quinta-feira, 2 de abril de 2026

Novidades em Streaming - Uma Viagem Para Recordar (De Terugreis)

De: Jelle de Jonge. Com Leny Breederveld e Martin van Waardenberg. Comédia / Drama / Romance, Holanda / Bélgica, 2024, 100 minutos.

Vamos combinar que os filmes sobre idosos perdendo a memória - seja por Alzheimer, demência ou qualquer outra doença degenerativa - e tendo de lidar com a devastação emocional causada por situações do tipo, já se tornou quase um subgênero do cinema. De obras densas e mais sérias como Meu Pai (2020) ou Vortex (2021) à produções mais leves e divertidas, como no caso de Ella e John (2017) ou Viver Duas Vezes (2019) não foram poucos os filmes a abordarem o tema - conectando-o, em muitos casos, a assuntos como memória, finitude, perda de identidade e mesmo diferenças geracionais. Em alguma medida, tudo isso se encontra no adocicado Uma Viagem Para Recordar (De Terugreis), filme holandês que foi o enviado ao Oscar na edição do ano passado - não chegou entre os finalistas - e que agora chega para aluguel em plataformas como a Amazon Prime e a Apple TV.

Bom, como um filme de comédia, não é demais dizer que essa é uma obra com um bom senso cômico, que emerge em muitas ocasiões do fato de o mundo atual parecer meio complicado demais para os idosos. Em tempos em que tudo soa tão urgente, tão veloz, tão tecnológico, parece um contrasenso só querer um pouco de paz, diante da televisão. O que talvez explique o comportamento excessivamente ranzinza, aborrecido de Jaap (Martin van Waardenberg), que parece uma versão mais irritada e caricata de Larry David, que não deseja mais cantarolar no coral da Igreja. Com o seu mau humor piorando quando ele percebe que a esposa Maartje (Leny Breederveld) está perdendo a memória. Esquecendo das coisas. Se perdendo em lugares. O casamento desgastado já dura quase meio século, mas ainda há espaço para o amor. Será que há? 

 


As diferenças de personalidade de ambos - Maartje ainda parece disposta a viver experiências, curtir a vida, até mesmo namorar ou transar - fica ainda mais evidente quando a idosa enfia na cabeça que quer visitar um amigo que reside na Espanha e que ela não vê há décadas. Para Jaap sair de casa para tal empreitada parece ser mais ou menos como a pior coisa já inventada para se fazer no planeta, mas após uma situação em que a esposa se perde pela cidade, ele aceita entrar no carro. E rodar. E, claro, a partir dali a experiência ganha contornos de road movie com trilha sonora calorosa, lembranças afetuosas de lugares, objetos e pessoas do passado e um pouco de caos, claro, afinal a memória de Maartje vai falhar, nos dando aquele choque de realidade. Fora a surra que a dupla levará de qualquer aparato mais tecnológico que cruze seu caminho, como no momento em que a ambos sofrem pra abrir a porta do hotel.

Ok, esse é aquele filme que não doi, mas ainda parece que falta um pouquinho a mais para que a gente se conecte ou se comova verdadeiramente. Com a coisa se tornando um pouco mais do que uma coleção de situações meio aleatórias que se unem em uma história de um casal de idosos em viagem. Por mais que a sequência em que Jaap finge lutar com as vozes da cabeça de Maartje seja um esforço carismático, ali pelas tantas tudo vai se repetindo e meio que cansando. Ainda que a gente fique, de fato, reflexivo ao pensar no etarismo como um problema dos nossos tempos, especialmente em instantes que mostram academias apinhadas de jovens de corpos gostosos (o que se repete em outdoors pela cidade), ao passo em que a dupla quase bate um carro alugado por ele ser automático. É agridoce, sem pressa e nos faz lembrar da importâncias dos vínculos afetivos, das conexões. E era meio que só isso.

Nota: 6,5 

 

terça-feira, 31 de março de 2026

Novidades em Streaming - Justiça Artificial (Mercy)

De Timur Bekmambetov. Com Chris Pratt, Rebecca Ferguson e Chris Sullivan. Suspense / Ficção científica, EUA, 2025, 100 minutos.

Quando vi a premissa de Justiça Artificial (Mercy), que tá na Apple TV, admito que fiquei animado. Afinal, um filme que discute os limites do uso da inteligência artificial, em uma sociedade pós-moderna essencialmente punitivista, parecia uma boa ideia. Ou, no mínimo, uma boa oportunidade de discussões ou reflexões um pouco mais profundas a respeito destes temas. Bom, santa ingenuidade - e talvez se eu tivesse ligado o nome do diretor à pessoa, talvez nem tivesse dado play. Afinal de contas, Timur Bekmambetov foi um dos produtores da tenebrosa releitura de A Guerra dos Mundos (2025), que foi meio que onipresente em qualquer lista de piores de 2025. Só que eu gosto de ficção científica, ainda mais se tiver uma pegada mais existencialista, então porque não um projeto meio Minority Report: A Nova Lei (2002) meio Jogos Mortais (2004) pra dar aquela agitada, né?

Só que não. Na trama estamos em um futuro mais ou menos próximo - um punhadinho e anos na frente - e com o aumento da criminalidade em uma Los Angeles turbulenta e à beira do colapso social, qual poderia ser o problema de utilizar o ChatGPT para decidir se este ou aquele sujeito é culpado de algo ilícito? É nesse cenário escabroso que o delegado de polícia local Chris Raven (Chris Pratt) surge, mas não como inquisidor - algo que ele até já foi, já que auxiliou na construção da engenhoca que funciona como juiz digital para crimes violentos - e, sim, como alguém que está sendo acusado. Aliás, acusado de assassinar a própria esposa, Nicole (Anabelle Wallis), em circunstâncias estranhas. Violento e viciado em bebida alcoólica, esse sujeito detestável - que não temos nenhum motivo em especial para torcer -, não lembra de nada que ocorreu durante a manhã. E tem apenas 90 minutos para tentar provar sua inocência. 

 


Preso a uma espécie de cadeira elétrica, o homem tem acesso a uma série de documentos - fotos, vídeos, redes sociais dos envolvidos, imagens de câmeras corporais ou de segurança -, que podem ajudar a montar o quebra cabeças que solucione o caso. Enquanto um robô com o rosto e a voz de Rebecca Ferguson (seu nome é Maddox e ela integra o programa Mercy, que já julgou e condenou 18 réus, economizando recursos e agilizando os processos) lhe dá as instruções, lhe conduzindo de lá para cá e de cá para lá em um emaranhado de telas, pessoas e sons (e é quase um desafio não ficar tonto em meio a tudo aquilo, que só tem sentido em um filme mal feito, que tenta compensar as falhas com um aparato técnico ostensivo). Entre os contatos de Chris está sua filha Brit (Kylie Rogers), que mantém um misterioso segundo perfil no Instagram, além de outras figuras do entorno, como colegas policiais e companheiros de trabalho de Nicole, que podem ser a chave para a solução do caso.

Só que para além do dilema ético que poderia rondar esse tipo de decisão - capaz de deixar a galera do "bandido bom é bandido morto" mais ou menos excitada -, e que poderia ser melhor explorado na obra, tudo o que temos é um sujeito péssimo com a sua família (talvez ele não tenha matado a própria esposa, mas a impressão que dá é que ele tá sempre pronto a agredi-la física ou psicologicamente), essencialmente corrupto, já que integra um sistema de justiça falho interessado apenas em agradar parte da opinião pública, e que não tem nenhum tipo de personalidade mais complexa. Aliás, essa é mais uma produção que talvez fizesse sentido nos anos 90, afinal, quem, em pleno ano de 2026, ainda acha que dá pra torcer por um policial em um filme? E mais, um policial dos Estados Unidos? Nas ruas dessa Los Angeles turbulenta e dividida em guetos, fica ainda mais claro o racismo abjeto, com os habitantes da cidade sendo retratados como uma massa uniforme, latina (ou preta), pobre e sempre violenta. Mas quem vai salvar o dia e desmantelar o sistema? O policial misógino, claro. O cidadão de bem que vai se redimir. E que na próxima não vai socar a parede, quando ficar brabinho. Vai vendo.

Nota: 2,0 

 

Pitaquinho Musical - Buck Meek (The Mirror)

Vamos combinar que, quem gosta do Big Thief, dificilmente ficará alheio ao trabalho solo de Buck Meek, que é o guitarrista e vocal de apoio do grupo. Afinal, tem uma crueza ali, uma sujeirinha no bom sentido e um estilo meio de cafofo indie - por mais movimentada, calorosa ou expansiva que seja a música. E o expediente se repete em The Mirror, terceiro registro solo do artista - e bastam os primeiros acordes da deliciosa, teatral e resplandecente Gasoline, que abre o registro, para que sejamos catapultados àquele universo empoeirado, quase místico, em que falar de amor nunca é óbvio. Há uma ansiedade boa ali que se espalha pela melodia magnética, daquelas que ficam na cabeça já na primeira audição, se estendendo para a letra romântica, mas, metafísica sobre quantuns e fótons e feixes de luz e a respeito de quem vai verbalizar o amor primeiro (Será eu ou será ela? / A dizer eu te amo primeiro?).

 


Em geral parece haver uma evolução nessa mescla de folk, lo-fi e rock alternativo com uma pitada de psicodelia em relação ao anterior Haunted Mountain (2023) que, diga-se, já era um bom disco, ainda que soasse mais intimista ou, vá lá, menos comercial. Há, em geral, um maior preenchimento sonoro agora, um instrumental mais expressivo, mais estruturado, o que faz com que canções como Can I Mend It? pareçam saídas de algum disco do The Decemberists fase The King Is Dead (2011). Percepção que talvez também tenha a ver com a participação de seus companheiros de banda, Adrianne Lenker e o irmão Dylan, em vocais de apoio, o que dá movimento a coisa toda. Há, e importante: Meek é um frasista e tanto, apostando na ironia como âncora pra essa ideia de espelho do título, de como nos vemos por meio do olhar do outro, o que adiciona camadas a músicas supostamente simples (Por muitos anos vivi com medo dos valentões e dos críticos / Agora sei o que eles odeiam). É redondinho.

Nota: 8,5 

segunda-feira, 30 de março de 2026

Novidades em Streaming - Dreams (Drømmer)

De: Dag Johan Haugerud. Com Ella Øverbye, Selome Emnetu, Ane Dahl Torp e Anne Marit Jacobsen. Drama / Romance, Noruega, 2024, 111 minutos.

Creio que, poucas vezes na história do cinema, me deparei com a descrição de uma paixão avassaladora de forma tão poética, inteligente e vigorosa como na primeira meia hora do surpreendente e tocante Dreams (Drømmer) - o vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim do ano passado, e que foi incorporado, recentemente, ao catálogo da sempre ótima plataforma Reserva Imovision. Que atire a primeira pedra quem nunca se apaixonou por seu professor ou professora, e esse é exatamente o caso de Johanne (Ella Øverbye), uma estudante de ensino médio que tem uma atração instantânea e quase obsessiva por sua charmosa professora de francês Johanna (Selome Emnetu) - sim, com direito a peculiaridade de o nome de ambas ser diferenciado por apenas uma letra. Quando Johanna aparece pela primeira vez, com seu cacheado sedoso e um sorriso cheio de afeto, que parece ainda mais amplo em uma contraluz que a inunda pelo sol, o efeito parece meio que imediato sobre Johanne. E talvez seja.

Só que, em pleno processo de amadurecimento, entre não compreender bem aquilo que agonia o seu peito - um sentimento que parece ao mesmo tempo inconcebível e maravilhoso - a jovem também busca outros tipos de conexões, especialmente com o universo das artes, da dança e da literatura, que parecem aflorar a sua sensibilidade. E a sua percepção para o significado daquilo - para além do debate ético e quase meio lógico que poderia rondar uma adolescente de 15 ou 16 anos anos desejando de uma forma intensa a sua professora. Aliás, é justamente quando ela torce o pé e lê um livro - uma novela bastante romântica estilo Mulherzinhas -, que esse desabrochar inicia, ao menos em teoria. E ver Johanne em uma longa divagação em off nunca entediante, descrevendo as pequenas interações com a professora - seja em sala de aula, no pátio, nos corredores ou em outras situações - sempre em um estilo sublime, de devaneio quase transcendental, é comovente.

 


E, honestamente, é difícil não se conectar. Ou pensar em outras obras de arte - de canções populares como Apenas Mais Uma de Amor, do Lulu Santos (Eu gosto tanto de você / Que até prefiro esconder / Deixa assim ficar subentendido), a filmes como o clássico cult Encontros e Desencontros (2003), de Sofia Coppola -, que contribuam na definição do que é uma paixão platônica. Mas o caso é que é complicado para Johanne, por mais evoluídas que as pessoas ao seu redor sejam - inclusive a mãe progressista Kristin (Ane Dahl Torp), ou avó escritora Karin (Anne Marit Jacobsen) - verbalizar o seu amor. Mesmo para as suas amigas que, muitas vezes, a pegam olhando meio que para o nada sem muita explicação. Ao cabo, a fantasia se converte em um diário/livro com descrições bastante íntimas e cheias de vulnerabilidade que unem a narradora e seu objeto de desejo. Algo sexy mas secreto, e que ela morre de medo de contar para Johanna - por receio de que esta possa rir, "como riem os adultos quando uma criança fala algo fofo".

E vocês que leem essa resenha talvez achem curioso como um filme meio aleatório - que, na realidade, integra uma trilogia da diretora Dag Johan Haugerud (é a terceira parte depois de Sex e Love) - e que trata sobre o mais universal dos temas, possa ter tanto impacto. Mas é possível citar exemplos, como no instante em que Johanne descreve a forma elegante e cheia de personalidade com que a professora se veste - e de como a lã de suas blusas de tricô se conecta de forma bonita à sua pele -, ou mesmo em outro momento em que a protagonista admite que a realidade é sempre pior do que aquilo que idealizamos, em relação aos caminhos que nos conduzem àqueles que amamos. Pode parecer óbvio, mas a obra ganha ainda mais profundidade na segunda parte, quando o manuscrito do livro chega às mãos da avó e da mãe e de como elas tratam o caso - no limite entre o ensaio à denúncia de um crime sexual e a beleza do florescimento de alguém que está em pleno controle da situação e em processo de descoberta da própria sexualidade. Repleto de metáforas e alegorias, esse é um filme de fluidez magnética que, de quebra, ainda nos deixa meio nostálgicos em seu exame arrebatador das dores e delícias embriagantes das primeiras paixões.

Nota: 9,0 

 

quinta-feira, 19 de março de 2026

Picanha.doc - Alabama: Presos do Sistema (The Alabama Solution)

De: Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman. Com Melvin Ray e Robert Council. Documentário, EUA, 2025, 114 minutos.

Vamos combinar que a gente tende a pensar que os problemas do sistema prisional - superpopulação, condições insalubres e violação de direitos humanos, só pra ficar em alguns exemplos -, são exclusividade do Brasil. Mas basta assistir a um documentário impactante como Alabama: Presos do Sistema (The Alabama Solution), que está disponível na HBO Max, para percebermos que isso também ocorre em países como os Estados Unidos. Aliás, se o sistema judiciário da terra do Tio Sam já costuma ser pra lá de questionável em qualquer circunstância, tudo tende a ser muito pior quando se tem um presidente que navega na antessala do fascismo - e teríamos de ser muito ingênuos pra acreditar que uma coisa não influencia a outra. Enfim, a obra dos cineastas Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman, e que foi uma das indicadas ao Oscar em sua categoria, é revoltante em muitas medidas.

Por que, vamos ser honestos, como é possível pensar em ressocialização de encarcerados se os presos permanecem em celas lotadas - com o dobro da capacidade ocupada -, sem qualquer tipo de higiene mínima que seja (com ratos, baratas e outros bichos espalhados), convivendo ainda com mofo, umidade, calor e outras condições precárias? Isso sem falar na falta de atendimento de saúde ou mesmo de agentes capacitados para a gestão das prisões. E que não desejem simplesmente assassinar presos por motivos fúteis, como no absurdo caso da morte de Steven Davis, que foi espancado até vir a óbito - e uma boa parte da trama é centrada nesse caso (que é só mais um entre tantos, em que a violência estatal surge como alternativa de contenção). E tudo que a mãe de Davis, Sandy, tem, é uma foto do filho desfigurado e muita vontade de obter algum tipo de justiça.

 


Em linhas gerais, o que o filme nos sugere é que há um problema meio generalizado no sistema carcerário estadunidense, que parece ser ainda mais grave no Sul dos Estados Unidos, onde costuma residir aquele tipo de cidadão de bem médio, o redneck de arma em punho que acredita que "bandido bom é bandido morto". Aliás, não é difícil imaginar essa parcela da população, sempre com a Bíblia a tiracolo, absolutamente indignada por esse desejo de dignidade, mínima que seja, para quem desviou da rota e veio a cometer algo ilícito. O punitivismo, aqui e ali, também aparece no cerne da narrativa - especialmente quando um grupo de presos começa a estudar e a ganhar força de forma coletiva, com o surgimento de movimentos como o Alabama Livre, que lutava por melhores condições nos presídios, além de remuneração de presos por trabalho prisional, possibilidade de revisão de sentenças, especialmente as mais longas, e diminuição sistemática da violência.

Claro que, em uma situação como a vista no documentário, é fácil saber qual a ponta mais fraca da equação - tanto que a ideia para a obra surge quando a dupla de diretores vai a um dos presídios para filmar um evento supostamente festivo e passa a achar estranho o comportamento taciturno dos presos que, por medo de retaliações, fazem revelações escabrosas sobre abusos e falhas do sistema. E nada do que vemos no filme seria possível se não fossem os celulares contrabandeados, que circulam nas celas, permitindo àqueles homens apresentarem o seu lado de uma narrativa que, quase sempre, só ouve a outra parte. Dando destaque a outros presos que também integraram o movimento Alabama Livre, que resultou em greves e paralisações que chamaram a atenção da opinião pública no País, como Robert Council e Melvin Ray, a produção ainda evidencia outras complexidades de um sistema corroído, com dificuldades para acessar advogados, para julgamentos mais justos ou mesmo para a liberdade de pensamento. "Vá para a Igreja ou o diabo te pega" aponta uma placa nada singela nas ruas floridas e meio insólitas do Alabama. Só que o inferno aqui, vem com derramamento de sangue, torturas psicológicas e dificuldade de manter a sanidade. É quase intragável. 

 

quarta-feira, 18 de março de 2026

Novidades em Streaming - Elio (Elio)

De: Adrian Molina, Domee Shi e Madeline Sharafian. Yonas Kibreab, Brad Garrett, Remy Edgelry e Zoe Saldaña. Animação / Aventura / Ficção científica, EUA, 2025, 99 minutos.

Muito se fala de um certo desgaste da Pixar, tanto que filmes como Elio (Elio), que foi um dos indicados ao Oscar na categoria Animação, sequer foram muito comentados. E vamos combinar que a história batida de menino órfão que sonha em ser astronauta - um tipo de trama que parece meio deslocada no tempo -, não ajuda muito. Com a narrativa edificante sobre amadurecimento e superação de dificuldades em um contexto de traumas e perdas familiares, sendo daquelas de arrancar bocejos até das crianças. Com tudo piorando se somada a completa falta de carisma das personagens, a começar pelo protagonista bastante esquecível (um menininho comum que é meio deslumbrado pelo espaço, a ponto de construir uma engenhoca meio que implorando por uma abdução alienígena). O que ele faz deitado na praia, dia após dia, até ser acossado por uma dupla de valentões que mexe em seu rádio amador.

Depois de uma briga e de um olho roxo, Elio (Yonas Kibreab) consegue se infiltrar no local de trabalho de sua tia, Olga (Zoe Saldaña) - responsável por sua guarda -, que, convenientemente, é uma major da Força Aérea que precisa lidar com um teórico da conspiração de sua equipe, que afirma finalmente ter obtido alguma resposta à famosa Missão Voyager - programa da Nasa iniciado nos anos 70. Claro, ninguém acredita na balela do tal Gunther Melmac (Brendan Hunt), mas essa se torna a deixa perfeita para que Elio invada os computadores pra tentar um contato improvisado com os alienígenas, o que gera uma queda de luz que quase custa o emprego de Olga. A solução? Enviar o menino para um acampamento, local em que ele reencontra os valentões. Depois de mais alguns rebus o protagonista é, enfim, abduzido (pra alegria dele), ao mesmo tempo em que Olga recebe estranhas mensagens interplanetárias.

 

 


A segunda parte da história também tem aquela carinha de mais do mesmo, mas em tempos tão brutos como os que vivemos - de avanço da extrema direita e de políticas de ataque à minorias (especialmente os imigrantes) -, não deixa de ser interessante uma narrativa que lembra a importância de unir forças diante de um mal maior. Quando finalmente chega ao seu destino, Elio é recebido em um local conhecido como Comuniverso, onde alienígenas das mais variadas partes do mundo compartilham seus saberes (um local pautado pela generosidade e pelo pensar coletivo). Bom, isso até a chegada de um certo Lorde Grigon (Brad Garrett), uma espécie de senhor da guerra do planeta Hylurg que, rejeitado anteriormente pelo Comuniverso, pretende tomar o local a força. Promovendo uma guerra e escravizando o povo dali. Isso até a entrada de Elio na história, que pretende ser nomeado embaixador da Terra, após negociar com Grigon.

Em linhas gerais dá pra se dizer que, ok, é um filme que não doi. Ele avança meio que naquela lógica do enfrentamento a um vilão em que a ajuda mútua será fundamental - com esses ideais sendo reforçados no momento em que Elio conhece Glordon (Remy Edgelry), uma espécie de minhoca amistosa e repulsiva, com quem o pequeno faz amizade justamente quando tenta fugir da prisão perpetrada pelo grande vilão. Glordon é o filho de Grigon e passa a ser moeda de troca para o monstrengo deixe o Comuniverso em paz. Ao mesmo tempo, a carismática Ooooo (Shirley Henderson), um supercomputador gelatinoso e líquido e talvez a única figura realmente marcante, envia para a Terra um clone de Elio, para que Olga não se preocupe. E, claro, muita coisa dá errada no meio do caminho até que as peças se encaixem, as amizades se fortaleçam e a redenção de todos ocorra. Se isso ainda tem algum valor em 2026 é difícil saber já que pouca gente deu bola pra animação, que tá disponível na Disney+.

Nota: 6,0

 

segunda-feira, 16 de março de 2026

10 Considerações Sobre a Cerimônia do Oscar 2026

Finalmente o Oscar aconteceu e passamos a régua oficialmente na temporada de premiações - e, aqui, algumas considerações sobre a cerimônia ocorrida na noite de ontem.

 


1) Bom, antes de mais nada parece até papo de perdedor o fato de termos tido quatro indicações (ou cinco, se somarmos o fotógrafo Adolpho Veloso por Sonhos de Trem), mas o caso é que a grande maioria das projeções indicava meio que exatamente o que aconteceu. Em nenhuma das categorias éramos, de fato, favoritos, por mais que mantivéssemos a torcida e o sonho de pé, Timothée Chalamet perdeu espaço, mas o Michael B. Jordan tinha crescido na reta final. Valor Sentimental nunca deixou de estar um passo a frente com suas nove indicações e uma campanha sólida para conceder o primeiro Oscar da história à Noruega. Sobre o elenco, o nosso é lindo e talvez merecesse o reconhecimento. Mas vocês acham mesmo que na primeira vez na história o prêmio iria para algum filme que não fosse de Hollywood? No mais, valeu a festa, a torcida e, principalmente, a visibilidade para o nosso cinema, que alcança muitos públicos, se consolidando como um polo forte de cinema, como sempre fomos na verdade. Ah, e não dá pra esquecer que temos o molho. E quem tem o molho NUNCA PERDE!

2) Não sei se vocês ficaram com essa impressão, mas por mais que estivéssemos torcendo alucinadamente por O Agente Secreto, me pareceu como um todo uma cerimônia meio morna do ponto de vista do impacto mesmo. Por gosto pessoal, não acho que o Conan tenha a acidez na medida certa de um Jimmy Kimmel - tanto que, quando ele entrou no palco, fez uma das melhores piadas da noite. Não é que precisasse ser um show de fundo político, mas os Estados Unidos vive meio que um caos permanente desde a entrada do laranjão para o segundo governo e, onde estavam os nossos astros protestando? Tirando uma onda? Batendo de frente? Sim, sei que teve brochezinho fuck ICE e, aqui e ali, alguma piada sobre, mas eu achei foi pouco. Menos mal que os vencedores de categorias menores fizeram o trabalho de lembrar que uma premiação com tanta visibilidade, também é oportunidade para colocar o dedo na ferida.

3) Também foi uma cerimônia meio que sem grandes surpresas. Nas categorias de atuação, por exemplo, as bolsas de apostas meio que acertaram a respeito dos vencedores. O mesmo valendo para roteiro, direção, filme em língua estrangeira, animação e diversas técnicas. Nesse sentido, os bolões podem ter sido meio sem emoção, já que todo mundo votou meio igual. Pra não dizer que foi tudo previsível, a vitória de Mr. Nobody Against Putin em Documentário não era esperada. Ainda que essa seja uma das categorias mais estranhas do planeta, com ausências inacreditáveis e vitórias historicamente improváveis.

4) Ainda sobre as categorias de atuação, entre os bons momentos da noite acho que dá pra incluir a vitória da carismática Amy Madigan, por A Hora do Mal. Eu até não morro de amores por esse filme, mas é sempre legal quando uma obra meio que quebra a lógica e vai ganhando força no transcorrer da temporada - desbancando outras que teriam mais força ou mais apelo. Ok, ela parecia meio atrapalhadinha na hora dos agradecimentos, mas ficou a impressão de que a própria Academia deu a ela um tempinho a mais pra se organizar nas falas.

5) Ponto altíssimo da noite, a apresentação da canção I Lied to You, de Pecadores, com todo o aparato musical de uma grande apresentação. O filme de Ryan Coogler, aliás, venceu quatro estatuetas, contra seis de Uma Batalha Após a Outra, que pode ser considerado o grande campeão da noite.

6) Sinceramente, uma coisa que não simpatizo muito na premiação, é essa coisa de que tudo meio que tem de virar um teaser, um produto ou uma propaganda para algo que está por vir. É Anna Wintour no palco pra lembrar o público sobre O Diabo Veste Prada, é os atores da Marvel fazendo teatrinho sem graça, aludindo aos filmes ainda mais sem graça. Eu sei que tudo ali não passa de um negócio, no fundo, mas acho que seria mais orgânico sem esse tipo de coisa. Já as piadinhas sobre uso de IA e outras tecnologias, especialmente aquela parte em que houve um deboche com as irritantes interrupções do Youtube, que deve transmitir a premiação a partir do ano que vem (ou isso também era piada?), gostei demais!

7) Todo o mundo falou dos esquecimentos bizarros do In Memorian, mas verdade seja dita: a forma como essa parte transcorreu desta vez foi bem bonita, com ex-companheiros lembrando de algumas personalidades que se se foram (sendo o destaque os 17 atores que trabalharam com Rob Reiner). Aliás, foi um ano de perdas de grandes astros, como Catherine O'Hara e Robert Redford, então é justo que essa parte tenha sido mais "engordada". 

8) Importantíssimo momento da noite: a vitória de Autumn Arkapaw, que se tornou a primeira mulher negra a vencer o Oscar na categoria Fotografia (e foi comovente ver ela pedindo para as mulheres da sala se levantarem). Seu discurso foi poderoso, assim como o de outras vencedoras, como Jessie Buckley.  

9) Continua sendo absolutamente estranho o hábito da Academia de subir o som para que as pessoas se retirem do palco em meio aos discursos, especialmente nas categorias menores. Foi constrangedor o que rolou com a galera de Two People Exchanging Saliva, que praticamente foi expulsa do palco à força. 

10) O lance de um novo meme do DiCaprio? Ok, legalzinho. Que é o saldo dessa premiação. Apenas legalzinha. E ano que vem tem mais! 

sexta-feira, 13 de março de 2026

Quem Ganha o Oscar 2026?

Verdade seja dita que a safra não parece estar das melhores, com muitos filmes apenas médios na disputa das estatuetas do Oscar 2026 e um favoritismo meio generalizado para Uma Batalha Após a Outra e Pecadores nas categorias centrais. Como brasileiros, inevitavelmente o nosso foco estará nas categorias em que O Agente Secreto está indicado - ainda que muitos dos nossos especialistas estejam pouco otimistas em relação a alguma vitória. Por mais que uma coisa seja as previsões e as premiações prévias e a outra seja a vida real - e não dá pra negar que a nossa campanha, capitaneada por Kléber Mendonça Filho e Wagner Moura foi um show de carisma. No mais, consegui assistir a grande maioria das obras indicadas desse ano, o que permite aquela análise racional, sem ignorar o coração, já que uma coisa é jogar no bolão e outra é apontar aquele que amamos de verdade. Enfim, o Oscar é domingo, a Globo mudou toda a grande de programação para a exibir a maior premiação do cinema, e o TNT e a HBO Max também transmitem, como de costume (fora as tantas lives País afora envolvendo influenciadores e entendidos da área). Enfim, será uma experiência legal e estaremos atentos.

 


 

 

FILME

Uma Batalha Após a Outra passou o rodo nas premiações prévias, levando inclusive as prestigiadíssimas estatuetas do PGA (Produtores), do DGA (Diretores), do WGA (Roteiro Adaptado) e do ACE (Editores em Comédia) - o que o coloca como amplo favorito. Só que de uns dias pra cá teve início um burburinho sobre uma possível virada de Pecadores pra cima da obra de Paul Thomas Anderson, o que é reforçado pelas conquistas no SAG (Atores), no WGA (Roteiro Original) e no Bafta (Roteiro Original) e o ACE (Editores em Drama). Ainda assim, o peso de uma possível vitória pende pro lado de Uma Batalha..., já que outras conquistas, como o Critics Choice e o Bafta - ambas na categoria central - reforçam essa tese. Eu queria poder dizer que O Agente Secreto tem chance? Queria. Mas é um sonho bem distante e se configuraria como uma zebra histórica. Ainda que no Gold Derby sejamos o quarto colocado entre os possíveis favoritos (vai Brasil!).

Ganha: Uma Batalha Após a Outra

Na torcida: O Agente Secreto (mas vou adoras se Pecadores faturar) 

 

DIRETOR

Nessa categoria quase dá pra cravar, sem medo de errar, que finalmente chegou a vez de Paul Thomas Anderson vencer - e as prévias, especialmente com a conquista no DGA, reforçam essa tese. O fato de Uma Batalha Após a Outra ter força como um todo nas premiações anteriores também contribui para essa percepção. O único que poderia desbancar Anderson seria Ryan Coogler, de Pecadores, mas no Gold Derby há uma percepção de que isso dificilmente vai ocorrer. Em termos de torcida eu estaria com o segundo, até porque os demais indicados não me empolgam.

Ganha: Paul Thomas Anderson, por Uma Batalha Após a Outra

Na torcida: Ryan Coogler, por Pecadores 

 

ATOR

Até umas duas semanas atrás, tudo indicava que o Timothée Chalamet iria levar a estatueta pelo seu papel no insosso Marty Supreme - o que era reforçado pelas vitórias no Critics Choice, no Globo de Ouro e em outras prévias. Mas aí o Michael B. Jordan venceu o SAG, surpreendendo geral. E o Chalamet foi cancelado após falar merda. Será que vem aí uma virada histórica? No nosso caso, evidentemente estamos torcendo pelo Wagner Moura, o que é considerado uma zebra, por mais que algumas publicações estrangeiras apontem para essa possibilidade - e o Globo de Ouro em Drama, verdade seja dita, nos deixou cheios de esperança. Talvez o sistema de votação possa auxiliar no sonho - lembrando que os votantes escolhem do quinto ao primeiro os seus preferidos, sendo feita uma média. Mas até lá é só um sonho mesmo. Meio distante.

Ganha:  Michael B. Jordan por Pecadores

Na torcida: Wagner Moura, por O Agente Secreto 

 

ATRIZ 

Aqui parece estar uma das barbadas da noite em matéria de bolão, já que a Jessie Buckley com cara de choro em modo permanente em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, passou o rodo nas prévias, com vitórias no SAG, no Bafta, no Critics e em outras premiações importante. Como eu sou um Emma Stoner de carteirinha, a minha torcida secreta é por ela e por seu ótimo papel no subestimado Bugonia. Mas é só pra brincar de torcer mesmo, já que a única que poderia desbancar Buckley seria a Rose Byrne por sua caracterização no ótimo Se Eu Tivesse Pernas Te Chutaria.

Ganha: Jessie Buckley, por Hamnet

Na torcida: Emma Stone, por Bugonia 

 

ATOR COADJUVANTE

Nessa categoria ao que tudo indica a estatueta vai pro Sean Penn por Uma Batalha Após a Outra porque, inclusive, é merecido, já que ele está absolutamente irritante e nojento como um oficial de tendências fascistas (e misóginas). Aliás, o ator rapou as premiações prévias vencendo o SAG, o Bafta, o Globo de Ouro e outras. Claro que nesse bolo todo poooode pesar um componente afetivo em favor do Stelan Skarsgard por Valor Sentimental, já que o veterano, além de ter mais de cinquenta anos de carreira, ainda fez um grande esforço de interpretação devido aos problemas de saúde. Seria uma zebrinha mas nem tanto. E correndo por fora ainda tem o Jacob Elordi, por Frankenstein, que faturou o Critics da categoria.

Ganha: Sean Penn, por Uma Batalha Após a Outra

Na torcida: Sean Penn, por Uma Batalha Após a Outra

 

ATRIZ COADJUVANTE

Aparentemente o mundo comprou a ideia de que a Amy Madigan merece a estatueta pelo excêntrico papel no mediano A Hora do Mal. Vá lá, o cinema de terror quase nunca é prestigiado, então seria uma forma de valorizar o gênero. As prévias, com as vitórias no SAG e no Critics dão certo favoritismo. Ainda que Wunni Mosaku tenha embaralhado um pouco a bolsa de apostas ao faturar o Bafta. E tem ainda a Teyana Taylor, que conquistou o Globo de Ouro correndo por fora e aposta na força de Uma Batalha Após a Outra pra tentar uma ultrapassagem na reta final. Em resumo, categoria que tem uma favorita, mas nada definido (o que dificulta o bolão).

Ganha: Amy Madigan, por A Hora do Mal

Na torcida: Teyana Taylor, por Uma Batalha Após a Outra

 

ROTEIRO ADAPTADO

Aqui não parece haver dúvida de que é Uma Batalha Após a Outra na cabeça, ate mesmo por ter faturado praticamente todas as prévias relevantes, incluindo aí o WGA (Roteiristas), o Bafta e o Critics. E o próprio favoritismo à categoria central ajuda a fortalecer essa ideia, já que, em muitos casos, o vencedor em Roteiro, costuma chegar com força para as cabeças. Hamnet corre por fora, mas parece já saber que perdeu com umas doze rodadas de antecipação. A minha torcida? Bugonia, óbvio!

Ganha: Uma Batalha Após a Outra

Na torcida: Bugonia 

 

ROTEIRO ORIGINAL

Vale a mesma lógica do Adaptado aqui, já que Pecadores fez a limpa nas prévias, levando WGA, Bafta, Critics e Globo de Ouro, entre outras premiações. No Gold Derby a percepção de chance de vitória é de quase 97%, então, podem ir sem erro no bolão. E como amo esse filme, vou adorar apreciar essa vitória.

Ganha: Pecadores

Na torcida: Pecadores 

 

ANIMAÇÃO

Aqui temos uma das maiores barbadas da noite, já que o ótimo Guerreiras do KPop chega com tudo, com vitórias nas prévias - como o Annie (Animação, que costuma ser um ótimo termômetro pra categoria), o Critics e o Globo de Ouro -, além de fortíssima campanha da Netflix. E isso sem falar no carinho do público, que simplesmente amou a produção. No Annie, aliás, a obra fez história ao faturar inacreditáveis dez estatuetas. Resumidamente, só um maluco pra não apostar nas meninas no bolão!

Ganha: Guerreiras do KPop

Na torcida: Guerreiras do KPop 

 

FILME INTERNACIONAL

Sim, a gente está obcecado e sonhando com a vitória de O Agente Secreto, mas, de forma racional, é preciso estarmos preparados pra uma eventual derrota, já que Valor Sentimental chega com mais força à reta final (sensação ampliada pelas outras indicações, como em categorias de atuação, por exemplo, além de conquistas no circuito europeu, como os prêmios no Gran Prix e no Júri Ecumênico de Cannes, e a vitória no Bafta). Ainda assim, não custa sonhar: O Globo de Ouro e o Critics ampliaram a visibilidade e a Academia parece já estar sabendo que não existe nada como o carinho da torcida brasileira - pro bem ou pro mal. Então, bora!

Ganha: O Agente Secreto (aqui foi difícil não votar com o coração)

Na torcida: O Agente Secreto

 

DOCUMENTÁRIO 

Mr. Nobody Against Putin até venceu o Bafta da categoria, o que poderia dar uma embaralhada na disputa já que, A Vizinha Perfeita, com toda a campanha e o aparato da Netflix por trás chega como franco favorito, o que inclui a vitória no Critics. No bolão, a disputa não deve fugir desses dois. Já o meu preferido na categoria - Alabama: Presos do Sistema - deve se contentar com o burburinho provocado pela exibição na HBO Max.

Ganha: A Vizinha Perfeita

Na torcida: Alabama: Presos do Sistema 

 

DIREÇÃO DE ELENCO

A categoria é novidade no Oscar, mas uma tradição em outras premiações, como o SAG e o Critics, com ambos tendo sido vencidos por Pecadores, o que o coloca como o favorito. Qualquer coisa diferente disso vai ser surpresa - inclusive a vitória de O Agente Secreto (e, nesse caso, só a indicação já pode ser considerada uma vitória). 

Ganha: Pecadores

Na torcida: O Agente Secreto

 

FOTOGRAFIA

Nessa categoria, o indicativo mais confiável de vitória costuma vir do prêmio ASC (Cinematografia) que, neste ano, concedeu a distinção à Uma Batalha Após a Outra, o que talvez o coloque à frente na corrida - ainda mais se incluirmos outras prévias importantes, como o Bafta, Correndo por fora, Pecadores conta com a primeira indicação para uma mulher negra na categoria (e apenas a quarta mulher na história), com a Autumn Durald Arkapaw. Sobre o brasileiro Adolpho Veloso por Sonhos de Trem, não custa sonhar: ele faturou o Bafta da categoria e pode ser uma boa surpresa (estamos na torcida!).

Ganha: Uma Batalha Após a Outra

Na torcida: Sonhos de Trem 

 

FIGURINO

Por ter vencido o CDG, um dos melhores termômetros para a categoria, Frankenstein larga na frente - e verdade seja dita, se tem algo realmente bom na produção de Guillermo Del Toro é o aparato técnico. O CDG, é preciso que se diga, se divide em duas distinções centrais - filmes de Época e Contemporâneo - tendo Uma Batalha Após a Outra faturado a segunda. Só que Frankenstein também ganhou o Critics e o Bafta e aí ele parece mesmo com o caminho pavimentado para a estatueta.

Ganha: Frankenstein

Na torcida: Pecadores 

 

EDIÇÃO

Aqui um bom termômetro costuma ser o ACE Eddie Awards que concedeu às estatuetas na prévias para Pecadores (Drama) e Uma Batalha Após a Outra (Comédia ou Musical), tendo este último vencido também o Bafta. Já o frenético F1: O Filme faturou o Critics, o que também o coloca como um bom competidor (e é um filme que também se vale muito do aparato técnico). Aliás, como uma das categorias que abre a noite ela pode servir para pavimentar o caminho do que virá pela frente, durante a premiação.

Ganha: Uma Batalha Após a Outra

Na torcida: Pecadores 

 

MAQUIAGEM E PENTEADO.

Frankenstein venceu o Bafta e o Critics e deve ser o grande ganhador da categoria levadas em conta as prévias. E até onde entendi, o Jacob Elordi ficava dez horas na cadeira de maquiagem até ficar apto a interpretar a criatura (nem tão) grotesca. Se for levado em conta esse combo, tá mais do que merecido. E o filme nem é a bomba que as pessoas estão dizendo ser.

Ganha: Frankenstein

Na torcida: A Meia-Irmã Feia (porque adorei esse filme) 

 

DESENHO DE PRODUÇÃO

Aparentemente Frankenstein deve passar o rodo em certas categorias técnicas, o que inclui a vitória em Desenho de Produção. A conquista do prêmio específico do setor (o ADG) na categoria Fantasia, nas prévias, somadas às estatuetas no Critics e no Bafta reforçam essa como uma escolha certeira. Uma Batalha Após a Outra até faturou o ADG em Filme de Época, mas deve ficar pelo caminho. E minha torcida, como não poderia deixar de ser, vai pra Pecadores.

Ganha: Frankenstein

Na torcida: Pecadores 

 

TRILHA SONORA

No Bafta e no Critics deu Pecadores e, levando-se em conta estas e outras prévias, o filme de Ryan Coogler deve vencer a categoria. Aliás, o compositor Ludwig Göransson já venceu anteriormente por Pantera Negra e Oppenheimer, o que também é uma ótima credencial. Ah, e tem uma coisa meio bizarra sobre essa categoria: das últimas 26 edições do Oscar, em 23 quem a venceu, faturou também Melhor Filme. É aguardar!

Ganha: Pecadores

Na torcida: Pecadores 

 

SOM

F1: O Filme faturou o Critics e o Bafta, além de ter ganhado o CAS (Cinema Audio Society). E os especialistas costumam lembrar que esses filmes barulhentos, e que necessitam uma engenharia a mais no setor, sempre saltam na frente. 

Ganha: F1: O Filme

Na torcida: Pecadores

 

EFEITOS VISUAIS

O prêmio de consolação para Avatar: Fogo e Cinzas deve vir nesta categoria, o que é reforçado pelas vitórias no Bafta e no Critics - com o favoritismo ampliado pelo VES Awards. Qualquer coisa diferente disso é meio que uma zebra.

Ganha: Avatar: Fogo e Cinzas

Na torcida: Pecadores 

 

CURTA ANIMAÇÃO

Nas categorias que costumam desempatar bolão é tudo meio imprevisível, ainda que o belíssimo Butterfly pareça estar um passo à frente não apenas pela temática - sobre um nadador que enfrenta o nazismo -, mas também pelo tipo de animação, que mais parece uma pintura que sai da tela. Particularmente o meu preferido é o tocante The Girl Who Cried Pearls que, se for direto ao coração dos votantes, deve ser o vencedor.

Ganha: Butterfly

Na torcida: The Girl Who Cried Pearls 

 

CANÇÃO ORIGINAL

Pelo visto não tem pra ninguém e vai dar Golden, o megahit de Guerreiras do KPop - especialmente após passarem o rodo nas prévias. E, verdade seja dita, eu posso até amar Pecadores, mas essa música é tão grudenta quanto imbatível.

Ganha: Golden, de Guerreiras do KPop

Na torcida: Golden, de Guerreiras do KPop 

 

CURTA DOCUMENTÁRIO

Esse tipo de categoria é outra que costuma pegar o votante pelo impacto e é meio difícil ficar alheio ao poder de All the Empty Rooms (sobre os quartos agora vazios, de crianças assassinadas em escolas dos Estados Unidos). É algo de forte impacto emocional. O meu preferido, ainda assim, é The Devil Is Busy, que fiz até uma pequena resenha abaixo.

Ganha: All the Empty Rooms

Na torcida: The Devil Is Busy 

 

CURTA LIVE ACTION

Nesse ano consegui assistir quatro dos cinco indicados e devo confessar a vocês que amei todos - desde o deboche de Jane Austen's Period Drama, até a tensão provocada por Two People Exchanging Saliva. The Singers tem o aparato da Natflix por trás, ao passo que A Friend os Dorothy é o mais tocante. Quem leva? Arremessa pra cima e sorteia um!

Ganha: Two People Exchanging Saliva

Na torcida: Jane Austen's Period Drama

 

E que venha o Oscar!