Ser um pós adolescente alto, gordo, com óculos e cabelos estranhos, e com a autoestima lá no chão. Tudo isso às portas de um milênio que se iniciava, com uma série de decisões sobre futuro a serem tomadas - enquanto beijos eram negados e transas pareciam eternamente adiadas. Mais ou menos assim era ser o homem médio de 18 anos, em 1999. Só que todo esse turbilhão de sentimentos parece ambíguo, quando revisito Tigermilk, o primeiro disco do Belle and Sebastian, que completa 30 anos de lançamento em junho. Em partes porque a reclusão juvenil do inverno gaúcho de outrora, talvez tenha me permitido absorver o máximo possível de uma série de paixões que preservo até hoje - cinema, música, literatura -, e, aliás, reconheço esse privilégio. Mas também por estas mesmas experiências terem contribuído para que me tornasse quem sou. Sinceramente a gente nem entendia direito as letras de Stuart Murdoch e companhia - algo solucionado, em partes, com o Michaelis inglês-português ao lado. Mas havia um aconchego geral nas melodias, como um abraço caloroso de alguém que te diz: "ok, entendo tua dor e vem pra cá ser esquisito junto comigo".
E a verdade é que todo esse magnetismo indie do coletivo, que tornava evidentes às vulnerabilidades que eram confrontadas com um senso de humor corrosivo e verborrágico, possibilitou aos tímidos de plantão - ao menos do ponto de vista do amor ou dos desejos - um tipo de refúgio. Naquelas letras cheias de referências ao ambiente escolar e às suas estruturas de poder, fazer parte dos "não populares" era jogar um jogo em que começávamos atrás. E ter uma banda que olhava com carinho, com uma ternura adocicada e (quase) primaveril para o time dos desajustados era conquistar uma pequena vitória. "Passear nos ônibus da cidade por passatempo é triste / Por que você não me conduz ao fim da vida", canta a banda na abertura The State I Am In, canção sobre busca de identidade a algum sentido em meio a dilemas morais e afetivos, que evoluem para um irmão confessando ser gay no dia de um casamento e alegorias sobre pessoas feridas (ou "aleijadas") sendo libertadas de suas muletas.
Aliás, uma das grandes habilidades do grupo formado inicialmente por Stuart David, Isobel Campbell e outros foi a de dar voz aos feios, aos desajustados sociais, aos queers, ou a qualquer pessoa que não se encaixava num status quo ou que não correspondia às expectativas sociais impostas não apenas para aquele Reino Unido pré-Brexit, mas para qualquer País que experimentava certos avanços econômicos. Uma das grandes canções do disco, a magnética She's Losing It, com seu refrão grudento e sonoridade primaveril - um tipo de contraste que sempre foi uma das marcas -, trata de trauma ligado à abusos sexuais e de como as amizades entre aqueles que estão à margem podem ser o caminho para o processo de cura (Chelsea foi a garota que sofreu um abuso / Isso mudou sua filosofia em 82 / Ela sempre diz: "Olho por olho e dente por dente" / Quem precisa de garotos quando Lisa está por perto?). Por sinal, tudo com um senso de humor meio torto. E uma simplicidade comovente.
Diga-se de passagem, o apelo universal do disco, com seu instrumental sem firulas, refrãos que ficam e poesia de verve literária e cheia de referências, talvez não fosse por acaso. A história é que o álbum meio que brotou a partir de um trabalho de conclusão do curso de música no Stow College, de Glasgow - e era pra ser só um single, mas Murdoch se mostrou tão hábil nas composições que gestou o primeiro trabalho de estúdio meio que sem querer querendo. Tanto que a tiragem inicial teria sido apenas de 1000 unidades - com a banda sendo abraçada pelos indies no final dos anos 90, contexto em que a (bendita seja) gravadora Trama lançaria não apenas este, mas os três álbuns seguintes do grupo, os igualmente ótimos If You're Feeling Sinister (1996, que tem Get Me Away From Here I'm Dying, que meio que define o sentimento dos ouvintes) e The Boy With Arab Strap (1998), além do fraco Fold Your Hands Child, You Walk Like a Peasant (2000). Mas a delicadeza folk pop introspectiva exibida em Tigermilk, com sua crueza imprevisível, segue imbatível, fazendo os olhos dos fãs marejarem. Tanto que músicas como We Rule the School, My Wandering Days Are Over e Mary Jo (até hoje a melhor de todas), seguem inesquecíveis. Provando que os estranhos também dançam, amam, sonham.







