segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Novidades em Streaming - Milonga

De: Laura González. Com Paulina García, César Troncoso, Jean Pierre Noher e Laila Reyes. Drama, Argentina / Uruguai, 2023, 106 minutos.

Existe uma cena pequena, mas bastante significativa no minimalista, melancólico e sutil Milonga - o ótimo filme da diretora Laura González, que estreou na última semana na Reserva Imovision. Nela, Rosa (Paulina García) está pela primeira vez, desde que ficou viúva, em uma espécie de baile sensual da terceira idade típico da região uruguaia (e que ali recebe o nome de milonga, que também é o gênero musical tido como precursor do tango). É um momento de libertação pra Rosa, que está acompanhada de sua melhor amiga, a extrovertida, solar e desinibida Margarita (Laila Reyes), uma de suas maiores incentivadoras. Lá pelas tantas, a tímida protagonista ouve o barulho de um copo quebrando - e de um burburinho no ambiente, como consequência do episódio. É o suficiente para que um gatilho dispare e para que Rosa tenha de ir às pressas ao banheiro, após uma queda de pressão e do aumento da ansiedade.

Até aquela altura do campeonato, o espectador apenas desconfia dos motivos que levam Rosa a ter um comportamento bastante introspectivo, quase taciturno. Condição, aliás, que é agravada por um outro episódio traumático: no caso, a prisão de seu filho, em condições pouco claras. E, como se não bastasse o cárcere do rapaz, ainda parece haver um grande esforço não apenas dele, mas também de sua nora Alejandra (Clara Alonso), para que ela não o visite. E que não encontre também o neto, num provável caso de alienação parental. Mas se há um certo indício de que Rosa possa ter sofrido algum tipo de violência física e psicológica no passado - vinda, muito provavelmente, de um ex-marido controlador e agressivo -, por que seu filho a isola? São questões que perpassam a narrativa, mantendo o interesse sempre constante, em uma obra naturalista que tem o seu próprio tempo - econômico, metódico, sem pressa.

 


Rosa atualmente reside em uma grande casa uruguaia, com um amplo jardim que está meio abandonado. A caminhoneta do ex-marido não é mais necessária - e é depois de colocar o veículo à venda, que surge em sua vida Juan (César Trancoso, visto no inesquecível O Banheiro do Papa, 2007), um pintor bastante metódico, a ponto de organizar suas espátulas e pinceis com um ordenamento que vai quase no limite do transtorno. Rústico, mas amistoso, Juan faz amizade com Rosa, que indica a ele que quer modificar a cor do muro que ladeia a habitação (sai o brando pálido que era a cor preferida do falecido e entra o verde água, alegoria para os tempos de esperança). Com um radinho à tiracolo, Juan é adepto do tango - o que é a deixa para que ambos entrem no assunto das milongas e da possibilidade de irem juntos aos bailes incentivados por Margarita que, a despeito de ser uma senhora de 60 e poucos anos, não abre mão do salto alto e daquilo que ressalta sua feminilidade. Aliás, ela deseja que a amiga também se solte. Que desabroche. E talvez a parceria com Juan possa ser o caminho para isso. Será?

E, verdade seja dita, poucos filmes desse ano terão um desenrolar tão imprevisível e surpreendente em suas minúcias, em seus detalhes, como esse premiado projeto dos nossos vizinhos. Fosse um filme de Hollywood e talvez a onipresença magnética e prática de Juan, representasse uma possibilidade futura para quebra de padrões em relacionamentos - e para deixar para trás traumas, dores, luto e uma vida de sofrimento. Mas Milonga, com sua personalidade nunca óbvia, faz um importante alerta: para que as barreiras sejam, de fato, rompidas, há que se olhar para o futuro, sem ignorar aquilo que o passado ensina. Por muito pouco Rosa não entra num ciclo repetido que inicia em violências quase imperceptíveis e rotineiras - como na crítica à cor da sandália usada - até chegar à agressão à simpática Coquita, a cachorra da protagonista. O que culminará num hostil "vocês mulheres são todas iguais". No começo do filme, Rosa enfrenta dificuldades para tirar a aliança. Ao final, consegue trocar o chuveiro sozinha. Pode ser uma mensagem quase óbvia sobre independência feminina. Mas pra quem cresce em um ambiente patriarcal em que certos assuntos nunca são discutidos, não deixa de ser uma simbólica vitória. O que, ao som da linda La Cumparsita, de Geraldo Rodríguez, fica ainda melhor.

Nota: 9,0

 

Novidades em Streaming - Não Deseje Boa Sorte (Don't Sat Good Luck)

De: Julia Hart. Com Sunny Sandler, Melanie Lynskey, Max Greenfield e Jack Champion. Comédia / Drama, EUA, 2026, 95 minutos.

Preciso admitir que gosto demais quando vou assistir a um filme em que não estou dando absolutamente nada e saio surpreendido positivamente - o que é justamente o caso do carismático e comovente Não Deseje Boa Sorte (Don't Say Good Luck), uma das novidades da última semana na Netflix. Sem reinventar a roda, a diretora Julia Hart constroi uma fábula de amadurecimento, perda e superação que emociona sem forçação, ao nos fazer acompanhar a jornada de uma jovem de 17 anos - seu nome é Sophie (Sunny Sandler, filha de Adam e Jackie Sandler, que produzem a obra) -, que sonha com o papel principal em uma peça de teatro musical de Ensino Médio que reencena A Garçonete, ao mesmo tempo em que precisa lidar com o fato de a mãe, Elizabeth (a sempre ótima Melanie Lynskey), padecer de um câncer terminal.

Sim, é o típico drama hollywodiano em que dois eventos concomitantes e diametralmente opostos colidem, com os personagens tendo de tomar decisões difíceis a partir deles. Só que o que poderia ser apenas uma encenação vazia a respeito de empatia, luto e força de vontade para seguir em frente, aqui ganha tintas menos pesarosas, com a adição de alguns instantes de humor - Lynskey, aliás, sempre foi ótima nisso -, e com algumas soluções de roteiro inesperadamente engenhosas. Uma delas, por exemplo, sendo o fato de o pai de Sophie, o esforçado Ted (Max Greenfield) ser um atrapalhado integrante da Geração X, que tem sérias dificuldades com o seu aparelho celular. O que faz com que ele ligue sem querer para seus familiares (aquilo que o idoso faz quando esquece o telefone desbloqueado no bolso).

 


É num desses telefonemas ao acaso, que Sophie descobre, bem no momento em que subiria ao palco para a sua audição, que sua mãe é diagnosticada com a volta da doença (que parecia já estar sendo tratada), de forma agressiva. Só que o que poderia desequilibrar a protagonista na disputa pelo papel principal, se converte justamente no combustível: com uma atuação impecável, ela é selecionada para viver a protagonista Jenna, após impressionar a diretora de elenco Ms. Parker (Stephanie Beatriz, a eterna Rosa Diaz de Brooklyn Nine-Nine, uma das tantas participações especiais no projeto, sendo as outras as de Steve Buscemi e Bebe Neuwirth, como os avós impertinentes de Sophie, e do comediante Jon Lovitz, o confeiteiro principal na delicatessen tocada por Ted). E, bom, temos um filme de corrida contra o relógio, já que a trágica notícia é a de que Elizabeth tem poucos meses de vida. E será que ela terá tempo de assistir ao desempenho da filha na peça?

Tentando poupar a jovem das notícias mais trágicas, Elizabeth opta por esconder a gravidade da coisa toda. Sim, ela sabe que é câncer e que é sério. Mas não tem conhecimento de que há um prazo. Todo esse caos a atrapalha em suas sessões de atuação, o que a deixa bastante insegura - situação reforçada por seu par central de elenco ser justamente o jovem Jack (Jack Champion), por quem nutre uma paixonite adolescente. A situação fica tão séria conforme a trama avança, que até a amizade com a melhor amiga Carolyn (Scarlett Estevez) é abalada. Afetuosa e emocionante, a produção ainda evidencia o fato de as pessoas terem dificuldade em reagir diante de uma pessoa que sofre de uma grave doença. E, por muito pouco, a obra não converte um instante ao som de Firework, de Katy Perry, em um dos mais tocantes do ano. Mas às vezes a gente esquece que, além de drama, esse filme também é uma comédia. Para o bem ou para o mal.

Nota: 7,5 

 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Novidades em Streaming - O Afinador (Tuner)

De: Daniel Roher. Com Leo Woodall, Havana Rose Liu, Dustin Hoffman, Lior Raz e Jean Reno. Ação / Suspense / Drama / Romance, Canadá / EUA, 2026, 109 minutos.

"Afinador, se você precisar ganhar dinheiro de verdade, me liga". Niki (Leo Woodall), o protagonista de O Afinador (Tuner), filme recém chegado às plataformas de streaming para aluguel, sofre de hiperacusia - um distúrbio auditivo que se caracteriza por baixíssima intolerância ou sensibilidade excessiva a sons cotidianos de intensidade moderada ou baixa. Barulhos de trânsito, sons de talheres ou mesmo o ruído normal de uma conversa pode ser insuportável e estressante pra quem sofre da condição. O que faz com que Niki permaneça o tempo todo com fones de ouvido - como forma de atenuar o sofrimento. Só que o mesmo distúrbio faz com que ele seja um habilidoso afinador de piano, ofício que aprendeu com o veterano Harry Horowitz (Dustin Hoffman), um amigo de seu falecido pai, com quem tem conversas aleatórias sobre assuntos de almanaque (como a quantidade de mercúrio presente nos atuns).

Enfim, Harry é como se fosse um segundo pai para ele. Com a van do veterano, a dupla vai para lá e para cá na cidade, afinando pianos de ricaços que nem tanto apreço assim pelo instrumento - aliás, o sonho de Niki era ter sido um músico de sucesso, mas justamente o seu excesso de sensibilidade para sons como o das teclas do piano, o impediu. Certo dia, na casa de um ricaço, Niki é atrapalhado por um trio barulhento de operários israelenses que tenta, em vão, abrir um cofre com furadeiras e outros instrumentos. Nesse contexto, o protagonista se oferece para abrir o compartimento de forma silenciosa, a partir dos discretos ruídos feitos pela roldana da estrutura de segurança do local. Um clique aqui e outro ali e ele alcança seu objetivo - aliás, mais um aprendizado obtido com a ajuda de Harry, que havia esquecido a senha de seu próprio cofre, anteriormente.

 


E, claro, em um filme assim, para que a narrativa avance e desperte algum interesse é necessário algumas conveniências de roteiro. Em uma delas, Niki conhece a talentosa pianista Ruthie (Havana Rose Liu) com quem trava uma espécie de disputa musical que, mais adiante, se converterá em amizade e... paixão, claro (duas pessoas lindas sempre estão desimpedidas em qualquer filme de Hollywood, sabemos bem). Com mais de 80 anos, Harry acaba tendo um ataque cardíaco em outro momento e, como não há SUS num dos piores países do mundo, o tratamento gera uma dívida milionária. Niki mal e mal tem dinheiro pra se manter. Que dirá pra apoiar seu tutor. Quer dizer, há a oferta feita por Uri (o ótimo Lior Raz) e que está na frase que abre essa resenha, que é dita após ele ficar embasbacado com o fato de Niki ser capaz de abrir cofres de forma silenciosa. O que desbloqueia muitas possibilidades para o trio de larápios que, ao cabo, vive de pequenos golpes em casas de endinheirados.

Em linhas gerais, essa é aquela produção bem estruturada, com começo meio e fim bem delineados e que se vale do carisma de seus personagens como uma de suas forças. Niki passa a trabalhar com Uri e seus capangas e não é preciso ser nenhum expert para saber que, mais adiante, a coisa sairá do controle - ainda mais com tantos cofres abertos e tantas joias (como relógios) e grana rolando. Para o jovem protagonista o trambique é eficiente por permitir pagar o tratamento de seu amigo Harry - ainda que a esposa do homem, Marla (Tovah Feldshuh), desconfie de que há um esquema por trás de tanto dinheiro. Com boas surpresas e excelentes reviravoltas no roteiro, a obra ganha um pouquinho mais de força na reta final, especialmente depois do surgimento de Maissner (Jean Reno), um notável maestro que promete um emprego à Ruthie. Bom, o finde tá aí e pra quem procura um filme sem muita invencionice para assistir em família, talvez esse seja o ideal. Tá na Amazon Prime e na Apple TV.

Nota: 7,0 

 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Pitaquinho Musical - Kelela (new avatar)

Quando escuto um disco como o new avatar, terceiro registro de inéditas da Kelela, fico imaginado aquele tipo de noite que talvez nunca existiu direito - ao menos fora da minha mente de morador do pequeno povoado do sul global. Classudo, espectral, aconchegante e sofisticado esse é o tipo de projeto que nos joga para as luzes urbanas e cintilantes da cidade enquanto o carro roda; para a pista performática e eventualmente introspectiva das três da manhã e para a solidão do quarto em uma madrugada que já se conecta com o início da manhã. Sim, é meio tentador resumir o trabalho como uma mescla de R&B, soul e eletrônica, mas não deixa de ser interessante notar como Kelela parece disposta a explorar outros terrenos sonoros - o que pode ser percebido, aqui e ali, pela guitarra que emula uma espécie de shoegaze noventista e que, em alguma medida, funciona como justíssima homenagem à precursores do instrumento número um dos "rockistas" (que, verdade seja dita, teve seu embrião na música negra, antes da apropriação por um bando de brancos bem nascidos e que talvez a máxima subversão fosse fumar maconha escondido dos pais).

 


No comunicado que enviou à imprensa e que antecipava o anúncio do álbum, a artista fez questão de lembrar que não deseja que a música seja uma mera distração do que realmente está acontecendo no mundo. "Eu quero que ela faça sentido neste momento louco, enquanto ajuda as pessoas a entrar em contato com a beleza e a alegria que também estão experimentando", afirmou. Não por acaso, a ideia de um avatar como alegoria para a construção de novas formas de existência em meio ao caos político, social, cultural e religioso - com avanço da extrema direita e políticas de opressão à minorias (como no caso das pessoas negras e queer) -, surge como a metáfora óbvia de um trabalho em que a transformação e adaptação parecem estar no centro. O resultado é uma coleção de canções impactantes em sua sonoridade etérea e límpida, com menos refrãos óbvios e mais versos potentes, como no caso da abertura com idea 1 (inspirada na obra da escritora Octavia Butler), linknb (sobre pertencimento cultural) e don't piss me off (a respeito de raiva convertida em resistência). Enfim, um dos grandes discos do ano.

Nota: 9,0 

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Tesouros Cinéfilos - A Praga (The Plague)

De: Charlie Polinger. Com Everett Blunck, Kayo Martin, Kenny Rasmussen e Joel Edgerton. Drama / Suspense, EUA / Austrália, 2025, 98 minutos.

Em uma das primeiras cenas de A Praga (The Plague), o jovem Ben (Everett Blunck) está tentando se enturmar com os colegas adolescentes do acampamento de polo aquático em que acaba de chegar. Ele ainda é o novato tímido de olhar curioso e está meio que tateando aos poucos, buscando algum ponto de segurança em um contexto que talvez seja um dos piores do planeta: o de ser o desconhecido em um bando de crianças na faixa dos 12 e 13 anos que, a despeito da falta de maturidade, comportam-se como sujeitos autossuficientes e, eventualmente, arrogantes. Ao chegar com seu prato de comida ele já ouve alguma gracinha sobre ter escolhido o sabor de suco errado (uva ou laranja, há algum que é melhor). Mas tudo piora quando o coletivo se dá conta de que Ben possui um tipo de transtorno de som da fala, que faz com que ele omita certos fonemas (no caso ali, da dificuldade em verbalizar a palavra stop, que vira algo tipo ssóp).

Claro que isso já será motivo pra muita gaitada - com a frente desse bullying ainda preliminar sendo puxada pelo pequeno Jake (o ótimo Kayo Martin) que, a despeito de seu tamanho diminuto e da pouca idade, possui uma alta capacidade de uso de deboche e de ironia. E a coisa só não é pior para os lados de Ben porque existe um outro aluno - seu nome é Eli (o também excelente Kenny Rasmussen), que é o alvo principal do grupinho ali. Chamado pelos demais de praga - por conta de um severo problema dermatológico que descama a sua pele -, Eli vive isolado pelos colegas, mas sem necessariamente se impactar com isso (o que talvez sugira que ele tenha algum outro tipo de transtorno, como, talvez, de espectro autista). Ele segue sua vida meio que normalmente, ignorando os demais - e não deixa de ser divertido perceber como o roteiro brinca com essa ambiguidade envolvendo a complexidade de sua personalidade por meio da inclusão de detalhes simples, como o uso do clássico musical noventista Run Away de Real McCoy, que escapa de seu fone de ouvido.

 


Aliás, importante dizer que a trilha sonora, nesse filme de estreia do diretor Charlie Polinger e que ainda não chegou às plataformas de streaming, é um espetáculo à parte, com suas notas cortantes, experimentais, frias e desconfortáveis. É ela que, em muitos momentos da narrativa, funciona como uma espécie de fio condutor das tensões, que parecem sempre prontas a emergir (mesmo que essas ocorrências nunca pareçam maiores do que uma risadaria abobada por um comentário torto ou até por uma ereção inesperada de um colega). Em certa altura, por exemplo, após resolver auxiliar Eli a passar uma pomada em suas costas, auxiliando-o na alergia, Ben é isolado pelos demais da forma mais cruel que pode haver quando o assunto é a prática esportiva: nas disputas de polo aquático, ninguém passa a bola pra ele. A mão esticada permanece vazia, no vácuo, reforçando a ideia de solidão em meio aos demais.

Porque o bullying, verdade seja dita, em muitos casos não é agressão constante ou apupo o tempo todo. É sutileza na arte de abalar a moral do outro - o que pode ser perturbador e trágico para quem está amadurecendo, formando sua personalidade e também a ideia de masculinidade. Aliás, uma obra como essa pode não ser uma bandeira tão ostensiva ao apontar o dedo para o problema da cultura redpill que coopta jovens inceis pelo mundo, mas funciona como uma espécie de embrião a deixar os adultos - aqui representados pelo treinador Wags (Joel Edgerton) - sempre atentos. Hábil, a produção não converte aqueles jovens em sujeitinhos maniqueístas que são bons ou maus o tempo todo, sem nenhuma variação no traço de comportamento. Jake pode até ser o mais pestinha, mas isso não faz com que ele ignore completamente o novato ou ensaie algum tipo de amizade meio desajeitada com ele. Já Ben, mesmo sendo um jovem vulnerável e candidato óbvio da humilhação e das intimidações vindas dos demais, nunca é apresentado como coitadinho. O que é evidenciado por sua complexa relação com Eli. Ao cabo, aqui temos uma obra que respeita a inteligência do espectador, sem entregar todas as respostas de mão beijada. "Você acha que pode ser você mesmo e não dar a mínima para que os outros pensam?", argumenta um revoltado Ben quase ao final do filme? É a reflexão que fica.

 

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Novidades em Streaming - A Última Casa (The Last House)

De: Louis Leterrier. Com Wagner Moura, Greta Lee, Riley Chung e Noah Alexander Sosnowski. Ficção Científica / Suspense / Drama, EUA / França / Reino Unido, 2026, 112 minutos.

Devo admitir que foram dois os motivos que me fizeram dar play neste A Última Casa (The Last House) - a despeito da maior carinha de "melhor filme dos últimos tempos da última semana", que daqui mais ou menos um mês mais ninguém lembra que sequer existiu. Primeiro de tudo a presença do Wagner Moura - e não tem como não ficar curioso em vê-lo atuando, ainda mais em Hollywood, após a bem sucedida temporada de premiações de O Agente Secreto (2025). Depois, a temática, já que adoro essas ficções científicas especulativas, em que imaginamos realidades alternativas e como nos comportaríamos frente a elas - sendo aqui, no caso, a ideia de uma família forçadamente presa dentro de sua própria casa por forças malignas, como numa junção entre filmes de terror B e o cinema, com uma boa dose de boa vontade, de Luis Buñuel. Tá, admito que forcei porque não tem como uma produção da Netflix de 2026 ter o caráter alegórico e crítico à elite endinheirada do realizador de O Anjo Exterminador (1962) e O Discreto Charme da Burguesia (1972). Talvez não caibam nem na mesma frase.

Na trama de pegada ambientalista - como muitas da atualidade, aliás -, uma chuva persistente meio que joga todo o mundo pra dentro de suas próprias casas, já que a perspectiva é de temporal feio (e como gaúchos moradores do Vale do Taquari, sabemos bem o temor que isso pode representar). Entre essas pessoas está Jason (Wagner Moura), um engenheiro desempregado que ocupa seus dias pescando e que, após se resguardar de uma tempestade ao lado da esposa Ann e dos filhos Graham (Noah Alexander Sosnowski) e Ruth (Riley Chung) se vê impossibilitado de abrir qualquer porta ou janela de sua residência típica de subúrbio estadunidense. O estranhamento inicial joga o quarteto para um grande janelão da sala, onde, num modo meio Janela Indiscreta (1954) - mas sem um crime acontecendo - eles constatam que seus vizinhos estão meio que na mesma. Ninguém pode sair por quadras a fio, como se todas as casas estivessem seladas pela própria água, que adquire um efeito isolante.

 


Com uma boa relação entre si, o casal e os filhos ficam inicialmente preocupados, mas nunca exasperados - já que imaginam que, em algum momento, a coisa será desbloqueada. Só que os dias passam e, como não poderia deixar de ser, sem poder ir no mercadinho da esquina ou na farmácia, os estoques de comida, de medicamentos e de outros itens de abastecimento básico, vão aos poucos escasseando. E junto com eles surge também o estresse que, inevitavelmente, nos remete aos tempos pandêmicos - na metáfora mais inicialmente óbvia, ainda que soe um tanto tardia e deslocada no tempo, vamos combinar. E tudo piora quando, pouco a pouco, os Delgado (sim, o sobrenome tem essa pegada meio espanhola, já que, onde já se viu o povo da Terra do Tio Sam entender que brasileiro fala português, né?) percebem que não podem mais chegar tão perto assim das portas e das janelas em dias de chuva já que parece haver criaturas meio malvadonas do lado de fora, sentimento reforçado por um brutal ataque a uma vizinha que se vê inesperadamente na rua.

Esse medo que não se sabe bem do quê e que é sugerido no transcorrer da narrativa - Governo? Alienígenas? Grandes corporações? Tecnologia? Devastação ambiental? Especulação imobiliária? - poderia ser melhor explorado em um roteiro um pouco mais imaginativo, que não fosse centrado apenas na rotina da própria família em uma tentativa desesperada de sobrevivência. O que faz, aliás, com que a solução final pareça apenas pálida, lembrando o que ocorre em filmes como os do M. Night Shyamalan, que nunca são ruins, mas que dificilmente conseguem ser completamente satisfatórios. Lá pelas tantas há um cansaço na repetição de ideais - de sustos, de sistemas integrados para a sobrevivência (com a criação de hortas domésticas improvisadas e "pescaria" de animais convenientemente capturados pelo hábil engenheiro Jason). Há, aqui e ali, um ensaio de algo que poderia dar bom, como no instante em que Jason e um de seus vizinhos investem em uma comunicação improvisada por placas - que poderia reforçar a crítica ao individualismo e à falta de senso coletivo de nossos tempos, que faz com que nos isolemos cada vez mais. Ou mesmo no momento em que a família recorre aos DVDs e aos discos de vinil como um aceno ao básico pra ser feliz - com direito a um belo instante ao som Close To Me, do The Cure. Mas, em geral, fica tudo meio que no quase, sem nunca empolgar de fato.

Nota: 5,5 

 

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Pitaquinho Musical - The XCERTS (i think i want to go home now)

Vamos combinar que o mundo tá muito no erro quando uma banda bacana como o The XCERTS é simplesmente ignorada por tanto tempo. Bom, na lista de melhores discos de 2026 que você não ouviu, i think i want to gome home now (com minúsculas mesmo), o sexto registro de inéditas dos escoceses, tem lugar cativo. Com uma mistura saborosa de power pop e indie rock, com pitadas de noise e punk, o grupo faz música direta e sem firulas, que jamais soa apenas derivativa ou sem personalidade. Há ali uma urgência, um vigor que a gente quase esquece ser possível nos tempos atuais, em que gêneros musicais parecem tão mesclados (e que bom) e sem uma linha de divisão mais clara. Sim, sim, sim, não vai reinventar a roda e todos nós já ouvimos esse tipo de música melodiosa, que parece meio afogada em dor com seus vocais gritados e refrãos grudentos mas, verdade seja dita, é sempre bom ver a coisa bem feita já que, convenhamos, quem ganha é quem dá o play.

 


Repleto de letras existenciais e divagações contemplativas que, na real, sempre foram a marca registrada da banda - especialmente em discos de melodias mais atmosféricas, como no caso do ótimo Hold on to Your Heart (2018), que parece extraído da mesma fileira do The War On Drugs -, o álbum tem uma certa catarse em seu DNA. O que pode ser percebido, por exemplo, na desconfortável e pegajosa do it to myself, com sua letra urgente e vulnerável sobre admitir o sentimento de fragilidade (Quero saltar dentro do teu coração / Então eu posso desmoronar com segurança). Já a enérgica pretty ugly é naturalmente pesada, o que pode ser percebido para além da sonoridade, com seus versos sobres traumas familiares, decorrentes do diagnóstico de câncer do pai do vocalista Murray Macleod. Em linhas gerais, talvez esse seja um trabalho que não alcança o brilhantismo do inexplicavelmente esnobado There Is Only You (2014), que conta com as assombrosas Shaking in the Water e Teenage Lust. Mas chega perto. 

Nota: 8,0 

Novidades em Streaming - Hit Para Dois (Power Ballad)

De: John Carney. Com Paul Rudd, Nick Jonas, Marcella Plunkett e Peter McDonald. Comédia, EUA / Irlanda, 2026, 98 minutos

Vamos combinar que casos de plágio, cópia ou apropriação de melodias ou letras, no mundo da música, não chegam a ser novidade. Recentemente, por exemplo, após a apresentação da Shakira na Copa do Mundo, voltou à baila a discussão sobre ela ter, supostamente, pego para si o famoso refrão da canção Waka Waka (This Time for Africa) que bombou em 2010 - e até aí estava tudo bem ao menos até a banda camaronesa Golden Sounds reivindicar os direitos autorais que envolvem a música Zangalewa, lançada em 1986 (e vale procurar na internet porque as semelhanças são impressionantes). Bom, disputas jurídicas à parte, ambos os lados chegariam mais tarde a um acordo, com a colombiana meio que jurando de pé junto que a apropriação não foi deliberada e que, sim, foi resultado de um processo criativo envolvendo um sem fim de experiências culturais e influências sonoras mundo afora.

Bom, corta pra 2026 e temos Hit Para Dois (Power Ballad), filme de temática semelhante, com um quezinho de Letra e Música (2007) - ao menos no que diz respeito ao carisma dos envolvidos -, em que sai o integrante da banda dos anos 80 decadente (o ótimo papel de Hugh Grant) e entra o músico Rick Power (Paul Rudd), que nunca aconteceu no mainstream, até mesmo por causa de suas escolhas pessoais e de vida. Com uma filha pra criar e casado com a ex groupie Rachel (Marcella Plunkett), Rick é um celebradíssimo vocalista daquelas típicas bandas covers de casamento, que fazem sucesso cantando, entre outras, Celebration do Koll and the Gang e Maneater, da dupla Hall and Oates. Mas no íntimo dele, ele ainda parece sonhar com algum tipo de estrelato - o que culmina na constrangedora sequência inicial, em que eles cantam uma canção genérica e autoral de rock anos 90 meio Soul Asylum e que meio que ninguém pediu, se deparando com o inevitável esvaziamento da pista de dança logo após.

 


E se na produção de Marc Lawrence tínhamos uma Drew Barrymore irresistível, que ajudava o protagonista a retornar ao estrelato, deixando para trás as apresentações em feira agropecuárias, aqui temos Danny Wilson (Nick Jonas, que interpreta alguém que talvez dialogue um pouquinho a mais com a sua persona da vida real do que o imaginado, já que ele nunca retornaria aos anos de ouro dos Jonas Brothers), um cantor famoso por integrar uma boy band no passado e que agora está empenhado em construir uma carreira mais sólida como um músico mais... sério, por assim dizer. Em um encontro meio despretensioso em um casamento em que Danny era amigo do casal, ambos não apenas cantam juntos no palco improvisado da festa - em um vídeo que viraliza -, como se juntam na mesma madrugada para uma sessão de maconha regada ao compartilhamento de trechos de músicas, fragmentos, letras espalhadas e refrãos diversos. Nada muito sério, ao menos até ali, que não fossem dois músicos bebendo e se divertindo.

Hábil na construção das cenas que envolvem a concepção musical - suas melodias, ritmos, composições -, o diretor John Carney, que tem uma longa tradição de filmes com temáticas sonoras, se alonga de forma confortável nesses instantes íntimos, de músicos dedilhando violões, mostrando trechos ou partituras e outros elementos que poderiam passar batido por quem não se liga tanto nesse campo. E é em um desses momentos que Rick mostra um pedacinho de How to Write a Song (Withou You), que tinha potencial para ser um hit e nunca foi, por essas vicissitudes da vida. Meses após, Rick está em um shopping center e tem a impressão de ouvir uma melodia bastante conhecida no rádio e que... parece bastante a música dele mesmo! Divertida e charmosa, a obra acerta por não vilanizar em excesso nenhum dos lados - talvez, assim como Shakira, Danny não tenha feito algo deliberado - não deixando de evidenciar como o desejo por fama pode fazer com que esqueçamos das coisas simples, ou daquilo que realmente importa. E, honestamente, não pensei que fosse concluir a sessão com lágrimas nos olhos. E aconteceu. Mérito de um projeto pequeno, que tem seu valor.

Nota: 7,5