De: Pedro Almodóvar. Com Bárbara Lennie, Leonardo Sbaraglia, Patrick Criado, Victoria Luengo e Quim Gutiérrez. Drama / Comédia, Espanha, 2026, 111 minutos.
Devo admitir que vejo certa beleza meio poética em ver artistas mais velhos permanecendo criativos e relevantes - seja o Clint Eastwood com mais de 90 anos andando de cavalo em um filme ainda recente, mesmo tendo mais de noventa anos, ou acompanhando os Rolling Stones lançando álbum novo em pleno 2026, mesmo com mais de 60 anos de carreira. Mas se a gente acredita que há um tempo ideal de aposentadoria para qualquer ser humano, por quê para quem trabalha com música, cinema, literatura, artes plásticas ou qualquer outro campo da criatividade deveria ser diferente? Bom, Natal Amargo (Amarga Navidad), o novo filme do diretor Pedro Almodóvar, um dos favoritos aqui da casa, parece ser bastante autobiográfico ao versar sobre o assunto que, aqui e ali, aparentemente perturba artistas que vão se aproximando da velhice, como é o caso dele mesmo, que está com 77 anos. Até quando seguir produzindo? É possível viver apenas do prestígio já acumulado por décadas?
Em entrevista à Vogue espanhola, o realizador famoso por uma série de clássicos - muitos deles resenhados aqui no Picanha, como Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos (1988), Carne Trêmula (1998), Tudo Sobre Minha Mãe (1999) -, admitiu que um dos maiores medos de quem trabalha no meio artístico é perder a capacidade de criar. O que parece estar no centro do comportamento de Raúl (Leonardo Sbaraglia), um renomado cineasta especialmente ligado a causas LGBTQIA+, daqueles que são tão relevantes que um simples convite para participar de um painel na Europa, significa o depósito de 200 mil dólares em sua conta. Ele já tem fama, prestígio, e poderia seguir para sempre no ostracismo, que não passaria fome. Mas ele está empenhado em um novo roteiro - justamente o de Natal Amargo (que é o filme dentro do filme) sobre Elsa (Bárbara Lennie), uma diretora de comerciais de TV, que sofre com severas e recorrentes enxaquecas.
A trama de Elsa se passa em 2004 e, em alguma medida, remonta à juventude do próprio Raúl, uma vez que uma série de eventos parecem inspirados em sua própria vida pregressa. Por exemplo, o atual namorado Santi (Quim Gutiérrez) surge em sua juventude como o bombeiro que faz um bico como stripper Beau (Patrick Criado), o namorado de Elsa que ela conheceu em um clube voltado às mulheres, em meio à despedida de solteiro de uma amiga. Convidado por ela para protagonizar um comercial de cuecas, se torna seu companheiro. Na busca pela cura das dores de cabeça, Elsa vai e vem em meio à consultas em hospitais, até a sua amiga Patrícia (Victoria Luengo) à conectar com uma psiquiatra, que lhe promete um medicamento meio milagroso de tarja preta, que lhe resolveria uma possível síndrome do pânico (e junto a enxaqueca). Que poderia advir de um tipo de processo de autossabotagem já que ela teria tentado, em vão, ser diretora de cinema no passado, com dois filmes atualmente (ou dentro dessa trama) considerados cults por um diminuto público, em sua carreira.
Aqui e ali o excesso de personagens - os da linha do tempo de Raúl ocorrendo vinte anos depois, em 2025 -, e as idas e vindas entre as duas histórias podem gerar uma leve confusão, em uma produção metalinguística que, nem de longe, alude aos melhores momentos de Almodóvar. Só que, ainda assim, verdade seja dita, o diretor segue sendo muito superior a muitos cineastas metidos a cabeçudos que andam por aí, em sua análise afiada de temas gerais ligados ao luto (nas duas histórias os personagens sofrem com perdas), processo de envelhecimento, conflitos relacionados às dores do corpo e da mente e até o ego dos artistas, com seus bloqueios criativos e mesmo autossabotagens. No filme dentro do filme, Elsa vai para o litoral passar férias, inspirada a escrever um terceiro filme, com uma série de personagens femininas e suas relações complexas surgindo na história, como é o caso de Natália (Milena Smit), que seria inspirada em uma amiga de Mónica (Aitana Sánchez-Gijón), a assistente de Raúl. Entre o inseguro e o incerto, o acomodado e o ambicioso, Almodóvar, pelo visto, pode ficar tranquilo: seu cinema ainda tem respaldo do público e da crítica.







