humanos de formar vínculos - muitos são (e foram) os autores que dissertaram sobre a complexidade do tema. Então, não surpreende o fato de o tópico volta e meia reaparecer em obras literárias, músicas, teatro ou cinema. Sim, o filme dirigido por Carine Tardieu pode parecer apenas uma singela produção que divaga sobre luto, memória, maternidade, relacionamentos, configurações familiares na modernidade e responsabilidade afetiva, entre outros temas. Mas o fato é que constrói, nesse contexto, uma narrativa delicada e repleta de reflexões.
Em alguma medida, a imprevisibilidade ou mesmo a aleatoriedade da experiência humana também está no centro do filme - o que já pode ser percebido na abertura, quando a tranquilidade de Sandra (Valeria Bruni Tedeschi), uma mulher de meia idade independente, dona de uma livraria voltada à temas mais progressistas (ou feministas), é quebrada em certa manhã quando a sua campainha, inesperadamente toca. Na porta, seus vizinhos do apartamento ao lado em uma emergência: a bolsa de Cécile (Melissa Barbaud) rompeu e ela precisa ir com urgência à maternidade com o marido Alex (Pio Marmaï). Sem alternativa, o casal pede à Sandra que cuide do pequeno Elliot (César Blotti), o filho de apenas cinco anos. De forma repentina, a protagonista que, por óbvio, nunca teve filhos ou uma convivência maior com crianças, se vê como babá improvisada de um menino esperto e curioso, que assombra ela com suas tiradas inteligentes ("os adultos estão sempre com pressa").
Só que Sandra estranha certo atraso do casal - a noite vira, o dia ocorre (e são engraçadas as tentativas meio tortas da mulher em se adaptar em seu dia de trabalho com o filho do vizinho à tiracolo). Quando Alex retorna, sua cara não está boa: Cécile sofreu uma embolia amniótica, que resultou numa tragédia. A pequena Lucille, o bebê, sobreviveu. Sandra descobre, mais adiante, que Elliott não é filho de Alex, e sim de um relacionamento anterior de sua, agora, falecida esposa. A vizinha, de forma empática, não consegue ficar alheia a tudo e oferece ajuda. Um ombro. E isso, conforme vai se aproximando cada vez mais do menino. De Alex. De sua família como um todo que, vá lá, vai se tornar de forma inevitável a sua "família escolhida". Outro conceito que aparece volta e meia nas artes, em estudos, e que, de forma muito justa, é apropriado pela comunidade LGBTQIA+, que sofre preconceito nos laços de sangue. Há uma canção lindíssima da Rina Sawayama chamada Chosen Family, que evidencia esse conceito à perfeição.
Nesse contexto tem-se um filme singelo em que acontecimentos cotidianos ganham mais força do que o normal - como no momento em que Alex tromba com Sandra no corredor do prédio, com as compras se espatifando no chão. Papeladas pra resolver, vidas pra tocar, arrependimentos do que poderia ter sido e não foi (como no instante em que Alex revela ter forçado a barra para que tivessem um filho, mesmo que Cécile não desejasse passar por uma nova maternidade), tudo vai surgindo de forma naturalista, orgânica, sem forçação. A solidão de Alex que tenta de forma desajeitada se aproximar da vizinha de forma amorosa após um beijo, apenas evidencia a sua fragilidade e baixa autoestima em um momento em que ainda trabalha o luto e o sentimento de abandono. E isso não tem a ver com o fato de Sandra ser uma mulher mais velha, uma vez que ela é interessante, inteligente e, mais do que tudo, presente.
Nesse sentido o filme, inspirado em obra de Alex Ferney, sem tradução no Brasil, não força situações irreais por mera condescendência. Há todo um ideal de nunca abandonar a verossimilhança para qualquer ajuste inadequado. "Ainda é cedo pra ficar com alguém?" pergunta Alex à própria Sandra, após alguns meses como viúvo depois de, talvez, estar se apaixonando novamente. Com uma trilha sonora excelente - o auge é a sequência ao som de Don't Get Me Wrong, do Pretenders (um golpe baixo, né?) -, a obra quebra certas convenções em um roteiro arejado e que, facilmente, a gente se apega (com o perdão do trocadilho). "Estou feliz por você", diz Sandra a Alex durante o casamento dele com a enfermeira Emilia (Vimala Pons), que dança feliz ao fundo. A vida é que isso, altos, baixos, quedas e voltas por cima, dores e alegrias. Nesse turbilhão a gente nunca tem certeza de nada. E talvez resida aí uma parte da beleza.
Talvez uma pitadinha menos eletrônico do que no excelente SALVE-SE! - nosso 24º colocado na lista de melhores nacionais de 2024 - e um pouco mais acústico ou introspectivo. Mas, obviamente, preservando a mescla de MPB, soul e jazz que são marcas registradas. Essas parecem ser as primeiras impressões quando ouvimos Dissolução, o mais novo registro de inéditas da sempre ótima Bebé. Olhando um pouco mais para dentro, buscando talvez uma essência, a artista povoa o álbum com violões, baixos acústicos e percussões, deixando um pouco de lado os beats, os sintetizadores e a programação, que davam uma cara mais urbana pra produção. Claro, isso não significa abandonar completamente estas ideias, mas reconfigurá-las, o que pode ser percebido, por exemplo, em Evapora Lágrima, um trip hop ondulante, que acena para um ambiente onírico, bucólico, ao mesmo em que versa sobre perdas e superação de dores.
Um outro exemplo desse espírito mais orgânico pode ser observado em Variante Estelar / Para Lô Borges que homenageia o músico, um dos fundadores do Clube da Esquina, que nos deixou em novembro do ano passado, aos 73 anos. Aliás, à Revista Noize ela explicou, de forma aparentemente jocosa, que sua família a "alienou" no que diz respeito ao consumo desse rock rural mineiro. Sobre a simbiose que gestou a letra (O Rei descansa no oceano livre pra chorar / Agora o sol vai condensar / Num verbo desdobrando um jeito novo de lembrar), ela fala em download cósmico. Aliás, é nessa mesma canção que ela cita a dissolução, um conceito que rege o trabalho - essa capacidade nossa de se reconstruir, após se desfazer, como numa alquimia. Com participações de, entre outros, Tássia Reis e Tuyo, Bebé segue sua mágica particular. São músicas simples, como Se Tocar e Vulcânica, mas cheias de alma.
De: Richard Linklater. Com Guillaume Marbeck, Zoey Deutch, Aubry Dullin e Bruno Dreyfürst. Comédia / Drama, França / EUA, 2025, 105 minutos.
Sem querer exagerar, mas já exagerando, a impressão que temos quando assistimos ao ótimo Nouvelle Vague, que está disponível no Telecine, é que ficou muito tênue a linha entre o nascimento de clássico absoluto e um dos piores (e mais caóticos) filmes já feitos. Sim, o tempo fez justiça e Jean-Luc Godard viria a se tornar um dos grandes diretores da história do cinema - diferentemente do que ocorreria, por exemplo, com o esforçado Tommy Wiseau que tornou o excêntrico clássico cult The Room (2003) uma das coisas mais tenebrosas já feitas para a telona. História, aliás, contada no excelente O Artista do Desastre (2018). Já aqui, na trama dirigida pelo versátil Richard Linklater, em certa altura o grupo que está por trás da turbulenta produção de Acossado (1959), conclui uma primeira exibição da obra, ainda em fase experimental. "O mundo não está pronto para um filme tão repugnante", exulta um deles. Parece ser um elogio. Ou talvez uma crítica.
Entre tantas frases atribuídas ao gênio do cinema francês que, como tantos outros - Truffaut, Rivette, Rohmer - iniciou sua carreira como jornalista no periódico Cahiers du Cinéma, uma das mais famosas afirma que "o cinema é a fraude mais bonita do mundo". E não deixa de ser interessante perceber como o realizador é capaz de tratar ao mesmo tempo com paixão e certo desprezo (ao menos pelo formalismo), na concepção de sua primeira obra. Sem respeitar meio que nada, adotando um estilo totalmente anárquico - para desespero de atores, produtores, roteiristas, figurinistas, maquiadores e tantos outros. Godard (Guillaume Marbeck) ainda era jovem quando enfiou na cabeça, com um comportamento um tanto ególatra - reforçado pelos onipresentes óculos escuros e pelas frases cheias de afetação e pomposidade -, que precisava dirigir um filme. Não bastava, ao cabo, escrever sobre eles. Truffaut (Adrien Rouyard) tinha apenas 28 anos quando gestou o clássico Os Incompreendidos (1959). Era preciso integrar esse movimento.
O embrião desse sentimento vem justamente de uma exibição da obra em uma edição do Festival de Cannes. E após Godard, sem nenhum pudor, criticar duramente o trabalho do produtor Georges de Beauregard (Bruno Dreyfürst) em La Passe du Diable (1958). Como um doidinho de bairro zanzando pra lá e pra cá, o futuro diretor de aproxima de Beauregard (ou Beau Beau, como ele o chama carinhosamente), apresentando a ele um plot baratíssimo sobre um sujeito que rouba um carro, mata um policial e tenta fugir acompanhado de sua namorada jornalista, que o dedura mais tarde. Nesse contexto ele recruta o ator (e boxeador) Jean Paul Belmondo (Aubry Dullin) e a grande estrela norte-americana Jean Seberg (Zoey Deutch), que acabava de ser capa da Cahiers, justamente pelo seu papel em Anatomia de Um Crime (1959). Sendo divertida, aliás, a devoção da atriz ao trabalho de Otto Preminger, um diretor famoso pelo rigor técnico e que formará um contraponto à completa improvisação e falta de qualquer lógica de Godard.
Còmica, a produção de Linklater reconta os 20 dias de filmagem de Acossado, com os atores sendo surpreendidos a todo o momento não apenas com mudanças de cronogramas, mas com roteiro e diálogos criados em cima da hora, excesso de citações empoladas sem muito sentido para a narrativa, uso de locações reais nada combinadas e figurantes que mal sabiam que estavam integrando o elenco de um filme. Ah e, óbvio, os inevitáveis jump cuts (os cortes secos, bruscos). Só que o que poderia ser a pior coisa já feita no planeta - e, verdade seja dita, muitas foram às críticas quando do lançamento do projeto -, se tornaria uma obra-prima influentíssima, de um cinema muito mais calcado na realidade do que em uma... fraude. Ou algo que tenha cara de fraude. Para o espectador é sempre um choque assistir a Acossado - e não deixa de ser magnético perceber como o realizador foi engenhoso ao adaptar câmeras a carrinhos improvisados, muitas vezes apostando na crueza de um único take. Entre a insegurança e certa arrogância, Godard desconstruiu o sentido da arte apostando no naturalismo, na sugestão (do visto pelo não visto), em uma obra experimental e quase amadora, mas cheia de esforço, paixão e fúria. Nouvelle Vague, a despeito de ter sido esnobado na temporada de premiações, captura bem esse clima da época: essa beleza quase ingênua da intenção acima de tudo. Pra quem ama essa arte é impossível não se comover.
De: Guy Nattiv e Zar Amir Ebrahimi. Com Arienne Mandi, Zar Amir Ebrahimi e Jayme Ray Newman. Drama, EUA / Geórgia / Reino Unido, 2023, 105 minutos.
Existe uma cena de forte carga simbólica - uma das tantas, na realidade -, no excelente Tatame (Tatami), que é aquele momento em que a protagonista Leila Hosseini (Arienne Mandi), uma das mais promissoras atletas do judô iraniano, sente que está sufocando durante uma importante luta. Mal conseguindo respirar frente às pressões recebidas do governo desde que entrou no mundial disputado na capital da Geórgia, Tbilisi, ela arranca o hijab (aquele véu islâmico) que cobre a cabeça e parte do peito, o que lhe possibilita um fôlego a mais. Claro que o gesto instintivo, frente à exaustão de tudo, não impede a derrota de Leila. Mas há um significado a mais naquele ato de rebeldia: se livrar da peça é resistir. É deixar de obedecer uma série de imposições autoritárias de um governo que interfere até na maneira como os atletas devem se vestir. A liberdade, portanto, é maior. Perder a luta, naquela altura do campeonato, é só um detalhe.
E creio que o que mais surpreende o espectador desavisado - ainda que quando o assunto seja à opressão desses regimes tirânicos não haja tanta surpresa -, é saber que a história que se vê na produção dirigida pelo israelense Guy Nattiv e pela iraniana Zar Amir Ebrahimi (que está no excelente Holy Spider, 2022) não ocorre apenas em filmes. Até por que, por mais que o caso de Leila seja ficcional, há um episódio famoso envolvendo o atleta Saeid Mollaei que, em 2019, teria sofrido forte pressão das autoridades iranianas para que abandonasse o mundial em sua categoria. Tudo para não enfrentar o israelense Sagi Muki. Sim, para o governo iraniano uma luta entre dois atletas de nações diferentes não é apenas uma luta. Que deveria dizer respeito apenas ao campo do esporte. No fundo há todo um componente político, cultural e religioso envolvendo os dois países e que, aqui, se estende, em mais uma alegoria bastante óbvia, para o tatame. O exercício de lutar, nesse caso, passa a ter outras nuances.
E na trama dessa pequena produção que chegou à plataforma do Telecine, Leila inicia na competição de forma despretensiosa, sempre apoiada por sua treinadora Maryam (a multitarefas Zar Amir Ebrahimi), ela mesma uma atleta de excelência no passado que, misteriosamente, teve de abandonar uma competição por conta de uma lesão. Claro que, mais adiante, descobriremos que o governo iraniano agindo como polícia política vigilante da delegação de seu País será algo rotineiro - independente de gênero, ainda que, para as mulheres, por óbvio em uma nação tão patriarcal, a mão sempre pese mais. Depois de vencer três lutas, Leila recebe um amistoso pedido de foto de um fã na arquibancada. Quando o sujeito se aproxima com o celular, ele revela um vídeo de seu pai já sequestrado pelo regime. A instrução é clara: ou ela abandona o campeonato ou as medidas contra seus familiares podem ser drásticas.
Aliás, não por acaso, a opressão se estende ao marido e ao filho de Leila, que permanecem no Irã, tendo organizado uma torcida à parte (e comovente) com amigos e familiares em sua casa. Os dois são orientados a fugir, deixando a sua nação de origem para trás. Quando percebem as estranhas movimentações - e as brigas sussurradas em meio a corredores entre Leila e Maryam (que quer que ela desista pelo seu bem para que ninguém, enfim, seja torturado ou morra e para que ela possa ter algum futuro) -, os integrantes da Associação de Judô ensaiam uma investigação, liderada pela integrante do comitê Stacey (Jaime Ray Newman). Uma situação difícil, em que a tensão cresce a cada nova vitória conquistada - aliás, méritos para a produção, que recria os embates à perfeição, adotando uma fotografia em preto e branco que combina bem com uma obra sutil, mas potente. E que não precisa de grandes reviravoltas para apontar o absurdo de certos atletas terem de disputar não apenas com seus rivais, mas também com governos tirânicos.
De: Gus Van Sant. Com Bill Skarsgard, Dacre Montgomery, Colman Domingo, Al Pacino e Myha'la. Policial / Suspense, EUA, 2026, 106 minutos.
Vamos combinar que filmes sobre pessoas confinadas em um mesmo lugar podem facilmente se tornar entediantes, se não forem capazes de criar um senso de movimento frente ao cenário restrito. E, justiça seja feita à Refém Por Um Fio (Dead Man's Wire), mais recente produção do versátil diretor Gus Van Sant e que está em cartaz nos cinemas do País, que consegue manter a atenção do espectador, mesmo que o fiapo de história (real, aliás) verse sobre um sujeito revoltado que resolve sequestrar, mantendo como refém, o filho do CEO de uma empresa de crédito hipotecário que lhe teria gerado uma dívida milionária, após a compra de um terreno. Em tempos de crítica ao capitalismo tardio e a sua sanha selvagem de enriquecimento ilícito de poucos, o pleito de Tony Kiritsis (Bill Skarsgard) parece até justo. Ainda que a sua atitude extrema envolva um carnaval quase ao estilo do clássico Um Dia de Cão (1972).
Sim, porque para Kiritsis não basta apenas o perdão da dívida, já que ele resolve mobilizar uma série de canais de TV locais para uma retratação pública por ter sido enganado. Ele exige um pedido de desculpas em rede nacional - algo que ele repete, e repete e repete, mesmo quando acordos entre as partes são ensaiados, em meio ao contexto caótico. Como forma de nunca perder o controle em seu determinado objetivo, Kiritsis utiliza uma espécie de espingarda de cano cerrado acoplada à cabeça do jovem Richard Hall (Dacre Montgomery), que vira uma espécie de bode expiatório da coisa toda, já que seu pai M. L. Hall (Al Pacino), encontra-se no calor da Flórida, de férias, e portanto bem distante de Indianápolis. Estamos no mês de fevereiro de 1977, em um País que ainda se recuperava da tensão da Guerra do Vietnã e dos escândalos relacionados ao governo Nixon, que certamente abalaram à moral do estadunidense médio em sua busca pelo "sonho americano".
No caso de Kiritsis, o sonho era uma grande área de terras de sete hectares, em que ele pretendia investir em um centro comercial. O aporte de US$ 3 milhões feito pelo protagonista logo vira um pesadelo conforme as dívidas se acumulam - ele exige o perdão do valor atrasado há quatro anos, enquanto mantém a cabeça de Richard atada ao engenhoso sistema, que pode levar a um disparo acidental caso as coisas saiam do controle. Dada a tensão da coisa toda, o protagonista negocia com a polícia uma forma de sair do prédio da Meridian Mortgage, o que envolve o furto de uma viatura que levará a dupla até a casa de Kiritsis. Lá, como se enfiado dentro de um bunker particular, ele segue no seu intento. Como precaução, ele enche o próprio apartamento de explosivos, exigindo também a evacuação completa dos demais moradores.
E, bom, comentei no começo da resenha sobre movimento em um filme do gênero e, por mais que permaneçamos praticamente uma hora com a dupla dentro de seu apartamento, a real é que a coisa nunca se torna cansativa - até mesmo pelo carisma do protagonista, que parece ser bem relacionado não apenas com a polícia local (ele conhece os agentes, os chama pelos nomes), como também com a imprensa, aqui representada pelo radialista Fred Templo (Colman Domingo), com sua voz aveludada na hora de trazer as notícia do dia. Além dele, acompanhamos a jovem repórter Linda Page (Myha'la), que vê na matéria uma oportunidade de sair do tédio. Com ótima trilha sonora e filmado em um estilo setentista dessaturado, com imagens que parecem extraídas de arquivo, a produção tem uma cara meio documental, reforçada pelo caráter espetacular da coisa toda. E não é demais pensar que se algo assim ocorresse nos dias de hoje, seria motivo para um dia inteiro de farmação de views de criadores de conteúdo ansiosos pelos próximos cliques. Não é o melhor do Gus Van Sant? Certamente não. Mas dá pra se divertir bem aqui.
De: Olivia Wilde. Com Olivia Wilde, Penelope Cruz, Seth Rogen e Edward Norton. Drama / Comédia, EUA, 2025, 107 minutos.
Por que temos o hábito de culpar os outros pela nossa infelicidade, se muitas vezes somos nós mesmos que fazemos certas escolhas? Por qual motivo a grama do vizinho parece ser sempre melhor que a nossa e temos dificuldades em ser felizes com o que temos? O que nos faz ficar casados com quem não amamos ou não transamos? Por quê tanto ressentimento? Ou tantos desejos reprimidos? São tantas as perguntas suscitadas por essa joia chamada O Convite (The Invite) - que é baseada na produção espanhola Sentimental (2020) - que mal temos tempos de respirar pra começar a responder. E a verdade é que talvez esse nem seja um filme que procure respostas já que as questões surgem - algumas verbalizadas pelas personagens, outras ficando meio que no ar - e, ao cabo, permanecem conosco, assim que os créditos sobem. Esfregadas em nossas caras, como se estivéssemos em uma sessão de terapia coletiva. Conjunta. Com aqueles que acompanhamos.
Indo na esteira de outras produções com pessoas confinadas em um mesmo ambiente e dispostas e amplas divagações sobre relacionamentos, traumas, dores, sonhos despedaçados e insatisfações - não é difícil pensar em clássicos como Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? (1966) ou mesmo em produções mais recentes, como, Deus da Carnificina (2011) -, a obra dirigida e estrelada por Olivia Wilde parte de uma provocativa sentença do escritor Oscar Wilde: "devemos estar sempre apaixonados e, por isso, não devemos casar". Sim, a frase pode ser exagerada e até chocante para aqueles mais afeitos às convenções, como no caso do matrimônio, mas ela não é definitiva. Ela serve, em alguma medida, de deixa para a situação vivida pelo casal central (e anfitrião) da noite que se seguirá - no caso, o professor de um conservatório Joe (Seth Rogen) e a artista aposentada precocemente Angela (Olivia Wilde), ambos claramente meio que frustrados com tudo.
Aliás, muita dessa desilusão parece ter a ver com a completa incapacidade de comunicação da dupla. Joe chega furioso em casa no final do dia, depois de ter dado aula, pego o metrô e percorrido um pesado trecho de bicicleta que destroi suas costas, para se deparar com uma Angela animada pela perspectiva de receber o casal que mora no apartamento de cima - os sensualíssimos Pina (Penelope Cruz) e Hawk (Edward Norton) -, que parecem ter uma vida sexual absolutamente movimentada e selvagem, deixando os anfitriões exasperados (e sem sono) a cada madrugada. Com tudo piorando quando descobrimos, mais adiante, que Joe e Angela não transam há um ano. Joe não queria a visita. Angela preparou um banquete, mas esqueceu de comprar vinho - para seu desespero. Ela quer a janela aberta, ele fechada. Ele quer beliscar a comida pois está com fome, ela não deixa. A desconexão é daquelas que salta os olhos e vale destacar a ferocidade dos diálogos, quase sempre com um caráter passivo agressivo e, verdade seja dita que produções desse subgênero só funcionam com um texto de excelência (e esse aqui é ótimo).
Quando Pina e Hawk chegam, tudo parece piorar para a dupla central. Além de sexies, descolados, progressistas e abertos à novas experiências, eles namoram há apenas um ano. Pina, uma terapeuta sexual que já foi casada, deixou uma vida de insatisfação pra trás. Hawk, um bombeiro aposentado (o que representa uma quebra de estereótipos) era seu paciente, que estava em vias de dar cabo de sua própria vida. Ao menos até os dois se encontrarem, se aproximarem. As conversas entre polos tão distintos e tão opostos no que diz respeito ao ponto em que seus relacionamentos estão, será a marca de uma experiência que consegue ser sutil, mas com envergadura. As horas passam naquele ambiente e a impressão que temos é a de que poderíamos ficar por horas ouvindo aquele quarteto em uma tensão que parece crescer mesmo em instantes mínimos - como no caso da descoberta do veganismo de Pina, ou da necessidade de abrir uma garrafa de vinho que vinha sendo guardada para alguma ocasião especial. E, honestamente, nem vale a pena falar muito mais a respeito. A obra tem ganho tração e pode chegar, inclusive, ao Oscar, naquela sempre bem recebida cota do filme alternativo. Vale cada segundo.
De: Laura González. Com Paulina García, César Troncoso, Jean Pierre Noher e Laila Reyes. Drama, Argentina / Uruguai, 2023, 106 minutos.
Existe uma cena pequena, mas bastante significativa no minimalista, melancólico e sutil Milonga - o ótimo filme da diretora Laura González, que estreou na última semana na Reserva Imovision. Nela, Rosa (Paulina García) está pela primeira vez, desde que ficou viúva, em uma espécie de baile sensual da terceira idade típico da região uruguaia (e que ali recebe o nome de milonga, que também é o gênero musical tido como precursor do tango). É um momento de libertação pra Rosa, que está acompanhada de sua melhor amiga, a extrovertida, solar e desinibida Margarita (Laila Reyes), uma de suas maiores incentivadoras. Lá pelas tantas, a tímida protagonista ouve o barulho de um copo quebrando - e de um burburinho no ambiente, como consequência do episódio. É o suficiente para que um gatilho dispare e para que Rosa tenha de ir às pressas ao banheiro, após uma queda de pressão e do aumento da ansiedade.
Até aquela altura do campeonato, o espectador apenas desconfia dos motivos que levam Rosa a ter um comportamento bastante introspectivo, quase taciturno. Condição, aliás, que é agravada por um outro episódio traumático: no caso, a prisão de seu filho, em condições pouco claras. E, como se não bastasse o cárcere do rapaz, ainda parece haver um grande esforço não apenas dele, mas também de sua nora Alejandra (Clara Alonso), para que ela não o visite. E que não encontre também o neto, num provável caso de alienação parental. Mas se há um certo indício de que Rosa possa ter sofrido algum tipo de violência física e psicológica no passado - vinda, muito provavelmente, de um ex-marido controlador e agressivo -, por que seu filho a isola? São questões que perpassam a narrativa, mantendo o interesse sempre constante, em uma obra naturalista que tem o seu próprio tempo - econômico, metódico, sem pressa.
Rosa atualmente reside em uma grande casa uruguaia, com um amplo jardim que está meio abandonado. A caminhoneta do ex-marido não é mais necessária - e é depois de colocar o veículo à venda, que surge em sua vida Juan (César Trancoso, visto no inesquecível O Banheiro do Papa, 2007), um pintor bastante metódico, a ponto de organizar suas espátulas e pinceis com um ordenamento que vai quase no limite do transtorno. Rústico, mas amistoso, Juan faz amizade com Rosa, que indica a ele que quer modificar a cor do muro que ladeia a habitação (sai o brando pálido que era a cor preferida do falecido e entra o verde água, alegoria para os tempos de esperança). Com um radinho à tiracolo, Juan é adepto do tango - o que é a deixa para que ambos entrem no assunto das milongas e da possibilidade de irem juntos aos bailes incentivados por Margarita que, a despeito de ser uma senhora de 60 e poucos anos, não abre mão do salto alto e daquilo que ressalta sua feminilidade. Aliás, ela deseja que a amiga também se solte. Que desabroche. E talvez a parceria com Juan possa ser o caminho para isso. Será?
E, verdade seja dita, poucos filmes desse ano terão um desenrolar tão imprevisível e surpreendente em suas minúcias, em seus detalhes, como esse premiado projeto dos nossos vizinhos. Fosse um filme de Hollywood e talvez a onipresença magnética e prática de Juan, representasse uma possibilidade futura para quebra de padrões em relacionamentos - e para deixar para trás traumas, dores, luto e uma vida de sofrimento. Mas Milonga, com sua personalidade nunca óbvia, faz um importante alerta: para que as barreiras sejam, de fato, rompidas, há que se olhar para o futuro, sem ignorar aquilo que o passado ensina. Por muito pouco Rosa não entra num ciclo repetido que inicia em violências quase imperceptíveis e rotineiras - como na crítica à cor da sandália usada - até chegar à agressão à simpática Coquita, a cachorra da protagonista. O que culminará num hostil "vocês mulheres são todas iguais". No começo do filme, Rosa enfrenta dificuldades para tirar a aliança. Ao final, consegue trocar o chuveiro sozinha. Pode ser uma mensagem quase óbvia sobre independência feminina. Mas pra quem cresce em um ambiente patriarcal em que certos assuntos nunca são discutidos, não deixa de ser uma simbólica vitória. O que, ao som da linda La Cumparsita, de Geraldo Rodríguez, fica ainda melhor.
De: Julia Hart. Com Sunny Sandler, Melanie Lynskey, Max Greenfield e Jack Champion. Comédia / Drama, EUA, 2026, 95 minutos.
Preciso admitir que gosto demais quando vou assistir a um filme em que não estou dando absolutamente nada e saio surpreendido positivamente - o que é justamente o caso do carismático e comovente Não Deseje Boa Sorte (Don't Say Good Luck), uma das novidades da última semana na Netflix. Sem reinventar a roda, a diretora Julia Hart constroi uma fábula de amadurecimento, perda e superação que emociona sem forçação, ao nos fazer acompanhar a jornada de uma jovem de 17 anos - seu nome é Sophie (Sunny Sandler, filha de Adam e Jackie Sandler, que produzem a obra) -, que sonha com o papel principal em uma peça de teatro musical de Ensino Médio que reencena A Garçonete, ao mesmo tempo em que precisa lidar com o fato de a mãe, Elizabeth (a sempre ótima Melanie Lynskey), padecer de um câncer terminal.
Sim, é o típico drama hollywodiano em que dois eventos concomitantes e diametralmente opostos colidem, com os personagens tendo de tomar decisões difíceis a partir deles. Só que o que poderia ser apenas uma encenação vazia a respeito de empatia, luto e força de vontade para seguir em frente, aqui ganha tintas menos pesarosas, com a adição de alguns instantes de humor - Lynskey, aliás, sempre foi ótima nisso -, e com algumas soluções de roteiro inesperadamente engenhosas. Uma delas, por exemplo, sendo o fato de o pai de Sophie, o esforçado Ted (Max Greenfield) ser um atrapalhado integrante da Geração X, que tem sérias dificuldades com o seu aparelho celular. O que faz com que ele ligue sem querer para seus familiares (aquilo que o idoso faz quando esquece o telefone desbloqueado no bolso).
É num desses telefonemas ao acaso, que Sophie descobre, bem no momento em que subiria ao palco para a sua audição, que sua mãe é diagnosticada com a volta da doença (que parecia já estar sendo tratada), de forma agressiva. Só que o que poderia desequilibrar a protagonista na disputa pelo papel principal, se converte justamente no combustível: com uma atuação impecável, ela é selecionada para viver a protagonista Jenna, após impressionar a diretora de elenco Ms. Parker (Stephanie Beatriz, a eterna Rosa Diaz de Brooklyn Nine-Nine, uma das tantas participações especiais no projeto, sendo as outras as de Steve Buscemi e Bebe Neuwirth, como os avós impertinentes de Sophie, e do comediante Jon Lovitz, o confeiteiro principal na delicatessen tocada por Ted). E, bom, temos um filme de corrida contra o relógio, já que a trágica notícia é a de que Elizabeth tem poucos meses de vida. E será que ela terá tempo de assistir ao desempenho da filha na peça?
Tentando poupar a jovem das notícias mais trágicas, Elizabeth opta por esconder a gravidade da coisa toda. Sim, ela sabe que é câncer e que é sério. Mas não tem conhecimento de que há um prazo. Todo esse caos a atrapalha em suas sessões de atuação, o que a deixa bastante insegura - situação reforçada por seu par central de elenco ser justamente o jovem Jack (Jack Champion), por quem nutre uma paixonite adolescente. A situação fica tão séria conforme a trama avança, que até a amizade com a melhor amiga Carolyn (Scarlett Estevez) é abalada. Afetuosa e emocionante, a produção ainda evidencia o fato de as pessoas terem dificuldade em reagir diante de uma pessoa que sofre de uma grave doença. E, por muito pouco, a obra não converte um instante ao som de Firework, de Katy Perry, em um dos mais tocantes do ano. Mas às vezes a gente esquece que, além de drama, esse filme também é uma comédia. Para o bem ou para o mal.
De: Daniel Roher. Com Leo Woodall, Havana Rose Liu, Dustin Hoffman, Lior Raz e Jean Reno. Ação / Suspense / Drama / Romance, Canadá / EUA, 2026, 109 minutos.
"Afinador, se você precisar ganhar dinheiro de verdade, me liga". Niki (Leo Woodall), o protagonista de O Afinador (Tuner), filme recém chegado às plataformas de streaming para aluguel, sofre de hiperacusia - um distúrbio auditivo que se caracteriza por baixíssima intolerância ou sensibilidade excessiva a sons cotidianos de intensidade moderada ou baixa. Barulhos de trânsito, sons de talheres ou mesmo o ruído normal de uma conversa pode ser insuportável e estressante pra quem sofre da condição. O que faz com que Niki permaneça o tempo todo com fones de ouvido - como forma de atenuar o sofrimento. Só que o mesmo distúrbio faz com que ele seja um habilidoso afinador de piano, ofício que aprendeu com o veterano Harry Horowitz (Dustin Hoffman), um amigo de seu falecido pai, com quem tem conversas aleatórias sobre assuntos de almanaque (como a quantidade de mercúrio presente nos atuns).
Enfim, Harry é como se fosse um segundo pai para ele. Com a van do veterano, a dupla vai para lá e para cá na cidade, afinando pianos de ricaços que nem tanto apreço assim pelo instrumento - aliás, o sonho de Niki era ter sido um músico de sucesso, mas justamente o seu excesso de sensibilidade para sons como o das teclas do piano, o impediu. Certo dia, na casa de um ricaço, Niki é atrapalhado por um trio barulhento de operários israelenses que tenta, em vão, abrir um cofre com furadeiras e outros instrumentos. Nesse contexto, o protagonista se oferece para abrir o compartimento de forma silenciosa, a partir dos discretos ruídos feitos pela roldana da estrutura de segurança do local. Um clique aqui e outro ali e ele alcança seu objetivo - aliás, mais um aprendizado obtido com a ajuda de Harry, que havia esquecido a senha de seu próprio cofre, anteriormente.
E, claro, em um filme assim, para que a narrativa avance e desperte algum interesse é necessário algumas conveniências de roteiro. Em uma delas, Niki conhece a talentosa pianista Ruthie (Havana Rose Liu) com quem trava uma espécie de disputa musical que, mais adiante, se converterá em amizade e... paixão, claro (duas pessoas lindas sempre estão desimpedidas em qualquer filme de Hollywood, sabemos bem). Com mais de 80 anos, Harry acaba tendo um ataque cardíaco em outro momento e, como não há SUS num dos piores países do mundo, o tratamento gera uma dívida milionária. Niki mal e mal tem dinheiro pra se manter. Que dirá pra apoiar seu tutor. Quer dizer, há a oferta feita por Uri (o ótimo Lior Raz) e que está na frase que abre essa resenha, que é dita após ele ficar embasbacado com o fato de Niki ser capaz de abrir cofres de forma silenciosa. O que desbloqueia muitas possibilidades para o trio de larápios que, ao cabo, vive de pequenos golpes em casas de endinheirados.
Em linhas gerais, essa é aquela produção bem estruturada, com começo meio e fim bem delineados e que se vale do carisma de seus personagens como uma de suas forças. Niki passa a trabalhar com Uri e seus capangas e não é preciso ser nenhum expert para saber que, mais adiante, a coisa sairá do controle - ainda mais com tantos cofres abertos e tantas joias (como relógios) e grana rolando. Para o jovem protagonista o trambique é eficiente por permitir pagar o tratamento de seu amigo Harry - ainda que a esposa do homem, Marla (Tovah Feldshuh), desconfie de que há um esquema por trás de tanto dinheiro. Com boas surpresas e excelentes reviravoltas no roteiro, a obra ganha um pouquinho mais de força na reta final, especialmente depois do surgimento de Maissner (Jean Reno), um notável maestro que promete um emprego à Ruthie. Bom, o finde tá aí e pra quem procura um filme sem muita invencionice para assistir em família, talvez esse seja o ideal. Tá na Amazon Prime e na Apple TV.
De: Charlie Polinger. Com Everett Blunck, Kayo Martin, Kenny Rasmussen e Joel Edgerton. Drama / Suspense, EUA / Austrália, 2025, 98 minutos.
Em uma das primeiras cenas de A Praga (The Plague), o jovem Ben (Everett Blunck) está tentando se enturmar com os colegas adolescentes do acampamento de polo aquático em que acaba de chegar. Ele ainda é o novato tímido de olhar curioso e está meio que tateando aos poucos, buscando algum ponto de segurança em um contexto que talvez seja um dos piores do planeta: o de ser o desconhecido em um bando de crianças na faixa dos 12 e 13 anos que, a despeito da falta de maturidade, comportam-se como sujeitos autossuficientes e, eventualmente, arrogantes. Ao chegar com seu prato de comida ele já ouve alguma gracinha sobre ter escolhido o sabor de suco errado (uva ou laranja, há algum que é melhor). Mas tudo piora quando o coletivo se dá conta de que Ben possui um tipo de transtorno de som da fala, que faz com que ele omita certos fonemas (no caso ali, da dificuldade em verbalizar a palavra stop, que vira algo tipo ssóp).
Claro que isso já será motivo pra muita gaitada - com a frente desse bullying ainda preliminar sendo puxada pelo pequeno Jake (o ótimo Kayo Martin) que, a despeito de seu tamanho diminuto e da pouca idade, possui uma alta capacidade de uso de deboche e de ironia. E a coisa só não é pior para os lados de Ben porque existe um outro aluno - seu nome é Eli (o também excelente Kenny Rasmussen), que é o alvo principal do grupinho ali. Chamado pelos demais de praga - por conta de um severo problema dermatológico que descama a sua pele -, Eli vive isolado pelos colegas, mas sem necessariamente se impactar com isso (o que talvez sugira que ele tenha algum outro tipo de transtorno, como, talvez, de espectro autista). Ele segue sua vida meio que normalmente, ignorando os demais - e não deixa de ser divertido perceber como o roteiro brinca com essa ambiguidade envolvendo a complexidade de sua personalidade por meio da inclusão de detalhes simples, como o uso do clássico musical noventista Run Away de Real McCoy, que escapa de seu fone de ouvido.
Aliás, importante dizer que a trilha sonora, nesse filme de estreia do diretor Charlie Polinger e que ainda não chegou às plataformas de streaming, é um espetáculo à parte, com suas notas cortantes, experimentais, frias e desconfortáveis. É ela que, em muitos momentos da narrativa, funciona como uma espécie de fio condutor das tensões, que parecem sempre prontas a emergir (mesmo que essas ocorrências nunca pareçam maiores do que uma risadaria abobada por um comentário torto ou até por uma ereção inesperada de um colega). Em certa altura, por exemplo, após resolver auxiliar Eli a passar uma pomada em suas costas, auxiliando-o na alergia, Ben é isolado pelos demais da forma mais cruel que pode haver quando o assunto é a prática esportiva: nas disputas de polo aquático, ninguém passa a bola pra ele. A mão esticada permanece vazia, no vácuo, reforçando a ideia de solidão em meio aos demais.
Porque o bullying, verdade seja dita, em muitos casos não é agressão constante ou apupo o tempo todo. É sutileza na arte de abalar a moral do outro - o que pode ser perturbador e trágico para quem está amadurecendo, formando sua personalidade e também a ideia de masculinidade. Aliás, uma obra como essa pode não ser uma bandeira tão ostensiva ao apontar o dedo para o problema da cultura redpill que coopta jovens inceis pelo mundo, mas funciona como uma espécie de embrião a deixar os adultos - aqui representados pelo treinador Wags (Joel Edgerton) - sempre atentos. Hábil, a produção não converte aqueles jovens em sujeitinhos maniqueístas que são bons ou maus o tempo todo, sem nenhuma variação no traço de comportamento. Jake pode até ser o mais pestinha, mas isso não faz com que ele ignore completamente o novato ou ensaie algum tipo de amizade meio desajeitada com ele. Já Ben, mesmo sendo um jovem vulnerável e candidato óbvio da humilhação e das intimidações vindas dos demais, nunca é apresentado como coitadinho. O que é evidenciado por sua complexa relação com Eli. Ao cabo, aqui temos uma obra que respeita a inteligência do espectador, sem entregar todas as respostas de mão beijada. "Você acha que pode ser você mesmo e não dar a mínima para que os outros pensam?", argumenta um revoltado Ben quase ao final do filme? É a reflexão que fica.
De: Louis Leterrier. Com Wagner Moura, Greta Lee, Riley Chung e Noah Alexander Sosnowski. Ficção Científica / Suspense / Drama, EUA / França / Reino Unido, 2026, 112 minutos.
Devo admitir que foram dois os motivos que me fizeram dar play neste A Última Casa (The Last House) - a despeito da maior carinha de "melhor filme dos últimos tempos da última semana", que daqui mais ou menos um mês mais ninguém lembra que sequer existiu. Primeiro de tudo a presença do Wagner Moura - e não tem como não ficar curioso em vê-lo atuando, ainda mais em Hollywood, após a bem sucedida temporada de premiações de O Agente Secreto (2025). Depois, a temática, já que adoro essas ficções científicas especulativas, em que imaginamos realidades alternativas e como nos comportaríamos frente a elas - sendo aqui, no caso, a ideia de uma família forçadamente presa dentro de sua própria casa por forças malignas, como numa junção entre filmes de terror B e o cinema, com uma boa dose de boa vontade, de Luis Buñuel. Tá, admito que forcei porque não tem como uma produção da Netflix de 2026 ter o caráter alegórico e crítico à elite endinheirada do realizador de O Anjo Exterminador (1962) e O Discreto Charme da Burguesia (1972). Talvez não caibam nem na mesma frase.
Na trama de pegada ambientalista - como muitas da atualidade, aliás -, uma chuva persistente meio que joga todo o mundo pra dentro de suas próprias casas, já que a perspectiva é de temporal feio (e como gaúchos moradores do Vale do Taquari, sabemos bem o temor que isso pode representar). Entre essas pessoas está Jason (Wagner Moura), um engenheiro desempregado que ocupa seus dias pescando e que, após se resguardar de uma tempestade ao lado da esposa Ann e dos filhos Graham (Noah Alexander Sosnowski) e Ruth (Riley Chung) se vê impossibilitado de abrir qualquer porta ou janela de sua residência típica de subúrbio estadunidense. O estranhamento inicial joga o quarteto para um grande janelão da sala, onde, num modo meio Janela Indiscreta (1954) - mas sem um crime acontecendo - eles constatam que seus vizinhos estão meio que na mesma. Ninguém pode sair por quadras a fio, como se todas as casas estivessem seladas pela própria água, que adquire um efeito isolante.
Com uma boa relação entre si, o casal e os filhos ficam inicialmente preocupados, mas nunca exasperados - já que imaginam que, em algum momento, a coisa será desbloqueada. Só que os dias passam e, como não poderia deixar de ser, sem poder ir no mercadinho da esquina ou na farmácia, os estoques de comida, de medicamentos e de outros itens de abastecimento básico, vão aos poucos escasseando. E junto com eles surge também o estresse que, inevitavelmente, nos remete aos tempos pandêmicos - na metáfora mais inicialmente óbvia, ainda que soe um tanto tardia e deslocada no tempo, vamos combinar. E tudo piora quando, pouco a pouco, os Delgado (sim, o sobrenome tem essa pegada meio espanhola, já que, onde já se viu o povo da Terra do Tio Sam entender que brasileiro fala português, né?) percebem que não podem mais chegar tão perto assim das portas e das janelas em dias de chuva já que parece haver criaturas meio malvadonas do lado de fora, sentimento reforçado por um brutal ataque a uma vizinha que se vê inesperadamente na rua.
Esse medo que não se sabe bem do quê e que é sugerido no transcorrer da narrativa - Governo? Alienígenas? Grandes corporações? Tecnologia? Devastação ambiental? Especulação imobiliária? - poderia ser melhor explorado em um roteiro um pouco mais imaginativo, que não fosse centrado apenas na rotina da própria família em uma tentativa desesperada de sobrevivência. O que faz, aliás, com que a solução final pareça apenas pálida, lembrando o que ocorre em filmes como os do M. Night Shyamalan, que nunca são ruins, mas que dificilmente conseguem ser completamente satisfatórios. Lá pelas tantas há um cansaço na repetição de ideais - de sustos, de sistemas integrados para a sobrevivência (com a criação de hortas domésticas improvisadas e "pescaria" de animais convenientemente capturados pelo hábil engenheiro Jason). Há, aqui e ali, um ensaio de algo que poderia dar bom, como no instante em que Jason e um de seus vizinhos investem em uma comunicação improvisada por placas - que poderia reforçar a crítica ao individualismo e à falta de senso coletivo de nossos tempos, que faz com que nos isolemos cada vez mais. Ou mesmo no momento em que a família recorre aos DVDs e aos discos de vinil como um aceno ao básico pra ser feliz - com direito a um belo instante ao som Close To Me, do The Cure. Mas, em geral, fica tudo meio que no quase, sem nunca empolgar de fato.
Vamos combinar que o mundo tá muito no erro quando uma banda bacana como o The XCERTS é simplesmente ignorada por tanto tempo. Bom, na lista de melhores discos de 2026 que você não ouviu, i think i want to gome home now (com minúsculas mesmo), o sexto registro de inéditas dos escoceses, tem lugar cativo. Com uma mistura saborosa de power pop e indie rock, com pitadas de noise e punk, o grupo faz música direta e sem firulas, que jamais soa apenas derivativa ou sem personalidade. Há ali uma urgência, um vigor que a gente quase esquece ser possível nos tempos atuais, em que gêneros musicais parecem tão mesclados (e que bom) e sem uma linha de divisão mais clara. Sim, sim, sim, não vai reinventar a roda e todos nós já ouvimos esse tipo de música melodiosa, que parece meio afogada em dor com seus vocais gritados e refrãos grudentos mas, verdade seja dita, é sempre bom ver a coisa bem feita já que, convenhamos, quem ganha é quem dá o play.
Repleto de letras existenciais e divagações contemplativas que, na real, sempre foram a marca registrada da banda - especialmente em discos de melodias mais atmosféricas, como no caso do ótimo Hold on to Your Heart (2018), que parece extraído da mesma fileira do The War On Drugs -, o álbum tem uma certa catarse em seu DNA. O que pode ser percebido, por exemplo, na desconfortável e pegajosa do it to myself, com sua letra urgente e vulnerável sobre admitir o sentimento de fragilidade (Quero saltar dentro do teu coração / Então eu posso desmoronar com segurança). Já a enérgica pretty ugly é naturalmente pesada, o que pode ser percebido para além da sonoridade, com seus versos sobres traumas familiares, decorrentes do diagnóstico de câncer do pai do vocalista Murray Macleod. Em linhas gerais, talvez esse seja um trabalho que não alcança o brilhantismo do inexplicavelmente esnobado There Is Only You (2014), que conta com as assombrosas Shaking in the Water e Teenage Lust. Mas chega perto.
De: John Carney. Com Paul Rudd, Nick Jonas, Marcella Plunkett e Peter McDonald. Comédia, EUA / Irlanda, 2026, 98 minutos.
Vamos combinar que casos de plágio, cópia ou apropriação de melodias ou letras, no mundo da música, não chegam a ser novidade. Recentemente, por exemplo, após a apresentação da Shakira na Copa do Mundo, voltou à baila a discussão sobre ela ter, supostamente, pego para si o famoso refrão da canção Waka Waka (This Time for Africa) que bombou em 2010 - e até aí estava tudo bem ao menos até a banda camaronesa Golden Sounds reivindicar os direitos autorais que envolvem a música Zangalewa, lançada em 1986 (e vale procurar na internet porque as semelhanças são impressionantes). Bom, disputas jurídicas à parte, ambos os lados chegariam mais tarde a um acordo, com a colombiana meio que jurando de pé junto que a apropriação não foi deliberada e que, sim, foi resultado de um processo criativo envolvendo um sem fim de experiências culturais e influências sonoras mundo afora.
Bom, corta pra 2026 e temos Hit Para Dois (Power Ballad), filme de temática semelhante, com um quezinho de Letra e Música (2007) - ao menos no que diz respeito ao carisma dos envolvidos -, em que sai o integrante da banda dos anos 80 decadente (o ótimo papel de Hugh Grant) e entra o músico Rick Power (Paul Rudd), que nunca aconteceu no mainstream, até mesmo por causa de suas escolhas pessoais e de vida. Com uma filha pra criar e casado com a ex groupie Rachel (Marcella Plunkett), Rick é um celebradíssimo vocalista daquelas típicas bandas covers de casamento, que fazem sucesso cantando, entre outras, Celebration do Koll and the Gang e Maneater, da dupla Hall and Oates. Mas no íntimo dele, ele ainda parece sonhar com algum tipo de estrelato - o que culmina na constrangedora sequência inicial, em que eles cantam uma canção genérica e autoral de rock anos 90 meio Soul Asylum e que meio que ninguém pediu, se deparando com o inevitável esvaziamento da pista de dança logo após.
E se na produção de Marc Lawrence tínhamos uma Drew Barrymore irresistível, que ajudava o protagonista a retornar ao estrelato, deixando para trás as apresentações em feira agropecuárias, aqui temos Danny Wilson (Nick Jonas, que interpreta alguém que talvez dialogue um pouquinho a mais com a sua persona da vida real do que o imaginado, já que ele nunca retornaria aos anos de ouro dos Jonas Brothers), um cantor famoso por integrar uma boy band no passado e que agora está empenhado em construir uma carreira mais sólida como um músico mais... sério, por assim dizer. Em um encontro meio despretensioso em um casamento em que Danny era amigo do casal, ambos não apenas cantam juntos no palco improvisado da festa - em um vídeo que viraliza -, como se juntam na mesma madrugada para uma sessão de maconha regada ao compartilhamento de trechos de músicas, fragmentos, letras espalhadas e refrãos diversos. Nada muito sério, ao menos até ali, que não fossem dois músicos bebendo e se divertindo.
Hábil na construção das cenas que envolvem a concepção musical - suas melodias, ritmos, composições -, o diretor John Carney, que tem uma longa tradição de filmes com temáticas sonoras, se alonga de forma confortável nesses instantes íntimos, de músicos dedilhando violões, mostrando trechos ou partituras e outros elementos que poderiam passar batido por quem não se liga tanto nesse campo. E é em um desses momentos que Rick mostra um pedacinho de How to Write a Song (Withou You), que tinha potencial para ser um hit e nunca foi, por essas vicissitudes da vida. Meses após, Rick está em um shopping center e tem a impressão de ouvir uma melodia bastante conhecida no rádio e que... parece bastante a música dele mesmo! Divertida e charmosa, a obra acerta por não vilanizar em excesso nenhum dos lados - talvez, assim como Shakira, Danny não tenha feito algo deliberado - não deixando de evidenciar como o desejo por fama pode fazer com que esqueçamos das coisas simples, ou daquilo que realmente importa. E, honestamente, não pensei que fosse concluir a sessão com lágrimas nos olhos. E aconteceu. Mérito de um projeto pequeno, que tem seu valor.
De: Julio Medem. Com Ana Rujas, Javier Rey, Alvaro Morte e Carla Díaz. Drama, Espanha, 2025, 126 minutos.
Quando concluí a sessão de 8 Décadas de Amor (8), o mais recente projeto do espanhol Julio Medem e que está disponível na Reserva Imovision, resolvi, de curioso, revisitar a resenha escrita por mim para Os Amantes do Círculo Polar (1998) - talvez o filme do diretor mais querido pelo público cinéfilo. Na primeira frase do texto, a seguinte sentença: "Coincidências, acontecimentos aleatórios, situações inesperadas. O mundo que parece às vezes dar uma volta inteira pra retornar ao mesmo lugar" - e, verdade seja dita, não deixa de ser interessante perceber como essas ideias seguem em vigor, quase 30 anos depois, nas obras do realizador. Em 8 Décadas de Amor - uma generosidade de quem concedeu o título em português, porque o correto seria nomear o filme de 8 Décadas de ÓDIO -, um casal tem suas vidas atravessadas por mais de oitenta anos de conflitos políticos, sociais, culturais, religiosos. Que nunca parecem solucionados - especialmente quando se está em espectros ideológicos (por assim dizer) opostos.
O amor nos tempos do cólera pode ser bastante complicado, já diria Gabriel Garcia Marquez. Mas não é diferente do amor nos tempos de guerra - ainda mais no caso da Espanha que, após a proclamação da Segunda República veria o País entrar em uma dura guerra civil que, de forma muito resumida, culminaria na ascensão ao poder do general Francisco Franco, que governaria a nação com mão de ferro de 1939 à 1975 (em uma ditadura complexa e repleta de controvérsias). Na trama, os personagens centrais Adela (Ana Rujas) e Octavio (Javier Rey) nascem no mesmo dia 14 de abril de 1931, uma data bastante simbólica já que esta marca justamente a proclamação da Segunda República Espanhola. Em lados políticos opostos - ele de família abastada e militar (que se tornaria adepta do franquismo), ela filha de professor e de origem humilde -, ambos terão seus destinos cruzados ainda na infância, quando o pai de Adela, integrante de um grupo revolucionário, assassina o pai de Octavio, durante uma pescaria.
Aliás, a frase dita pelo pai de Octavio - "para pescar algo bom é preciso paciência e esperança" -, meio que funciona como uma guia mestra para a narrativa. Uma metáfora para a nossa própria existência, com suas vicissitudes, medos, incertezas, desejos, anseios, coisas que ficam pelo caminho e sonhos que se concretizam ou não. Em linhas gerais um projeto que poderia ser cansativo e até confuso, dada a grande quantidade de saltos temporais, acontecimentos e reviravoltas, nunca deixa a peteca cair. Um mérito que também envolve o belo aparato técnico, com seus longos planos sequência, fotografia que se alterna entre o preto e branco dessaturado do passado e as cores vivas quase almodovarianas do presente, e o desenho de produção que parece bastante adequado a cada década apresentada. Com saltos no tempo entre os anos 40 até a atualidade, as vidas de Adela e Octavio se mesclarão em meio às feridas da ditadura franquista, traumas familiares que se espalham, transformações políticas e suas consequências e arrependimentos no que diz respeito à decisões tomadas.
E vale comentar que é só na quarta parte, já na década de 70, que o casal de conhece verdadeiramente, ainda que suas vidas já tenham sido cruzadas antes. Ela, em um casamento meio de fachada com um militar machista, ensaia uma outra vida possível em um trecho que, simbolicamente, é marcado por um momento em que ela dirige livremente ao som de uma versão de Be My Baby, das Ronettes, após fugir da Igreja (o feminismo se espalha em tempos de minissaia como alegoria para a revolução sexual). Ele, também insatisfeito com os rumos da vida, tenta de toda a forma se desvencilhar do militarismo tão traumático (ele estava no pátio de arma em punho no dia do fuzilamento do pai de Adela, em mais uma das tantas coincidências) e da ideologia de extrema direita com pendor reacionário, que tanto devasta sua família (sua mãe, por exemplo, tem um treco quando o rádio anuncia a morte de Franco). E sempre que tentam seguir em frente, o destino parece aproximá-los - com direito a um filho juntos, que também terá sua vida afetada por disputas políticas dos anos 90, que alcançam até ambientes supostamente lúdicos, como os do futebol. A cena final, em um almoço de família que termina em uma longa (e até engraçada) discussão, é a cereja do bolo de uma produção que aponta que, quando o assunto é o debate político, talvez só mude o País. Ou a década. Ou o século. E assim será eternamente.