quinta-feira, 11 de junho de 2026

Cine Baú - Bunny Lake Desapareceu (Bunny Lake Is Missing)

De: Otto Preminger. Com Carol Lynley, Keir Dullea, Laurence Olivier e Martita Hunt. Suspense, Reino Unidos, 1965, 106 minutos

Vamos combinar que, se não chega a ser exatamente um subgênero do cinema, a vertente dos suspenses sobre pessoas que desaparecem para, mais adiante, terem a sua própria existência questionada, tem as suas obras marcantes. Do clássico A Dama Oculta (1938), de Alfred Hitchcock - aliás, um verdadeira mestre também nessa corrente -, à suspenses mais atuais, como, Plano de Vôo (2005), não foram poucas as produções que utilizaram essa narrativa de paranoia em que a tensão migra, em certa medida, do sumiço em si para um questionamento à respeito da saúde mental dos envolvidos. Especialmente em situações em que o protagonista jura de pé junto que o desaparecido realmente existe - ainda que no entorno, as dúvidas estejam postas. E é exatamente esse o caso do agoniante Bunny Lake Desapareceu (Bunny Lake Is Missing), obra dirigida por Otto Preminger, que entrou recentemente no catálogo da HBO Max.

Na trama acompanhamos a jovem Ann (Carol Lynley), que está de mudança para a Inglaterra, acompanhada do irmão Steven (Keir Dullea), um jornalista que está a trabalho no Reino Unido. Tudo parece mais ou menos dentro da rotina: malas entregues, novo apartamento sendo aos poucos habitado, adaptação ocorrendo. Bom, isso até o momento em que Ann vai até a pré-escola local para buscar Bunny, a filha de apenas quatro anos - é o seu primeiro dia no educandário - para, depois de alguns instantes de desespero, perceber que a pequena desapareceu sem deixar rastro. A professora que deveria saber de sua guarda está no dentista. A tia da cozinha não sabe de nada. As mães de outros alunos não se recordam bem da novata. No refeitório ninguém parece ter notado a sua presença. Pior do que isso, depois da polícia ser chamada, parece haver algo muito estranho naquele caso: Bunny realmente existe? Ou é fruto da imaginação de Ann?

 


Hábil na construção da tensão, Preminger - que aqui adapta um popular romance lançado nos anos 50 -, parece disposto a desviar a nossa atenção o tempo todo, adicionando camadas de incerteza à trama. Por exemplo, logo que Ann chega ao novo apartamento, ela é inquirida pelo excêntrico Horatio Wilson (Noel Coward), o senhorio do local - um poeta, dramaturgo e apresentador de rádio aposentado, de modos estranhos que, não bastasse toda a esquisitice do comportamento, ainda assediará a protagonista mais adiante. Outra distração são as máscaras africanas, que poderiam sugerir pistas falsas, ainda mais quando integradas ao cenário em que o mesmo Wilson se encontra. Outros brinquedos - como os da loja de bonecas -, objetos perturbadores, como o rádio da extravagante senhora Ford (Martita Hunt), uma residente da escola que parece cheia de segredos, pessoas que aparecem inesperadamente e outros elementos de significados ambíguos reforçam a ideia de drama psicológico entre o real e o imaginário, o concreto e o abstrato.

[SPOILERS A PARTIR DAQUI] Claro que o espectador mais atento talvez consiga solucionar os enigmas mais cedo - e as pistas para essa conclusão são ao mesmo tempo divertidas e macabras, como no caso da primeira sequência do filme, em que Steven simplesmente recolhe um coelhinho de pelúcia do chão (um bunny), levando-o junto antes de ir ao encontro dos homens da mudança. O mesmo valendo para a sombra eventualmente ampliada do sujeito, nas cenas internas mais claustrofóbicas. Ou mesmo nas discussões com o detetive Newhouse (Laurence Olivier) que se desenrolam entre provocações, ambiguidades e frases de duplo sentido. Conspirações, traumas de infância, solidão e outros temas são salpicados aqui e ali, num thriller de desfecho eletrizante, em que Ann precisa enganar o próprio irmão, que encarna uma versão psicologicamente tão desequilibrada quanto o vilão de O Mensageiro do Diabo (1955). Preminger já tinha uma carreira de sucesso quando filmou Bunny Lake - Laura (1944), Passos na Noite (1951) e Anatomia de Um Crime (1959) são só alguns a terem inscrito seu nome na história. E, vá lá, talvez esta tenha sido sua última grande obra.

 

Pitaquinho Musical - Genesis Owusu (REDSTAR WU & THE WORLDWIDE SCOURGE)

Vamos combinar que, se você não está com raiva em 2026, você meio que está vivendo errado. Massacres na Palestina, preconceitos de toda a ordem, imperialismo pós-capitalista e multimilionários decidindo nosso futuro em um contexto de tecnologia desenfreada, avanço da extrema direita e degradação ambiental. É meio difícil ficar alheio a tudo isso e, talvez uma boa forma de canalizar essa revolta, seja ouvindo música - especialmente aquela capaz de traduzir com maestria esse contexto pós-apocalíptico de nossa existência. E esse é justamente o caso de Genesis Owusu, artista ganês-australiano que, com REDSTAR WU & THE WORLDWIDE SCOURGE, entrega o seu melhor trabalho. Mantendo a característica mistura de pós punk, soul de tintas psicodélicas e rap experimental, o cantor reforça o caráter político não apenas dos versos, mas das melodias enérgicas, especialmente após o existencialista e alegórico (e ótimo!) trabalho anterior, Struggler.

 


Peça central do disco, LIFE KEEPS GOING parece condensar com excelência a ideia que faz colidir o colapso iminente da sociedade, com a necessidade que temos de seguir adiante em meio ao caos. Com letra que se alterna entre o amargo e o esperançoso, a canção preserva um estado de tensão que, aparentemente, nunca chega a uma explosão. Não há catarse, como se certa letargia também fosse uma espécie de curiosa forma de resistência em um cenário de resignação. Às vezes mais literal (DEATH CULT ZOMBIE), em outras mais metafórico (MOST NORMAL AMERICAN VOTER), o trabalho alterna momentos mais acelerados, diretos, com outros mais contemplativos, de abraço ao senso de comunidade, de coletividade. "Viver na década de 2020 tem sido uma experiência estranha", comentou Owusu no material de divulgação. Se a turbulência interior pode ser matéria-prima para a arte, o fato é que temos alguém capaz de resumir esse sentimento com maestria.

Nota: 8,5 

terça-feira, 9 de junho de 2026

Novidades em Streaming - Risa e o Telefone do Vento (Risa y la Cabina del Viento)

De: Juan Cabral. Com Elena Romero, Julienta Cazzuchelli, Diego Peretti e Joaquín Furriel. Drama / Fantasia, Argentina, 2025, 97 minutos.

Da negação à aceitação, o luto costuma ser encarado de formas distintas por cada pessoa. Tristeza, frustração, revolta, ressentimento - em geral os sentimentos variam ainda que, em grande parte dos casos, a saudade permaneça. A lembrança. E no caso de Risa (Elena Romero), a protagonista do tocante Risa e o Telefone do Vento (Risa y la Cabina del Viento), que estreou na última semana na Netflix, essa memória do pai morto em um incêndio de grandes proporções, se torna ainda mais difusa, já que ela nunca chegou a conhecer direito o sujeito. Vencedora do prêmio máximo do Festival Internacional de Mar Del Plata, a obra do diretor Juan Cabral é calorosa, emocionante e, eventualmente, fantasiosa. Especialmente depois do momento em que Risa descobre que uma cabine de telefone, tipo aquelas que os fenícios utilizavam, é a única "construção" que resistiu ao fogo.

Entre o místico, o enigmático e o sobrenatural, a cabine passar a funcionar como uma espécie de ponte entre os vivos, que ficaram na cidade após o incêndio que levaria deste plano 144 pessoas da região de Ushuaia, no Sul do País, e seus parentes mortos, com quem eles conversam ao telefone. Claro, que conversa é modo de dizer, já que este é um diálogo mais simbólico, num bate-papo que opera como forma de expiação da dor. Uma tentativa, como dito no começo, de superar o luto. De se reerguer, meio que literalmente, dos escombros - e não deixa de ser interessante perceber como as máquinas de lavar espalhadas pelo cenário, funcionam não apenas como uma evidência tardia da tragédia, mas também uma alegoria de uma limpeza (de alma) que nunca chega, para quem precisa seguir adiante. 

 


Para a pequena Risa, que mora com sua valente mãe Sara (Julieta Cazzuchelli), o telefone parece ser a oportunidade perfeita para conversar com Rodrigo (Joaquín Furriel), o falecido pai, que deve estar nesse além desconhecido. Mas como proceder? Em certa noite o telefone toca insistentemente - como num sonho confuso, abstrato, inexplicável. Quando atende o aparelho, Risa ouve as vozes do outro lado, que lhe alertam que, para conseguir conversar com seu pai, ela deverá cumprir uma série de missões no mundo dos vivos. O que permitirá às pessoas enlutadas juntar as forças necessárias para avançar. De ações simples como jogar xadrez com um professor aposentado da vizinhança, passando pelo alerta a uma família a respeito de um seguro disponível como herança em um banco da Patagônia, até chegar ao suporte uma cachorra abandonada, a simpática Chuleta, Risa se converte em uma espécie de Amelie Poulain do mundo dos mortos, andando de lá para cá na ideia de deixar a vida de quem ficou mais confortável perante a dor.

Acompanhando a pequena, seu babá com cara de poucos amigos, mas que é puro coração - seu nome é Esteban (Diego Peretti) -, contribui aqui e ali em sua jornada, sendo ranzinza e espirituoso, enquanto se esforça para que a menina lhe obedeça. Juntando-se à dupla há ainda um simpático hamster adotado - o que adiciona aquela pitada doce de filme para toda a família (ainda que envolva fantasmas com vozes fragmentadas e confusas). Aliás, tudo se torna mais caótico quando Risa finalmente escuta seu pai, sendo surpreendida por uma notícia que gera uma reviravolta interessante. Cheia de ambiguidades e boas reflexões sobre luto, perda, memória e dores, essa é uma produção de grande simplicidade, o que é reforçado pela fotografia dessaturada e fragmentada, pelo naturalismo gritante e pela trilha sonora quente, permeada pelas canções do grupo argentino Babasónicos. Aliás, Risa é o nome de uma música da banda - e parece haver todo um significado mais profundo de busca de conexão em sua letra (Na sala cheia de desconhecidos / Busquei o calor ao seu lado). É só um componente a mais.

Nota: 7,0 

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Cinema - O Bolo do Presidente (Mamlaket al-qasab)

De: Hasan Hadi. Com Baneen Ahmad Nayyef, Waheed Thabet Khreibat e Sajad Mohamad Qasem. Drama, Iraque / EUA / Qatar, 2025, 105 minutos.

No clássico do cinema iraniano Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), um menino empreende uma verdadeira via-sacra para conseguir entregar um caderno para um colega de sala de aula, o que fará com que ele seja salvo de uma carraspana de seu rígido professor. Parece uma premissa simplíssima - e é -, mas, em muitos casos, a filmografia do diretor Abbas Kiarostami (e de seus pares) tinha essa característica: a de partir de um microcosmo para um exame mais amplo do contexto social, político, cultural e religioso do País de origem. E, enquanto assistia ao O Bolo do Presidente (Mamlaket al-qasab), obra da ainda incipiente produção iraquiana e que está em cartaz nas salas de cinema do País, me peguei pensando nas semelhanças entre ambas as produções, com seu estilo naturalista, quase documental, em que situações, dores ou expectativas cotidianas e até domésticas, recebem contornos mais amplos.

Irã e Iraque já foram até rivais em uma dura e sangrenta guerra nos anos 80, mas aqui parecem se assemelhar nessa busca por certo minimalismo fílmico. Que centra a narrativa no olhar de uma criança que, frente às tragédias do mundo que lhe rondam, precisa cumprir uma pesada missão. No caso da pequena Lamia (Baneen Ahmad Nayyef), ela tem o azar de ser a sorteada para elaborar um bolo para a sua turma da escola, como parte das comemorações do aniversário do presidente Saddam Hussein. Talvez isso não fosse assim tão complicado em um outro contexto, mas o caso é que Lamia, que vive com a sua avó diabética Bibi (Waheed Thabet Khreibat), é extremamente pobre. O que tornará a obtenção de farinha, ovos, leite e fermento uma jornada difícil - ainda mais em País que sofre uma série de sanções dos Estados Unidos, decorrentes da Guerra do Golfo.

 


É a década de 90 e já na abertura do filme dirigido por Hasan Hadi fica claro o cenário de escassez vivido pelos iranianos, com a população enfileirada diante de um caminhão pipa, se acotovelando para obter um galão de água. Na escola, o severo professor de Lamia já deu a letra: se a pequena não cumprir com a sua meta, sofrerá duras sanções governamentais. Aliás, Lamia não está sozinha nessa barca já que o pequeno Saeed (Sajad Mohamad Qasem), colega da criança, também é escolhido - no caso, para levar as frutas para a mesma celebração. Desesperada diante da situação e sem muitas alternativas no horizonte, Bibi decide doar a neta para uma família em melhores condições. A respeito do bolo? Eles que lutem, é mais ou menos a resposta da idosa. Só que Lamia, amedrontada, não aceita a situação e foge. Para encontrar, no meio do caminho, justamente Saeed que, entre um trambique e outro ao lado do pai deficiente, tenta conseguir a grana para as frutas.

Como já dito, trata-se de uma obra pequena, que se equilibra entre instantes mais calorosos - fortalecidos pela amizade cheia de idas e vindas das crianças -, com outros de mais impacto, como no momento em que um adulto oferece ajuda à Lamia para que, mais adiante, percebamos as suas verdadeiras (e torpes intenções). De lá para cá pela cidade, a protagonista terá o apoio de um cômico motorista de táxi que, inclusive, prestará socorro à Bibi, no momento em que ela vai à polícia para pedir socorro depois do sumiço da neta, e passa mal. Praticando golpes e também sendo passados para trás, Lamia e Saeed precisam aprender a sobreviver nesse cenário pantanoso, barulhento e caótico em que, não bastassem as mazelas cotidianas e a sua própria miséria, ainda lidam com a violência de uma guerra em curso, com suas bombas explodindo, tiros ao longe, e soldados feridos. "Bibi lhe disse por que ela está braba comigo?", pergunta uma Lamia chorosa, quase na reta final da obra, sendo meio que impossível segurar as lágrimas. Não há muita brecha para a esperança, para além do apoio daqueles que estão próximos. É a lição que fica dessa pequena joia, que venceu a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes.

Nota: 8,5  

 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Novidades em Streaming - A História do Som (The History of Sound)

De: Oliver Hermanus. Com Paul Mescal, Josh O'Connor e Chris Cooper. Drama / Romance, EUA / Reino Unido / Itália, 2025, 128 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM ALGUNS SPOILERS] 

Vamos combinar que se o subgênero do "drama do gay triste" pode até não estar oficialmente formalizado, ainda que caminhe para isso. Até porque parece haver uma convenção meio incômoda de que narrativas queers necessitam, inevitavelmente, virem acompanhadas de sofrimento. De O Segredo de Brokeback Mountain (2005), passando pelo premiado Moonlight (2016) e, claro, por alternativos, como, Todos Nós Desconhecidos (2023), a impressão que se tem é a de que a experiência gay, especialmente a masculina - sempre carregada de uma tonelada a mais de preconceitos - parece ter de vir, invariavelmente, acompanhada de perda, de luto, de dor. Ou mesmo da impossibilidade da felicidade amorosa - como uma espécie de punição meio que natural, do ponto de vista conservador, para aquilo que é claramente desviante. Que foge da lógica ou das convenções. Meio que como a jovem depravada que é a primeira a morrer nos filmes de terror, guardadas todas as proporções.

E, é preciso que se diga que não há nenhum problema nesse estilo, que já nos brindou com grandes produções - como as citadas acima. Só que, às vezes, a impressão que se tem é que a mão pesa um tanto na abordagem desse sofrimento quase infinito, desesperançoso. O que piora quando a obra passa a impressão de ter potencial para explorar outras subtramas para além do "veja bem como esse homem sofre em silêncio e dentro do armário em tempos tão complicados" - e esse parece ser exatamente o caso de A História do Som (The History of Sound), do diretor Oliver Hermanus. Exibido em Cannes e estrelado por Paul Mescal e Josh O'Connor, esse é aquele tipo de filme elegante, de grande apuro técnico - da fotografia ao desenho de produção -, mas que quase se torna cansativo ao nos apresentar um romance secreto entre dois estudantes de um conservatório do começo do século passado que termina, claro, de forma trágica.

 


Quando a obra começa começa, uma narração em off nos apresenta uma ideia interessante e que meio que simplesmente desaparece alguns minutos depois: a de que algumas pessoas possuem uma habilidade única de perceber a música para além do som. Um dom. Como se o barulho - seja da natureza ou dos instrumentos - tivesse cor, sabor. E, sim, a gente sabe que isso pode acontecer, de associar uma canção a algo para além do abstrato e eu considerei isso tão bonito e essa parece ser justamente a capacidade do protagonista Lionel Worthing (Mescal), que eu achei um pecado isso ser ignorado, mais adiante. Claro, a música é justamente o que conectará Lionel - que tinha no falecido pai - com sua viola na varanda de sua pequena propriedade do interior do Kentucky uma referência -, à David White (O'Connor), que ele conhece em um pub de New England (ele toca justamente uma canção folclórica que era tocada por seu pai na juventude, num instante nostálgico, caloroso e bonito).

Após iniciaram um relacionamento às escondidas, David é convocado para a primeira guerra (o ano é 1917). Quando retorna do conflito, dois anos depois, a dupla se reaproxima para a execução de um inovador e simpático projeto universitário, que está no centro da melhor parte da narrativa (e que tenho a impressão que, por si só, renderia um filme à parte), e que envolve a captura de músicas folclóricas em cilindros de cera pela América rural. O que seriam, na realidade, os primórdios da gravação de sons, ainda de forma rudimentar. E, bom, se o filme poderia centrar mais a coisa na história do som, como sugere seu título original, não podemos esquecer que essa é a obra de gay sofrendo. E, por mais que a música tradicional, antiga, passada de geração a geração, se espalhe de forma fluída por cada fragmento da produção - de forma vagarosa, melancólica -, lá pelas tantas a dupla se separa, quando Lionel vai tentar a vida em Roma, cantando em um prestigioso coral. E o belo trecho em que aparece a antiga The Unquiet Grave - sobre um homem em luto que fica ao lado do caixão da esposa morta, não deixando-a descansar -, é a deixa, de forma alegórica, para os acontecimentos que virão mais adiante. Com o luto infinito percorrendo décadas.

Nota: 6,5 

 

Novidades em Streaming - Manas

De: Mariana Brennand. Com Jamilli Corrêa, Rômulo Braga, Dira Paes e Fátima Macedo. Drama, Brasil, 2024, 101 minutos.

"Não existe felicidade fora do projeto de Deus. Do projeto de Deus chamado família". Vamos combinar que a cena de uma pastora da igreja evangélica discursando em favor da família - enquanto que meio que todo o mundo sabe que grande parte da violência sofrida por crianças e adolescente da região de Marajó, no Pará, cenário do filme Manas, emerge do ambiente doméstico -, é só uma forma de evidenciar a hipocrisia não apenas daquelas pessoas, mas da nossa sociedade. "Tem coisa que não adianta tu querer mexer", alerta uma desalentada Danielle (Fátima Macedo), que está grávida de mais um filho do marido Marcílio (Rômulo Braga), enquanto trava uma luta interior para acobertar os abusos praticados pelo homem contra a sua filha Marcielli (Jamilli Corrêa), ao mesmo tempo em que parece sonhar, com o olhar duro, vulnerável e melancólico, com o fim do ciclo de violência.

Ao cabo, a obra da diretora Marianna Brennand nunca é fácil. E talvez por ser tão evidente - ainda que, paradoxalmente, sutil - em sua abordagem, o desconforto se amplie. O histórico de violência naquela localidade (aliás, no Brasil como um todo) não é novidade - inclusive com a pauta sendo apropriada politicamente pelas piores pessoas do planeta, em sua ignorância gritante, sempre acreditando que Deus pode ser a cura de tudo. Marcílio, Danielle e as filhas alternam os dias em um templo improvisado junto às águas, em que cantos evangélicos meio constrangedores ecoam, ao mesmo tempo em que sobrevivem colhendo açaí e camarão, que será comercializado, especialmente na balsa - local em que os moradores sabem que as violências sexuais se ampliam, com a presença de forasteiros, homens adultos, oferecendo dinheiro ou comida para as adolescentes. 

 


Quando o filme começa, meio que a ficha demora para cair para o espectador. Se a balsa parece suspeita, o ambiente doméstico soa parcialmente seguro - especialmente pela presença ensolarada de Marcílio, que alterna algum tipo de afeto rústico, com gestos disciplinadores de quem ensina desde cedo valores como trabalho. Mas é aí que reside o pulo do gato, já que a confiança no adulto também tende a burlar a identificação dos limites por parte da ponta mais vulnerável da equação. E, de fato, a coisa começa a ficar estranha quando a rede de Marcielle estraga e o pai a convida para deitar em sua cama. O que poderia ser apenas a sugestão de algo carinhoso, se torna mais evidentemente desprezível quando o sujeito convida a filha para uma caçada no mato. A primeira caçada - num simbolismo torpe e repulsivo do ato que ele está prestes a praticar. Ciente do que acontece, a jovem tenta forjar, em vão, uma carteira de identidade falsa no posto local, o que poderia lhe possibilitar uma espécie de fuga, assim como fez a sua irmã mais velha Cláudia que, aos 19 anos, foi embora dali para nunca mais voltar.

Naturalista e em estilo documental - aliás, Mariana Brennand é documentarista -, a obra, que esteve na nossa pré-lista do Oscar desse ano e recebeu dezenas de prêmios internacionais, tem uma fluidez própria, não tendo pressa em expor suas ideias. Tecnicamente bem executada, a produção é daquelas que utiliza os sons da natureza - o zumbido dos bichos repetitivo e letárgico, ou mesmo a ondulação constante das águas -, como forma de evidenciar ainda mais o caos interior e a moral abjeta das ocorrências locais. Um tipo de entorpecimento visto em outros filmes como A Febre (2019) ou mesmo nas obras do diretor Apichatpong Weerasethakul - guardadas as devidas proporções temáticas, claro. "Eu fui caçar sozinha com o pai", praticamente grita a protagonista à Jaci (Ingrid Trigueiri) uma exasperada comerciante local, que a lembra que isso não acontece só com ela. "Você tem que tentar a vida na cidade", a alerta. A presença da delegada Aretha (Dira Paes), uma funcionária do Estado que surge como figura de proteção, parece acender em Marcielle uma faísca que já estava pronta para queimar. Como se interrompe um ciclo de violência que se perpetua de geração em geração? Talvez a medida tenha de ser mais drástica. Alegórica ou não. É o recado que fica dessa experiência vigorosa e cheia de simbolismos, que vale ser conferida.

Nota: 9,0 

 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Tesouros Cinéfilos - Pillion

De: Harry Lighton. Com Harry Melling, Alexander Skarsgård e Lesley Sharp. Drama / Comédia / Romance, Reino Unido / Irlanda, 2025, 107 minutos.

O público cinéfilo mais cracudo a respeito do que rola nos bastidores já percebeu: Pillion foi adiado diversas vezes e essa resenha foi escrita na esteira daquela que deveria ter sido a data de estreia oficial - no caso a última quinta-feira, dia 21 de maio. E vamos combinar que esse timing meio que já passou, até mesmo porque a obra já foi exibida em festivais, já teve estreia mundial e já tá rolando em ambientes, digamos, "alternativos", pra quem quiser acessá-la. Meio que quem quis viu - e toda essa coisa de adiar infinitamente uma produção, aparentemente apenas por causa do seu tema (a trama acompanha um jovem gay introvertido em suas primeiras experiências sexuais, quando conhece um taciturno motoqueiro que o inicia no universo BDSM) só torna tudo mais estranho. Sim, a família tradicional brasileira ainda se choca com qualquer coisa que desvie do padrão. E, aqui, não parece ser muito diferente. Por mais que os motivos para os atrasos pareçam ser sempre outros do que apenas o bom e velho preconceito.

Sobre o filme, que venceu o prêmio de Melhor Roteiro na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes - é a estreia de Harry Lighton na direção - vai depender do olhar e da percepção de quem assiste. Se por um lado a obra nos apresenta uma relação fetichista quase abusiva entre dois homens - um deles mais velho -, por outro este também é um conto sobre amadurecimento e de como os primeiros amores podem ser dolorosos, complexos, frustrantes. Ao cabo, contribuindo para a nossa formação como sujeitos. Sim, pode parecer impactante ver um jovem sem nenhuma experiência vestido com roupas diminutas de couro, enquanto o outro o humilha de todas as formas, mas é importante deixar os julgamentos para os conservadores. Aqui, não cabe analisar o fetiche em si e sim como se desenrola essa experiência em toda a sua complexidade, com o envolvimento de familiares e de toda uma comunidade de motoqueiros.

 


Aliás, o termo "pillion" costuma ser utilizado como forma de definir não apenas o assento traseiro de uma motocicleta, mas também quem o ocupa. E, naturalmente, por extensão, parece haver aqui a alegoria mais do que perfeita para o comportamento confiante e misterioso de Ray (Alexander Skarsgård), que levará na garupa o tímido Colin (o sempre expressivo Harry Melling). A dupla se conhece em um boteco onde Colin se apresenta com os seus amigos que formam um quarteto de vozes. É noite de Natal em Londres - aliás, está aí mais um filme natalino para assistir em família -, e Ray se aproxima do rapaz de forma determinada. Mais do que isso, combinam um encontro antes da chegada do Papai Noel, para desespero dos pais de Colin - não por preconceito, já que eles acolhem as opções do filho, a ponto da mãe (Lesley Sharp), ajudá-lo nos encontros com homens -, mas pelo receio de ele estar indo ao encontro de um desconhecido que pouco se sabe. O date, por assim dizer, termina em um beco. Com uma sessão de sexo oral.

A partir dali eles passam a manter um certo vínculo, ainda que as dinâmicas de poder sejam opostas - não por acaso, em uma tentativa de encontro na noite de Ano Novo, Colin tenta chamar Ray para um rolezinho no pub dos motoqueiros, mas ele nem dá as caras. E quando reaparece, surge cheio das exigências, obrigando-o a fazer comida, fazendo-o dormir no chão e ignorando qualquer uma das suas solicitações de afeto. Rastejando atrás dele, no limite. Em contrapartida, não apenas o inicia no sexo, como lhe dá um prazer que talvez ele dificilmente sentiria em outras circunstâncias. "Ele diz que tenho aptidão para a devoção", explica o jovem em certa altura da projeção. Tudo enquanto sua mãe se empenha em saber mais sobre o sujeito. Alternando momentos engraçados, estranhos, sensuais e afetuosos - como na sequência da surpresa de aniversário, ou nas tentativas frustradas de executar Eric Satie ao piano -, essa é uma obra pouco convencional, que não julga seus personagens ou os torna meras caricaturas. Alguém fez uma ótima piada no Letterboxd ao resumir o filme com um título alternativo: call me by your slave. Perfeito. Bem distante do gosto do reacionário médio.

 

Pitaquinho Musical - Aldous Harding (Train on the Island)

Vamos combinar que o exercício de escutar qualquer disco da Aldous Harding, é mais ou menos como entrar em um carro para pegar a estrada em direção a um local nunca antes explorado. Meio que como uma viagem ao desconhecido - pra ficar na alegoria mais óbvia. Sim, seus álbuns não costumam ser lá muito fáceis, palatáveis ou, vá lá, comerciais. Suas curvas no limite entre o experimentalismo folk, o indie de cafofo e o art rock excêntrico costumam ser tortas ou pouco previsíveis. Se estamos indo pra cá, não demora para que o rumo mude pra lá. Se em um instante a melodia parece direcionada para algo caloroso ou de fácil identificação, em outro a coisa soa estranha ou teatral - com o vocal subindo e descendo inesperadamente. O que em tempos em que nos acostumamos a sermos alimentados com papinhas culturais prontas, ultraprocessadas ou de fácil digestão, pode soar como um exercício desafiador. Mas também compensador.

 


Afinal, parece que a gente tá sempre buscando a melhor banda dos últimos tempos da última semana. Ou, minimamente, aquele artista que nos retire da zona de conforto da lógica algorítmica do refrãozinho de IA ou da dancinha de Tik Tok. E, como se fosse uma Fiona Apple em Fetch the Bolt Cutters, Harding entrega, com Train on the Island, uma experiência enigmática, evocativa, que provoca, que mexe com as nossas sensações. São músicas deslocadas que jamais soam feias, ainda que a sua beleza necessite ser escavada. Um bom exemplo de tudo isso pode ser percebido no single One Stop que, com seu piano e vocal expressivos e mudanças de direção que fogem da lógica, parece algo no limite entre um Radiohead fase Amnesiac (2001) e uma Kate Bush de Hounds of Love (1985). Há uma série de outros ótimos momentos como, Venus in the Zinnia, What Am I Gonna do? e a faixa-título, em que temas, como, cobrança por padrões corporais, feminilidade performática e sensualidade caricatural emergem em versos cheios de simbolismos e alegorias. É tipo uma refeição que a cada nova bocada gera mais satisfação.

Nota: 9,0