Pra alguém tão jovem - apenas 26 anos -, já dá pra dizer que Madison Beer viveu bastante coisa. O que lhe permite ser, sem maiores dificuldades, uma das estrelas pop mais promissoras dessa década. Descoberta por Justin Bieber aos 13 anos após postar uma cover no Twitter, a nova iorquina só lançaria seu primeiro registro em 2021, o respeitável Life Support. Antes disso, ainda na adolescência sofreu com cyberbullying (com vazamento de fotos não autorizadas), passou por decepções com pessoas ligadas à indústria e foi diagnosticada com Transtorno de Personalidade Borderline e depressão. E talvez não seja por acaso que, diante desse contexto de vida complexo - que inclui aí um recente e meio traumático término de relacionamento -, as canções do terceiro registro de inéditas, o ótimo Locket, soem tão maduras e tão "adultas", mesmo quando expõem inseguranças e vulnerabilidades.
Pra quem acha que pode haver algum exagero, pode começar pela espetacular Bittersweet - que soa como uma coisa meio Taylor Swift no começo dos anos 2000, com sintetizadores suaves, melodia grudenta e letra maravilhosa sobre o processo de encontrar a paz, mesmo em um contexto de mágoas e de altos e baixos de um relacionamento (Agora que acabou, você vai culpar a mim por tudo / Eu sei que eu deveria estar amargurada, mas, meu bem, estou agridoce). Unindo o vintage e o futurista, o retrô e o contemporâneo, Beer consegue soar em alguns momentos quase como uma FKA Twigs de tintas mais pop e dançantes (nas movimentadas Yes Baby e Make You Mine), e em outros como uma Ariana Grande contemplativa (na magnética Bad Enough). Sim, pode parecer apenas mais um disco pop de arrancada de ano. Mas é interessante como ele cresce a cada reencontro.
1) Antes de mais nada, saudar aquele que deve ser o maior Oscar da história para o Brasil - não apenas em número de indicações, mas também em termos de chances para o nosso País (para desespero dos patriotas bolsonaristas da Shopee). Além das aguardadas nomeações para O Agente Secreto em Melhor Filme Internacional e para o Wagner Moura na categoria Melhor Ator - com a campanha sendo fortalecida após as vitórias no Globo de Ouro e em outras premiações internacionais, como no Festival de Cannes -, o filme de Kléber Mendonça Filho teve destaque nas categorias categorias Melhor Direção de Elenco e Melhor Filme (e em tempos em que tudo parece tão disputado e diluído no que diz respeito aos votantes da Academia, não custa sonhar).
2) Aliás, as quatro indicações de O Agente Secreto fazem com que ele empate em número de nomeações com Cidade de Deus, que em 2004 recebeu o mesmo número de indicações. Claro que, naquele ano absolutamente TUDO foi uma surpresa, porque o Brasil até enviou a obra de Meirelles ao Oscar de Filme Internacional - mas teve algum atraso na exibição, o que comprometeu a janela de lançamento, sendo recuperado no ano seguinte. Só que esse ano a situação é totalmente diferente. Com a campanha forte do filme - algo que o Brasil parece ter finalmente entendido - a gente meio que sonha com absolutamente tudo. E só saberemos dos resultados em 15 de março de 2026.
3) Mas não vou negar que tava meio ambicioso com o Brasil no Oscar - especialmente com O Agente Secreto. A expectativa era a de que pudéssemos figurar em outras categorias, como Atriz Coadjuvante (como que esnobam a Tania Maria?), Edição ou Roteiro Original. Mas faz parte, a disputa é grande e, aparentemente, a Academia abraçou com força o Valor Sentimental (veja a resenha logo abaixo), que parece ser o nosso grande rival nas disputas. Especialmente em Filme Internacional. A briga promete!
4) Falando em ausências doloridas, não vou negar que fiquei triste pelo fato de o documentário da Petra Costa, Apocalipse nos Trópicos ter sido esnobado. Ele estava na short list, o que deu visibilidade (e torcida). Mas acabou ficando de fora, numa categoria que nem sempre tem muita lógica - com muitos filmes bem contados ficando ausentes da relação final.
5) Ainda sobre Brasil, mais uma grande notícia! Após o crescimento na reta final -
especialmente após o acolhimento do público, que adorou o filme - Sonhos de Trem
foi lembrado não apenas na categoria principal, mas também em
Fotografia. O que, mais uma vez, significa o nosso País na disputa, já que o
diretor de fotografia é o brasileiríssimo Adolpho Veloso, que tem um
trabalho magnífico na construção do cenário de completo desalento na
produção da Netflix. E vale comentar que o sujeito não veio só pra
cumprir tabelam já que, nas bolsas de apostas há boas possibilidades de
ele sair com o carecão dourado na mão!
6) Eu tinha ignorado completamente os filmes Frankenstein e F1 por motivos de, sei lá, muita gente falando mal, reclamando, a crítica não comprando. Agora estão lá, cheios de indicações importantes em categorias relevantes, o que me obriga a assistir ambas as produções. Não sem certo ranço. Ah, sobre os indicados "estrangeiros" (como comentou o Wagner no Critics), adorei as várias nomeações de Bugonia. É um filmaço inexplicavelmente criticado.
7) Graças a Deus que Wicked foi completamente ignorado. O primeiro já era uma xaropice da porra, imagina ter que assistir a um segundo dessa filme, só pra estar em dia com o Oscar? Afe!
Indicados
Melhor Filme
Bugonia F1: O Filme Frankenstein Hamnet: A Vida Antes de Hamlet Marty Supreme Uma Batalha Após a Outra O Agente Secreto Valor Sentimental Pecadores Sonhos de Trem
Melhor Ator
Timothée Chalamet (Marty Supreme) Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra) Ethan Hawke (Blue Moon) Michael B. Jordan (Pecadores) Wagner Moura (O Agente Secreto)
Melhor Ator Coadjuvante
Benicio del Toro (Uma Batalha Após a Outra) Jacob Elordi (Frankenstein) Delroy Lindo (Pecadores) Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra) Stellan Skarsgard (Valor Sentimental)
Melhor Atriz
Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet) Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas Eu Te Chutaria) Kate Hudson (Song Sung Blue) Renate Reinsve (Valor Sentimental) Emma Stone (Bugonia)
Melhor Atriz Coadjuvante
Elle Fanning (Valor Sentimental) Inga Ibsdotter Lilleaas (Valor Sentimental) Amy Madigan (A Hora do Mal) Wunmi Mosaku (Pecadores) Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)
Melhor Direção
Chloé Zhao (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet) Josh Safdie (Marty Supreme) Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra) Joachim Trier (Valor Sentimental) Ryan Coogler (Pecadores)
Melhor Roteiro Original
Blue Moon Foi Apenas um Acidente Marty Supreme Valor Sentimental Pecadores
Melhor Roteiro Adaptado
Bugonia Frankenstein Hamnet: A Vida Antes de Hamlet Uma Batalha Após a Outra Sonhos de Trem
Melhor Filme Internacional
O Agente Secreto (Brasil) Foi Apenas um Acidente (França) Valor Sentimental (Noruega) Sirat (Espanha) A Voz de Hind Rajab (Tunísia)
Melhor Documentário
The Alabama Solution Come See Me in the Good Light Cutting Through Rocks Mr. Nobody Against Putin The Perfect Neighbor
Melhor Documentário em Curta-Metragem
All the Empty Rooms Armed Only With a Camera: The Life and Death of Brent Renaud Children No More: “Were and Are Gone” The Devil Is Busy Perfectly a Strangeness
Melhor Animação
Arco Elio Guerreiras do K-Pop Little Amélie or the Character of Rain Zootopia 2
Melhor Animação em Curta-Metragem
Butterfly Forevergreen The Girl Who Cried Pearls Retirement Plan The Three Sisters
Melhor Curta-Metragem
Butcher’s Stain A Friend of Dorothy Jane Austen’s Period Drama The Singers Two People Exchanging Saliva
Melhor Trilha Sonora Original
Bugonia Frankenstein Hamnet: A Vida Antes de Hamlet Uma Batalha Após a Outra Pecadores
Melhor Canção Original
“Dear Me” (Diane Warren: Relentless) “Golden” (Guerreiras do K-Pop) “I Lied To You” (Pecadores) “Sweet Dreams of Joy” (Viva Verdi!) “Train Dreams” (Sonhos de Trem)
Melhor Direção de Elenco
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet Marty Supreme Uma Batalha Após a Outra O Agente Secreto Pecadores
Melhor Fotografia
Frankenstein Marty Supreme Uma Batalha Após a Outra Pecadores Sonhos de Trem
Melhor Design de Produção
Frankenstein Hamnet: A Vida Antes de Hamlet Marty Supreme Uma Batalha Após a Outra Pecadores
Melhor Edição
F1: O Filme Marty Supreme Uma Batalha Após a Outra Valor Sentimental Pecadores
Melhor Som
F1: O Filme Frankenstein Uma Batalha Após a Outra Pecadores Sirat
Melhores Efeitos Visuais
Avatar: Fogo e Cinzas F1: O Filme Jurassic World: Recomeço The Lost Bus Pecadores
Melhor Figurino
Avatar: Fogo e Cinzas Frankenstein Hamnet: A Vida Antes de Hamlet Marty Supreme Pecadores
Melhor Maquiagem e Cabelo
Frankenstein Kokuho Pecadores Coração de Lutador: The Smashing Machine A Meia-Irmã Feia
De: Joachim Trier. Com Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Elle Fanning e Inga Ibsdotter Lilleaas. Drama, Dinamarca / Noruega / Alemanha / França / Reino Unido / Suécia, 2025, 133 minutos.
Existe uma cena pequena em Valor Sentimental (Affeksjonsverdi), que talvez dialogue diretamente com as ideias centrais do filme dirigido por Joachim Trier - do excelente A Pior Pessoa do Mundo (2021). Nela, durante um jantar, o veterano diretor de cinema Gustav Borg (Stellan Skarsgård) teoriza sobre a produção cultural nos tempos de hoje, tendo como argumento o fato de os artistas atuais serem excessivamente "pequeno burgueses". "Não se escreve 'Ulysses' levando um pirralho pro futebol, ou pagando o seguro do carro" - comenta o sujeito, no limite entre o pedantismo e o elitismo. "Um artista verdadeiro deve ser livre e deve permanecer livre", afirma, deixando em choque as suas duas filhas Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas). Sim, a fala pode soar excessivamente pragmática, direta e até insensível - ainda mais saindo da boca de um senhor de mais de setenta anos, que é cobrado por ter sido, durante grande parte de sua existência, um pai ausente.
Para aqueles que se impactam com aquilo que é dito de forma bastante racional por Gustav, é preciso que se diga que, na mesma sequência, ele garante às filhas incrédulas que elas foram a melhor coisa que lhes aconteceu. Ainda que, como renomado diretor de cinema, ele tenha estado em qualquer outro lugar do que a sua casa. Aliás, é justamente a casa centenária da família, com suas rachaduras, marcas do tempo e até um certo afundamento no solo - numa metáfora bastante clara pra certa decadência do todo -, que é o ponto de encontro de todos ali depois que a mãe de Nora e Agnes e, portanto, a ex-esposa de Gustav, morre. A casa, que atravessa gerações, histórias e memórias - boas ou ruins - e que são evidenciadas em uma bela sequência inicial, pertence ao pai. Que, fugindo de qualquer lógica, resolve que quer utilizá-la como cenário para um próximo filme. Desejando contar com Nora, uma respeitada atriz de teatro, no elenco.
Não é uma equação simples de ser resolvida. Nora pode não ser tão famosa, mas tem seu trabalho - aliás, acaba de estrear uma série que parece ter ido bem junto à crítica. E abomina com todas as forças a ideia de trabalhar com Gustav, seu pai, que meio que é redescoberto pela crítica, após a realização de uma retrospectiva de sua obra, exibida na França - o que inclui a reapresentação de um filme sobre a Segunda Guerra, inspirado na história trágica de sua mãe. E mesmo com seu último projeto tendo sido lançado quinze anos atrás, o trabalho do diretor chama a atenção da jovem Rachel Kemp (Elle Fanning), uma atriz estadunidense da geração Tik Tok, que, por fim, é convidada por Gustav para protagonizar o filme que é recusado por Nora. Entre idas e vindas e diálogos cheios de ressentimentos, a obra se converte em uma experiência familiar complexa sobre um pai ausente que pode ter sido, em sua juventude, um espírito excessivamente livre. Ainda que pai. Ainda que nada perfeito. Ausente. Mas dedicado ao trabalho. O que também possibilitou a criação das filhas.
Em linhas gerais essa é uma obra que utiliza os ambientes apertados da casa da família para reforçar o sentimento de claustrofobia que guia a todos ali - ainda que haja, aqui e ali, espaços para respiro, especialmente na relação tanto de Nora quanto de Gustav com o pequeno filho de Agnes, Erik (Øyvind Hesjedal Loven). A metalinguagem do filme dentro de um filme, sobre uma mãe que se suicida - e que faria alusão à história da própria mãe de Gustav -, pode ser uma alegoria nem tão criativa assim a respeito de luto, memória e algum tipo de busca por conexão. E por mais simples e naturalista que tudo seja, o que é reforçado pela quase ausência de trilha e por uma fotografia acinzentada, de tintas melancólicas, o filme permite uma série de reflexões bastante humanas sobre escolhas, erros, acertos, sonhos que ficam pelo caminho, frustrações e outros temas. "Sou muito sensível e somos muito parecidos", garante Gustav à Nora, no mesmo jantar que cito no começo dessa resenha. Aqui parece que um espírito livre reconhece outro. E, para que ele vá adiante, talvez seja preciso deixar certas coisas pra trás.
De: Emilie Blichfeldt. Com Lea Myren, Thea Sofie Loch Næss, Ane Dahl Torp e Isac Calmroth. Terror / Drama / Comédia, Dinamarca / Noruega / Polônia / Suécia / Romênia, 2025, 109 minutos.
Vamos combinar que, talvez para os padrões atuais, os contos de fadas sejam um tipo de história um tanto antiquada. Jovens virginais excessivamente belas e bondosas, em conflito com entidades malignas quaisquer, aguardando por um príncipe encantado que vai salvá-las em um cavalo branco, com ambos sendo felizes para sempre, pode até ter lá sua mágica em termos de um ideal a ser almejado - pelo menos nas páginas dos livros. Na vida real, em um tempo de avanço da extrema direita, de redpills e de incels violentos que desejam mulheres belas, recatadas e do lar - de preferência a tradwife que passa o dia na cozinha, atendendo com afeto os desejos do marido que mais parece um filho - esse papo não cola mais. E talvez seja justamente por isso que obras como a excelente A Meia-Irmã Feia (Den Stygge Stesøsteren), que chega agora à plataforma Mubi, sejam tão instigantes. Tão subversivas.
Afinal de contas, no filme de estreia da realizadora Emilie Blichfeldt, temos uma quebra completa da lógica existente na história da Cinderela, com a narrativa sendo deslocada para Elvira (Lea Myren), a tal meia-irmã feia, que entra em uma espécie de competição pelo amor do príncipe Julian (Isac Calmroth) com a lindíssima Agnes (Thea Sofie Loch Næss). Se no clássico de Charles Perrault temos uma Agnes pura, incorruptível e de moral inabalável, que é maltratada pela madrasta e pelas duas meias-irmãs - num daqueles casos clássicos de maniqueísmo que envolve a dualidade entre o bem e o mal -, aqui temos a adição de uma boa dose de complexidade no que diz respeito ao comportamento de todos naquele microcosmo. Elvira pode ser feia, mas jamais será tratada como a coitadinha, que agora passa a ser a mocinha. Em igual medida, Agnes também tomará atitudes eticamente questionáveis. Mas a pergunta que fica é, até que ponto vale o esforço para se encaixar em certo padrão de beleza, para atender aquilo que é esteticamente aceitável?
A um amigo, cheguei a afirmar que A Meia-Irmã Feia era quase como um A Substância (2024) dos contos de fadas. O body horror aqui é inserido no comportamento pouco convencional de Rebekka (Ane Dahl Torp), que talvez seja a grande vilã da história. Como a mãe de Elvira - e de Alma (Flo Fagerli) -, Rebekka teme pelo futuro financeiro da família ao se ver falida depois de um casamento arranjado justamente com o pai de Agnes. Na tentativa de manter as aparências, a ideia é arranjar o casamento do príncipe Julian com Elvira, que precisa passar por uma recauchutagem - o que envolverá cirurgias plásticas primitivas no nariz, aplicação de cílios postiços com técnicas rudimentares e até a ingestão de larvas de tênia (a solitária), que lhe possam fazer emagrecer na marra. De forma concomitante, Agnes será impedida a ir a um baile promovido pelo Rei, e que poderá selar o destino do filho a partir da escolha de sua noiva.
Chocante e repulsiva, a obra não alivia nas cenas em que partes do corpo são marteladas, costuradas, cortadas - tudo na busca pelo corpo idealizado, que poderá então ser digno de receber amor (e não deixa de ser interessante perceber como o subtexto serve justamente como alerta em tempos em que debates atuais sobre autoestima, inclusão e diversidade estão tão em alta). Beleza, todos sabem (ou deveriam saber), não é definidora de caráter e os esforços comoventes de Elvira - o que envolve ainda aulas de etiqueta básica -, gerarão mais e mais sofrimento conforme os dias passarem. E, consequentemente, mais ressentimento - o que poderia ser central na explicação de seu comportamento no conto original. Buscando quebrar estereótipos, a o filme busca uma leitura à luz dos nossos tempos, expondo como as exigências estéticas podem ser violentas, excludentes e crueis. E tudo elaborado de forma tecnicamente impecável, o que envolve ótimos efeitos, desenho de produção convincente e trilha sonora incômoda. Blichfeldt afirmou em entrevistas que algumas de suas inspirações são Julia Ducournau e David Cronenberg. Acho que dá pra dizer que os mentores ficariam orgulhosos.
De: Kelly Reichardt. Com Josh O'Connor, Alana Haim, Bill Campo, Hope Davis e Gaby Hoffmann. Policial / Drama, EUA, 2025, 111 minutos.
Um filme sobre roubo de obras de arte moroso, letárgico e sem nenhum espaço pra catarse. E que, ainda assim, parece ser revelador de certo período nos Estados Unidos - no caso, os anos 70 da Guerra do Vietnã e do governo de Ronald Reagan. Assim é o recente The Mastermind, obra dirigida por Kelly Reichardt - do ótimo First Cow (2020) -, que está disponível na Mubi. Na trama acompanhamos o carpinteiro desempregado e trambiqueiro nas horas vagas J. B. Mooney (Josh O'Connor), que engendra um plano nem tão elaborado assim para roubar quatro quadros do pintor Arthur Dove, que estão dispostos em um museu do subúrbio da região de Massachusetts. Sem muita pressa para a execução, Mooney é paciente na hora de examinar como opera o local, com seus guardas que poucos inspiram segurança, caixas de vidro facilmente violáveis e rotas de fuga bastante plausíveis.
Aliás, quando o filme começa a gente até demora um pouco a perceber que ele já está fazendo algum tipo de estudo. Observando por cima de mesas e por entre corredores - enquanto um de seus filhos propõe charadas aleatórias que só servem de distração. Em certo momento ele recua uma pequena gaveta que exibe uma peça de arte que replica um cenário de guerra, de onde furta um "bonequinho" - tipo um soldado. Ninguém percebe a ação que é completa, ao estilo do protagonista do clássico Pickpocket: O Batedor de Carteiras (1959) de Robert Bresson: a peça vai parar dentro de um estojo de óculos e dali para a bolsa da esposa Terri (uma Alana Haim pouco aproveitada aqui), que sequer percebe a ação. Mooney já está trabalhando e o próximo passo envolve contratar três capangas que possam executar o plano. A grana pra pagar o trio será fornecida pela mãe Sarah (Hope Davis), sob uma desculpa qualquer que envolve um futuro projeto de decoração.
Não é preciso ser muito ligado para perceber que esse certo desencanto coletivo - ou mesmo a desesperança por um futuro melhor -, se espalha pelas frestas. Não é apenas o exigente pai de Mooney, Carl (Sterling Thompson) que o cobra pra que ele tome jeito na vida. As perspectivas parecem convincentemente desanimadoras em um País em que mães protestam nas ruas contra a Guerra da Vietnã e em que cartazes do Tio Sam espalhados pela cidade convidam para o alistamento e para um certo espírito de luta pela Pátria. Meio alienado, o protagonista faz seu corre - quer dizer, corre é modo de dizer -, numa tentativa meio desajeitada de furto, enquanto o sistema de segurança falha miseravelmente. Após ser enganado por um dos capangas, Mooney precisa atuar diretamente no roubo. Na fuga. E em uma tentativa desesperada de fazer com que os quadros meio que sumam de vista - em uma época em que câmeras de segurança a cada esquina ainda não eram uma realidade.
Ao cabo, um filme com esse tema poderia ter mais ação, mas aqui a ideia é proporcionar uma experiência contemplativa, excêntrica e até engraçada - como no instante em que Mooney leva os quadros para uma fazenda, derruba uma escada de madeira e quase se machuca. Parece bobo, quase banal em alguma medida, mas é uma evidência generalizada do despreparo em uma antecipação de suspense que meio que nunca se consolida - por mais que a trilha percussiva e jazzística invasiva insista em direcionar para o outro lado. Tecnicamente bem executado, o projeto conta com excelente recriação de época - dos figurinos ao desenho de produção -, com a fotografia dessaturada, entre o azulado e o amarelado, reforçando o caráter arenoso e o retrô. O sonho americano falhou novamente. Por mais que as figuras marginalizadas insistam em encontrar seu rumo em um ecossistema que desmorona.
Vamos combinar que o The Cribs é aquele tipo de banda que dificilmente erra e, em seu nono registro de estúdio, Selling a Vibe, o trio formado pelos irmãos Gary, Ryan e Ross Jarman reafirma uma de suas maiores virtudes: a capacidade de envelhecer com dignidade sem abrir mão da identidade. A banda continua fiel ao seu DNA indie, com algumas pinceladas de power pop e pós punk, mas agora soando menos impulsiva e mais consciente de cada escolha. Mais ou menos como se tivesse trocado a urgência juvenil do trabalho anterior, o frenético Night Network (2020), um dos nossos favoritos daquele ano, por um refinamento emocional - o que vá lá, certamente tem a ver com a maturidade de quem já está há mais de 20 anos na estrada. Em resumo, as guitarras seguem lá, mas aparecem menos nervosas, abrindo espaço para melodias que respiram e crescem com o tempo.
Esse novo momento fica evidente em canções como a faixa-título, Never The Same e Self Respect,
que apostam em arranjos mais contidos e em um lirismo direto, quase
confessional. Expediente que se repete em outras canções majestosas,
como na ótima Distractions, que parece unir Beach House e Weezer
em uma letra sobre a busca de significado nas coisas simples, e uma
certa inconformidade que emerge do sentimento de vazio na rotina (Nestes
dias de excesso / As histórias mais curtas são as mais doces / Agora as
coisas que me fizeram distrair / Podem distrair alguém novo). Não é
um disco que busca impacto imediato, mas sim permanência - daqueles que
vão se revelando aos poucos, sem alarde. Ao cabo, Selling a Vibe
mostra um The Cribs confortável com sua trajetória, seguro o bastante
para desacelerar e, justamente por isso, continuar acertando.
De: Geeta Gandbhir. Com Ajike Owens e Susan Lorincz. Documentário / Drama / Policial, EUA, 2025, 96 minutos.
Vamos combinar que em um País em que é possível comprar, no mercadinho da esquina, um pacote de Doritos e uma pistola, situações como a vista no assombroso documentário A Vizinha Perfeita (The Perfect Neighbor), não chegam à surpreender. Some-se a isso a ascensão desvairada de uma extrema direita preconceituosa em todas as frentes - representada pelo ditador Donald Trump e o seu discurso de ódio a absolutamente todas as minorias (negros, imigrantes, latinos, periféricos) - e o estrago parece inevitável. E se ter um vizinho, qualquer que seja, já pode ser problemático em vários sentidos - com privacidades invadidas e desrespeito generalizado ao outro -, ladear a porta com uma idosa de tendência fascista pode ser ainda pior. E é justamente isso que acompanhamos na obra dirigida por Geeta Gandbhir, que está disponível na Netflix, e deve ser figurinha fácil em sua categoria no Oscar desse ano.
A história é real e meio que se repete, em matéria de escalada de violência. O filme começa com a polícia sendo acionada em um caso de assassinato, em uma pequena cidade do Condado de Marion, no Sul da Flórida. Voltando no tempo, compreenderemos as motivações (bizarras, por sinal) do crime, que vitimou Ajike Owens, que foi assassinada a sangue frio por Susan Lorincz, uma daquelas tias branquelas do ZAP que, na falta do que fazer - um bingo, crochê, hidroginástica ou qualquer outra coisa -, resolve encrencar com a vizinhança inteira, depois de se mudar para o bairro, ocupado em sua maioria por uma comunidade negra. Sem esconder o racismo entranhado em suas vísceras podres - o que faz com que uma mulher de 58 anos pareça muito mais velha do que, de fato, é -, Susan começa a, paulatinamente, acionar a polícia local para se queixar de crianças que jogam bola e brincam perto de seu pátio.
Sim, meio que basicamente é isso: Susan, que reside ao lado de um terreno baldio, se ressente que a garotada utilize o gramado pra jogar futebol americano, correr, agitar. O que fará com que ela chama a polícia não uma, mas dez, quinze, trinta vezes. Cinquenta vezes, talvez. Com as tensões escalando a cada novo chamado e um mal-estar coletivo emergindo do lugar. Como se fosse uma espécie de Bruxa dos 71 da vizinhança - mas sem o charme da Dona Clotilde -, Susan é a tia chata, solitária e mal amada, que implica com todo mundo, não se furtando em utilizar xingamentos cheios de preconceitos. Na tentativa de proteger as crianças, mães e pais formam uma barreira de contenção. Às vezes até contragolpeiam de forma mais forte - como no episódio em que uma delas arremessa uma placa em direção a casa de Susan. O que resultará em repetidos constrangimentos - e fica claro que até mesmo os policiais percebem onde está o verdadeiro problema. Que parece meio que sem solução, já que a véia jura que vai mudar dali - mas nunca muda.
Tenso e de suspense crescente, o documentário é hábil em utilizar, em grande parte, as próprias câmeras corporais dos policiais para contar a história - o que resulta em uma experiência bastante naturalista e orgânica, com cenas que mesclam discussões de meio de rua, em meio a presença ingênua das crianças que, sim, podem ser meio sapecas (como no instante em que uma delas tem a ideia de colocar um cachorro dentro da caçamba da caminhonete de Susan). Aproveitando ainda pra discutir o absurdo de leis como a Stand-Your-Ground, que possibilita a alegação de legítima defesa em caso de uso de força na propriedade privada, a obra ainda evidencia como, em casos envolvendo violência cometida por brancos contra pretos, a ponta fraca sempre parecerá evidente. E, por mais revoltante que o projeto seja, já que uma mãe de quatro filhos é simplesmente assassinada a sangue frio por causa da bagunça feita pelos pequenos, fica a lição quando o assunto é a busca por justiça: o povo jamais deve se calar. Sob pena da normalização desse tipo de agressão.
De: Ari Aster. Com Joaquin Phoenix, Emma Stone, Padro Pascal, Deirdre O'Connell e Austin Butler. Comédia / Drama / Faroeste, EUA / Reino Unido / Finlândia, 2025, 150 minutos.
Há algo que precisa ser dito sobre os filmes do Ari Aster: ninguém passa por eles e sai da mesma forma. Para o bem ou para o mal, as obras do diretor de Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (2019) e Beau Tem Medo (2022) costumam suscitar horas de debates sobre seus temas - quase sempre psicológicos, contemporâneos, políticos. Ou ao menos parece ser assim pra quem não acompanha suas produções esperando sempre um novo Hereditário (2018). Talvez à exceção do igualmente ótimo Bugonia (2025) - leia a resenha abaixo -, poucos projetos traduzirão tão bem os tempos turbulentos e caóticos, em que todo mundo grita, mas ninguém escuta, como em Eddington. Vendido como uma espécie de faroeste pós-pandêmico, o filme coloca em lados opostos um xerife local e o prefeito de uma minúscula cidade do Novo México. Ambos desejando o poder acima de tudo, com Deus acima de todos. Ou algo do tipo.
Sim, eu já estou tomando consciência de que as obras que não tomam um partido ou que erguem uma bandeira panfletária mais clara, tem se tornado recorrentes. E eu acho isso ótimo para que possamos refletir um pouco melhor e que não seja apenas confirmando aquilo que pensamos ser o certo. Em uma narrativa como a de Eddington eu nem acho que o centro da disputa esteja entre esquerda e direita, progressistas e conservadores, ou, vá lá e em última medida, republicanos e democratas. É isso também, mas mesmo sabendo pra onde apontaria o nosso radar nesse embate, não deixa de ser divertido se deparar com as contradições da província. E de como opera a Síndrome do Pequeno Poder em um município de pouco mais de dois mil habitantes, que é afetado não apenas na esfera local pelo comportamento excêntrico de seus habitantes, mas também em âmbito federal em um contexto de covid que avança e da explosão de movimentos como o Black Lives Matter.
E, sinceramente, é tudo muito saboroso e muito atual - e mais ainda, talvez, para os cronicamente online. Na primeira cena do filme, um mendigo meio noiado - aquele doidinho de bairro que toda a cidadezinha do interior tem - cruza o asfalto enquanto, ao fundo, um enorme outdoor anuncia uma obra que deverá movimentar a economia local: no caso a construção de um data center (daqueles que, daqui pra frente, consumirão toneladas de recursos naturais sob a desculpa de não frear a revolução tecnológica). Tentando a reeleição, o prefeito Ted Garcia (Pedro Pascal) é um entusiasta da ideia. Mas, claro, como bom democrata, não ignorando as compensações ambientais, como a implantação de usinas eólicas e outras medidas, e que são solicitadas pelo conselho local. E que deverão ser respeitadas, assim como devem ser respeitadas as medidas que marcaram aquele maio de 2020 que já parece tão distante, como o uso de máscaras em estabelecimentos fechados ou o respeito ao distanciamento social (quase como uma alegoria para o afastamento meio natural em tempos de niilismo e misantropia forçada).
Ainda na primeira hora, o xerife local Joe Cross (Joaquin Phoenix sendo o esquisitão que adoramos, não adianta) trava um embate com Ted em um mercadinho, justamente pela necessidade do uso de máscara. No caso, um idoso, que se recusava a vestir a peça. Assim como Joe também se recusa - e, mais adiante, entenderemos suas motivações, ao conhecer a sua sogra Dawn (Deirdre O'Connell), uma daquelas tias do ZAP que passam as tardes se alimentando de teorias conspiratórias diversas na internet (e que podem variar de clonagem de líderes políticos, até chegar a existência de uma enorme rede de pedófilos ligada aos democratas estadunidenses) -, o que faz com que ele tome uma drástica decisão: se candidatar para enfrentar Ted nas eleições municipais que se aproximam. As suas bandeiras? Aquelas que costumam atrair os extremistas de direita mais desvairados, claro.
Em paralelo a tudo isso, os locais precisam lidar com a explosão de casos de violência policial - como no caso do chocante assassinato de George Floyd -, e do avanço de grupos contrários a atuação das forças estatais, como os Antifas (que, de acordo com o sonho mais molhado do ditador Donald Trump, deveria ser enquadrado como terrorista). Todas essas questões respingam na cidadela, com jovens brancos e com sentimento de culpa realizando protestos antirracistas. Assim como adentram por aquelas estradas poeirentas à moda A Última Sessão de Cinema (1971) da atualidade podcasts de gosto duvidoso localizados na antessala do fascismo, fóruns de chans e de incels sobre a queda da moralidade e o retorno do sonho americano - com Vernon, o personagem de Austin Butler soando como um Tom Cruise de Magnólia (1999), mas em uma roupagem meio Luciano Cesa das ideias (se ele fosse bonito) -, colidindo com progressismo de boteco que leva loiras jovens à se sentirem como uma Rosa Parks contemporânea. Sim, parece difícil percorrer todos esses temas e ainda dar uma lógica pra tudo. Mas a tentativa de Aster de tratar de paranoia, conspiração, alienação, coincidências, protestos, vidas expostas, campanhas políticas rasas, traições, lavagem cerebral e convulsão social funciona direitinho. E com direito a um dedinho colocado nas nossas feridas, nos fazendo pensar no nosso papel em meio a tudo isso. Ignore a crítica dita especializada. E só vá!