segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Cinema - O Apego (L'attachement)

De: Carine Tardieu. Com Valeria Bruni Tedeschi, César Blotti, Pio Marmaï e Vimala Pons. Drama, Bélgica / França, 2024, 106 minutos.

"De vez em quando / Duas pessoas se encontram / Aparentemente sem nenhum motivo / Elas apenas passam pela rua" (Don't Get Me Wrong - The Pretenders) 

[ATENÇÃO: TEXTO COM ALGUNS SPOILERS

"Qual a diferença entre amor e apego?". Vamos combinar que não foram poucos os pensadores a teorizarem a respeito do assunto central do tocante O Apego (L'attachement), que está em cartaz nas salas de cinema do País. Do psicanalista Erich Fromm, passando pela filósofa Simone Wei, até chegar ao psicólogo John Bowlby - criador não apenas da Teoria do Apego, mas de ideias a respeito da necessidade central dos seres humanos de formar vínculos - muitos são (e foram) os autores que dissertaram sobre a complexidade do tema. Então, não surpreende o fato de o tópico volta e meia reaparecer em obras literárias, músicas, teatro ou cinema. Sim, o filme dirigido por Carine Tardieu pode parecer apenas uma singela produção que divaga sobre luto, memória, maternidade, relacionamentos, configurações familiares na modernidade e responsabilidade afetiva, entre outros temas. Mas o fato é que constrói, nesse contexto, uma narrativa delicada e repleta de reflexões.

Em alguma medida, a imprevisibilidade ou mesmo a aleatoriedade da experiência humana também está no centro do filme - o que já pode ser percebido na abertura, quando a tranquilidade de Sandra (Valeria Bruni Tedeschi), uma mulher de meia idade independente, dona de uma livraria voltada à temas mais progressistas (ou feministas), é quebrada em certa manhã quando a sua campainha, inesperadamente toca. Na porta, seus vizinhos do apartamento ao lado em uma emergência: a bolsa de Cécile (Melissa Barbaud) rompeu e ela precisa ir com urgência à maternidade com o marido Alex (Pio Marmaï). Sem alternativa, o casal pede à Sandra que cuide do pequeno Elliot (César Blotti), o filho de apenas cinco anos. De forma repentina, a protagonista que, por óbvio, nunca teve filhos ou uma convivência maior com crianças, se vê como babá improvisada de um menino esperto e curioso, que assombra ela com suas tiradas inteligentes ("os adultos estão sempre com pressa").

 


Só que Sandra estranha certo atraso do casal - a noite vira, o dia ocorre (e são engraçadas as tentativas meio tortas da mulher em se adaptar em seu dia de trabalho com o filho do vizinho à tiracolo). Quando Alex retorna, sua cara não está boa: Cécile sofreu uma embolia amniótica, que resultou numa tragédia. A pequena Lucille, o bebê, sobreviveu. Sandra descobre, mais adiante, que Elliott não é filho de Alex, e sim de um relacionamento anterior de sua, agora, falecida esposa. A vizinha, de forma empática, não consegue ficar alheia a tudo e oferece ajuda. Um ombro. E isso, conforme vai se aproximando cada vez mais do menino. De Alex. De sua família como um todo que, vá lá, vai se tornar de forma inevitável a sua "família escolhida". Outro conceito que aparece volta e meia nas artes, em estudos, e que, de forma muito justa, é apropriado pela comunidade LGBTQIA+, que sofre preconceito nos laços de sangue. Há uma canção lindíssima da Rina Sawayama chamada Chosen Family, que evidencia esse conceito à perfeição.

Nesse contexto tem-se um filme singelo em que acontecimentos cotidianos ganham mais força do que o normal - como no momento em que Alex tromba com Sandra no corredor do prédio, com as compras se espatifando no chão. Papeladas pra resolver, vidas pra tocar, arrependimentos do que poderia ter sido e não foi (como no instante em que Alex revela ter forçado a barra para que tivessem um filho, mesmo que Cécile não desejasse passar por uma nova maternidade), tudo vai surgindo de forma naturalista, orgânica, sem forçação. A solidão de Alex que tenta de forma desajeitada se aproximar da vizinha de forma amorosa após um beijo, apenas evidencia a sua fragilidade e baixa autoestima em um momento em que ainda trabalha o luto e o sentimento de abandono. E isso não tem a ver com o fato de Sandra ser uma mulher mais velha, uma vez que ela é interessante, inteligente e, mais do que tudo, presente. 

 

 

Nesse sentido o filme, inspirado em obra de Alex Ferney, sem tradução no Brasil, não força situações irreais por mera condescendência. Há todo um ideal de nunca abandonar a verossimilhança para qualquer ajuste inadequado. "Ainda é cedo pra ficar com alguém?" pergunta Alex à própria Sandra, após alguns meses como viúvo depois de, talvez, estar se apaixonando novamente. Com uma trilha sonora excelente - o auge é a sequência ao som de Don't Get Me Wrong, do Pretenders (um golpe baixo, né?) -, a obra quebra certas convenções em um roteiro arejado e que, facilmente, a gente se apega (com o perdão do trocadilho). "Estou feliz por você", diz Sandra a Alex durante o casamento dele com a enfermeira Emilia (Vimala Pons), que dança feliz ao fundo. A vida é que isso, altos, baixos, quedas e voltas por cima, dores e alegrias. Nesse turbilhão a gente nunca tem certeza de nada. E talvez resida aí uma parte da beleza.

Nota: 8,5 

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