quinta-feira, 30 de julho de 2026

Pitaquinho Musical - Fresno (Carta de Adeus)

Um disco que parece olhar com bastante carinho para os fãs de longa data, até mesmo por apostar em um estilo de rock mais cru, direto e sem firulas. Assim parece ser Carta de Adeus, décimo primeiro registro de inéditas dos gaúchos da Fresno. Deixando meio que de lado o caráter eletrônico e até dançante que marcaria trabalhos recentes como Vou Ter que Me Virar (2021) - reforçado pelo uso dos sintetizadores -, a banda adota o modo "menos é mais". O que significa preservar as letras existencialistas, os refrãos pegajosos e a mistura de gêneros como hardcore, emo e jangle pop, com um resultado bastante orgânico e que vai direto ao ponto em uma nova coleção de canções nostálgicas, agridoces e contemplativas. Aliás, algumas delas, como Logo Agora Que o Meu Mundo Girou e Tudo que Você quer já se inserem no panteão das grandes músicas de Lucas Silveira e companhia.

 


Em termos conceituais, a banda explicou nos materiais de divulgação que o álbum gira em torno de perdas, encerramentos e transformações - sejam elas em relacionamentos, fases da vida ou versões de si mesmo. Nesse sentido, o "adeus" é usado como uma metáfora muito mais ampla para despedidas, encerramentos de ciclos e a consciência de que qualquer encontro pode ser o último. "Tu nunca sabe se tá dizendo adeus ou se tu vai morrer amanhã", imagina Silveira em entrevista ao Correio 24 Horas. Já a ideia das cartas permite verbalizar aquilo que talvez não conseguíssemos dizer em voz alta, em um processo que dialoga ainda com a maturidade da própria banda, que já ultrapassa as duas décadas de carreira. "Ah, não vou mais desconversar / Não vou mais desprometer / Não há tempo pra perder / Nem pra mim nem pra você" divaga o vocalista em O Cantor e o Taxista, que parte de uma experiência real em uma letra sobre o sofrimento e de como ele pode ser relativo, se comparado ao de outras pessoas. É só um dos grandes momentos do disco.

Nota: 8,5 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Picanha em Série - O Segredo de Widow's Bay (1ª Temporada)

De: Katie Dippold. Com Matthew Rhys, Kate O'Flynn, Stephen Root e Dale Dickey. Suspense / Comédia, EUA, 2026, 400 minutos (aproximadamente).

Vamos combinar que a plataforma da Apple TV tem sido imbatível no quesito séries de qualidade - e não é diferente com a divertida, tensa e hypada O Segredo de Widow's (Widow's Bay), que faz aquela mistura de terror com suspense, que tem funcionado como um subgênero bastante efetivo, na atualidade. Como se fosse uma mistura de Ilha do Medo (2010) e Twin Peaks (1990 - 1991) - especialmente pela atmosfera enevoada e que evoca uma sensação de isolamento, de paranoia e de dúvida a respeito do que é real, sobrenatural ou psicológico -, com algumas pitadas de The White Lotus (2021 -) e de filmes como Tubarão (1975), a produção nos apresenta ao carismático e atrapalhado Tom Loftis (Matthew Rhys), prefeito da pacata Widow's Bay, uma ilha da Nova Inglaterra, que pretende instituir uma política de incentivo ao turismo. O que envolve tentar impressionar um jornalista do The New York Times, que vai até o local para escrever uma reportagem sobre aquele pacato e peculiar espaço.

E, enfim, a intenção de Tom pode ser a melhor possível, mas o grande problema é que muitos dos moradores acreditam que a ilha seja amaldiçoada, especialmente pelo amplo histórico de tragédias passadas, com desaparecimentos, mortes e casos bizarros que, inclusive, estão evidenciados no museu local. O que garante, aliás, sequências engraçadas, como aquela em que o prefeito tenta, de todas as formas, acobertar uma matéria sobre canibalismo (sim), que teria ocorrido décadas atrás no local. Mesmo com toda a controvérsia e com a ilha, aparentemente, despertando para o mal - não fica claro de quanto em quanto tempo isso ocorre, mas, mais adiante, entenderemos que o começo da maldição tem a ver com o fundador da cidade, um certo Richard Warren (Hamish Linklater) -, a reportagem é publicada e os turistas começam a chegar à ilha. Ao mesmo tempo em que tem início eventos estranhos, como o toque inesperado do sino da Igreja, uma névoa constante que se avizinha e o surgimento de inesperadas assombrações.

 


Alternando momentos mais cômicos, com outros de horror - como no momento em que o prefeito tem uma espécie de alucinação com Willy The Clown (um palhaço macabro) -, a série aposta em eventos simples, cotidianos, que farão a série de dez episódios evoluir. Por exemplo, no segundo episódio, os moradores da ilha instigam Tom a passar uma noite em uma pousada supostamente assombrada, como forma de garantir, de fato, que não há problema algum no local. E que não há motivo para medo. Já no quarto episódio, a excêntrica secretária de Tom, Patricia (a ótima Kate O'Flynn), que jura de pé junto ter se salvado de seres sobrenaturais no passado, resolve planejar a festa perfeita, como forma de mostrar que ela é uma ótima anfitriã (a despeito de ser uma figura desajeitada, introspectiva, burocrática e sem nenhuma graça). O que envolverá a utilização de um estranho guia de autoajuda cheio de clichês sobre o tema que, mais para frente, perceberemos ter outra função.

Outro personagem importante na série é Wyck (Stephen Root) que parece estar sempre um passo a frente no que diz respeito à famosa história da cidade, o que o faz entrar em conflito com Tom - especialmente por achar que a ilha está se "movimentando" e que aquele não seria um bom momento para receber turistas. Com idas e vindas no tempo, inclusive com um episódio que retorna ao século 18, para mostrar como se originam às tormentas e quais os sacrifícios necessários para que os habitantes sobrevivam à entidade demoníaca que governa a ilha das profundezas, a série ainda reserva uma ótima surpresa para o último episódio da temporada, deixando um excelente gancho para uma segunda (que talvez nem precisasse existir, de tão bem encaixada). Atmosférica, desconfortável e cheia de figuras extravagantes, complexas, imperfeitas e moralmente ambíguas, O Segredo de Widow's Bay ainda adiciona algumas discussões laterais sobre patriarcado, capitalismo tardio e uso da religião como ferramenta de dominação. Conjunto que a torna uma das ótimas surpresas da temporada.

Nota: 8,5

 

Tesouros Cinéfilos - O Abrigo (Take Shelter)

De: Jeff Nichols. Com Michael Shannon, Jessica Chastain, Tova Stewart e Shea Whigham. Drama / Suspense, EUA, 2011, 121 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM ALGUNS SPOILERS] 

"Amor, não há tempestade lá fora. Eu não mentiria pra você. Nós te amamos". Em uma das mais assombrosas sequências do maravilhoso O Abrigo (Take Shelter), que retorna à Netflix e que vale ser revisitado, Samantha (Jessica Chastain) argumenta de forma calma, calorosa e empática com seu marido Curtis (Michael Shannon), que está passando por mais uma severa crise de esquizofrenia paranoica. A tempestade, naquele caso, tem boas chances de ser simbólica - uma alegoria forte, potente, para as angústias do homem, que passou basicamente as duas horas da produção formidavelmente conduzida por Jeff Nichols, construindo um abrigo subterrâneo que protegeria a ele e a sua família de algum tipo de mal que poderia vir dos céus. E que em sua cabeça é simbolizado por uma severa tempestade em que a chuva se apresenta viscosa, oleosa. É necessário proteger aqueles que se ama. A qualquer custo.

E vamos combinar que, se hoje em dia o suspense psicológico - aquele que trata muito menos de fantasmas ou de assombrações gratuitas e mais dos distúrbios da mente e de como eles afetam não apenas aqueles que sofrem das doenças, mas as pessoas do entorno - está em alta, vide excelentes produções como Backrooms: Um Não-Lugar (2026), há quinze anos filmes como esse ensaiavam debates não apenas sobre comportamentos obsessivos e compulsivos, mas também sobre como lidar com eles. Afinal de contas, uma pessoa com crises de ansiedade, transtornos obsessivos compulsivos, depressão ou bipolaridade podem estar ao nosso lado. Ou, muitas vezes, sermos nós mesmos, por óbvio. Nesse sentido, a produção de Nichols parece ser também sobre compreensão. Solidariedade. O que faz com que Samantha permaneça até o fim com Curtis. Sem jamais abandoná-lo, num gesto de amor.

 


Claro, não significa ser ONG de ninguém, mas saber reconhecer o problema e buscar uma solução. E há algo que nem todo mundo percebe, num primeiro momento, quando a "loucura" (no melhor sentido da palavra) de Curtis, aliás, na ótima interpretação de Shannon, tem início: ele não tem uma psiquiatra próxima, ao alcance. E que possa lhe conduzir para uma terapia efetiva, restando às conversas com uma psicóloga local - mais uma conselheira de saúde do que qualquer outra coisa. Em linhas gerais Curtis tem uma vida classe média normal, com um trabalho na construção civil que lhe garante um bom salário e um plano de saúde, uma boa casa com jardim nos arredores de Ohio, uma esposa carinhosa e uma filha pequena que, a despeito de um severo problema de audição, encontra nos pais o amor necessário para enfrentar um mundo que nem sempre foi feito para os ouvintes.

Só que tudo isso não impede Curtis de ter uma série de visões de eventos estranhos - nuvens negras e pássaros pretos ameaçadores nos céus -, além de sonhos em que violências em sequência ocorrem, provocadas por homens desconhecidos e até por seu amistoso cachorro (o que faz com que ele prenda o animal na rua). Como forma de canalizar o mal-estar generalizado, o protagonista resolve fazer uma ampla reforma numa casa de equipamentos mantida pela família, gastando um dinheiro que eles não possuem e ainda utilizando, de forma indevida, o maquinário da empresa em que ele atua. O que resultará em um afastamento gradual das pessoas - familiares como o irmão, ou amigos. A revelação de que a mãe de Curtis foi diagnosticada com esquizofrenia em sua juventude, adiciona um componente a respeito da herança genética dos transtornos, o que poderia explicar, em partes, o comportamento obsessivo do homem. Repleta de metáforas e de alegorias que aludem à sobrecarga dos tempos modernos, ao capitalismo tardio, às crises climáticas e a ansiedade generalizada como um todo, essa é uma experiência que deixa o final em aberto, ambíguo, e que respeita a inteligência do fã de cinema. Não há solução fácil. Mas talvez juntos, seja possível superar a dor.

 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Novidades em Streaming - Dia D (Disclosure Day)

De: Steven Spielberg. Com Emily Blunt, Josh O'Connor, Colin Firth e Colman Domingo. Ação / Suspense / Drama / Ficção Científica, EUA, 2026, 146 minutos.

Sabe quando você está vivendo o seu dia normalmente e um colega de trabalho, um familiar ou mesmo um amigo, empunhando um celular, te convida a assistir um vídeo - um conteúdo qualquer - que você tem a mais absoluta certeza que não te impactará, mas você aceita ver para não fazer a desfeita? E que quando o conteúdo é finalizado você fica com aquela cara de "legal, vai avisando qualquer coisa" porque o troço não te pegou de nenhuma maneira? Confesso a vocês que foi exatamente esse o meu sentimento assistindo ao tão falado Dia D (Disclosure Day), talvez um dos piores filmes já concebidos por Steven Spielberg - que, todos sabemos, tem uma carreira sólida e uma excelente reputação entre público e crítica. Só que é sério mesmo que o grande tema central desse retorno do diretor aos filmes de extraterrestres envolve uma teoria da conspiração requentada e que já foi tema de produções do próprio Spielberg no passado?

Quando iniciou o falatório sobre o filme, que estreia para aluguel no streaming nesta segunda-feira, com direito a conjurações envolvendo o próprio Spielberg e o retorno de uma conspiração estranha que volta e meia reaparece, de que o realizador teria tido acesso sem precedentes a arquivos confidenciais do governo (e que talvez até filmasse, pasme, com ETs de verdade), as plateias mundo afora ficaram em choque. E empolgadas com a possibilidade de poder rever um Spielberg ativo, e próximo dos 80 anos, revivendo os anos de ouro do cinema de Objetos Voadores Não Identificados (OVNIs), e que entregou ao mundo clássicos como Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977), ET: O Extraterrestre (1982) e Guerra dos Mundos (2005). Só que o resultado geral alcança o auge do cringismo na sequência em que takes variados da população paralisada diante das telas (ou monitores de TV) reagindo às supostas imagens chocantes de seres de outro planeta são, enfim, depois de mais de duas cansativas horas de perseguições genéricas e de uma salada de roteiro mal engendrada, reveladas.

 


É sério mesmo que, em um mundo em que teorias da conspiração à moda chip chinês na vacina são meio que uma tarde de terça-feira qualquer do incel médio que se alimenta todos os dias de 4Chan, de Cheetos e de Coca Cola, devemos nos animar com a reativação dessa história de décadas atrás, que mais parece saída de um filme de espionagem e de ação que ficou meio perdido entre as décadas de 80 e 90? E que talvez também combinasse mais com o Spielberg de outrora, que ainda acredita que as grandes revelações do planeta serão televisionadas? Talvez os doidinhos de bairro loucos pra farmar seus canais com listas ao estilo "10 Sinais de que Spielberg acessou arquivos secretos da FBI (o sétimo é inacreditável)" talvez se animem com a história toda mas, no meu caso, eu só consegui sentir foi tédio. Vamos ver o novo filme do Spielberg? Sim, claro. Mas a minha reação ao final foi como se tivesse assistido ao pior videozinho do perfil de gosto duvidoso do amigo que te estende o celular e que jurava que tu ia gostar do conteúdo daquele humorista de stand up que finge neutralidade, mas que se destaca em um nicho bem específico (o dos reacionários de extrema direita que verbalizam todos os tipos de preconceitos por metro quadrado).

Não bastasse a frustração pelo ponto central da obra ser a mais batida das histórias de conspiração que se tem conhecimento e que, em geral, não acrescenta nada de novo, ainda vivi uma sensação meio vazia no transcorrer, enquanto acompanhava a movimentação daqueles sujeitos. Sujeitos, aliás, que não poderíamos nos importar menos, já que eles não têm história, não têm passado, não têm família, não comem e não dormem. E, como se desgraça pouca não fosse bobagem, essa é uma obra que, enquanto coloca no micro-ondas o tema dos segredos de Estado governamentais da terra do Tio Sam - que esconderia informações preciosas e relevantes da população durante décadas de presidentes republicanos e democratas (por que, né, nem esquerda nem direita) -, ainda reaproveita, como se ainda vivêssemos os anos de Guerra Fria e de corridas tecnológicas, narrativas paranoicas sobre ameaças comunistas (com citações à Rússia, à Coreia do Norte e até à crise dos mísseis em Cuba sendo resgatada como um paralelo com os tempos confusos que vivemos). "Não tenha medo do que você não conhece", lembra o especialista em cibersegurança Daniel Kellner (Josh O'Connor), em certa altura, como parte de um conjunto de revelações. O problema é que a gente conhece esse modus operandi do imperialismo até demais - e por isso o tememos.

 

 

Kellner é o sujeito que trabalha em uma corporação ligada ao Governo - seu nome é Wardex - e que rouba não apenas documentos e discos rígidos com revelações bombásticas que remontam ao famoso incidente de Roswell, ocorrido na década de 40, como também furta um dispositivo extraterrestre da instalação - dispositivo este, que permite comunicação telepática e outras habilidades psíquicas (inclusive com animais) e que nem sempre são simples de compreender. Sua história se cruzará, mais adiante, com a da apresentadora de TV Margaret (Emily Blunt), que também passa a ser perseguida após viralizar um vídeo em que ela fala uma língua estranhíssima ao vivo - o que fará com que a Wardex desconfie de suas habilidades de comunicação extraterrestres. Durante duas horas integrantes da tal companhia, liderados pela pouco convincente figura do CEO Noah (Colin Firth, canastríssimo), tentarão de forma remota localizar a dupla. O que resultará em algumas das mais repetitivas perseguições do cinema moderno. Enquanto os mocinhos tentam encontrar Hugo (Colman Domingo), outro desertor da companhia, um sem fim de discussões pouco aprofundadas sobre conspirações corporativas, papel da Igreja nas dinâmicas de poder, uso da tecnologia para fins escusos e crises políticas da modernidade (vem aí a terceira guerra, viu?) se intercalarão, em uma experiência que, sinceramente, nunca decola. É um filme que roda em torno de si e que sequer tem graça ou charme - e até as tentativas de humor são furadas (como na cena em que há uma longa tentativa de "atropelamento" de um celular). Eu juro que abri o vídeo do amigo Spielberg achando que vinha coisa boa. Mas talvez eu só tenha virado o tiozão que desconfia que tudo é IA e que tem pouco saco pra acreditar que algo do tipo faria o mundo parar. Provavelmente no mercadinho da esquina só se falaria de outra coisa.

Nota: 2,5 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Tesouros Cinéfilos - A.I. Inteligência Artificial (Artificial Intelligence: AI)

De: Steven Spielberg. Com Haley Joel Osment, Jude Law, Frances O'Connor, Sam Robard e Brendan Gleeson. Ficção Científica / Drama / Aventura, EUA / Reino Unido, 2001, 146 minutos.

Em que momento uma máquina deixa de ser apenas uma mera ferramenta utilitária e passa a ser "alguém" digno de consideração? Como seres de carne, osso e alma, seremos capazes de amar um robô, um equipamento eletrônico, um aplicativo? Ou esse é um tipo de sentimento possível apenas entre humanos ou, vá lá, animais? Vamos combinar que, no mundo das artes, esse tipo de pergunta não chega a ser exatamente uma novidade e há um sem fim de obras - filmes, livros, quadrinhos e peças de teatro -, que versam sobre o assunto, sendo alguns bastante conhecidos do público, como Blade Runner (1982) ou Ela (2013). E, enquanto reassistia ao clássico A.I Inteligência Artificial (Artificial Intelligence: AI), de Steven Spielberg, que completa 25 anos de lançamento em setembro, só conseguia pensar naquele meme sobre máquinas dominando o mundo, mas poupando todos aqueles que teriam sido gentis, educados e empáticos com o ChatGPT. Obrigado, GPT, você foi foda!

Afinal de contas, robôs tendo carinho por seres humanos não parece algo impossível de se imaginar - talvez seja só executar o prompt correto para que os sistemas sejam capazes de responder às emoções humanas de forma mais eficiente possível. Sim, atualmente o Black Mirror nem parece mais fazer tanto sentido, em um mundo em que as pessoas utilizam ferramentas online para consultas psicológicas, empresariais ou mesmo como parceiros amorosos (ou sexuais). Bom, no campo conhecido como "computação afetiva" não são poucos os estudos que possibilitam aos robôs identificarem expressões faciais, adaptar a conversa de acordo com o estado emocional da pessoa ou mesmo inferir se o sujeito está triste, irritado, ansioso ou feliz. Se enfiar a voz da Scarlett Johansson lá no meio certamente está feito o estrago e, bom, as máquinas não têm consciência, mas nós temos. E os limites parecem borrados, entre o otimismo e o ceticismo científico.

 


Na obra de Spielberg - que pegou o bonde andando das mãos de Stanley Kubrick -, a cena mais comovente da trama envolve o instante em que Monica (Frances O'Connor), simplesmente abandona David (Haley Joel Osment) no meio do mato, após um evento traumático quase desencadear a morte do filho real dela, Martin (Jake Thomas), afogado em uma piscina. Com uma doença severa e em processo lento de recuperação, não parecia haver muito otimismo quanto à recuperação de Martin. O que faz com que o marido de Monica, Henry (Sam Robards) aceite levar para casa um protótipo moderníssimo de robô - chamado de Meca - como forma de substituir o menino. Que, contra todos os prognósticos melhora, volta pra casa, e inicia uma disputa particular com o irmão humanoide. Na queda de braço, Martin leva a melhor, restando a David o mato. Enquanto ele suplica aos berros para Monica de que ele "pode ser real". Aliás, o "desculpe por não ser real" é a frase mais trágica dita pelo menino, que se vê em um lixão da indústria Cybertronics, que desenvolve os modelos eletrônicos.

Em uma segunda parte bastante movimentada em um submundo cyberpunk decadente, após o aquecimento global meio que destruir parte do mundo - uma realidade que ainda não tínhamos a dimensão até aquele momento -, David faz amizade, de forma meio aleatória, com o charmoso robô Joe (Jude Law), que funciona como um gigolô destinado à satisfação de mulheres solitárias. Após uma pequena temporada em uma espécie de circo itinerante em que uma multidão bastante agitada se reúne para assistir a destruição em massa de robôs desgarrados e inutilizados (um tipo de evento histriônico que talvez tivesse tração entre a extrema direita interessada em oprimir qualquer tipo de minoria, em uma alegoria óbvia), David e Joe conseguem escapar. Dando início a uma saga que visa encontrar a Fada Azul - sim, ela mesma, a dos livros do Pinóquio -, que lhe permitiria consolidar o desejo de ser um menino de carne e osso. E, portanto, digno do amor de Monica.

 

 

Com ótimo desenho de produção, efeitos especiais e trilha sonora, AI: Inteligência Artificial segue sendo uma obra ao mesmo tempo contemplativa e movimentada, que permite uma série de reflexões a respeito dos caminhos da tecnologia e de quais os limites éticos ou morais ligados ao tema. Seremos capazes de, no futuro, reproduzir a arquitetura de nossos cérebros de forma perfeita para que as emoções emerjam de robôs da forma mais natural possível? Ou emoções genuínas dependem muito mais da biologia, da coisa orgânica ou da consciência humana? Enquanto assistia ao terço final da produção - e me comovia profundamente com o último dia na Terra de David e Monica, em um dos finais mais emocionantes do milênio - refletia brevemente sobre a nossa experiência nesse plano. E de como, em tempos em que as nossas relações parecem cada vez mais mediadas por máquinas, esse ideal não pareça nada distante da realidade. Aliás, ele já está aí e talvez seja importante ser educado com o ChatGPT. Nunca se sabe. 

terça-feira, 21 de julho de 2026

Pitaquinho Musical - Iceage (For Love of Grace & the Hereafter)

Quem acompanha a carreira do Iceage sabe que, melodicamente, conforme os discos iam sendo entregues ao público, pouco restaria da crueza punk e urgente dos inaugurais New Brigade (2011) e You're Nothing (2013), que comoveriam a crítica do começo da década passada, alçando-os ao cargo de mais nova salvação do rock, com elogios da Pitchfork e um certo encantamento frente a atitude um tanto anarquista do vocalista Elias Rønnenfelt e seus asseclas. E, bom, não é novidade que todos nós amadurecemos e o polimento percebido a cada novo registro talvez tenha também a ver com isso - ainda que parte do público esteja saudando For Love of Grace & the Hereafter, o sexto álbum de inéditas dos dinamarqueses, como uma espécie de retorno às origens. E, sinceramente, não é, dadas as diferenças entre o caráter sombrio, sujo e soturno de inferninho garageiro dos primeiros trabalhos, em comparação com a energia primaveril e até mesmo comercial dos últimos. 

 


Em suma, o que antes era peso, caos e estranhamento, agora é refino, esmero e melodia. Sim, segue sendo a mesma banda de sempre, mas se canções como White Rune ou Rotting Heights, do primeiro álbum, pareciam saídas de alguma catacumba, músicas como Star ou Lifetime, de For Love... são tão palatáveis, que não fariam feio em algum disco de alguma banda hardcore comercial dos anos 90, como, sei lá, o Rancid. Repleto de ótimas canções em que divagações existenciais se alternam com temas sobre a complexidade dos relacionamentos e mesmo dilemas dos tempos modernos, o disco consegue ser sedutor e cheio de personalidade, com sua mescla de pós punk, indie e jangle pop alcançando seu auge nas ótimas Ember e The Weak - esta última a respeito do sentimento de resignação e até de desconexão que vivemos, em tempos em que a impressão que dá é a de que gastamos energia à toa (Sabes que esta cidade é uma guilhotina / Toda uma cidade de esperanças e sonhos decepados). Canetada!

Nota: 8,5 

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Novidades em Streaming - Backrooms: Um Não-Lugar (Backrooms)

De: Kane Parsons. Com Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Lukita Maxwell e Mark Duplass. Ficção Científica / Suspense, EUA, 2026, 110 minutos.

Vamos combinar que quando pensamos em memórias, sejam elas afetivas ou não, talvez nem sempre elas decorram de grandes acontecimentos. Muitas vezes aquilo que nos marca pode estar relacionado a fragmentos menores de fatos rotineiros que, por vezes, ressurgem como borrões em uma espécie de limbo em que nem tudo é claro ou evidente. Quem nunca passou por uma antiga casa de infância ou bairro em que viveu na juventude que simplesmente parecia maior - com outra geografia, outra dimensão, outra noção de espaço - quando era criança e que, hoje, parece resultar outra? E, mais, que sonhos teríamos tido nós naquele passado que, agora adultos, foram concretizados ou soterrados? Quais os traumas que carregamos? As dores? Os medos? Qual a bagagem que nos forma? De que forma nossas famílias, o ambiente e a sociedade nos moldam? Sim, parece um excesso meio filosófico para um filme pequeno, mas o caso é que todos esses temas parecem dialogar, em alguma medida, com o excelente Backrooms: Um Não-Lugar (Backrooms), que chega para aluguel na plataforma da Amazon.

Por sinal, não são apenas esses assuntos que possibilitam essas divagações existencialistas que orbitam a obra, mas também outros, relacionados à mídia, às corporações e ao capitalismo tardio. Sem que tudo soe apenas como uma grande salada de referências, tendo algum sentido genuíno em um momento em que um certo mal-estar generalizado à moda Byung-Chul Han atravessa a humanidade. Em alguma medida, a obra concebida pelo jovem Kane Parsons - um youtuber de apenas 20 anos, que teve grande projeção com os seus vídeos tão experimentais quanto inventivos, compartilhados na plataforma - parece uma mescla de Ruptura (2022 -), com Quero Ser John Malkovich (2000) e algumas pitadas da obra cult Cubo (1997), de Silent Hill (o game) e até da série Twin Peaks (1990 - 1991), especialmente o estranhamento surrealista desta última, que se amplia com a ótima trilha sonora. Ao cabo, o que se tem aqui é uma experiência de sensações - de medos inconscientes, de traumas familiares e de memórias doloridas que parecem retornar infinitamente para nos assombrar. Sim, no fundo há um filme. Mas também há um desconforto generalizado. Que burla os limites do mero cinema de suspense, com seus óbvios jump scares.

 


Na trama que se passa nos anos 90, o protagonista Clark (Chiwetel Ejiofor) é um arquiteto que nunca conseguiu se realizar em sua profissão, e que ocupa seus dias como gerente de uma loja de móveis que funciona em um amplo - e naturalmente opressivo - galpão. Enquanto precisa lidar com a decadência dos seus negócios, o que o força a produzir vídeos de propaganda constrangedores em que se veste de pirata (o mascote do empreendimento) em uma década pré-viralização, ele ainda luta para superar o alcoolismo, que resultou em um divórcio recente. O que faz com que ele procure ajuda da terapeuta Mary Kline (a ótima Renate Reinsve) que, mais adiante, também descobriremos ter os seus esqueletos no armário - resultado de um relacionamento conturbado com a sua mãe ultraprotetora e agorafóbica, que sequer deixava ela olhar para a rua quando criança (que dirá sair de casa).

Sem um lugar oficial para habitar, Clark opta por meio que morar na loja - há ali camas, televisão e outros objetos que possibilitam improvisar uma casa -, mas ele estranha o fato de a conta de luz parecer muito acima do valor. E quando ele chama um eletricista para verificar a chave geral, ele não apenas percebe a existência de um disjuntor sem muita função na caixa, como, mais adiante, após uma queda de energia repentina, constata um feixe de luz meio inexplicável, na parede. E que lhe possibilitará adentrar uma espécie de portal - um outro plano, um não lugar (como no subtítulo) infinito, como num tipo de pesadelo arquitetônico de Jorge Luís Borges, em que cadeiras e moveis se espalham de forma aleatória, galerias se alternam com espaços minúsculos e portinholas levam a cenários que parecem saídos de algum quadro de Salvador Dali (com estofados ou calçados enterrados pela metade, destroços de mobiliários aleatórios e roupas velhas e sujas pelos cantos). Fora as luzes piscantes e os zumbidos e barulhos diluídos e constantes.

 

 

Nesse enorme labirinto sem fim a pior surpresa é sempre a próxima e, em uma chamada telefônica, Clark alerta Mary para o fato de que está preso para sempre no local - em uma alegoria quase óbvia para os transtornos mentais e de como eles mexem com nosso inconsciente, de forma a dificilmente fazer com que nos libertemos deles (sem um bom acompanhamento, por óbvio). Excêntrica, bizarra e surpreendente a produção ainda tem fotografia e desenho de produção impecáveis - e, a menos que o pessoal da Academia esteja hibernando em um sono profundo, ambas deverão ser lembradas entre as indicadas em sua categoria no Oscar. Ao cabo, trata-se de uma obra bem ao estilo da A24 e desse onda de novos realizadores que, se não reinventam a roda, adicionam uma série de camadas complexas para assuntos já tão batidos em outros suspenses psicológicos. Crescer emocionalmente pode ser complicado por demais, ainda mais quando precisamos lidar com lembranças, perdas e um sentimento de paralisia que não nos deixa evoluir. Que uma obra tão honesta e tão bem feita nos permita pensar de forma adulta a respeito de tudo isso, é um grande mérito.

Nota: 9,0 

Pitaquinho Musical - Íris da Selva (Íris da Selva)

Discos como o homônimo lançado pela artista trans paraense Íris da Selva nos permitem perceber que ainda há tempo para se apaixonar pela MPB da moda de viola e da flauta, que une o rural e o urbano para falar de noites enluaradas, fitas de pipa que "beijam o sol", crianças que brincam nas ruas - algo que pode soar inocente e o puro, mas também visceral e político, ainda mais se investigarmos para além das melodias primaveris, bucólicas e contemplativas que regem o trabalho. Como é o caso, por exemplo, na sutil poética Tratado de Paz, que aborda corpo e identidade de gênero (Íris se apresenta como não-binária), em uma letra sobre autoaceitação e busca por identidade (Será difícil entender / Que eu não quero parecer / Com mais ninguém além de mim? / Será difícil aceitar / Não sou moça nem rapaz / Sou meu tratado de paz).

 


Já a singela Domingo de Tarde tem letra entre o esperançoso e o melancólico, trazendo o carimbó como um gênero que, aqui e ali, se espalha pelo registro, unido a outros como o folk e o rock rural. Ao cabo, como nos próprios materiais de divulgação da artista, são "canções que carregam a sensibilidade e a força das encantarias das águas em sua poética musical. A espiritualidade é seu elemento condutor e suas composições procuram descortinar o dia a dia , na busca de apresentar ao mundo sua percepção das delicadezas e entrelinhas da vida". Em tempos em que vida parece tão corrida, apressada, tecnológica, em que tudo parece "pra ontem", poder buscar a calma para apreciar um registro que olha para o íntimo mas sem soar piegas ou sem personalidade é algo a ser reconhecido. Íris consegue essa beleza no simples. Como fica evidente em Um Lugar Pra Ir, Bem e Algo Tão Doce.

Nota: 9,0