Vamos combinar que tudo o que os recentes A Mão de Deus (2021) e Parthenope: Os Amores de Nápoles (2024) tiveram de movimentados, sedutores, enigmáticos, oníricos e artísticos - bem como parece ser quase sempre na obra de Paolo Sorrentino -, o recente A Graça (La Grazia) tem de introspectivo, sutil e, vá lá, quase fastidioso. Aliás, não são poucas as vezes em que o protagonista do filme, o presidente da Itália Mariano de Santis (Toni Servillo, parceiro habitual do diretor) lembra a alguém sobre ele ser a pessoa mais "entediante que existe". Por sinal, como forma de elogiar a sua falecida esposa, Aurora, que partiu oito anos antes, Mariano rumina sobre ela ter sido extrovertida do casal, dotada de brilho, sempre expansiva. E não ele. Mas, verdade seja dita, com raras exceções, políticos costumam ser apenas isso mesmo: figuras aborrecidas, preocupadas apenas consigo mesmo, com suas reputações ou legados mesquinhos e acertos de contas com todas as estruturas de poder.
Se em Parthenope, a protagonista funcionava como uma alegoria para a Nápoles natal de Sorrentino, talvez em A Graça estejamos diante de um microcosmo da própria Itália e seu ambiente de instabilidade - comandado com mão de ferro por uma Giorgia Meloni de extrema direita, que parece cada vez mais distante dos anseios ou dos ideais da população em geral. A sociedade evoluiu, progrediu? Em partes. Mariano está no seu último semestre como chefe geral da nação e circula pelos corredores como uma figura estranhamente solitária, que, salvo o contato com alguns de seus funcionários mais próximos (assessores, chefes de gabinete), mantém próximo de si apenas a sua filha, Dorotea (Anna Ferzetti), uma jurista respeitada que está em uma espécie de cruzada com o próprio pai para convencê-lo a assinar uma lei favorável a eutanásia. O que envolveria confrontar uma série de instituições - inclusive o Vaticano.
E como se não bastasse essa decisão polêmica, à sua mesa chega também um outro pedido. Ou dois. No caso, a solicitação de indulto em dois casos de assassinato ocorridos anos antes. Em um deles há um claro conflito interesses - já que a solicitação parte do amigo Ugo Romani (Massimo Venturiello), provável candidato do mesmo partido de Mariano, e que deve ser o seu substituto natural para as próximas eleições. Para Ugo, sua sobrinha Isa Rocca (Linda Messenklinger) merece a liberdade após ter matado o marido a facadas - um sujeito com um histórico de agressões de todo o tipo à jovem. Já a outra solicitação envolve um professor de história muito querido por seus alunos, que tira a vida da esposa que padecia de Alzheimer. Em alguma medida, ambos os casos se conectam com o tema central: em que circunstâncias, afinal, é legítimo tirar a vida de alguém? Especialmente em uma sociedade em que as decisões jurídicas são, em muitos casos, feitos com a Bíblia debaixo do braço, tudo piora.
Hábil no uso de metáforas visuais que, aqui e ali, servem para pincelar desejos, medos e frustrações legítimas do ser humano - quase sempre seus filmes são pequenos ou grandes estudos antropológicos, que exigem alguma paciência do espectador -, Sorrentino polvilha o filme com instantes em que dilemas éticos ou morais emergem, como forma de reforçar as ideias da obra. E, aqui, vale observar a importância simbólica que um cavalo agonizante passa a ter para a narrativa. Um animal em sofrimento, todos sabemos o seu destino. E se esse animal for um humano? Outros momentos são engraçados apenas por ser, seja durante a visita do presidente português e toda a burocracia e demora para uma simples descida do carro em plena chuva, nas situações em que o protagonista matuta sobre uma possível traição de Aurora no passado, ou mesmo nas várias situações em que Mariano se encafifa com o fato de ter sido apelidado, na juventude, de "concreto armado". Definição mais do que perfeita, aliás.
Nota: 8,0







