De: Giulio Bertelli. Com Alice Bellandi, Sofija Zobina e Yile Yara Vianello. Drama, Itália / França / EUA, 2025, 100 minutos.
Ágon: O Corpo e a Luta (Agon) trata de um assunto que, aqui e ali, a gente vê pincelado, especialmente em tempos de Olimpíadas: o treinamento para atletas de elite, independente da modalidade, é pesado. Num nível quase excruciante de exigência. E de abnegação. Participar desse tipo de disputa, afinal, exige foco. Seja no judô, na esgrima ou no tiro de carabina. Alcançar uma medalha é para poucos. Lidar com a derrota - ou pior, a dor de uma lesão, de um cancelamento (algo típico dos nossos tempos) ou de um trauma profundo - é para menos pessoas ainda. Ao cabo, quando a gente assiste aos Jogos Olímpicos em toda a sua beleza e exuberância, dificilmente a gente imagina o que acontece por trás. Quais as cobranças. Quais as pressões exercidas - por governos, por patrocinadores, pelo público. E o que a estreia de Giulio Bertelli faz, é nos jogar para esse ambiente. Mas nunca de uma forma cômoda.
"Como velejador offshore, eu sei como é passar pela dor das lesões e da recuperação, lidar com a mídia ou simplesmente com a complexidade de administrar essa máquina que é o esporte profissional. Mas também havia a vontade de contar o lado B, a solidão, a espera", comentou Bertelli, um privilegiado herdeiro da Prada - ele é filho da designer de moda Miuccia Prada -, em entrevista ao site Harper's Bazaar. E, evidentemente, como fica claro na obra que chega à Mubi, a sua condição de nepobaby não significou acomodação. Ou achar que o jogo já estava ganho. Com elegância e até quebrando uma certa lógica do que se espera de um cinema mais óbvio, o diretor adota um estilo quase documental - de fotografia granulada, ângulos oblíquos e câmera no rosto (ou em close até mesmo de partes mais "desconfortáveis") -, pra registrar a preparação de três atletas para os fictícios jogos de Ludoj, de 2024.
Inspirado no terrível acidente ocorrido com o esgrimista da União Soviética Vladimir Smirnov, em 1982, o filme recupera essa história para contar o drama de outra atleta, a esgrimista Giovana Falconetti (Yile Yara Vianello), quando seu florete perfura a máscara de uma adversária em meio às oitavas de final dos Jogos. Em meio a explicações sobre padrões de segurança da malha metálica dos equipamentos e sobre regulamentos técnicos gerais - em um tipo de detalhamento dificilmente visto em uma produção de cinema (talvez em documentários) - a atleta vive o dilema de prosseguir ou não na disputa. Tudo enquanto, óbvio, nas redes sociais, ela sofre todo o tipo de pressão em comentários sempre bem ponderados (contém ironia), por prosseguir mesmo frente ao dilema ético gerado pelo acidente. Na década vigente isso é parte da engrenagem, diga-se.
Aliás, as redes sociais e toda a distração proporcionada por elas na era moderna parecem parte intrínseca da narrativa - não sendo poucos os momentos em que sequências reais de treinamentos, se mesclam com jogos de videogame, conversas em redes sociais ou disputas online, que meio que burlam os limites entre a realidade e a ficção. Afinal, o que é real ou mesmo viver, existir, para alguém que tem como única rotina treinar, treinar e treinar? Não é por acaso que, em certa altura, uma das atletas está em uma boate, sendo praticamente impossível ouvir qualquer tipo de conversa no ambiente. Como se estivessem mudas para suas próprias vontades e desejos, recebendo todo o tipo de atenção e pressão por performance, as protagonistas parecem se ver como bonecos de ventríloquos alienados e manipulados por todos os lados. O que é reforçado pela burocracia que envolve meio que tudo, como na parte em que a judoca Alice Bellandi (que interpreta ela mesma, ampliando o naturalismo da experiência) precisa entregar uma série de documentos pra participar de uma competição.
Nota: 8,0







