Vamos combinar que existem certas bandas que nunca alcançaram um público maior, ainda que tenham uma discografia que, em nada, as desabone. E nessa seara, talvez um dos melhores representantes sejam os escoceses do Trashcan Sinatras que, recentemente, lançaram seu sétimo disco na carreira - o ótimo Ever The Optimist. Com aquela pegada indie ensolarada ao estilo dos conterrâneos do Teenage Fanclub, o grupo sempre foi marcado pelas letras existencialistas, que colidem a perfeição com as melodias primaveris típicas do jangle pop e com os refrãos pegajosos - vide clássicos passados como Obscurity Knocks, do álbum Cake (1990) ou Best Days on Earth, do anterior Wild Pendulum (2016). E tudo isso em um contexto marcado por dificuldades financeiras no transcorrer da carreira e até a morte ainda recente do vocalista e guitarrista John Douglas, pouco depois da chegada do último álbum.
Da abertura com a faixa título à Beatles numa mistura com o Blur, à conclusão com a premonitória Learning to Love Your Ghost, tem-se aqui um registro polido e de brilho particular, que nem parece de um coletivo que está prestes a completar quarenta anos de carreira - e que possui um tempo próprio, bastante particular, de vida simplesmente acontecendo. Em antigas entrevistas, o vocalista Francis Reader chegou a brincar sobre as vantagens do processo de espera e dos longos hiatos entre um trabalho e outro. "Uma delas é que nos impede de lançar álbuns horríveis", afirmou. Com título quase autoexplicativo a baladona Hold On Today, que parece saída de um disco do Girls, tem letra paradoxal e contemplativa sobre evitarmos domar o futuro, nos centrando no presente. Mas há outros destaques, como na dobradinha Bad Husband, que conta com a participação de Tracyanne Campbell, do Camera Obscura, e, especialmente, The Bitter End, séria candidata a uma das músicas do ano. Vale o play.
De: Fernando Eimbcke. Com Teresita Sánchez, Bastian Escobar e Hugo Ramírez. Drama / Comédia, México, 2026, 99 minutos.
Devo admitir que, assim que comecei a assistir ao premiado Moscas (Moscas), novidade da Mubi nesta semana, me recordei imediatamente de Fly, o clássico e divisivo episódio da terceira temporada de Breaking Bad - que é aquele em que Walter White (Bryan Cranston) constata a presença de uma mosca no seu higieniquíssimo laboratório de produção de metanfetamina. O que faz com que ele empreenda uma verdadeira missão particular, no sentido de tentar eliminá-la. Na obra do diretor Fernando Eimbcke também é uma mosca que perturba a tranquilidade de Olga (Teresita Sánchez), em sua rotina ordinária de partidas de sudoku ao computador e outras mesmices cotidianas. Só que há uma diferença entre Walter e a sua obsessiva necessidade de controle, que é parte de sua deterioração psicológica e Olga, que apenas abre a janela para expulsar o inseto. O que funcionará como uma alegoria do exterior que, aos poucos, invadirá sua rotina, com seus barulhos, movimentos, pessoas.
Olga mora sozinha, mas está mal de grana. Pior, uma grave unha encravada que, inclusive, dificulta seu movimento, exigirá dela um investimento de três mil pesos para o tratamento. Uma cirurgia que não é complexa, mas é cara. Para quem conta as moedas a cada ia ao armazém ou à farmácia, trata-se de um dinheirão. Em busca de alguma solução, a protagonista - uma figura taciturna, rude, de carisma negativo -, oferece um quarto do seu apartamento para interessados em alugá-los por curtos períodos. Especialmente para familiares que acompanham adoentados no hospital vizinho e que não possuem muitos recursos - sendo exatamente esse o caso de Túlio (Hugo Ramírez), cuja esposa está internada com câncer. Para lá e para cá pelas ruas fervilhantes, o sujeito leva à tiracolo o pequeno Cristian (Bastian Escobar), seu filho de dez anos aficionado pelo jogo de fliperama Cosmic Defenders Pro, que, em um primeiro momento, ele esconde de Olga para não ter de pagar mais pela estada.
Ao cabo, trata-se de um fiapo de história em que vidas diametralmente opostas colidem, encontrando, aqui e ali, pontos de contato em meio ao mal-estar generalizado da vida em sociedade, com seu individualismo atroz e certo pendor à introversão (pra não dizer misantropia). Olga chega a avisar Túlio de que, de preferência, ele sequer fale com ele. Use o banheiro interno o mais rápido possível e não compartilhe com ela outros cômodos da casa, a exceção do quarto que está sendo alugado. Pouco lhe interessa a vida daquele pai com seu filho empobrecidos, quase numa versão latina de Ladrões de Bicicletas (1948) - sendo uma experiência, assim como no clássico de Vittorio de Sica, bastante naturalista para países com tantos contrastes sociais como o México (vale também pro nosso Brasil). Sentimento ainda mais evidenciado por instantes em que Túlio sofre para comprar medicamentos ou garantir o suprimento mínimo alimentar para ele e o filho.
Onipresente, a mosca reaparece aqui e ali, como uma memória daquilo que chega, invade, faz barulho, incomoda e, enfim, nos obriga a sair do sofá e deixar a letargia de lado, nem que seja pra dar uma chinelada. Só que Túlio e Cristian não são insetos e quando o pai do menino simplesmente desaparece em circunstâncias um tanto misteriosas, cabe à taciturna protagonista uma aproximação meio a contragosto do jovem - o que resultará em uma troca inesperada de afeto, que terá como ponto de vínculo as perdas familiares, o luto e a necessidade de seguir em frente diante da tragédia (e não deixa de ser impactante o pequeno instante em que Túlio segura o rosto de Olga de forma carinhosa, enquanto ela padece de uma febre que lhe paralisa). Sim, o tipo de dinâmica que assistimos aqui não tem basicamente nenhuma novidade que não tem senha sido vista ou explorada de forma bastante efetiva em produções como Central do Brasil (1998) ou A Língua das Mariposas (1999). Mas há um certo charme enigmático reforçado pela fotografia em preto e branco, que nos deixa meio vidrados.
De: Pauline Loquès. Com Théodore Pellerin, Salomé Dewaels, Camille Rutherford e Jeanne Balibar. Drama, França, 2025, 96 minutos.
Vamos combinar que, em muitos casos de filmes com pessoas que precisam lidar com doenças graves, as questões mais prosaicas do cotidiano são ignoradas em prol de uma narrativa melancólica mais direta sobre superação da dor. Quando Nino (o ótimo Théodore Pellerin, que tem uma energia meio Adam Driver francês, ainda que seja canadense) recebe, ainda no começo de Nino de Sexta a Segunda (Nino) o diagnóstico de um câncer na garganta, para além do seu olhar surpreso e desorientado - ele é apenas um jovem de 28 anos, sem um aparente histórico familiar -, ele é informado a respeito de, entre outras coisas, a possibilidade de congelar espermatozoides para o caso de, no futuro, desejar ter filhos. Naquele contexto, a médica lhe comunica sobre o quão invasivo é o tratamento que iniciará dali a três dias e sobre a necessidade de, urgentemente, tomar essa decisão.
Em alguma medida, é mais ou menos assim quando alguém morre. Ou é preso. Em obras de ficção as complexas logísticas que envolvem esse entorno muitas vezes são ignoradas. Mas não aqui. Nino sai de um andar do hospital para outro, onde se depara com uma longa fila de casais - certamente interessados em óvulos fecundados e inseminações artificiais -, para receber um copinho de uma enfermeira, que lhe dá um tempo de uma hora pra concluir o "serviço". A coisa toda é tão caótica que o protagonista não percebe, num primeiro momento, que perdeu as chaves de casa. E essa habilidade da diretora Pauline Loquès, em sua premiada obra de estreia, em metaforizar essa perda de rumo, de direção, de sentido ou meio que de tudo, depois do diagnóstico de uma doença severa, é meio que rara. Nino está desorientado em uma sexta-feira qualquer que, ainda por cima, antecede o seu aniversário. Com um diagnóstico agressivo debaixo do braço, que ele sequer tem coragem de verbalizar àqueles que o rodeiam.
Em conversa com sua carinhosa mãe (Jeanne Balibar), ele tenta investigar os motivos da trágica morte de seu próprio pai aos 44 anos, em circunstâncias nem sempre claras, ao mesmo tempo em que mente estar com depressão - apenas para esconder o câncer, o que evitará deixá-la preocupada. No apartamento do amigo e colega de trabalho (ou talvez candidato a namorado, não fica bem claro) Sofián (William Lebghil) que organiza uma festa surpresa, Nino trafega como uma espécie de ectoplasma pelos cômodos, talvez percebendo a inutilidade daqueles vínculos aleatórios que, agora, se esfarelam, frente à iminência provável da finitude. Ainda sem as chaves de casa - ele volta ao hospital, mas não as encontra, o que reforça a alegoria da falta de direcionamento que temos diante de situações do tipo -, o rapaz vai parar na casa de uma ex (Camille Rutherford), sendo surpreendido por ela justamente no instante em que pretendia lhe deixar um cartão postal. Que lhe alertava para os riscos das doenças sexualmente transmissíveis - o que podia estar na origem do seu tumor.
Em linhas gerais, para o espectador que talvez aguarde que esse filme aterrisse em local seguro pode ser frustrante ver apenas Nino zanzando em um final de semana, estando com amigos, com a ex, com a mãe, indo pra boate, ou mesmo frequentando o brechó da ex-colega de aula Zoé (papel da bela Salomé Dewaels) que ele encontra aleatoriamente no restaurante em que entra para tentar, em vão, se masturbar para reservar seu sêmen. Ao cabo, aqui temos aquele típico filme europeu, de fotografia cinza azulada, que reforça o sentimento de melancolia geral, de desalento, o que também é evidenciado pelas notas sutis mas agoniantes, da trilha sonora. Há, aqui e ali, um certo afeto geral no olhar para aqueles que acompanhamos, com direito a citações à Marina Abramovich e suas experiências artísticas essencialmente humanas. Muitas vezes basta um olhar para que saibamos tudo que envolve esta ou aquela pessoa. Não é preciso dizer muito. E, aqui, parece estar nos longos silêncios uma parte dessa força. Tá na Reserva Imovision.
De: Rafaela Camelo. Com Laura Brandão, Serena, Larissa Mauro, Camila Márdila e Aline Marta Maia. Drama, Brasil, 2025, 90 minutos.
É uma sequência quase despretensiosa do ótimo A Natureza das Pequenas Coisas aquela em que a pequena Sofia (Serena) revela à sua nova melhor amiga Glória (Laura Brandão) que ela é uma menina trans. Um instante de grande naturalidade e extremamente afetuoso - talvez como devesse ser na vida real. Aliás, verdade seja dita, talvez um dos grandes méritos dessa pequena joia do nosso cinema - e que é uma das pré-indicadas ao Oscar 2027 -, seja a capacidade de tratar dos grandes assuntos (luto, formação da identidade, rede de apoio feminina, crenças populares, medos infantis) de uma forma bastante sutil e, ainda assim, muito impactante. Até aquela altura, havia uma desconfiança de que Sofia pudesse ser trans - especialmente pela forma com que ela trata o falecido irmão Bento, sempre envolto em mistérios, como numa névoa que evaporou, para reaparecer reconfigurado. Ou reconfigurada.
Sim, a pequena ousadia da diretora Rafaela Camelo - de tratar de temas que ainda são considerados tabus em uma sociedade essencialmente conservadora como a nossa (ainda preocupada, em pleno 2026, com o pânico moral generalizado de um kit gay) -, já foi vista em outras produções, como no casso da tocante Close (2022). Todo o mundo deveria saber saber que esconder crianças (e adolescentes) LGBTQIA+ no armário, não vai fazer com que elas simplesmente desapareçam. Pior, vai fazer com que elas encarem a própria sexualidade com vergonha, reforçada por um ambiente de opressão e de preconceitos. Mas, ao cabo, esse não é um filme sobre uma grande revelação de uma criança trans. Como comentei, esse é um dos assuntos. Mais um. Em uma experiência magnética e de grande sensibilidade. Com uma mensagem maravilhosa sobre autoaceitação. E a respeito da importância de nos mantermos civilizados acima de tudo.
Na trama, Glória é a menininha que passa os dias zanzando no hospital, ao lado da enfermeira Antônia (Larissa Mauro), sua mãe solo que se exaure de tanto trabalhar, o que impede a pequena de poder viver suas férias como uma criança - tanto que ela vai parar com Antônia no hospital, onde interage de forma amistosa com os idosos atendidos (o que faz com que percebamos que sua presença ali pareça ser constante). Nesse contexto, Sofia chega ao local após um pedido de socorro: sua bisavó sofreu uma queda em casa e teve de ser levada às pressas ao pronto atendimento. Sem ter muita solução, Antônia sugere à Sofia uma aproximação de Glória, enquanto a dupla simplesmente espera. O que resultará em uma amizade comovente entre duas meninas perdidas em um ambiente essencialmente de adultos (e muitas vezes de velhos), tendo de lidar com perdas inesperadas, temores aleatórios e alterações de rota não calculadas.
Cheia de simbolismos, a obra aposta em pequenas alegorias que fortalecem a ideia de uma narrativa em que às personagens estão em permanente movimento e que as leva a novas configurações. Lá pelas tantas, sabemos que Glória passou por uma grave cirurgia no coração quando tinha apenas dois anos - e que quase a levou à morte. Ou descobrimos que Antonia, que é convidada pela mãe de Sofia, Simone (Camila Márdila, de Que Horas Ela Volta?, 2015), para um forró, não sai para dançar há anos - o que evidencia a sobrecarga das mulheres no que diz respeito à maternidade. Sobre a bisavó (a sempre ótima Aline Marta Maia, de Pedágio, 2023), que surge como um espectro que conecta passado e futuro - com uma presença fantasmagórica e carismática - sabemos que ela sofre de demência. E que pode estar sempre entre a vida e a morte, entre o real e o abstrato, entre a luz e o crepúsculo. Resumir um filme como esse, tão repleto de possibilidades em suas minúcias, não é tarefa fácil. A boa notícia é que ele está disponível na Netflix. É só dar o play.
De: Simón Mesa Soto. Com Ubeimar Rios, Rebeca Andrade e Guillermo Cardona. Comédia / Drama, Colômbia / Suécia / Alemanha, 2025, 120 minutos.
Devo confessar que poucas vezes nos últimos anos, vi um filme escalar de forma tão desvairadamente engraçada como neste Um Poeta (Un Poeta) - pequena joia do cinema colombiano (aliás, foi o enviado do País para o Oscar 2026). Ao cabo, esta parece ser uma obra que tem em seu cerne uma questão bastante simples: quem ainda lê (ou mesmo se preocupa) com poesia nos dias de hoje? Muitas vezes relegada a saraus acadêmicos performáticos e presunçosos, essa manifestação artística que legou ao mundo nomes como Carlos Drummond de Andrade, Gabriela Mistral e Pablo Neruda (só pra ficar nos sul-americanos) ainda mobiliza Oscar Restrepo (o ótimo Ubeimar Rios), com sua roupa troncha e óculos feios de homem de meia idade que, na juventude, quando lançou dois livros, sonhava com uma espécie de estrelato literário que, verdade seja dita, nunca foi alcançado.
Falido e ainda tendo de cuidar da mãe doente, Oscar zanza pela cidade como uma Baby Jane (1962) das letras - ressentido por não ter reconhecimento, sendo integrante de uma espécie de segunda divisão da poesia (ninguém sequer se lembra exatamente de quem é ele, o que é reforçado pelos livros carcomidos e desgastados que ele carrega à tiracolo e que são um detalhe do desenho de produção não menos do que genial). Assim como já dito, é seu figurino desastrado que reforça sua imagem como um sujeito quadrado, sem nenhum carisma, mas que talvez tenha algum talento médio para os versos ou as reflexões cotidianas - e nem temos como saber direito, fora os encontros verborrágicos com os doidinhos de bairro que trafegam pelas ruas, após as madrugadas frustradas de bebedeira em que o protagonista vai parar na sarjeta.
Depois de relutar em sair da pindaíba para ministrar aulas - sua família já não aguentava mais a sua arrogância pseudointelectual de um homem infantilizado, choroso e cheio de dívidas -, ele topa, a contragosto, ser professor de um grupo de alunos de uma escola de poesia local. Isso após ter se humilhado perante o escritor Efrain Mendoza (Guillermo Cardona), um dos diretores da Instituição, que chega ao ridículo de lhe enviar a um bizarro canal de TV local, como estratégia para atrair possíveis leitores para as suas mofadas obras (sequência que integra a primeira parte que, não por acaso, recebe o nome de O Fracasso). Como professor, ele se encanta pela jovem Yurlady (Rebeca Andrade), que parece ter um talento não apenas nato, mas, orgânico para a poesia, com sua fruição de frases, liberdade e sensibilidade saltando os olhos. O que faz com que ele empreenda uma verdadeira via-sacra para ampliar a visibilidade da adolescente que, aos 15 anos, parece ter outros interesses, como unhas com esmaltação em gel e mesmo ficar com as amigas. Ou, vá lá, no mínimo, não frequentar encontros culturais de gosto duvidoso, que reúnem idosos decrépitos da área de humanas, capazes de tornar os cubículos da universidade em espaços em que reinam o egocentrismo.
[ALGUNS SPOILERS A PARTIR DAQUI] E tudo se torna ainda mais complexo, no (des)encontro com a numerosa família de Yurlady, que conta com um tio trambiqueiro que acredita na possibilidade de sucesso da sobrinha por seu talento. Aliás, o próprio Oscar se ressente do distanciamento de sua filha, que parece ter vergonha dele (Você me odeia? Não, eu tenho é pena de você. Parece uma criança.) A despeito de todo esse conjunto, a pupila aceita participar da abertura de um sarau, que conta com a presença da embaixadora da Holanda, que destina recursos para o evento (a parte dois recebe o nome de Magnus Opus). E é próximo da terceira parte - A Arte Vai nos Salvar -, que a coisa escala. Yurlady passa mal após beber pela primeira vez, e Oscar é acusado de abuso de forma um tanto inusta, o que resultará em um sem fim de sequências inesperadamente engraçadas - como a da perseguição do irmão furioso da jovem. Com uma energia que lembra as obras da dupla de realizadores Gaston Duprat e Mariano Cohn - como O Homem ao Lado (2009) e Cidadão Ilustre (2017) - essa é uma experiência que diverte e emociona, com seu anti-heroi atípico, errático e completamente f*dido, mas que nos apaixona inesperadamente. Tá no Telecine Play e vale demais.
De: Damiano Michieletto. Com Tecla Insolia, Michele Riondino, Andrea Pennacchi e Stefano Accorsi. Drama, Itália / França, 2025, 111 minutos.
Vamos combinar que talvez eu não tenha sido o único a cair em um clickbait cinematográfico. Afinal, um filme chamado Primavera (Primavera), que tem como um de seus personagens centrais justamente o compositor Antonio Vivaldi (Michele Riondino), por óbvio, deveria ter alguma menção que fosse a respeito do clássico concerto para violino ou mesmo sobre os bastidores de sua criação? Bom, não no filme do diretor Damiano Michieletto - e, verdade seja dita, para além da obra que eu esperava encontrar há aquela que existe e, aqui, talvez a primavera tenha mais a ver com alguma metáfora para o florescer, ou algum tipo de simbolismo relacionado à libertação das amarras patriarcais. Ainda mais em um ambiente tão fechado e conservador como o de um orfanato exclusivamente voltado a meninas, o Ospedalle Della Pietá, situado na Europa do começo do século 18.
É nesse ambiente invariavelmente hostil para as mulheres - e que é conduzido com rigidez por uma madre superiora não muito amistosa (papel de Fabrizia Sacchi) -, que um grupo de adolescentes, estando entre elas a jovem talentosa Cecília (Tecla Insolia), ocupa seus dias em aulas de música. Com a instituição perdendo patrocinadores - normalmente representantes da elite econômica que possuem outros interesses nesses locais (como casamentos arranjados com as garotas) - para outros educandários, a diretoria dá um ousado passo: recontratar justamente Vivaldi, que já havia trabalhado na Pietá. E que, na realidade, atuaria por décadas no convento. Em uma das primeiras audições, o compositor se impressiona com a habilidade e virtuosismo de Cecília, selecionando-a como spalla (a primeira violinista, um papel nobilíssimo em uma orquestra).
Mas esse é um filme em que as oportunidades financeiras ou artísticas para as mulheres entram em choque com a possibilidade de bons matrimônios - e Cecília está prometida para um certo Sanfermo (Stefano Accorsi), um oficial do exército que está para retornar da Guerra Otomano-Veneziana (1499-1503), tanto que sequer faz objeção quanto a isso. Aliás, como órfã que não está autorizada a exibir o rosto para homens desconhecidos (tanto que as apresentações dominicais são feitas em mezaninos da igreja, com as jovens distantes da balaustrada), ela acredita que a união com um homem mais velho possa lhe garantir não apenas o seu futuro. Mas também o da Pietá, que receberia um valor em dinheiro em troca. Todas essas elucubrações, essas divagações, Cecília faz em cartas que direciona a uma mãe que ela sequer sabe se está viva - e que lhe abandona no educandário na juventude. Talvez ela seria uma prostituta. O que, na época, seria um crime. Aliás, hoje em dia, pra extrema direita raivosa, talvez seja crime também.
Ainda assim, Cecília segue estudando com Vivaldi e auxiliando-o na preparação de um concerto para o Rei da Dinamarca - e não é preciso ser um cinéfilo veterano para saber que a coisa vai escalar, ainda mais quando certos segredos íntimos envolvendo a protagonista virem à tona. Com excelente desenho de produção que faz com que nos sintamos, de fato, em um ambiente suntuoso e áspero como o dos corredores da Pietá; trilha sonora de notas de violino meio onipresentes e fotografia acinzentada, puxando pra um azul escuro que acentua a melancolia geral já que o sol quase nunca aparece, essa é uma produção bem ao estilo das de época, com seus figurinos e maquiagens empoladas e uma discussão embrionária sobre independência feminina, sororidade e busca por emancipação - emocional, financeira, social. Sobre a concepção da Primavera que se daria na própria Pietá? Fica para um outro filme. A despeito do título, que nos enganou.
De: Carine Tardieu. Com Valeria Bruni Tedeschi, César Blotti, Pio Marmaï e Vimala Pons. Drama, Bélgica / França, 2024, 106 minutos.
"De vez em quando / Duas pessoas se encontram / Aparentemente sem nenhum motivo / Elas apenas passam pela rua" (Don't Get Me Wrong - The Pretenders)
[ATENÇÃO: TEXTO COM ALGUNS SPOILERS]
"Qual a diferença entre amor e apego?". Vamos combinar que não foram poucos os pensadores a teorizarem a respeito do assunto central do tocante O Apego (L'attachement), que está em cartaz nas salas de cinema do País. Do psicanalista Erich Fromm, passando pela filósofa Simone Wei, até chegar ao psicólogo John Bowlby - criador não apenas da Teoria do Apego, mas de ideias a respeito da necessidade central dos seres humanos de formar vínculos - muitos são (e foram) os autores que dissertaram sobre a complexidade do tema. Então, não surpreende o fato de o tópico volta e meia reaparecer em obras literárias, músicas, teatro ou cinema. Sim, o filme dirigido por Carine Tardieu pode parecer apenas uma singela produção que divaga sobre luto, memória, maternidade, relacionamentos, configurações familiares na modernidade e responsabilidade afetiva, entre outros temas. Mas o fato é que constrói, nesse contexto, uma narrativa delicada e repleta de reflexões.
Em alguma medida, a imprevisibilidade ou mesmo a aleatoriedade da experiência humana também está no centro do filme - o que já pode ser percebido na abertura, quando a tranquilidade de Sandra (Valeria Bruni Tedeschi), uma mulher de meia idade independente, dona de uma livraria voltada à temas mais progressistas (ou feministas), é quebrada em certa manhã quando a sua campainha, inesperadamente toca. Na porta, seus vizinhos do apartamento ao lado em uma emergência: a bolsa de Cécile (Melissa Barbaud) rompeu e ela precisa ir com urgência à maternidade com o marido Alex (Pio Marmaï). Sem alternativa, o casal pede à Sandra que cuide do pequeno Elliot (César Blotti), o filho de apenas cinco anos. De forma repentina, a protagonista que, por óbvio, nunca teve filhos ou uma convivência maior com crianças, se vê como babá improvisada de um menino esperto e curioso, que assombra ela com suas tiradas inteligentes ("os adultos estão sempre com pressa").
Só que Sandra estranha certo atraso do casal - a noite vira, o dia ocorre (e são engraçadas as tentativas meio tortas da mulher em se adaptar em seu dia de trabalho com o filho do vizinho à tiracolo). Quando Alex retorna, sua cara não está boa: Cécile sofreu uma embolia amniótica, que resultou numa tragédia. A pequena Lucille, o bebê, sobreviveu. Sandra descobre, mais adiante, que Elliott não é filho de Alex, e sim de um relacionamento anterior de sua, agora, falecida esposa. A vizinha, de forma empática, não consegue ficar alheia a tudo e oferece ajuda. Um ombro. E isso, conforme vai se aproximando cada vez mais do menino. De Alex. De sua família como um todo que, vá lá, vai se tornar de forma inevitável a sua "família escolhida". Outro conceito que aparece volta e meia nas artes, em estudos, e que, de forma muito justa, é apropriado pela comunidade LGBTQIA+, que sofre preconceito nos laços de sangue. Há uma canção lindíssima da Rina Sawayama chamada Chosen Family, que evidencia esse conceito à perfeição.
Nesse contexto tem-se um filme singelo em que acontecimentos cotidianos ganham mais força do que o normal - como no momento em que Alex tromba com Sandra no corredor do prédio, com as compras se espatifando no chão. Papeladas pra resolver, vidas pra tocar, arrependimentos do que poderia ter sido e não foi (como no instante em que Alex revela ter forçado a barra para que tivessem um filho, mesmo que Cécile não desejasse passar por uma nova maternidade), tudo vai surgindo de forma naturalista, orgânica, sem forçação. A solidão de Alex que tenta de forma desajeitada se aproximar da vizinha de forma amorosa após um beijo, apenas evidencia a sua fragilidade e baixa autoestima em um momento em que ainda trabalha o luto e o sentimento de abandono. E isso não tem a ver com o fato de Sandra ser uma mulher mais velha, uma vez que ela é interessante, inteligente e, mais do que tudo, presente.
Nesse sentido o filme, inspirado em obra de Alex Ferney, sem tradução no Brasil, não força situações irreais por mera condescendência. Há todo um ideal de nunca abandonar a verossimilhança para qualquer ajuste inadequado. "Ainda é cedo pra ficar com alguém?" pergunta Alex à própria Sandra, após alguns meses como viúvo depois de, talvez, estar se apaixonando novamente. Com uma trilha sonora excelente - o auge é a sequência ao som de Don't Get Me Wrong, do Pretenders (um golpe baixo, né?) -, a obra quebra certas convenções em um roteiro arejado e que, facilmente, a gente se apega (com o perdão do trocadilho). "Estou feliz por você", diz Sandra a Alex durante o casamento dele com a enfermeira Emilia (Vimala Pons), que dança feliz ao fundo. A vida é que isso, altos, baixos, quedas e voltas por cima, dores e alegrias. Nesse turbilhão a gente nunca tem certeza de nada. E talvez resida aí uma parte da beleza.
Talvez uma pitadinha menos eletrônico do que no excelente SALVE-SE! - nosso 24º colocado na lista de melhores nacionais de 2024 - e um pouco mais acústico ou introspectivo. Mas, obviamente, preservando a mescla de MPB, soul e jazz que são marcas registradas. Essas parecem ser as primeiras impressões quando ouvimos Dissolução, o mais novo registro de inéditas da sempre ótima Bebé. Olhando um pouco mais para dentro, buscando talvez uma essência, a artista povoa o álbum com violões, baixos acústicos e percussões, deixando um pouco de lado os beats, os sintetizadores e a programação, que davam uma cara mais urbana pra produção. Claro, isso não significa abandonar completamente estas ideias, mas reconfigurá-las, o que pode ser percebido, por exemplo, em Evapora Lágrima, um trip hop ondulante, que acena para um ambiente onírico, bucólico, ao mesmo em que versa sobre perdas e superação de dores.
Um outro exemplo desse espírito mais orgânico pode ser observado em Variante Estelar / Para Lô Borges que homenageia o músico, um dos fundadores do Clube da Esquina, que nos deixou em novembro do ano passado, aos 73 anos. Aliás, à Revista Noize ela explicou, de forma aparentemente jocosa, que sua família a "alienou" no que diz respeito ao consumo desse rock rural mineiro. Sobre a simbiose que gestou a letra (O Rei descansa no oceano livre pra chorar / Agora o sol vai condensar / Num verbo desdobrando um jeito novo de lembrar), ela fala em download cósmico. Aliás, é nessa mesma canção que ela cita a dissolução, um conceito que rege o trabalho - essa capacidade nossa de se reconstruir, após se desfazer, como numa alquimia. Com participações de, entre outros, Tássia Reis e Tuyo, Bebé segue sua mágica particular. São músicas simples, como Se Tocar e Vulcânica, mas cheias de alma.