De: Emilie Blichfeldt. Com Lea Myren, Thea Sofie Loch Næss, Ane Dahl Torp e Isac Calmroth. Terror / Drama / Comédia, Dinamarca / Noruega / Polônia / Suécia / Romênia, 2025, 109 minutos.
Vamos combinar que, talvez para os padrões atuais, os contos de fadas sejam um tipo de história um tanto antiquada. Jovens virginais excessivamente belas e bondosas, em conflito com entidades malignas quaisquer, aguardando por um príncipe encantado que vai salvá-las em um cavalo branco, com ambos sendo felizes para sempre, pode até ter lá sua mágica em termos de um ideal a ser almejado - pelo menos nas páginas dos livros. Na vida real, em um tempo de avanço da extrema direita, de redpills e de incels violentos que desejam mulheres belas, recatadas e do lar - de preferência a tradwife que passa o dia na cozinha, atendendo com afeto os desejos do marido que mais parece um filho - esse papo não cola mais. E talvez seja justamente por isso que obras como a excelente A Meia-Irmã Feia (Den Stygge Stesøsteren), que chega agora à plataforma Mubi, sejam tão instigantes. Tão subversivas.
Afinal de contas, no filme de estreia da realizadora Emilie Blichfeldt, temos uma quebra completa da lógica existente na história da Cinderela, com a narrativa sendo deslocada para Elvira (Lea Myren), a tal meia-irmã feia, que entra em uma espécie de competição pelo amor do príncipe Julian (Isac Calmroth) com a lindíssima Agnes (Thea Sofie Loch Næss). Se no clássico de Charles Perrault temos uma Agnes pura, incorruptível e de moral inabalável, que é maltratada pela madrasta e pelas duas meias-irmãs - num daqueles casos clássicos de maniqueísmo que envolve a dualidade entre o bem e o mal -, aqui temos a adição de uma boa dose de complexidade no que diz respeito ao comportamento de todos naquele microcosmo. Elvira pode ser feia, mas jamais será tratada como a coitadinha, que agora passa a ser a mocinha. Em igual medida, Agnes também tomará atitudes eticamente questionáveis. Mas a pergunta que fica é, até que ponto vale o esforço para se encaixar em certo padrão de beleza, para atender aquilo que é esteticamente aceitável?
A um amigo, cheguei a afirmar que A Meia-Irmã Feia era quase como um A Substância (2024) dos contos de fadas. O body horror aqui é inserido no comportamento pouco convencional de Rebekka (Ane Dahl Torp), que talvez seja a grande vilã da história. Como a mãe de Elvira - e de Alma (Flo Fagerli) -, Rebekka teme pelo futuro financeiro da família ao se ver falida depois de um casamento arranjado justamente com o pai de Agnes. Na tentativa de manter as aparências, a ideia é arranjar o casamento do príncipe Julian com Elvira, que precisa passar por uma recauchutagem - o que envolverá cirurgias plásticas primitivas no nariz, aplicação de cílios postiços com técnicas rudimentares e até a ingestão de larvas de tênia (a solitária), que lhe possam fazer emagrecer na marra. De forma concomitante, Agnes será impedida a ir a um baile promovido pelo Rei, e que poderá selar o destino do filho a partir da escolha de sua noiva.
Chocante e repulsiva, a obra não alivia nas cenas em que partes do corpo são marteladas, costuradas, cortadas - tudo na busca pelo corpo idealizado, que poderá então ser digno de receber amor (e não deixa de ser interessante perceber como o subtexto serve justamente como alerta em tempos em que debates atuais sobre autoestima, inclusão e diversidade estão tão em alta). Beleza, todos sabem (ou deveriam saber), não é definidora de caráter e os esforços comoventes de Elvira - o que envolve ainda aulas de etiqueta básica -, gerarão mais e mais sofrimento conforme os dias passarem. E, consequentemente, mais ressentimento - o que poderia ser central na explicação de seu comportamento no conto original. Buscando quebrar estereótipos, a o filme busca uma leitura à luz dos nossos tempos, expondo como as exigências estéticas podem ser violentas, excludentes e crueis. E tudo elaborado de forma tecnicamente impecável, o que envolve ótimos efeitos, desenho de produção convincente e trilha sonora incômoda. Blichfeldt afirmou em entrevistas que algumas de suas inspirações são Julia Ducournau e David Cronenberg. Acho que dá pra dizer que os mentores ficariam orgulhosos.
Nota: 8,5
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