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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Novidades em Streaming - A Terapia Certa (Lo Dejamos Acá)

De: Hernán Goldfrid. Com Ricardo Darín, Diego Peretti e Antonia Bengoechea. Comédia / Drama, Argentina, 2026, 98 minutos.

Devo admitir a vocês que fui assistir esse A Terapia Certa (Lo Dejamos Acá) com expectativas meio baixas - até mesmo pelo fato de o padrão Netflix de produção atual não empolgar - mas, verdade seja dita, me "diverti" bastante. E a palavra diverti vai entre aspas justamente por se tratar de uma comédia de humor negro com direito a uma série de reviravoltas, surpresas inesperadas, comentários engraçados e certo deboche enviesado a respeito dos tempos que vivemos - e, muito provavelmente, pra suportar a Argentina de Milei, só se for com muita terapia. E talvez não seja por acaso que, ainda no começo da obra de Hernán Goldfrid - do apenas médio Tese Sobre Um Homicídio (2013) - o psicanalista Ulysses Verón (o onipresente Ricardo Darín) pareça apenas resignado ao receber um prêmio de Excelência em Psicologia.

Em seu discurso, o sujeito lembra que a Argentina é o País com a maior quantidade proporcional de psicanalistas do mundo e que nos últimos anos o número de pessoas com transtornos duplicou - e arrisco dizer que essa não é exclusividade dos nossos hermanos. Da plateia, o renomado escritor Martín Bouchard (Diego Peretti) observa com atenção a fala de Ulysses, que recusa o prêmio após contar a história de um outro terapeuta, que se tratava justamente com ele, que abandona a carreira depois de anos de atividade, para morrer solitário de hipotermia. A tragédia poderia ser evitada? Quem cuida da cabeça do palhaço, quando não conseguimos mais sorrir? Bom, divagações a parte, o fato é que Martín, mesmo com uma carreira sólida na literatura, com elogios de público e crítica, está com um severo bloqueio criativo. Achando que Ulysses pode ser a solução.

 


O caso é que até o primeiro encontro de Martin e Ulysses - e é muito divertido ver a dupla Darín e Peretti em tela (a cena em que ambos dançam e se embebedam ao som de Careless Whisper, do Wham!, já está entre as menos esperadas e hilárias do ano) -, já percebemos que os métodos do segundo não parecem ser muito convencionais. Adepto de uma terapia meio que de choque, de confronto dos medos e paranoias, o terapeuta meio que conduz seus pacientes pela mão, auxiliando-os a tomar suas decisões no front de batalha. Por exemplo, a uma paciente que não consegue dialogar com sua mãe narcisista, ele decide por conta própria levá-la até a sua genitora para que conversem sobre. A uma outra, que está sendo traída pelo marido, determina que ela rompa essa "gaiola" em que se encontra presa e se liberte. As consultas aleatórias podem até invadir o cotidiano, como no caso das recomendações ao taxista infeliz com o casamento, que leva Ulysses ao programa de variedades da TV local, que ele participa semanalmente.

[SPOILERS A PARTIR DAQUI] No caso de Martín, o fato é que o alcoolismo tem atrapalhado o seu processo criativo - a despeito de a bebida ser um eventual indutor, como era com Hemingway e outros beberrões bons de copo. O atraso da entrega dos manuscritos à editora deixa o sujeito exasperado e, que solução poderia ser melhor do que simplesmente o terapeuta invadir a casa do seu paciente para escrever o livro em seu lugar, utilizando como matéria-prima suas próprias experiências como psicanalista? O escritor - o real e não o ghost writer - não percebe a maracutaia, ao menos inicialmente, por estar sempre bêbado (e. numa dessas. Ulysses consegue fazer cópias das chaves da residência do autor, onde ocorrem as sessões de terapia). E, bom, não é preciso ser nenhum expert em suspense de comédia pra saber que a coisa vai desandar. Ainda que Martín seja "curado", e O Pragmático, o mais novo e elogiado volume, venha a público.

 

 

No dia do lançamento do livro, Martin deixa a Ulysses um recado ambíguo: "esse é o resultado de segredos bem guardados". E para o público, cada nova curva da narrativa pode representar uma surpresa, como no momento em que o escritor liga para o seu terapeuta em um ato de desespero, junto ao parapeito de seu prédio. O caso é que O Pragmático se torna o melhor livro da carreira de Martín Bochard e, conforme sua desconfiança a respeito do processo criativo aumenta, também sobe a tensão a sobre a efetividade de um método terapêutico tão abusivo quanto eficiente. "Dos que vêm pedir ajuda nesse consultório, o que mais precisa de ajuda é você", observa, quase no final, a filha de Ulysses, Paula (Antonia Beongoechea), que é secretária do próprio pai e também estudante de Psicologia. É ela que começa a desconfiar do ocorrido e que tem papel importante na resolução. Ao cabo, trata-se de uma experiência curta e movimentada, de cores vivas e fotografia saturada à moda Netflix. Mas há um brilho aqui que talvez seja carregado pelos seus atores. E que talvez amplie a impressão de que o cinema argentino talvez seja maior do que é.

Nota: 7,0 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Tesouros Cinéfilos - Natal Amargo (Amarga Navidad)

De: Pedro Almodóvar. Com Bárbara Lennie, Leonardo Sbaraglia, Patrick Criado, Victoria Luengo e Quim Gutiérrez. Drama / Comédia, Espanha, 2026, 111 minutos.

Devo admitir que vejo certa beleza meio poética em ver artistas mais velhos permanecendo criativos e relevantes - seja o Clint Eastwood com mais de 90 anos andando de cavalo em um filme ainda recente, mesmo tendo mais de noventa anos, ou acompanhando os Rolling Stones lançando álbum novo em pleno 2026, mesmo com mais de 60 anos de carreira. Mas se a gente acredita que há um tempo ideal de aposentadoria para qualquer ser humano, por quê para quem trabalha com música, cinema, literatura, artes plásticas ou qualquer outro campo da criatividade deveria ser diferente? Bom, Natal Amargo (Amarga Navidad), o novo filme do diretor Pedro Almodóvar, um dos favoritos aqui da casa, parece ser bastante autobiográfico ao versar sobre o assunto que, aqui e ali, aparentemente perturba artistas que vão se aproximando da velhice, como é o caso dele mesmo, que está com 77 anos. Até quando seguir produzindo? É possível viver apenas do prestígio já acumulado por décadas?

Em entrevista à Vogue espanhola, o realizador famoso por uma série de clássicos - muitos deles resenhados aqui no Picanha, como Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos (1988), Carne Trêmula (1998), Tudo Sobre Minha Mãe (1999) -, admitiu que um dos maiores medos de quem trabalha no meio artístico é perder a capacidade de criar. O que parece estar no centro do comportamento de Raúl (Leonardo Sbaraglia), um renomado cineasta especialmente ligado a causas LGBTQIA+, daqueles que são tão relevantes que um simples convite para participar de um painel na Europa, significa o depósito de 200 mil dólares em sua conta. Ele já tem fama, prestígio, e poderia seguir para sempre no ostracismo, que não passaria fome. Mas ele está empenhado em um novo roteiro - justamente o de Natal Amargo (que é o filme dentro do filme) sobre Elsa (Bárbara Lennie), uma diretora de comerciais de TV, que sofre com severas e recorrentes enxaquecas.

 


A trama de Elsa se passa em 2004 e, em alguma medida, remonta à juventude do próprio Raúl, uma vez que uma série de eventos parecem inspirados em sua própria vida pregressa. Por exemplo, o atual namorado Santi (Quim Gutiérrez) surge em sua juventude como o bombeiro que faz um bico como stripper Beau (Patrick Criado), o namorado de Elsa que ela conheceu em um clube voltado às mulheres, em meio à despedida de solteiro de uma amiga. Convidado por ela para protagonizar um comercial de cuecas, se torna seu companheiro. Na busca pela cura das dores de cabeça, Elsa vai e vem em meio à consultas em hospitais, até a sua amiga Patrícia (Victoria Luengo) à conectar com uma psiquiatra, que lhe promete um medicamento meio milagroso de tarja preta, que lhe resolveria uma possível síndrome do pânico (e junto a enxaqueca). Que poderia advir de um tipo de processo de autossabotagem já que ela teria tentado, em vão, ser diretora de cinema no passado, com dois filmes atualmente (ou dentro dessa trama) considerados cults por um diminuto público, em sua carreira.

Aqui e ali o excesso de personagens - os da linha do tempo de Raúl ocorrendo vinte anos depois, em 2025 -, e as idas e vindas entre as duas histórias podem gerar uma leve confusão, em uma produção metalinguística que, nem de longe, alude aos melhores momentos de Almodóvar. Só que, ainda assim, verdade seja dita, o diretor segue sendo muito superior a muitos cineastas metidos a cabeçudos que andam por aí, em sua análise afiada de temas gerais ligados ao luto (nas duas histórias os personagens sofrem com perdas), processo de envelhecimento, conflitos relacionados às dores do corpo e da mente e até o ego dos artistas, com seus bloqueios criativos e mesmo autossabotagens. No filme dentro do filme, Elsa vai para o litoral passar férias, inspirada a escrever um terceiro filme, com uma série de personagens femininas e suas relações complexas surgindo na história, como é o caso de Natália (Milena Smit), que seria inspirada em uma amiga de Mónica (Aitana Sánchez-Gijón), a assistente de Raúl. Entre o inseguro e o incerto, o acomodado e o ambicioso, Almodóvar, pelo visto, pode ficar tranquilo: seu cinema ainda tem respaldo do público e da crítica.

 

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Novidades em Streaming - Pedaço de Mim (Mon Inséparable)

De: Anne-Sophie Bailly. Com Laure Calamy, Charles Peccia-Galletto, Geert Van Rampelberg e Julie Froger. Drama, França, 2024, 94 minutos.

"Isso é ter um filho diferente. Eu tento organizar as coisas, mas tudo que gostaria era de ter um filho 'normal'. Normal! Essa é a palavra proibida que não temos o direito de dizer. Normal! Era isso que eu queria!!". Em uma das cenas mais potentes, comoventes e dolorosas do ótimo Pedaço de Mim (Mon Inséparable), a protagonista Mona (a sempre ótima Laure Calamy, capaz de converter em bons, filmes que teriam tudo para ser apenas médios, como, Minhas Férias com Patrick, 2021) explode no meio da rua, com o seu candidato a namorado Frank (Geert Van Rampelberg). Em resumo, Mona está de saco cheio de ter de lidar com todas as responsabilidades que envolvem a criação de um filho neurodivergente - seu nome é Joël (Charles Peccia-Galletto), um homem já próximo dos 30 anos, com deficiência intelectual e, consequente, dificuldades de aprendizagem.

E não é que Mona não ame Joël - e desde o começo da premiada produção da diretora Anne-Sophie Bailly percebemos que a ligação entre os dois é quase umbilical, como fica evidente no diálogo dentro da piscina -, mas ela está cansada da vigilância, das opiniões, dos preconceitos velados. E também de certo desconforto como um todo, o que me fez lembrar da complexa relação entre pai e filho no ótimo e, para alguns paladares, chocante, livro de Cristóvão Tezza, O Filho Eterno. Assim como Mona na obra disponível na Reserva Imovision, na obra de Tezza o que parece haver é uma certa distância entre aquilo que se sente e o que deveria ser sentido. Não significa que ela rejeita o rapaz. Ela apenas está exausta, depois de anos assumindo sozinha as responsabilidades - ela é mãe solo -, aparentemente sentindo medo, culpa e sendo essencialmente humana ao notar que, aos cinquenta e poucos anos, a sua vida aos poucos se esvai.

 


Pode parecer meio cruel, mas o caso é que Joël simplesmente desapareceu naquela noite da discussão com Frank, após mãe e filho viajarem para a Bélgica como uma espécie de escape do mundo real. Mona conheceu Frank dias antes em um bar e tudo ficou meio complexo, por assim dizer. Ah, e eu quaaase ia esquecendo um pequeno detalhezinho que amplia as tensões entre todos ali: Joël frequenta um tipo de Instituição de apoio ao trabalho para pessoas com deficiência, local em que conhece a jovem Océane (Julie Froger) que se torna sua namorada. E engravida. Levando a produção para um outro patamar que é o da construção não apenas de vínculos afetivos entre PCDs, mas também da consolidação de suas vidas sexuais (e não deixa de ser interessante perceber a discrepância de opiniões entre os pais de Joël e Océane e a dos orientadores pedagógicos, que, não apenas naturalizam esse processo, o que é justo, como buscam estimulá-los como parte do senso de independência e de capacidade de decisão destes).

Nesse sentido, esse é um filme que parece pequeno, mas que procura evocar algumas discussões mais amplas. Vamos ser francos, a gente realmente não sabe como tratar pessoas com deficiência e há muitos tabus relacionados ao assunto. Em geral quase esquecemos de que há um ser humano ali, com desejos, sonhos, frustrações, medos - e que uma produção seja tão hábil em permitir reflexões sobre esses temas, é algo digno de nota. Outro mérito, algo apontado por Bailly em entrevistas, foi o de não deixar o diagnóstico de Joël claro para o público. O que faz com que também fiquemos meio perdidos nessa piscina ondulante de possibilidades que, dificilmente, possibilitarão uma redenção ou uma conclusão satisfatória. Sim, tanto em O Filho Eterno quanto em Pedaço de Mim a convivência, em meio a frustrações e ressentimentos, se torna um hábito. Superando a mesquinhez do amor imediato e incondicional a qualquer custo, abrindo margem para a também possível exaustão dos pais e a compreensão de seus comportamentos não para absolvê-los, mas talvez para entendê-los. Pode parecer meio árido, mas é extremamente eficiente.

Nota: 8,0


terça-feira, 13 de outubro de 2026

Novidades em Streaming - As Correntes (Las Corrientes)

De: Milagros Mumenthaler. Com Isabel Aimé González-Sola, Esteban Bigliardi e Emma Fayo Duarte. Drama, Argentina / Suíça, 2025, 104 minutos.

Vamos combinar que tudo parece meio misterioso no início de As Correntes (Las Corrientes) e, bom, como costuma-se brincar no meme, o final parece o começo. Afinal, na obra da diretora Milagros Mumenthaler parece haver mais um daqueles exames contemporâneos da classe média tendo de lidar com suas próprias angústias e frustrações, ao passo em que tenta tocar a vida com alguma normalidade. Em geral nada parece muito errado na rotina da protagonista Lina (Isabel Aimé González-Sola), uma jovem estilista em ascensão que, não bastasse estar recebendo um prestigioso prêmio em na Suíça, parece ter um marido compreensivo que lhe apoia, seu nome é Pedro (Esteban Bigliardi), e uma pequena filha amorosa, chamada Sofia (Emma Fayo Duarte), a despeito de uma ou outra queixa a respeito das constantes ausências da mãe por conta das suas obrigações no trabalho.

Como dito antes, no início é tudo um tanto enigmático, estranho e envolto em longos silêncios. Lina recebe uma estatueta, abandonando a homenagem e os aplausos para se refugiar no banheiro, onde descarta a honraria no lixo. Vagando por uma Genebra acinzentada, fria, mas inundada por barulhos urbanos - aliás, a edição de som é um dos destaques da produção, claramente sendo utilizada como alegoria para certos estados de espírito -, a protagonista toma uma drástica atitude: a de se atirar no caudaloso rio que corta a capital Suíça. O que para o espectador poderia sugerir certo pendor suicida, mais adiante parece ser apenas um ato impensado. Como uma energia que invade. Irresistível. "Rumo ao infinito, a um tempo suspenso, distante de tudo, com eu apenas me deixando levar", como explica à cabeleireira Amalia (Jazmín Carballo), após o retorno a Buenos Aires, sua cidade natal.

 


Na capital Argentina, Lina é bem recebida pelos familiares: os abraços da filha, o sexo quente, dedicado e terno do marido, os acordos sociais com a sogra. Mas há algo incomum que parece a cada momento mais evidente no olhar profundo e distante de Lina (com seus angulosos olhos claros), em seu silêncio observador, naquele estilo que nos faz comentar que alguém está em "outro planeta". E que é ampliado por um tipo de medo irracional da água que faz com que ela tenha receio de tomar banho - optando por esponjas umedecidas e toques sutis, a uma distância menos "perigosa". O que resulta no único sinal mais fisicamente visível em seu corpo, que é a oleosidade constante do cabelo, e as consequentes pequenas feridas vermelhas na nuca. As visitas à Amalia, por sinal, tem a ver com esse contexto: como cabeleireira, ela anestesia a cliente (ou paciente), o que permite higienizá-la de forma menos traumática possível. O que faz as escondidas.

[ALGUNS SPOILERS AQUI] Em linhas gerais quem já passou por crises de ansiedade ou mesmo por quadros de depressão sabe que os gatilhos podem ser desencadeados quando menos se espera e sem muita escolha - e, em minha análise, creio que Mumenthaler é muito hábil nessa leitura de mundo em constante movimento, imparável e inexorável, ao mesmo tempo em que lutamos com nossas sofrimentos interiores. E talvez não seja por acaso que, aqui e ali, a atenção de Lina seja desviada para sons ambientes rotineiros e constantes - máquinas de costura, britadeiras, carros no trânsito, bips que saem do videogame -, para fortalecer essa ideia de perturbação. Como um código a indicar a tensão. Lina parece feliz na fachada, mas o que fazer em meio a um pico de ansiedade que sequer lhe impede de ajudar a filha que grita no banho? Ou que faz com que ela tenha vontade de jogar tudo pro alto e fugir? Transtornos psiquiátricos a gente sabe muito bem, não escolhem rico, pobre, alto, baixo, gordo, magro. E aqui temos uma obra fragmentada borrada, talvez propositalmente instável, que não busca soluções. Mas que, com inteligência, elabora em cima de temas como sobrecarga feminina, exaustão emocional e papel da mulher na sociedade.

Nota: 8,0 

 

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Pitaquinho Musical - Chat Pile (Who Loves the Sun)

Sim, pode até parecer um papo de esquerda acomodada (ou cirandeira), mas se a arte pode ser um caminho no sentido de suprimir a dor dos tempos, porque não fazermos isso com um disco mais raivoso como o sensacional Who Loves the Sun, terceiro do Chat Pile? Naturais de Oklahoma, um dos tantos redutos conservadores e religiosos dos Estados Unidos, o grupo de noise rock e sludge metal capitaneado por Raygun Busch é declaradamente de esquerda antifascista, utilizando tanto sua sonoridade furiosa, como os vocais gritados, como forma de denúncia às estruturas de poder, às guerras, ao autoritarismo, à desumanização e ao avanço da extrema direita como um todo. E se nos ótimos anteriores God's Country (2022) e Cool World (2024) a mensagem fosse mais sutil, por óbvio que em um País governado por Trump a coisa precisa ser mais explícita, o que talvez torne esse o melhor álbum do grupo.

 


Todo esse expediente por ser percebido, por exemplo, na ótima PEN I S MALL, que começa no título da canção - que alude à alegoria da busca por certa compensação que envolve certos poderosos que se acham muito "grandes" de arma em punho -, passando pela melodia explosiva, até chegar à letra sobre alienação e a própria incapacidade de percebermos nosso próprio sofrimento, em um sistema de subordinação ao capitalismo tardio (É hora de trabalhar sobre o sal escaldante / É hora de estourar suas canelas / Greg é um cara, ele nunca bebe água / Greg toma café preto e Pepsi). Outro tema recorrente é a vigilância, especialmente em tempos de doomscrolling, de internet profunda e de channers, que borram os limites do uso da tecnologia. Algo percebido em canções excelentes como Deep Blue (sobre imersão em telas e consumo permanente de "informação"), Influence (a respeito de manipulação das redes por grandes corporações), Same Rules (sobre bolhas e isolamento social) e Intruder (a respeito de paranoia e ansiedade generalizada). Em resumo, é aquele disco pra colocar os fones, acompanhar as letras e começar a deglutir na base do ódio o que vem pela frente no Brasil.

Nota: 9,0 

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Novidades em Streaming - O Aniversário (Anniversary)

De: Jan Komasa. Com Diane Lane, Kyle Chandler, Phoebe Dynevor, Dylan O'Brien, Madeline Brewer e Zoey Deutch. Drama / Suspense, EUA, 2025, 112 minutos.

Não sou (e nem pretendo ser) pai, mas não deve ter nada mais amedrontador nos tempos modernos de channers, redpills e incels, do que ver seu filho seduzido pela extrema direita. Ou por ideias autoritárias quaisquer - que dificultam o diálogo, o respeito às diferenças e mesmo à democracia como um todo. Já vimos isso em produções recentes como O Jovem Ahmed (2019), dos Irmãos Dardenne, o francês Brincando Com Fogo (2024), e na série Adolescência (2024). Sim, e se uma das drogas mais pesadas da atualidade é a desinformação, que contribui para a derrocada institucional e para o avanço de uma tirania fundamentalista que mescla política e religião, obras como O Aniversário (Anniversary), que está disponível na Amazon Prime, vêm para nos relembrar do potencial destruidor desse fascismo que fagocita tudo a sua volta, como uma ameba gigantesca.

Em alguma medida, o cinema provocativo de Jan Komasa já havia aparecido no excelente Corpus Christi (2019), que foi o enviado ao Oscar pela Polônia naquele ano. Filmando nos Estados Unidos mais turbulentos do que nunca, aqui ele nos apresenta a uma pacata família de classe média que possui uma espécie de tradição: a de celebrar o aniversário casamento de Ellen (Diane Lane), uma professora universitária de verve democrata e Paul (Kyle Chandler), proprietário de um modesto restaurante, reunindo os quatro filhos para uma festança. Só que no evento que celebra as bodas de prata dos dois, o filho Josh (Dylan O'Brien) aparece com uma nova namorada: a misteriosa e bem educada Liz Nettles (Phoebe Dynevor) que, mais adiante, Ellen reconhecerá como uma ex-aluna da Universidade de Georgetown que havia lançado, oito anos atrás, um ensaio com ideias totalitárias em que defende que o Estado seja controlado por um único partido político - tendo os demais como inimigos declarados.

 


E como ousadia pouca é bobagem a nova nora não apenas presenteia Ellen com seu novo livro, um enorme tomo chamado de A Mudança: O Novo Contrato Social, como ainda coopta Josh para entrar para esse partido (ou ideologia) que, aparentemente recebe um caminhão de dinheiro de uma empresa de tecnologia e ciência chamada Cumberland (onde ambos trabalham), fazendo a festa da galera do QAnon que tá "cansada de tudo o que está aí", mas que na hora de melhorar a democracia fazendo-a evoluir, opta por acabar com a mesma democracia. Irritante de uma forma poucas vezes vista nesse ano - méritos de Dynevor, vista em Bridgerton - Liz é aquela pessoa de fala mansa, que vai avançando seus tentáculos pelas entranhas dos Taylor, contaminando todos a sua volta, para o bem ou para o mal - ainda que ela tenha pouca adesão com as demais irmãs de Josh, a advogada ligada a causas ambientais Cynthia (Zoey Deutch), a ativista e artista lésbica Anna (Badeline Brewer) e a jovem candidata a cientista Birdie (Mckenna Grace).

Após um salto temporal de dois anos, Liz anuncia que está grávida, ao mesmo tempo em que suas ideias tomam corpo - com os adeptos adicionando às fachadas de suas casas uma nova bandeira americana, que indica a adesão ao grupo. Para os "desviantes" - e qualquer semelhança ao Brasil da família Bolsonaro e seu forte apelo de agressão à minorias já vulneráveis por si só, não é mera coincidência - resta a perseguição política e a vigilância extrema de um Estado que passa a se comportar como uma versão 1984 à moda Partido Republicano (ou seja, bem real). Quando Anna realiza uma apresentação de stand up subversiva, provocativa e de resistência, ela é atacada tendo de fugir. E a cada novo encontro familiar dos Taylor, que sabe-se lá porque insistem em estar juntos, como se os laços sanguíneos representassem uma necessidade umbilical eterna, a coisa vai escalando. Piorando cada vez mais. Com todos devastados, deprimidos, mortos por dentro. A alegria de viver representada pelas cores fortes, de figurinos mais vibrantes, vista no começo do filme - mérito do desenho de produção - vai dando lugar aos tons acinzentados, sombrios, que revelam o estado de espírito de todos ali. Quando quase ao final toca pela segunda vez a música Don't Dream It's Over, do Crowded House, é impossível não marejar os olhos. Sem muito espaço para um final feliz, a experiência serve mais como um alerta do potencial absolutamente destrutivo causado pela extrema direita. Nunca amigos, parentes, vizinhos, estiveram tão distantes, tão brigados, tão desalentados. Uma dor que, ao que parece, custará a passar.

Nota: 8,5 

 

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Grandes Filmes Nacionais - O Céu de Suely

De: Karim Aïmouz. Com Hermila Guedes, João Miguel, Georgina Castro e Zezita Matos. Drama, Brasil, 2026, 88 minutos.

"Compra minha rifa. E é uma rifa de quê? De uma 'noite no paraíso.". Existe uma expressão que cunhei para definir o tipo de experiência vista em filmes como O Céu de Suely, que é a do Brasil do Asfalto. É aquele tipo de narrativa de calor escaldante, da beira da estrada, do posto de gasolina, do trilho do trem, do caminhão barulhento que passa e das cidades milimetricamente periféricas, pequenas e urbanas, que a gente vê não apenas no cinema, mas também em obras literárias, como as do Marçal Aquino, ou em músicas populares, radiofônicas, bregas e sentimentais que vemos justamente na trilha sonora - como é o caso da versão de Everything I Own, da Diana, que em português recebeu o título de Tudo Que Eu tenho. No caso, esse espaço rodoviários, isolado costuma fugir um pouco do estereótipo do Nordeste arenoso, agreste, que povoa nosso imaginário, sendo próximo de urbe popular da praça, do motel, do karaokê, da rádio, da pirataria.

Disponível na Netflix e vencedora de diversos prêmios, a produção de Karim Aïnouz remonta a um período supostamente feliz do Brasil - o dos primeiros governos Lula, com certa esperança por um futuro melhor, mas que nem sempre parece alcançar aquela parcela mais vulnerabilizada da sociedade que, longe dos herdeiros, bem nascidos e endinheirados, luta uma luta meio que diária. Sim, se pra nossa esquerda mais caviar o Flávio Bolsonaro parece um filme de terror catastrófico de extrema direita, pras pessoas que acompanhamos nesse pequeno clássico moderno, esse fascismo tropical parece ser meio que parte do cenário há uns 500 anos. E é justamente a desesperança, o abandono e a busca por condições melhores de vida, que faz com que Hermila (Hermila Guedes), rife o próprio corpo na tentativa de comprar uma passagem de ônibus para Porto Alegre, no eterno sonho do Sul do Brasil como um idílio de riqueza, de abundância e de trabalho a ser alcançado.

 


Quando a obra começa, Hermila está retornando para a sua cidade natal, a pequena Iguatu, no interior do Ceará. Acompanhada do seu filho, Mateuzinho, a jovem de apenas 21 anos aguarda a chegada de Mateus, seu namorado e pai do menino, visto em uma imagem borrada e dessaturada do casal em clima de romance, na abertura do filme. Na chegada, a protagonista é recebida de forma carinhosa pela tia Maria (Maria Menezes) e pela avó Zezita (Zezita Matos). No local, Hermila reencontra antigas amizades, como João (João Miguel), um motoqueiro apaixonado que ronda a jovem em suas andanças, além da divertida prostituta Georgina (Georgina Castro), que será uma espécie de conselheira para a tal "noite no paraíso" - o ambicioso prêmio da rifa que Hermila resolver organizar com os locais, após tentativas pouco efetivas de comércio de números com outros prêmios, como garrafas de uísque, e do sumiço sem muita explicação de Mateus, que mal atende suas ligações (feitas num orelhão, só pra adicionar uma pitada a mais nessa semiologia urbana).

Quando a notícia da rifa de Hermila se espalha, as famílias de bem ficam meio que em choque - especialmente após as compras movimentarem a cidade. Ao descobrir o segredo do dinheiro que aumenta, Zezita inquire a neta: a esbofeteia, obrigando-a a se desculpar (e, verdade seja dita que se essa fosse uma produção dos dias de hoje, muito provavelmente o componente Igreja Evangélica, com todo o seu conservadorismo sombrio, seria ainda mais forte). Afetuosa, divertida e naturalista, essa é uma obra que comove, nos fazendo refletir sobre um dos tantos Brasis que está longe demais das capitais, dos nossos olhos, ouvidos, tato. Um dia após a completa derrota do campo progressista nas eleições 2026, O Céu de Suely, que completa 20 anos de lançamento em novembro, é um lembrete: uma vida melhor se faz resolvendo questões práticas. Diárias. Ter o que comer, onde dormir, um trabalho que permita empreender. Acolhimento em alguma medida. Qualidade de vida. Não pensava que uma obra desse tipo, um das 100 melhores da lista da Abraccine, funcionasse também como parte do processo de autocrítica. Mas funciona.

 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Novidades em Streaming - O Fim da Rua (The End of Oak Street)

De: David Robert Mitchell. Com Anne Hathaway, Ewan McGregor, Maisy Stella e Cristian Convery. Aventura / Ação / Suspense / Drama / Ficção Científica, EUA, 2026, 99 minutos.  

Vamos combinar que talvez tudo aquilo que A Última Casa (2026) desejasse ter sido, em termos de "filme sobre uma família em busca da sobrevivência após eventos estranhos começarem a acontecer", O Fim da Rua (The End of Oak Street) é. Sim, a obra de David Robert Mitchell (do estranho O Mistério de Silver Lake, 2018), que chegou nesta semana para aluguel nas plataformas, tem aquele típico cheirinho de nostalgia, não apenas pelo fato de a ação se passar no ano de 1982, mas também pela mistura meio Jurassic Park (1993) se tivesse sido dirigido, sei lá, pelo John Hughes, que recupera o subgênero dos dinossauros que, ao menos na minha bolha cinéfila, andava meio esquecido. E, assim como acontece, por exemplo, em uma comédia romântica, nos filmes de ação e de aventura a coisa tende a funcionar mais se nos importamos com aqueles que vemos em tela. E, não sei se são os tempos brutos, truculentos em que vivemos, mas eu torci para um caralho para que todos ali tivessem um final feliz.

Afinal, obras desses segmentos costumam ter também em seus DNAs algum tipo de metáfora sobre dar a importância para as coisas simples, respeitar as diferenças, abraçar oportunidades ou mesmo acreditar na força dos vínculos entre seres humanos diferentes. Na potência da coletividade, enfim. É um filme que não poderia ser mais distante de qualquer tipo de panfleto - e, que bom, como havíamos falado na resenha de Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte (2026), nem tudo precisa ser sobre política o tempo todo -, mas capaz de estabelecer forte vínculo com o espectador. Os dinossauros aqui podem até não ser alegoria simbólica para o capitalismo tardio, para o aquecimento global, para pandemias ou o avanço da extrema direita em todos os seus preconceitos. Mas ainda assim opera como uma ameaça mobilizante, capaz de tirar a família liderada por Denise (Anne Hathaway) e Greg (Ewan McGregor), no auge de seus carismas, da zona de conforto.

 


Na trama, a dupla vive uma vida mais ou menos confortável, ao lado dos filhos Brian (o excelente Cristian Convery) e Audrey (Maisy Stella), em um bairro de classe média de uma cidadezinha do Michigan. Nas aparências pode estar tudo meio perfeitinho, com seus gramados e cerquinhas brancas, mas tanto Denise quanto Greg têm os seus segredos. Ela tem escrito às escondidas, no porão da casa, um livro de autoficção em que verbaliza a insatisfação de uma dona de casa em sua vidinha ordinária - o material bruto é acompanhado por uma vizinha veterana, espécie de conselheira de Denise. Já Greg perdeu o emprego há mais de uma semana e finge estar fazendo um bico numa pizzaria para levantar uma grana extra, quando na realidade este é o único trabalho no momento - ofício, aliás, que envergonha a esposa. Para os filhos, a instabilidade dos pais se espalha pelas frestas, gerando tensões domésticas antes que tudo piore, verdadeiramente.

Em linhas gerais por mais que essa seja uma experiência que vai desembocar em uma séria tragédia - depois que o bairro entra em uma espécie de looping temporal ou buraco de minhoca que o leva meio que para a pré-história, de forma inesperada (e não esperem muitas explicações científicas sobre, que aqui não é o caso) -, não são poucos os instantes leves, de humor e afeto e feitos com equilíbrio. O que permite que o ânimo do espectador flutue de forma imprevisível - e que faz com que num momento estejamos rindo quando uma enorme pilha de cocô de dinossauro meio que brota na casa do vizinho; em outros entremos em pânico com, sei lá, um estegossauro ameaçador que surge do nada; para mais adiante nos comovermos quando todos se salvam no último segundo. Com tudo virando com a inesperada cena de uma dupla de dinossauros, digamos... acasalando - instante em que Greg pede para Denise tirar uma foto (antecipando os influencers de tragédias que habitam nossos tempos). Divertido, tenso, emocionante, por vezes até meio bobo e ainda uma espécie de homenagem a um cinema que rondava as telonas há cerca de trinta ou quarenta anos. Podem ir na fé.

Nota: 8,0 

 

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Pitaquinho Musical - Phoebe Bridgers (Lost Weekend)

Vamos combinar que, muito provavelmente, nem o mais otimista dos ouvintes de Punisher (2020), elogiado disco anterior de Phoebe Bridgers - e nosso sexto colocado na lista de melhores daquele ano -, seria capaz de incluir no bingo de possibilidades para o novo álbum da artista, Lost Weekend, uma canção "alegre e de amor". Mas aconteceu e ela se chama Bobby, um singelo tributo ao seu novo crush, o (ótimo) comediante Bo Burnham, que aparece não apenas nas letras repletas de homenagens, mas também contribui em algumas das composições - afinal, ele também é músico. Sim, quem se acostumou ao estilo taciturno, evocativo e quase sombrio da californiana, com seus dedilhados econômicos e voz sussurrante, talvez se surpreenda com esse lado mais ensolarado - ainda mais depois do falecimento do pai, de quem ela não era tão próxima, e do término meio traumático de relacionamento com o ator Paul Mescal.

 


Mas o fato é que Bridgers tem essa habilidade meio única de, aqui e ali, divagar sobre luto e perdas, mas também sobre paixões e conquistas de forma coesa - em alguns casos até na mesma música, que nos arremessa de lá para cá, muitas vezes saindo da sutileza para a exaltação sem tempo para respiro, como é o caso da assombrosa (com o perdão do trocadilho) Haunted. Ainda assim, por mais que haja uma série de instantes calorosos, as marcas registradas da artista - seu vocal que contrasta suavidade e grito; passando pelas melodias granuladas, poeirentas, oníricas; até chegar às letras cheias de ironias (Eu era a mais bela / do Governors Ball / Escondida no banheiro / Que nem a Shelley Duvall) - seguem intactas. Em entrevistas, Bridgers afirmou ter receio de estar ficando literal demais ou talvez perdendo certo cinismo em sua poética. Terá o amor a ver com isso? Se depender dos fãs e também da crítica que a abraçou, inclusive em sua incursão pelas Boygenius, seu legado segue intacto. Se estiver na dúvida, comece por Lost Boys. E siga o coração.

Nota: 9,0 

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Novidades em Streaming - Mirrors No. 3 (Miroirs No. 3)

De: Christian Petzold. Com Paula Beer, Barbara Auer, Enno Trebs e Matthias Brandt. Drama / Suspense, Alemanha, 2025, 86 minutos.

Devo admitir que eu entendo o espectador eventual que fica frustrado com filmes como Mirrors No. 3 (Miroirs No. 3) - a nota média do público é 53 no Metacritic -, a mais nova produção do sempre acima da média Christian Petzold, e que está disponível na Reserva Imovision. Sim, a impressão que dá é que meio que nada acontece nessa obra essencialmente econômica, contemplativa e bucólica, a respeito de uma jovem de nome Laura (Paula Beer, colaboradora habitual do diretor) que, após um grave acidente em uma estradinha vicinal de interior, se "muda" para a casa de Betty (Barbara Auer), que reside há alguns metros da tragédia. Levando ao limite o estilo pautado por silêncios e movimentos vagarosos, em que olhares podem dizer muito mais do que palavras - como já visto, por exemplo, nos excelentes Phoenix (2014) e Afire (2023) -, o realizador parece ter ainda mais calma para entregar aos poucos os eventuais segredos que talvez liguem aquelas mulheres que nem se conhecem.

Quando passa de carro acompanhada por um casal de amigos e pelo namorado que morre no acidente, Laura se vê estranhamente conectada pelo olhar de Betty - ambas chegam a virar o pescoço para seguirem se observando para além da próxima curva. A jovem protagonista é uma estudante de música da Universidade de Artes de Berlim que parece deprimida, em seu comportamento errático, caminhando silenciosamente pela beira do rio com roupas maltrapilhas - o desgosto se amplia quando ela perde sua bolsa, sendo justamente no retorno para casa, que o acidente. Por um daqueles milagres, Laura sofre apenas leves arranhões, sendo impelida a ficar na casa de campo de ares primaveris, com a cerquinha branca a ser pintada e a horta de plantas não convencionais pronta para ser reformada. E por mais que Betty estranhe o comportamento de sua nova moradora, o inverso também ocorre já que não são poucas as vezes em que Laura observa a anfitriã sozinha a noite, na rua, olhando para o nada de forma taciturna.

 


[ALGUNS SPOILERS A PARTIR DAQUI] Fosse um filme de suspense bem apegado aos clichês do gênero e já saberíamos que coisas estranhas poderiam acontecer naquela casa. Mas tudo é mais simples do que parece - ainda que envolto em mistérios e coincidências. Quando Betty convida o marido Richard (Matthias Brandt) e o filho Max (Enno Trebs) para um almoço em que apresentará a convidada, as peças do quebra-cabeças começam a ser formadas: traumatizada e enlutada, aquela família ainda se ressente de ter perdido uma filha de idade próxima a de Laura e que talvez fosse não apenas semelhante fisicamente à ela, mas também mantivesse certos hábitos parecidos (como o apego às artes, evidenciado pelo gosto pelo piano). Para os dois homens, mecânicos rústicos, ocupados com consertos na casa - como da lava-louças e outros equipamentos -, toda aquela cena gera desgosto. Betty parece ter severos distúrbios psicológicos que a presença da jovem não ajuda a sanar. Vizinhos curiosos circulando pelo entorno pouco ajudam, com as tensões, ainda que leves, se acentuando conforme os dias passam.

Mas essa não é uma obra, como já dito no começo da resenha, sobre grandes acontecimentos. E sim sobre como a experiência humana pode ser complexa, imprevisível e capaz até de ser reparadora em espaços que menos se imagina. Quem nunca andou pelo meio rural, por exemplo, e foi acolhido por alguma família do campo que ofereceu frutas, água fresca e um espaço para descanso, para respiro? Em tempos em que pessoas vivem suas vidas como máquinas apressadas, reféns do pior do capitalismo tardio, talvez Laura só desejasse parar um pouco. Desacelerar. Contemplar. Aparentemente a sua relação com o namorado não era das melhores - ela fica indiferente ao fato, quando Max lhe pergunta sobre a perda ou a respeito de o quão triste ela está. Em geral não são fornecido mais detalhes. Toxicidade? Violência? Redpilagem? Não temos como saber. Mas ao passar a borracha nos fatos do passado, a jovem se permite abrir um meio sorriso no take final. Talvez ela possa ter sido curada. E aquela família também, ainda que tanto ela quanto a filha, jamais sejam esquecidas.

Nota: 8,0 

 

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Pérolas da Netflix - As Linhas Tortas de Deus (Los Renglones Torcidos de Dios)

De: Oriol Paulo. Com Bárbara Lennie, Loreto Meuleón, Eduard Fernández, Pablo Derqui e Samuel Soler. Suspense, Espanha, 2022, 155 minutos.

Quem acompanha a carreira do diretor Oriol Paulo sabe que seus filmes costumam ser experiências vertiginosas, novelescas, cheias de reviravoltas e de quebras de expectativa que, em alguma medida, exigem do espectador uma boa dose de suspensão da descrença. Foi assim com os enigmáticos Um Contratempo (2016) e Durante a Tormenta (2018), valendo o mesmo para o curioso As Linhas Tortas de Deus (Los Renglones Torcidos de Dios), uma daquelas pequenas joias escondidas na Netflix e que servem direitinho para uma sessão de final de semana, que renderá boas discussões em família, assim que os créditos subirem. Sim, o título pode passar uma energia meio cinema gospel, mas as tais "linhas tortas de Deus" tem um significado mais metafórico que, em alguma medida, permite explicar o comportamento de seres humanos complexos, disfuncionais ou marginalizados que, em muitos casos, ocupavam no passado os chamados sanatórios ou outras casas para o tratamento de pacientes psiquiátrico.

A propósito, é em um desses espaços - o sanatório Nossa Senhora da Fonte -, que se passa toda a trama, que é inspirada em romance homônimo do escritor Torcuato Luna de Tena. O ano é 1979, e a delegada Alice Gould de Almenara (a elegantíssima Barbara Lennie) chega ao local com um objetivo secreto, que ela esconde dos médicos e responsáveis: investigar um possível assassinato ocorrido um ano antes, quando um jovem chamado Damian morreu misteriosamente na Instituição. Sem provas definitivas os diretores do espaço - entre eles Samuel Alvar (Eduard Férnandez), que tem implementado uma metodologia que permite mais liberdade aos internos, com contato com a natureza, espaços para exercitar a criatividade e outros -, alegam que Damian teria se suicidado e que o caso estaria encerrado. Isso até o pai de jovem, Raimundo del Olmo (Lluís Soler / Joan Crosas), solicitar à Alice que fizesse uma investigação, acessando os arquivos do local, e levantando novas evidências.

 


Como mencionei lá no começo, para o espectador já acostumado às produções de Paulo, evidentemente as coisas não serão tão simples assim. Quando começa a "trabalhar" em segredo no sanatório, a investigadora esconde sua real identidade de figuras como a doutora Montserrat (Loreto Mauléon) ou do médico Teodoro Ruipérez (Federico Aguado) - a quem explica que foi enviada ao local por recomendação do próprio marido, Heliodoro (David Selvas), após tentar envenenar este por três vezes seguidas (até por que ele teria a intenção de ficar com seu dinheiro). Claro, tudo parte do estratagema montado para tornar a sua entrada no local fidedigna - o que envolve ainda um terceiro homem, um certo doutor Donadío. Em meio ao estranhamento generalizado ao se deparar com os internos Gnomo (Luis Sacristán), Homem Elefante (Francisco Pastor) e os gêmeos Rômulo e Remo (Samuel Soler), Alice conhece e faz amizade como um certo Ignacio (Pablo Derqui) que, é um dos suspeitos descartados do crime, por sofrer de hidrofobia (medo irracional da água).

[SPOILERS A PARTIR DAQUI ] Claro, pode haver aqui e ali um excesso de informações e de personagens, o que exige do espectador uma atenção total não apenas aos diálogos, mas aos objetos cênicos, figurinos e acontecimentos que ajudam a fornecer pistas do que realmente possa estar acontecendo lá e quais os segredos envolvidos. Quando uma tragédia acontece e mais um interno acaba morto, Alice passa a ter sua sanidade questionada - especialmente quando nada que envolve seu passado parece fazer sentido (com os fatos, aos poucos, sendo revelados). Alice seria uma espécie de Leonardo Di Caprio em Ilha do Medo (2010), com todos a sua volta mentindo ou ela é de fato uma investigadora com um objetivo bem definido? Logo no começo, uma carta de recomendações faz uma espécie de alerta que vale para quem assiste e que pode ser a chave de tudo: é importante não acreditar em que tudo o que a protagonista diz, com sua eloquência intrigante, intelecto evidentemente superior e certo pendor pra mitomania. Capaz de manipular os demais, ela pode estar apenas mentindo. Usando suas habilidades, charme e elegância sedutora. Ou não. Vai ver ela é só uma doidinha, com suas maluquices - e talvez o comportamento nada amistoso de Samuel reforce essas ideias. Enfim, tudo isso é parte da diversão nessa experiência envolvente, que nos arremessa de cá para lá a todo instante, com idas e vindas no tempo que embolam passado, presente e futuro, e que ainda deixam uma série de questionamentos no ar. 

 

Pitaquinho Musical - Weezer (Gold Album)

Muito provavelmente os mais novos nem saibam disso, mas no final dos anos 90, em programas da MTV como Garganta e Torcicolo e Gordo a Go-Go, o apresentador João Gordo - sim, o líder do Ratos de Porão - costumava ter uma espécie de mantra que ele volta e meia repetia, em alguma eventual discussão musical: "quem não gosta de Weezer bom sujeito não é". E, por mais que não dê pra falar em retorno às origens da banda de Rivers Cuomo e companhia - até mesmo porque o estilo musical meio que nunca mudou muito, com a sonoridade entre o power pop e o indie rock preservada e e as letras existencialistas sobre as dores do homem médio romântico, intelectual e moderno intactas -, o fato é que a produção recente pouco empolgava, como atestam o medonho Van Weezer (2021) e a totalmente descartável coletânea de EPs SZNZ (2022).

 


E, bom, pra quem em pleno ano da graça de 2026 ainda sonha com um reboot de Pinkerton (1996), talvez Golden Album, o décimo sétimo (sim, pasme) disco dos californianos possa ser um bom caminho para esse tipo de nostalgia musical - ainda que, com mais de 30 anos de carreira, todos ali estejam muito mais experientes, com outros dilemas para além de frustrações sexuais adolescentes e incertezas generalizadas. Peguemos como exemplo o single We Might as Well Be Strangers que, com participação de Karly Hartzman dos incensados alternativos do Wednesday, e que é uma canção tão hedonista à Weezer do Velho Testamento, que não faria feio talvez no Green Album. Já a divertida Hoops, faz a crítica as burocracias tecnológicas da era moderna, ao narrar as desventuras de um sujeito que apanha pra usar objetos simples do cotidiano, como torradeiras ou ferros de passar. Ao cabo, não se trata de reinventar a roda. É apenas o Weezer sendo direto, em dez músicas e um pouco mais de 30 minutos de duração - o que na era do fan service é um baita acerto.

Nota: 8,5 

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Cinema - Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte (Teenage Sex and Death at Camp Miasma)

De: Jane Schoenbrun. Com Hannah Einbinder, Gillian Anderson e Jack Haven. Comédia / Suspense / Drama, Canadá / EUA / Reino Unido, 2026, 112 minutos.

Existe um diálogo em Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte (Teenage Sex and Death at Camp Miasma), que talvez seja central pra compreender as ideias que se espalham pela excelente nova obra da diretora Jane Schoenbrun. Nela, a jovem diretora Kris Williams (a sempre ótima, divertida e carismática Hannah Einbinder) divaga sobre o papel decisivo da franquia de filmes slasher Camp Miasma na sua formação - destacando especialmente o olhar da protagonista e toda a carga simbólica sobre gênero ou representações identitárias difusas, que são emanadas por esse rosto em close. Sua interlocutora é a própria Billy Presley (Gillian Anderson que, se o mundo fosse justo seria lembrada com uma indicação à coadjuvante no próximo Oscar), que foi a protagonista do primeiro filme da franquia, portanto a dona do olhar, e que está sendo visitada por Kris para um convite para um possível reboot, recomeço ou como quer que chamemos em tempos de pouca originalidade de estúdios e um apelo generalizado à uma nostalgia quase infantilizante.

Sensual, estranha e meio durona, Billy responde: "existem filmes que são apenas sobre carne e sangue". E é isso. Na produção de Schoenbrun - que já havia chamado a atenção no anterior I Saw the TV Glow (2024) -, Kris é aquele tipo de realizadora que parece a pessoa ideal para oxigenar uma franquia oitentista machista e transfóbica, mas de alto potencial lucrativo por sua memória afetiva: ela fez barulho em Sundance, foi tema de uma série de matérias e entrevistas em sites independentes e realiza um tipo de cinema queer ou, vá lá, woke (para desespero do cidadão de bem de extrema direita), que pretende ser mais inclusivo em tempos de Black Lives Matter, #metoo e outras campanhas em favor de minorias. A participação de Billy, atualmente uma senhora excêntrica e reclusa à moda Norma Desmond de Crepúsculo dos Deuses (1950), que abandonou a carreira depois da estreia de sucesso do primeiro Camp Miasma é uma espécie de "plus a mais" sugerida pela produção - o que para Kris é uma baita mão na roda, já que ela sempre foi apaixonada pelos filmes antigos, que assistia desde quando era criança.

 


Kris quer repaginar a franquia, que tem como vilã central uma jovem transgênero que leva o apelido de Little Death e que usa um estranho capacete que lembra um duto de ventilação de teto, daqueles quadradinhos (papel de Jack Haven), atualizando-a de acordo com a agenda atual. Ela, como diretora de causas LGBTQIA+ parece a pessoa indicada. Só que tem um problema: Billy parece com pouco saco para esse papo, o que faz com que ela dê uma espécie de aula particular à jovem diretora, que alude a autoras como Linda Williams, que muito já teorizou sobre os gêneros do corpo - e como eles são capazes de, para além de fazer com que o filme seja objeto de simples contemplação, sejam também veículo para sentir, sofrer, ou secretar. Em resumo, Linda sugere em ensaios como Film Bodies: Genre, Gender and Excess (1991) que, em certos filmes, é necessário que alguma coisa simplesmente aconteça com o nosso corpo: choro, sangue, gozo e outros fluídos que decorrem de reações afetivas do espectador. De sobressaltos, de repulsa, de excitação, de gritos, de violência, de sangue, de vísceras. Uma coisa mais direta e eventualmente, para a crítica mais purista, pode ser considerada mais baixa, vulgar ou profana.

Sim, apesar de já ter feito dois cursos de cinema, além da formação em Jornalismo, não é a minha ideia aqui ficar dando carteiraço sobre autores e suas ideias e como elas se relacionam com essa obra, mas no diálogo que inicia essa resenha pensei imediatamente nesse contraponto entre aquilo que se considera cinema de arte - hermético, reflexivo, contemplativo -, e essas produções mais frontais, como eram os slashers dos anos 80 e 90 e como eles foram importantes, para o bem ou para o mal, para a nossa formação. Por mexerem conosco fisicamente - por nos deixarem tensos, enojados, excitados (e confesso que nunca mais esqueci o quão desestabilizado fiquei ao assistir, por exemplo, à franquia Poltergeist na minha adolescência). E, por mais que haja no centro dessa brilhante joia do cinema independente, que estreia semana que vem na Mubi, um subtexto geral sobre libertação feminina, autonomia sobre o próprio corpo, subversão de expectativas de gênero, recompensas e até de papel da religião, do patriarcado e do moralismo generalizado dos nossos tempos, o filme também homenageia, de fato, essa era de filmes mais simples, mais carnais, mais afrontosos. Em que a depravação e a liberdade - curiosamente desejadas por Kris como uma espécie de "cura" orgásmica (quase uma pequena morte, o que é só mais uma sacada inteligente do roteiro) para os freios relativos a sua sexualidade - são vistas como o oposto do recato, da virtude, e de certa higiene quando o assunto é o tesão.

 

 

Em linhas gerais, o caso é que eu poderia ficar horas e horas falando desse filme e nunca seria o suficiente para contemplá-lo no todo. De sua abertura absurdamente original e divertida - que, desde já entra para o panteão dos grandes começos -, com o vasto sucesso de Camp Miasma sendo recuperado em cartazes do filme, burburinho da mídia, artigos, brinquedos, objetos de uso doméstico, jogos de videogame, discos, revistas, charges e polêmicas; passando pelos ótimos diálogos cheios de easter eggs metalinguísticos ("Tem mais alguém na casa? Tipo, sua mãe empalhada no quarto, só pra dar um exemplo aleatório?"); até chegar ao desenho de produção onírico e vibrante (ainda que grande parte do filme se passe em uma propriedade isolada, na neve e no meio do nada) e à trilha sonora de Alex G, com outros nomes como Andy Shauf e Counting Crows (sim, e em uma das melhores sequências, diga-se), tudo funciona bem. Engraçado (juro que já soltei uma gargalhada nos primeiros trinta segundos e vocês saberão por quê), sensual, tenso, surrealista, romântico em alguma medida e cheio de possibilidades interpretativas, esse é um projeto que nunca se encerra quando os créditos sobem. É para ver e rever. E continuar vendo eternamente. Exatamente como fazemos com os filmes de nossa infância. Alguns deles repletos de sangue, suor e lágrimas.

Nota: 10 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Pitaquinho Musical - Antropoceno (No Ritmo da Terra)

"A ideia de nós humanos, nos descolarmos da terra, vivendo numa abstração civilizatória, é absurda". Em tempos em que o colapso climático parece irreversível - meio que basta abrir as notícias do dia para ter certeza disso -, a frase dita pelo escritor brasileiro e líder indígena Ailton Krenak, no famoso livro Ideias Para Adiar o Fim do Mundo, parece ainda mais verdadeira. E é justamente tomando por base a obra do autor, que o Antropoceno lança o seu segundo registro de inéditas, No Ritmo da Terra. Criado pela paulista Lua Viana, o projeto mescla shoegaze, metal experimental, pós rock e psicodelia, com ritmos brasileiros ritualísticos ligados ao candomblé, ao afoxé e à capoeira, além de gravações de campo da Floresta Amazônica, que resultam em um conjunto de canções que parece estabelecer um vínculo direto entre ancestralidade e futurismo, tradição e inovação.

 


Funcionando por meio de um processo imersivo o disco, que dá continuidade ao igualmente relevante Natureza Morta (2025), pode soar desafiador como mera experiência musical. Especialmente por propor um mergulho na floresta, com seus habitantes, sons, elementos e ontologia. Ainda assim, no fundo parece haver algo maior aqui e que alude a um processo político e evocativo de enfrentamento, resistência, práticas decoloniais e subversão de influências ligadas ao capital. O que é complementado pela presença de letras que, para além do português, contam com versos em tupi e iorubá, além de um vasto conjunto percussivo de atabaques, tamborins, berimbaus e caxixis, que se unem a guitarras ruidosas e sintetizadores ferozes. "Se há um futuro a ser vivido, ele é ancestral". A frase de Krenak, de forma carga simbólica, centraliza as ideias que se espalham no registro. É uma força que transborda e se solidifica a cada nova audição.

Nota: 9,0 

Tesouros Cinéfilos - Cidade dos Sonhos (Mullholand Drive)

De: David Lynch. Com Naomi Watts, Laura Harring e Justin Theroux. Suspense / Drama, EUA / França, 2021, 146 minutos.

Vamos combinar que, em muitos casos ficamos tão focados em tentar entender o que acontece no terço final de Cidade dos Sonhos (Mullholand Drive), que quase esquecemos o básico: de que o clássico moderno de David Lynch, que completa 25 anos de lançamento em 2026, é um excelente suspense romântico, com um roteiro instigante e repleto de surpresas inesperadas. Hoje em dia os finais em aberto e até certa falta de lógica narrativa parecem rotina no cinema mais experimental, com suas pontas soltas, alegorias e significados nem tão óbvios. E por mais que certo hermetismo sempre tenha feito parte das produções de Lynch - como no caso de Veludo Azul (1986), por exemplo -, o público ficou tão desesperado em compreender os eventos que rondam a dupla central Betty (Naomi Watts) e Rita (Laura Harring) que o diretor chegou a lançar um famoso extra na edição em DVD do filme, em que citava Dez Pistas para Desvendar Mullholand Drive.

De coisas como prestar atenção a um abajur vermelho recorrente, reparar no local do acidente e até descobrir o título do filme dentro do filme que Adam (Justin Theroux) está produzindo, estas eram apenas algumas pistas que poderiam conduzir o espectador a solução - no que foi um exercício divertido e legítimo de um tempo em que a internet ainda engatinhava e as redes sociais sequer existiam. Aliás, Cidade dos Sonhos é tão um produto do seu tempo - daquela virada de milênio ainda incerta em que o atentado ao World Trade Center acabara de acontecer -, que a dinâmica de quebra-cabeças cheio de peças espalhadas pedindo para serem encaixadas (chaves, cinzeiros, espelhos, xícaras de café e até moradores de rua sujos e inesperados) pareceu um atrativo a mais em uma experiência noir polida que, por si só, talvez já fosse envolvente o suficiente. Sem que precisássemos de uma resposta exata sobre os eventos vistos no Clube Silêncio, com a excêntrica e já falecida cantora Rebecca Del Rio entoando a mais melancólica das canções antes de simplesmente desmaiar.

 


Sim, hoje em dia não são poucas as teorias já consolidadas em fóruns do Reddit a respeito desse romance de estrutura circular que conta a história de uma deslumbrada aspirante a atriz de nome Betty Elms, que chega à Hollywood para tentar uma carreira no cinema. No local, ela se estabelece na casa de uma certa tia Ruth que, a bem da verdade, nunca aparece. Mas as coisas não serão tão simples já que ela se depara com a inesperada presença de Rita na residência, que afirma ter sofrido um acidente na Mullholand Drive do título, sem se recordar de mais nada que envolva o acontecimento (a não ser o fato de que ela sente estar em perigo). Para o espectador, o impacto da primeira meia hora é ondulante, quase amortecedor. Com a trama bebendo na fonte dos clássicos de Alfred Hitchcock, com Rita escapando da morte - dois homens (que não sabemos quem são) em um carro lhe apontam uma pistola, com a intenção de assassiná-la -, após uma batida de outro carro em altíssima velocidade, guiado por jovens desvairados e bêbados. Uma ocorrência que, em alguma medida, a salva.

Em linhas gerais parece haver um mistério que ronda esse conjunto todo - o que é reforçado pelo clima onírico da fotografia excêntrica, ao mesmo tempo opressiva mas primaveril que orna essa cidade fervilhante e pela trilha sonora de notas cortantes de Angelo Badalamenti, que emula as melodias lentas e frias vistas na série clássica, cult e noventista Twin Peaks (outro trabalho do maestro com Lynch). Há também um certo maravilhamento pela própria experiência de cinema (e de arte em geral), com uma série de instantes metalinguísticos que parecem brincar com o senso de realidade - o que é a verdade quando tudo o que assistimos está sendo filmado? -, e conforme entendemos que talvez Betty já tenha conhecido Rita anteriormente. Ou talvez uma projeção dela, por quem ela se apaixona não apenas por sua elegância à femme fatale da Hollywood clássica, mas também pela ideia do que ela representa como artista inalcançável (não por não ser capaz, como fica claro em uma sequência de ensaios, mas por ela não ser a pessoa indicada para este ou aquele papel, em uma máquina em que cartas marcadas parecem ter acesso facilitado no almejado panteão de estrelas da capital do cinema).

 

 

A presença de um volume inesperado de dinheiro, a existência de uma chave que não se sabe muito bem qual o uso, ou mesmo a aparição de pessoas estranhas e enigmáticas que parecem ter informações a mais sobre os envolvidos ali - como no caso do misterioso Cauboi (Monty Montgomery), os nada amistosos irmãos Castigliane ou mesmo a onipresente Diane Selwyn, que ressurge como num susto na memória de Rita, adicionam uma pimenta a mais em uma experiência cheia de tensões sexuais, de realidades alternativas e de um submundo de fantasias pomposas que se corroem e nem sempre se confirmam. E isso sem falar na misteriosa Camilla Rhodes que, aos poucos vai ocupando lugar de destaque na narrativa. Sedutor, estranho, assombroso, tenso e comovente, esse é daqueles filmes que não se resolvem após a subida de créditos, praticamente exigindo do espectador uma conversa de bar para teorias mais elaboradas, que burlem os limites entre fantasia e realidade. Ainda que o próprio Lynch tenha admitido em entrevistas, que se trata, como mencionamos lá no começo, apenas de uma história de amor. O que também é parte da beleza.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Novidades em Streaming - 100 Noites de Desejo (100 Nights of Hero)

De: Julia Jackman.Com Emma Corrin, Maika Monroe, Nicholas Galitzine, Amir El-Masry e Charli XCX. Fantasia / Romance, Reino Unido, 2025, 91 minutos. 

Era uma vez três irmãs - Rosa, Mina e Caterina -, que viviam com o pai, um capitão do mar. Após a morte da mãe das jovens, o pai prepara-as para aquilo que a sociedade patriarcal espera delas: ser boas esposas e mães, obedientes e com habilidades domésticas. Só que o homem não sabe que, em segredo, o trio aprendeu algo proibido nesse universo alternativo: ler e escrever. Quando o pai retorna de viagem com um comerciante rico a tiracolo, Rosa é escolhida para casar-se com o rapaz, acreditando no fato de ela ser dócil, virtuosa e santa. Só que essa não é a personalidade real de Rosa, uma moça inteligente, extrovertida e dotada de habilidades artísticas. E mesmo que o matrimônio pareça feliz em um primeiro momento, com as convenções estabelecidas, a confiança é quebrada quando Rosa, num instante afetivo, escreve I love you, em uma janela embaçada. É o suficiente para que o marido surte com a ideia de a própria esposa ser capaz de escrever seus próprios pensamentos. Sim, escrever. Ela se torna uma ameaça, uma bruxa, impura, vadia.

Vamos combinar que a história dentro da história narrada por Hero (Emma Corrin) à Cherry (Maika Monroe), em 100 Noites de Desejo (100 Nights of Hero), parece ainda dizer muito sobre os tempos sombrios atuais - em que políticos de extrema direita nutrem um desejo nem tão secreto assim de que suas esposinhas de bem sejam apenas donas de casa submissas, do modo mais tradicional possível. De preferência sem independência, sem vontades, sem desejos pessoais. Sem voto. Sem ideias (subversivas). Sem leitura e escrita. Enfim, vocês sabem como opera esse campo. Ao cabo, a obra dirigida por Julia Jackman e que é inspirada na graphic novel de Isabel Greenberg, é um conto de fadas esteticamente belo, que pega algumas ideias de As Mil e Uma Noites, para contar a história de Cherry, que é deixada em seu castelo por seu marido negligente Jerome (Amir El-Masry), que resolve testar sua fidelidade após a chegada do sedutor Manfred (Nicholas Galitzine) ao local.

 


Caso Cherry ceda às investidas de Manfred, Jerome lhe concederá direito sobre o reino. Restando à adúltera Cherry o destino inevitável das bruxas desviantes do período: a morte. De preferência de alguma forma bem cruel. Só que Hero, para além de criada de Cherry, é uma amiga pessoal. Uma amiga talvez até demais - e são várias as sugestões homoeróticas do filme que estreou na última semana na Mubi. Não apenas entre a dupla central de mulheres, mas também entre Jerome e Manfred - o que é reforçado pelo fato de o primeiro ser simplesmente incapaz de confirmar uma noite de núpcias adequada, como prevê a tradição. "Quero ser tocada, pra gerar um filho, claro", verbaliza à jovem de forma meio desajeitada, em certa altura. Mas Hero parece estar um passo à frente dessa ameaça que parece se espalhar de todas as formas nos corredores desse universo gerido por homens velhos e cheios de códigos morais rígidos. É por isso que ela mesma sugere contar a história de Rosa (vivida por Charli XCX) e suas irmãs. Como uma forma de reter meio que eternamente por esses três meses e pouco, as investidas de Manfred.

Em geral, o que temos aqui é uma produção que consegue ser ao mesmo tempo modesta, mas também sofisticada - além de cheia de metáforas e simbolismos que apontam os dedos para o absurdo da dominação dos homens, com o uso da religião como veículo. Nesse mundo alternativo, o idílio pacífico pensado por Kiddo é quebrado quando seu pai, um certo Birdman (Richard E. Grant) resolve criar um código rígido, especialmente no que diz respeito à gênero. Para Cherry, ter um filho pode até ser um objetivo - até mesmo para que ela sobreviva nesse espaço em que mulheres parecem ter apenas uma "utilidade" -, mas essa ideia vai sendo meio que dissipada, conforme ela mergulha no universo fantástico de Hero (que, sim, tem esse nome não por acaso). Com ótimos figurinos e desenho de produção, esse é aquele tipo de narrativa cheia de carisma, que não carece de grandes acontecimentos ou reviravoltas para passar o seu recado. Talvez em tempos tão brutos, um pouco de realismo fantástico não faça mal. 

Nota: 7,0 

 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Pitaquinho Musical - Nia Archives (Emotional Junglist)

Vamos combinar que discos como Emotional Junglist, o segundo da sempre ótima Nia Archives, são a prova viva de que a música mais experimental não precisa ser hermética, complexa, cabeçuda. Conhecida entre seus pares por ser uma das referências modernas do jungle - estilo musical precursor do drum and bass e que é marcado pela bateria acelerada, linhas de baixo graves e samples movimentados -, aqui a inglesa parece disposta a explorar outros estilos, como o R&B, o brit pop, o indie rock, o pós punk, o dub e o reggae. E não é que Nia não tenha sido versátil na estreia Silent Is Loud (2024) que, para os puristas, talvez seja um disco até melhor. Mas aqui essas ideias parecem mais espalhadas, menos presas a uma caixinha, mais exploratórias. Com o resultado sendo uma coleção de canções etéreas e sofisticadas, mas também sedutoras e despojadas. É um registro que cresce e só vai melhorando a cada novo play.

 


Um bom exemplo dessa mescla pode ser percebido na ensolarada This Could Be..., que não faria feio na trilha sonora de alguma sitcom do final dos anos 90 ou começo dos 2000 - sentimento reforçado por sua letra de romance torto, mas esperançosa, sobre estar com o coração aberto para encontrar o amor (Talvez você seja o único / Este pode ser o começo de algo bom). Já Vertical, com seus sintetizadores sonhadores e batidas ritmadas, parece algo que poderia estar em algum disco da Björk, em sua fase mais, vá lá, comercial. Como um todo, o registro é cheio de surpresas. Algumas mais transcendentais, como no caso da apaixonante Superlust, talvez uma das melhores músicas do ano; outras mais vulneráveis e íntimas, como no caso de Tender, parceria com Sampha. Sério, é tudo tão bem acabado aqui, que esse é daqueles trabalhos que pedem um fone de ouvido e um pouco de calmaria. Vai ser difícil não se conectar imediatamente com a beleza desse disco, facilmente um dos melhores do ano.

Nota: 9,5 

Novidades em Streaming - Mayday (Mayday)

De: John Francis Daley e Jonathan Goldstein. Com Ryan Reynolds, Kenneth Branagh, Marcin Dorocinski e Maria Bakalova. Ação / Comédia, EUA, 2026, 111 minutos.

Antes de falar qualquer coisa mais aprofundada sobre Mayday (Mayday) é preciso reconhecer que, no fundo, talvez essa seja apenas uma homenagem a um dos filmes mais gays da história - no caso, o "clássico" Ases Indomáveis (1986), que completa 40 anos de lançamento neste 2026. E, nesse sentido, por que não reviver o clima bélico da Guerra Fria e das disputas oitentistas entre Estados Unidos e União Soviética que marcaram aqueles anos, com uma produção de ação divertida, eventualmente exagerada, e que faz a crítica que nunca ofende ninguém a respeito do absurdo dos conflitos? Sim, falar em Reagan e Gorbachev pode parecer algo meio anacrônico em uma observação meio direta, mas o caso é que as motivações por trás das disputas entre grandes potências meio que nunca se alteraram, com a hegemonia econômica, tecnológica e geográfica estando no centro. Aliás, com a aposta até sendo dobrada quando pensamos em Trump e, vá lá, Putin.

E, bom, como não são todos os filmes que necessariamente precisam ser vastos panfletos políticos com pano de fundo social, na obra dos diretores John Francis Daley e Jonathan Goldstein que, admito, nunca nem tinha ouvido falar, temos uma boa comédia de ação sobre um tenente da Marinha de nome Troy Kelly (Ryan Reynolds, afinal, não sei se alguém conseguiria ter uma cara mais estadunidense, até de uma forma meio tapada, do que ele), que é designado para uma missão de reconhecimento sobre a Rússia. Prestígio que ele conquista após salvar um colega de esquadrão em uma manobra milagrosa durante um treinamento - o que já é um aceno ao estilo Top Gun, com direito a exageradíssima Jump, do Van Halen, na trilha sonora. Em solo russo, a missão dá errada, seu companheiro de caça é morto e ele precisa, em um movimento desesperado, se ejetar. Sendo salvo, em pleno deserto nevado dos recantos siberianos pelo excêntrico Nikolai "Nick" Ustinov (Kenneth Branagh), um ex-oficial da KGB.

 


Só que o que poderia ser trágico para Troy (ser localizado por um militar soviético), se torna realmente a sua salvação, quando ele percebe que Nick não apenas abomina tudo que envolva o governo opressivo de Gorbachev, como ainda é um adorador da cultura americana - com direito a cartazes na parede de sua cabana com inscrições de I love New York e do elenco de Ases Indomáveis (fita VHS que ele preserva, secretamente, e que admite já ter assistido a mais de uma centena de vezes), além do sonho molhado de poder se empanturrar de Mc Donald's. Nick está falando a verdade? Está mentindo? É um impostor? Não tendo com quem contar em solo inimigo, Troy aceita a ajuda desse sujeito cheio de habilidades militares, que lhe salvará dezenas de vezes em um sem fim de sequências engraçadíssimas de lutas - como na cena do bar -, com fugas engenhosas, como na do trem, e outros estratagemas diversos, sendo um dos mais aleatoriamente cômicos o que envolve o encontro com sua filha Anna (Maria Bakalova).

Rodando pela Rússia rural em busca de um equipamento telefônico que permita driblar a vigilância e contatar a embaixada dos Estados Unidos, a dupla embarca em um road movie inesperado, onde Troy conhecerá a hospitalidade dos habitantes alheios às tensões políticas daqueles tempos, recebendo-os em suas casas de forma amistosa e sem julgamentos. Líder da KGB, Alexander Volkov (Marcin Dorocinski) empreenderá as buscas pelo americano capturado, o que envolverá boas surpresas pelo caminho, reviravoltas interessantes e uma série de instantes de humor involuntário - como na cena do esconderijo tanto no tonel de bebida como no armário, ou outra que envolve um enorme aparato fálico que, nada mais é do que uma alegoria para essas nações e seus líderes torpes, que só conseguem medir forças comparando o tamanho dos armamentos (que talvez compensem outras faltas). Carismático e até meio bobo em muitas vezes, esse é aquela projeto ideal pra quem quer passar o tempo sem pensar muito - ainda que, aqui e ali, haja um ensaio para uma crítica a respeito do absurdo do belicismo e de toda a dor gerada por essa indústria, lembrada também na pequena participação de David Morse, como o pai de Troy. Tá disponível na plataforma da Apple TV.

Nota: 7,0 

 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Novidades em Streaming - Um Triste e Belo Mundo (Nujum Al'amal w Al'alam)

De: Cyril Aris. Com Mounia Akl, Hasan Akil e Tino Karam. Drama, Líbano / EUA / Qatar / Alemanha / Arábia Saudita, 2025, 110 minutos.

Vamos combinar que, no estado atual das coisas, é meio que impossível não ser eventualmente invadido pelo pessimismo ou pela desesperança em relação ao futuro. Guerras, pandemias, crises imigratórias, avanço da extrema direita, meio ambiente em colapso, tecnologia utilizada com objetivos escusos por poderosos, enfim, é tanta coisa que a vontade que dá é de se refugiar em uma ilha isolada - um espaço idílico qualquer - e nunca mais voltar. Em Um Triste em Belo Mundo (Nujum Al'amal w Al'alam), o representante do Líbano para a última edição do Oscar (não se classificou para a final), essa ilha é um tipo de metáfora para um ambiente utópico e, de preferência, distante da turbulência de um País marcado por uma sucessão de crises políticas, sociais e religiosas recentes, que decorrem de uma guerra civil que deixou uma série de feridas para a população.

Em geral esse é um contexto que, para o espectador mais desavisado (que era o meu caso), talvez exija um pouco de pesquisa para compreender as motivações das personagens centrais - sendo elas o casal Yasmina (Mounia Akl) e Nino (Hasan Akil) -, que tentam o tempo todo recolher os cacos do caos que os rodeia, em uma nação que parece em permanente busca por reconstrução. E, em alguma medida, não é difícil se identificar com Yasmina, uma consultora do governo que não esconde, nas entrelinhas (reforçadas pelas oníricas narrações em off), certo pendor à misantropia, o que explica seu comportamento taciturno, desconfiado e até solitário. Em contrapartida, Nino é o sócio de um restaurante de família tradicional, que busca superar o trauma da morte trágica dos pais em um atentado, vendo sempre o copo cheio. Esperançoso, acredita na construção de um mundo melhor, na permanência no País, na formação de uma família.

 


Quando crianças, ambos eram colegas de aula e, em meio a um ensaio de primeiro amor típico das séries iniciais, eles acabam separados (quase) para sempre nesse contexto de instabilidade do Líbano - e que também perpassava o foro íntimo de Yasmina, com a separação dos pais (e esse microcosmo do conflito interno, em muitos casos, funciona também como uma alegoria para o todo). Aguardando por muito tempo a sua companheira de escola para migrarem para a tão sonhada "ilha" (e toda a vez que a obra do diretor Cyril Aris viaja para esse espaço sonhador e abstrato ela se fortalece), Nino se frustra pelo reencontro nunca acontecido e sempre idealizado. Até um salto de quase trinta anos no tempo quando, após um excêntrico acidente de carro - Nino invade o escritório da mãe de Yasmina, após um instante de desatenção -, eles se reencontrarão. No restaurante do protagonista. Como forma de compensar parte dos danos.

Em suma, o comportamento de Nino pode ser estranhamente irritante - sempre com alguma chantagem psicológica ou com demonstrações de amor meio assustadoras, que fazem pensar nele como um stalker desesperado (como no momento em que ele simplesmente persegue Yasmina de carro, quando ela já está de malas prontas para migrar para a Alemanha a trabalho). Permanecendo no local, a dupla acaba cumprindo todos os rituais familiares típicos do conservadorismo: casam, tem uma filha, tentam recolher os cacos. "Você sabe que o País está desmoronando, né?", divaga Yasmina, que parece contrariada de uma forma meio permanente. No centro de tudo está uma obra que questiona o tempo todo, com sensibilidade e rudeza, se é possível ter qualquer tipo de ânimo. Com fotografia melancólica e acinzentada e trilha sonora existencialista, essa é uma experiência que não resolve para muito além do "é preciso sair daqui imediatamente para onde quer que seja". A gente pode até estranhar o que é a ilha no final. Mas ela é só um símbolo. Ainda mais em uma sociedade marcada pela diáspora.

Nota: 8,0

 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Pitaquinho Musical - Trashcan Sinatras (Ever the Optimist)

Vamos combinar que existem certas bandas que nunca alcançaram um público maior, ainda que tenham uma discografia que, em nada, as desabone. E nessa seara, talvez um dos melhores representantes sejam os escoceses do Trashcan Sinatras que, recentemente, lançaram seu sétimo disco na carreira - o ótimo Ever The Optimist. Com aquela pegada indie ensolarada ao estilo dos conterrâneos do Teenage Fanclub, o grupo sempre foi marcado pelas letras existencialistas, que colidem a perfeição com as melodias primaveris típicas do jangle pop e com os refrãos pegajosos - vide clássicos passados como Obscurity Knocks, do álbum Cake (1990) ou Best Days on Earth, do anterior Wild Pendulum (2016). E tudo isso em um contexto marcado por dificuldades financeiras no transcorrer da carreira e até a morte ainda recente do vocalista e guitarrista John Douglas, pouco depois da chegada do último álbum.

 

 

Da abertura com a faixa título à Beatles numa mistura com o Blur, à conclusão com a premonitória Learning to Love Your Ghost, tem-se aqui um registro polido e de brilho particular, que nem parece de um coletivo que está prestes a completar quarenta anos de carreira - e que possui um tempo próprio, bastante particular, de vida simplesmente acontecendo. Em antigas entrevistas, o vocalista Francis Reader chegou a brincar sobre as vantagens do processo de espera e dos longos hiatos entre um trabalho e outro. "Uma delas é que nos impede de lançar álbuns horríveis", afirmou. Com título quase autoexplicativo a baladona Hold On Today, que parece saída de um disco do Girls, tem letra paradoxal e contemplativa sobre evitarmos domar o futuro, nos centrando no presente. Mas há outros destaques, como na dobradinha Bad Husband, que conta com a participação de Tracyanne Campbell, do Camera Obscura, e, especialmente, The Bitter End, séria candidata a uma das músicas do ano. Vale o play.

Nota: 8,5