Pode parecer curioso, especialmente para um grande astro pop, mas Kiss All the Time. Disco Occasionaly, quarto registro de inéditas do Harry Styles, é o tipo de álbum que não gruda imediatamente. Sim, a gente pode até sair cantarolando aqui e ali um we belong togheter, depois de Aperture - que meio que dá um norte pro álbum. Mas certamente será preciso revisitá-lo mais de uma vez para uma melhor absorção. O que, diga-se de passagem, é algo positivo, especialmente em um contexto em que tudo parece tão efêmero, ainda mais no cenário cultural. Ok, é meio óbvio que uma canção como a frenética Pop será sucesso imediato nas paradas, mas há espaço para incursões do artista pelo afrobeat (Are You Listening Yet?), pelo indie The 1975 encontra Jimmy Eat World (American Girls) ou pela baladinha moderna de trilha sonora de filme alternativo (Coming Up Roses, uma das melhores).
Nas letras, de tudo um pouco daquilo que orbita a vida de um sujeito como Styles: solidão, vulnerabilidade, conflitos interiores, o vazio existencial dos tempos e a necessidade de se provar meio que o tempo todo - o que, verdade seja dita, ele já faz desde a sua ótima estreia há quase dez anos, quando iniciaria o lento processo de depuração que o descolaria um tanto do One Direction. Um bom exemplo dessa evolução como um todo está na belíssima The Waiting Game, com seus uuuhs Miya Folick fase Premonition (2018) e letra sobre a tendência excessivamente humana de romantizar erros ou evitar responsabilidades. Já Dance No More parece uma estranha junção do Chic com o Neon Indian, o que só atesta a capacidade de embaralhar todos esses elementos do caldeirão moderno que une eletrônica, psicodelia e pop dançante. Por fim há o fechamento com Carla's Song, inspirada na amizade real com uma amiga que lhe apresentaria, no passado, a dupla Simon & Garfunkel. Aulas. De quebra, com refrão mântrico e caloroso. É de passar o dia reescutando.
De: Leonardo Van Dijl. Com Tessa Van den Broeck, Pierre Gervais e Ruth Becquart. Drama, Bélgica / França, 2024, 100 minutos.
[ATENÇÃO: TEXTO COM SPOILERS]
Enviado da Bélgica para a edição do Oscar do ano passado, Julie Permanece em Silêncio (Julie Zwijgt) - que está disponível na Reserva Imovision - é aquele tipo de filme para ser absorvido aos poucos. Sem pressa. Por mais atual e impactante que seja seu tema. Ao cabo, essa é aquela obra que se desenvolve pelas frestas, de forma muito sutil - cabendo ao espectador ir montando o quebra-cabeças. Que também lhe permitirá compreender os motivos de a protagonista optar por manter o silêncio. Ou a falar o suficiente, quando sentir que é necessário. Aliás, em uma das sequências de maior impacto da obra do diretor Leonardo Van Dijl, Julie (Tessa Van den Broeck) faz uma ligação para a diretora da escola de tênis em que ela treina para agradecer pelas medidas tomadas pela instituição. E para se desculpar por não ter falado. Julie está aos prantos, em um dos raros momentos em que desaba. A diretora diz que entende. E que essas coisas são assim mesmo.
Afinal de contas, verbalizar violências - físicas, sexuais, psicológicas - não deve ser nada fácil pra qualquer pessoa. Em qualquer situação. Que dirá para uma jovem e promissora tenista de apenas 16 anos, com uma vida pela frente. Dependendo de uma série de decisões de adultos, da escola em que treina ou mesmo do Estado para que ela tenha um futuro no esporte que ama. A gente pode até achar estranha a abertura do filme - com Julie dando suas raquetadas no espaço vazio, sem nenhuma bolinha ou adversário visível em quadra. A sensação que invade sua alma deve ser mais ou menos essa. A do vazio diante do tudo - e da busca por preencher seus dias e suas horas com o tênis. E talvez não seja por acaso que haja tantas sequências em que Julie e suas companheiras treinam repetidamente, interminavelmente. Há algo de persistência nisso. Uma alegoria de busca por superação, em um contexto em que já se arranca derrotado.
Na escola em que Julie treina, seu instrutor, Jeremy (Laurent Caron), é afastado dos treinamentos após uma antiga aluna, de nome Alina, tirar a própria vida. É o contexto da pandemia e as pressões do esporte podem ter batido? Pode ser. Mas fica a impressão de que talvez não seja apenas isso. Julie segue conversando com Jeremy pelo telefone, à noite, ao mesmo tempo em que um novo técnico, o carismático Backie (Pierre Gervais) aparece. Jeremy pede para que Julie tenha cuidado com ele, já que não confia em seus métodos. Já a protagonista parece mais desconfiada de seu antigo professor. Com a sensação piorando após um encontro um tanto estranho entre a dupla em uma cafeteria. Jeremy quer que Julie deponha em seu favor, já que há indícios de que o suicídio de Alina possa ter algo a ver com ele. Mas é tudo nebuloso, incerto. A fluidez e o curso dos fatos é vagarosa. E sempre que a adolescente é instigada ela adota um comportamento taciturno, introspectivo.
O caso é que Julie está sendo observada pela Federação Belga de Tênis. Podendo ser uma próxima atleta de elite - que, não por acaso, serve de referência para as demais. De uma forma quase incômoda (como fica claro em um instante em que seu novo treinador lhe privilegia). Qualquer fala ou acusação meio torta naquele ambiente ainda um tanto misógino e de proteção dos homens poderosos, pode significar sua ruína. Há todo um cálculo a ser feito que Julie parece, do alto de sua juventude e maturidade, fazer com destreza. Com inteligência. Em seu entorno, a família e os amigos a circundam tentando entender um pouco mais. Buscando qualquer informação que possa ser mais evidente para uma investigação com mais rigor. Mas esse é um filme que não precisa esfregar na cara do público as suas intenções. Não precisa ser um panfleto maniqueísta de luta, para que se saiba sobre o que ele versa. "Eu parei quando você pediu, né Julie?Eu parei!", alega um desesperado Jeremy depois que a casa começa a cair. Não é necessário ser muito esperto pra saber do que ele fala. Desconfortável é pouco.
A capa absolutamente safadinha, movimentada e divertida de Sexistential já dá o tom: Robyn está de volta à pista e quer curtir. Quer a dopamina lá no alto, como qualquer mulher 40+ livre, independente e que na vida já passou por bastante coisa. E esse sentimento geral não está apenas nas batidas hipnóticas, transcendentais, mas também nas letras cheias de ambiguidades sensuais, que dialogam perfeitamente com o espírito contemporâneo de hiperestimulação que vivemos. Não é que ela reinventa a roda, mas não deixa de ser interessante perceber como ela dialoga com uma versão dela mesma do passado e com outras artistas que beberam de sua fonte - com seus mais 30 anos ela influenciou muita gente (de Britney Spears à Robyn, passando por Billie Eilish e Charlie XCX) -, mas sempre preservando a personalidade, com uma capacidade de olhar para o passado, sem ignorar o futuro. Sua música, ao cabo, consegue ser nostálgica e contemporânea, como uma nave espacial pousando nos anos 90.
"Foi como se tivesse explorado o espaço sideral e agora retornado a mim mesma", explicou a artista - salientando como a introspecção e a calmaria vistas no ótimo Honey (nosso oitavo colocado na lista de melhores internacionais de 2018) agora dão espaço a uma certa urgência, como uma chama excitante que acende uma coisa mais física, mais corpórea. Não por acaso, singles estimulantes como Dopamine funcionam quase como uma chave conceitual do registro, reforçando a ideia do amor e do desejo como um tipo de química que gera dependência (Eu sei que é só dopamina / Mas parece tão real pra mim). Claro que mesmo em um contexto de autoconfiança ainda há espaço para a vulnerabilidade (Sucker for Love), ambiguidades sexuais (Talk to Me) e as contradições entre desejo e maternidade (na faixa título). É um álbum de apenas 29 minutos e que, de forma impressionante, só cresce a cada nova audição. O que consolida a sueca como uma das grandes artistas pop dos tempos atuais.
De: Diego Céspedes. Com Tamara Cortés, Matías Catalán e Paula Dinamarca. Drama, Chile / Espanha / França / Bélgica / Alemanha, 2025, 107 minutos.
Quem acompanha o cinema brasileiro de perto, certamente não deixou passar batido o ainda recente Os Primeiros Soldados (2021), obra tão sutil quanto comovente, que retorna ao início dos anos 80 para uma narrativa a respeito dos primeiros casos de contaminação de AIDS no Brasil - doença que, em uma época de pouca informação, chegou a ser apelidada de "peste gay", o que reforçaria o estigma em relação ao público LGBTQIA+. Em alguma medida, o tema central do filme dirigido por Rodrigo Oliveira, retorna em O Olhar Misterioso do Flamingo (La Misteriosa Mirada del Flamingo), obra enviada pelo Chile ao Oscar desse ano (não chegou a estar entre as finalistas), e que está em cartaz nas salas de cinema do País. Na trama, uma cidade mineradora no norte do País é assolada por uma doença mortal e que é transmitida pelo olhar, quando duas pessoas se apaixonam.
Parece simples até demais e uma alegoria quase óbvia quando pensamos no ano de 1982, em um espaço ermo, isolado e essencialmente arenoso. É nesse cenário que os trabalhadores - homens brutos, suados e solitários -, encontram conforto nos braços de um coletivo queer que habita o único bordel da região. Tudo corre mais ou menos bem até o dia em que a peste se espalha - e com ela o terror. Não por acaso, em uma das primeiras sequências, a pequena Lídia (Tamara Cortés) é acossada à beira de um lago por um grupo nada amistoso de adolescentes. Quando a notícia chega à Flamenco (Matías Catalán), mãe de Lídia, ela e suas colegas trans resolvem dar o troco: emboscam os meninos no mesmo local, obrigando o principal agressor a abrir bem os olhos. Em uma mirada profunda, Flamenco verbaliza em sussurro quase mortal: "peste". É como se a transmissão tivesse ocorrido. O destino fosse selado. Sem espaço para negociação.
O caso é que Flamenco padece há semanas de uma série de sintomas que fazem com que ela emagreça, em meio a tosses com sangue e crises de diarreia. Tomada pela peste, ela gera revolta de seu antigo amante, Yovani (Pedro Muñoz), que, desiludido, tenta assassiná-la, o que gera uma confusão na boate, justamente em uma noite que se pretende festiva. E, por mais sombrio que cada instante possa parecer - com armas sendo empunhadas e caras de poucos amigos -, o filme é conduzido pelo estreante Diego Céspedes com uma leveza quase onírica, que eleva à produção ao limite do realismo fantástico (o que é reforçado pela inebriante sequência na floresta, em que Yovani se apaixona perdidamente por Flamenco, após cruzar com seu olhar penetrante). E mesmo tomada por uma essência eventualmente calorosa, a obra nunca deixa de apontar o absurdo do preconceito que, verdade seja dita, podia ser bem maior há quase cinquenta anos, mas que ainda segue a galope em um mundo reacionário.
Não por acaso, quando Yovani padece da doença ainda desconhecida, a pequena Lídia questiona a mãe do rapaz, que vem da cidade para recolher o corpo do filho: "você chegou a ver algo de estranho nos olhos dele?". Ao que a idosa responde: "você é muito jovem para acreditar nessas histórias de sujeitos covardes que se escondem atrás da doença". Ao cabo, a tal peste podia ser até uma novidade, mas jamais transmitida apenas pelo olhar. A paralisia pode ter mais a ver com o amor interrompido do que por qualquer outra coisa - e o sexo tem papel central nisso. Caótico, naturalista, divertido, pouco convencional, folclórico e afetuoso com suas personagens - em especialmente a dona do bordel, a Mamãe Boa (Paula Dinamarca) -, esse é aquele tipo de projeto imprevisível. Quando parece que tudo vai descambar pra violência inevitável, somos surpreendidos por instantes agridoces. O tema é sério, mas tratado com delicadeza. E leveza. O que torna a experiência irresistível.
De: Jelle de Jonge. Com Leny Breederveld e Martin van Waardenberg. Comédia / Drama / Romance, Holanda / Bélgica, 2024, 100 minutos.
Vamos combinar que os filmes sobre idosos perdendo a memória - seja por Alzheimer, demência ou qualquer outra doença degenerativa - e tendo de lidar com a devastação emocional causada por situações do tipo, já se tornou quase um subgênero do cinema. De obras densas e mais sérias como Meu Pai (2020) ou Vortex (2021) à produções mais leves e divertidas, como no caso de Ella e John (2017) ou Viver Duas Vezes (2019) não foram poucos os filmes a abordarem o tema - conectando-o, em muitos casos, a assuntos como memória, finitude, perda de identidade e mesmo diferenças geracionais. Em alguma medida, tudo isso se encontra no adocicado Uma Viagem Para Recordar (De Terugreis), filme holandês que foi o enviado ao Oscar na edição do ano passado - não chegou entre os finalistas - e que agora chega para aluguel em plataformas como a Amazon Prime e a Apple TV.
Bom, como um filme de comédia, não é demais dizer que essa é uma obra com um bom senso cômico, que emerge em muitas ocasiões do fato de o mundo atual parecer meio complicado demais para os idosos. Em tempos em que tudo soa tão urgente, tão veloz, tão tecnológico, parece um contrasenso só querer um pouco de paz, diante da televisão. O que talvez explique o comportamento excessivamente ranzinza, aborrecido de Jaap (Martin van Waardenberg), que parece uma versão mais irritada e caricata de Larry David, que não deseja mais cantarolar no coral da Igreja. Com o seu mau humor piorando quando ele percebe que a esposa Maartje (Leny Breederveld) está perdendo a memória. Esquecendo das coisas. Se perdendo em lugares. O casamento desgastado já dura quase meio século, mas ainda há espaço para o amor. Será que há?
As diferenças de personalidade de ambos - Maartje ainda parece disposta a viver experiências, curtir a vida, até mesmo namorar ou transar - fica ainda mais evidente quando a idosa enfia na cabeça que quer visitar um amigo que reside na Espanha e que ela não vê há décadas. Para Jaap sair de casa para tal empreitada parece ser mais ou menos como a pior coisa já inventada para se fazer no planeta, mas após uma situação em que a esposa se perde pela cidade, ele aceita entrar no carro. E rodar. E, claro, a partir dali a experiência ganha contornos de road movie com trilha sonora calorosa, lembranças afetuosas de lugares, objetos e pessoas do passado e um pouco de caos, claro, afinal a memória de Maartje vai falhar, nos dando aquele choque de realidade. Fora a surra que a dupla levará de qualquer aparato mais tecnológico que cruze seu caminho, como no momento em que a ambos sofrem pra abrir a porta do hotel.
Ok, esse é aquele filme que não doi, mas ainda parece que falta um pouquinho a mais para que a gente se conecte ou se comova verdadeiramente. Com a coisa se tornando um pouco mais do que uma coleção de situações meio aleatórias que se unem em uma história de um casal de idosos em viagem. Por mais que a sequência em que Jaap finge lutar com as vozes da cabeça de Maartje seja um esforço carismático, ali pelas tantas tudo vai se repetindo e meio que cansando. Ainda que a gente fique, de fato, reflexivo ao pensar no etarismo como um problema dos nossos tempos, especialmente em instantes que mostram academias apinhadas de jovens de corpos gostosos (o que se repete em outdoors pela cidade), ao passo em que a dupla quase bate um carro alugado por ele ser automático. É agridoce, sem pressa e nos faz lembrar da importâncias dos vínculos afetivos, das conexões. E era meio que só isso.
De Timur Bekmambetov. Com Chris Pratt, Rebecca Ferguson e Chris Sullivan. Suspense / Ficção científica, EUA, 2025, 100 minutos.
Quando vi a premissa de Justiça Artificial (Mercy), que tá na Apple TV, admito que fiquei animado. Afinal, um filme que discute os limites do uso da inteligência artificial, em uma sociedade pós-moderna essencialmente punitivista, parecia uma boa ideia. Ou, no mínimo, uma boa oportunidade de discussões ou reflexões um pouco mais profundas a respeito destes temas. Bom, santa ingenuidade - e talvez se eu tivesse ligado o nome do diretor à pessoa, talvez nem tivesse dado play. Afinal de contas, Timur Bekmambetov foi um dos produtores da tenebrosa releitura de A Guerra dos Mundos (2025), que foi meio que onipresente em qualquer lista de piores de 2025. Só que eu gosto de ficção científica, ainda mais se tiver uma pegada mais existencialista, então porque não um projeto meio Minority Report: A Nova Lei (2002) meio Jogos Mortais (2004) pra dar aquela agitada, né?
Só que não. Na trama estamos em um futuro mais ou menos próximo - um punhadinho e anos na frente - e com o aumento da criminalidade em uma Los Angeles turbulenta e à beira do colapso social, qual poderia ser o problema de utilizar o ChatGPT para decidir se este ou aquele sujeito é culpado de algo ilícito? É nesse cenário escabroso que o delegado de polícia local Chris Raven (Chris Pratt) surge, mas não como inquisidor - algo que ele até já foi, já que auxiliou na construção da engenhoca que funciona como juiz digital para crimes violentos - e, sim, como alguém que está sendo acusado. Aliás, acusado de assassinar a própria esposa, Nicole (Anabelle Wallis), em circunstâncias estranhas. Violento e viciado em bebida alcoólica, esse sujeito detestável - que não temos nenhum motivo em especial para torcer -, não lembra de nada que ocorreu durante a manhã. E tem apenas 90 minutos para tentar provar sua inocência.
Preso a uma espécie de cadeira elétrica, o homem tem acesso a uma série de documentos - fotos, vídeos, redes sociais dos envolvidos, imagens de câmeras corporais ou de segurança -, que podem ajudar a montar o quebra cabeças que solucione o caso. Enquanto um robô com o rosto e a voz de Rebecca Ferguson (seu nome é Maddox e ela integra o programa Mercy, que já julgou e condenou 18 réus, economizando recursos e agilizando os processos) lhe dá as instruções, lhe conduzindo de lá para cá e de cá para lá em um emaranhado de telas, pessoas e sons (e é quase um desafio não ficar tonto em meio a tudo aquilo, que só tem sentido em um filme mal feito, que tenta compensar as falhas com um aparato técnico ostensivo). Entre os contatos de Chris está sua filha Brit (Kylie Rogers), que mantém um misterioso segundo perfil no Instagram, além de outras figuras do entorno, como colegas policiais e companheiros de trabalho de Nicole, que podem ser a chave para a solução do caso.
Só que para além do dilema ético que poderia rondar esse tipo de decisão - capaz de deixar a galera do "bandido bom é bandido morto" mais ou menos excitada -, e que poderia ser melhor explorado na obra, tudo o que temos é um sujeito péssimo com a sua família (talvez ele não tenha matado a própria esposa, mas a impressão que dá é que ele tá sempre pronto a agredi-la física ou psicologicamente), essencialmente corrupto, já que integra um sistema de justiça falho interessado apenas em agradar parte da opinião pública, e que não tem nenhum tipo de personalidade mais complexa. Aliás, essa é mais uma produção que talvez fizesse sentido nos anos 90, afinal, quem, em pleno ano de 2026, ainda acha que dá pra torcer por um policial em um filme? E mais, um policial dos Estados Unidos? Nas ruas dessa Los Angeles turbulenta e dividida em guetos, fica ainda mais claro o racismo abjeto, com os habitantes da cidade sendo retratados como uma massa uniforme, latina (ou preta), pobre e sempre violenta. Mas quem vai salvar o dia e desmantelar o sistema? O policial misógino, claro. O cidadão de bem que vai se redimir. E que na próxima não vai socar a parede, quando ficar brabinho. Vai vendo.
Vamos combinar que, quem gosta do Big Thief, dificilmente ficará alheio ao trabalho solo de Buck Meek, que é o guitarrista e vocal de apoio do grupo. Afinal, tem uma crueza ali, uma sujeirinha no bom sentido e um estilo meio de cafofo indie - por mais movimentada, calorosa ou expansiva que seja a música. E o expediente se repete em The Mirror, terceiro registro solo do artista - e bastam os primeiros acordes da deliciosa, teatral e resplandecente Gasoline, que abre o registro, para que sejamos catapultados àquele universo empoeirado, quase místico, em que falar de amor nunca é óbvio. Há uma ansiedade boa ali que se espalha pela melodia magnética, daquelas que ficam na cabeça já na primeira audição, se estendendo para a letra romântica, mas, metafísica sobre quantuns e fótons e feixes de luz e a respeito de quem vai verbalizar o amor primeiro (Será eu ou será ela? / A dizer eu te amo primeiro?).
Em geral parece haver uma evolução nessa mescla de folk, lo-fi e rock alternativo com uma pitada de psicodelia em relação ao anterior Haunted Mountain (2023) que, diga-se, já era um bom disco, ainda que soasse mais intimista ou, vá lá, menos comercial. Há, em geral, um maior preenchimento sonoro agora, um instrumental mais expressivo, mais estruturado, o que faz com que canções como Can I Mend It? pareçam saídas de algum disco do The Decemberists fase The King Is Dead (2011). Percepção que talvez também tenha a ver com a participação de seus companheiros de banda, Adrianne Lenker e o irmão Dylan, em vocais de apoio, o que dá movimento a coisa toda. Há, e importante: Meek é um frasista e tanto, apostando na ironia como âncora pra essa ideia de espelho do título, de como nos vemos por meio do olhar do outro, o que adiciona camadas a músicas supostamente simples (Por muitos anos vivi com medo dos valentões e dos críticos / Agora sei o que eles odeiam). É redondinho.
De: Dag Johan Haugerud. Com Ella Øverbye, Selome Emnetu, Ane Dahl Torp e Anne Marit Jacobsen. Drama / Romance, Noruega, 2024, 111 minutos.
Creio que, poucas vezes na história do cinema, me deparei com a descrição de uma paixão avassaladora de forma tão poética, inteligente e vigorosa como na primeira meia hora do surpreendente e tocante Dreams (Drømmer) - o vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim do ano passado, e que foi incorporado, recentemente, ao catálogo da sempre ótima plataforma Reserva Imovision. Que atire a primeira pedra quem nunca se apaixonou por seu professor ou professora, e esse é exatamente o caso de Johanne (Ella Øverbye), uma estudante de ensino médio que tem uma atração instantânea e quase obsessiva por sua charmosa professora de francês Johanna (Selome Emnetu) - sim, com direito a peculiaridade de o nome de ambas ser diferenciado por apenas uma letra. Quando Johanna aparece pela primeira vez, com seu cacheado sedoso e um sorriso cheio de afeto, que parece ainda mais amplo em uma contraluz que a inunda pelo sol, o efeito parece meio que imediato sobre Johanne. E talvez seja.
Só que, em pleno processo de amadurecimento, entre não compreender bem aquilo que agonia o seu peito - um sentimento que parece ao mesmo tempo inconcebível e maravilhoso - a jovem também busca outros tipos de conexões, especialmente com o universo das artes, da dança e da literatura, que parecem aflorar a sua sensibilidade. E a sua percepção para o significado daquilo - para além do debate ético e quase meio lógico que poderia rondar uma adolescente de 15 ou 16 anos anos desejando de uma forma intensa a sua professora. Aliás, é justamente quando ela torce o pé e lê um livro - uma novela bastante romântica estilo Mulherzinhas -, que esse desabrochar inicia, ao menos em teoria. E ver Johanne em uma longa divagação em off nunca entediante, descrevendo as pequenas interações com a professora - seja em sala de aula, no pátio, nos corredores ou em outras situações - sempre em um estilo sublime, de devaneio quase transcendental, é comovente.
E, honestamente, é difícil não se conectar. Ou pensar em outras obras de arte - de canções populares como Apenas Mais Uma de Amor, do Lulu Santos (Eu gosto tanto de você / Que até prefiro esconder / Deixa assim ficar subentendido), a filmes como o clássico cultEncontros e Desencontros (2003), de Sofia Coppola -, que contribuam na definição do que é uma paixão platônica. Mas o caso é que é complicado para Johanne, por mais evoluídas que as pessoas ao seu redor sejam - inclusive a mãe progressista Kristin (Ane Dahl Torp), ou avó escritora Karin (Anne Marit Jacobsen) - verbalizar o seu amor. Mesmo para as suas amigas que, muitas vezes, a pegam olhando meio que para o nada sem muita explicação. Ao cabo, a fantasia se converte em um diário/livro com descrições bastante íntimas e cheias de vulnerabilidade que unem a narradora e seu objeto de desejo. Algo sexy mas secreto, e que ela morre de medo de contar para Johanna - por receio de que esta possa rir, "como riem os adultos quando uma criança fala algo fofo".
E vocês que leem essa resenha talvez achem curioso como um filme meio aleatório - que, na realidade, integra uma trilogia da diretora Dag Johan Haugerud (é a terceira parte depois de Sex e Love) - e que trata sobre o mais universal dos temas, possa ter tanto impacto. Mas é possível citar exemplos, como no instante em que Johanne descreve a forma elegante e cheia de personalidade com que a professora se veste - e de como a lã de suas blusas de tricô se conecta de forma bonita à sua pele -, ou mesmo em outro momento em que a protagonista admite que a realidade é sempre pior do que aquilo que idealizamos, em relação aos caminhos que nos conduzem àqueles que amamos. Pode parecer óbvio, mas a obra ganha ainda mais profundidade na segunda parte, quando o manuscrito do livro chega às mãos da avó e da mãe e de como elas tratam o caso - no limite entre o ensaio à denúncia de um crime sexual e a beleza do florescimento de alguém que está em pleno controle da situação e em processo de descoberta da própria sexualidade. Repleto de metáforas e alegorias, esse é um filme de fluidez magnética que, de quebra, ainda nos deixa meio nostálgicos em seu exame arrebatador das dores e delícias embriagantes das primeiras paixões.