Vamos combinar que basta uma olhadinha na capa (e no título) do sétimo e mais recente disco do rapperVince Staples, para que tenhamos a certeza: sua caneta segue incandescente. Sim, o bebê chorão e gordinho embrulhado na bandeira americana, e que talvez se ache meio que o dono do mundo, pode até ser a metáfora mais óbvia para a situação atual dos Estados Unidos. Mas a força do registro, que leva o sugestivo nome de Cry Baby, segue nos versos vigorosos e cheios de potência que capturam a tensão, o absurdo e o peso emocional da contemporaneidade - e de como, vá lá, a derrocada do sonho americano parece um processo de difícil reversão em uma nação comandada pelo líder de extrema direita mais patético do planeta. "Deus abençoe os EUA / Deus abençoe os EUA / Você pode viver pela arma, morrer pela arma (apenas na América)", verbaliza o artista na pungente e ótima Only In America - um libelo de resistência à glorificação da violência -, como que resumindo o conceito que se espalha por toda a obra.
Como um todo, o disco parece muito mais uma experiência sombria, soturna e que desconstrói esse patriotismo de boutique excessivamente militar e religioso que rege a atualidade. Com Staples se aproximando, para além do rap, de outros estilos, como o pós punk, o noise rock e até o indie garageiro. Esse tipo de percepção ecoa com força em canções como a inaugural Blackberry Marmalade que, com sua eletrônica oitentista à Siouxsie and the Banshees, fala de como a cultura negra é explorada em uma sociedade ao mesmo tempo preconceituosa, vigilante e que gera o medo constante. Manipulação midiática (TV Guide), violência policial (Go! Go! Gorilla), fadiga em um sistema que não muda (White Flag) e o histórico de lutas raciais (na espetacular Cotton), são temas que se alternam em versos que conseguem ser pesados e realistas, mas também movimentados e dançantes. "A música me faz sentir como algodão / Me levanta quando penso que vou cair", verbaliza o artista na já citada Cotton. É uma sensação que parece se espalhar por cada fragmento do trabalho.
De: James Sweeney. Com Dylan O'Brien, James Sweeney, Aisling Franciosi e Chris Perfetti. Comédia / Drama, EUA, 2025, 100 minutos.
Que filme inesperadamente simpático e cheio de carisma esse Twinless: Um Gêmeo a Menos (Twinless), de James Sweeney. Confesso que fui assistir com poucas expectativas - até por um certo cansaço da narrativa de sofrimento queer, que parece fazer barulho com um público restrito ou somente em festivais alternativos, como o de Sundance. Mas aqui temos não apenas uma produção cheia de boas surpresas e reviravoltas - aliás, vale a pena ir meio às cegas -, como uma leve subversão no que diz respeito ao comportamento daqueles que acompanhamos. Tudo começa em um funeral, em que o taciturno Roman (Dylan O'Brien, que está excelente) tenta juntar os cacos após a trágica morte do irmão Rocky, em um acidente automobilístico. Em meio a discussões com a própria mãe Lisa (Lauren Graham) sobre o que fazer com os objetos do irmão, Rocky decide participar de um daqueles grupos de apoio meio constrangedores, que muito vemos nos filmes de Hollywood.
É nesse local que Roman conhecerá Dennis (Sweeney, que também atua), que alega também ter perdido o irmão, com quem não teria muito contato. De forma meio surpreendente, até pela personalidade diametralmente oposta de ambos - Dennis é o gay de perfil mais brincalhão (inclusive em hora errada), ao passo que Roman é o hétero mais introspectivo -, a dupla faz amizade. Meio que se apoiando em tudo - de compras no mercado e jantas aleatórias a idas ao jogo de hóquei no gelo. Em meio a confidências, Roman de ressente de nunca ter sido capaz de conversar sobre os relacionamentos com o irmão falecido. Que teria saído de casa justamente por causa do preconceito familiar - e dele mesmo. Aliás, em uma das tantas cenas bonitas da obra, Roman se emociona ao verbalizar seu sentimento de culpa por nunca ter sido capaz de aceitar a preferência sexual do irmão. Por ter surtado por ele ser gay. Por tê-lo chamado de "veado". "Não sei como continuar aqui sem você", chora copiosamente, amparado por Dennis.
[SPOILERS A PARTIR DAQUI] Só que nessa altura do campeonato, o espectador já sabe que Dennis esconde de Roman o maior segredo da história. Não apenas ele havia tido um encontro amoroso e cheio de paixão sexual com Rocky pouco tempo antes do seu falecimento, como ele estava no local na hora em que o acidente ocorreu. Pior do que isso, a sua atitude de confronto em plena rua, no cruzamento de uma avenida, pode ter sido decisiva para o atropelamento - em uma cena de ciúmes de um outro rapaz. Como forma de preservar a amizade, Dennis age quase como um mitômano, dobrando a aposta nas mentiras, em sequências como a do reencontro com o ex que estava na cena do acidente. Ou fingindo crises de ansiedade aleatórias, como nos momentos em que ele passa a se morder de ciúmes da colega de trabalho Marcie (Aisling Franciosi), com quem Roman inicia um relacionamento.
Repleto de belas sequências sobre dor, ciúmes, memórias, luto, segundas chances e recomeços, a obra evolui de forma divertida (e tensa) conforme o tempo passa, com a verdade chegando muito próxima de ser revelada. Inteligente e discreta, Marcie terá papel decisivo no terço final - e confesso que adorei o fato de ela nem de longe ser uma megera esquisita (ela é um doce), ao passo que Dennis também é ótimo como a "bicha má" ressentida, mas charmosamente carismática, que precisa lidar com as próprias frustrações. E mesmo dramático, o filme diverte com boas piadas - como no momento da briga com um grupelho de fedelhos homofóbicos ("achei que a geração Z fosse mais legal") - e um sem fim de instantes afetuosos, inventivos e devastadores. Tecnicamente atenta ao público mais jovem, com edição ágil e trilha sonora de nomes como as Haim, essa é daquelas produções que descem direitinho. Tá na Amazon.
De: Oliver Stone. Com Charlie Sheen, Tom Berenger, Willem Dafoe e Forest Whitaker. Drama / Guerra, EUA / Reino Unido, 1986, 120 minutos.
Vamos combinar que não são necessários nem os primeiros dez minutos do clássico Platoon, de Oliver Stone, para que sejamos confrontados pelo absurdo da guerra - especialmente no que diz respeito ao seu caráter degradante. Afinal de contas, não há nada heroico em participar de um conflito. Aliás, uma batalha em que mal se compreendem as motivações - como costuma ser o padrão quando o assunto é a participação dos Estados Unidos me guerras. Quando chega como voluntário do exército americano no sul do Vietnã, no limite da divisa com o Camboja, o universitário Chris Taylor (Charlie Sheen) parece um tipo de idealista que está indo ao front para fugir de um certo padrão imaginado de sonho americano - especialmente para uma classe média desencantada nos anos 60. Só que não demora para que o olhar de deslumbramento quase romântico do jovem, em seu dever cívico, se converta em repulsa. Ou mesmo medo.
"O inferno é o lugar impossível da sensatez", verbaliza o homem em uma das diversas narrações em off que ele fará no transcorrer da produção - ruminações eventualmente existencialistas, a respeito do equívoco completo de todo aquele aparato preparado por homens, para que outros homens lutem contra sujeitos desconhecidos por uma causa... política? Cultural? Social? Geográfica? Religiosa? Na primeira andança pela selva seguindo o pelotão do tenente Wolfe (Mark Moses), Chris se depara com cadáveres putrefatos, serpentes ameaçadoras, o calor escaldante que se alterna com a chuva forte da madrugada, sem possibilidade de abrigo. A sensação como um todo é de um torpor pestilento. As formigas devoram os pescoços suados, em meio a tentativas de permanecer em silêncio. "Acho que cometi um erro, não sei se consigo ficar durante um ano aqui", divaga o jovem, aludindo à experiências dos protagonistas de outra obra-prima do gênero, no caso O Franco Atirador (1978).
Naquela altura do campeonato - no caso, os primeiros minutos do filme - Chris já havia escapado da morte, em uma emboscada vietcongue após ficar simplesmente paralisado diante da ameaça. E como se desgraça pouca não fossem bobagem, nas tentativas eventualmente frustradas de capturar guerrilheiros inimigos, o protagonista ainda precisa lidar com os conflitos internos que emergem, especialmente entre o compassivo sargento Elias Grodin (Willem Dafoe) e o autoritário e pragmático Robert Barnes (Tom Berenger). Se por um lado, Elias é como uma bússola moral que conquista o respeito dos demais primando pela disciplina, sem perder a empatia, do outro Barnes é o típico valentão da antessala do fascismo, daqueles que acredita que uma guerra é uma batalha de bem contra o mal, em um contexto em que qualquer tipo de ética é substituída por uma lógica única de sobrevivência, em que não há margem para confiança.
Em certo sentido, essa rivalidade entre ambos se sobressai na impactante e inesquecível sequência da aldeia em que os americanos, acreditando que os moradores - camponeses simples, muitos deles civis produtores de arroz - estariam abrigando vietcongues (e mesmo armas), agridem famílias, mulheres, crianças, em um processo de desumanização que encontra eco nos dias atuais (ainda mais quando assistimos a barbárie cometida em Gaza, perpetrada pelo lunático governo de Israel, com o apoio de Donald Trump). Gravitando o trio central outros personagens aparecem, aqui e ali, contribuindo para discussões para além do mero senso de camaradagem, como no caso do racismo, que é incorporado de forma orgânica com a presença de figuras como King (Keith David), Big Harold (Forest Whitaker) e Francis (Corey Todd), que se aproximam de forma natural naquilo que, em alguma medida, opera como uma espécie de alegoria para a própria sociedade americana, com suas divisões.
Cru, violento e quase agoniante - o que é reforçado pelas diversas tomadas de câmera muito próximas de seus personagens, que vagam pela selva com todo o seu aspecto imprevisível (a ponto de em um momento Chris sequer perceber a presença de uma sanguessuga em seu rosto) -, o filme se tornaria o primeiro grande sucesso de Stone, que, poucos sabem, participou da Guerra do Vietnã, com a sua experiência servindo de ponto de partida para a obra. Premiada com a estatueta máxima no Oscar de 1987, a produção ainda venceria outras nas categorias, como, Diretor, Som e Montagem. No que diz respeito à outras honrarias, Platoon atualmente figura como o 86° Melhor Filme da História, de acordo com lista elaborada pelo American Film Institute. Em 2011, o canal britânico Channel 4 consideraria este o sexto melhor filme de guerra já feito. Não são poucas as credenciais.
De: László Nemes. Com Bojtorján Barabas, Andrea Waskovics, Elíz Szabó e Marcin Czarnik. Drama, Hungria / França / Reino Unido / Alemanha, 2025, 133 minutos.
Um filme sobre a procura de um filho por seu pai, mas que também pode ser lido como uma alegoria para a busca de uma Pátria por uma identidade que parece perdida. Em linhas gerais não é exagero dizer que O Órfão (Árva) - o enviado da Hungria para a mais recente edição do Oscar e que estreou na última semana na Mubi - parte de um microcosmo que envolve uma família traumatizada não apenas pela segunda guerra, mas também pela ocupação soviética, imediatamente após o conflito. Com as feridas abertas como um todo no tecido social de uma nação que, no limite, parece ter trocado um regime ditatorial por outro - no caso o nazismo pelo stalinismo húngaro. Sim, talvez esse contexto não seja algo tão simples assim de se entender, ainda mais se levarmos em conta o fato de, inicialmente, a Hungria ter sido aliada dos alemães para, mais adiante, ser invadida e saqueada pelos militares de Hitler. O que resultaria em milhares de judeus deportados para campos de extermínio.
No filme de László Nemes - do agonizante vencedor do Oscar O Filho de Saul (2015), que também tem a guerra como pano de fundo -, o conflito já se encerrou há mais de uma década. O ano é 1957 e o protagonista - o pequeno Andor (Bojtorján Barabas) -, após ter sido resgatado dez anos antes por sua mãe, Klára (Andrea Waskovics), uma sobrevivente do holocausto, é detido pela polícia junto com outros adolescentes por, supostamente ter participado da Revolução Húngara no ano anterior, ocasião em que estudantes, professores, intelectuais, artistas e outros trabalhadores se rebelaram contra o domínio soviético. Milhares morreram e muitos fugiram do País. Em linhas gerais, Andor acredita que seu pai, um dos desaparecidos, possa estar vivo em algum local - aliás, ele tenta se "comunicar" com o genitor em uma espécie de porão abandonado. Mas sem nunca ter certeza disso.
Em paralelo o rapaz, que parece saído de alguma obra do neorrealismo italiano - o que é reforçado pela fotografia granulada e dessaturada das ruas decadentes de Budapeste, com sua arquitetura antiquada e ambientação urbana opressiva (com a presença de militares por todos os cantos) -, especialmente por suas andanças infinitas ladeando prédios e terrenos ermos, mantém uma graciosa amizade com Sari (Elíz Szabó) que, secretamente, ajuda a manter seu irmão escondido em uma habitação abandonada (ele seria um revolucionário sendo procurado pelo Estado). Já outro amigo de Andor, Geza (Marcin Czarnik), um ator de teatro, parece ser aquilo que mantém seu vínculo não apenas com a humanidade, mas também com a identidade de seu povo e de sua família (já que seu pai era o proprietário do cinema local). Especialmente em um cenário de vigilância, prisões políticas e opressão a opositores.
A desilusão é profunda - e parece ampliada em uma obra que tem sua própria medida de tempo, desenrolando-se sem pressa, com seus pequenos eventos diversos, sejam as idas ao cinema e a sinagoga e os encontros familiares, se espalhando de forma vagarosa. E como se desgraça pouca não fosse bobagem, tudo piora quando aparece na vida de Andor e de sua mãe um certo Mihály Berend (Grégory Gadebois), um sujeito tão misterioso quanto truculento que alega ser seu "novo pai" (e que teria ajudado Klára a se esconder dos nazistas). Estiloso do ponto de vista técnico - talvez até com certo exagero nesse sentido, o que poderia desviar a atenção para o que realmente importa em termos de temática -, o filme utiliza a cor vermelha dos balões e de outros objetos, como uma metáfora para a onipresença dos comunistas em solo húngaro. Da mesma forma, a violência que emerge do boxe como esporte, em substituição ao caráter lúdico do futebol em uma época do auge de Puskas, também pode funcionar como forma de evidenciar certo cansaço de um povo, há tanto oprimido. Sim, pode ser muita coisa para elaborar em uma produção eventualmente exaustiva com suas mais de duas horas. Mas não dá pra negar que é um esforço fílmico notável.
De: Max Walker-Silverman. Com Josh O'Connor, Lily LaTorre, Meghann Fahy, Kali Reis e Amy Madigan. Drama, EUA, 2025, 96 minutos.
Quem acompanhou mais de perto as enchentes que assolaram, em maio de 2024, diversos municípios do Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul, sabe que não foram poucos os entrevistados que, em meio aos escombros da tragédia que devastou tudo, levando os bens materiais (e até imateriais) de uma vida, reuniram forças para dizer que "ao menos estavam vivos". Por mais que casas, carros, eletrodomésticos e, no caso de moradores do campo, maquinários, galpões, animais e plantações, tenham sido levados pela fúria das águas, ao menos restaram as famílias e a sua resiliência. Em meio a um quadro desalentador - afinal foram muitos óbitos também -, o recomeço contou com o apoio de instituições públicas e privadas e de pessoas. Muitas pessoas. Numa ação coletiva que possibilitou algum tipo de recuperação - de autoestima, de dignidade, de esperança.
E não deixa de ser tocante perceber como o recém chegado à Netflix, Depois do Fogo (Rebuilding) trata justamente desse processo, vivido pelos flagelados climáticos: o de recuperar aquilo que realmente importa, num contexto de turbulência. Ao cabo, aqui temos uma experiência afetuosa e gentil que centra menos a sua narrativa no que desencadeia cheias, secas, queimadas, tsunamis e outros problemas climáticos e mais no que vem depois do ocorrido. O componente político certamente faria falta se esse fosse um projeto mais abertamente panfletário - e, admito que lá pelas tantas me incomodou um pouco o fato de os problemas ambientais estarem tão em segundo plano -, mas aqui o que é importa é o microcosmo dos vínculos familiares. Ou o que nos faz humanos. É clássica a frase de que sairíamos melhores como humanidade, depois da pandemia. Ou das cheias. Enfim, espero que tenhamos saído.
Na tocante obra dirigida por Max Walker-Silverman, que teria se inspirado em histórias da própria família (sua avó perdeu a casa num incêndio) Josh O'Connor é o cauboi Dusty, que tem a sua fazenda de oitenta hectares onde criava animais consumida por um incêndio de grandes proporções. Enquanto reside em um trailer improvisado oferecido pelo governo aos desalojados - ao lado de um grupo de outros moradores que passaram pelo mesmo -, Dusty estuda a possibilidade de ir morar e trabalhar em um rancho familiar no Estado de Montana, trocando o seu Colorado natal, no pé das montanhas rochosas. Taciturno e sem perspectivas para o solo dizimado pelo fogo - restando apenas galhos de árvores secas e retorcidas em meio ao cenário desértico quase pós-apocalíptico -, o protagonista só consegue ensaiar um meio sorriso quando está com a sua filha, a pequena Callie Rose (a ótima Lily LaTorre), fruto de um relacionamento com a ex-esposa Ruby (Meghann Fahy).
É ela, afinal, que lhe lembrará de forma afetuosa e meio que o tempo todo daquilo que importa - e daquilo que transforma um lar em lar de verdade. Sim, pode parecer papo barato de autoajuda, mas não deixa de ser comovente ver como o olhar de Dusty - entre uma postura entortada e outra, que se soma a incapacidade meio natural de um sujeito rústico do campo em seu comunicar -, ganha tons de doçura a cada ida a pequena biblioteca local para leituras improvisadas e momentos aleatórios em família (sério, é impossível ficar alheio à sequência da colagem de estrelas brilhosas nas paredes internas do trailer que, agora, é a casa deles). O senso de coletividade entre vizinhos, distribuindo cortesias (e comida), e se apoiando em tarefas domésticas cotidianas (como consertar uma torneira) nos faz lembrar do clima geral contemplativo, bucólico e resignado que assistimos em Nomadland (2020). Mas aqui a melancolia se converte em conforto e em lágrimas genuínas, quando nos percebemos torcendo por aqueles que estão ali, apenas querendo reconstruir as suas vidas, em meio a angústias, sonhos interrompidos e desejos de reconexão. Aliás, esse conjunto de ideias recebe um sentido quase alegórico na reta final, quando todos ali parecem perceber o significado de "família". É bonito demais.
O título autoexplicativo do novo registro do rapperEdgar dá a dica: Rewind representa uma espécie de volta ao passado para o artista. Um retorno a uma outra época, mas não como mera nostalgia de quem fica apegado àquele período de forma meio estática e, sim, como algo natural para quem parece estar em movimento permanente. Para ele, o trabalho representa um rebobinar não só na música, mas também na vida pessoal. "É a ideia de retornar às origens e olhar para raízes que, em alguns momentos, não receberam tanta atenção", comentou Edgar no material de divulgação. Na prática, isso significa recolocar estilos como o reggae, o dancehall, o paredão, o dub e outros ritmos latinos, além da cultura sound system no centro - o que representa esse ideal fervilhante e tropical de rua, de vida, de cenários urbanos e de comunidade em um conjunto que opera também como um organismo político, com seus próprios códigos.
Em resumo, não significa deixar o rap e o funk, que sonoramente formavam a matéria-prima do ótimo trabalho anterior Universidade Favela (2024) - nosso sexto colocado na lista de melhores nacionais daquele ano -, até porque esses estilos seguem presentes, mas de se reconectar com a essência. Ao cabo, Edgar não é apenas um músico na busca por condensar os tempos complexos que vivemos - de avanço da extrema direita, de opressão policial, de desigualdades sociais (com seus trilionários tecnológicos) e de racismo estrutural -, mas também um difusor daquilo que é popular, periférico e que integra essa engrenagem. O resultado dessa mescla pode ser percebido nas ótimas Cops With Guns, na sensualíssima Mão Pro Alto, na já clássica ZUM ZUM ZUM, escrita quando Edgar tinha 17 anos, e em Baila Loco, em que emula Manu Chao em uma cristalização do imaginário da dança, enquanto a tragédia no entorno ocorre, como ele explicou à Revista Noize. Vale o play.
De: Kristoffer Borgli. Com Zendaya, Robert Pattinson, Alana Haim, Hailey Gates e Mamoudou Athie. Comédia / Drama / Romance, EUA, 2026, 105 minutos.
Em uma das sequências mais esquisitas de Serotonina, de Michel Houellebecq, o protagonista Florent-Claude elabora um plano macabro na sua mente: especialista em tiro à distância, ele imagina como seria assassinar, a sangue-frio, o filho pequeno de uma antiga namorada. Em seu delírio sombrio - aliás, algo meio típico nos cínicos protagonistas masculinos do escritor francês - ele chega a engendrar detalhes de sua intenção (como posicionaria a arma, melhor momento para atirar, etc). Por fim ele não coloca o plano em prática, ainda que o leitor saia horrorizado daquele momento. A ponto de eu nunca mais ter esquecido desse instante da obra. E, bom, aí chegamos por linhas meio tortas em O Drama (The Drama), filme do diretor Kristoffer Borgli - dos ótimos Doente de Mim Mesma (2022) e O Homem dos Sonhos (2023) -, que recria meio que essa ideia: qual foi a pior coisa que já imaginamos fazer ou já fizemos em nossas vidas? E como isso afeta a nós ou aqueles que nos rodeiam?
Verbalizar, afinal, aquilo que está debaixo de muitas camadas do que se imagina um código de ética ou uma moral inquestionáveis, pode não ser tarefa fácil. Decisões erradas todo o mundo toma, mas e quando elas podem gerar traumas, dores ou coisa pior para os envolvidos? Verdade seja dita que a ideia dessa produção modesta e com bons atores é até boa - o que me fez ir ao encontro dela. Pena que, ao cabo, ela seja tão trivial. Na trama, Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson) estão prestes a se casar. O início tem certa leveza, com a dupla discutindo com seus respectivos padrinhos e madrinhas os votos - o que deve ou não ser incluso no texto, em meio a lugares-comuns e clichês engraçadinhos que remontam a sua trajetória. Aliás, trajetória que se inicia de forma meio estranha, com Charlie parecendo um stalker meio afobado, em sua intenção de se aproximar de Emma, enquanto ela lê tranquilamente em uma cafeteria (o livro, seu nome é O Estrago, é fictício, infelizmente).
Mais adiante e ainda mais perto do matrimônio, em meio a debates a respeito da substituição ou não da DJ da festa por um suposto vício em drogas, o casal se reúne com o casal de amigos Rachel (Alana Haim) e Mike (Mamoudou Athie). A conversa descontraída ganha tons mais sérios quando Mike instiga Rachel a revelar qual a pior atitude que ela já tomou em sua vida e ela concorda, desde que todos na mesa façam o mesmo. Mike começa, contando como, na juventude, em companhia de uma ex, usou-a como escudo humano durante um ataque feito por um cachorro. Já Rachel, fornece detalhes de como teria prendido um irritante menino mais novo que ela em um armário em uma habitação abandonada no meio de um bosque. Na vez de Charlie ele conta meio envergonhado sobre ter praticado cyberbullying com um antigo colega, meio que destruindo sua vida. E aí chega Emma que [SPOILERS A PARTIR AQUI], meio que pesando o clima, relata como, em sua juventude, esteve muito perto de promover um tiroteio em massa na sua escola, com o rifle de seu pai (com um evento meio aleatório lhe impedindo, por mais que o detalhamento do plano estivesse prestes a sair do papel).
A informação meio que quebra o equilíbrio não apenas do casal, que até aquele momento parecia apenas perfeito, mas também da relação com seus amigos, que passam a evitar Emma, atribuindo-lhe uma culpa retroativa por algo que ela não fez mas que se configura em um dos grandes traumas da era moderna nos Estados Unidos (um País que, se bobear, permite comprar pistolas e revólveres no mercadinho da esquina). O fato de Emma ser uma menina negra que sofria bullying em sua escola é um tema praticamente ignorado e que poderia tornar a narrativa muito mais complexa e potente do que sugere sua trama de humor meio sombrio em que paira no ar a dúvida sobre se ela ainda seria capaz de praticar tal ato. Aliás, pior do que isso, a obra sequer cogita a possibilidade de todos eles, como adultos, simplesmente conversarem a respeito, trazendo angústias, sofrimentos, traumas e memórias que poderiam representar uma cura. Ao contrário, Charlie fica brochado e de muxoxo pelos cantos, enquanto a irritante Rachel simplesmente se afasta sem muita explicação. Pra piorar o terço final joga o ápice do absurdo pro próprio casamento, tentando uma solução mágica à moda Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004). Infelizmente não cola.
Vamos combinar que existe uma beleza meio sofisticada e um tanto sutil na forma como Kevin Morby descreve o meio oeste e o sul americanos, com suas pequenas cidades hipocritamente conservadoras, de jardins bonitos e cerquinhas brancas, ladeadas por estradas que levam às montanhas - aquele habitat de imaginário americano típico, em que o senso de comunidade contrasta com pequenas opressões, com homens e mulheres coabitando esse espaço, cumprindo seus rituais, crescendo, sonhando, se frustrando. E em linhas gerais as suas cordas nostálgicas, no limite entre o indie, o folk e o rock alternativo, parecem traduzir bem a ideia desse ambiente idílico, capaz de tornar palpáveis o deserto, a igreja e os postos de gasolina, num sentimento quase cinematográfico. Talvez nostálgico. Foi meio que assim em toda a sua discografia, não sendo diferente no recente Little Wide Open, o oitavo registro da carreira.
Da abertura com Badlands, que não faria feio na trilha sonora de um faroeste moderno, com sua letra intuitiva a respeito da rudeza geográfica desses locais, até a conclusão com Field Guide for the Butterflies, Morby elabora uma série de canções meditativas, em que o contraste entre a eventual suavidade das melodias e crueza das letras, equilibra à perfeição a percepção do campo (ou do interior) como um local tranquilo e familiar, mas que sempre parece guardar algo abaixo da superfície - ao estilo do que vemos em filmes como Pecados Íntimos (2006), de Todd Field. Um bom exemplo nesse sentido, pode ser percebido na poderosa 100.000, que rumina sobre esses locais isolados, com baixa densidade populacional, mas que carregam tensões meio invisíveis no que diz respeito às expectativas sociais e até do que é ser um "homem" típico dos Estados Unidos (Morra pelo seu País / Ou uns pelos outros / Com seus carros musculosos / Na frente da garagem). Outras canções de grande beleza, como Javelin, Dandelion e a faixa-título valem ser conferidas, nesse disco que tem produção de Aaron Dessner, do The National, o que é sempre um bom indicativo.