De: Kane Parsons. Com Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Lukita Maxwell e Mark Duplass. Ficção Científica / Suspense, EUA, 2026, 110 minutos.
Vamos combinar que quando pensamos em memórias, sejam elas afetivas ou não, talvez nem sempre elas decorram de grandes acontecimentos. Muitas vezes aquilo que nos marca pode estar relacionado a fragmentos menores de fatos rotineiros que, por vezes, ressurgem como borrões em uma espécie de limbo em que nem tudo é claro ou evidente. Quem nunca passou por uma antiga casa de infância ou bairro em que viveu na juventude que simplesmente parecia maior - com outra geografia, outra dimensão, outra noção de espaço - quando era criança e que, hoje, parece resultar outra? E, mais, que sonhos teríamos tido nós naquele passado que, agora adultos, foram concretizados ou soterrados? Quais os traumas que carregamos? As dores? Os medos? Qual a bagagem que nos forma? De que forma nossas famílias, o ambiente e a sociedade nos moldam? Sim, parece um excesso meio filosófico para um filme pequeno, mas o caso é que todos esses temas parecem dialogar, em alguma medida, com o excelente Backrooms: Um Não-Lugar (Backrooms), que chega para aluguel na plataforma da Amazon.
Por sinal, não são apenas esses assuntos que possibilitam essas divagações existencialistas que orbitam a obra, mas também outros, relacionados à mídia, às corporações e ao capitalismo tardio. Sem que tudo soe apenas como uma grande salada de referências, tendo algum sentido genuíno em um momento em que um certo mal-estar generalizado à moda Byung-Chul Han atravessa a humanidade. Em alguma medida, a obra concebida pelo jovem Kane Parsons - um youtuber de apenas 20 anos, que teve grande projeção com os seus vídeos tão experimentais quanto inventivos, compartilhados na plataforma - parece uma mescla de Ruptura (2022 -), com Quero Ser John Malkovich (2000) e algumas pitadas da obra cult Cubo (1997), de Silent Hill (o game) e até da série Twin Peaks (1990 - 1991), especialmente o estranhamento surrealista desta última, que se amplia com a ótima trilha sonora. Ao cabo, o que se tem aqui é uma experiência de sensações - de medos inconscientes, de traumas familiares e de memórias doloridas que parecem retornar infinitamente para nos assombrar. Sim, no fundo há um filme. Mas também há um desconforto generalizado. Que burla os limites do mero cinema de suspense, com seus óbvios jump scares.
Na trama que se passa nos anos 90, o protagonista Clark (Chiwetel Ejiofor) é um arquiteto que nunca conseguiu se realizar em sua profissão, e que ocupa seus dias como gerente de uma loja de móveis que funciona em um amplo - e naturalmente opressivo - galpão. Enquanto precisa lidar com a decadência dos seus negócios, o que o força a produzir vídeos de propaganda constrangedores em que se veste de pirata (o mascote do empreendimento) em uma década pré-viralização, ele ainda luta para superar o alcoolismo, que resultou em um divórcio recente. O que faz com que ele procure ajuda da terapeuta Mary Kline (a ótima Renate Reinsve) que, mais adiante, também descobriremos ter os seus esqueletos no armário - resultado de um relacionamento conturbado com a sua mãe ultraprotetora e agorafóbica, que sequer deixava ela olhar para a rua quando criança (que dirá sair de casa).
Sem um lugar oficial para habitar, Clark opta por meio que morar na loja - há ali camas, televisão e outros objetos que possibilitam improvisar uma casa -, mas ele estranha o fato de a conta de luz parecer muito acima do valor. E quando ele chama um eletricista para verificar a chave geral, ele não apenas percebe a existência de um disjuntor sem muita função na caixa, como, mais adiante, após uma queda de energia repentina, constata um feixe de luz meio inexplicável, na parede. E que lhe possibilitará adentrar uma espécie de portal - um outro plano, um não lugar (como no subtítulo) infinito, como num tipo de pesadelo arquitetônico de Jorge Luís Borges, em que cadeiras e moveis se espalham de forma aleatória, galerias se alternam com espaços minúsculos e portinholas levam a cenários que parecem saídos de algum quadro de Salvador Dali (com estofados ou calçados enterrados pela metade, destroços de mobiliários aleatórios e roupas velhas e sujas pelos cantos). Fora as luzes piscantes e os zumbidos e barulhos diluídos e constantes.
Nesse enorme labirinto sem fim a pior surpresa é sempre a próxima e, em uma chamada telefônica, Clark alerta Mary para o fato de que está preso para sempre no local - em uma alegoria quase óbvia para os transtornos mentais e de como eles mexem com nosso inconsciente, de forma a dificilmente fazer com que nos libertemos deles (sem um bom acompanhamento, por óbvio). Excêntrica, bizarra e surpreendente a produção ainda tem fotografia e desenho de produção impecáveis - e, a menos que o pessoal da Academia esteja hibernando em um sono profundo, ambas deverão ser lembradas entre as indicadas em sua categoria no Oscar. Ao cabo, trata-se de uma obra bem ao estilo da A24 e desse onda de novos realizadores que, se não reinventam a roda, adicionam uma série de camadas complexas para assuntos já tão batidos em outros suspenses psicológicos. Crescer emocionalmente pode ser complicado por demais, ainda mais quando precisamos lidar com lembranças, perdas e um sentimento de paralisia que não nos deixa evoluir. Que uma obra tão honesta e tão bem feita nos permita pensar de forma adulta a respeito de tudo isso, é um grande mérito.
Nota: 9,0



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