De: Laura González. Com Paulina García, César Troncoso, Jean Pierre Noher e Laila Reyes. Drama, Argentina / Uruguai, 2023, 106 minutos.
Existe uma cena pequena, mas bastante significativa no minimalista, melancólico e sutil Milonga - o ótimo filme da diretora Laura González, que estreou na última semana na Reserva Imovision. Nela, Rosa (Paulina García) está pela primeira vez, desde que ficou viúva, em uma espécie de baile sensual da terceira idade típico da região uruguaia (e que ali recebe o nome de milonga, que também é o gênero musical tido como precursor do tango). É um momento de libertação pra Rosa, que está acompanhada de sua melhor amiga, a extrovertida, solar e desinibida Margarita (Laila Reyes), uma de suas maiores incentivadoras. Lá pelas tantas, a tímida protagonista ouve o barulho de um copo quebrando - e de um burburinho no ambiente, como consequência do episódio. É o suficiente para que um gatilho dispare e para que Rosa tenha de ir às pressas ao banheiro, após uma queda de pressão e do aumento da ansiedade.
Até aquela altura do campeonato, o espectador apenas desconfia dos motivos que levam Rosa a ter um comportamento bastante introspectivo, quase taciturno. Condição, aliás, que é agravada por um outro episódio traumático: no caso, a prisão de seu filho, em condições pouco claras. E, como se não bastasse o cárcere do rapaz, ainda parece haver um grande esforço não apenas dele, mas também de sua nora Alejandra (Clara Alonso), para que ela não o visite. E que não encontre também o neto, num provável caso de alienação parental. Mas se há um certo indício de que Rosa possa ter sofrido algum tipo de violência física e psicológica no passado - vinda, muito provavelmente, de um ex-marido controlador e agressivo -, por que seu filho a isola? São questões que perpassam a narrativa, mantendo o interesse sempre constante, em uma obra naturalista que tem o seu próprio tempo - econômico, metódico, sem pressa.
Rosa atualmente reside em uma grande casa uruguaia, com um amplo jardim que está meio abandonado. A caminhoneta do ex-marido não é mais necessária - e é depois de colocar o veículo à venda, que surge em sua vida Juan (César Trancoso, visto no inesquecível O Banheiro do Papa, 2007), um pintor bastante metódico, a ponto de organizar suas espátulas e pinceis com um ordenamento que vai quase no limite do transtorno. Rústico, mas amistoso, Juan faz amizade com Rosa, que indica a ele que quer modificar a cor do muro que ladeia a habitação (sai o brando pálido que era a cor preferida do falecido e entra o verde água, alegoria para os tempos de esperança). Com um radinho à tiracolo, Juan é adepto do tango - o que é a deixa para que ambos entrem no assunto das milongas e da possibilidade de irem juntos aos bailes incentivados por Margarita que, a despeito de ser uma senhora de 60 e poucos anos, não abre mão do salto alto e daquilo que ressalta sua feminilidade. Aliás, ela deseja que a amiga também se solte. Que desabroche. E talvez a parceria com Juan possa ser o caminho para isso. Será?
E, verdade seja dita, poucos filmes desse ano terão um desenrolar tão imprevisível e surpreendente em suas minúcias, em seus detalhes, como esse premiado projeto dos nossos vizinhos. Fosse um filme de Hollywood e talvez a onipresença magnética e prática de Juan, representasse uma possibilidade futura para quebra de padrões em relacionamentos - e para deixar para trás traumas, dores, luto e uma vida de sofrimento. Mas Milonga, com sua personalidade nunca óbvia, faz um importante alerta: para que as barreiras sejam, de fato, rompidas, há que se olhar para o futuro, sem ignorar aquilo que o passado ensina. Por muito pouco Rosa não entra num ciclo repetido que inicia em violências quase imperceptíveis e rotineiras - como na crítica à cor da sandália usada - até chegar à agressão à simpática Coquita, a cachorra da protagonista. O que culminará num hostil "vocês mulheres são todas iguais". No começo do filme, Rosa enfrenta dificuldades para tirar a aliança. Ao final, consegue trocar o chuveiro sozinha. Pode ser uma mensagem quase óbvia sobre independência feminina. Mas pra quem cresce em um ambiente patriarcal em que certos assuntos nunca são discutidos, não deixa de ser uma simbólica vitória. O que, ao som da linda La Cumparsita, de Geraldo Rodríguez, fica ainda melhor.
Nota: 9,0







