De: Damiano Michieletto. Com Tecla Insolia, Michele Riondino, Andrea Pennacchi e Stefano Accorsi. Drama, Itália / França, 2025, 111 minutos.
Vamos combinar que talvez eu não tenha sido o único a cair em um clickbait cinematográfico. Afinal, um filme chamado Primavera (Primavera), que tem como um de seus personagens centrais justamente o compositor Antonio Vivaldi (Michele Riondino), por óbvio, deveria ter alguma menção que fosse a respeito do clássico concerto para violino ou mesmo sobre os bastidores de sua criação? Bom, não no filme do diretor Damiano Michieletto - e, verdade seja dita, para além da obra que eu esperava encontrar há aquela que existe e, aqui, talvez a primavera tenha mais a ver com alguma metáfora para o florescer, ou algum tipo de simbolismo relacionado à libertação das amarras patriarcais. Ainda mais em um ambiente tão fechado e conservador como o de um orfanato exclusivamente voltado a meninas, o Ospedalle Della Pietá, situado na Europa do começo do século 18.
É nesse ambiente invariavelmente hostil para as mulheres - e que é conduzido com rigidez por uma madre superiora não muito amistosa (papel de Fabrizia Sacchi) -, que um grupo de adolescentes, estando entre elas a jovem talentosa Cecília (Tecla Insolia), ocupa seus dias em aulas de música. Com a instituição perdendo patrocinadores - normalmente representantes da elite econômica que possuem outros interesses nesses locais (como casamentos arranjados com as garotas) - para outros educandários, a diretoria dá um ousado passo: recontratar justamente Vivaldi, que já havia trabalhado na Pietá. E que, na realidade, atuaria por décadas no convento. Em uma das primeiras audições, o compositor se impressiona com a habilidade e virtuosismo de Cecília, selecionando-a como spalla (a primeira violinista, um papel nobilíssimo em uma orquestra).
Mas esse é um filme em que as oportunidades financeiras ou artísticas para as mulheres entram em choque com a possibilidade de bons matrimônios - e Cecília está prometida para um certo Sanfermo (Stefano Accorsi), um oficial do exército que está para retornar da Guerra Otomano-Veneziana (1499-1503), tanto que sequer faz objeção quanto a isso. Aliás, como órfã que não está autorizada a exibir o rosto para homens desconhecidos (tanto que as apresentações dominicais são feitas em mezaninos da igreja, com as jovens distantes da balaustrada), ela acredita que a união com um homem mais velho possa lhe garantir não apenas o seu futuro. Mas também o da Pietá, que receberia um valor em dinheiro em troca. Todas essas elucubrações, essas divagações, Cecília faz em cartas que direciona a uma mãe que ela sequer sabe se está viva - e que lhe abandona no educandário na juventude. Talvez ela seria uma prostituta. O que, na época, seria um crime. Aliás, hoje em dia, pra extrema direita raivosa, talvez seja crime também.
Ainda assim, Cecília segue estudando com Vivaldi e auxiliando-o na preparação de um concerto para o Rei da Dinamarca - e não é preciso ser um cinéfilo veterano para saber que a coisa vai escalar, ainda mais quando certos segredos íntimos envolvendo a protagonista virem à tona. Com excelente desenho de produção que faz com que nos sintamos, de fato, em um ambiente suntuoso e áspero como o dos corredores da Pietá; trilha sonora de notas de violino meio onipresentes e fotografia acinzentada, puxando pra um azul escuro que acentua a melancolia geral já que o sol quase nunca aparece, essa é uma produção bem ao estilo das de época, com seus figurinos e maquiagens empoladas e uma discussão embrionária sobre independência feminina, sororidade e busca por emancipação - emocional, financeira, social. Sobre a concepção da Primavera que se daria na própria Pietá? Fica para um outro filme. A despeito do título, que nos enganou.
Nota: 7,0

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