terça-feira, 12 de maio de 2026

Tesouros Cinéfilos - Melancolia (Melancholia)

De: Lars Von Trier. Com Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Alexander Skarsgård, John Hurt e Charlotte Rampling. Drama / Ficção Científica, Dinamarca / Suécia / França / Alemanha, 2011, 131 minutos.

Um filme catástrofe, mas sobre a nossa catástrofe interior. Não sobre um planeta que vai colidir com o nosso, mas como as nossas angústias colidem com o corpo físico. Nos deixando desabilitados ou mesmo incapazes de superar medos, incertezas ou dores. O consciente sendo simplesmente invadido pelo inconsciente. E toda a complexidade que envolve doenças como depressão ou ansiedade. Aliás, quem já sofreu com tais quadros, talvez tenha muito mais facilidade em compreender os motivos de Claire, a personagem de Charlotte Gainsbourg, sofrer tanto com aquilo que ela acredita ser a proximidade da morte. Para o espectador nunca fica exatamente claro o seu quadro de ansiedade - ainda que ele só aumente conforme o planeta sugestivamente chamado de Melancolia (Melancholia), se aproxima inapelavelmente da Terra. Azul, imenso, imprevisível, doloroso.

Sim, hoje em dia, após tantos debates a respeito da obra de Lars Von Trier - de Dogville (2003) -, já parece bastante claro o fato de que a catástrofe em vias de ocorrer no filme, é muito menos literal do que imaginamos. Aliás, o próprio diretor dinamarquês, em entrevistas, chegou a comentar que a ideia para o filme surgiu justamente das longas sessões de terapia com o seu psicólogo, quando tratava um severo caso de depressão. Aliás, o que o filme deixa claro, também, é que esse tipo de doença independe de condição social, de prestígio ou qualquer outra coisa. Não por acaso, o cenário é voluptuosa casa de campo de John (Kiefer Sutherland), o marido de Claire. E que servirá de palco para o casamento da irmã de Claire, Justine (Kirsten Dunst). O que parece mais uma medida desesperada de tentar fazer com que ela supere, de qualquer maneira, a depressão. Que, como todos sabemos, não se resolve com felicidade forçada. Ou meios sorrisos.

 


Não por acaso, Justine trafega por aquele ambiente como se estivesse deslocada. Como se fosse uma mera convidada. Ou algum tipo de participante involuntária de algum game, como aquele visto em Vidas em Jogo (1997). "Você está feliz?", as pessoas insistem em perguntar. O seu sorriso que consegue ser melancólico e doce em igual medida, entrega: mesmo quando ela se diverte, como na parte em que a limusine que a conduz para o casamento tranca no acesso, não parece ser algo natural. O mesmo valendo para a forma com que ela protela essa felicidade protocolar, que responde aos ritos sociais e ao que prevê as convenções, O que pode ser percebido no momento em que, ao invés de simplesmente entrar no salão de festas após mais de duas horas de atraso que exasperam os convidados, ela ainda optar por cumprimentar o seu cavalo preferido no estábulo. Ou mesmo indo simplesmente dormir, mais adiante - este, aliás, um dos mais tradicionais refúgios de pessoas em depressão.

Dividido em duas metades, uma para Justine e outra para Claire, a obra se ocupa de uma série de pequenos momentos que estabelecem diálogo com a proposta da produção - que, sim, pode parecer hermética em seus excessos de imagens oníricas ou cheias de simbolismos, mas que nunca soam essencialmente complexas apenas porque sim. O que fica evidente já na colagem inicial em que várias ocorrências alegóricas são despejadas em câmera lenta, com uma delas chamando bastante a atenção e que, muito provavelmente, servirá como guia daquilo que acompanharemos pelas próximas duas horas - que é o momento em que Claire surge em meio a um denso mato, em que tenta avançar enquanto é impedida por um emaranhado de raízes que emergem do solo. É como se caminhar fosse simplesmente impossível frente ao que ela sente. Numa metáfora bastante direta no que diz respeito ao tema da depressão.

 

 

E se na parte de Justine a chegada do planeta Melancolia parece apenas uma ideia meio distante - refutada ou não pelos cientistas ou por teóricos da conspiração -, o segmento de Claire aumenta a tensão, com a expansão da ideia de que outro corpo celeste vai simplesmente colidir com o nosso, sem margem para sobrevivência. E a forma como Claire surge acuada, aqui e ali, sem ter muito o que fazer, enquanto se empenha em apoiar a própria irmã que sofre, só evidencia o desgaste gerado em quem padece de quadros clínicos do tipo. Enigmática e visualmente exuberante - as cenas noturnas que parecem obter um contraste enevoado entre o sombrio e o iluminado -, a obra funciona quase como uma grande ópera da dor, em um microcosmo que avalia a aflição doméstica, mas sem ignorar a complexidade do mundo e do tecido social como um todo. Vencedora de vários prêmios, a produção está disponível na Mubi, e completa 15 anos de seu lançamento oficial no Festival de Cannes, agora em maio. Vale resgatar.

Pitaquinho Musical - Bemti (Adeus Atlântico)

Vamos combinar que, em política, muito se usa a palavra multilateralismo para definir as formas como diversas nações trabalham de forma cooperativa, na intenção de resolver seus problemas. E, bom, se fosse possível a utilização do mesmo substantivo na música, talvez ele pudesse ser definido por aquilo que artistas como o Bemti, conseguem em álbuns como Adeus Atlântico, seu terceiro registro de inéditas. Sim, porque se anteriormente o mineiro tinha como marca da MPB mais tradicional - como no anterior Logo Ali (2021) -, aqui temos a impressão de estar em um encontro sonoro global, tamanha a quantidade de referências utilizadas pelo artista. Reflexo de suas constantes viagens não apenas pelo interior do Brasil - de Rio de Janeiro à Bahia, passando pela sua própria terra natal -, e por países, como, Portugal e Inglaterra.

 


E ainda que siga tendo como base a viola caipira - espécie de marca registrada -, Bemti amplia as referências, incorporando, aqui e ali, elementos de britpop, new age, indie rock, psicodelia e até estilos em alta, atualmente, como o amapiano, da África do Sul. O resultado é um registro de raríssima beleza, capaz de navegar pelo rock rural de Sá e Guarabyra, como na irresistível e calorosa Quase Sertão, pelo folk alternativo à Bon Iver da faixa-título, e pelo soft rock oitentista de Euforia. Direto, orgânico, humano, onírico e altamente sofisticado, esse é daqueles álbuns pequenos, mas que só crescem a cada audição. E que materializam sentimentos ligados à memória, à saudade de casa e ao deslocamento contínuo, como parte da experiência humana. Se estiver em dúvida, comece por Miragem (Viver de futuro é ensaio / Preso na função dos triunfos / Dentro de um aquário / Que todo mundo vê). Seguramente uma das melhores canções lançadas em 2026.

Nota: 9,5 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Jovens Mães (Jeunes Mères)

De: Jean-Pierre e Luc Dardenne. Com Lucie Laruelle, Babette Verbeek, Elsa Houben, Janaïna Halloy Fokan e Samia Hilmi. Drama, França / Bélgica, 2025, 106 minutos.

Em uma das tantas sequências comoventes do ótimo Jovens Mães (Jeunes Mères), mais recente produção dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne e que chega para aluguel nas plataformas da Apple TV e da Amazon Prime, uma desesperada Ariane (a ótima Janaïna Halloy Fokan) explica à sua mãe o fato de nunca a ter reprovado por ser pobre. "Eu só não queria ter o filho", suplica aos prantos, após ter levado um tapa de Nathalie (Christelle Cornil), a sua genitora e avó da bebê que carrega, a contragosto, nos braços. A visita de Ariane a Nathalie tem um objetivo central: ela dá à sua mãe os motivos pelos quais ela pretende doar a filha a uma família de acolhimento. Alguém que poderá criá-la, exatamente como permite a Lei, com melhores condições. Ariane queria abortar. A mãe não permitiu. O que é apenas uma das tantas facetas problemáticas das pressões sociais que envolvem a maternidade.

Talvez poucas jovens mulheres admitam o fato de terem sido mães para agradar a família. Quem nunca ouviu dos pais sobre o desejo de ser avô ou avó - cedendo a esse tipo de situação apenas para não romper essa lógica familiar? E que envolve, em muitos casos, o discurso conservador do papel da mulher na sociedade? O filme dos Dardenne, um mosaico complexo a respeito das eventuais precariedades da maternidade, evidencia feridas sociais variadas em que temas, como, abandono, dependência afetiva, falta de maturidade emocional, relações tóxicas, autodestruição e problemas financeiros são salpicados, aqui e ali, por meio de cinco histórias diferentes, em que mães que, em muitos casos, sequer saíram da adolescência, precisam lidar com o peso dessa enorme responsabilidade. O que ocorre, em muitos casos, com pouca estrutura familiar e com, óbvio, o abandono dos parceiros (jovens meninos que só passarão a pensar sobre o significado de colocar um filho no mundo depois que a coisa acontece).

 


Em linhas gerais essa é uma experiência dolorida e que, mais uma vez, como costuma acontecer na filmografia dos Dardenne, olha para a juventude não como uma alegoria meio abstrata para futuro ou perda de inocência. E, sim, como um estado de formação urgente frente às pressões do mundo. Em suas obras, não são poucos os casos em que adolescentes, ou mesmo crianças, são levados à tomarem decisões que, até mesmo para os adultos, podem ser eticamente questionáveis - e basta pensar em obras essenciais como Rosetta (1999), O Filho (2002), A Criança (2004) ou mesmo a recente O Jovem Ahmed (2019), para que sejamos confrontados com questões ligadas à violências, traumas e solidão. Ou mesmo a temas ainda mais complexos, ligados à questões políticas ou sociais. Em Jovens Mães, as cinco jovens do filme buscam acolhimento em uma espécie de abrigo, o que também torna evidente a importância da sororidade. Enquanto lidam com um ambiente em permanente combustão.

E não deixa de ser impressionante perceber como um filme tão curto consegue ser dotado de tanta complexidade. Se na primeira cena da obra já somos impactados pelo desespero de Jessica (Babette Verbeek), que busca algum contato com a mãe biológica que lhe abandonou, ao mesmo tempo em que precisa lidar com a própria gravidez, no instante seguinte temos Perla (Lucie Laruelle), que tem uma relação turbulenta com seu namorado (e pai do seu bebê), ao mesmo tempo em que sonha em ter uma família mais "normal", como é da sua irmã. Sendo um tanto trágico que isso tenha de acontecer em meio a interrupção de uma adolescência. No caso, a dela própria. Já Julie (Elsa Houben) precisa lidar com o vício e suas recaídas - com a maternidade surgindo, estranhamente, como uma chance para um recomeço. E há ainda Naïma (Samia Hilmi), que parece um ponto mais luminoso da narrativa, ainda que ela não escape de um lado sombrio. Indicada à Palma de Ouro no Festival de Cannes, a obra venceria o prêmio nas categorias Melhor Roteiro e do Júri Ecumênico. E é sempre muito prazeroso ver qualquer filme da dupla, afinal, nunca saímos os mesmos de qualquer que seja a sessão.

Nota: 9,0 

 

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Pitaquinho Musical - Luca Argel (O Homem Triste)

Quem acompanha a carreira do brasileiro radicado em Portugal Luca Argel, sabe que ele é capaz de ser irônico e debochado - como no simples e divertido Conversa de Fila (2019), que é uma verdadeira coletânea de sambinhas cotidianos -, mas também sério e contemplativo como no político Sabina (2023), que é inspirado em texto de Luiz Antônio Simas. O que não costuma mudar no repertório do artista é o aceno à MPB clássica que, mesclada a outros ritmos, costumam conferir força as suas composições que, com O Homem Triste, parecem ainda mais urgentes e atuais. Ainda mais em tempos de machosfera, de masculinidade frágil, de ascensão da cultura redpill e de incels que acham que podem moldar as mulheres ao seu gosto. Geralmente alinhados à políticos de extrema direita que, com seu reacionarismo atroz, ampliam discursos de ódio e, consequentemente, casos de feminicídio e violência.

 


"Começou há quatro anos, com o nascimento do meu afilhado. Olhava para ele aprendendo a andar, a falar, até que um dia ele voltou da escola diferente. Mais agressivo, rejeitando alguns brinquedos, algumas roupas, algumas cores que ele antes gostava. [...] Fiquei me perguntando: como os meninos aprendem a ser homens? Que preço temos que pagar?", explicou Argel no material de divulgação. O resultado é um conjunto de canções que exploram o conceito do álbum, equilibrando à perfeição o peso do tema, com a suavidade pop das melodias. Algo que podemos perceber, por exemplo, na ondulante e inaugural faixa-título (Foi no jornal que aprendi ser homem / Foi na igreja e no futebol). Em outros pontos, os temas surgem de forma alegórica, como no reggae Primeiro Mar (O primeiro mar de todo mundo / Fica dentro de uma mulher) ou no sambinha spoken word Se Acabou (Votar, governar, falar bem alto / E beber, e sujar e não limpar / E fazer filhos e fugir / E cortar árvores, furar minas).

Nota: 8,5 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Honey, Não! (Honey, Don't!)

De: Ethan Coen. Com Margaret Qualley, Chris Evans, Aubrey Plaza e Charlie Day. Comédia / Policial, Reino Unido / EUA, 2025, 89 minutos.

Acho que o problema de filmes como Honey, Não! (Honey, Don't!), que acaba de chegar à Amazon Prime, é a expectativa gerada. Especialmente pelos nomes envolvidos na produção, a começar pelo diretor. Tudo bem que já vai fazer quase uma década que o Ethan Coen não entrega uma produção decente - vá lá, se considerarmos A Balada de Buster Scruggs (2018) um bom filme e há controvérsias -, mas a gente olha o nome dele ali e pensa em Fargo (1996), em O Grande Lebowski (1998) e em Onde Os Fracos Não Tem Vez (2007) e em tudo de legal que ele já faz ao lado do irmão Joel e fica meio que vivendo de passado. Ou vai ver os tempos são outros e esse tipo de humor meio nonsense, escrachado mas contido e estranhamente violento, que é a marca registrada da dupla, talvez já não caiba mais em uma década tão esquisita como essa. Enfim, a gente teria gostado mais desse último filme se ele tivesse sido lançado, sei lá, em 1994?

Honestamente não sei dizer e tudo piora quando um filme tão curtinho consegue ser tão confuso. Ou tão raso - com a profundidade de um pires -, com as eventuais boas ideias tão espalhadas aleatoriamente, que a gente não consegue se apegar em nada. No centro da trama há um pastor pentecostal, seu nome é Drew Devlin (Chris Evans), que parece estar envolvido em algum tipo de maracutaia com a máfia francesa, que é representada ali pela chefona do tráfico sexy Chère (Lera Abova). Enquanto leva, aqui e ali, algumas jovens de sua congregação para a cama (além do carisma, ele tem a lata do Chris Evans, não esqueçamos), ele é informado por Chère que o bicho tá pegando pro lado dele, especialmente após o assassinato de Mia Novotny (Kara Petersen), que parece ter sido premeditado. E não sei dizer se em 2026, haja alguém considere divertida uma sequência de sexo inesperadamente interrompido.

 


Aliás, a maioria das tentativas de humor do filme, envolvem instantes sexualmente constrangedores, até com o uso de rimas visuais óbvias, que acho que nem um estudante de cinema compraria a ideia - como no momento em que a detetive Honey (Margaret Qualley) e a policial MG Falcone (Aubrey Plaza) transam pela primeira vez. Para no take seguinte, após um corte, uma torneira surgir borbulhante, enquanto jorra água para a limpeza de brinquedos sexuais diversos. Sim, legal, eu sou total contra esse puritanismo que tem invadido nosso cinema, atualmente, mas desde que a coisa tenha algum nexo narrativo. E que não use de alegorias tão pouco inspiradas. Com tudo piorando no momento em que Honey sai para confrontar o namorado violento de sua sobrinha para, num ato de pura subversão (uau), colar um adesivo feminista em cima de outro do MAGA (óbvio), que estampava o carro do sujeito.

E que a questão política não faça muito sentido, é algo até meio normal. Só seria mais legal se as bandeiras levantadas fossem menos infantilizadas, ou não soassem como um debate de Twitter de 2017. Nós temos, afinal, uma investigadora e uma policial lésbicas - com a primeira tendo uma irmã com uma dúzia de filhos -, um reverendo golpista e hedonista e mais um punhado de gente no entorno e lá pelas tantas a gente já não se importa com ninguém. Há um esforço de estilização obviamente Irmãos Coen na fotografia, ou mesmo na montagem, mas, no fundo, quem são, de fato, aquelas pessoas? O centro de tudo está em Mia e a morte dela descambará para uma sequência de cenas de violência e de sangue jorrando que é meio que típico da dupla. Ou de Ethan. E lembra lá em cima, que falei dos nomes envolvidos? Vocês chegaram até aqui e leram na resenha: Margaret Qualley, que esteve impecável em A Substância (2024) e Aubrey Plaza e sua trajetória de respeito. Bom, elas também precisam pagar boletos. Ou vai ver se enganaram, como nós, com o nome no cartaz. Vai saber.

Nota: 3,5 

 

terça-feira, 5 de maio de 2026

Cine Baú - Interlúdio (Notorious)

De: Alfred Hitchcock. Com Ingrid Bergman, Cary Grant, Claude Rains e Leopoldine Konstantin. Suspense / Romance / Drama, EUA, 1946, 101 minutos

Uma das histórias que mais gosto sobre Interlúdio (Notorious) ocorreu em 1979, décadas depois do lançamento do clássico suspense de espionagem. Naquele ano, Alfred Hitchcock era homenageado na cerimônia Life Achiement Award, quando Ingrid Bergman, a estrela da obra de 1946, lhe deu um "presente" inusitado - no caso, a chave original que abria, no filme, a misteriosa adega do casarão de Alexander Sebastian (o ótimo Claude Rains) e que seria decisiva para uma grave descoberta: a de que os alemães refugiados no Rio de Janeiro, após a Segunda Guerra Mundial, guardavam uma quantidade generosa de minério de urânio, escondido em garrafas de vinho. Na obra-prima de mistério, essa é uma sequência de forte impacto. E que ganha mais força pela engenhosidade, com Devlin (Cary Grant), escolhendo beijar deliberadamente Alicia (Ingrid Bergman), como forma de tentar distrair o executivo Sebastian. Que, naquela altura, já estava casado com Alicia, como parte de um estratagema para desvendar os segredos dos alemães.

Evidentemente que a chave, essa peça tão pequena, possui extrema importância em Interlúdio. Então não deixa de ser divertido pensar em Hitchcock - que sempre teve um talento absurdo para converter objetos triviais do cotidiano em catalisadores de tensão dramática - recuperando o objeto tantos anos depois. Nos bastidores, há a garantia de que o Mestre do Suspense foi, de fato, surpreendido - a chave teria ficado por anos com Cary Grant, que teria presenteado Ingrid mais tarde. Foi quase como um contragolpe simbólico e meio inesperado. Um acerto de contas curioso. Hitchcock sempre teve esse apego à coisa prosaica, ao item cenográfico - seja a corda em Festim Diabólico (1948), o isqueiro em Pacto Sinistro (1951) a cortina em Disque M Para Matar (1954) ou à câmera fotográfica em Janela Indiscreta (1954). Elementos que criam tensão ou ameaça, mesmo que semioticamente eles não venham embutidos desse sentido. É como se a chave em sua mão fosse uma anedota.

 


E por mais que a chave seja fundamental para o andamento de Interlúdio - a cena em que Alicia luta para escondê-la nas mãos, tentando passá-la para Devlin em meio a um jantar no casarão de Sebastian está impressa de maneira inesquecível na retina do fã de cinema - o filme é muito mais do que isso. É um thriller de espionagem política que teve a ousadia de tratar do belicismo do pós-guerra, em um momento em que ainda havia um tanto de incerteza a respeito do uso de energia atômica (por assim, dizer). E, como se não bastasse esse pano de fundo em que o nazismo moribundo busca respirar na América do Sul, sendo observado a certa distância por Devlin - o agente do governo dos Estados Unidos que recruta Alicia, filha de um espião alemão condenado pela justiça, com quem ela tinha uma relação conturbada -, há ainda espaço para aquilo que Hitchcock faz de melhor, que é a narrativa clássica que coloca em conflito a paixão e o dever. O que resultará em um sem fim de sequências imprevisíveis, irônicas e psicologicamente tensas.

Afinal de contas, vamos combinar que não deixa de ser eticamente questionável o protagonista simplesmente empurrar o seu objeto de desejo, por quem ele se apaixona imediatamente, em direção a um grupo perigoso de alemães nazistas, esperando que tudo ocorra normalmente. O fato de Sebastian ser um antigo amigo do pai de Alicia, e alguém que tem completa devoção pela jovem, para irritação da mãe controladora do sujeito (vivida por Leopoldine Konstantin) - por sinal, outro arquétipo recorrente na filmografia de Hitchcock -, burla ainda mais a lógica, tornando incerto cada encontro e desencontro entre o casal. Conferindo uma fluidez um tanto lânguida à narrativa - reforçada pelas belas vistas da sacada do Copacana Palace no Rio de Janeiro -, a obra avança sem pressa, possibilitando ao público desvendar os mistérios aos poucos, percebendo nos detalhes os riscos vividos pelos protagonistas. Como é o caso da parte em que Sebastian revela com um sorriso torto e debochado, que assistia o casal com o seu binóculo, em meio a um encontro no clube de equitação. 

 

 

Aliás, esse é só mais um dos típicos instantes hitchcockianos de geração de suspense onde aparentemente não deveria haver nenhuma tensão maior - o mesmo valendo para o momento em que um certo Emil (Eberhard Krumschmidt), um atrapalhado alemão, dá bandeira a respeito do conteúdo de uma garrafa de vinho (aparentemente sendo "suicidado" mais adiante), em meio a um jantar.  Lembrado com carinho pelos fãs, Interlúdio integra uma série de listas de grandes filmes da história do cinema, como a do American Film Institute (AFI) - é o 38º em uma lista de 100 Suspenses - tendo recebido ainda duas indicações ao Oscar (nas categorias Roteiro Original e Ator Coadjuvante para Rains). Não por acaso, sua engenhosidade sedutora, que faz com que uma garrafa de vinho se converta em peça-chave e evidência criminal - a bebida alcoólica, aliás, renderia outro capítulo -, pavimentaria o caminho para que o diretor construísse uma sólida carreira, com clássicos que permanecem até hoje no coração dos cinéfilos.


Pitaquinho Musical - Grace Ives (Girlfriend)

Vamos combinar que, em alguma medida, talvez o disco anterior de Grace Ives, Janky Star (2022), fosse um pouco mais hermético, com tintas mais experimentais. O que talvez pudesse afastar aquele ouvinte mais ocasional. Digamos que o "problema" foi solucionado com Girlfriend, o recente terceiro trabalho de estúdio, que parece uma experiência mais solta, mais direta. E sem abrir mão do bedroom pop sofisticado e lo-fi, mas com algumas doses da eletrônica minimalista, que costumam caracterizar seu som. Mais convidativa, após um período meio conturbado de uso de substâncias (nas entrevistas, ela não deixa claras quais), a artista nova-iorquina abre espaço para melodias cantaroláveis e mais emocionalmente abertas. É o caso da imediatamente grudenta Fire 2, que equilibra com perfeição os arranjos bem polidos, com as letras metafóricas sobre esgotamento e vulnerabilidade.  

 


Aliás, curioso pensar como a radiofônica e calorosa Lullaby, que encerrava o registro anterior, já parecia apontar para esse novo direcionamento. Proposital ou não, Grace Ives está mais palatável. Ela saiu do fundo poço, daquela sensação de teias de aranha pelo caminho. Como comprovam as refrescantes My Mans, Dance With Me e Stupid Bitches. Não que não haja espaço para algum estranhamento, afinal, essa meio que sempre foi uma das características da cantora - aquela coisa de quebra, de imprevisibilidade. Mas mesmo em canções como a onírica Now I'm, que abre o álbum, parece haver espaço para algum tipo de conforto, de espontaneidade. Claro que, mesmo assim, o disco nunca percorre um caminho óbvio, havendo espaço para a eletrônica mais contagiante, como em Avalanche ou para a contemplação, como em Drink Up.

Nota: 8,5 

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Ágon: O Corpo e a Luta (Agon)

De: Giulio Bertelli. Com Alice Bellandi, Sofija Zobina e Yile Yara Vianello. Drama, Itália / França / EUA, 2025, 100 minutos.

Ágon: O Corpo e a Luta (Agon) trata de um assunto que, aqui e ali, a gente vê pincelado, especialmente em tempos de Olimpíadas: o treinamento para atletas de elite, independente da modalidade, é pesado. Num nível quase excruciante de exigência. E de abnegação. Participar desse tipo de disputa, afinal, exige foco. Seja no judô, na esgrima ou no tiro de carabina. Alcançar uma medalha é para poucos. Lidar com a  derrota - ou pior, a dor de uma lesão, de um cancelamento (algo típico dos nossos tempos) ou de um trauma profundo - é para menos pessoas ainda. Ao cabo, quando a gente assiste aos Jogos Olímpicos em toda a sua beleza e exuberância, dificilmente a gente imagina o que acontece por trás. Quais as cobranças. Quais as pressões exercidas - por governos, por patrocinadores, pelo público. E o que a estreia de Giulio Bertelli faz, é nos jogar para esse ambiente. Mas nunca de uma forma cômoda.

"Como velejador offshore, eu sei como é passar pela dor das lesões e da recuperação, lidar com a mídia ou simplesmente com a complexidade de administrar essa máquina que é o esporte profissional. Mas também havia a vontade de contar o lado B, a solidão, a espera", comentou Bertelli, um privilegiado herdeiro da Prada - ele é filho da designer de moda Miuccia Prada -, em entrevista ao site Harper's Bazaar. E, evidentemente, como fica claro na obra que chega à Mubi, a sua condição de nepobaby não significou acomodação. Ou achar que o jogo já estava ganho. Com elegância e até quebrando uma certa lógica do que se espera de um cinema mais óbvio, o diretor adota um estilo quase documental - de fotografia granulada, ângulos oblíquos e câmera no rosto (ou em close até mesmo de partes mais "desconfortáveis") -, pra registrar a preparação de três atletas para os fictícios jogos de Ludoj, de 2024.

 


Inspirado no terrível acidente ocorrido com o esgrimista da União Soviética Vladimir Smirnov, em 1982, o filme recupera essa história para contar o drama de outra atleta, a esgrimista Giovana Falconetti (Yile Yara Vianello), quando seu florete perfura a máscara de uma adversária em meio às oitavas de final dos Jogos. Em meio a explicações sobre padrões de segurança da malha metálica dos equipamentos e sobre regulamentos técnicos gerais - em um tipo de detalhamento dificilmente visto em uma produção de cinema (talvez em documentários) - a atleta vive o dilema de prosseguir ou não na disputa. Tudo enquanto, óbvio, nas redes sociais, ela sofre todo o tipo de pressão em comentários sempre bem ponderados (contém ironia), por prosseguir mesmo frente ao dilema ético gerado pelo acidente. Na década vigente isso é parte da engrenagem, diga-se.

Aliás, as redes sociais e toda a distração proporcionada por elas na era moderna parecem parte intrínseca da narrativa - não sendo poucos os momentos em que sequências reais de treinamentos, se mesclam com jogos de videogame, conversas em redes sociais ou disputas online, que meio que burlam os limites entre a realidade e a ficção. Afinal, o que é real ou mesmo viver, existir, para alguém que tem como única rotina treinar, treinar e treinar? Não é por acaso que, em certa altura, uma das atletas está em uma boate, sendo praticamente impossível ouvir qualquer tipo de conversa no ambiente. Como se estivessem mudas para suas próprias vontades e desejos, recebendo todo o tipo de atenção e pressão por performance, as protagonistas parecem se ver como bonecos de ventríloquos alienados e manipulados por todos os lados. O que é reforçado pela burocracia que envolve meio que tudo, como na parte em que a judoca Alice Bellandi (que interpreta ela mesma, ampliando o naturalismo da experiência) precisa entregar uma série de documentos pra participar de uma competição. 

 
 
 
No filme, por sinal, Alice sofre uma grave lesão que lhe obriga a correr contra o relógio para a próxima competição e a cena em que ela passa por uma invasiva cirurgia no joelho é meio que gráfica até demais - sendo parte das formas com que Bertelli encontra para evidenciar as agruras das jovens, que contrastam com as capas de revistas e as expectativas geradas ao serem alçadas ao posto de "próxima promessa" do esporte. É o caso, por exemplo, da atiradora de carabina Alex Sokolov (Sofija Zobina) que, a despeito do seu discurso pacifista, vê sua vida virar de cabeça para baixo, quando tem um vídeo viralizado em que ela aparece em uma caça à animais selvagens. Espada, luta, tiro. Certamente não é por acaso que o realizador centra essas histórias em esportes de de força. De exigência e disciplina quase militares. É preciso superar muita coisa. Ainda mais sendo mulher. Os gritos de felicidade - ou por um golpe bem dado - podem facilmente se converter em urros de desespero. E pouca gente estará do outro lado para acolhê-las. 

Nota: 8,0