quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Curta Um Curta - Os Cantores (The Singers)

Ao assistir o curta metragem Os Cantores (The Singers), indicado ao Oscar em sua categoria neste ano e que está disponível na Netflix, fiquei com a sensação curiosa de estar diante de algo ao mesmo tempo simples, mas cheio de camadas. A obra, dirigida por Sam A. Davis a partir de texto escrito pelo russo Ivan Turguêniev, em 1850, parte de um recorte aparentemente modesto - o de vozes de trabalhadores cansados que se unem em um isolado boteco para uma disputa musical -, revelando aos poucos que cantar é muito mais do que alcançar a nota certa. É conexão, identidade e busca de permanência. Há uma delicadeza na forma como a câmera se aproxima dos personagens - esses sujeitos meio xucros, eventualmente incômodos -, quase pedindo licença, que contrasta com a potência emocional que explode quando a música finalmente ocupa o espaço.

 


O que mais chama a atenção é como o filme entende o silêncio tanto quanto entende o som. Entre uma apresentação e outra nessa espécie de competição improvisada, em meio a olhares concentrados e suspiros nervosos, está o verdadeiro coração da narrativa. Não se trata apenas de se expor publicamente, mas do que antecede esse gesto. E do que fica. Existe vulnerabilidade - e o curta não tenta polir isso. Pelo contrário: abraça as imperfeições como parte essencial da harmonia e da experiência coletiva. Se o curta com seus minúsculos 18 minutos de duração poderia mergulhar ainda mais fundo nas histórias individuais? Talvez. Fica aquela vontade de conhecer melhor cada trajetória, cada conflito íntimo. Ainda assim, Os Cantores funciona justamente por não exagerar na dose. É um filme que entende o poder da arte: vozes diferentes em disputa que, juntas, criam algo maior do que a soma das partes. Ficando aquela sensação boa de que, às vezes, a arte consegue organizar o caos do mundo nem que seja com uma boa canção. Vale conferir.

 

Cinema - Sirāt

De: Oliver Laxe. Com Sergi López e Bruno Nunez Ariona. Drama / Aventura, Espanha / França, 2025, 115 minutos.

Foi no clássico Assim Falou Zaratustra, que Nietzche sentenciou: "eu só poderia acreditar em um Deus que soubesse dançar". E, em alguma medida, as ideias subversivas de dança, de riso e de excesso parecem estar diretamente relacionadas à rave no deserto - um conceito que pode soar meio estranho se dissociado de algum ponto de reflexão -, vista ainda no começo de Sirāt, o enviado da Espanha para a categoria Filme Internacional no Oscar e que está em cartaz nas salas do País. Há algo de perturbador e hipnótico naquele universo em que somos inseridos, em que pessoas comuns movimentam o corpo freneticamente ao som de música eletrônica evocativa, que se repete como um mantra. "Não se escuta nada" lamenta alguém a certa altura, dada a altura elevada do barulho que sai das caixas de som. "Não é para escutar, é para dançar", retruca outra pessoa, enquanto um mundo meio apocalíptico se despedaça ao redor.

Em linhas gerais a obra dirigida por Oliver Laxe não é aquele projeto com começo, meio e fim bem desenhados ou que segue uma lógica de cartilha hollywoodiana. Em alguns fóruns online alguns espectadores ficaram descontentes com o tom excessivamente melancólico de saída de lugar nenhum para nenhum lugar. A ação como um todo se passa no Sul do Marrocos, no que parece ser a divisa com a Mauritânia. Um espaço em que tudo o que se enxerga é areia e poeira até onde a vista alcança. Enquanto um grupo de seres que parecem saídos de Mad Max movimenta o corpo como uma fuga alienante em um tempo de desesperança, Luis (Sergi López) procura desesperadamente a sua filha Mar, que teria se perdido (ou talvez até fugido) em uma dessas misteriosas raves do deserto. Ao lado do filho Esteban (Bruno Nunez Arjona) o homem faz uma investigação particular sem muito sucesso, mostrando fotos da garota, enquanto ouvem negativas sobre o paradeiro.

 


E como se tudo não fosse incômodo o suficiente, surge lá pelas tantas um grupo de militares que obriga a festa a parar - nenhuma surpresa quando se tratam dos maiores inimigos das artes ou da música, o que reforça a ideia da festa como uma forma de subverter a ordem dominante. De se libertar. Só que um grupo de jovens - seus nomes são Stef (Stefania Gadda), Jade (Jade Oukid), Tonin (Tonin Janvier), Bigui (Richard Bellamy) e Josh (Joshua Handerson) - consegue fugir do comboio militar, desviando a rota para tentar alcançar uma outra rave, em local ainda mais distante. O que faz com que as esperanças de Luis e Esteban se renovem. No rádio, uma série de transmissões fala sobre a iminência de uma Terceira Guerra Mundial, o que explicaria os conflitos armados, ao passo em que o coletivo tenta se apoiar em meio a um sem fim de percalços em sua cruzada pelo deserto, com a gasolina ficando escassa, veículos atolados e tragédias inimagináveis. 

Para além desse contexto de fluxo de vida em meio a conflitos há ainda um outro sentido, este relacionado ao título da obra, já que a palavra Sirāt significa caminho ou estrada. Aliás, mais do que isso, a via em que todas as almas devem atravessar no dia do Juízo Final. Se há aí uma explicação bíblica, divina ou religiosa que só será percebida conforme a narrativa avança - e certas barreiras são cruzadas - caberá a cada espectador interpretar. Não dá pra negar que, naquele estado de coisas todos ali parecem em um elo meio perdido entre a ruína e a salvação - o que é reforçado pelo fato de várias das pessoas que vemos terem braços e pernas amputados, ou outras deficiências que poderiam sugerir provações e mesmo a superação destas. Nada fica exatamente claro e esse é um projeto repleto de simbolismos ou alegorias sobre os nossos tempos. Sobre a busca por redenção. O que aqui envolve superar limites imprevisíveis do ponto de vista geográfico, em um tipo de purgatório particular que leva ao extremo o conceito de civilização como o conhecemos.

Nota: 8,5 

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Picanha.doc - Embaixo da Luz Neon (Come See Me in the Good Light)

De: Ryan White. Com Andrea Gibson e Megan Falley. Documentário, EUA, 2025, 105 minutos

"Pessoas que dizem não entender poesia talvez nunca tenham tido que dar uma notícia devastadora a alguém que amam". É quase no final do documentário Embaixo da Luz Neon (Come See Me in the Good Light), que a poeta e ativista Andrea Gibson lê um trecho do comovente Guardian Angel Fish, poema de onde se extrai o fragmento acima. Ao cabo, trata-se de um momento de vulnerabilidade e até de tentativa de suavizar a sua própria condição já que, com um câncer terminal, aquela provavelmente será sua última apresentação a um grande público. Aliás, plateia que lhe admira não apenas pela crueza e pela franqueza de sua arte, mas também pela simplicidade de seus versos - sempre diretos, descomplicados, mundanos. "A minha ideia sempre foi fazer poesia em que as pessoas não precisariam de diploma para compreender", reflete Andrea em outro ponto. O que ela alcança sem dificuldade, dada a onipresença de seu público.

Em uma obra sobre uma pessoa que recebe uma sentença de morte e precisa meio que lidar com a situação, são meio que inevitáveis alguns clichês do gênero - como no caso das seguidas idas ao hospital para a discussão de possíveis tratamentos, efeitos colaterais dilacerantes e até o exame existencial da própria existência. Mas nada disso compromete a apreciação do projeto do diretor Ryan White - de Boa Noite, Oppy (2022) -, que está indicado ao Oscar na categoria Documentário. O que se tem aqui é uma experiência dolorida, mas também um elogio ao poder das artes, da potência de existir e da importância do cuidado e do amor, o que é simbolizado, aqui, pela onipresença da também poeta e professora Megan Falley, sua namorada e companheira de vida. Pessoa que, por sinal, jamais a abandona mesmo que, em flashbacks, Andrea tenha aberto essa possibilidade à parceira.

 


Na trama, imagens antigas mostram como Andrea se tornaria uma espécie de celebridade da poesia - um tipo de James Dean Gay (dada a sua beleza e força no meio) -, a forma como ela e Megan se conhecem e como a descoberta do câncer, em meio à pandemia, transforma a vida de ambas. E, por mais pesado que o filme, que está disponível na Apple TV, possa parecer em meio à discussões sobre memória, finitude e luto, não são poucos os instantes em que o casal central trata a situação com deboche, como no momento em que Megan comenta com uma amiga que "daria uma dedada tão profunda em Andrea, que arrancaria o câncer naquela noite", gerando gargalhadas durante um jantar. "E vou fazer isso ao mesmo tempo em que rezo", brinca, de forma provocativa, trazendo a presença (ou ausência) de Deus para o debate, em uma espécie de ironia que alude a luta por sobrevivência de qualquer forma.

Entrecortado por várias das poesias de Andrea - como as famosas Tinture, The Little Things, Boomerang Valentine e Your Life (este último sobre a descoberta da sexualidade e de como foi a vivência queer em uma pequena e conservadora cidade dos Estados Unidos) -, o documentário é absurdamente naturalista ao mostrar a relação de ambas com seus amigos e familiares, de forma honesta, sem nunca soar condescendente. Claro que em um filme sobre uma pessoa tão relevante em seu meio e que sofre um grande impacto não apenas pela severa doença - um câncer no ovário que se alastra de forma dilacerante -, mas também pelos preconceitos sofridos desde jovem, há uma tendência maior ao elogio ou a exaltação das virtudes. O que talvez se explique pela ausência de grandes polêmicas em sua vida particular para além das óbvias questões de gênero e políticas. Para quem está fazendo o check list de filmes para o Oscar, vale conferir.

 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Cinema - Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (Hamnet)

De: Chloé Zhao. Com Jessie Buckley, Paul Mescal, Jacobi Jupe e Emily Watson. Drama / Romance, Reino Unido, 2025, 125 minutos. 

Aquele tipo de filme feito sob medida para a temporada de premiações, tanto em termos técnicos, quanto nos exageros melodramáticos da narrativa. Assim é Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (Hamnet), filme mais recente de Chloé Zhao - de Nomadland (2020) - e que está indicado em várias categorias no Oscar. E, vamos lá, nem tanto ao céu nem tanto ao inferno na hora de analisar a obra, que é baseada em um romance de Maggie O'Farrell, que dramatiza parte da trágica vida do escritor William Shakespeare (Paul Mescal) e da esposa Agnes Hathaway (Jessie Buckley). Especialmente a parte em que precisam lidar com a morte do pequeno Hamnet (Jacobi Jipe). E, como manda a tradição do melodrama de época, não são poucos os momentos, nesse conjunto de acontecimentos, que tentam fazer com que o espectador verta lágrimas a qualquer custo. Quase na marra. E, confesso que lá pela sexta tentativa em que Agnes aparecia urrando de dor por algum motivo qualquer, começou a dar uma cansada.

E, a bem da verdade, essa tem sido uma das críticas de parte da imprensa especializada - a de uma certa forçação de barra no estilo "ok, aqui vocês precisam chorar de qualquer forma", como no momento em que o falecimento de Hamnet é confirmado. Só que, ainda assim, essa é uma experiência bonita, até pelo pano de fundo artístico, com uma série de sequências teatrais de ensaio (especialmente quando Shakespeare migra para Londres para tentar a vida como autor), ainda que a produção seja muito mais centrada em Agnes. E na sua persistência como mãe solo que fica na província, tornando possível o brilho do marido candidato a escritor. É ela, afinal, que meio que abre mão daquilo que alimenta a sua alma - e que tem a ver quase com uma existência quase mística, junto aos seres da floresta, o que faz com que ela faça amizade com um falcão e que tenha profundo conhecimento das ervas medicinais e de seus poderes (algo que vem de sua família).

 


Aliás, esse é justamente o componente mais interessante do roteiro - que é aquele que torna Agnes uma espécie de renegada que vive à margem, quase como uma bruxa excêntrica conectada a esse mundo divino e onírico. Por outro lado, Shakespeare é retratado como um sujeito de grande sensibilidade, que conhece a protagonista justamente quando chega ao vilarejo para dar aulas de latim para as crianças do local (para desespero de seu pai, um fabricante de luvas de lã que acredita que o futuro financeiro deve estar ligado aos negócios) - e não é por acaso que o começo do filme de Zhao chama tanto a atenção, que é quando essas duas almas marginalizadas se encontram e se amam. Ainda que esse contexto envolva instantes meio constrangedores, como aquele em que o escritor narra à sua pretendente um trecho de Orfeu e Eurídice, que pode até parecer conveniente à trama, ainda que não tenha nada a ver com ela.  

E aqui precisamos falar sobre as interpretações e, por vezes eu tenho a impressão que a Academia tem uma predileção por pegar aqueles papeis meio que mais ou menos da carreira desta ou daquela atriz, como forma de premiar o conjunto da obra. E quem acompanha a carreira da Jessie Buckley sabe que, para além das caras e bocas de sofrida geradas em Hamnet, ela costuma ser uma presença magnética em seus projetos sem que haja qualquer exagero mais caricato e até em filmes pequenos como Entre Mulheres (2022) ela parece mais crível - e nem vou citar o excelente Estou Pensando em Acabar com Tudo (2020), que aí é covardia. E a minha opinião polêmica talvez seja a de que a Emma Stone dá de relho em entrega no injustamente subestimado Bugonia (2025). Elegante, com bom desenho de produção, fotografia e figurinos, e discutindo temas ligados ao luto, morte e memória, o projeto ainda peca pela trilha sonora exagerada, que parece subir na hora errada, nos lembrando novamente do momento em que devemos lacrimejar. Só que, isso, infelizmente, soa um tanto artificial. E faz com que nos desconectemos, de alguma forma.

Nota: 6,0 

 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Pitaquinho Musical - Ratboys (Singin' to an Empty Chair)

Vamos combinar que algumas bandas demoram um pouco pra "acontecer" pra um público mais amplo e, por mais contraditório que isso possa ser, é também uma oportunidade para que esses artistas depurem seu som ao máximo para que a entrega seja a melhor a cada novo lançamento. E esse parece ser exatamente o caso do Ratboys, grupo de Chicago que chega ao seu sexto - e disparadamente o melhor - registro de inéditas. Cada vez mais distante do lo-fi um tiquinho mais intimista que marcaria os primeiros registros da carreira de mais de dez anos de existência, o coletivo parece expandir a sua sonoridade para além do indie de cafofo (que sempre foi ótimo, ressalte-se), com a chegada do excelente Singin' to an Empty Chair. Mais polido, por vezes ensolarado e com um aceno ainda mais acentuado para o comercial, o álbum é um primor de produção, equilibrando de forma perfeita as guitarrinhas rock que dão sustentação às melodias primaveris - por mais que os temas do disco possam ser cabeçudos.

 


Aliás, há um conceito - o da "conversa com uma cadeira vazia" - que meio que une a coisa toda. E que fica mais evidente em Just Want You to Know the Truth, peça central do registro e um épico de mais de oito minutos, em que emergem temas ligados à vulnerabilidades e traumas familiares. "Meu terapeuta me deu essa ideia não apenas para a composição, mas para o meu próprio processamento da vida e de todas essas grandes mudanças que minha família está passando", enfatizou em entrevistas. Em outros instantes, assuntos como distanciamento emocional (Open Up), falta de conexão em relacionamentos (Anywhere), aceitação e passagem do tempo (Penny in the Lake) e frustração e desejo de transformação (Burn it Down), formam esse clima meio generalizado de terapia, quase como um monólogo interior. Ainda assim é importante que se diga: o disco nunca soa triste ou sorumbático, e um bom exemplo é a grudenta Know You Then, uma das melhores canções desse início de ano. Vale a atenção.

Nota: 8,5 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Tesouros Cinéfilos - Guerreiras do K-Pop (KPop Demon Hunters)

De: Chris Appelhans e Maggie Kang. Com Arden Cho, May Hong, Ji-young Yoo, Ahn Hyo-seop e Lee Byung-hun. Comédia / Fantasia / Musical, EUA / Canadá, 2025, 95 minutos.

Vamos combinar que não é difícil compreender a verdadeira comoção gerada por Guerreiras do K-Pop (KPop Demon Hunters), obra disponível na Netflix e que está indicada ao Oscar 2026 na categoria Animação. Primeiro de tudo que é um filme esteticamente lindo. Depois tem as personagens cheios de carisma e extremamente bem desenhadas - com personalidades distintas. Aí entra o senso de humor e as ótimas piadas, que se intercalam com algumas das melhores canções pop da última temporada. É tudo tão legal que a gente até meio que ignora a historinha lugar-comum sobre autoaceitação e respeito às diferenças - algo que se tornou meio que um padrão no gênero - mas que, ainda assim, é super bem construída, trazendo o tema com leveza. Os adolescentes certamente adoram. E a geração 30+ inevitavelmente se divertirá, principalmente pelo fato de alguns dos vilões serem integrantes de uma boy band antiquada, que certamente faria sucesso na segunda metade dos anos 90.

Ah, e vale comentar uma coisa que me preocupou desnecessariamente, antes de conferir o filme dirigido pela dupla Chris Appelhans e Maggie Kang: não é necessário ser um grande fã de KPop para apreciar a produção, já que, música pop de qualidade é música pop de qualidade em qualquer parte do globo. Bom, a trama não poderia ser mais graciosa, por mais que envolva uma espécie de maldição em que demônios atacam vítimas humanas, para levar suas almas que servirão de alimento a um líder macabro - seu nome é Gwi-ma (Lee Byung-hun) e ele se assemelha a uma grande fogueira de tonalidades preta e violeta (a cor costuma ter associação com a morte). A forma de barrar essa entidade macabra envolve simplesmente a música. O canto. Algo que, através dos tempos uniria a população, criando uma espécie de barreira protetora dourada, chamada de Honmoon. Capaz de isolar o mundo que vivemos, da dimensão sombria.

 


É é aí que entra o nosso trio de heroínas integrantes do grupo Huntrix, sendo elas Rumi (Arden Cho), que vem de uma verdadeira dinastia de cantoras, Zooey (Ji-young Yoo), habilidosa rapper e letrista e Mira (May Hong), espécie de ovelha negra da família, que é iconoclasta a ponto de ter usado um saco de dormir na mais recente edição do Met Gala (em mais um aceno ao público adulto). São elas que seguem uma linhagem de jovens cantoras que, anos a fio, mantém o Gwi-ma nos submundos, não sendo capaz de levar seu plano maldito a cabo. Bom, ao menos até agora e dois são os motivos principais que complicarão as coisas: o primeiro é o fato de Rumi não apenas ter um segredo de infância que pode colocar tudo a perder, mas também ver a sua voz falhar justamente alguns dias antes da decisiva apresentação no Idol Awards (sendo a vitória fundamental para a consolidação do Honmoon). Já o segundo é que Gwi-ma resolve dar uma cartada um tanto ousada: criar no submundo uma boy band, seu nome é Saja Boys, que possa atrair a atenção dos fãs - e de suas almas, que lhe servirão de alimento.

E é muito bonito e engraçado ver como tudo se desenrola, principalmente quando entra em cena o enigmático Jinu (Ahn Hyo-seop), o líder dos Saja que estabelece uma relação muito próxima de Rumi. Jinu também preserva um dolorido segredo do passado, que fez com que ele abandonasse a família para se aproximar de Gwi-ma, sob a promessa de uma vida melhor através da música. Algo que nunca se consolida para além dos planos maquiavélicos do tal ser - e é absurdamente lindo ver as trocas entre esse casal central, que se aproxima e se afasta de acordo com os ventos da narrativa e que, todo o mundo já sabe, precisará unir forças para que o mal maior seja confrontado. Que músicas como Golden, Free (a minha preferida), What Ir Sounds Like, How It's Done e, inclusive Soda Pop (dos Saja) sejam tão monumentais, grudentas e performáticas, ajudando ainda a narrativa a andar, com suas letras cheias de significados, metáforas e ambiguidades, é só a cereja do bolo. É um filme pra todo mundo e acho difícil que alguma animação mereça mais o Oscar. 

 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Cinema - A Única Saída (Eojjeolsuga Eobsda)

De: Park Chan-wook. Com Lee Byung-hun, Son Ye-jin, Park Hee-soon e Lee Sung-min. Comédia / Drama / Policial, Coréia do Sul, 2025, 139 minutos.

De Tempos Modernos (1936) à Parasita (2019) não foram poucos os filmes que nos mostraram ser possível fazer a crítica ao capitalismo - e sua sanha devorada -, mas sem abrir mão do tom ácido, debochado. Aliás, talvez essa seja uma escolha bastante certeira na hora de abordar o tema - com todo o respeito às obras sisudas. A gente ri de nervoso frente ao absurdo. Mas também compreende bem as metáforas - mesmo que o ato de superar candidatos a uma vaga de emprego, se torne uma luta meio que literal demais pela sobrevivência. E esse é justamente o caso de A Única Saída (Eojjeolsuga Eobsda), obra do diretor Park Chan-wook - do recente e ótimo Decisão de Partir (2022) -, que está em cartaz nos cinemas e que, em alguma medida, repete as ideias apresentadas no excelente O Corte (2005) do grego Costa-Gavras. As duas produções, aliás, foram inspiradas em um romance do escritor Donald Edwin Westlake, de 1997.

Na trama, Man-soo (Lee Byung-hun) vive uma vida de comercial de margarina. É feliz ao lado da esposa e dos dois filhos, tem uma casa ajardinada que lhe permite fazer aquele churrasco gostoso no final de semana a ponto de ele sussurrar, que tem "tudo", após um abraço coletivo em família. Bom, isso até a fábrica de papel que ele trabalha ser vendida para um grupo de investidores estrangeiros que pretendem fazer um corte de 20 por cento da força de trabalho. Pouco importa o fato de Man-soo, com seus 25 anos de dedicação à firma, ser um dos mais experientes - ele tenta argumentar com os novos diretores. "Eles não te deram a enguia, te deram?", pergunta um colega, dando a entender que o peixe em formato de cobra é não apenas um sinal de que ele está prestes a ser demitido, como também a alegoria sexual inevitável, que alude à ponta mais fraca dessa equação. O operário padrão, o chão de fábrica, é sempre quem se ferra nesses casos. Sem muita margem pra negociar com o patrão.

 


Desesperado, Man-soo entra pra uma espécie de mentoria ridícula dessas que, ao invés de ajudar, parece gerar mais pressão. A ideia é que ele volte ao mercado de trabalho em três meses - e as dolorosas entrevistas de emprego, com salas cheias de sujeitos arrogantes de terno e gravata, parecem piorar tudo (e a cena em que o protagonista tenta simplesmente ver o rosto de um de seus interlocutores, sendo atrapalhado por uma luz estourada do sol que vem da rua, é só mais uma metáfora para o sofrimento do homem). Em família, a ideia é cortar todos os gastos supostamente excessivos - aulas de dança, a conta da Netflix -, e começar a pensar na venda da casa e do carro como forma de evitar dívidas. A esposa Mi-ri (Son Ye-jin) volta a trabalhar em um consultório odontológico. Até os cachorros têm de ser doados momentaneamente, para desespero das crianças. Tudo parece complicado até Man-soo enxergar uma luz no fim do túnel. O que lhe exigirá uma tomada de decisão extrema.

[SPOILERS A PARTIR DAQUI] Em meio a tantas humilhações, o sujeito decide que quer a vaga de um gerente da empresa concorrente Moon Paper - o que envolve dar cabo de um certo Seon-chul (Park Hee-soon), que é o detentor do posto. Só que não basta apenas isso: para ficar com o cargo, ele precisa provar que é o melhor em sua área - que é o momento em que ele leva a noção de capitalismo tardio e de selvageria do mercado de trabalho ao limite, atraindo os outros postulantes para uma vaga fictícia, criada por ele. O que lhe permitirá colocar em prática um plano diabólico de... assassinato! Repleto de sequências excêntricas que evidenciam a completa inaptidão do sujeito para o seu propósito - tentativas falhas, fugas aleatórias, emboscadas que não funcionam a contento -, o filme avança como uma experiência desalentadora e pessimista, mas também hilária e ácida sobre o absurdo de, em tempos de automação de tudo, ainda estarmos disputando um espaço que nos garanta o mínimo de dignidade. Que ele seja em uma fábrica de papel, talvez seja só mais uma das ironias.

Nota: 8,5

 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Curta Um Curta - Armado Com Uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud (Armed Only with a Camera: The Life and Death of Brent Renaud)

Ao concluir o documentário em curta-metragem Armado Com Uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud (Armed Only with a Camera: The Life and Death of Brent Renaud), fiquei com a impressão de que o homenageado no filme merecia mais. Assim como a história parece carecer de um pouco mais de profundidade - especialmente sobre os horrores da guerra e sobre quem, na maioria dos casos, a patrocina. Sim, porque assistir a um bando de militares homenageando o cineasta e documentarista Brent Renaud - assassinado em 13 de março de 2022 por tropas russas, enquanto documentava a Guerra da Ucrânia -, é pouco. Famoso por coberturas de conflitos e atentados diversos em países como Iraque, Somália, Haiti, Afeganistão e Honduras, o profissional deixou um amplo legado, que documenta o custo humano e o absurdo como um todo das guerras. O que fez com que pagasse com a própria vida - assim como centenas de jornalistas que atuam em locais do tipo. 

 


"O jeito que você segura essa câmera, dá pra ver que você faz isso com o coração", resume um homem em uma maca, gravemente ferido, após os atentados com caminhões-bomba na cidade de Mogadíscio, a capital de Somália - um dos tantos momentos de impacto. Essa humanidade do homem que está armado apenas com uma câmera se espalha por outros fragmentos, como na relação com o irmão autista Craig, pelos animais e na paixão pelo seu próprio ofício. Que o curta disponível na HBO Max - e que é um dos indicados ao Oscar em sua categoria na premiação desse ano - poderia ser um longa, com mais ângulos, mais vozes e mais política (especialmente em tempos de avanço da extrema direita nos próprios Estados Unidos), não resta dúvida. De qualquer forma fica o registro deste projeto que funciona mais como uma desalentadora (e pequena) homenagem, do que como uma produção com mais estofo.