De: Oliver Stone. Com Charlie Sheen, Tom Berenger, Willem Dafoe e Forest Whitaker. Drama / Guerra, EUA / Reino Unido, 1986, 120 minutos.
Vamos combinar que não são necessários nem os primeiros dez minutos do clássico Platoon, de Oliver Stone, para que sejamos confrontados pelo absurdo da guerra - especialmente no que diz respeito ao seu caráter degradante. Afinal de contas, não há nada heroico em participar de um conflito. Aliás, uma batalha em que mal se compreendem as motivações - como costuma ser o padrão quando o assunto é a participação dos Estados Unidos me guerras. Quando chega como voluntário do exército americano no sul do Vietnã, no limite da divisa com o Camboja, o universitário Chris Taylor (Charlie Sheen) parece um tipo de idealista que está indo ao front para fugir de um certo padrão imaginado de sonho americano - especialmente para uma classe média desencantada nos anos 60. Só que não demora para que o olhar de deslumbramento quase romântico do jovem, em seu dever cívico, se converta em repulsa. Ou mesmo medo.
"O inferno é o lugar impossível da sensatez", verbaliza o homem em uma das diversas narrações em off que ele fará no transcorrer da produção - ruminações eventualmente existencialistas, a respeito do equívoco completo de todo aquele aparato preparado por homens, para que outros homens lutem contra sujeitos desconhecidos por uma causa... política? Cultural? Social? Geográfica? Religiosa? Na primeira andança pela selva seguindo o pelotão do tenente Wolfe (Mark Moses), Chris se depara com cadáveres putrefatos, serpentes ameaçadoras, o calor escaldante que se alterna com a chuva forte da madrugada, sem possibilidade de abrigo. A sensação como um todo é de um torpor pestilento. As formigas devoram os pescoços suados, em meio a tentativas de permanecer em silêncio. "Acho que cometi um erro, não sei se consigo ficar durante um ano aqui", divaga o jovem, aludindo à experiências dos protagonistas de outra obra-prima do gênero, no caso O Franco Atirador (1978).
Naquela altura do campeonato - no caso, os primeiros minutos do filme - Chris já havia escapado da morte, em uma emboscada vietcongue após ficar simplesmente paralisado diante da ameaça. E como se desgraça pouca não fossem bobagem, nas tentativas eventualmente frustradas de capturar guerrilheiros inimigos, o protagonista ainda precisa lidar com os conflitos internos que emergem, especialmente entre o compassivo sargento Elias Grodin (Willem Dafoe) e o autoritário e pragmático Robert Barnes (Tom Berenger). Se por um lado, Elias é como uma bússola moral que conquista o respeito dos demais primando pela disciplina, sem perder a empatia, do outro Barnes é o típico valentão da antessala do fascismo, daqueles que acredita que uma guerra é uma batalha de bem contra o mal, em um contexto em que qualquer tipo de ética é substituída por uma lógica única de sobrevivência, em que não há margem para confiança.
Em certo sentido, essa rivalidade entre ambos se sobressai na impactante e inesquecível sequência da aldeia em que os americanos, acreditando que os moradores - camponeses simples, muitos deles civis produtores de arroz - estariam abrigando vietcongues (e mesmo armas), agridem famílias, mulheres, crianças, em um processo de desumanização que encontra eco nos dias atuais (ainda mais quando assistimos a barbárie cometida em Gaza, perpetrada pelo lunático governo de Israel, com o apoio de Donald Trump). Gravitando o trio central outros personagens aparecem, aqui e ali, contribuindo para discussões para além do mero senso de camaradagem, como no caso do racismo, que é incorporado de forma orgânica com a presença de figuras como King (Keith David), Big Harold (Forest Whitaker) e Francis (Corey Todd), que se aproximam de forma natural naquilo que, em alguma medida, opera como uma espécie de alegoria para a própria sociedade americana, com suas divisões.
Cru, violento e quase agoniante - o que é reforçado pelas diversas tomadas de câmera muito próximas de seus personagens, que vagam pela selva com todo o seu aspecto imprevisível (a ponto de em um momento Chris sequer perceber a presença de uma sanguessuga em seu rosto) -, o filme se tornaria o primeiro grande sucesso de Stone, que, poucos sabem, participou da Guerra do Vietnã, com a sua experiência servindo de ponto de partida para a obra. Premiada com a estatueta máxima no Oscar de 1987, a produção ainda venceria outras nas categorias, como, Diretor, Som e Montagem. No que diz respeito à outras honrarias, Platoon atualmente figura como o 86° Melhor Filme da História, de acordo com lista elaborada pelo American Film Institute. Em 2011, o canal britânico Channel 4 consideraria este o sexto melhor filme de guerra já feito. Não são poucas as credenciais.
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