De: Matías Bize. Com Antonia Zegers, Néstor Cantillana e Catalina Saavedra. Drama, Argentina / Chile, 2022, 86 minutos.
"Criar uma criança é fácil, basta satisfazer-lhe as vontades. Educar é que trabalhoso." Devo admitir a vocês que, enquanto assistia ao ótimo O Castigo (El Castigo) - obra dirigida pelo chileno Matías Bize, a partir de roteiro da escritora Coral Cruz -, a famosa frase do pedagogo Içami Tiba, não me saía da cabeça. Afinal de contas, estabelecer limites aos pequenos, lembrando-lhes que nem tudo nessa vida é permitido, que existem regras, responsabilidades e consequências para os atos, pode ser algo mais difícil do que parece. Gerando frustração, mas também reforçando a importância do equilíbrio entre amor e limites, acolhimento e responsabilidade. E é nesse meio do caminho que parece residir o dilema dessa pequena joia, que finalmente chega à Reserva Imovision, e que coloca o casal Ana (Antonia Zegers) e Mateo (Néstor Cantillana) em lados opostos quando o filho Lucas (Santiago Urbina) desaparece, sem deixar rastro.
No começo do filme, Ana e Mateo trafegam vagarosamente por uma estrada vicinal asfaltada, ladeada por uma densa floresta - um cenário meio isolado, no Sul do Chile. Quando o homem diz à esposa, "Ana, acho que já chega", ela dá meia volta e para o carro uns dois quilômetros depois. Quando tem início uma saga meio desesperada do casal clamando pelo nome de Lucas, em vão. Ele sumiu deixando apenas um boné para trás. Não demora para que tenhamos a compreensão do que aconteceu: "abandonar" o filho junto ao mato era parte de um castigo - um tipo de faz de conta que teria o objetivo de assustar o pequeno, que estava tornando a viagem dos dois (especialmente a de Ana) à casa de familiares, um verdadeiro inferno. O caso é que a trollada no próprio filho dá errado, e eles se veem numa situação inusitada, que os leva a um limite muito próximo ao da negligência parental. O filho sumiu e a culpa é, aparentemente, dos dois. E como explicar isso pra polícia, sem que eles sejam incriminados?
Inteligente, a obra se vale de longos planos sequência em que o casal se divide pelo mato, chamando por Lucas. Quando uma dupla de policiais chega para investigar - a noite está caindo e com ela vem o frio, e até o receio de que pumas selvagens possam estar espalhados pelo mato, o que aumenta o senso de urgência -, uma espécie de força tarefa é estabelecida para tentar localizar o menino. A cada "reencontro" entre Ana e Mateo nesse cenário vasto e claustrofóbico, uma série de ressentimentos vêm à tona, no que diz respeito ao tipo de criação dada à Lucas. "Você ama ser visto como o papai heroi, que aparece sempre rindo para salvar o filhinho", argumenta Ana, em um exame daquilo que acredita ser um excesso de flexibilização do marido, em relação aos caprichos do menino. "Então é normal que eu seja a bruxa, a pessoa que sempre diz não", completa a protagonista, tornando evidentes as divergências entre ambos - com ela sendo a figura de autoridade, que estabelece horários, que sustenta decisões domésticas difíceis e cobra responsabilidades, ao passo que Mateo é o permissivo, que atende a todos os pedidos e proporciona os momentos de prazer - como as idas aos jogos de futebol.
Em linhas gerais esse é um filme pequeno, urgente, que se utiliza do sumiço meio inexplicável de um filho, para a análise um tanto franca de como a maternidade pode significar uma existência de desejos e sonhos interrompidos, de frustrações e até de arrependimentos. [SPOILERS A PARTIR DAQUI] Com uma sinceridade comovente, em meio às lágrimas e conforme as horas avançam, Ana revela a Mateo que talvez nunca quisesse ter sido mãe. E que foi apenas levada - pelo contexto, pelas convenções sociais e pelas expectativas em relação ao papel da mulher, especialmente em comunidades mais conservadoras. "Você deve me achar um monstro, mas há uma parte de mim que deseja não encontrá-lo nunca. E essa é a primeira vez que ouso confessar", comenta às lágrimas a mãe, evidenciando a exaustão de quem tem uma vida que gira em torno do filho. "Lucas me faz me sentir vazia e me lembrar de tudo o que desisti e isso é meio que parecido com deixar de existir", desaba a mulher, amparada pelo próprio marido. Sim, pode ser chocante para quem assiste. Mas eu tenho a mais absoluta certeza de que, lá no fundinho e, independente do amor (quase) incondicional aos filhos, muita gente poderá concordar. Não se trata de não amar a família - e Ana faz questão de lembrar o marido disso o tempo todo. "O que eu odeio é ser mãe", argumenta Ana instantes antes de Lucas reaparecer, conduzido pelo policial. O impacto permanece até o fim dos créditos.
Nota: 9,0







