quinta-feira, 16 de abril de 2026

Tesouros Cinéfilos - A Última Ceia (The Monster's Ball)

De: Marc Forster. Com Halle Berry, Billy Bob Thornton, Heath Ledger e Peter Boyle. Drama, EUA, 2001, 111 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM SPOILERS] 

A cena em que Sonny (Heath Ledger) tira a própria vida na frente do pai, o policial Hank (Billy Bob Thornton), e do avô Buck (Peter Boyle), em A Última Ceia (Monster's Ball) segue sendo uma das mais impactantes da história moderna do cinema. Ela acontece meio que do nada. Sem que esperássemos aquela solução extrema - mesmo que o jovem habitasse um lar totalmente disfuncional. E como se drama pouco fosse bobagem, instantes antes de dar um tiro no próprio peito, Sonny ainda inquire seu pai, perguntando a ele se, alguma vez, ele já o tinha amado. "Não, eu nunca te amei" é a resposta seca. Perturbado, o rapaz o retruca dizendo um "pois eu sempre te amei" para, segundos depois, restar apenas o corpo atirado por sobre a poltrona, com uma enorme mancha de sangue inundando a camiseta branca. Buck era um pai horrível, como ele mesmo admite em certa altura. Mas há tempo para que a rota seja recalculada? Para que, frente a tantas tragédias, os cacos sejam recolhidos?

A Última Ceia está completando 25 anos de lançamento neste mês e segue ressoando, com sua narrativa sobre racismo, misoginia e violência psicológica - e de como esses comportamentos se perpetuam de geração em geração. "Ele puxou a mãe dele", verbaliza, a respeito do neto, um frio Buck, um idoso decadente que mal consegue se movimentar direito em direção ao banheiro, mas nunca perde a capacidade de reafirmar seus preconceitos. "O que esses 'negros' fazem no meu quintal?", pergunta à Hank, em certa altura, referindo-se a uma dupla de adolescentes da vizinhança, que mantinha algum grau de amizade com Sonny. Hank aprende a ser um intolerante incorrigível daqueles do interior dos Estados Unidos - a ação se passa no Estado da Geórgia - e que, nos dias atuais, vestiria com orgulho o bonezinho Make America Great Again. Grandão de arma na mão. Incapaz de chorar a morte do próprio filho por suicídio. Ou de compreender, ao menos inicialmente, que é parte do problema.

 


E, é preciso que se diga, essa obra que segue pungente em um País tão dividido pelo ódio - reforçado por seu bizarro, alaranjado, virulento e tirânico presidente - nem sempre é de fácil depuração. Tanto que, muitas vezes, consideraremos as decisões dos personagens, quaisquer que sejam, no mínimo questionáveis. Estamos, afinal, falando do ser humano em toda a sua complexidade. Com seus medos, desejos, incertezas e incoerências. Há uma cena quase ao final em que Leticia (Halle Berry, que venceria o Oscar pelo papel) descobre, por meio de desenhos engavetados, que os algozes do seu marido preso há onze anos (Sean Combs, que Deus o tenha) e enviado para a cadeira elétrica por assassinato, são justamente Hank e o falecido Sonny, que também tentava emplacar uma carreira na delegacia local. Naquela altura do campeonato, Leticia já havia tido com Hank talvez o mais quente, acolhedor e carinhoso sexo em anos, vindo de um sujeito que, inclusive, tinha tentado salvar a vida de seu filho de apenas 10 anos Tyrell (Coronji Calhoun), que havia sido atropelado em uma noite chuvosa.

Esse é o momento em que Leticia, endividada e despejada previamente, senta na varanda e olha reflexiva para o quintal, onde jazem de forma suntuosa os corpos de ambos os filhos da dupla, mais o do pai de Hank. Ficam só os dois. Tentando recomeçar. Hank é gentil com ela, após uma saída noturna para buscar seu sorvete preferido. O mesmo homem racista de outrora, agora parece disposto a um relacionamento com uma mulher preta. E isso depois de anunciar a aposentadoria, comprar um posto de gasolina e tentar ainda uma aproximação do pai dos meninos enxotados de seu quintal, que trabalha como mecânico nas redondezas (papel pequeno, mas bonito, de Mos Def). Sim, hoje em dia as pessoas podem achar que é muita forçação um preconceituoso incorrigível se ajeitar na vida, depois de tanto levar porrada. Mas estamos falando de uma obra de 25 anos atrás, quando estes temas ainda surgiam, aqui e ali, como pequenos ensaios hollywoodianos sobre o tema (vale o mesmo para o sempre impactante A Outra História Americana, lançado três anos antes). Ao cabo, trata-se de uma obra robusta, com ótimas interpretações e que segue ressoando frente ao impacto dos acontecimentos.

 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Pitaquinho Musical - James Blake (Trying Times)

Não que isso chegasse a ser um grande problema, mas vamos combinar que parecia faltar um tanto de calor à Playing Robots Into Heaven, registro lançado por James Blake em 2023 e que apostava em uma eletrônica minimalista e sofisticada, mas um tanto congelante. Enfim, o que resultava em canções de texturas mais rígidas, que pareciam mais distantes do ponto de vista emocional. Como em um inferninho solitário, a exemplo de I Want You to Know, que talvez não fizesse feio em algum disco do Jamie XX. Corta pra 2026 e temos um artista que, com o excelente Trying Times, jamais se afasta de suas origens que mesclam dubstep, R&B, gospel e soul experimental - com sua voz funcionando como uma extensão das melodias -, mas que parece disposto a uma espécie de reencontro com os arranjos mais aconchegantes de outrora. Pode ser só uma impressão, mas há uma energia meio ensolarada mesmo em ambientações fantasmagóricas. Ou mesmo nas letras cheias de vulnerabilidade.

 


Um bom exemplo nesse sentido pode ser percebido na engenhosa I Had My Dream She Took My Hand que, com suas emanações oníricas e versos alegóricos (Eu tive um sonho em que ela pegou minha mão / Ela começou a se dissolver junto com sua alma) conduz o ouvinte em uma jornada estranha e nostálgica em igual medida. O expediente se repete na faixa-título, uma canção vulnerável mas esperançosa, que se vale de sintetizadores suaves e batidas econômicas, que parecem se espalhar a cada nova curva. Como um todo há uma beleza cósmica e etérea, mas que ao mesmo tempo abraça, acolhe. "Eu sei que todo mundo diz isso, mas, objetivamente, esse é meu melhor álbum", resumiu o artista em entrevistas, sem falsa modéstia, talvez por ter conseguido, nesse caso, trabalhar de forma mais independente. E quando a gente ouve canções tão envolventes, como, Rest of Your Life, Just a Little Higher e Days Go By, além da sinistra Doesn't Just Happen, feita em parceria com o rapper Dave, é difícil discordar.

Nota: 8,5 

terça-feira, 14 de abril de 2026

Pitaquinho Musical - BUHR (Feixe de Fogo)

Vamos combinar que a Karina Buhr pode até ter mudado seu nome artístico - agora ela responde apenas por BUHR que, verdade seja dita, parece uma onomatopeia cheia de força, com o sobrenome reforçando sua identidade não-binária -, mas a potência de suas músicas como um todo, segue em altíssima voltagem. Afinal, quem acompanha a carreira da artista sabe que seus discos sempre funcionaram como um refúgio entre a esperança e a resistência, a paixão e a luta. Fazer música brasileira tentando fugir do rótulo não é tarefa fácil, e nessa transição marcada pelo processo natural de amadurecimento, um álbum como Feixe de Fogo parece encontrar esse equilíbrio. Sim, os ritmos brasileiros seguem mesclados com a MPB, o rock, o maracatu, o reggae e o manguebeat, mas em uma experiência um tantinho menos selvagem do que no registro anterior, o impressionante Desmanche (2019), disco marcado pela percussão.

 


Aqui, tem-se a impressão de um álbum mais urbano, eletrônico, imediato e abrasivo - talvez menos antropofágico do que os anteriores, incluindo aí o excelente Selvática (2015), com seu título autoexplicativo. O que talvez tenha a ver com as próprias andanças da cantora, que organiza sua vida atual em três cidade distintas - Recife, Fortaleza e Salvador. Fora as tantas outras geografias e identidades. "É a faísca do disco, dessas andanças todas, porque ele foi feito por todos esses lugares. É o que acompanha, é esse caminho da turbina, da fogueira", resumiu a artista em entrevista à Folha de Pernambuco, citando ainda que esse é um projeto movediço que "avança, ilumina e consome". O resultado é um conjunto de canções cheias de participações especiais - de Josyara a Russopassapusso -, e que navegam entre paixões furiosas (na faixa-título), tensões cotidianas (Ânsia), caos da metrópole (Voaria), amores enigmáticos (70 Cigarros) e nostalgia evocativa (Oxê, uma das melhores canções do ano).

Nota: 8,5 

Cinema - Pai Mãe Irmã Irmão (Father Mother Sister Brother)

De: Jim Jarmusch. Com Tom Waits, Charlotte Rampling, Cate Blanchett, Adam Driver, Indya Moore, Vicky Krieps ou Mayim Bialik. Drama, EUA / França / Itália / Japão / Irlanda, 2025, 110 minutos.

Vamos combinar que, por melhor que sejam as intenções das antologias cinematográficas, elas invariavelmente pecam pela irregularidade. Afinal, não é algo tão simples realizar uma coletânea de pequenas histórias que consiga manter, com certa fluidez, o padrão de qualidade. Talvez dê pra contar nos dedos - e, sem pensar muito, só consigo lembrar de imediato do ótimo Relatos Selvagens (2014) que, não por acaso, foi indicado ao Oscar naquele ano. Ou, vá lá, com alguma boa vontade, dá pra incluir aí o bizarro e divertido A Balada de Buster Scruggs (2018), dos Irmãos Coen. No caso do vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza do ano passado Pai Mãe Irmã Irmão (Father Mother Sister Brother) temos uma coletânea de três histórias que tem como fio condutor as relações familiares, e todos os traumas, frustrações, memórias e sonhos que envolvem esses laços. Tudo com um tom bastante contemplativo, meditativo.

E, como já comentei, nem todas as histórias geram aquela conexão imediata e creio que a mais envolvente seja justamente Father, o primeiro capítulo. Ao cabo trata-se de uma narrativa bastante sutil que evidencia o desconforto gerado por uma visita protocolar de dois filhos Jeff (Adam Driver) e Emily (Mayim Bialik) a seu pai idoso (Tom Waits). E de como, dadas as circunstâncias do dia a dia - a rotina e suas atribulações -, nos afastamos de forma quase natural daqueles que compartilham do nosso sangue. Para o bem ou para o mal, diga-se, o que faz com que preservemos e naturalizemos certa distância meio calculada daqueles que são lembrados apenas em datas específicas - ou em caso de algum tipo de necessidade financeira (ou emocional). Na trama, Jeff e Emily resolvem visitar o pai após a morte da mãe em sua idílica casa de campo - um lugar que parece ainda mais isolado e bucólico por conta do branco esplendoroso da neve, que inunda o local de forma opressiva.

 


E, vale destacar aqui como, a cada movimento, podemos mudar a nossa percepção a respeito do trio central. Quando o pai aparece pela primeira vez, mal conseguindo se movimentar (ou falar), mas fazendo ao mesmo tempo um esforço homérico para atender bem e de forma carinhosa seus filhos - com direito a uma grande cerimônia para servir um simples copo de água -, a tendência é a de nos compadecermos daquele senhor. Tão prestativo e solitário, que talvez desejasse que seus familiares estivessem mais próximos. Mas será mesmo? Com um fogão a lenha, tendo o ato de rachar madeira como uma terapia, e residindo em uma casa à beira de um lago, num sossego absoluto, numa calmaria distante, o homem ocupa seus dias lendo Diógenes ou Chomsky, com Jeff lhe auxiliando com o envio de cestas básicas e valores em dinheiro. O final surpreende ao evidenciar que as chantagens e tentativas indiretas de manipulação podem ser apenas parte do show. E, talvez com um pouco mais de ângulos, essa história pudesse ser um ótimo longa.

Nas duas outras histórias a temática permanece, mas com pequenas alterações nas dinâmicas de poder entre os envolvidos. Em Mother, a mãe escritora, uma intelectual de perfil controlador vivido por Charlotte Rampling, aguarda a visita das filhas Timothea (Cate Blanchett) e Lilith (Vicky Krieps) para uma sorumbática e esquemática tarde de chá na capital irlandesa Dublin. Nas conversas, preocupações mundanas sobre questões financeiras - Lilith sonha em ser influencer e parece meio ferrada de grana, ao passo que Timothea foi promovida recentemente. Com a idosa mantendo uma pompa incômoda. Na terceira e menos impactante parte, Sister Brother, os irmãos Skye (Indya Moore) e Billy (Luka Sabbat), que perderam os pais em um acidente de avião, resgatam memórias passadas no antigo apartamento da família, em Paris. Sombrias e eventualmente engraçadas, as tramas, com suas alegorias tortas sobre e vida que segue inexorável, nos lembram que família só muda de endereço. Serão imperfeitas, qualquer que seja o caso.

Nota: 7,0

 

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Novidades em Streaming - Yes (Ken)

De: Nadav Lapid. Com Efrat Dor, Ariel Bronz e Naama Preis. Drama / Comédia, Israel / França / Chipre / Alemanha, 2025, 149 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM SPOILERS] 

Caso ainda houvesse alguma dúvida a respeito do provocativo Yes (Ken) - e quais são as intenções reais dessa narrativa fetichista, hedonista e cheia de simbolismos -, esta é dissipada quase na conclusão da longa obra dirigida por Nadav Lapid (do excelente Sinônimos, 2019), em um instante de literalidade acachapante. Depois de ser abandonado por sua esposa, a dançarina de hip hop Yasmin (Efrat Dor), Y (Ariel Bronz) retorna para os "braços" de um poderoso e repulsivo oligarca russo (Aleksei Serebyakov) que o contratou para a elaboração de uma espécie de hino nacional de letra laudatória, favorável ao governo de Israel (e, consequentemente, de Netahnyahu). Agachado diante de suas pernas, em uma boate de ricaços de Tel Aviv, Y lambe obstinadamente a bota do sujeito. Com gosto. Com vontade. Como costumam fazer aqueles que se dobram sem pudores para as ditaduras, passando a integrá-las, dando como desculpa algum tipo de conveniência.

Ao cabo, essa é uma sequência estranha - mais uma entre tantas -, dessa produção debochada, que parece algo que o Ruben Östlund comporia, se fizesse seus filmes no Oriente Médio. Ou em zonas de conflito. Sim, porque, se por um lado, a obra parece querer nos lembrar o tempo todo de que há um genocídio em curso perpetrado contra a população de Gaza, por outro ela também evidencia o fato de que há toda uma massa que precisa sobreviver. Que necessita trabalhar. Em um sistema de selvageria capitalista que, como se tudo não pudesse ficar ainda pior, ainda se vê refém de uma guerra absurda, com os olhos do mundo voltados para Israel. Sim, é evidente que nem toda a população de lá concorda com as atrocidades do governo israelense - assim como o povo dos Estados Unidos ou do Brasil não está necessariamente do lado do Trump ou do Bolsonaro ou de qualquer delinquente de extrema direita. Mas o que se faz em meio a isso? Como se luta essa luta tão bizarramente injusta?

 


Bom, no caso de Yasmin e Y - duas figuras tão misantropas quanto sexies que navegam, pra lá e pra cá, pelas ruas de Tel Aviv - a solução é se manter bastante próximo das elites, de autoridades governamentais e de gente endinheirada, oferecendo os seus corpos e a sua arte como moedas de troca. O contexto é o do pós 7 de outubro de 2024, data que marca a série de atentados terroristas perpetrados pelo Hamas e que resultariam na resposta sem precedentes de Israel - um massacre para além do aparato militar, afetando civis, mulheres, crianças e quem estiver pela frente. Sem necessariamente adotar um lado claro na história, Lapid por vezes parece fazer um aceno ao doisladismo centrista, que rege debates acalorados do tipo, seja quebrando a quarta parede para apontar a hipocrisia do público, seja revelando as contradições da própria população de Israel, com sua alienação grotesca e incapacidade de uma análise crítica para além da mera paixão.

A lambida de bota de Y decorre do fato de ele ter sido contratado pelo governo, o que garantirá uma satisfatória quantia de dinheiro no bolso e um futuro melhor para a família - para além das chupadas em lóbulos de senhoras idosas, com desejos reprimidos. Enquanto o protagonista trabalha em sua canção - ele é um pianista de jazz de renome -, os versos sobre amores santificados em sangue e combate ao nazismo freestyle são revelados em momentos sombriamente cômicos, o que é reforçado pela onipresença de melodias eventualmente calorosas e canções estranhamente nostálgicas (como na abertura sensualíssima e hipnótica ao som de Be My Lover, do La Bouche). "Um homem chega na entrada de uma caverna e pergunta ao guia turístico 'há algum perigo? Existem morcegos?' Ao que o sujeito responde: 'pode ficar tranquilo, as cobras já pegaram todos eles'". Quando ultrapassa os limites em direção à Palestina para um encontro com uma antiga paixão do passado - seu nome é Leah (Naama Preis), o sentimento é mais ou menos esse. O de que aqueles que nos salvam também serão responsáveis pela nossa ruína. 

Nota: 8,0 

 

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Cinema - A Graça (La Grazia)

De: Paolo Sorrentino. Com Toni Servillo, Anna Ferzetti, Linda Messenklinger e Massimo Venturiello. Drama, Itália, 2025, 133 minutos.

Vamos combinar que tudo o que os recentes A Mão de Deus (2021) e Parthenope: Os Amores de Nápoles (2024) tiveram de movimentados, sedutores, enigmáticos, oníricos e artísticos - bem como parece ser quase sempre na obra de Paolo Sorrentino -, o recente A Graça (La Grazia) tem de introspectivo, sutil e, vá lá, quase fastidioso. Aliás, não são poucas as vezes em que o protagonista do filme, o presidente da Itália Mariano de Santis (Toni Servillo, parceiro habitual do diretor) lembra a alguém sobre ele ser a pessoa mais "entediante que existe". Por sinal, como forma de elogiar a sua falecida esposa, Aurora, que partiu oito anos antes, Mariano rumina sobre ela ter sido extrovertida do casal, dotada de brilho, sempre expansiva. E não ele. Mas, verdade seja dita, com raras exceções, políticos costumam ser apenas isso mesmo: figuras aborrecidas, preocupadas apenas consigo mesmo, com suas reputações ou legados mesquinhos e acertos de contas com todas as estruturas de poder.

Se em Parthenope, a protagonista funcionava como uma alegoria para a Nápoles natal de Sorrentino, talvez em A Graça estejamos diante de um microcosmo da própria Itália e seu ambiente de instabilidade - comandado com mão de ferro por uma Giorgia Meloni de extrema direita, que parece cada vez mais distante dos anseios ou dos ideais da população em geral. A sociedade evoluiu, progrediu? Em partes. Mariano está no seu último semestre como chefe geral da nação e circula pelos corredores como uma figura estranhamente solitária, que, salvo o contato com alguns de seus funcionários mais próximos (assessores, chefes de gabinete), mantém próximo de si apenas a sua filha, Dorotea (Anna Ferzetti), uma jurista respeitada que está em uma espécie de cruzada com o próprio pai para convencê-lo a assinar uma lei favorável a eutanásia. O que envolveria confrontar uma série de instituições - inclusive o Vaticano.

 


E como se não bastasse essa decisão polêmica, à sua mesa chega também um outro pedido. Ou dois. No caso, a solicitação de indulto em dois casos de assassinato ocorridos anos antes. Em um deles há um claro conflito interesses - já que a solicitação parte do amigo Ugo Romani (Massimo Venturiello), provável candidato do mesmo partido de Mariano, e que deve ser o seu substituto natural para as próximas eleições. Para Ugo, sua sobrinha Isa Rocca (Linda Messenklinger) merece a liberdade após ter matado o marido a facadas - um sujeito com um histórico de agressões de todo o tipo à jovem. Já a outra solicitação envolve um professor de história muito querido por seus alunos, que tira a vida da esposa que padecia de Alzheimer. Em alguma medida, ambos os casos se conectam com o tema central: em que circunstâncias, afinal, é legítimo tirar a vida de alguém? Especialmente em uma sociedade em que as decisões jurídicas são, em muitos casos, feitos com a Bíblia debaixo do braço, tudo piora.

Hábil no uso de metáforas visuais que, aqui e ali, servem para pincelar desejos, medos e frustrações legítimas do ser humano - quase sempre seus filmes são pequenos ou grandes estudos antropológicos, que exigem alguma paciência do espectador -, Sorrentino polvilha o filme com instantes em que dilemas éticos ou morais emergem, como forma de reforçar as ideias da obra. E, aqui, vale observar a importância simbólica que um cavalo agonizante passa a ter para a narrativa. Um animal em sofrimento, todos sabemos o seu destino. E se esse animal for um humano? Outros momentos são engraçados apenas por ser, seja durante a visita do presidente português e toda a burocracia e demora para uma simples descida do carro em plena chuva, nas situações em que o protagonista matuta sobre uma possível traição de Aurora no passado, ou mesmo nas várias situações em que Mariano se encafifa com o fato de ter sido apelidado, na juventude, de "concreto armado". Definição mais do que perfeita, aliás. 

Nota: 8,0 

 

terça-feira, 7 de abril de 2026

Pitaquinho Musical - Harry Styles (Kiss All the Time. Disco, Occasionally)

Pode parecer curioso, especialmente para um grande astro pop, mas Kiss All the Time. Disco Occasionally, quarto registro de inéditas do Harry Styles, é o tipo de álbum que não gruda imediatamente. Sim, a gente pode até sair cantarolando aqui e ali um we belong togheter, depois de Aperture - que meio que dá um norte pro álbum. Mas certamente será preciso revisitá-lo mais de uma vez para uma melhor absorção. O que, diga-se de passagem, é algo positivo, especialmente em um contexto em que tudo parece tão efêmero, ainda mais no cenário cultural. Ok, é meio óbvio que uma canção como a frenética Pop será sucesso imediato nas paradas, mas há espaço para incursões do artista pelo afrobeat (Are You Listening Yet?), pelo indie The 1975 encontra Jimmy Eat World (American Girls) ou pela baladinha moderna de trilha sonora de filme alternativo (Coming Up Roses, uma das melhores).

 


Nas letras, de tudo um pouco daquilo que orbita a vida de um sujeito como Styles: solidão, vulnerabilidade, conflitos interiores, o vazio existencial dos tempos e a necessidade de se provar meio que o tempo todo - o que, verdade seja dita, ele já faz desde a sua ótima estreia há quase dez anos, quando iniciaria o lento processo de depuração que o descolaria um tanto do One Direction. Um bom exemplo dessa evolução como um todo está na belíssima The Waiting Game, com seus uuuhs Miya Folick fase Premonition (2018) e letra sobre a tendência excessivamente humana de romantizar erros ou evitar responsabilidades. Já Dance No More parece uma estranha junção do Chic com o Neon Indian, o que só atesta a capacidade de embaralhar todos esses elementos do caldeirão moderno que une eletrônica, psicodelia e pop dançante. Por fim há o fechamento com Carla's Song, inspirada na amizade real com uma amiga que lhe apresentaria, no passado, a dupla Simon & Garfunkel. Aulas. De quebra, com refrão mântrico e caloroso. É de passar o dia reescutando.

Nota: 8,5 

Novidades em Streaming - Julie Permanece em Silêncio (Julie Zwijgt)

De: Leonardo Van Dijl. Com Tessa Van den Broeck, Pierre Gervais e Ruth Becquart. Drama, Bélgica / França, 2024, 100 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM SPOILERS] 

Enviado da Bélgica para a edição do Oscar do ano passado, Julie Permanece em Silêncio (Julie Zwijgt) - que está disponível na Reserva Imovision - é aquele tipo de filme para ser absorvido aos poucos. Sem pressa. Por mais atual e impactante que seja seu tema. Ao cabo, essa é aquela obra que se desenvolve pelas frestas, de forma muito sutil - cabendo ao espectador ir montando o quebra-cabeças. Que também lhe permitirá compreender os motivos de a protagonista optar por manter o silêncio. Ou a falar o suficiente, quando sentir que é necessário. Aliás, em uma das sequências de maior impacto da obra do diretor Leonardo Van Dijl, Julie (Tessa Van den Broeck) faz uma ligação para a diretora da escola de tênis em que ela treina para agradecer pelas medidas tomadas pela instituição. E para se desculpar por não ter falado. Julie está aos prantos, em um dos raros momentos em que desaba. A diretora diz que entende. E que essas coisas são assim mesmo.

Afinal de contas, verbalizar violências - físicas, sexuais, psicológicas - não deve ser nada fácil pra qualquer pessoa. Em qualquer situação. Que dirá para uma jovem e promissora tenista de apenas 16 anos, com uma vida pela frente. Dependendo de uma série de decisões de adultos, da escola em que treina ou mesmo do Estado para que ela tenha um futuro no esporte que ama. A gente pode até achar estranha a abertura do filme - com Julie dando suas raquetadas no espaço vazio, sem nenhuma bolinha ou adversário visível em quadra. A sensação que invade sua alma deve ser mais ou menos essa. A do vazio diante do tudo - e da busca por preencher seus dias e suas horas com o tênis. E talvez não seja por acaso que haja tantas sequências em que Julie e suas companheiras treinam repetidamente, interminavelmente. Há algo de persistência nisso. Uma alegoria de busca por superação, em um contexto em que já se arranca derrotado.

 


Na escola em que Julie treina, seu instrutor, Jeremy (Laurent Caron), é afastado dos treinamentos após uma antiga aluna, de nome Alina, tirar a própria vida. É o contexto da pandemia e as pressões do esporte podem ter batido? Pode ser. Mas fica a impressão de que talvez não seja apenas isso. Julie segue conversando com Jeremy pelo telefone, à noite, ao mesmo tempo em que um novo técnico, o carismático Backie (Pierre Gervais) aparece. Jeremy pede para que Julie tenha cuidado com ele, já que não confia em seus métodos. Já a protagonista parece mais desconfiada de seu antigo professor. Com a sensação piorando após um encontro um tanto estranho entre a dupla em uma cafeteria. Jeremy quer que Julie deponha em seu favor, já que há indícios de que o suicídio de Alina possa ter algo a ver com ele. Mas é tudo nebuloso, incerto. A fluidez e o curso dos fatos é vagarosa. E sempre que a adolescente é instigada ela adota um comportamento taciturno, introspectivo.

O caso é que Julie está sendo observada pela Federação Belga de Tênis. Podendo ser uma próxima atleta de elite - que, não por acaso, serve de referência para as demais. De uma forma quase incômoda (como fica claro em um instante em que seu novo treinador lhe privilegia). Qualquer fala ou acusação meio torta naquele ambiente ainda um tanto misógino e de proteção dos homens poderosos, pode significar sua ruína. Há todo um cálculo a ser feito que Julie parece, do alto de sua juventude e maturidade, fazer com destreza. Com inteligência. Em seu entorno, a família e os amigos a circundam tentando entender um pouco mais. Buscando qualquer informação que possa ser mais evidente para uma investigação com mais rigor. Mas esse é um filme que não precisa esfregar na cara do público as suas intenções. Não precisa ser um panfleto maniqueísta de luta, para que se saiba sobre o que ele versa. "Eu parei quando você pediu, né Julie? Eu parei!", alega um desesperado Jeremy depois que a casa começa a cair. Não é necessário ser muito esperto pra saber do que ele fala. Desconfortável é pouco.

Nota: 8,5