quinta-feira, 25 de junho de 2026

Novidades em Streaming - O Órfão (Árva)

De: László Nemes. Com Bojtorján Barabas, Andrea Waskovics, Elíz Szabó e Marcin Czarnik. Drama, Hungria / França / Reino Unido / Alemanha, 2025, 133 minutos.

Um filme sobre a procura de um filho por seu pai, mas que também pode ser lido como uma alegoria para a busca de uma Pátria por uma identidade que parece perdida. Em linhas gerais não é exagero dizer que O Órfão (Árva) - o enviado da Hungria para a mais recente edição do Oscar e que estreou na última semana na Mubi - parte de um microcosmo que envolve uma família traumatizada não apenas pela segunda guerra, mas também pela ocupação soviética, imediatamente após o conflito. Com as feridas abertas como um todo no tecido social de uma nação que, no limite, parece ter trocado um regime ditatorial por outro - no caso o nazismo pelo stalinismo húngaro. Sim, talvez esse contexto não seja algo tão simples assim de se entender, ainda mais se levarmos em conta o fato de, inicialmente, a Hungria ter sido aliada dos alemães para, mais adiante, ser invadida e saqueada pelos militares de Hitler. O que resultaria em milhares de judeus deportados para campos de extermínio.

No filme de László Nemes - do agonizante vencedor do Oscar O Filho de Saul (2015), que também tem a guerra como pano de fundo -, o conflito já se encerrou há mais de uma década. O ano é 1957 e o protagonista - o pequeno Andor (Bojtorján Barabas) -, após ter sido resgatado dez anos antes por sua mãe, Klára (Andrea Waskovics), uma sobrevivente do holocausto, é detido pela polícia junto com outros adolescentes por, supostamente ter participado da Revolução Húngara no ano anterior, ocasião em que estudantes, professores, intelectuais, artistas e outros trabalhadores se rebelaram contra o domínio soviético. Milhares morreram e muitos fugiram do País. Em linhas gerais, Andor acredita que seu pai, um dos desaparecidos, possa estar vivo em algum local - aliás, ele tenta se "comunicar" com o genitor em uma espécie de porão abandonado. Mas sem nunca ter certeza disso.

 


Em paralelo o rapaz, que parece saído de alguma obra do neorrealismo italiano - o que é reforçado pela fotografia granulada e dessaturada das ruas decadentes de Budapeste, com sua arquitetura antiquada e ambientação urbana opressiva (com a presença de militares por todos os cantos) -, especialmente por suas andanças infinitas ladeando prédios e terrenos ermos, mantém uma graciosa amizade com Sari (Elíz Szabó) que, secretamente, ajuda a manter seu irmão escondido em uma habitação abandonada (ele seria um revolucionário sendo procurado pelo Estado). Já outro amigo de Andor, Geza (Marcin Czarnik), um ator de teatro, parece ser aquilo que mantém seu vínculo não apenas com a humanidade, mas também com a identidade de seu povo e de sua família (já que seu pai era o proprietário do cinema local). Especialmente em um cenário de vigilância, prisões políticas e opressão a opositores. 

A desilusão é profunda - e parece ampliada em uma obra que tem sua própria medida de tempo, desenrolando-se sem pressa, com seus pequenos eventos diversos, sejam as idas ao cinema e a sinagoga e os encontros familiares, se espalhando de forma vagarosa. E como se desgraça pouca não fosse bobagem, tudo piora quando aparece na vida de Andor e de sua mãe um certo Mihály Berend (Grégory Gadebois), um sujeito tão misterioso quanto truculento que alega ser seu "novo pai" (e que teria ajudado Klára a se esconder dos nazistas). Estiloso do ponto de vista técnico - talvez até com certo exagero nesse sentido, o que poderia desviar a atenção para o que realmente importa em termos de temática -, o filme utiliza a cor vermelha dos balões e de outros objetos, como uma metáfora para a onipresença dos comunistas em solo húngaro. Da mesma forma, a violência que emerge do boxe como esporte, em substituição ao caráter lúdico do futebol em uma época do auge de Puskas, também pode funcionar como forma de evidenciar certo cansaço de um povo, há tanto oprimido. Sim, pode ser muita coisa para elaborar em uma produção eventualmente exaustiva com suas mais de duas horas. Mas não dá pra negar que é um esforço fílmico notável.

Nota: 8,0 

 

terça-feira, 23 de junho de 2026

Novidades em Streaming - Depois do Fogo (Rebuilding)

De: Max Walker-Silverman. Com Josh O'Connor, Lily LaTorre, Meghann Fahy, Kali Reis e Amy Madigan. Drama, EUA, 2025, 96 minutos.

Quem acompanhou mais de perto as enchentes que assolaram, em maio de 2024, diversos municípios do Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul, sabe que não foram poucos os entrevistados que, em meio aos escombros da tragédia que devastou tudo, levando os bens materiais (e até imateriais) de uma vida, reuniram forças para dizer que "ao menos estavam vivos". Por mais que casas, carros, eletrodomésticos e, no caso de moradores do campo, maquinários, galpões, animais e plantações, tenham sido levados pela fúria das águas, ao menos restaram as famílias e a sua resiliência. Em meio a um quadro desalentador - afinal foram muitos óbitos também -, o recomeço contou com o apoio de instituições públicas e privadas e de pessoas. Muitas pessoas. Numa ação coletiva que possibilitou algum tipo de recuperação - de autoestima, de dignidade, de esperança. 

E não deixa de ser tocante perceber como o recém chegado à Netflix, Depois do Fogo (Rebuilding) trata justamente desse processo, vivido pelos flagelados climáticos: o de recuperar aquilo que realmente importa, num contexto de turbulência. Ao cabo, aqui temos uma experiência afetuosa e gentil que centra menos a sua narrativa no que desencadeia cheias, secas, queimadas, tsunamis e outros problemas climáticos e mais no que vem depois do ocorrido. O componente político certamente faria falta se esse fosse um projeto mais abertamente panfletário - e, admito que lá pelas tantas me incomodou um pouco o fato de os problemas ambientais estarem tão em segundo plano -, mas aqui o que é importa é o microcosmo dos vínculos familiares. Ou o que nos faz humanos. É clássica a frase de que sairíamos melhores como humanidade, depois da pandemia. Ou das cheias. Enfim, espero que tenhamos saído.

 


Na tocante obra dirigida por Max Walker-Silverman, que teria se inspirado em histórias da própria família (sua avó perdeu a casa num incêndio) Josh O'Connor é o cauboi Dusty, que tem a sua fazenda de oitenta hectares onde criava animais consumida por um incêndio de grandes proporções. Enquanto reside em um trailer improvisado oferecido pelo governo aos desalojados - ao lado de um grupo de outros moradores que passaram pelo mesmo -, Dusty estuda a possibilidade de ir morar e trabalhar em um rancho familiar no Estado de Montana, trocando o seu Colorado natal, no pé das montanhas rochosas. Taciturno e sem perspectivas para o solo dizimado pelo fogo - restando apenas galhos de árvores secas e retorcidas em meio ao cenário desértico quase pós-apocalíptico -, o protagonista só consegue ensaiar um meio sorriso quando está com a sua filha, a pequena Callie Rose (a ótima Lily LaTorre), fruto de um relacionamento com a ex-esposa Ruby (Meghann Fahy). 

É ela, afinal, que lhe lembrará de forma afetuosa e meio que o tempo todo daquilo que importa - e daquilo que transforma um lar em lar de verdade. Sim, pode parecer papo barato de autoajuda, mas não deixa de ser comovente ver como o olhar de Dusty - entre uma postura entortada e outra, que se soma a incapacidade meio natural de um sujeito rústico do campo em seu comunicar -, ganha tons de doçura a cada ida a pequena biblioteca local para leituras improvisadas e momentos aleatórios em família (sério, é impossível ficar alheio à sequência da colagem de estrelas brilhosas nas paredes internas do trailer que, agora, é a casa deles). O senso de coletividade entre vizinhos, distribuindo cortesias (e comida), e se apoiando em tarefas domésticas cotidianas (como consertar uma torneira) nos faz lembrar do clima geral contemplativo, bucólico e resignado que assistimos em Nomadland (2020). Mas aqui a melancolia se converte em conforto e em lágrimas genuínas, quando nos percebemos torcendo por aqueles que estão ali, apenas querendo reconstruir as suas vidas, em meio a angústias, sonhos interrompidos e desejos de reconexão. Aliás, esse conjunto de ideias recebe um sentido quase alegórico na reta final, quando todos ali parecem perceber o significado de "família". É bonito demais.

Nota: 8,0 

 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Pitaquinho Musical - Edgar (Rewind)

O título autoexplicativo do novo registro do rapper Edgar dá a dica: Rewind representa uma espécie de volta ao passado para o artista. Um retorno a uma outra época, mas não como mera nostalgia de quem fica apegado àquele período de forma meio estática e, sim, como algo natural para quem parece estar em movimento permanente. Para ele, o trabalho representa um rebobinar não só na música, mas também na vida pessoal. "É a ideia de retornar às origens e olhar para raízes que, em alguns momentos, não receberam tanta atenção", comentou Edgar no material de divulgação. Na prática, isso significa recolocar estilos como o reggae, o dancehall, o paredão, o dub e outros ritmos latinos, além da cultura sound system no centro - o que representa esse ideal fervilhante e tropical de rua, de vida, de cenários urbanos e de comunidade em um conjunto que opera também como um organismo político, com seus próprios códigos. 

 


Em resumo, não significa deixar o rap e o funk, que sonoramente formavam a matéria-prima do ótimo trabalho anterior Universidade Favela (2024) - nosso sexto colocado na lista de melhores nacionais daquele ano -, até porque esses estilos seguem presentes, mas de se reconectar com a essência. Ao cabo, Edgar não é apenas um músico na busca por condensar os tempos complexos que vivemos - de avanço da extrema direita, de opressão policial, de desigualdades sociais (com seus trilionários tecnológicos) e de racismo estrutural -, mas também um difusor daquilo que é popular, periférico e que integra essa engrenagem. O resultado dessa mescla pode ser percebido nas ótimas Cops With Guns, na sensualíssima Mão Pro Alto, na já clássica ZUM ZUM ZUM, escrita quando Edgar tinha 17 anos, e em Baila Loco, em que emula Manu Chao em uma cristalização do imaginário da dança, enquanto a tragédia no entorno ocorre, como ele explicou à Revista Noize. Vale o play.

Nota: 8,0 

Novidades em Streaming - O Drama (The Drama)

De: Kristoffer Borgli. Com Zendaya, Robert Pattinson, Alana Haim, Hailey Gates e Mamoudou Athie. Comédia / Drama / Romance, EUA, 2026, 105 minutos.

Em uma das sequências mais esquisitas de Serotonina, de Michel Houellebecq, o protagonista Florent-Claude elabora um plano macabro na sua mente: especialista em tiro à distância, ele imagina como seria assassinar, a sangue-frio, o filho pequeno de uma antiga namorada. Em seu delírio sombrio - aliás, algo meio típico nos cínicos protagonistas masculinos do escritor francês - ele chega a engendrar detalhes de sua intenção (como posicionaria a arma, melhor momento para atirar, etc). Por fim ele não coloca o plano em prática, ainda que o leitor saia horrorizado daquele momento. A ponto de eu nunca mais ter esquecido desse instante da obra. E, bom, aí chegamos por linhas meio tortas em O Drama (The Drama), filme do diretor Kristoffer Borgli - dos ótimos Doente de Mim Mesma (2022) e O Homem dos Sonhos (2023) -, que recria meio que essa ideia: qual foi a pior coisa que já imaginamos fazer ou já fizemos em nossas vidas? E como isso afeta a nós ou aqueles que nos rodeiam?

Verbalizar, afinal, aquilo que está debaixo de muitas camadas do que se imagina um código de ética ou uma moral inquestionáveis, pode não ser tarefa fácil. Decisões erradas todo o mundo toma, mas e quando elas podem gerar traumas, dores ou coisa pior para os envolvidos? Verdade seja dita que a ideia dessa produção modesta e com bons atores é até boa - o que me fez ir ao encontro dela. Pena que, ao cabo, ela seja tão trivial. Na trama, Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson) estão prestes a se casar. O início tem certa leveza, com a dupla discutindo com seus respectivos padrinhos e madrinhas os votos - o que deve ou não ser incluso no texto, em meio a lugares-comuns e clichês engraçadinhos que remontam a sua trajetória. Aliás, trajetória que se inicia de forma meio estranha, com Charlie parecendo um stalker meio afobado, em sua intenção de se aproximar de Emma, enquanto ela lê tranquilamente em uma cafeteria (o livro, seu nome é O Estrago, é fictício, infelizmente). 

 


Mais adiante e ainda mais perto do matrimônio, em meio a debates a respeito da substituição ou não da DJ da festa por um suposto vício em drogas, o casal se reúne com o casal de amigos Rachel (Alana Haim) e Mike (Mamoudou Athie). A conversa descontraída ganha tons mais sérios quando Mike instiga Rachel a revelar qual a pior atitude que ela já tomou em sua vida e ela concorda, desde que todos na mesa façam o mesmo. Mike começa, contando como, na juventude, em companhia de uma ex, usou-a como escudo humano durante um ataque feito por um cachorro. Já Rachel, fornece detalhes de como teria prendido um irritante menino mais novo que ela em um armário em uma habitação abandonada no meio de um bosque. Na vez de Charlie ele conta meio envergonhado sobre ter praticado cyberbullying com um antigo colega, meio que destruindo sua vida. E aí chega Emma que [SPOILERS A PARTIR AQUI], meio que pesando o clima, relata como, em sua juventude, esteve muito perto de promover um tiroteio em massa na sua escola, com o rifle de seu pai (com um evento meio aleatório lhe impedindo, por mais que o detalhamento do plano estivesse prestes a sair do papel).

A informação meio que quebra o equilíbrio não apenas do casal, que até aquele momento parecia apenas perfeito, mas também da relação com seus amigos, que passam a evitar Emma, atribuindo-lhe uma culpa retroativa por algo que ela não fez mas que se configura em um dos grandes traumas da era moderna nos Estados Unidos (um País que, se bobear, permite comprar pistolas e revólveres no mercadinho da esquina). O fato de Emma ser uma menina negra que sofria bullying em sua escola é um tema praticamente ignorado e que poderia tornar a narrativa muito mais complexa e potente do que sugere sua trama de humor meio sombrio em que paira no ar a dúvida sobre se ela ainda seria capaz de praticar tal ato. Aliás, pior do que isso, a obra sequer cogita a possibilidade de todos eles, como adultos, simplesmente conversarem a respeito, trazendo angústias, sofrimentos, traumas e memórias que poderiam representar uma cura. Ao contrário, Charlie fica brochado e de muxoxo pelos cantos, enquanto a irritante Rachel simplesmente se afasta sem muita explicação. Pra piorar o terço final joga o ápice do absurdo pro próprio casamento, tentando uma solução mágica à moda Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004). Infelizmente não cola.

Nota: 4,0 

 

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Pitaquinho Musical - Kevin Morby (Little Wide Open)

Vamos combinar que existe uma beleza meio sofisticada e um tanto sutil na forma como Kevin Morby descreve o meio oeste e o sul americanos, com suas pequenas cidades hipocritamente conservadoras, de jardins bonitos e cerquinhas brancas, ladeadas por estradas que levam às montanhas - aquele habitat de imaginário americano típico, em que o senso de comunidade contrasta com pequenas opressões, com homens e mulheres coabitando esse espaço, cumprindo seus rituais, crescendo, sonhando, se frustrando. E em linhas gerais as suas cordas nostálgicas, no limite entre o indie, o folk e o rock alternativo, parecem traduzir bem a ideia desse ambiente idílico, capaz de tornar palpáveis o deserto, a igreja e os postos de gasolina, num sentimento quase cinematográfico. Talvez nostálgico. Foi meio que assim em toda a sua discografia, não sendo diferente no recente Little Wide Open, o oitavo registro da carreira.

 


Da abertura com Badlands, que não faria feio na trilha sonora de um faroeste moderno, com sua letra intuitiva a respeito da rudeza geográfica desses locais, até a conclusão com Field Guide for the Butterflies, Morby elabora uma série de canções meditativas, em que o contraste entre a eventual suavidade das melodias e crueza das letras, equilibra à perfeição a percepção do campo (ou do interior) como um local tranquilo e familiar, mas que sempre parece guardar algo abaixo da superfície - ao estilo do que vemos em filmes como Pecados Íntimos (2006), de Todd Field. Um bom exemplo nesse sentido, pode ser percebido na poderosa 100.000, que rumina sobre esses locais isolados, com baixa densidade populacional, mas que carregam tensões meio invisíveis no que diz respeito às expectativas sociais e até do que é ser um "homem" típico dos Estados Unidos (Morra pelo seu País / Ou uns pelos outros / Com seus carros musculosos / Na frente da garagem). Outras canções de grande beleza, como Javelin, Dandelion e a faixa-título valem ser conferidas, nesse disco que tem produção de Aaron Dessner, do The National, o que é sempre um bom indicativo.

Nota: 8,0 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Novidades em Streaming - Rebelião Silenciosa (À Bras-le-Corps)

De: Marie Elsa-Sgualdo. Com Lila Gueneau Lefas, Grégoire Colin e Cyril Metzger. Drama, Suíça / Bélgica / França, 2025, 101 minutos.

Vamos combinar que nem chega a surpreender o fato de a maior violência sofrida por Emma (a ótima Lila Gueneau Lefas), a protagonista de Rebelião Silenciosa (À Bras-le-Corps), nem ser tanto a da guerra que a espreita - com soldados alemães circulando nos limites da floresta, representando uma ameaça constante -, e, sim, do microcosmo que ela habita, com sua estrutura essencialmente patriarcal e de rígidos códigos religiosos. O ano é 1943 e, se na Suíça rural onde se passa a narrativa, temos uma nação neutra no que diz respeito aos horrores do conflito - é possível, afinal, compreender o medo e a incerteza paralisantes frente aos soldados nazistas -, também temos uma jovem disposta a romper com esse sistema que, se não é gritantemente misógino, opera pelas frestas no sentido de reservar às mulheres uma série de papeis previamente estabelecidos. Emma talvez ainda nem saiba que, ali adiante, a guerra terminará. E, alegoricamente, talvez a opressão intrínseca às mulheres a vida na pequena comunidade também. Ou assim deveria ser.

Na trama, Emma mora com seu pai e as duas irmãs nesse espaço aparentemente idílico, mas que não impede que a violência chegue até ali, mesmo de onde não se espera. Dedicada, a adolescente de 15 anos atua como uma espécie de governanta faz tudo do pastor local - seu nome é Robert (Grégoire Colin) - e espera receber um tipo de "prêmio de virtude", que seria destinado à algumas mulheres como um reconhecimento pelo seu empenho e esforço recorrentes. E que seria concedido por líderes locais como o próprio pastor, um médico e outros (a maioria homens), o que lhe permitiria ir para um internato para estudar enfermagem. E, bom, não é preciso dizer que nessa comunidade onde os homens decidem meio que tudo - aliás, o valor da bolsa é repassado justamente para o pai, marido ou algum tutor -, as jovens devem ser íntegras, imaculadas e moralmente incorruptíveis para que sejam "dignas" da obtenção da distinção. Sim, o sonho molhado da extrema direita reside em 1943.

 


Só que a coisa muda de figura quando surge na propriedade o jornalista Louis (Cyril Metzger), que está pela região para escrever um artigo para um periódico a respeito do cultivo de trufas selvagens. Extrovertido e charmoso, o rapaz traz certa leveza para o ambiente taciturno da casa, dançando e brincando com todos. E, atraindo a atenção de Emma, que é levada por ele para a floresta isolada durante um passeio, ocasião em que a violenta - o que nos faz lembrar que a grande maioria de casos de abuso sexual é perpetrado justamente por pessoas em que se têm confiança. Ou de onde dificilmente se esperaria tal agressão. Quando segue sua jornada, Louis deixa para trás uma Emma não apenas traumatizada pelo ataque - mostrado pela diretora Marie Elsa-Sguardo de forma bastante sutil (optando por takes do rosto da jovem e de suas mãos retesadas, enquanto agarra o capim) -, mas também grávida. "Deus, por favor, me proteja da vergonha", suplica ela após o fato, sem nunca acreditar que o errado é o agressor.

Só que mesmo nesse cenário de violência estrutural, o estupro parece virar uma espécie de chave em Emma que, inicialmente, tenta forçar um aborto em uma cena de forte impacto e bem conduzida frente ao choque. Mais adiante, ela se casa em uma união sem muito amor com o guarda de fronteira Paul (Thomas Doret), que assume o filho prometendo mundos e fundos para, mais adiante, operar como o machinho meio escroto de sempre. Insatisfeita com esse conjunto, Emma assume as rédeas da própria história, confrontando aqui e ali as micro (e macro) violências - e uma das melhores cenas envolve ela reencontrando e desafiando o jornalista. Taciturna e silenciosa no exterior, mas como um furacão interior, a protagonista navega nessas águas densas que podem se abrir justamente pela união das mulheres - da mãe expulsa da aldeia por ter sido infiel, passando pela filha do patrão, até chegar às irmãs ainda pequenas. Ela se afasta de Paul, a guerra termina, o pastor sofre com a demência. A alegórica dança final é a metáfora para a libertação das amarras conservadoras. Pode parecer óbvio. Mas não deixa de emocionar. Tá disponível na Reserva Imovision.

Nota: 8,0 

 

terça-feira, 16 de junho de 2026

Cinema - Alpha

De: Julia Ducournau. Com Mélissa Boros, Golshifteh Farahani, Tahar Rahim e Emma Mackey. Drama / Terror, Bélgica / França, 2025, 128 minutos. 

Uma alegoria sobre os diversos tipos de preconceito ou apenas um body horror sem sentido, que busca o choque pelo choque? Uma fábula sobre amadurecimento em um mundo distópico ou uma obra repleta de simbolismos, em tempos em que ainda nos recuperamos de uma pandemia? Colapso ambiental, avanço da extrema direita, tecnologia desenfreada, xenofobia - tudo isso ao mesmo tempo e, talvez, ainda mais um pouco. Verdade seja dita, assim como já havia ocorrido no ótimo Titane (2021), projeto anterior da diretora Julia Ducournau, Alpha, que chega aos cinemas, é mais uma daquelas experiências abertas, que permitem as mais variadas interpretações. Para o bem ou para o mal, esse é o tipo de cinema mais exagerado, que suscita amor e ódio em igual medida, enquanto os cinéfilos mais engajados se apressam em comparar o horror físico sombrio da diretora, ao modus operandi de um David Cronenberg, num cruzamento com o David Lynch (o que talvez tenha sentido, de fato).

Aqui a protagonista é uma adolescente de 13 anos - o nome da betinha (não sobra nada pra ela) é Alpha (Mélissa Boros) - que, numa noite de rebeldia aleatória e de drogadição perigosa à moda anos 90 ao som de Portishead, volta para casa com uma tatuagem no braço, onde está inscrita uma enorme letra "A". Em linhas gerais isso não significaria grandes coisas não fosse por um detalhe: nesse universo alternativo em que a trama ocorre, um novo vírus se espalha justamente pelo contato com sangue contaminado (o que parece ser uma possível alusão aos primeiros anos do HIV, especialmente pelo aceno à transmissão sexual). Entre a indignação e o acolhimento frente à barbeiragem da filha, sua mãe (Golshifteh Farahani), que é enfermeira, lhe leva para uma série de exames, a fim de detectar possíveis indícios da doença, que tem como principal "sintoma" converter o infectado em uma espécie de estátua de mármore em vida, que sopra um tipo de vento avermelhado (o que gera um efeito ao mesmo tempo estranho e fascinante).

 


Quando retorna para a escola, Alpha precisa lidar com o bullying dos colegas, que estão apavorados com a fato dela poder estar doente - o que é reforçado pelos constantes sangramentos de seu braço, justamente onde está a infeccionada a tatuagem, que nunca sara. E como se desgraça pouca não fosse bobagem, a adolescente ainda precisa lidar com o inesperado retorno de seu tio Amin (Tahar Rahim), um viciado em heroína que reaparece confuso, doente e pedindo abrigo à sua mãe. Em linhas gerais o conjunto é soturno, quase fantasmagórico, alternando momentos eventualmente fantásticos - como na cena em que Alpha se aventura do lado de fora da janela de seu quarto, enfrentando uma dura ventania -, com outros que apenas evidenciam o preconceito de quem pode estar carregando consigo um vírus letal. O que é reforçado na sequência da piscina em que a jovem desperta o mais completo horror naqueles que compartilham o ambiente com ela, após bater a cabeça e sangrar gravemente.

Talvez para alguns espectadores, as sequências meio repetitivas e o caráter aleatoriamente enigmático da narrativa pode soar cansativo ali pelas tantas - ainda mais quando a coisa se torna forçadamente simbólica, indo de ideias meio abstratas emprestadas da Bíblia (do pó viemos ao pó voltaremos?), até chegar às surpresas meio confusas, com uma revelação final que pode nem colar tanto assim - e confesso que também me aborreci um pouco, lá pelas tantas. Ainda assim, como já dito, os filmes de Julia Ducournau sempre funcionam como um exercício interessante de gênero, em que nos pegamos pensando sobre o que assistimos, ao mesmo tempo em que juntamos pistas para algum tipo de conclusão mais lógica sobre (e, spoiler, nunca seremos definitivos a respeito). Tenso, fragmentado e cheio da ambiguidades, o filme concorreu à Palma de Ouro no mais recente Festival de Cannes e, mesmo tendo saído de mãos abanando, reflete os tempos paranoicos e de deterioração do tecido social em que vivemos.

Nota: 7,0 

 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Tesouros Cinéfilos - A Sombra de Meu Pai (My Father's Shadow)

De: Akinola Davies Jr. Com Sope Dirisu, Godwin Chiemerie Egbo e Chibuike Marvellous Egbo. Drama, Reino Unido / Nigéria, 2025, 94 minutos.

Vamos combinar que quando o assunto é Golpe de Estado, meio que só muda o endereço. Ou o País, já que muitos têm o seu, a grande maioria perpetrado por militares, em muitos casos com o apoio dos Estados Unidos. E no caso da Nigéria não é diferente - e é exatamente esse o pano de fundo do sensível e potente A Sombra de Meu Pai (My Father's Shadow), o enviado do Reino Unido para a categoria de Filme Estrangeiro, no último Oscar. Aqui, temos uma experiência contemplativa, por vezes quase onírica, sobre um pai - seu nome é Folarin (Sope Dirisu) - que, com o objetivo de preservar seus filhos Akin (Godwin Chiemerie Egbo) e Remi (Chibuike Marvellous Egbo), mantém uma vida meio dupla em que, aparentemente, integra um grupo de resistência à violência de Estado. O que parece ficar mais claro a cada novo encontro com pessoas e ambientes desconhecidos pelos pequenos.

Tão misterioso quanto amoroso, o pai convida as crianças para uma viagem improvisada à capital Lagos - a ideia é cobrar o seu empregador o pagamento do salário atrasado já há alguns meses. O que também se torna oportunidade para que nos aprofundemos nos bastidores políticos, sociais, culturais e até religiosos da nação africana. Tudo é feito de forma bastante sutil, cabendo ao espectador montar essa espécie de quebra-cabeças que, no limite, e às vésperas das eleições, culminará na possível vitória no pleito de MKO Abiola, um empresário e filantropo que, com sua popularidade, parece unir o País. O ano é 1993 e a turbulência ronda por cada canto, pelas frestas - não por acaso, na primeira parte da viagem, ainda em um ônibus, tem início uma discussão acalorada sobre política, que não faria feio nos tempos do Brasil de Lula e de combate à uma extrema direita golpista, truculenta e antidemocrática. O ônibus para por falta de gasolina. E o embate segue do lado de fora da condução.

 


Tendo seu pagamento adiado para o final da tarde, Folarin resolve levar Akin e Remi para essa Lagos mais profunda, alternando entre momentos prosaicos e calorosos, em que visitam o parque de diversões, tomam banho de mar e saboreiam iguarias gastronômicas da capital, com outros mais tensos, em que conduções repletas de militares com caras de poucos amigos, trafegam normalmente em meio ao trânsito. Fervilhante, a obra converte a capital, com sua imprevisibilidade urbana, cheia de cores e repleta de diversidade em um elemento central da narrativa, ressaltando a complexidade da experiência de vida em um País africano - em muitos casos culturalmente heterogêneo, mas invariavelmente repleto de contrastes sociais. "A Nigéria é um País difícil" divaga Floarin em certa altura, como que tentando fornecer algum tipo de amparo às crianças. Que lhe olham no limite entre a ternura e o receio.

Aliás, um dos pontos centrais da narrativa está justamente na força da relação desse trio, que sai de casa deixando apenas um bilhete para a mãe. Em conversas íntimas e francas, os filhos inquirem o pai a respeito de seu comportamento errático, distante, de quem está muito mais ausente do que presente. Revelações comoventes como a da perda do irmão na juventude - em um trágico afogamento -, que se alternam com um quase fatídico atropelamento em meio ao trânsito agitado, formam uma espécie de alegoria para a perturbação do todo. Como se naquele microcosmo de um pai que não consegue fornecer condições mínimas de sobrevivência aos próprios filhos, estivesse uma metáfora para o sofrimento de todo um povo. Dinâmico mas reflexivo, esperançoso mas dolorido, esse é aquele tipo de projeto que parece sempre guiado pelo olhar de uma criança, que ainda não sabe sobre o mundo que lhe aguarda lá fora. E talvez aí esteja parte de sua beleza.