De: Tay Garnett. Com Lana Turner, John Garfield e Cecil Kellaway. Suspense / Drama, EUA, 1946, 113 minutos.
Lançado no mesmo ano de Interlúdio (1946), O Destino Bate à Sua Porta (The Postman Always Rings Twice) parece um filme mais Hitchcock do que o próprio Hitchcock. Cheio de reviravoltas engenhosas e diálogos espirituosos, o clássico de Tay Garnett, que completa 80 anos de lançamento em maio, é poucas vezes lembrado como um dos grandes suspenses da história. E é preciso que se diga que ele merecia mais crédito, até mesmo pelo caráter um tanto imprevisível dos acontecimentos. Sim, em linhas gerais a narrativa, inspirada em um romance de James M. Cain - que receberia diversas adaptações -, parece até convencional: casal de amantes se une para planejar o assassinato do marido da adúltera, com o objetivo de herdar o restaurante deste. Só que, nesse caso, as coisas saem totalmente de controle. Primeiro quando uma das tentativas dá errado despertando a atenção dos investigadores locais. Depois, quando em uma nova ação, o resultado também não é o desejado.
E não é que Cora Smith (Lana Turner) não emane a energia da femme fatale assim que ela surge em cena pela primeira vez - em roupas curtas e alvíssimas, de pernas de fora, com um olhar enigmático e inquisidor para o novo visitante, um certo Frank Chambers (John Garfield), um forasteiro que chega ao restaurante de beira de estrada junto à uma empoeirada rodovia nos arredores de Los Angeles, interessado em uma vaga de emprego. Recebido com entusiasmo pelo dono da lancheira, o carismático e otimista Nick (Cecil Kellaway) - um homem mais velho que, por acaso, é também o marido de Cora -, Frank começa a trabalhar com o casal. Recebendo ordens poucos simpáticas da mulher. Isso até o instante em que ele comete uma ousadia: a beija após uma discussão. Que evoluirá para uma paixão. Os dois resolvem fugir, com Cora deixando um bilhete pedindo a separação. Só que ela nem chega na parada de ônibus e já meio que se arrepende, ao perceber que a vida com um pobretão como Frank não promete um futuro dos melhores.
Mas mesmo assim eles se gostam e elaboram um plano para dar cabo de Nick, que sempre toma um banho demorado de banheira, com direito à cantoria no final do dia. A ideia é que Cora espalhe bolinhas de gude pelo banheiro, para que uma queda seja simulada. Só que tudo desanda quando um policial passa por lá fazendo uma ronda de rotina. Com tudo piorando quando um gato é eletrocutado - o que causa uma queda de energia. Nick até cai em meio a isso, mas sobrevive e, bom o plano é deixado meio que de lado. Frank vai a Los Angeles pra trabalhar nas docas, mas acaba reencontrando um atabalhoado Nick, que quer que ele volte pra propriedade - que leva o bucólico nome de Twin Oaks -, para um anúncio: ele quer vender a propriedade pra que ele e Cora se mudem para o Norte do Canadá, para cuidarem da irmã adoentada do idoso. Essa é a deixa para que, em desespero, a dupla resolva colocar um novo plano de assassinato em prática: esse envolvendo a queda do carro de um penhasco após uma noite de bebedeira.
Sim, são muitas ocorrências em sequência e não deixa de ser um deleite acompanhar uma dupla de criminosos tão destrambelhada, num esforço para colocar a sua ideia mirabolante em prática. Apaixonados, Cora e Frank volta e meia encontram uma brecha para um banho de mar daqueles que funciona como uma alegoria do fortalecimento da paixão de ambos. E as imagens tanto da praia, como do deserto ventoso - o que faz com que uma placa caia, necessitando de reparos -, geram uma tensão meio torta, como se não soubéssemos o momento exato em que a violência explodirá (se é que ela explodirá, dadas as trapalhadas do casal central). Outro ponto interessante é perceber como Nick não apenas jamais desconfia das intenções da dupla, como ainda age como um sujeito amistoso em tempo integral e até eventualmente estúpido - o que torna tudo mais complexo e, não nego, divertido. Enfim, uma experiência com boas surpresas, que garante duas horinhas de entretenimento - ainda que tudo possa soar limpinho demais, no auge da aplicação do Código Hays.







