segunda-feira, 20 de julho de 2026

Novidades em Streaming - Backrooms: Um Não-Lugar (Backrooms)

De: Kane Parsons. Com Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Lukita Maxwell e Mark Duplass. Ficção Científica / Suspense, EUA, 2026, 110 minutos.

Vamos combinar que quando pensamos em memórias, sejam elas afetivas ou não, talvez nem sempre elas decorram de grandes acontecimentos. Muitas vezes aquilo que nos marca pode estar relacionado a fragmentos menores de fatos rotineiros que, por vezes, ressurgem como borrões em uma espécie de limbo em que nem tudo é claro ou evidente. Quem nunca passou por uma antiga casa de infância ou bairro em que viveu na juventude que simplesmente parecia maior - com outra geografia, outra dimensão, outra noção de espaço - quando era criança e que, hoje, parece resultar outra? E, mais, que sonhos teríamos tido nós naquele passado que, agora adultos, foram concretizados ou soterrados? Quais os traumas que carregamos? As dores? Os medos? Qual a bagagem que nos forma? De que forma nossas famílias, o ambiente e a sociedade nos moldam? Sim, parece um excesso meio filosófico para um filme pequeno, mas o caso é que todos esses temas parecem dialogar, em alguma medida, com o excelente Backrooms: Um Não-Lugar (Backrooms), que chega para aluguel na plataforma da Amazon.

Por sinal, não são apenas esses assuntos que possibilitam essas divagações existencialistas que orbitam a obra, mas também outros, relacionados à mídia, às corporações e ao capitalismo tardio. Sem que tudo soe apenas como uma grande salada de referências, tendo algum sentido genuíno em um momento em que um certo mal-estar generalizado à moda Byung-Chul Han atravessa a humanidade. Em alguma medida, a obra concebida pelo jovem Kane Parsons - um youtuber de apenas 20 anos, que teve grande projeção com os seus vídeos tão experimentais quanto inventivos, compartilhados na plataforma - parece uma mescla de Ruptura (2022 -), com Quero Ser John Malkovich (2000) e algumas pitadas da obra cult Cubo (1997), de Silent Hill (o game) e até da série Twin Peaks (1990 - 1991), especialmente o estranhamento surrealista desta última, que se amplia com a ótima trilha sonora. Ao cabo, o que se tem aqui é uma experiência de sensações - de medos inconscientes, de traumas familiares e de memórias doloridas que parecem retornar infinitamente para nos assombrar. Sim, no fundo há um filme. Mas também há um desconforto generalizado. Que burla os limites do mero cinema de suspense, com seus óbvios jump scares.

 


Na trama que se passa nos anos 90, o protagonista Clark (Chiwetel Ejiofor) é um arquiteto que nunca conseguiu se realizar em sua profissão, e que ocupa seus dias como gerente de uma loja de móveis que funciona em um amplo - e naturalmente opressivo - galpão. Enquanto precisa lidar com a decadência dos seus negócios, o que o força a produzir vídeos de propaganda constrangedores em que se veste de pirata (o mascote do empreendimento) em uma década pré-viralização, ele ainda luta para superar o alcoolismo, que resultou em um divórcio recente. O que faz com que ele procure ajuda da terapeuta Mary Kline (a ótima Renate Reinsve) que, mais adiante, também descobriremos ter os seus esqueletos no armário - resultado de um relacionamento conturbado com a sua mãe ultraprotetora e agorafóbica, que sequer deixava ela olhar para a rua quando criança (que dirá sair de casa).

Sem um lugar oficial para habitar, Clark opta por meio que morar na loja - há ali camas, televisão e outros objetos que possibilitam improvisar uma casa -, mas ele estranha o fato de a conta de luz parecer muito acima do valor. E quando ele chama um eletricista para verificar a chave geral, ele não apenas percebe a existência de um disjuntor sem muita função na caixa, como, mais adiante, após uma queda de energia repentina, constata um feixe de luz meio inexplicável, na parede. E que lhe possibilitará adentrar uma espécie de portal - um outro plano, um não lugar (como no subtítulo) infinito, como num tipo de pesadelo arquitetônico de Jorge Luís Borges, em que cadeiras e moveis se espalham de forma aleatória, galerias se alternam com espaços minúsculos e portinholas levam a cenários que parecem saídos de algum quadro de Salvador Dali (com estofados ou calçados enterrados pela metade, destroços de mobiliários aleatórios e roupas velhas e sujas pelos cantos). Fora as luzes piscantes e os zumbidos e barulhos diluídos e constantes.

 

 

Nesse enorme labirinto sem fim a pior surpresa é sempre a próxima e, em uma chamada telefônica, Clark alerta Mary para o fato de que está preso para sempre no local - em uma alegoria quase óbvia para os transtornos mentais e de como eles mexem com nosso inconsciente, de forma a dificilmente fazer com que nos libertemos deles (sem um bom acompanhamento, por óbvio). Excêntrica, bizarra e surpreendente a produção ainda tem fotografia e desenho de produção impecáveis - e, a menos que o pessoal da Academia esteja hibernando em um sono profundo, ambas deverão ser lembradas entre as indicadas em sua categoria no Oscar. Ao cabo, trata-se de uma obra bem ao estilo da A24 e desse onda de novos realizadores que, se não reinventam a roda, adicionam uma série de camadas complexas para assuntos já tão batidos em outros suspenses psicológicos. Crescer emocionalmente pode ser complicado por demais, ainda mais quando precisamos lidar com lembranças, perdas e um sentimento de paralisia que não nos deixa evoluir. Que uma obra tão honesta e tão bem feita nos permita pensar de forma adulta a respeito de tudo isso, é um grande mérito.

Nota: 9,0 

Pitaquinho Musical - Íris da Selva (Íris da Selva)

Discos como o homônimo lançado pela artista trans paraense Íris da Selva nos permitem perceber que ainda há tempo para se apaixonar pela MPB da moda de viola e da flauta, que une o rural e o urbano para falar de noites enluaradas, fitas de pipa que "beijam o sol", crianças que brincam nas ruas - algo que pode soar inocente e o puro, mas também visceral e político, ainda mais se investigarmos para além das melodias primaveris, bucólicas e contemplativas que regem o trabalho. Como é o caso, por exemplo, na sutil poética Tratado de Paz, que aborda corpo e identidade de gênero (Íris se apresenta como não-binária), em uma letra sobre autoaceitação e busca por identidade (Será difícil entender / Que eu não quero parecer / Com mais ninguém além de mim? / Será difícil aceitar / Não sou moça nem rapaz / Sou meu tratado de paz).

 


Já a singela Domingo de Tarde tem letra entre o esperançoso e o melancólico, trazendo o carimbó como um gênero que, aqui e ali, se espalha pelo registro, unido a outros como o folk e o rock rural. Ao cabo, como nos próprios materiais de divulgação da artista, são "canções que carregam a sensibilidade e a força das encantarias das águas em sua poética musical. A espiritualidade é seu elemento condutor e suas composições procuram descortinar o dia a dia , na busca de apresentar ao mundo sua percepção das delicadezas e entrelinhas da vida". Em tempos em que vida parece tão corrida, apressada, tecnológica, em que tudo parece "pra ontem", poder buscar a calma para apreciar um registro que olha para o íntimo mas sem soar piegas ou sem personalidade é algo a ser reconhecido. Íris consegue essa beleza no simples. Como fica evidente em Um Lugar Pra Ir, Bem e Algo Tão Doce.

Nota: 9,0 

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Tesouros Cinéfilos - Dia de Treinamento (Training Day)

De: Antoine Fuqua. Com Denzel Washington, Ethan Hake, Scott Glenn, Eva Mendes e Tom Berenger. Ação / Policial, EUA, 2001, 122 minutos.

"Me tornei policial pra prender traficantes, criminosos, não para me tornar um deles". Em um dos momentos mais impactantes do clássico moderno Dia de Treinamento (Training Day), que completa 25 anos de lançamento em 2026, o jovem e idealista policial Jake Hoyt (Ethan Hawke) tem um choque de realidade ao perceber que o almejado trabalho na Divisão de Narcóticos da delegacia de Los Angeles, talvez o obrigue a estar com um pé na antessala do crime se ele não "jogar o jogo", ao lado de um bando de policiais corruptos, punitivistas e reacionários. E que tem na figura quase caricata de Alonzo Harris (Denzel Washington), seu principal representante. Ao lado de Alonzo e de um esquadrão de oficiais, Hoyt acompanha a apreensão de US$ 4 milhões em dinheiro escondido na casa do traficante Roger (Scott Glenn), um veterano que parece ter algum tipo de vínculo com Alonzo.

Na ideia de quem possui um código de ética que respeita os ritos jurídicos e a ampla e irrestrita possibilidade de defesa, que parece ser o caso de Hoyt, a sequência deveria envolver grana apreendida, bandido preso, trâmites legais ocorrendo. Enquanto os policiais se regozijam em definir quanto do dinheiro recolhido ficará nas mãos deles - ainda mais no caso de Alonzo, que está enrolado até o pescoço depois de ser prometido de morte por um grupo ligado à máfia russa, após uma confusão em uma boate -, uma pistola é entregue a Hoyt. O objetivo? Assassinar Roger, alegando, posteriormente, legítima defesa. "Só porque usamos distintivos é diferente?", argumenta o bom homem, tentando demover Alonzo e os demais da ideia. "Você vai ser condecorado e subirá rapidamente na carreira", retruca o sujeito, para pasmaceira geral. "Tem gente que não dormiu na aula de ética", debocha um terceiro, enquanto um outro agoniza após levar um tiro forjado, em uma operação que quase dá errado. 

 


Sim, pode parecer complexo, mas a realidade é muito mais simples: quando Hoyt é designado para um dia de trabalho que será fundamental para a sua efetivação na divisão de narcóticos - até ali ele era apenas um burocrata trabalhando pro Estado e sonhando em galgar algumas posições -, ele jamais imaginaria encontrar um sujeito tão poucas ideias, que não faria feio no grupo de milicianos vistos em Tropa de Elite 2 (2010), por exemplo. Aliás, no primeiro encontro da dupla já há certo estranhamento, na medida em que Alonzo consegue ser machista já no diálogo inicial, ao tirar sarro do novato por ele ter sido treinado, anteriormente, por uma mulher. A violência ameaçadora com que o homem trata um grupo de adolescentes usuários de maconha que tá meio que só se divertindo na praça não ajuda, com tudo piorando com uma perseguição envolvendo um cadeirante (papel de Snoop Dog, uma das tantas participações especiais) e o uso de um falso mandado de busca para obter vantagens na casa da família de um traficante preso.

E como se desgraça pouca não fosse bobagem, Alonzo ainda obriga o calouro Hoyt a fumar maconha, sob a desculpa de que um "bom agente precisa ter os narcóticos no sangue", para que mais tarde saibamos que tudo é parte de um bem engendrado plano que pode prejudicar o sujeito. Repleto de cenas tensas típicas de filmes policiais do final da década de 90 e início da de 2000 (o instante em que Hoyt joga pôquer, após ser abandonado por Alonzo em um local boca braba é uma das melhores), a obra trata de um tema que, para nós, brasileiros, parece bastante familiar. Ainda mais se pensarmos no Rio de Janeiro, onde homens da lei e representantes de governo parecem muito mais próximos de operadores do tráfico do que do lado de quem deveria promover a segurança pública. Vencedor do Oscar por seu papel, Washington é fundamental em sua entrega de um sujeito sem nenhuma ética, mas cheio de carisma, enquanto o seu Monte Carlo roda pela fervilhante Los Angeles, sempre cheia de segredos no submundo. Por sinal, o papel é tão marcante que, em uma lista de grandes vilões da história do cinema, organizada pelo American Film Institute (AFI), Alonzo Harris obteve uma honrosa 50ª posição. Tá disponível na HBO Max e vale recordar.

 

quarta-feira, 15 de julho de 2026

A Volta ao Mundo em 80 Filmes - Costa Brava, Líbano (Líbano)

De: Mounia Akl. Com Nadine Labaki, Saleh Bakri e Nadia Charbel. Drama, Líbano / Catar / França / Espanha / Suécia / Dinamarca / Noruega / EUA, 2021, 106 minutos.

Talvez não possa haver metáfora mais adequada para a podridão do capitalismo tardio, que costuma colocar seus tentáculos em basicamente todos os aspectos de nossas vidas, do que um depósito de lixo emergindo na porta de nossas casas. E é mais ou menos isso o que ocorre com os protagonistas de Costa Brava, Líbano (Costa Brava, Lebanon) que, do dia para a noite, passam a conviver com uma estranha movimentação na propriedade vizinha, quando uma equipe do governo chega com maquinário pesado e uma estátua simbolicamente tosca do presidente, anunciando que construirão ali um novo aterro sanitário. Até aquele momento o casal Soraya (Nadine Labaki) e Walid (Saleh Bakri) vivia uma existência idílica em meio a natureza exuberante, junto às montanhas - sempre acompanhados das filhas Reem (Ceana e Geana Restom) e Tala (Nadia Charbel), além da avó Zeina (Liliane Khouri) -, até que a paz é interrompida.

O caso é que a distopia da diretora Mounia Akl - que foi a enviada do Líbano para o Oscar de 2022 e está disponível na Reserva Imovision - parte de um caso real envolvendo a dificuldade do País de dar conta do destino dos próprios resíduos em meio a um cenário de corrupção, para imaginar um futuro próximo em que viver na capital Beirute é praticamente impossível. É esse desejo de se refugiar e de meio que se afastar de tudo - quem nunca, né? -, que faz com que a família Badri vá para longe, habitando uma simpática casa de campo, com piscina e cultivos próprios de animais, frutas e hortaliças. Quando um grupo de funcionários do governo chega ao limite da propriedade e inicia a movimentação, um dos representantes explica: a área, que pertencia à irmã de Walid, foi vendida à administração pública e, depois de levantamentos ambientais de viabilidade, decide-se implantar ali um lixão. Com um sistema de reciclagem que reaproveitaria oitenta porcento dos resíduos.

 


Evidentemente que Walid, um ativista que conheceu Soraya - uma cantora precocemente aposentada aparentemente também pelos problemas ambientais do País - durante um protesto em que é agredido pela polícia, fica desgostoso com a situação. Ainda mais porque aquela nova conformação alterará profundamente a rotina da família - não apenas com os barulhos das escavadeiras e da música alta que ecoa da vizinhança, mas também pelo caráter invasivo dos operários, que parecem empenhados em espionar pelas frestas, especialmente quando a jovem Tala rodeia a piscina. Espécie de porta-voz do canteiro de obras, o engenheiro Tarek (François Nour) se aproxima dos habitantes dos vizinhos, estabelecendo vínculos variados entre o encantamento e a amizade, especialmente com Tala, que está tendo seu despertar sexual aflorado, além da idosa Zeina, que faz aquela linha da avó engraçada, ousada e até meio desbocada, estilo a Copélia da Artele Salles, no eterno Toma Lá da Cá.

Só que quanto mais o tempo passa, mais a rotina do quinteto vai sendo mudada: incêndios de difícil controle, água fétida saindo da torneira (em um tom sugestivamente vermelho de sangue) e mesmo a impossibilidade de ter privacidade, vão contribuindo para que a tensão geral também avance, ainda que Walid não acredite na consolidação do projeto, que poderia ser só mais um esforço de governo às vésperas da eleição. Aludindo a outras obras sobre pessoas ou grupos enfrentando forças financeiras e institucionais ou mesmo tentando preservar um estilo de vida mais simples e que funcionam quase como um subgênero atual - como no caso de Eu, Daniel Blake (2018), O Preço da Verdade (2019) ou o nacional Aquarius (2016) -, a produção discute temas ligados à degradação ambiental e a conflitos familiares mediados pelo capital. E ainda que nunca nos forneça uma solução mágica, nos faz refletir sobre o mundo não apenas que vivemos, de como nos adequamos a ele e o que queremos deixar para o futuro. Não por acaso, a diretora explicou que a família funciona como uma alegoria do País. E que fugir dos problemas, mesmo que simbolicamente eles sejam representados por enormes sacos de lixos azuis ameaçadores, não fará com que eles sumam.

Nota: 8,0

 

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Pitaquinho Musical - Madonna (CONFESSIONS II)

"Devemos dançar, celebrar e orar com nossos corpos. Essas são coisas que fazemos a milhares de anos - e são realmente práticas espirituais. Afinal, a pista de dança é um espaço ritualístico. É um lugar onde você se conecta com suas feridas, suas fragilidades. Curtir uma rave é uma arte. É ultrapassar seus limites e se conectar a uma comunidade com a mesma mentalidade". Vamos combinar que o manifesto lançado por Madonna no último mês de abril, já dava o tom: CONFESSIONS II, espécie de continuação natural do clássico moderno Confessions on a Dance Floor (2005), seria novamente, como muitas vezes foi na carreira da maior artista pop de todos os tempos, um veículo de exaltação não apenas da música, mas de corpos, de existências, de vidas. E que serve para lembrar que o ato de dançar, de mexer o corpo, não tem nada de superficial. Ao contrário, é uma espécie de transe capaz de alterar nossa consciência, modificar nossas personas. De, em meio à sombra, sermos quem desejamos de verdade, no nosso íntimo.

 


Nesse sentido, o décimo quinto registro de inéditas da artista, que chega seis anos depois do mediano Madame X (2019) - que meio que atirava para muitos lados, mas sem coesão ou mesmo alguma lógica -, opera como se fosse uma longa e meio que única faixa dançante, capaz de conferir à pista de dança esse caráter ao mesmo tempo idílico e espiritual, vibrante e caloroso. Ao cabo não se trata de reinventar a roda - há muita coisa no disco que a própria Madonna já exercitou artisticamente no passado -, mas de reafirmar esse senso de coletividade e da música como experiência universal. Especialmente em um momento de avanço do reacionarismo na sociedade e de preconceitos que parecem ganhar certo verniz de legitimidade na boca de políticos e líderes de extrema direita. Esse conceito existiria se não fossem os tempos brutos de perseguições à minorias? Difícil saber. O fato é que o disco pode até não ser perfeito do início ao fim - há, aqui e ali, uma outra faixa que incha a audição. Mas, verdade seja dita, é meio difícil ficar alheio a um lançamento tão cheio de personalidade como esse e que vai para além do hype. E com músicas tão gigantes como a etérea Good for the Soul, a quente One Step Away, a incendiária Danceteria, a pulsante (e linda) Bizarre e a comovente Fragile (a minha favorita do álbum). 

Nota: 8,5 

Novidades em Streaming - Surda (Sorda)

De: Eva Libertad. Com Miriam Garlo, Álvaro Cervantes, Elena Irureta e Joaquín Notário. Drama, Espanha, 2025, 99 minutos.

Um ótimo filme sobre empatia em relação aos deficientes auditivos, mas que jamais trata a sua protagonista com condescendência. Assim é Surda (Sorda), drama espanhol escrito e dirigido por Eva Libertad e que está disponível para aluguel na Amazon Prime e da Apple TV. Aqui temos, assim como ocorre em outras produções - como no caso de O Som do Silêncio (2019) e No Ritmo do Coração (2021) -, a experiência de uma mulher surda de nome Ángela (Miriam Garlo, irmã da diretora e que é, de fato, deficiente auditiva), em uma busca permanente por adaptação em um mundo de ouvintes. Por mais que seu amoroso marido Héctor (Álvaro Cervantes) e o seu grupo de amigos surdos se empenhem em tornar a sua existência o mais inclusiva possível - e não por acaso, grande parte dos diálogos da produção, transcorrem com o uso da língua de sinais.

Só que a rotina mais ou menos pacífica de Ángela e Héctor - ela uma respeitada ceramista e ele um agricultor familiar -, é alterada quando a protagonista descobre estar grávida. E não é que o casal não esteja feliz, a despeito do bem humorado diálogo com os amigas surdas assim que a notícia chega, que não se furtam em verbalizar a complexidade de se criar crianças e adolescentes nesse mundo (a dificuldade de comunicação, afinal, parece independer da deficiência), mas será nesse momento em que Ángela se deparará com o preconceito estrutural que ainda rege a nossa sociedade. Os próprios pais da protagonista Elvira (Elena Irureta) e Fede (Joaquín Notário), a despeito da gentileza permanente, não deixam de cometer deslizes ao se mostrarem incomodados com o anúncio da gravidez, especialmente diante da possibilidade de haver a possibilidade de o bebê também ser surdo, por questões genéticas.

 


As idas e vindas de Ángela e Hector entre hospitais e lojas de equipamentos especializados não ajudam em nada, dada a frieza dos atendentes e da total falta de capacidade do ser humano em geral - aliás, todos nós podemos nos incluir nessa - em saber lidar com PCDs. Em linhas gerais Ángela consegue executar a leitura labial e entender muito do que é dito, o que não evita instantes incômodos - "por quê ela está falando só com você e não comigo?", reclama ela diante da médica ginecologista, que lhe passa detalhes a respeito das possibilidades de uma mãe surda gerar um filho com a mesma condição. Aliás, o auge dessa complexidade envolve justamente o momento do parto, quando Héctor é levado junto à sala de cirurgia para tentar traduzir em tempo real as instruções da equipe hospitalar, em uma sequência que se estende bastante na aparente intenção de fazer com que o público perceba que a dor nesse instante é tão emocional quanto física.

Só que diferente do que poderia ocorrer com outras obras, o roteiro de Libertad evita o "coitadismo" na hora de caracterizar Ángela. Claro, ela se sente preterida em rodas de conversa, com tudo piorando quando ela descobre que a filha não será surda - sendo muito hábil em evidenciar a sua insatisfação sobre a sina da própria filha não ser a mesma dela (e não deixa de ser interessante notar como ela caracteriza esse desapontamento com o mero olhar ou leves inflexões de expressão). Longe de ser uma mãe amorosa, ela entre numa espécie de rota de disputa com Héctor, que se acentua com a depressão pós-parto, com a incomunicabilidade recorrente se tornando uma alegoria para um casal que começa a ver a deterioração de sua relação com a chegada de um filho (o que também pode ocorrer com ouvintes, por óbvio). Bonito, carismático e com ótima reflexões sobre empatia e respeito às diferenças, esse é um projeto que ainda usa o aparato técnico - especialmente a edição de som -, para fortalecer as suas ideias. Não por acaso, a obra recebeu uma série de premiações, podendo agora encontrar o carinho do público.

Nota: 8,0 

 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Novidades em Streaming - Beladona (Belladone)

De Alanté Kavaïté. Com Nadia Tereszkiewicz, Daphne Patakia, Dali Benssalah, Alexandra Stweart, Patrick Chesnais e Miou-Miou. Ficção científica / Drama, 2025, 95 minutos.

Vamos combinar que filmes sobre etarismo ou que confabulem a respeito do destino dos idosos, tem se tornado uma espécie de subgênero curiosamente recorrente - como evidenciam distopias recentes, como a enigmática produção japonesa Plano 75 (2022) ou o exuberante nacional O Último Azul (2025). Sim, em uma sociedade no limite entre o niilismo e a misantropia, o simples ato de permitir uma velhice digna parece certo exagero - e talvez não seja por acaso que, em um contexto tão pautado pela individualidade e pelo produtivismo infinito como um efeito do capitalismo tardio, ficções científicas do tipo tenham certa tração. Em Beladona (Belladone), que está disponível na Reserva Imovision, temos novamente este futuro próximo em que uma jovem chamada Gaëlle (Nadia Tereszkiewicz), é responsável por cuidar de um grupo de idosos refugiados em uma ilha.

Em geral não há muitas informações para além de um letreiro inicial que indica que, nessa realidade paralela, idosos com cerca de 80 anos são enviados para instituições. Para viver? Para morrer? Apartados de suas famílias? Cuidados pelo Estado? Pouco se sabe. E não demorará muito para que compreendamos que Gaëlle opera, em seu isolamento permanentemente preocupado, de forma meio clandestina. Só que sendo responsável por oito velhos, os problemas de saúde são inevitáveis, o que fará com que ela acione, via rádio, uma embarcação que navega em alto-mar, atraindo para o local a bela médica Aline (Daphne Patakia) e seu caloroso irmão David (Dali Benssalah), que, inicialmente, auxiliarão no socorro geral do grupo de anciãos. Como no caso de Pierre (Patrick Chesnais), um fã de literatura que mantém uma biblioteca em uma das habitações do local.

 


Em alguma medida a chegada à ilha de dois jovens tão bonitos, tão inteligentes e tão cheios de vida como Aline e David - a tiracolo ainda está a fofíssima filha de Aline -, parece reanimar o coletivo octogenário. Até mesmo retirando-os, ao menos momentaneamente, de certa resignação de quem, apenas, aguarda a morte como um destino inevitável. Não por acaso, Evy (Alexandra Stweart, uma bela senhora do alto dos seus oitenta e muitos anos), até se anima a usar um novo vestido que estava a muito guardado, como forma de despertar a atenção de David, que tem idade para ser seu neto. Já Olivier (Jean-Claude Drouot), que tem como hobby a pintura, anima-se a instigar Aline a posar para ele, para um novo quadro. Há um certo descontentamento geral de Gaëlle com toda aquela movimentação. Que rompe a lógica da rotina a que todos ali estavam acostumados.

[SPOILERS A PARTIR DAQUI] E tudo piora quando, após uma noite em que todos ali jantam animados - abusando da comida, da bebida e até de outros prazeres sensoriais -, os idosos começam a padecer um a um. Como médica, Aline parece ter explicações razoáveis para as mortes - problemas circulatórios, tumores e etc -, mas Gaëlle parece ter dificuldade em aceitar a finitude. O que a leva a culpar os forasteiros. De forma metafórica, a diretora Alanté Kavaïté espalha pela ilha a própria planta beladona que, se consumida em pequenas doses pode ter um sem fim de efeitos benéficos, sendo essencialmente venenosa em sua versão in natura - suas bagas e folhas. Essa dicotomia entre o homeopático e o tóxico, a celebração e a dor, ou mesmo entre a vida e a morte parece guiar a narrativa, que nos conduz a uma série de reflexões sobre dignidade na terceira idade, autoridade e excesso de zelo. É uma produção bem executada tecnicamente, com trilha sonora existencialista e cenários idílicos que reforçam o ideal contemplativo do todo. Ainda que não haja um grande ponto chave ou de virada, que aprofunde a questão. É bonito e carismático, mas só.

Nota: 7,0 

 

Novidades em Streaming - Águias da República (Republikens Örnar)

De: Tarik Saleh. Com Fares Fares, Zineb Triki, Lyna Khoudri, Amr Waked e Cherien Dabis. Drama / Suspense, Suécia / Dinamarca / Finlândia / França, 2025, 129 minutos.

"Faraó das telas". O apelido pode ser meio brega, mas define bem a condição de George Fahmy (Fares Fares), o protagonista de Águias da República (Republikens Örnar), que foi o enviado da Suécia para a última edição do Oscar e que está disponível na Reserva Imovision. George é um renomado ator egípcio que participa de uma série de produções de gosto meio duvidoso - aqueles tipos de filmes românticos e épicos bastante populares -, mas que consegue ultrapassar com certa tranquilidade o rígido código de regras de censura do País. Aliás, como galã de cinema que trafega em ambientes mais progressistas, o protagonista aparenta ter ideias opostas às do patriotismo nacionalista, religioso e militar que, aqui, são fortemente representados pelo general Abdul Fatah Al-Sisi, que governa o País com mão de ferro, perseguindo opositores, rivais políticos, imprensa e, claro, setores ligados às artes, a educação e a cultura.

Em geral George tenta ficar alheio a isso. Mas não consegue, especialmente após ser constrangido durante um almoço com seu filho, por um misterioso funcionário do governo que o observa à distância - mais tarde descobriremos que se trata de um certo Mansour (Amr Waked), que se comporta como um Robert Walker do clássico Pacto Sinistro (1951), de Alfred Hitchcock, com seu olhar desafiador e enigmático. Com tudo piorando após um encontro com um grupo de atores que se dizem favoráveis ao governo, atuando contra dissidentes que tentam manchar a imagem dos militares, instigando-o a fazer parte do coletivo. O protagonista evita o grupo, por acreditar haver contradições entre ser um artista e um patriota - ou ao menos o que eles imaginam ser um patriota (e, vamos combinar que, nessas horas a gente percebe que só muda o País no que diz respeito a esse aspecto).

 


Resumo da ópera, George tem seu contrato para um novo filme suspenso, com direito a sumiço do seu trailer que funciona como um camarim. De forma indireta sua família passa a ser ameaçada e até mesmo os amigos, como no caso da companheira de telas Rula (Cherien Dabis), que talvez fique sem contrato de trabalho após defendê-lo em uma entrevista em rede nacional. Já a jovem Donya (Lyna Khoudri), que tenta emplacar uma carreira no meio, também dependerá da decisão do sujeito de se juntar ou não a uma peça de propaganda financiada pelo governo, no sentido de limpar a sua imagem após os eventos decorrentes do golpe de 2013 no País (uma produção meio Dark Horse, o filme do pangaré, egípcio). Diante de tantas pressões ele aceita o papel. Mesmo não tendo nada a ver com Al-Sisi. Aliás, nem fisicamente nem do ponto de vista político, religioso e cultural.

Em meio as filmagens, Goerge se aproxima de Suzanne (Zineb Triki), a elegante e letrada esposa do ministro da defesa - com quem ele se identifica em um jantar, após citações à Shakespeare e indiretas a respeito de homens minúsculos que só sabem falar a língua da guerra. E como as coisas não estão muito bem com Donya que, verdade seja dita, só está com o sujeito pelo glamour e para provocar o pai militar, George passa a ter um caso com Suzanne. E, bom, se a intenção era obter sarna pra se coçar, aqui o sujeito obtém o kit completo. Tensa e com perseguições diversas - como no caso do filho estudante de um vizinho -, mas também divertida - a cena da compra do tadala é ótima -, a trama vai evidenciando como o mergulho nesse ambiente de violência estatal se torna um caminho meio que sem volta depois de certas decisões tomadas. Com chantagens e jogos de poder de parte a parte. Ao cabo, pode haver algo sedutor em aderir às esferas de poder. Mas George aprende, da pior forma possível, que o preço dessa proximidade pode ser alto. E devastador em igual medida.

Nota: 8,0