segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Cinema - O Apego (L'attachement)

De: Carine Tardieu. Com Valeria Bruni Tedeschi, César Blotti, Pio Marmaï e Vimala Pons. Drama, Bélgica / França, 2024, 106 minutos.

"De vez em quando / Duas pessoas se encontram / Aparentemente sem nenhum motivo / Elas apenas passam pela rua" (Don't Get Me Wrong - The Pretenders) 

[ATENÇÃO: TEXTO COM ALGUNS SPOILERS

"Qual a diferença entre amor e apego?". Vamos combinar que não foram poucos os pensadores a teorizarem a respeito do assunto central do tocante O Apego (L'attachement), que está em cartaz nas salas de cinema do País. Do psicanalista Erich Fromm, passando pela filósofa Simone Wei, até chegar ao psicólogo John Bowlby - criador não apenas da Teoria do Apego, mas de ideias a respeito da necessidade central dos seres humanos de formar vínculos - muitos são (e foram) os autores que dissertaram sobre a complexidade do tema. Então, não surpreende o fato de o tópico volta e meia reaparecer em obras literárias, músicas, teatro ou cinema. Sim, o filme dirigido por Carine Tardieu pode parecer apenas uma singela produção que divaga sobre luto, memória, maternidade, relacionamentos, configurações familiares na modernidade e responsabilidade afetiva, entre outros temas. Mas o fato é que constrói, nesse contexto, uma narrativa delicada e repleta de reflexões.

Em alguma medida, a imprevisibilidade ou mesmo a aleatoriedade da experiência humana também está no centro do filme - o que já pode ser percebido na abertura, quando a tranquilidade de Sandra (Valeria Bruni Tedeschi), uma mulher de meia idade independente, dona de uma livraria voltada à temas mais progressistas (ou feministas), é quebrada em certa manhã quando a sua campainha, inesperadamente toca. Na porta, seus vizinhos do apartamento ao lado em uma emergência: a bolsa de Cécile (Melissa Barbaud) rompeu e ela precisa ir com urgência à maternidade com o marido Alex (Pio Marmaï). Sem alternativa, o casal pede à Sandra que cuide do pequeno Elliot (César Blotti), o filho de apenas cinco anos. De forma repentina, a protagonista que, por óbvio, nunca teve filhos ou uma convivência maior com crianças, se vê como babá improvisada de um menino esperto e curioso, que assombra ela com suas tiradas inteligentes ("os adultos estão sempre com pressa").

 


Só que Sandra estranha certo atraso do casal - a noite vira, o dia ocorre (e são engraçadas as tentativas meio tortas da mulher em se adaptar em seu dia de trabalho com o filho do vizinho à tiracolo). Quando Alex retorna, sua cara não está boa: Cécile sofreu uma embolia amniótica, que resultou numa tragédia. A pequena Lucille, o bebê, sobreviveu. Sandra descobre, mais adiante, que Elliott não é filho de Alex, e sim de um relacionamento anterior de sua, agora, falecida esposa. A vizinha, de forma empática, não consegue ficar alheia a tudo e oferece ajuda. Um ombro. E isso, conforme vai se aproximando cada vez mais do menino. De Alex. De sua família como um todo que, vá lá, vai se tornar de forma inevitável a sua "família escolhida". Outro conceito que aparece volta e meia nas artes, em estudos, e que, de forma muito justa, é apropriado pela comunidade LGBTQIA+, que sofre preconceito nos laços de sangue. Há uma canção lindíssima da Rina Sawayama chamada Chosen Family, que evidencia esse conceito à perfeição.

Nesse contexto tem-se um filme singelo em que acontecimentos cotidianos ganham mais força do que o normal - como no momento em que Alex tromba com Sandra no corredor do prédio, com as compras se espatifando no chão. Papeladas pra resolver, vidas pra tocar, arrependimentos do que poderia ter sido e não foi (como no instante em que Alex revela ter forçado a barra para que tivessem um filho, mesmo que Cécile não desejasse passar por uma nova maternidade), tudo vai surgindo de forma naturalista, orgânica, sem forçação. A solidão de Alex que tenta de forma desajeitada se aproximar da vizinha de forma amorosa após um beijo, apenas evidencia a sua fragilidade e baixa autoestima em um momento em que ainda trabalha o luto e o sentimento de abandono. E isso não tem a ver com o fato de Sandra ser uma mulher mais velha, uma vez que ela é interessante, inteligente e, mais do que tudo, presente. 

 

 

Nesse sentido o filme, inspirado em obra de Alex Ferney, sem tradução no Brasil, não força situações irreais por mera condescendência. Há todo um ideal de nunca abandonar a verossimilhança para qualquer ajuste inadequado. "Ainda é cedo pra ficar com alguém?" pergunta Alex à própria Sandra, após alguns meses como viúvo depois de, talvez, estar se apaixonando novamente. Com uma trilha sonora excelente - o auge é a sequência ao som de Don't Get Me Wrong, do Pretenders (um golpe baixo, né?) -, a obra quebra certas convenções em um roteiro arejado e que, facilmente, a gente se apega (com o perdão do trocadilho). "Estou feliz por você", diz Sandra a Alex durante o casamento dele com a enfermeira Emilia (Vimala Pons), que dança feliz ao fundo. A vida é que isso, altos, baixos, quedas e voltas por cima, dores e alegrias. Nesse turbilhão a gente nunca tem certeza de nada. E talvez resida aí uma parte da beleza.

Nota: 8,5 

Pitaquinho Musical - Bebé (Dissolução)

Talvez uma pitadinha menos eletrônico do que no excelente SALVE-SE! - nosso 24º colocado na lista de melhores nacionais de 2024 - e um pouco mais acústico ou introspectivo. Mas, obviamente, preservando a mescla de MPB, soul e jazz que são marcas registradas. Essas parecem ser as primeiras impressões quando ouvimos Dissolução, o mais novo registro de inéditas da sempre ótima Bebé. Olhando um pouco mais para dentro, buscando talvez uma essência, a artista povoa o álbum com violões, baixos acústicos e percussões, deixando um pouco de lado os beats, os sintetizadores e a programação, que davam uma cara mais urbana pra produção. Claro, isso não significa abandonar completamente estas ideias, mas reconfigurá-las, o que pode ser percebido, por exemplo, em Evapora Lágrima, um trip hop ondulante, que acena para um ambiente onírico, bucólico, ao mesmo em que versa sobre perdas e superação de dores.

 


Um outro exemplo desse espírito mais orgânico pode ser observado em Variante Estelar / Para Lô Borges que homenageia o músico, um dos fundadores do Clube da Esquina, que nos deixou em novembro do ano passado, aos 73 anos. Aliás, à Revista Noize ela explicou, de forma aparentemente jocosa, que sua família a "alienou" no que diz respeito ao consumo desse rock rural mineiro. Sobre a simbiose que gestou a letra (O Rei descansa no oceano livre pra chorar / Agora o sol vai condensar / Num verbo desdobrando um jeito novo de lembrar), ela fala em download cósmico. Aliás, é nessa mesma canção que ela cita a dissolução, um conceito que rege o trabalho - essa capacidade nossa de se reconstruir, após se desfazer, como numa alquimia. Com participações de, entre outros, Tássia Reis e Tuyo, Bebé segue sua mágica particular. São músicas simples, como Se Tocar e Vulcânica, mas cheias de alma.

Nota: 8,5 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Novidades em Streaming - Nouvelle Vague

De: Richard Linklater. Com Guillaume Marbeck, Zoey Deutch, Aubry Dullin e Bruno Dreyfürst. Comédia / Drama, França / EUA, 2025, 105 minutos.

Sem querer exagerar, mas já exagerando, a impressão que temos quando assistimos ao ótimo Nouvelle Vague, que está disponível no Telecine, é que ficou muito tênue a linha entre o nascimento de clássico absoluto e um dos piores (e mais caóticos) filmes já feitos. Sim, o tempo fez justiça e Jean-Luc Godard viria a se tornar um dos grandes diretores da história do cinema - diferentemente do que ocorreria, por exemplo, com o esforçado Tommy Wiseau que tornou o excêntrico clássico cult The Room (2003) uma das coisas mais tenebrosas já feitas para a telona. História, aliás, contada no excelente O Artista do Desastre (2018). Já aqui, na trama dirigida pelo versátil Richard Linklater, em certa altura o grupo que está por trás da turbulenta produção de Acossado (1959), conclui uma primeira exibição da obra, ainda em fase experimental. "O mundo não está pronto para um filme tão repugnante", exulta um deles. Parece ser um elogio. Ou talvez uma crítica.

Entre tantas frases atribuídas ao gênio do cinema francês que, como tantos outros - Truffaut, Rivette, Rohmer - iniciou sua carreira como jornalista no periódico Cahiers du Cinéma, uma das mais famosas afirma que "o cinema é a fraude mais bonita do mundo". E não deixa de ser interessante perceber como o realizador é capaz de tratar ao mesmo tempo com paixão e certo desprezo (ao menos pelo formalismo), na concepção de sua primeira obra. Sem respeitar meio que nada, adotando um estilo totalmente anárquico - para desespero de atores, produtores, roteiristas, figurinistas, maquiadores e tantos outros. Godard (Guillaume Marbeck) ainda era jovem quando enfiou na cabeça, com um comportamento um tanto ególatra - reforçado pelos onipresentes óculos escuros e pelas frases cheias de afetação e pomposidade -, que precisava dirigir um filme. Não bastava, ao cabo, escrever sobre eles. Truffaut (Adrien Rouyard) tinha apenas 28 anos quando gestou o clássico Os Incompreendidos (1959). Era preciso integrar esse movimento.

 


O embrião desse sentimento vem justamente de uma exibição da obra em uma edição do Festival de Cannes. E após Godard, sem nenhum pudor, criticar duramente o trabalho do produtor Georges de Beauregard (Bruno Dreyfürst) em La Passe du Diable (1958). Como um doidinho de bairro zanzando pra lá e pra cá, o futuro diretor de aproxima de Beauregard (ou Beau Beau, como ele o chama carinhosamente), apresentando a ele um plot baratíssimo sobre um sujeito que rouba um carro, mata um policial e tenta fugir acompanhado de sua namorada jornalista, que o dedura mais tarde. Nesse contexto ele recruta o ator (e boxeador) Jean Paul Belmondo (Aubry Dullin) e a grande estrela norte-americana Jean Seberg (Zoey Deutch), que acabava de ser capa da Cahiers, justamente pelo seu papel em Anatomia de Um Crime (1959). Sendo divertida, aliás, a devoção da atriz ao trabalho de Otto Preminger, um diretor famoso pelo rigor técnico e que formará um contraponto à completa improvisação e falta de qualquer lógica de Godard.

Còmica, a produção de Linklater reconta os 20 dias de filmagem de Acossado, com os atores sendo surpreendidos a todo o momento não apenas com mudanças de cronogramas, mas com roteiro e diálogos criados em cima da hora, excesso de citações empoladas sem muito sentido para a narrativa, uso de locações reais nada combinadas e figurantes que mal sabiam que estavam integrando o elenco de um filme. Ah e, óbvio, os inevitáveis jump cuts (os cortes secos, bruscos). Só que o que poderia ser a pior coisa já feita no planeta - e, verdade seja dita, muitas foram às críticas quando do lançamento do projeto -, se tornaria uma obra-prima influentíssima, de um cinema muito mais calcado na realidade do que em uma... fraude. Ou algo que tenha cara de fraude. Para o espectador é sempre um choque assistir a Acossado - e não deixa de ser magnético perceber como o realizador foi engenhoso ao adaptar câmeras a carrinhos improvisados, muitas vezes apostando na crueza de um único take. Entre a insegurança e certa arrogância, Godard desconstruiu o sentido da arte apostando no naturalismo, na sugestão (do visto pelo não visto), em uma obra experimental e quase amadora, mas cheia de esforço, paixão e fúria. Nouvelle Vague, a despeito de ter sido esnobado na temporada de premiações, captura bem esse clima da época: essa beleza quase ingênua da intenção acima de tudo. Pra quem ama essa arte é impossível não se comover.

Nota: 8,5 

 

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Novidades em Streaming - Tatame (Tatami)

De: Guy Nattiv e Zar Amir Ebrahimi. Com Arienne Mandi, Zar Amir Ebrahimi e Jayme Ray Newman. Drama, EUA / Geórgia / Reino Unido, 2023, 105 minutos.

Existe uma cena de forte carga simbólica - uma das tantas, na realidade -, no excelente Tatame (Tatami), que é aquele momento em que a protagonista Leila Hosseini (Arienne Mandi), uma das mais promissoras atletas do judô iraniano, sente que está sufocando durante uma importante luta. Mal conseguindo respirar frente às pressões recebidas do governo desde que entrou no mundial disputado na capital da Geórgia, Tbilisi, ela arranca o hijab (aquele véu islâmico) que cobre a cabeça e parte do peito, o que lhe possibilita um fôlego a mais. Claro que o gesto instintivo, frente à exaustão de tudo, não impede a derrota de Leila. Mas há um significado a mais naquele ato de rebeldia: se livrar da peça é resistir. É deixar de obedecer uma série de imposições autoritárias de um governo que interfere até na maneira como os atletas devem se vestir. A liberdade, portanto, é maior. Perder a luta, naquela altura do campeonato, é só um detalhe.

E creio que o que mais surpreende o espectador desavisado - ainda que quando o assunto seja à opressão desses regimes tirânicos não haja tanta surpresa -, é saber que a história que se vê na produção dirigida pelo israelense Guy Nattiv e pela iraniana Zar Amir Ebrahimi (que está no excelente Holy Spider, 2022) não ocorre apenas em filmes. Até por que, por mais que o caso de Leila seja ficcional, há um episódio famoso envolvendo o atleta Saeid Mollaei que, em 2019, teria sofrido forte pressão das autoridades iranianas para que abandonasse o mundial em sua categoria. Tudo para não enfrentar o israelense Sagi Muki. Sim, para o governo iraniano uma luta entre dois atletas de nações diferentes não é apenas uma luta. Que deveria dizer respeito apenas ao campo do esporte. No fundo há todo um componente político, cultural e religioso envolvendo os dois países e que, aqui, se estende, em mais uma alegoria bastante óbvia, para o tatame. O exercício de lutar, nesse caso, passa a ter outras nuances.

 


E na trama dessa pequena produção que chegou à plataforma do Telecine, Leila inicia na competição de forma despretensiosa, sempre apoiada por sua treinadora Maryam (a multitarefas Zar Amir Ebrahimi), ela mesma uma atleta de excelência no passado que, misteriosamente, teve de abandonar uma competição por conta de uma lesão. Claro que, mais adiante, descobriremos que o governo iraniano agindo como polícia política vigilante da delegação de seu País será algo rotineiro - independente de gênero, ainda que, para as mulheres, por óbvio em uma nação tão patriarcal, a mão sempre pese mais. Depois de vencer três lutas, Leila recebe um amistoso pedido de foto de um fã na arquibancada. Quando o sujeito se aproxima com o celular, ele revela um vídeo de seu pai já sequestrado pelo regime. A instrução é clara: ou ela abandona o campeonato ou as medidas contra seus familiares podem ser drásticas.

Aliás, não por acaso, a opressão se estende ao marido e ao filho de Leila, que permanecem no Irã, tendo organizado uma torcida à parte (e comovente) com amigos e familiares em sua casa. Os dois são orientados a fugir, deixando a sua nação de origem para trás. Quando percebem as estranhas movimentações - e as brigas sussurradas em meio a corredores entre Leila e Maryam (que quer que ela desista pelo seu bem para que ninguém, enfim, seja torturado ou morra e para que ela possa ter algum futuro) -, os integrantes da Associação de Judô ensaiam uma investigação, liderada pela integrante do comitê Stacey (Jaime Ray Newman). Uma situação difícil, em que a tensão cresce a cada nova vitória conquistada - aliás, méritos para a produção, que recria os embates à perfeição, adotando uma fotografia em preto e branco que combina bem com uma obra sutil, mas potente. E que não precisa de grandes reviravoltas para apontar o absurdo de certos atletas terem de disputar não apenas com seus rivais, mas também com governos tirânicos.

Nota: 8,5 

 

Cinema - Refém Por Um Fio (Dead Man's Wire)

De: Gus Van Sant. Com Bill Skarsgard, Dacre Montgomery, Colman Domingo, Al Pacino e Myha'la. Policial / Suspense, EUA, 2026, 106 minutos.

Vamos combinar que filmes sobre pessoas confinadas em um mesmo lugar podem facilmente se tornar entediantes, se não forem capazes de criar um senso de movimento frente ao cenário restrito. E, justiça seja feita à Refém Por Um Fio (Dead Man's Wire), mais recente produção do versátil diretor Gus Van Sant e que está em cartaz nos cinemas do País, que consegue manter a atenção do espectador, mesmo que o fiapo de história (real, aliás) verse sobre um sujeito revoltado que resolve sequestrar, mantendo como refém, o filho do CEO de uma empresa de crédito hipotecário que lhe teria gerado uma dívida milionária, após a compra de um terreno. Em tempos de crítica ao capitalismo tardio e a sua sanha selvagem de enriquecimento ilícito de poucos, o pleito de Tony Kiritsis (Bill Skarsgard) parece até justo. Ainda que a sua atitude extrema envolva um carnaval quase ao estilo do clássico Um Dia de Cão (1972).

Sim, porque para Kiritsis não basta apenas o perdão da dívida, já que ele resolve mobilizar uma série de canais de TV locais para uma retratação pública por ter sido enganado. Ele exige um pedido de desculpas em rede nacional - algo que ele repete, e repete e repete, mesmo quando acordos entre as partes são ensaiados, em meio ao contexto caótico. Como forma de nunca perder o controle em seu determinado objetivo, Kiritsis utiliza uma espécie de espingarda de cano cerrado acoplada à cabeça do jovem Richard Hall (Dacre Montgomery), que vira uma espécie de bode expiatório da coisa toda, já que seu pai M. L. Hall (Al Pacino), encontra-se no calor da Flórida, de férias, e portanto bem distante de Indianápolis. Estamos no mês de fevereiro de 1977, em um País que ainda se recuperava da tensão da Guerra do Vietnã e dos escândalos relacionados ao governo Nixon, que certamente abalaram à moral do estadunidense médio em sua busca pelo "sonho americano". 

 


No caso de Kiritsis, o sonho era uma grande área de terras de sete hectares, em que ele pretendia investir em um centro comercial. O aporte de US$ 3 milhões feito pelo protagonista logo vira um pesadelo conforme as dívidas se acumulam - ele exige o perdão do valor atrasado há quatro anos, enquanto mantém a cabeça de Richard atada ao engenhoso sistema, que pode levar a um disparo acidental caso as coisas saiam do controle. Dada a tensão da coisa toda, o protagonista negocia com a polícia uma forma de sair do prédio da Meridian Mortgage, o que envolve o furto de uma viatura que levará a dupla até a casa de Kiritsis. Lá, como se enfiado dentro de um bunker particular, ele segue no seu intento. Como precaução, ele enche o próprio apartamento de explosivos, exigindo também a evacuação completa dos demais moradores.

E, bom, comentei no começo da resenha sobre movimento em um filme do gênero e, por mais que permaneçamos praticamente uma hora com a dupla dentro de seu apartamento, a real é que a coisa nunca se torna cansativa - até mesmo pelo carisma do protagonista, que parece ser bem relacionado não apenas com a polícia local (ele conhece os agentes, os chama pelos nomes), como também com a imprensa, aqui representada pelo radialista Fred Templo (Colman Domingo), com sua voz aveludada na hora de trazer as notícia do dia. Além dele, acompanhamos a jovem repórter Linda Page (Myha'la), que vê na matéria uma oportunidade de sair do tédio. Com ótima trilha sonora e filmado em um estilo setentista dessaturado, com imagens que parecem extraídas de arquivo, a produção tem uma cara meio documental, reforçada pelo caráter espetacular da coisa toda. E não é demais pensar que se algo assim ocorresse nos dias de hoje, seria motivo para um dia inteiro de farmação de views de criadores de conteúdo ansiosos pelos próximos cliques. Não é o melhor do Gus Van Sant? Certamente não. Mas dá pra se divertir bem aqui.

Nota: 7,5 

 

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Pitaquinho Musical - Maglore (Fluxo Natural)

Dia desses estava ouvindo o ótimo podcast Vamos Falar Sobre Música (VFSM) e um dos integrantes, o conterrâneo gaúcho Renan Guerra, resumiu à perfeição a experiência do ouvinte com a Maglore: "é uma banda conforto" que, a despeito de nunca se repetir em termos de sonoridade, mantém um certo padrão. Uma identidade própria. Uma personalidade. Afinal, por mais que Fluxo Natural, o sexto registro de inéditas, pareça mais expansivo e ensolarado do que o intimista trabalho anterior V (2022) - nosso sexto colocado na lista daquele ano - bom, continua sendo um disco da Maglore em todos os seus frames. Misturando o rock bucólico à Clube da Esquina, que aqui é reforçado pelas citações diversas à mares, ventos, rios, chuvas, pássaros voando e sonhos almejados (o que aparece já nos títulos das canções, como Raio de Sol, O Rio e o Mar, Farol), com o pop oitentista de sintetizadores sofisticados, o coletivo formado pelo vocalista e guitarrista Teago Oliveira, pelo guitarrista e tecladista Lelo Brandão, pelo baixista Lucas Gonçalves e pelo batera Felipe Dieder entrega uma coleção de canções em que temas cotidianos, políticos e românticos se alternam. Sempre de forma sólida, coesa.

 


Peça central do disco, a candidata a hit Sonho Real, seguramente uma das melhores músicas nacionais do ano, une guitarra e sintetizador em uma melodia polida - ou talvez menos empoeirada do que no começo da carreira -, em uma letra que coloca em rota de conflito o real e o abstrato, o concreto e o fantasioso. Culminando no pegajoso refrão, que faz a gente ficar cantarolando "num sonho reaaaaal" horas depois. Já Amor Sci-Fi, outro ótimo instante, parece imaginar algum tipo de paixão bem ao estilo dos filmes de ficção científica - mas sempre intenso, arriscado, imprevisível. Já Tudo Bem é Maglore até as entranhas com seus versos vulneráveis e cheios de honestidade (Tudo bem se você não tá bem / Eu também / E talvez ninguém). Quase no final, Curva de Trivela brinca sobre o amadurecimento, a partir de uma alegoria futebolística. "O recado mais profundo do disco é do amor como algo que permanece", enfatizou Teago no material de divulgação. O que pode ser percebido até em canções de essência política, como Palestina nos Seus Olhos.

Nota: 9,0 

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Cinema - O Convite (The Invite)

De: Olivia Wilde. Com Olivia Wilde, Penelope Cruz, Seth Rogen e Edward Norton. Drama / Comédia, EUA, 2025, 107 minutos.

Por que temos o hábito de culpar os outros pela nossa infelicidade, se muitas vezes somos nós mesmos que fazemos certas escolhas? Por qual motivo a grama do vizinho parece ser sempre melhor que a nossa e temos dificuldades em ser felizes com o que temos? O que nos faz ficar casados com quem não amamos ou não transamos? Por quê tanto ressentimento? Ou tantos desejos reprimidos? São tantas as perguntas suscitadas por essa joia chamada O Convite (The Invite) - que é baseada na produção espanhola Sentimental (2020) - que mal temos tempos de respirar pra começar a responder. E a verdade é que talvez esse nem seja um filme que procure respostas já que as questões surgem - algumas verbalizadas pelas personagens, outras ficando meio que no ar - e, ao cabo, permanecem conosco, assim que os créditos sobem. Esfregadas em nossas caras, como se estivéssemos em uma sessão de terapia coletiva. Conjunta. Com aqueles que acompanhamos.

Indo na esteira de outras produções com pessoas confinadas em um mesmo ambiente e dispostas e amplas divagações sobre relacionamentos, traumas, dores, sonhos despedaçados e insatisfações - não é difícil pensar em clássicos como Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? (1966) ou mesmo em produções mais recentes, como, Deus da Carnificina (2011) -, a obra dirigida e estrelada por Olivia Wilde parte de uma provocativa sentença do escritor Oscar Wilde: "devemos estar sempre apaixonados e, por isso, não devemos casar". Sim, a frase pode ser exagerada e até chocante para aqueles mais afeitos às convenções, como no caso do matrimônio, mas ela não é definitiva. Ela serve, em alguma medida, de deixa para a situação vivida pelo casal central (e anfitrião) da noite que se seguirá - no caso, o professor de um conservatório Joe (Seth Rogen) e a artista aposentada precocemente Angela (Olivia Wilde), ambos claramente meio que frustrados com tudo.

 


Aliás, muita dessa desilusão parece ter a ver com a completa incapacidade de comunicação da dupla. Joe chega furioso em casa no final do dia, depois de ter dado aula, pego o metrô e percorrido um pesado trecho de bicicleta que destroi suas costas, para se deparar com uma Angela animada pela perspectiva de receber o casal que mora no apartamento de cima - os sensualíssimos Pina (Penelope Cruz) e Hawk (Edward Norton) -, que parecem ter uma vida sexual absolutamente movimentada e selvagem, deixando os anfitriões exasperados (e sem sono) a cada madrugada. Com tudo piorando quando descobrimos, mais adiante, que Joe e Angela não transam há um ano. Joe não queria a visita. Angela preparou um banquete, mas esqueceu de comprar vinho - para seu desespero. Ela quer a janela aberta, ele fechada. Ele quer beliscar a comida pois está com fome, ela não deixa. A desconexão é daquelas que salta os olhos e vale destacar a ferocidade dos diálogos, quase sempre com um caráter passivo agressivo e, verdade seja dita que produções desse subgênero só funcionam com um texto de excelência (e esse aqui é ótimo).

Quando Pina e Hawk chegam, tudo parece piorar para a dupla central. Além de sexies, descolados, progressistas e abertos à novas experiências, eles namoram há apenas um ano. Pina, uma terapeuta sexual que já foi casada, deixou uma vida de insatisfação pra trás. Hawk, um bombeiro aposentado (o que representa uma quebra de estereótipos) era seu paciente, que estava em vias de dar cabo de sua própria vida. Ao menos até os dois se encontrarem, se aproximarem. As conversas entre polos tão distintos e tão opostos no que diz respeito ao ponto em que seus relacionamentos estão, será a marca de uma experiência que consegue ser sutil, mas com envergadura. As horas passam naquele ambiente e a impressão que temos é a de que poderíamos ficar por horas ouvindo aquele quarteto em uma tensão que parece crescer mesmo em instantes mínimos - como no caso da descoberta do veganismo de Pina, ou da necessidade de abrir uma garrafa de vinho que vinha sendo guardada para alguma ocasião especial. E, honestamente, nem vale a pena falar muito mais a respeito. A obra tem ganho tração e pode chegar, inclusive, ao Oscar, naquela sempre bem recebida cota do filme alternativo. Vale cada segundo.

Nota: 9,0 

 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Pitaquinho Musical - Steve Lacy (Oh Yeah?)

Pense num encontro entre o Frank Ocean e o Beach House ou entre o Prince e o Dirty Projectors e talvez tenhamos algo próximo da sonoridade do Steve Lacy. Entre o sonhador e o etéreo - às vezes primaveril, noutras essencialmente urbano - Oh Yeah?, terceiro registro de inéditas do californiano e ex-integrante do ótimo coletivo The Internet, se apresenta como uma evolução natural daquilo que foi entregue no disco anterior, o elogiado Gemini Rights (2022), que tem o hit Bad Habit e o fez vencer um Grammy, mas sem abrir mão da simplicidade que é quase uma marca registrada. Aliás, é meio curioso perceber como a música de Lacy consegue ser minimalista, sutil - tendo sempre por base sempre o seu vocal ondulante em falsete -, mas ao mesmo tempo expansiva, ampla. Parece algo feito pra cantar sozinho no banho, ou em apresentações ao vivo, acompanhados daqueles que amamos. 

 


Sim, suas letras pode ser pueris ou até bobas, como no caso da sentimental The Feeling, sobre vulnerabilidade e busca de aceitação em um relacionamento (Quando transamos no tapete / Me faz flutuar como Alladin), mas há algo meio magnético ali. Uma cola que gruda e que faz com que a gente viaje, como se estivesse em um registro de essência psicodélica, que nos leva para o espaço e nos faz voltar em segundos. Um outro exemplo nesse sentido pode ser percebido na existencialista e sensual Pure Colour, que une o R&B e o trip hop em uma experiência lânguida, que tem participação de Erikah Badu. Já o folkzinho erótico e irônico Show You Me, parece algo que poderia estar no mesmo bloco musical da rádio indie, com nomes como Animal Collective (em seus momentos menos urgentes, como talvez no álbum Feels, 2005) e MGMT. Enérgico e envolvente, por vezes tenho a impressão de que esse disco ainda não foi percebido direito por crítica e público. Mas ele só melhora a cada novo play.

Nota: 9,0