De: Lars Von Trier. Com Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Alexander Skarsgård, John Hurt e Charlotte Rampling. Drama / Ficção Científica, Dinamarca / Suécia / França / Alemanha, 2011, 131 minutos.
Um filme catástrofe, mas sobre a nossa catástrofe interior. Não sobre um planeta que vai colidir com o nosso, mas como as nossas angústias colidem com o corpo físico. Nos deixando desabilitados ou mesmo incapazes de superar medos, incertezas ou dores. O consciente sendo simplesmente invadido pelo inconsciente. E toda a complexidade que envolve doenças como depressão ou ansiedade. Aliás, quem já sofreu com tais quadros, talvez tenha muito mais facilidade em compreender os motivos de Claire, a personagem de Charlotte Gainsbourg, sofrer tanto com aquilo que ela acredita ser a proximidade da morte. Para o espectador nunca fica exatamente claro o seu quadro de ansiedade - ainda que ele só aumente conforme o planeta sugestivamente chamado de Melancolia (Melancholia), se aproxima inapelavelmente da Terra. Azul, imenso, imprevisível, doloroso.
Sim, hoje em dia, após tantos debates a respeito da obra de Lars Von Trier - de Dogville (2003) -, já parece bastante claro o fato de que a catástrofe em vias de ocorrer no filme, é muito menos literal do que imaginamos. Aliás, o próprio diretor dinamarquês, em entrevistas, chegou a comentar que a ideia para o filme surgiu justamente das longas sessões de terapia com o seu psicólogo, quando tratava um severo caso de depressão. Aliás, o que o filme deixa claro, também, é que esse tipo de doença independe de condição social, de prestígio ou qualquer outra coisa. Não por acaso, o cenário é voluptuosa casa de campo de John (Kiefer Sutherland), o marido de Claire. E que servirá de palco para o casamento da irmã de Claire, Justine (Kirsten Dunst). O que parece mais uma medida desesperada de tentar fazer com que ela supere, de qualquer maneira, a depressão. Que, como todos sabemos, não se resolve com felicidade forçada. Ou meios sorrisos.
Não por acaso, Justine trafega por aquele ambiente como se estivesse deslocada. Como se fosse uma mera convidada. Ou algum tipo de participante involuntária de algum game, como aquele visto em Vidas em Jogo (1997). "Você está feliz?", as pessoas insistem em perguntar. O seu sorriso que consegue ser melancólico e doce em igual medida, entrega: mesmo quando ela se diverte, como na parte em que a limusine que a conduz para o casamento tranca no acesso, não parece ser algo natural. O mesmo valendo para a forma com que ela protela essa felicidade protocolar, que responde aos ritos sociais e ao que prevê as convenções, O que pode ser percebido no momento em que, ao invés de simplesmente entrar no salão de festas após mais de duas horas de atraso que exasperam os convidados, ela ainda optar por cumprimentar o seu cavalo preferido no estábulo. Ou mesmo indo simplesmente dormir, mais adiante - este, aliás, um dos mais tradicionais refúgios de pessoas em depressão.
Dividido em duas metades, uma para Justine e outra para Claire, a obra se ocupa de uma série de pequenos momentos que estabelecem diálogo com a proposta da produção - que, sim, pode parecer hermética em seus excessos de imagens oníricas ou cheias de simbolismos, mas que nunca soam essencialmente complexas apenas porque sim. O que fica evidente já na colagem inicial em que várias ocorrências alegóricas são despejadas em câmera lenta, com uma delas chamando bastante a atenção e que, muito provavelmente, servirá como guia daquilo que acompanharemos pelas próximas duas horas - que é o momento em que Claire surge em meio a um denso mato, em que tenta avançar enquanto é impedida por um emaranhado de raízes que emergem do solo. É como se caminhar fosse simplesmente impossível frente ao que ela sente. Numa metáfora bastante direta no que diz respeito ao tema da depressão.
E se na parte de Justine a chegada do planeta Melancolia parece apenas uma ideia meio distante - refutada ou não pelos cientistas ou por teóricos da conspiração -, o segmento de Claire aumenta a tensão, com a expansão da ideia de que outro corpo celeste vai simplesmente colidir com o nosso, sem margem para sobrevivência. E a forma como Claire surge acuada, aqui e ali, sem ter muito o que fazer, enquanto se empenha em apoiar a própria irmã que sofre, só evidencia o desgaste gerado em quem padece de quadros clínicos do tipo. Enigmática e visualmente exuberante - as cenas noturnas que parecem obter um contraste enevoado entre o sombrio e o iluminado -, a obra funciona quase como uma grande ópera da dor, em um microcosmo que avalia a aflição doméstica, mas sem ignorar a complexidade do mundo e do tecido social como um todo. Vencedora de vários prêmios, a produção está disponível na Mubi, e completa 15 anos de seu lançamento oficial no Festival de Cannes, agora em maio. Vale resgatar.







