quarta-feira, 20 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary)

De: Christopher Miller e Phil Lord. Com Ryan Gosling, Sandra Huller e James Ortiz. Ficção científica / Drama / Aventura, EUA, 2026, 156 minutos.

"Rocky, telefone, minha casa!". Vamos combinar que, se ao final de Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary), aparecesse em algum canto dos créditos finais o nome de Steven Spielberg, não seria nenhuma surpresa. Tamanha a cara de blockbuster situado em algum local entre as décadas de 80 e 90, que a adaptação do livro de Andy Weir que ainda está nos cinemas - mas também já disponível para aluguel na Amazon e na Apple TV - tem. Ao cabo trata-se de uma obra movimentada, calorosa e cheia de afeto - muito mais próxima de algo como um ET: O Extraterrestre (1985) dos confins do universo, do que da sisudez existencialista de um A Chegada (2016), por exemplo. E vamos combinar que a gente não precisa ser cabeça o tempo todo. Ou esperar um grande exame da nossa situação global política, social, cultural ou religiosa atual, para assistir um filme. Talvez faça bem se divertir simplesmente. E esquecer por algumas horinhas daquilo que nos atormenta. Um filme que não doi. E que nos faz abrir um sorriso largo. Como aqueles que víamos na Sessão da Tarde.

Ingenuidade de minha parte? Talvez. Mas foi exatamente esse o meu sentimento assistindo à produção dirigida por Christopher Miller e Phil Lord e protagonizada por um Ryan Gosling no auge do carisma e do charme. Aliás, ele sendo um astronauta naturalmente curioso que acorda do coma em uma nave espacial sabe-se lá onde ou em que ponto da galáxia, que faz o contraponto ideal ao estilo prudente e austero de Eva Stratt (a sempre ótima Sandra Huller), uma das líderes da Força Tarefa Petrova e que, mais adiante será uma espécie de chefe geral do Projeto Hail Mary. Um projetinho simples, aliás, que visa tentar salvar o mundo da mais nova desgraça que nos afeta - como se não bastassem às pandemias, as guerras e o avanço da extrema direita maluca. E que envolve o surgimento de um novo micro-organismo que tem uma habilidade única: se alimentar da luz solar. O que fará com que o sol se enfraqueça dentro de algumas décadas, se nada for feito. O que prejudicará não apenas a temperatura do globo - com uma nova Era Glacial à caminho -, mas também a nossa agricultura. Nossa capacidade de produzir alimento. Um desastre.

 


E pra tentar evitar essa tragédia que se avizinha, Stratt vai atrás do único sujeito possível pra salvar nosso mundinho de meu Deus: um professor de biologia de escola fundamental, que responde pelo nome de Ryland Grace (Gosling). Ocorre que Grace já foi motivo de chacota no meio acadêmico no passado, caindo em desgraça após escrever um artigo onde buscava evidenciar um fato que, de forma resumida, ia contra um consenso científico que existe até hoje: de que a existência de vida em outros planetas, ou mesmo em ambientes hostis, não exigiria necessariamente a presença de água. Da ligação entre oxigênio e hidrogênio. E como o tal micro-organismo - o nome oficial no livro e no filme é astrofágico - que se alimenta da luz solar navega entre Vênus e o Sol em um arco chamado de Linha de Petrova (em homenagem à Irina Petrova, a cientista que o descobre), talvez resida aí o segredo de sua resistência. O que caberá ao protagonista, um biólogo molecular de formação, descobrir.

Assim como ocorre no livro, no filme temos uma série de idas e vindas no tempo, que alternam entre o passado, quando o projeto estava sendo construído - com a participação de cientistas, engenheiros e pesquisadores de todo o mundo - e o presente (que talvez seja o futuro, claro), com Grace despertando na nave de um coma induzido de doze anos. E meio que não apenas aprendendo a sobreviver sozinho em uma nave. Mas também compreendendo qual a sua missão naquele local inóspito. O que ocorrerá em meio de flashbacks bem conduzidos, que unem uma ponta à outra, e que tanto na obra literária como no filme funcionam como uma espécie de recuperação paulatina da memória. Com cada nova lembrança operando como uma peça de quebra-cabeças. Uma ponte. Até o momento em que ele lembrará que está ao lado de um planeta chamado Tau Ceti, porque o dito parece ser resistente à ação dos astrofágicos, preservando sua luz natural. Cabendo a Grace descobrir os motivos e, mesmo estando há anos-luz de distância da Terra, tentar enviar algum sinal (ou até material) que explique os fatos.

 

 

Sim, pode parecer meio complicadinho lendo, mas não é. É simples: o Sol na Terra tá perdendo força, Grace está do lado do planeta que não perde luz mesmo com os astrofágicos tendo "contaminado" parte da galáxia. Só que quando Grace olha pela janelinha, percebe que não está sozinho: há uma enorme nave que lhe avizinha, chamada de Blip-A e que tentará fazer algum contato. E, bom, pra quem não leu o livro e pouco sabe da produção, vale se manter no escuro, com o perdão do trocadilho, para desvendar os acontecimentos. E as surpresas decorrentes deles. Mais leve, divertido e menos burocrático que o livro - que inicia muito bem e lá pelas tantas, não nego, dá uma aborrecida -, o filme não perde muito tempo com subtramas desnecessárias, focando-se no senso de amizade e de companheirismo entre Stratt e sua equipe (é linda a cena com a música Sign of The Times, de Harry Styles) e no esforço coletivo para superar as adversidades. Além de ter ótimos efeitos práticos, desenho de produção e trilha sonora. É o filme conforto de 2026 por excelência. Assim como foram os do Spielberg em décadas passadas. 

Nota: 8,0 

Pitaquinho Musical - Arlo Parks (Ambiguous Desire)

Existe algo de noturno, de noite prestes a acontecer, que se espalha por cada canto de Ambiguos Desire, novo registro de inéditas da sempre ótima Arlo Parks. Tomemos como exemplo uma canção como Heaven, uma balada eletrônica minimalista, de madrugada avançada, com uma linha de baixo catártica, e que parece personificar não apenas em termos de melodia, mas também nos versos (Vamos nos envolver / Adidas e gasolina / Meus amigos se espalhando pelas ruas), o conceito do disco. Conceito que, aliás, parece explorar uma certa euforia do coletivo, de sensação de pertencimento e de construção de memórias - com amigos, com pessoas que amamos. "Esse é um álbum que nasceu dessa descoberta tardia da madrugada como espaço emocional e sensorial e de tempo que se dissolve", comentaria a cantora em entrevista ao NME.

 


Outro bom exemplo nesse sentido é a envolvente Nightswimming, que tem uma batidinha enigmática e uma energia R&B noventista, mas sem deixar de lado a personalidade da artista, que com sua voz sussurrada e aconchegante parece tornar versos como "Quando o sol se põe entre as árvores / Estou sozinha pensando em nós dois", maiores do que parecem. Aliás, verdade seja dita que Parks também tem uma capacidade única em dar vida ou cor a certa banalidade do cotidiano. É o caso, por exemplo, de Get Go, uma das melhores disco, com sua letra que converte a pista de dança em uma alegoria para a superação de dores e decepções. Tudo banhado por um clima dançante inspirado em rádios piratas londrinas, no limite entre o melancólico e o onírico, o enfumaçado e o sofisticado. Ah, e em meio a tudo ainda há a parceria com o Sampha, em Senses, talvez uma das melhores canções lançadas no ano até o momento. Além da deliciosa What If I Say It?. Arlo Parks nunca erra. Não ia ser agora.

Nota: 9,0 

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Cinema - Exit 8 (8番出口)

De: Genki Kawamura. Com Kazunari Ninomiya, Yamato Kochi, Kotone Hanase e Naru Asanuma. Suspense / Drama, Japão, 2025, 95 minutos.

Vamos combinar que alegorias cinematográficas sobre a estagnação da vida, as dificuldades de seguir em frente ou o sentimento de seguir meio preso em uma mesma rotina não chegam a ser novidade. De obras divertidas como Feitiço do Tempo (1993), passando por experiências emocionais e sufocantes como O Show de Truman (1998) ou existencialistas como Sinédoque Nova York (2009), não foram poucas as produções que tornaram a repetição como um acontecimento ligado a outras travas - afetivas ou morais. E também há aqueles casos em que uma obra sobre pessoas enclausuradas em loopings temporais infinitos talvez sejam apenas um exercício de estilo, que leva o terror até o limite sem que haja uma grande explicação simbólica por trás. Onde a coisa ocorre apenas para nos deixar apreensivos, sem que haja um significado maior por trás - e, na cabeça me vem de imediato o clássico moderno cult Cubo (1997), que aterrorizou plateias da década de noventa, com os seus acontecimentos enigmáticos.

Talvez o curioso Exit 8 (8番出口) seja mais o estilo da segunda categoria. Ou talvez uma mescla das duas, especialmente pelas ocorrências do primeiro ato, chamado apenas de Homem Perdido (sendo este interpretado por Kazunari Ninomiya). Assim como faz, provavelmente, dia após dia, esse sujeito pega o metrô, se espreme entre as pessoas - com seus hábitos e estranhezas -, vai para o trabalho, almoça, volta, chega em casa, algumas horinhas de descanso, come, mija, assiste TV, dorme e volta no dia seguinte e novamente, para viver aquele dia repetidas vezes, por semanas, anos, décadas. Ao cabo, essa é a vida de qualquer pessoa. Rotina, tédio, vazio - e nem é preciso ser um grande conhecedor de metáforas para perceber que esses comportamentos mecânicos, cotidianos, quase como na música de mesmo nome de Chico Buarque (Todo o dia ela faz tudo sempre igual / Me sacode às seis horas da manhã) nos possibilitam identificação imediata.

 


Só que neste dia, em especial, o Homem Perdido recebe uma ligação de uma aparente ex-namorada, com uma notícia que lhe deixa em choque: ela está grávida. E, pior do que isso, como se abalo pouco fosse bobagem, ele ainda presencia um empresário irritado no metrô que, publicamente e sem nenhum constrangimento, apupa uma jovem mãe que, simplesmente, não consegue fazer com que seu bebê pare de chorar. Um assunto, queira ou não, se conecta ao outro: um filho que certamente representará um ponto de virada. Justamente antes de ele entrar em um longo corredor em L que se repete, se repete e se repete em uma infinidade de corredores em L que direcionam pra tal saída número oito. Apenas um outro sujeito sisudo passando. Cartazes espalhados pela parede. As mesmas portas e sistemas de ventilação. Placas com algumas informações e temos um sujeito preso em uma realidade embaralhada, dobrada, que se repete meio que sem explicação. E para fugir dali será necessário reconhecer pequenas anomalias do trajeto, mudando rotas que possam intervir nessa realidade paralela torta recém estabelecida. 

Parece complexo e em alguma medida talvez seja. E, como eu disse, talvez tenhamos aqui uma excelente ferramenta simbólica de como notícias ou acontecimentos inesperados são capazes de nos tirar da zona de conforto ou do lugar a que estamos acostumados. Sendo necessários novos movimentos para que possamos ir adiante. A chegada de um filho talvez seja um exemplo óbvio de como as coisas mudam profundamente nas nossas vidas - e de como pode haver um apego a um passado que não mais retornará. Ou vai ver que Exit 8 é apenas um filme inspirado em um jogo de videogame indie (lançado em 2023 e eu só soube disso após ver a obra), que brinca com nossos medos, temores, indecisões e incertezas. Reforçadas por temas ligados à avanços tecnológicos, redes sociais, burocracias, distopias políticas, alienação urbana e vigilância estatal. Em uma obra assim há margem para uma serie de interpretações. Com as possibilidades se ampliando conforme outras personagens - O Caminhante e o Menino - entram na trama, no transcorrer da história. Curioso, excêntrico, moderno e com ótimo, ainda que simples, aparato técnico - do desenho de produção à trilha sonora - esse é aquele tipo de projeto que alude à exaustão do mundo, ao mesmo tempo em que olha com ternura para aqueles que simplesmente insistem em existir. Vale conferir.

Nota: 8,0 

 

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Enzo (Enzo)

De: Robin Campillo. Com Eloy Pohu, Maksym Slivinskyi, Élodie Bouchez e Pierfrancisco Favino. Drama, França / Bélgica / Itália, 2025, 103 minutos.

Quem acompanha a carreira do diretor Robin Campillo sabe que seus filmes costumam ser atravessados por questões ligadas ao universo LGBTQIA+, algumas vezes de maneira mais explícita, como no ótimo 120 Batimentos por Minuto (2017), em outras de forma mais sutil, como no caso do recente Enzo (Enzo), que chega para aluguel nas plataformas da Apple TV e da Amazon Prime. No ponto central, independente da obra, parecem estar as ideias de pertencimento, desejo, exclusão e negação em diferentes graus. E que muitas vezes são exploradas em historias que tensionam esses temas que, inclusive, quebram em alguma medida o que prevê o status quo. E talvez não seja por acaso que no universo do protagonista que dá nome ao mais recente projeto do realizador haja uma predileção pelo trabalho na construção civil. Como pedreiro mesmo.

O que, inicialmente, parece ser uma forma de confrontar os pais Paolo (Pierfrancisco Favino) e Marion (Élodie Bouchez) - algo bastante natural para um adolescente de 16 anos como Enzo (Eloy Pohu) -, não demorará para soar como uma espécie de alegoria de expiação dos próprios desejos do rapaz. Talvez estar perto de homens suados em uma construção, para alguém que está amadurecendo e formando suas noções de sexualidade, seja algum tipo de propósito. Ou talvez não. Enzo, afinal, tem uma jovem namorada. Ou ao menos faz de conta que tem. Talvez para se exibir para os demais - em uma idade que a elaboração da masculinidade e da identidade parecem em eterno movimento. Mas quem parece lhe deixar efetivamente animado no canteiro de obras é Vlad (Maksym Slivinskyi), um ucraniano que está fugindo da guerra, enquanto busca uma existência mais digna na França.

 


E creio que seja que nesse ponto da mescla entre narrativa queer e debate político-social e imigração que o filme se perde um pouco. Ao cabo, alguns dos temas parecem mais importantes do que a forma como são trabalhados. Indo de lá para cá, entre a voluptuosa casa dos pais e sua rotina como aprendiz de servente, Enzo parece o típico jovem descompromissado no que diz respeito ao futuro (por mais contraditório que tudo possa ser, uma vez que ele já trabalha). Mas ao mesmo tempo em que seu irmão mais velho (Nathan Japy) parece pronto para entrar numa universidade, convivendo harmonicamente com seus colegas que também frequentam a casa dos pais, o protagonista parece apenas um revoltadinho pequeno-burguês, que tem alguma aptidão para as artes, e que soa apenas meio rebelde sem muita causa. Afinal, não deixa de ser bastante cômodo ser desobediente em meio a um sem fim de braçadas na piscina enorme do casarão da família (ou eu tô militando demais?).

E, bom, não é que não haja bons momentos, mas talvez esse fosse um filme bem melhor se fosse mais centrado na figura de Vlad que, ao lado do companheiro de trabalho Miroslav (Vladislav Holyk), vive de fato uma situação angustiante. Especialmente depois de o segundo receber uma ligação do governo, convocando-o para participar do conflito contra a Rússia. Só que Enzo, com o perdão do trocadilho, parece o legítimo Enzo - e talvez o interesse pelos ucranianos, pela sua rotina, as idas à boate e o convívio com pessoas de outros estratos sociais seja apenas uma fuga do mundo, frente a um cenário de privilégios. Há uma cena em que o chefe de Enzo fica embasbacado ao descobrir que ele vive em uma mansão com vista para o mar, que talvez custe alguns milhões de euros. E, sim, por mais que a obra trate das exclusões em suas mais variadas formas, o que falta aqui é um pouco mais de conflito. Algo que faça com que a gente se importe um pouco com um Enzo birrento. 

Nota: 6,0 

 

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Pitaquinho Musical - Yaya Bey (Fidelity)

"Diga o que pensa, pense no que diz / É um novo dia, não há como fugir de si mesmo". Vamos combinar que, muito provavelmente, não foi por acaso que a primeira canção escrita por Yaya Bey para Fidelity, seu quinto registro de inéditas, tenha sido justamente Blue. Ao cabo, ela parece uma música ao mesmo tempo vulnerável e resiliente, e que emerge em um momento em que a artista se sentia meio que no fundo do poço. Algo que ela mesma mencionou no material de divulgação, quando detalhou o fato de ter desabado emocionalmente, em um hotel de Miami, justamente na semana de lançamento de Do It Afraid (2024), seu trabalho anterior. Quem acompanha a carreira da cantora sabe que ela perdeu o pai em 2024, tendo ainda de lutar contra outras pressões da indústria - e que certamente tem a ver com o fato de ser uma mulher negra, buscando sobreviver nessa máquina trituradora de famosos que é o showbiz, com a sua avidez ininterrupta em busca da mais recente novidade.

 


E tudo isso talvez explique porque esse registro parece ser tão nostalgicamente anos noventa - com aquele R&B classudo, mesclado com pop caloroso e uma neo soul ao mesmo tempo contemporânea, urbana e melancólica -, mas com menos apego ao aparato comercial, de melodias acessíveis, ou refrãos cantaroláveis. Aqui, a artista bebe da fonte de cantoras daquela década, como Brandy ou Aaliyah, para apresentar uma coleção de canções discretas, quase sonolentas, em que os versos surgem minimalistas mas sensuais, quentes mas elegantes. O resultado são canções que fluem gostoso, ainda que sejam menos palatáveis, o que talvez exija alguma persistência do ouvinte que se acostumou com joias como as movimentadas Merlot and Grigio ou End of the World, do disco anterior. Em geral esse pode até ser um trabalho meio que de ressaca emocional. Mas é uma ressaca de boas canções, como Forty Days, Higher e a já citada Blue.

Nota: 8,0 


terça-feira, 12 de maio de 2026

Tesouros Cinéfilos - Melancolia (Melancholia)

De: Lars Von Trier. Com Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Alexander Skarsgård, John Hurt e Charlotte Rampling. Drama / Ficção Científica, Dinamarca / Suécia / França / Alemanha, 2011, 131 minutos.

Um filme catástrofe, mas sobre a nossa catástrofe interior. Não sobre um planeta que vai colidir com o nosso, mas como as nossas angústias colidem com o corpo físico. Nos deixando desabilitados ou mesmo incapazes de superar medos, incertezas ou dores. O consciente sendo simplesmente invadido pelo inconsciente. E toda a complexidade que envolve doenças como depressão ou ansiedade. Aliás, quem já sofreu com tais quadros, talvez tenha muito mais facilidade em compreender os motivos de Claire, a personagem de Charlotte Gainsbourg, sofrer tanto com aquilo que ela acredita ser a proximidade da morte. Para o espectador nunca fica exatamente claro o seu quadro de ansiedade - ainda que ele só aumente conforme o planeta sugestivamente chamado de Melancolia (Melancholia), se aproxima inapelavelmente da Terra. Azul, imenso, imprevisível, doloroso.

Sim, hoje em dia, após tantos debates a respeito da obra de Lars Von Trier - de Dogville (2003) -, já parece bastante claro o fato de que a catástrofe em vias de ocorrer no filme, é muito menos literal do que imaginamos. Aliás, o próprio diretor dinamarquês, em entrevistas, chegou a comentar que a ideia para o filme surgiu justamente das longas sessões de terapia com o seu psicólogo, quando tratava um severo caso de depressão. Aliás, o que o filme deixa claro, também, é que esse tipo de doença independe de condição social, de prestígio ou qualquer outra coisa. Não por acaso, o cenário é voluptuosa casa de campo de John (Kiefer Sutherland), o marido de Claire. E que servirá de palco para o casamento da irmã de Claire, Justine (Kirsten Dunst). O que parece mais uma medida desesperada de tentar fazer com que ela supere, de qualquer maneira, a depressão. Que, como todos sabemos, não se resolve com felicidade forçada. Ou meios sorrisos.

 


Não por acaso, Justine trafega por aquele ambiente como se estivesse deslocada. Como se fosse uma mera convidada. Ou algum tipo de participante involuntária de algum game, como aquele visto em Vidas em Jogo (1997). "Você está feliz?", as pessoas insistem em perguntar. O seu sorriso que consegue ser melancólico e doce em igual medida, entrega: mesmo quando ela se diverte, como na parte em que a limusine que a conduz para o casamento tranca no acesso, não parece ser algo natural. O mesmo valendo para a forma com que ela protela essa felicidade protocolar, que responde aos ritos sociais e ao que prevê as convenções, O que pode ser percebido no momento em que, ao invés de simplesmente entrar no salão de festas após mais de duas horas de atraso que exasperam os convidados, ela ainda optar por cumprimentar o seu cavalo preferido no estábulo. Ou mesmo indo simplesmente dormir, mais adiante - este, aliás, um dos mais tradicionais refúgios de pessoas em depressão.

Dividido em duas metades, uma para Justine e outra para Claire, a obra se ocupa de uma série de pequenos momentos que estabelecem diálogo com a proposta da produção - que, sim, pode parecer hermética em seus excessos de imagens oníricas ou cheias de simbolismos, mas que nunca soam essencialmente complexas apenas porque sim. O que fica evidente já na colagem inicial em que várias ocorrências alegóricas são despejadas em câmera lenta, com uma delas chamando bastante a atenção e que, muito provavelmente, servirá como guia daquilo que acompanharemos pelas próximas duas horas - que é o momento em que Claire surge em meio a um denso mato, em que tenta avançar enquanto é impedida por um emaranhado de raízes que emergem do solo. É como se caminhar fosse simplesmente impossível frente ao que ela sente. Numa metáfora bastante direta no que diz respeito ao tema da depressão.

 

 

E se na parte de Justine a chegada do planeta Melancolia parece apenas uma ideia meio distante - refutada ou não pelos cientistas ou por teóricos da conspiração -, o segmento de Claire aumenta a tensão, com a expansão da ideia de que outro corpo celeste vai simplesmente colidir com o nosso, sem margem para sobrevivência. E a forma como Claire surge acuada, aqui e ali, sem ter muito o que fazer, enquanto se empenha em apoiar a própria irmã que sofre, só evidencia o desgaste gerado em quem padece de quadros clínicos do tipo. Enigmática e visualmente exuberante - as cenas noturnas que parecem obter um contraste enevoado entre o sombrio e o iluminado -, a obra funciona quase como uma grande ópera da dor, em um microcosmo que avalia a aflição doméstica, mas sem ignorar a complexidade do mundo e do tecido social como um todo. Vencedora de vários prêmios, a produção está disponível na Mubi, e completa 15 anos de seu lançamento oficial no Festival de Cannes, agora em maio. Vale resgatar.

Pitaquinho Musical - Bemti (Adeus Atlântico)

Vamos combinar que, em política, muito se usa a palavra multilateralismo para definir as formas como diversas nações trabalham de forma cooperativa, na intenção de resolver seus problemas. E, bom, se fosse possível a utilização do mesmo substantivo na música, talvez ele pudesse ser definido por aquilo que artistas como o Bemti, conseguem em álbuns como Adeus Atlântico, seu terceiro registro de inéditas. Sim, porque se anteriormente o mineiro tinha como marca da MPB mais tradicional - como no anterior Logo Ali (2021) -, aqui temos a impressão de estar em um encontro sonoro global, tamanha a quantidade de referências utilizadas pelo artista. Reflexo de suas constantes viagens não apenas pelo interior do Brasil - de Rio de Janeiro à Bahia, passando pela sua própria terra natal -, e por países, como, Portugal e Inglaterra.

 


E ainda que siga tendo como base a viola caipira - espécie de marca registrada -, Bemti amplia as referências, incorporando, aqui e ali, elementos de britpop, new age, indie rock, psicodelia e até estilos em alta, atualmente, como o amapiano, da África do Sul. O resultado é um registro de raríssima beleza, capaz de navegar pelo rock rural de Sá e Guarabyra, como na irresistível e calorosa Quase Sertão, pelo folk alternativo à Bon Iver da faixa-título, e pelo soft rock oitentista de Euforia. Direto, orgânico, humano, onírico e altamente sofisticado, esse é daqueles álbuns pequenos, mas que só crescem a cada audição. E que materializam sentimentos ligados à memória, à saudade de casa e ao deslocamento contínuo, como parte da experiência humana. Se estiver em dúvida, comece por Miragem (Viver de futuro é ensaio / Preso na função dos triunfos / Dentro de um aquário / Que todo mundo vê). Seguramente uma das melhores canções lançadas em 2026.

Nota: 9,5 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Jovens Mães (Jeunes Mères)

De: Jean-Pierre e Luc Dardenne. Com Lucie Laruelle, Babette Verbeek, Elsa Houben, Janaïna Halloy Fokan e Samia Hilmi. Drama, França / Bélgica, 2025, 106 minutos.

Em uma das tantas sequências comoventes do ótimo Jovens Mães (Jeunes Mères), mais recente produção dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne e que chega para aluguel nas plataformas da Apple TV e da Amazon Prime, uma desesperada Ariane (a ótima Janaïna Halloy Fokan) explica à sua mãe o fato de nunca a ter reprovado por ser pobre. "Eu só não queria ter o filho", suplica aos prantos, após ter levado um tapa de Nathalie (Christelle Cornil), a sua genitora e avó da bebê que carrega, a contragosto, nos braços. A visita de Ariane a Nathalie tem um objetivo central: ela dá à sua mãe os motivos pelos quais ela pretende doar a filha a uma família de acolhimento. Alguém que poderá criá-la, exatamente como permite a Lei, com melhores condições. Ariane queria abortar. A mãe não permitiu. O que é apenas uma das tantas facetas problemáticas das pressões sociais que envolvem a maternidade.

Talvez poucas jovens mulheres admitam o fato de terem sido mães para agradar a família. Quem nunca ouviu dos pais sobre o desejo de ser avô ou avó - cedendo a esse tipo de situação apenas para não romper essa lógica familiar? E que envolve, em muitos casos, o discurso conservador do papel da mulher na sociedade? O filme dos Dardenne, um mosaico complexo a respeito das eventuais precariedades da maternidade, evidencia feridas sociais variadas em que temas, como, abandono, dependência afetiva, falta de maturidade emocional, relações tóxicas, autodestruição e problemas financeiros são salpicados, aqui e ali, por meio de cinco histórias diferentes, em que mães que, em muitos casos, sequer saíram da adolescência, precisam lidar com o peso dessa enorme responsabilidade. O que ocorre, em muitos casos, com pouca estrutura familiar e com, óbvio, o abandono dos parceiros (jovens meninos que só passarão a pensar sobre o significado de colocar um filho no mundo depois que a coisa acontece).

 


Em linhas gerais essa é uma experiência dolorida e que, mais uma vez, como costuma acontecer na filmografia dos Dardenne, olha para a juventude não como uma alegoria meio abstrata para futuro ou perda de inocência. E, sim, como um estado de formação urgente frente às pressões do mundo. Em suas obras, não são poucos os casos em que adolescentes, ou mesmo crianças, são levados à tomarem decisões que, até mesmo para os adultos, podem ser eticamente questionáveis - e basta pensar em obras essenciais como Rosetta (1999), O Filho (2002), A Criança (2004) ou mesmo a recente O Jovem Ahmed (2019), para que sejamos confrontados com questões ligadas à violências, traumas e solidão. Ou mesmo a temas ainda mais complexos, ligados à questões políticas ou sociais. Em Jovens Mães, as cinco jovens do filme buscam acolhimento em uma espécie de abrigo, o que também torna evidente a importância da sororidade. Enquanto lidam com um ambiente em permanente combustão.

E não deixa de ser impressionante perceber como um filme tão curto consegue ser dotado de tanta complexidade. Se na primeira cena da obra já somos impactados pelo desespero de Jessica (Babette Verbeek), que busca algum contato com a mãe biológica que lhe abandonou, ao mesmo tempo em que precisa lidar com a própria gravidez, no instante seguinte temos Perla (Lucie Laruelle), que tem uma relação turbulenta com seu namorado (e pai do seu bebê), ao mesmo tempo em que sonha em ter uma família mais "normal", como é da sua irmã. Sendo um tanto trágico que isso tenha de acontecer em meio a interrupção de uma adolescência. No caso, a dela própria. Já Julie (Elsa Houben) precisa lidar com o vício e suas recaídas - com a maternidade surgindo, estranhamente, como uma chance para um recomeço. E há ainda Naïma (Samia Hilmi), que parece um ponto mais luminoso da narrativa, ainda que ela não escape de um lado sombrio. Indicada à Palma de Ouro no Festival de Cannes, a obra venceria o prêmio nas categorias Melhor Roteiro e do Júri Ecumênico. E é sempre muito prazeroso ver qualquer filme da dupla, afinal, nunca saímos os mesmos de qualquer que seja a sessão.

Nota: 9,0