De: Steven Spielberg. Com Haley Joel Osment, Jude Law, Frances O'Connor, Sam Robard e Brendan Gleeson. Ficção Científica / Drama / Aventura, EUA / Reino Unido, 2001, 146 minutos.
Em que momento uma máquina deixa de ser apenas uma mera ferramenta utilitária e passa a ser "alguém" digno de consideração? Como seres de carne, osso e alma, seremos capazes de amar um robô, um equipamento eletrônico, um aplicativo? Ou esse é um tipo de sentimento possível apenas entre humanos ou, vá lá, animais? Vamos combinar que, no mundo das artes, esse tipo de pergunta não chega a ser exatamente uma novidade e há um sem fim de obras - filmes, livros, quadrinhos e peças de teatro -, que versam sobre o assunto, sendo alguns bastante conhecidos do público, como Blade Runner (1982) ou Ela (2013). E, enquanto reassistia ao clássico A.I Inteligência Artificial (Artificial Intelligence: AI), de Steven Spielberg, que completa 25 anos de lançamento em setembro, só conseguia pensar naquele meme sobre máquinas dominando o mundo, mas poupando todos aqueles que teriam sido gentis, educados e empáticos com o ChatGPT. Obrigado, GPT, você foi foda!
Afinal de contas, robôs tendo carinho por seres humanos não parece algo impossível de se imaginar - talvez seja só executar o prompt correto para que os sistemas sejam capazes de responder às emoções humanas de forma mais eficiente possível. Sim, atualmente o Black Mirror nem parece mais fazer tanto sentido, em um mundo em que as pessoas utilizam ferramentas online para consultas psicológicas, empresariais ou mesmo como parceiros amorosos (ou sexuais). Bom, no campo conhecido como "computação afetiva" não são poucos os estudos que possibilitam aos robôs identificarem expressões faciais, adaptar a conversa de acordo com o estado emocional da pessoa ou mesmo inferir se o sujeito está triste, irritado, ansioso ou feliz. Se enfiar a voz da Scarlett Johansson lá no meio certamente está feito o estrago e, bom, as máquinas não têm consciência, mas nós temos. E os limites parecem borrados, entre o otimismo e o ceticismo científico.
Na obra de Spielberg - que pegou o bonde andando das mãos de Stanley Kubrick -, a cena mais comovente da trama envolve o instante em que Monica (Frances O'Connor), simplesmente abandona David (Haley Joel Osment) no meio do mato, após um evento traumático quase desencadear a morte do filho real dela, Martin (Jake Thomas), afogado em uma piscina. Com uma doença severa e em processo lento de recuperação, não parecia haver muito otimismo quanto à recuperação de Martin. O que faz com que o marido de Monica, Henry (Sam Robards) aceite levar para casa um protótipo moderníssimo de robô - chamado de Meca - como forma de substituir o menino. Que, contra todos os prognósticos melhora, volta pra casa, e inicia uma disputa particular com o irmão humanoide. Na queda de braço, Martin leva a melhor, restando a David o mato. Enquanto ele suplica aos berros para Monica de que ele "pode ser real". Aliás, o "desculpe por não ser real" é a frase mais trágica dita pelo menino, que se vê em um lixão da indústria Cybertronics, que desenvolve os modelos eletrônicos.
Em uma segunda parte bastante movimentada em um submundo cyberpunk decadente, após o aquecimento global meio que destruir parte do mundo - uma realidade que ainda não tínhamos a dimensão até aquele momento -, David faz amizade, de forma meio aleatória, com o charmoso robô Joe (Jude Law), que funciona como um gigolô destinado à satisfação de mulheres solitárias. Após uma pequena temporada em uma espécie de circo itinerante em que uma multidão bastante agitada se reúne para assistir a destruição em massa de robôs desgarrados e inutilizados (um tipo de evento histriônico que talvez tivesse tração entre a extrema direita interessada em oprimir qualquer tipo de minoria, em uma alegoria óbvia), David e Joe conseguem escapar. Dando início a uma saga que visa encontrar a Fada Azul - sim, ela mesma, a dos livros do Pinóquio -, que lhe permitiria consolidar o desejo de ser um menino de carne e osso. E, portanto, digno do amor de Monica.
Com ótimo desenho de produção, efeitos especiais e trilha sonora, AI: Inteligência Artificial segue sendo uma obra ao mesmo tempo contemplativa e movimentada, que permite uma série de reflexões a respeito dos caminhos da tecnologia e de quais os limites éticos ou morais ligados ao tema. Seremos capazes de, no futuro, reproduzir a arquitetura de nossos cérebros de forma perfeita para que as emoções emerjam de robôs da forma mais natural possível? Ou emoções genuínas dependem muito mais da biologia, da coisa orgânica ou da consciência humana? Enquanto assistia ao terço final da produção - e me comovia profundamente com o último dia na Terra de David e Monica, em um dos finais mais emocionantes do milênio - refletia brevemente sobre a nossa experiência nesse plano. E de como, em tempos em que as nossas relações parecem cada vez mais mediadas por máquinas, esse ideal não pareça nada distante da realidade. Aliás, ele já está aí e talvez seja importante ser educado com o ChatGPT. Nunca se sabe.





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