Vamos combinar que algumas bandas demoram um pouco pra "acontecer" pra um público mais amplo e, por mais contraditório que isso possa ser, é também uma oportunidade para que esses artistas depurem seu som ao máximo para que a entrega seja a melhor a cada novo lançamento. E esse parece ser exatamente o caso do Ratboys, grupo de Chicago que chega ao seu sexto - e disparadamente o melhor - registro de inéditas. Cada vez mais distante do lo-fi um tiquinho mais intimista que marcaria os primeiros registros da carreira de mais de dez anos de existência, o coletivo parece expandir a sua sonoridade para além do indie de cafofo (que sempre foi ótimo, ressalte-se), com a chegada do excelente Singin' to an Empty Chair. Mais polido, por vezes ensolarado e com um aceno ainda mais acentuado para o comercial, o álbum é um primor de produção, equilibrando de forma perfeita as guitarrinhas rock que dão sustentação às melodias primaveris - por mais que os temas do disco possam ser cabeçudos.
Aliás, há um conceito - o da "conversa com uma cadeira vazia" - que meio que une a coisa toda. E que fica mais evidente em Just Want You to Know the Truth, peça central do registro e um épico de mais de oito minutos, em que emergem temas ligados à vulnerabilidades e traumas familiares. "Meu terapeuta me deu essa ideia não apenas para a composição, mas para o meu próprio processamento da vida e de todas essas grandes mudanças que minha família está passando", enfatizou em entrevistas. Em outros instantes, assuntos como distanciamento emocional (Open Up), falta de conexão em relacionamentos (Anywhere), aceitação e passagem do tempo (Penny in the Lake) e frustração e desejo de transformação (Burn it Down), formam esse clima meio generalizado de terapia, quase como um monólogo interior. Ainda assim é importante que se diga: o disco nunca soa triste ou sorumbático, e um bom exemplo é a grudenta Know You Then, uma das melhores canções desse início de ano. Vale a atenção.
De: Chris Appelhans e Maggie Kang. Com Arden Cho, May Hong, Ji-young Yoo, Ahn Hyo-seop e Lee Byung-hun. Comédia / Fantasia / Musical, EUA / Canadá, 2025, 95 minutos.
Vamos combinar que não é difícil compreender a verdadeira comoção gerada por Guerreiras do K-Pop (KPop Demon Hunters), obra disponível na Netflix e que está indicada ao Oscar 2026 na categoria Animação. Primeiro de tudo que é um filme esteticamente lindo. Depois tem as personagens cheios de carisma e extremamente bem desenhadas - com personalidades distintas. Aí entra o senso de humor e as ótimas piadas, que se intercalam com algumas das melhores canções pop da última temporada. É tudo tão legal que a gente até meio que ignora a historinha lugar-comum sobre autoaceitação e respeito às diferenças - algo que se tornou meio que um padrão no gênero - mas que, ainda assim, é super bem construída, trazendo o tema com leveza. Os adolescentes certamente adoram. E a geração 30+ inevitavelmente se divertirá, principalmente pelo fato de alguns dos vilões serem integrantes de uma boy band antiquada, que certamente faria sucesso na segunda metade dos anos 90.
Ah, e vale comentar uma coisa que me preocupou desnecessariamente, antes de conferir o filme dirigido pela dupla Chris Appelhans e Maggie Kang: não é necessário ser um grande fã de KPop para apreciar a produção, já que, música pop de qualidade é música pop de qualidade em qualquer parte do globo. Bom, a trama não poderia ser mais graciosa, por mais que envolva uma espécie de maldição em que demônios atacam vítimas humanas, para levar suas almas que servirão de alimento a um líder macabro - seu nome é Gwi-ma (Lee Byung-hun) e ele se assemelha a uma grande fogueira de tonalidades preta e violeta (a cor costuma ter associação com a morte). A forma de barrar essa entidade macabra envolve simplesmente a música. O canto. Algo que, através dos tempos uniria a população, criando uma espécie de barreira protetora dourada, chamada de Honmoon. Capaz de isolar o mundo que vivemos, da dimensão sombria.
É é aí que entra o nosso trio de heroínas integrantes do grupo Huntrix, sendo elas Rumi (Arden Cho), que vem de uma verdadeira dinastia de cantoras, Zooey (Ji-young Yoo), habilidosa rapper e letrista e Mira (May Hong), espécie de ovelha negra da família, que é iconoclasta a ponto de ter usado um saco de dormir na mais recente edição do Met Gala (em mais um aceno ao público adulto). São elas que seguem uma linhagem de jovens cantoras que, anos a fio, mantém o Gwi-ma nos submundos, não sendo capaz de levar seu plano maldito a cabo. Bom, ao menos até agora e dois são os motivos principais que complicarão as coisas: o primeiro é o fato de Rumi não apenas ter um segredo de infância que pode colocar tudo a perder, mas também ver a sua voz falhar justamente alguns dias antes da decisiva apresentação no Idol Awards (sendo a vitória fundamental para a consolidação do Honmoon). Já o segundo é que Gwi-ma resolve dar uma cartada um tanto ousada: criar no submundo uma boy band, seu nome é Saja Boys, que possa atrair a atenção dos fãs - e de suas almas, que lhe servirão de alimento.
E é muito bonito e engraçado ver como tudo se desenrola, principalmente quando entra em cena o enigmático Jinu (Ahn Hyo-seop), o líder dos Saja que estabelece uma relação muito próxima de Rumi. Jinu também preserva um dolorido segredo do passado, que fez com que ele abandonasse a família para se aproximar de Gwi-ma, sob a promessa de uma vida melhor através da música. Algo que nunca se consolida para além dos planos maquiavélicos do tal ser - e é absurdamente lindo ver as trocas entre esse casal central, que se aproxima e se afasta de acordo com os ventos da narrativa e que, todo o mundo já sabe, precisará unir forças para que o mal maior seja confrontado. Que músicas como Golden, Free (a minha preferida), What Ir Sounds Like, How It's Done e, inclusive Soda Pop (dos Saja) sejam tão monumentais, grudentas e performáticas, ajudando ainda a narrativa a andar, com suas letras cheias de significados, metáforas e ambiguidades, é só a cereja do bolo. É um filme pra todo mundo e acho difícil que alguma animação mereça mais o Oscar.
De: Park Chan-wook. Com Lee Byung-hun, Son Ye-jin, Park Hee-soon e Lee Sung-min. Comédia / Drama / Policial, Coréia do Sul, 2025, 139 minutos.
De Tempos Modernos (1936) à Parasita (2019) não foram poucos os filmes que nos mostraram ser possível fazer a crítica ao capitalismo - e sua sanha devorada -, mas sem abrir mão do tom ácido, debochado. Aliás, talvez essa seja uma escolha bastante certeira na hora de abordar o tema - com todo o respeito às obras sisudas. A gente ri de nervoso frente ao absurdo. Mas também compreende bem as metáforas - mesmo que o ato de superar candidatos a uma vaga de emprego, se torne uma luta meio que literal demais pela sobrevivência. E esse é justamente o caso de A Única Saída (Eojjeolsuga Eobsda), obra do diretor Park Chan-wook - do recente e ótimo Decisão de Partir (2022) -, que está em cartaz nos cinemas e que, em alguma medida, repete as ideias apresentadas no excelente O Corte (2005) do grego Costa-Gavras. As duas produções, aliás, foram inspiradas em um romance do escritor Donald Edwin Westlake, de 1997.
Na trama, Man-soo (Lee Byung-hun) vive uma vida de comercial de margarina. É feliz ao lado da esposa e dos dois filhos, tem uma casa ajardinada que lhe permite fazer aquele churrasco gostoso no final de semana a ponto de ele sussurrar, que tem "tudo", após um abraço coletivo em família. Bom, isso até a fábrica de papel que ele trabalha ser vendida para um grupo de investidores estrangeiros que pretendem fazer um corte de 20 por cento da força de trabalho. Pouco importa o fato de Man-soo, com seus 25 anos de dedicação à firma, ser um dos mais experientes - ele tenta argumentar com os novos diretores. "Eles não te deram a enguia, te deram?", pergunta um colega, dando a entender que o peixe em formato de cobra é não apenas um sinal de que ele está prestes a ser demitido, como também a alegoria sexual inevitável, que alude à ponta mais fraca dessa equação. O operário padrão, o chão de fábrica, é sempre quem se ferra nesses casos. Sem muita margem pra negociar com o patrão.
Desesperado, Man-soo entra pra uma espécie de mentoria ridícula dessas que, ao invés de ajudar, parece gerar mais pressão. A ideia é que ele volte ao mercado de trabalho em três meses - e as dolorosas entrevistas de emprego, com salas cheias de sujeitos arrogantes de terno e gravata, parecem piorar tudo (e a cena em que o protagonista tenta simplesmente ver o rosto de um de seus interlocutores, sendo atrapalhado por uma luz estourada do sol que vem da rua, é só mais uma metáfora para o sofrimento do homem). Em família, a ideia é cortar todos os gastos supostamente excessivos - aulas de dança, a conta da Netflix -, e começar a pensar na venda da casa e do carro como forma de evitar dívidas. A esposa Mi-ri (Son Ye-jin) volta a trabalhar em um consultório odontológico. Até os cachorros têm de ser doados momentaneamente, para desespero das crianças. Tudo parece complicado até Man-soo enxergar uma luz no fim do túnel. O que lhe exigirá uma tomada de decisão extrema.
[SPOILERS A PARTIR DAQUI] Em meio a tantas humilhações, o sujeito decide que quer a vaga de um gerente da empresa concorrente Moon Paper - o que envolve dar cabo de um certo Seon-chul (Park Hee-soon), que é o detentor do posto. Só que não basta apenas isso: para ficar com o cargo, ele precisa provar que é o melhor em sua área - que é o momento em que ele leva a noção de capitalismo tardio e de selvageria do mercado de trabalho ao limite, atraindo os outros postulantes para uma vaga fictícia, criada por ele. O que lhe permitirá colocar em prática um plano diabólico de... assassinato! Repleto de sequências excêntricas que evidenciam a completa inaptidão do sujeito para o seu propósito - tentativas falhas, fugas aleatórias, emboscadas que não funcionam a contento -, o filme avança como uma experiência desalentadora e pessimista, mas também hilária e ácida sobre o absurdo de, em tempos de automação de tudo, ainda estarmos disputando um espaço que nos garanta o mínimo de dignidade. Que ele seja em uma fábrica de papel, talvez seja só mais uma das ironias.
Ao concluir o documentário em curta-metragem Armado Com Uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud (Armed Only with a Camera: The Life and Death of Brent Renaud), fiquei com a impressão de que o homenageado no filme merecia mais. Assim como a história parece carecer de um pouco mais de profundidade - especialmente sobre os horrores da guerra e sobre quem, na maioria dos casos, a patrocina. Sim, porque assistir a um bando de militares homenageando o cineasta e documentarista Brent Renaud - assassinado em 13 de março de 2022 por tropas russas, enquanto documentava a Guerra da Ucrânia -, é pouco. Famoso por coberturas de conflitos e atentados diversos em países como Iraque, Somália, Haiti, Afeganistão e Honduras, o profissional deixou um amplo legado, que documenta o custo humano e o absurdo como um todo das guerras. O que fez com que pagasse com a própria vida - assim como centenas de jornalistas que atuam em locais do tipo.
"O jeito que você segura essa câmera, dá pra ver que você faz isso com o coração", resume um homem em uma maca, gravemente ferido, após os atentados com caminhões-bomba na cidade de Mogadíscio, a capital de Somália - um dos tantos momentos de impacto. Essa humanidade do homem que está armado apenas com uma câmera se espalha por outros fragmentos, como na relação com o irmão autista Craig, pelos animais e na paixão pelo seu próprio ofício. Que o curta disponível na HBO Max - e que é um dos indicados ao Oscar em sua categoria na premiação desse ano - poderia ser um longa, com mais ângulos, mais vozes e mais política (especialmente em tempos de avanço da extrema direita nos próprios Estados Unidos), não resta dúvida. De qualquer forma fica o registro deste projeto que funciona mais como uma desalentadora (e pequena) homenagem, do que como uma produção com mais estofo.
De: Lynne Ramsay. Com Jennifer Lawrende, Robert Pattinson, Lakeith Stanfield, Sissy Spacek e Nick Nolte. Drama, EUA / Reino Unido, 2025, 119 minutos.
Quem se aventurou a ler Morra, Amor (Die My Love), obra de Ariana Harwicz na qual o filme de Lynne Ramsay - de Precisamos Falar Sobre o Kevin (2011) e Você Nunca Esteve Realmente Aqui (2017) - se inspira, encontrou um livro curto, mas denso, caudaloso, quase intransponível em alguns momentos. Como uma alegoria que busca desfazer a romantização da maternidade, o próprio texto árido e direto de Harcwicz se apresenta como uma experiência catártica, incômoda e cheia de ambiguidades, que converte à chegada de um filho a um tipo de cárcere socialmente imposto. Presa em casa com um bebê que provavelmente ela não desejava e que apenas serve para legitimar o que se espera em termos de papeis de gênero, a protagonista Grace (Jennifer Lawrence), embarca em uma espiral de loucura, medo e violência. E de contradições - entre ser a mamãe idealizada, tradicional e plena e ser uma mulher com desejos, anseios e sonhos (muitos deles suprimidos).
Sim, pode ser meio desafiador pra quem está acostumado a narrativas um pouco mais convencionais - especialmente aquelas que glorificam o núcleo familiar como um conjunto invariavelmente harmônico e perfeito. Mas quem se aventurar a olhar para além dessa camada mais superficial, encontrará uma obra incômoda, que nunca julga sua protagonista - uma mulher, aliás, que parece em luta interior constante. E não deixa de ser interessante notar como tanto no livro, quanto no filme, os protagonistas parecem mergulhados em uma espécie de sonho psicótico, enevoado e bucólico, em que a beleza da natureza frondosa do entorno da propriedade em que moram, colide com a escuridão interior da casa. Uma casa, aliás, que Grace e Jackson (Rober Pattinson) "herdam" de um tio que teria se suicidado no local. O que serve como reforço desse cenário de tensão e de perturbação crescentes.
Aliás, em uma das primeiras sequências, Grace avança por meio do capinzal como se fosse uma felina, observando as suas presas. No alpendre da casa, Jackson e o bebê chamam a mamãe que, estranhamente, se aproxima com uma faca grande na mão, daquelas de cortar carne. Em nenhum momento ela faz insinuação de que irá ferir o próprio filho - mas não deixa de ser curioso notar como bastam alguns minutos de filme para que já sejamos catapultados para o senso de desorientação que guiará a protagonista pelas próximas duas horas. Diferente de outras mães ela não tem saco para a paparicação de outras mulheres, quando vai de carrinho de bebê à tiracolo ao mercadinho da região. Também se irrita com o cachorro recém adotado, que não para de latir por nada nesse mundo. O marido distante, que muitas vezes ela sequer sabe direito onde está - só pra cumprir o padrão do homem médio que sobrecarrega a mulher -, também a deixa inquieta. "Minhas mãos estão em minha buceta porque você come todo mundo menos eu", esbraveja ela durante uma discussão. É só mais um tópico.
O prazer suprimido também fica evidente em seu desalento como escritora que precisa adiar projetos - sendo igualmente potente um instante em que a tinta de sua caneta se mescla com o leite que verte de seus seios. Os universos colidem. Paixão e fúria, tesão e ternura, agitação e calmaria. Não por acaso, como forma de quebrar essa lógica de uma existência padronizada, o surgimento de um misterioso motoqueiro da vizinhança (Lakeith Stanfield) funciona como projeção de desejo (inclusive erótico), de pulsão de fuga e de violência que nunca se concretiza (o que talvez explique o pedido de Grace para que o sujeito corte o próprio lábio). Como afirmei antes, tanto livro como filme, que está disponível na Mubi, permitem uma série de interpretações, ainda que nunca fujam da ideia de ruptura das tradições, que colocam frente a frente uma certa vida domesticada e uma alucinação guiada pelo desejo. Cortante, instável, sensual e magnética, essa é aquela produção que nos deixa pensando depois que os créditos sobem. O que não deixa de ser um mérito.
De: Kaouther Ben Hania. Com Motaz Malhees, Saja Kilani, Clara Khouri e Amer Hlehel. Drama, Tunísia / França / EUA, 2025, 89 minutos.
"Vocês acham mesmo que a voz desesperada de uma criança vai despertar a empatia deles?". Vamos combinar que a pergunta feita pelo socorrista Omar (Motaz Malhees), perto do terço final de A Voz de Hind Rajab (Sawt Hind Rajab), é de uma franqueza excruciante. Àquela altura, tanto Omar quanto Rana (Saja Kilani) e a terapeuta Nisreen (Clara Khouri) parecem já exaustos, incomodados, desesperançosos. Gritam entre si em meio a um estresse alarmante - e não poderia ser diferente, como integrantes do movimento internacional humanitário Crescente Vermelho que, ali, atua junto à Faixa de Gaza. O período é o início daquela que ficaria marcada como uma das mais violentas e desmedidas ações militares de nossos tempos - a do genocídio perpetrado pelo exército de Israel contra o povo palestino. Milhares de pessoas morreram. Milhares de CRIANÇAS morreram. E seguem morrendo. A voz desesperada de uma criança é só mais uma, tentando despertar empatia entre sionistas que pregam a barbárie.
Só que há uma diferença no ótimo filme de Kaouther Ben Hania - dos excelentes A Bela e Os Cães (2017) e O Homem Que Vendeu Sua Pele (2020) -, que é o enviado da Tunísia à categoria Filme Estrangeiro no Oscar desse ano e que está em cartaz nos cinemas. Aqui, a voz abafada, chorosa e suplicante que ouvimos do outro lado de telefone não é a de alguém interpretando. De uma criança fazendo de conta. A voz é a da Hind Rajab real, uma criança de seis anos que implora por ajuda durante horas, após um ataque das forças militares de Israel dizimar os corpos dos tios e dos primos da pequena (que estava em um carro em um espaço ocupado). Do outro lado da linha, Omar e Rana se revezam ao telefone para, na medida do possível tentar tranquilizar a menina, em meio a um cenário em que não há nada tranquilo. Bombas seguem explodindo no entorno. Os barulhos de tiros emergem do nada. Hind tenta se esconder ao mesmo tempo em que suplica aos socorristas: "por favor venham me buscar. Estou com medo. Eu imploro".
E, sinceramente, um filme como esse é um tapão na cara da nossa sociedade, que segue assistindo passivamente os atos violentos de Netanyahu e sua gangue, sob a desculpa de estar em busca de integrantes do movimento de resistência Hamas. Aliás, não é preciso ir muito longe para saber que os repetidos cessar fogo ou qualquer outro tipo de movimento no sentido de encerrar a guerra - como no caso da bizarra criação do tal Conselho de Paz, perpetrado pelo ditador dos Estados Unidos Donald Trump -, não passam de fachada. As mortes de civis seguem a rodo. Com dados como os da organização Save The Children revelando o pior: que talvez 20 mil crianças tenham sido assassinadas nos últimos anos. Muitos bebês. Não há distinção para quem propõe limpeza étnica. O desespero de Omar, relatado no começo dessa resenha não é por acaso. Ninguém se sensibilizará com uma criança aos prantos, pedindo clemência em meio aos destroços do que resta de um veículo. Ou do que resta da geografia de um País.
E como se esse conjunto todo não fosse absolutamente horroroso, o trio central de socorristas - Nisreen tenta equilibrar as coisas como a voz plácida de uma terapeuta - ainda precisa lidar com as burocracias simbolizadas em tela por Mahdi (Amer Hlehel), que é o responsável por enviar as ambulâncias aos locais dos chamados. O que só será possível após um longo período de negociações em que entidades como a Cruz Vermelha, secretarias de saúde e os governos dos países cheguem a algum acordo que autorize a ação. O angustiante mapa que insiste em ser exibido na tela, mostra que há uma ambulância a apenas oito minutos de distância de onde está Hind - junto a um posto de gasolina. Mas há os protocolos. As decisões não podem ser intempestivas, sob risco de os próprios socorristas serem bombardeados. Mesmo em uma ambulância identificada. A situação é tensa - com a angústia crescente parecendo longe do fim. Infelizmente a gente meio que já sabe como essa história acaba. E obras como essa podem ajudar a dar visibilidade para o tema - que segue urgentíssimo.
De: Joseph Kosinski. Com Brad Pitt, Damson Idris, Javier Barden e Kerry Condon. Ação / Drama, EUA, 2025, 155 minutos.
F1: O Filme (F1: The Movie) ou "como fazer os republicanos voltarem a gostar de cinema". Sério, fazia tempo que eu não assistia a algo tão brega - e tão bocejante - quando essa obra do diretor Joseph Kosinski, indicada ao Oscar. Em geral não tenho problemas com esses filmes à moda soft power estadunidense meio anos 90, com aquela energia Make America Great Again, mas vamos combinar que a história do veterano disfuncional e errático que nunca deu certo em lugar algum, que retorna para uma jornada redentora já nos deixa cansados só de pensar. A gente já viu essa trama umas duzentas vezes e o próprio Kosinski conseguiu fazer uma obra nesse formato mas que ao menos tinha coração (ou alma), que foi o caso de Top Gun: Maverick (2022). Aqui, é lugar comum em cima de lugar comum, com clichês como o do iminente aposentado que entra num embate com o novato, da mulher de meia idade que já não tá casada porque investiu na carreira ou dos chefões que perderão uma puta grana meu, se a coisa não for revertida.
E, veja bem, minha percepção poderia estar enviesada até mesmo por não gostar de automobilismo - o que não me impediu de apreciar demais produções como Rush: No Limite da Emoção (2013) ou Ford vs Ferrari (2019). Mas ver os personagens de Brat Pitt - o piloto da velha guarda que nunca aconteceu Sonny Hayes - e Damson Idris - Joshua Pearce, companheiro de Sonny na equipe APXGP, um aprendiz impetuoso e destemido que pode ser a nova promessa da Fórmula 1 -, disputando quem será o piloto principal em uma corrida decisiva em uma partida de pôquer foi demais pra mim. Na terceira ponta dessa mesa aleatória de Texas Hold'Em, de sujeitos que nunca gostam de perder e que provavelmente acreditam muito na meritocracia, está a diretora técnica da equipe de construtores Kate McKenna (Kerry Condon) porque, bom, porque é conveniente colocar uma mulher nesse papel porque já mata dois coelhos numa cajadada: faz um levíssimo aceno às questões de gênero, ao passo que permite que ela se torna o futuro par romântico (ou algo que o valha) de Sonny.
Durante as duas horas e meia (sim, pra quê?) do filme, ocorre um sem fim de cenas de corrida, com closes dos rostos dos pilotos, na ideia de conferir alguma emoção a mais (só que não). A estas, se somam sequências de tensão total da equipe nos boxes porque, como não poderia deixar de ser em um projeto do tipo, Sonny, que é convidado pelo dono Rubén Cervantes (Javier Barden) para tentar salvar a equipe da falência, é o sujeito mais imprevisível do planeta. Sabe o ousado meio burro, truculento, tosco, que acha que vai vencer na marra? É mais ou menos ele. Mesmo sem pilotar um carro de Fórmula 1 desde os anos 90 - pra deixar a coisa ainda mais sem sentido -, Rubén acredita que Sonny possa ser a salvação da lavoura na reta final da temporada, que conta com investidores insatisfeitos e um futuro incerto. Como um senhor próximo dos 60 anos, mas que se comporta como um adolescente tardio, o personagem de Brad Pitt participa de apresentações aleatórias, como na Nascar ou outras categorias de baixo, o que lhe permite pagar as contas e manter algum tipo de prestígio.
Mas é claro que a chegada do sujeito à APXGP vai bagunçar a coisa toda. E provocar um certo caos. Ainda mais quando, durante uma corrida, Sonny não aceita ceder a sua posição para o promissor Joshua. Mais do que isso, ele resolve patifar praticamente toda e qualquer corrida - obrigando as entradas aleatórias do safety car - que, mais adiante, surgirão como a surpreendente estratégia do protagonista para tentar, pelo menos, chegar em algum momento entre os 10 primeiros. Sim, uma coisa meio Dick Vigarista sem talento. Com trilha invasiva, fotografia saturada, narrador de autódromo estilo Rock and Roll Racing e personagens sem muita personalidade e profundidade - o que se sabe de Sonny é que ele é um falido em todos os sentidos -, a obra se arrasta até que aconteça aquilo que todo o mundo sabe que vai acontecer no final. E que servirá direitinho para que a galera legendária do Café com Deus Pai, que assiste canais de Youtube de coachs financeiros de gosto duvidoso, que beta desenfreadamente no campeonato local e que acredita que o comunismo vai ser implantado no País em 72 horas, saia feliz da sala de cinema. Acreditando que, se persistir, vai vencer na vida.
De: Gabriel Mascaro. Com Denise Weinberg, Rodrigo Santoro e Miriam Socarras. Ficção Científica / Drama / Fantasia / Aventura, Brasil / México / Chile / Holanda, 2025, 87 minutos.
Talvez um pouco menos político ou panfletário do que no anterior (e ótimo) Divino Amor (2019), mas igualmente relevante em seu exame um tanto niilista de uma sociedade cheia de contradições, em que defensores da família tradicional brasileira poderão incorrer em apoio a políticas que, justamente, ignoram a pluralidade desse tipo de estrutura de parentesco. Aqui, a trama lembra um pouco o ainda não muito conhecido livro nacional Velhos Demais Para Morrer (2020), de Vinícius Neves Mariano, sobre uma sociedade que entra em colapso econômico após os idosos se tornarem a maioria da população. O que os obriga a fugir, para tentar burlar o seu destino. Em O Último Azul, o tema do etarismo também está no centro, em uma distopia semelhante à de Mariano, com os velhos sendo enviados a uma espécie de colônia comandada pelo governo, sob a desculpa de dar a eles uma velhice digna.
Nas aparências, as intenções do Estado parecem boas. Os empregados que conduzem os idosos se portam de forma gentil, a ponto de concederem distinções aos aposentados que alcançam a idade limite - e não deixa de ser excentricamente divertido ver Tereza (a ótima Denise Weinberg), chegando em casa depois de um dia de trabalho no frigorífico, se deparando com empregados do governo colocando uma espécie de coroa de louros banhada a ouro na fachada da modesta habitação da protagonista. Sim, isso pode sugerir algo simpático - "a senhora agora é um patrimônio vivo nacional", aponta a jovem que gruda a distinção. Mas não deixa de ser uma espécie de marcador que lembrará a todos a sua volta de que, ali, naquela casinha, reside uma velha. Que já deveria ter ido pra tal da colônia. Com tudo piorando quando Tereza se dá conta de que já deveria ter se aposentado de forma oficial há dois anos - ela está com 77 e a idade limite é 75.
Com receio, em um cenário de incerteza, Tereza, tenta buscar mais informações - sendo barrada em qualquer tentativa de deslocamento. "Sabotar a atividade produtiva nacional é crime grave", lhe lembra outro burocrata. A protagonista queria ainda fazer muita coisa - como por exemplo, voar de avião, algo que nunca teve oportunidade. Mas o simples ato de comprar uma passagem se torna pesaroso. Há a necessidade de aval de algum familiar - sendo a pessoa mais próxima a preocupadíssima filha Joana (Clarissa Pinheiro) que, pelo visto, não vê a hora de a velha ir pra Colônia. Sem muita alternativa, Tereza resolve desviar de sua rota. Pegando um barquinho para a pequena Itaquatioca, momento em que ela estabelece amizade com o enigmático barqueiro Cadu (Rodrigo Santoro), que lhe apresentará alguns mistérios da natureza profunda, como a existência de uma espécie de caracol mágico, capaz de revelar o futuro a quem tiver contato com a sua gosma.
Nesse ponto, a obra também difere de Divino Amor, por apostar em elementos que unem o bucólico e o onírico como forma de dar andamento às ações mundanas. O que é reforçado por um desenho de produção de beleza naturalista e caótica em igual medida - como no momento em que a dupla passa por uma espécie de "cemitério" de pneus que fica na taipa do riacho -, e por uma trilha sonora de tintas envolventes. Simples, curiosa e divertida, a produção, que venceu o Grande Prêmio do Júri no mais recente Festival de Berlim e que chega à Netflix, expõe a insatisfação da população em geral com o afastamento obrigatório de seus familiares - "devolvam o meu avô", "gente velha não é mercadoria" dizem pixações nas paredes -, reservando para o terço final uma surpresa a respeito dos caminhos possíveis para driblar as imposições do Estado. Ao fim e ao cabo, os caminhos envolvem poder, religião e um ímpeto para a engambelação. Mas sem abrir mão do afeto. Nada mais Brasil real do que isso.