De: Akinola Davies Jr. Com Sope Dirisu, Godwin Chiemerie Egbo e Chibuike Marvellous Egbo. Drama, Reino Unido / Nigéria, 2025, 94 minutos.
Vamos combinar que quando o assunto é Golpe de Estado, meio que só muda o endereço. Ou o País, já que muitos têm o seu, a grande maioria perpetrado por militares, em muitos casos com o apoio dos Estados Unidos. E no caso da Nigéria não é diferente - e é exatamente esse o pano de fundo do sensível e potente A Sombra de Meu Pai (My Father's Shadow), o enviado do Reino Unido para a categoria de Filme Estrangeiro, no último Oscar. Aqui, temos uma experiência contemplativa, por vezes quase onírica, sobre um pai - seu nome é Folarin (Sope Dirisu) - que, com o objetivo de preservar seus filhos Akin (Godwin Chiemerie Egbo) e Remi (Chibuike Marvellous Egbo), mantém uma vida meio dupla em que, aparentemente, integra um grupo de resistência à violência de Estado. O que parece ficar mais claro a cada novo encontro com pessoas e ambientes desconhecidos pelos pequenos.
Tão misterioso quanto amoroso, o pai convida as crianças para uma viagem improvisada à capital Lagos - a ideia é cobrar o seu empregador o pagamento do salário atrasado já há alguns meses. O que também se torna oportunidade para que nos aprofundemos nos bastidores políticos, sociais, culturais e até religiosos da nação africana. Tudo é feito de forma bastante sutil, cabendo ao espectador montar essa espécie de quebra-cabeças que, no limite, e às vésperas das eleições, culminará na possível vitória no pleito de MKO Abiola, um empresário e filantropo que, com sua popularidade, parece unir o País. O ano é 1993 e a turbulência ronda por cada canto, pelas frestas - não por acaso, na primeira parte da viagem, ainda em um ônibus, tem início uma discussão acalorada sobre política, que não faria feio nos tempos do Brasil de Lula e de combate à uma extrema direita golpista, truculenta e antidemocrática. O ônibus para por falta de gasolina. E o embate segue do lado de fora da condução.
Tendo seu pagamento adiado para o final da tarde, Folarin resolve levar Akin e Remi para essa Lagos mais profunda, alternando entre momentos prosaicos e calorosos, em que visitam o parque de diversões, tomam banho de mar e saboreiam iguarias gastronômicas da capital, com outros mais tensos, em que conduções repletas de militares com caras de poucos amigos, trafegam normalmente em meio ao trânsito. Fervilhante, a obra converte a capital, com sua imprevisibilidade urbana, cheia de cores e repleta de diversidade em um elemento central da narrativa, ressaltando a complexidade da experiência de vida em um País africano - em muitos casos culturalmente heterogêneo, mas invariavelmente repleto de contrastes sociais. "A Nigéria é um País difícil" divaga Floarin em certa altura, como que tentando fornecer algum tipo de amparo às crianças. Que lhe olham no limite entre a ternura e o receio.
Aliás, um dos pontos centrais da narrativa está justamente na força da relação desse trio, que sai de casa deixando apenas um bilhete para a mãe. Em conversas íntimas e francas, os filhos inquirem o pai a respeito de seu comportamento errático, distante, de quem está muito mais ausente do que presente. Revelações comoventes como a da perda do irmão na juventude - em um trágico afogamento -, que se alternam com um quase fatídico atropelamento em meio ao trânsito agitado, formam uma espécie de alegoria para a perturbação do todo. Como se naquele microcosmo de um pai que não consegue fornecer condições mínimas de sobrevivência aos próprios filhos, estivesse uma metáfora para o sofrimento de todo um povo. Dinâmico mas reflexivo, esperançoso mas dolorido, esse é aquele tipo de projeto que parece sempre guiado pelo olhar de uma criança, que ainda não sabe sobre o mundo que lhe aguarda lá fora. E talvez aí esteja parte de sua beleza.







