De: Oriol Paulo. Com Bárbara Lennie, Loreto Meuleón, Eduard Fernández, Pablo Derqui e Samuel Soler. Suspense, Espanha, 2022, 155 minutos.
Quem acompanha a carreira do diretor Oriol Paulo sabe que seus filmes costumam ser experiências vertiginosas, novelescas, cheias de reviravoltas e de quebras de expectativa que, em alguma medida, exigem do espectador uma boa dose de suspensão da descrença. Foi assim com os enigmáticos Um Contratempo (2016) e Durante a Tormenta (2018), valendo o mesmo para o curioso As Linhas Tortas de Deus (Los Renglones Torcidos de Dios), uma daquelas pequenas joias escondidas na Netflix e que servem direitinho para uma sessão de final de semana, que renderá boas discussões em família, assim que os créditos subirem. Sim, o título pode passar uma energia meio cinema gospel, mas as tais "linhas tortas de Deus" tem um significado mais metafórico que, em alguma medida, permite explicar o comportamento de seres humanos complexos, disfuncionais ou marginalizados que, em muitos casos, ocupavam no passado os chamados sanatórios ou outras casas para o tratamento de pacientes psiquiátrico.
A propósito, é em um desses espaços - o sanatório Nossa Senhora da Fonte -, que se passa toda a trama, que é inspirada em romance homônimo do escritor Torcuato Luna de Tena. O ano é 1979, e a delegada Alice Gould de Almenara (a elegantíssima Barbara Lennie) chega ao local com um objetivo secreto, que ela esconde dos médicos e responsáveis: investigar um possível assassinato ocorrido um ano antes, quando um jovem chamado Damian morreu misteriosamente na Instituição. Sem provas definitivas os diretores do espaço - entre eles Samuel Alvar (Eduard Férnandez), que tem implementado uma metodologia que permite mais liberdade aos internos, com contato com a natureza, espaços para exercitar a criatividade e outros -, alegam que Damian teria se suicidado e que o caso estaria encerrado. Isso até o pai de jovem, Raimundo del Olmo (Lluís Soler / Joan Crosas), solicitar à Alice que fizesse uma investigação, acessando os arquivos do local, e levantando novas evidências.
Como mencionei lá no começo, para o espectador já acostumado às produções de Paulo, evidentemente as coisas não serão tão simples assim. Quando começa a "trabalhar" em segredo no sanatório, a investigadora esconde sua real identidade de figuras como a doutora Montserrat (Loreto Mauléon) ou do médico Teodoro Ruipérez (Federico Aguado) - a quem explica que foi enviada ao local por recomendação do próprio marido, Heliodoro (David Selvas), após tentar envenenar este por três vezes seguidas (até por que ele teria a intenção de ficar com seu dinheiro). Claro, tudo parte do estratagema montado para tornar a sua entrada no local fidedigna - o que envolve ainda um terceiro homem, um certo doutor Donadío. Em meio ao estranhamento generalizado ao se deparar com os internos Gnomo (Luis Sacristán), Homem Elefante (Francisco Pastor) e os gêmeos Rômulo e Remo (Samuel Soler), Alice conhece e faz amizade como um certo Ignacio (Pablo Derqui) que, é um dos suspeitos descartados do crime, por sofrer de hidrofobia (medo irracional da água).
[SPOILERS A PARTIR DAQUI ] Claro, pode haver aqui e ali um excesso de informações e de personagens, o que exige do espectador uma atenção total não apenas aos diálogos, mas aos objetos cênicos, figurinos e acontecimentos que ajudam a fornecer pistas do que realmente possa estar acontecendo lá e quais os segredos envolvidos. Quando uma tragédia acontece e mais um interno acaba morto, Alice passa a ter sua sanidade questionada - especialmente quando nada que envolve seu passado parece fazer sentido (com os fatos, aos poucos, sendo revelados). Alice seria uma espécie de Leonardo Di Caprio em Ilha do Medo (2010), com todos a sua volta mentindo ou ela é de fato uma investigadora com um objetivo bem definido? Logo no começo, uma carta de recomendações faz uma espécie de alerta que vale para quem assiste e que pode ser a chave de tudo: é importante não acreditar em que tudo o que a protagonista diz, com sua eloquência intrigante, intelecto evidentemente superior e certo pendor pra mitomania. Capaz de manipular os demais, ela pode estar apenas mentindo. Usando suas habilidades, charme e elegância sedutora. Ou não. Vai ver ela é só uma doidinha, com suas maluquices - e talvez o comportamento nada amistoso de Samuel reforce essas ideias. Enfim, tudo isso é parte da diversão nessa experiência envolvente, que nos arremessa de cá para lá a todo instante, com idas e vindas no tempo que embolam passado, presente e futuro, e que ainda deixam uma série de questionamentos no ar.







