segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Cinema - Sorry, Baby

De: Eva Victor. Com Eva Victor, Naomi Ackie, Lucas Hedges, Louis Cancelmi e John Carroll Lynch. Drama / Comédia, EUA / França, 2025, 103 minutos.

"É preferível que você vá direto ao pronto atendimento quando isso acontecer. Certo, lembrarei disso da próxima vez". Talvez só o deboche para que se consiga encarar uma segunda violência, depois que ocorre a primeira. Ou vai ver nem ele. Na cena em que ocorre o diálogo acima, Agnes (Eva Victor, que também dirige), a protagonista do ótimo e impactante Sorry, Baby, está em um hospital para ser examinada, após ter sido estuprada pelo próprio professor. Frente a uma série de protocolos e burocracias que envolvem não apenas a exposição de algo bastante íntimo e traumático, mas também a necessidade de falar meio que o tempo todo sobre o assunto, a jovem parece meio que de saco cheio. Saco cheio de tudo. De não ver uma solução possível ou satisfatória para o seu caso, de ter de rememorar a situação, ou mesmo de ver a condescendência das pessoas - inclusive de outras mulheres, mais preocupadas com a preservação de certa imagem, do que por algum tipo de compensação mais justa.

Sorry, Baby é um filme de impacto, mas que discute o tema do abuso sexual num tom tão irônico, quanto naturalista. Aliás, a obra evidencia algo quase óbvio: a maioria dos casos desse tipo de violência ocorre com pessoas próximas, na maioria dos casos de confiança. No caso de Agnes, ela é uma professora de Artes de uma faculdade do interior da região de New England que, ainda no começo do filme, recebe a visita da amiga Lydie (Naomi Ackie), que está grávida. Aproveitando a estada da amiga, a dupla participa de um jantar meio desconfortável com alguns colegas que integram um programa de pós-graduação coordenado pelo professor Preston Decker (Louis Cancelmi). De modo aparentemente afetuoso, Decker elogia o trabalho de Agnes - ela está desenvolvendo uma tese sobre Virginia Woolf. Em um dia de estudos na casa do docente, a protagonista sai do local correndo. Aos prantos. Quem assiste já sabe o que aconteceu. Mesmo que tudo que se veja seja a fachada da casa do sujeito.

 

 


Quando descreve o ocorrido à Lydie - o que envolve as tentativas do professor de tocá-la de forma nada consensual -, ela chega até a ficar insegura sobre como falar. "Isso parece 'aquilo'" comenta ela num tom incrédulo. Na universidade, o conselho disciplinar oferece um suporte de fachada a alguém que inicia uma jornada que lhe deixará emocionalmente exausta. Em resumo, não há muito o que fazer já que, diante do cenário, Decker pediu desligamento da Instituição. Não há como formalizar uma denúncia. Pior, não há nada que necessariamente prove o ocorrido. E pra piorar mais ainda do que tudo, Agnes parece não ter a certeza tão absoluta de desejar, ao cabo, que o sujeito seja punido. Que sua reputação seja comprometida - o que diz muito sobre o sistema patriarcal que vivemos e o medo das vítimas, que são a ponta frágil em uma estrutura de poder. Isso sem falar os protocolos irritantes, como no caso das perguntas do médico ("ele ejaculou em você?").

Sim, isso pode parecer necessário, mas tudo soa ainda mais frio. A burocracia da coisa - da denúncia ao suporte médico e emocional -, tudo parece cansativo, exaustivo. De forma inteligente, a obra realiza idas e vindas no tempo, o que envolverá ainda a presença de outras figuras, como o vizinho Gavin (o sempre inexpressivo Lucas Hedges) e o carismático Pete (John Carroll Lynch), o proprietário de uma lancheria de beira de estrada, que socorre Agnes após uma severa crise de pânico. Um tanto desalentador, o filme evidencia o fato de não haver muita solução em um mundo em que coisas do tipo podem acontecer, inclusive de forma recorrente (o que é reforçado pela sequência em que a protagonista conversa com o bebê da amiga). Mas ainda há espaço pra esperança. Afinal, pode parecer um comportamento meio resignado pensar que a vida continua, em um cenário em que "aquilo" acontece. Em que feridas são abertas e dificilmente curadas. Mas esse talvez seja um filme de sobrevivência e de suavidade nesse mundo tão bruto.

Nota: 8,0 

 

Novidades em Streaming - Blue Moon: Música e Solidão (Blue Moon)

De: Richard Linklater. Com Ethan Hawke, Andrew Scott, Margaret Qualley e Bobby Cannavale. Drama / Biografia, EUA, 2025, 100 minutos.

"Ele era alerta, dinâmico e divertido". "O homem mais triste que já conheci". Vistas nos letreiros iniciais do ótimo (e verborrágico) Blue Moon: Música e Solidão (Blue Moon), que está disponível pra aluguel nas plataformas da Amazon e da Apple TV, as frases acima podem passar meio despercebidas pra quem acaba de dar o play no mais recente filme do diretor Richard Linklater. Ditas, respectivamente, pelo diretor e produtor de teatro Oscar Hammerstein e pela cantora de cabaré Mabel Mercer, as contraditórias sentenças referem-se a mesma pessoa - no caso o letrista e compositor da Broadway Lorenz Hart que, aqui, ganha vida em interpretação marcante de Ethan Hawke, que foi indicado ao Oscar pelo papel. Hawke encarna Hart como a figura ao mesmo tempo amargurada e ressentida, genial e debochada - o que o coloca como um sujeito ao mesmo tempo carente e sem autoestima, mas também confiante e irônico.

Hart por muito tempo foi parceiro do compositor Richard Rogers, com quem escreveu, entre os anos 30 e 40, uma série de peças musicais de sucesso, como The Lady Is a Tramp, My Funny Valentine, Babes In Arms e a canção que dá título à obra de Linklater - aliás, a melodia tristíssima da composição, somada a letra melancólica sobre solidão, parecem ser bastante significativas. Não por acaso, a produção começa pelo final - e até onde se pode depreender do filme, a morte trágica de Hart, após complicações decorrentes de uma severa pneumonia, ainda é envolta em certo mistério. Alcoolista e com forte propensão à depressão, Hart tinha comportamento errático. Sumia por semanas sem dar notícias, o que deixa Rogers (Andrew Scott) exasperado. Tendo de buscar outras alternativas de parceiros criativos, como o jã citado Hammerstein (Simon Delaney).

 


Aliás, a madrugada em que toda a ação de Blue Moon se passa é justamente a da noite de estreia de Oklahoma! - uma peça nostálgica (de um tempo que supostamente nunca existiu), agridoce e ingênua que, nos anos posteriores à depressão estadunidense parece pronta pra cair nas graças do público. E até da crítica. Só que Hart está irritado. Esse é o primeiro material entregue por Hart e Hammerstein, o que deixa o homem amargurado. Melindrado. E até rancoroso. O que não o impede de ir até o Sardi's, restaurante de Manhattan famoso por receber figuras ilustres ligadas ao cinema e ao teatro, onde haverá uma celebração por conta da noite de abertura. Hart chega antes de todo o mundo e, familiarizado com o local, troca figurinhas com o carismático barman Eddie (Bobby Canavalle), alternando assuntos aleatórios sobre a sua própria (e difusa) sexualidade - "sou um omnisexual" -, a respeito de sua nova musa inspiradora, uma estudante de teatro de nome Elizabeth (Margaret Qualley), que tem um rosto "etéreo" (de acordo com sua descrição) e sobre o seu próprio futuro no mundo das artes.

Não é por acaso que esse preâmbulo que antecede a chegada de Rogers, Elizabeth, Hammerstein e os demais - que converterão aquela madrugada em uma espécie de noite da festa de aniversário de A Malvada (1950) - seja tão saboroso. A coisa quase beira ao cringismo, com Hart colocando a jovem Elizabeth em um pedestal, ao alegar que tem uma relação extrassensorial com a jovem, que bem podia ser sua filha. "É o prelúdio de uma transa", argumenta, enquanto se comporta de forma desajeitada frente aos encantos de sua mais nova amada. Com 1,50m de altura, uma semicalvície e uma arrogância que denuncia certa ausência de dignidade, o protagonista ocupa basicamente todos os frames, indo e vindo pelo ambiente, conversando com outras figuras conhecidas e contemporâneas, como no caso do escritor E. B. White (Patrick Kennedy) ou o futuro diretor de cinema George Roy Hill (David Rawle) - e não deixa de ser interessante descobrir os easter eggs que podem estar presentes nos diálogos descompromissados deles. Aliás, o diálogo é o forte aqui. É ele, basicamente, que faz a coisa escalar. E quase fugir do controle. É ele que inicia e termina. Mais ou menos como foi a vida de Hart. Que tinha na palavra o seu maior trunfo.

Nota: 8,0 

 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Pitaquinho Musical - Madison Beer (Locket)

Pra alguém tão jovem - apenas 26 anos -, já dá pra dizer que Madison Beer viveu bastante coisa. O que lhe permite ser, sem maiores dificuldades, uma das estrelas pop mais promissoras dessa década. Descoberta por Justin Bieber aos 13 anos após postar uma cover no Twitter, a nova iorquina só lançaria seu primeiro registro em 2021, o respeitável Life Support. Antes disso, ainda na adolescência sofreu com cyberbullying (com vazamento de fotos não autorizadas), passou por decepções com pessoas ligadas à indústria e foi diagnosticada com Transtorno de Personalidade Borderline e depressão. E talvez não seja por acaso que, diante desse contexto de vida complexo - que inclui aí um recente e meio traumático término de relacionamento -, as canções do terceiro registro de inéditas, o ótimo Locket, soem tão maduras e tão "adultas", mesmo quando expõem inseguranças e vulnerabilidades.

 


Pra quem acha que pode haver algum exagero, pode começar pela espetacular Bittersweet - que soa como uma coisa meio Taylor Swift no começo dos anos 2000, com sintetizadores suaves, melodia grudenta e letra maravilhosa sobre o processo de encontrar a paz, mesmo em um contexto de mágoas e de altos e baixos de um relacionamento (Agora que acabou, você vai culpar a mim por tudo / Eu sei que eu deveria estar amargurada, mas, meu bem, estou agridoce). Unindo o vintage e o futurista, o retrô e o contemporâneo, Beer consegue soar em alguns momentos quase como uma FKA Twigs de tintas mais pop e dançantes (nas movimentadas Yes Baby e Make You Mine), e em outros como uma Ariana Grande contemplativa (na magnética Bad Enough). Sim, pode parecer apenas mais um disco pop de arrancada de ano. Mas é interessante como ele cresce a cada reencontro. 

Nota: 9,0 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Sete Considerações Sobre os Indicados ao Oscar 2026

1) Antes de mais nada, saudar aquele que deve ser o maior Oscar da história para o Brasil - não apenas em número de indicações, mas também em termos de chances para o nosso País (para desespero dos patriotas bolsonaristas da Shopee). Além das aguardadas nomeações para O Agente Secreto em Melhor Filme Internacional e para o Wagner Moura na categoria Melhor Ator - com a campanha sendo fortalecida após as vitórias no Globo de Ouro e em outras premiações internacionais, como no Festival de Cannes -, o filme de Kléber Mendonça Filho teve destaque nas categorias categorias Melhor Direção de Elenco e Melhor Filme (e em tempos em que tudo parece tão disputado e diluído no que diz respeito aos votantes da Academia, não custa sonhar).

 

 

2) Aliás, as quatro indicações de O Agente Secreto fazem com que ele empate em número de nomeações com Cidade de Deus, que em 2004 recebeu o mesmo número de indicações. Claro que, naquele ano absolutamente TUDO foi uma surpresa, porque o Brasil até enviou a obra de Meirelles ao Oscar de Filme Internacional - mas teve algum atraso na exibição, o que comprometeu a janela de lançamento, sendo recuperado no ano seguinte. Só que esse ano a situação é totalmente diferente. Com a campanha forte do filme - algo que o Brasil parece ter finalmente entendido - a gente meio que sonha com absolutamente tudo. E só saberemos dos resultados em 15 de março de 2026.

3) Mas não vou negar que tava meio ambicioso com o Brasil no Oscar - especialmente com O Agente Secreto. A expectativa era a de que pudéssemos figurar em outras categorias, como Atriz Coadjuvante (como que esnobam a Tania Maria?), Edição ou Roteiro Original. Mas faz parte, a disputa é grande e, aparentemente, a Academia abraçou com força o Valor Sentimental (veja a resenha logo abaixo), que parece ser o nosso grande rival nas disputas. Especialmente em Filme Internacional. A briga promete! 

4) Falando em ausências doloridas, não vou negar que fiquei triste pelo fato de o documentário da Petra Costa, Apocalipse nos Trópicos ter sido esnobado. Ele estava na short list, o que deu visibilidade (e torcida). Mas acabou ficando de fora, numa categoria que nem sempre tem muita lógica - com muitos filmes bem contados ficando ausentes da relação final. 

 


 

5) Ainda sobre Brasil, mais uma grande notícia! Após o crescimento na reta final - especialmente após o acolhimento do público, que adorou o filme - Sonhos de Trem foi lembrado não apenas na categoria principal, mas também em Fotografia. O que, mais uma vez, significa o nosso País na disputa, já que o diretor de fotografia é o brasileiríssimo Adolpho Veloso, que tem um trabalho magnífico na construção do cenário de completo desalento na produção da Netflix. E vale comentar que o sujeito não veio só pra cumprir tabelam já que, nas bolsas de apostas há boas possibilidades de ele sair com o carecão dourado na mão! 

6) Eu tinha ignorado completamente os filmes Frankenstein e F1 por motivos de, sei lá, muita gente falando mal, reclamando, a crítica não comprando. Agora estão lá, cheios de indicações importantes em categorias relevantes, o que me obriga a assistir ambas as produções. Não sem certo ranço. Ah, sobre os indicados "estrangeiros" (como comentou o Wagner no Critics), adorei as várias nomeações de Bugonia. É um filmaço inexplicavelmente criticado.

7) Graças a Deus que Wicked foi completamente ignorado. O primeiro já era uma xaropice da porra, imagina ter que assistir a um segundo dessa filme, só pra estar em dia com o Oscar? Afe! 

 

Indicados

Melhor Filme

    Bugonia
    F1: O Filme
    Frankenstein
    Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
    Marty Supreme
    Uma Batalha Após a Outra
    O Agente Secreto
    Valor Sentimental
    Pecadores
    Sonhos de Trem

Melhor Ator

    Timothée Chalamet (Marty Supreme)
    Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra)
    Ethan Hawke (Blue Moon)
    Michael B. Jordan (Pecadores)
    Wagner Moura (O Agente Secreto)

Melhor Ator Coadjuvante

    Benicio del Toro (Uma Batalha Após a Outra)
    Jacob Elordi (Frankenstein)
    Delroy Lindo (Pecadores)
    Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)
    Stellan Skarsgard (Valor Sentimental)

Melhor Atriz

    Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
    Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas Eu Te Chutaria)
    Kate Hudson (Song Sung Blue)
    Renate Reinsve (Valor Sentimental)
    Emma Stone (Bugonia)

Melhor Atriz Coadjuvante

    Elle Fanning (Valor Sentimental)
    Inga Ibsdotter Lilleaas (Valor Sentimental)
    Amy Madigan (A Hora do Mal)
    Wunmi Mosaku (Pecadores)
    Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)

Melhor Direção

    Chloé Zhao (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
    Josh Safdie (Marty Supreme)
    Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra)
    Joachim Trier (Valor Sentimental)
    Ryan Coogler (Pecadores)

Melhor Roteiro Original

    Blue Moon
    Foi Apenas um Acidente
    Marty Supreme
    Valor Sentimental
    Pecadores

Melhor Roteiro Adaptado

    Bugonia
    Frankenstein
    Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
    Uma Batalha Após a Outra
    Sonhos de Trem

Melhor Filme Internacional

    O Agente Secreto (Brasil)
    Foi Apenas um Acidente (França)
    Valor Sentimental (Noruega)
    Sirat (Espanha)
    A Voz de Hind Rajab (Tunísia)

Melhor Documentário

    The Alabama Solution
    Come See Me in the Good Light
    Cutting Through Rocks
    Mr. Nobody Against Putin
    The Perfect Neighbor

Melhor Documentário em Curta-Metragem

    All the Empty Rooms
    Armed Only With a Camera: The Life and Death of Brent Renaud
    Children No More: “Were and Are Gone”
    The Devil Is Busy
    Perfectly a Strangeness

Melhor Animação

    Arco
    Elio
    Guerreiras do K-Pop
    Little Amélie or the Character of Rain
    Zootopia 2

Melhor Animação em Curta-Metragem

    Butterfly
    Forevergreen
    The Girl Who Cried Pearls
    Retirement Plan
    The Three Sisters

Melhor Curta-Metragem

    Butcher’s Stain
    A Friend of Dorothy
    Jane Austen’s Period Drama
    The Singers
    Two People Exchanging Saliva

Melhor Trilha Sonora Original

    Bugonia
    Frankenstein
    Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
    Uma Batalha Após a Outra
    Pecadores

Melhor Canção Original

    “Dear Me” (Diane Warren: Relentless)
    “Golden” (Guerreiras do K-Pop)
    “I Lied To You” (Pecadores)
    “Sweet Dreams of Joy” (Viva Verdi!)
    “Train Dreams” (Sonhos de Trem)

Melhor Direção de Elenco

    Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
    Marty Supreme
    Uma Batalha Após a Outra
    O Agente Secreto
    Pecadores

Melhor Fotografia

    Frankenstein
    Marty Supreme
    Uma Batalha Após a Outra
    Pecadores
    Sonhos de Trem

Melhor Design de Produção

    Frankenstein
    Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
    Marty Supreme
    Uma Batalha Após a Outra
    Pecadores

Melhor Edição

    F1: O Filme
    Marty Supreme
    Uma Batalha Após a Outra
    Valor Sentimental
    Pecadores

Melhor Som

    F1: O Filme
    Frankenstein
    Uma Batalha Após a Outra
    Pecadores
    Sirat

Melhores Efeitos Visuais

    Avatar: Fogo e Cinzas
    F1: O Filme
    Jurassic World: Recomeço
    The Lost Bus
    Pecadores

Melhor Figurino

    Avatar: Fogo e Cinzas
    Frankenstein
    Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
    Marty Supreme
    Pecadores

Melhor Maquiagem e Cabelo

    Frankenstein
    Kokuho
    Pecadores
    Coração de Lutador: The Smashing Machine
    A Meia-Irmã Feia 

  

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Cinema - Valor Sentimental (Affeksjonsverdi)

De: Joachim Trier. Com Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Elle Fanning e Inga Ibsdotter Lilleaas. Drama, Dinamarca / Noruega / Alemanha / França / Reino Unido / Suécia, 2025, 133 minutos.

Existe uma cena pequena em Valor Sentimental (Affeksjonsverdi), que talvez dialogue diretamente com as ideias centrais do filme dirigido por Joachim Trier - do excelente A Pior Pessoa do Mundo (2021). Nela, durante um jantar, o veterano diretor de cinema Gustav Borg (Stellan Skarsgård) teoriza sobre a produção cultural nos tempos de hoje, tendo como argumento o fato de os artistas atuais serem excessivamente "pequeno burgueses". "Não se escreve 'Ulysses' levando um pirralho pro futebol, ou pagando o seguro do carro" - comenta o sujeito, no limite entre o pedantismo e o elitismo. "Um artista verdadeiro deve ser livre e deve permanecer livre", afirma, deixando em choque as suas duas filhas Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas). Sim, a fala pode soar excessivamente pragmática, direta e até insensível - ainda mais saindo da boca de um senhor de mais de setenta anos, que é cobrado por ter sido, durante grande parte de sua existência, um pai ausente.

Para aqueles que se impactam com aquilo que é dito de forma bastante racional por Gustav, é preciso que se diga que, na mesma sequência, ele garante às filhas incrédulas que elas foram a melhor coisa que lhes aconteceu. Ainda que, como renomado diretor de cinema, ele tenha estado em qualquer outro lugar do que a sua casa. Aliás, é justamente a casa centenária da família, com suas rachaduras, marcas do tempo e até um certo afundamento no solo - numa metáfora bastante clara pra certa decadência do todo -, que é o ponto de encontro de todos ali depois que a mãe de Nora e Agnes e, portanto, a ex-esposa de Gustav, morre. A casa, que atravessa gerações, histórias e memórias - boas ou ruins - e que são evidenciadas em uma bela sequência inicial, pertence ao pai. Que, fugindo de qualquer lógica, resolve que quer utilizá-la como cenário para um próximo filme. Desejando contar com Nora, uma respeitada atriz de teatro, no elenco.

 


Não é uma equação simples de ser resolvida. Nora pode não ser tão famosa, mas tem seu trabalho - aliás, acaba de estrear uma série que parece ter ido bem junto à crítica. E abomina com todas as forças a ideia de trabalhar com Gustav, seu pai, que meio que é redescoberto pela crítica, após a realização de uma retrospectiva de sua obra, exibida na França - o que inclui a reapresentação de um filme sobre a Segunda Guerra, inspirado na história trágica de sua mãe. E mesmo com seu último projeto tendo sido lançado quinze anos atrás, o trabalho do diretor chama a atenção da jovem Rachel Kemp (Elle Fanning), uma atriz estadunidense da geração Tik Tok, que, por fim, é convidada por Gustav para protagonizar o filme que é recusado por Nora. Entre idas e vindas e diálogos cheios de ressentimentos, a obra se converte em uma experiência familiar complexa sobre um pai ausente que pode ter sido, em sua juventude, um espírito excessivamente livre. Ainda que pai. Ainda que nada perfeito. Ausente. Mas dedicado ao trabalho. O que também possibilitou a criação das filhas.

Em linhas gerais essa é uma obra que utiliza os ambientes apertados da casa da família para reforçar o sentimento de claustrofobia que guia a todos ali - ainda que haja, aqui e ali, espaços para respiro, especialmente na relação tanto de Nora quanto de Gustav com o pequeno filho de Agnes, Erik (Øyvind Hesjedal Loven). A metalinguagem do filme dentro de um filme, sobre uma mãe que se suicida - e que faria alusão à história da própria mãe de Gustav -, pode ser uma alegoria nem tão criativa assim a respeito de luto, memória e algum tipo de busca por conexão. E por mais simples e naturalista que tudo seja, o que é reforçado pela quase ausência de trilha e por uma fotografia acinzentada, de tintas melancólicas, o filme permite uma série de reflexões bastante humanas sobre escolhas, erros, acertos, sonhos que ficam pelo caminho, frustrações e outros temas. "Sou muito sensível e somos muito parecidos", garante Gustav à Nora, no mesmo jantar que cito no começo dessa resenha. Aqui parece que um espírito livre reconhece outro. E, para que ele vá adiante, talvez seja preciso deixar certas coisas pra trás.

Nota: 8,5


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Novidades em Streaming - A Meia-Irmã Feia (Den Stygge Stesøsteren)

De: Emilie Blichfeldt. Com Lea Myren, Thea Sofie Loch Næss, Ane Dahl Torp e Isac Calmroth. Terror / Drama / Comédia, Dinamarca / Noruega / Polônia / Suécia / Romênia, 2025, 109 minutos.

Vamos combinar que, talvez para os padrões atuais, os contos de fadas sejam um tipo de história um tanto antiquada. Jovens virginais excessivamente belas e bondosas, em conflito com entidades malignas quaisquer, aguardando por um príncipe encantado que vai salvá-las em um cavalo branco, com ambos sendo felizes para sempre, pode até ter lá sua mágica em termos de um ideal a ser almejado - pelo menos nas páginas dos livros. Na vida real, em um tempo de avanço da extrema direita, de redpills e de incels violentos que desejam mulheres belas, recatadas e do lar - de preferência a tradwife que passa o dia na cozinha, atendendo com afeto os desejos do marido que mais parece um filho - esse papo não cola mais. E talvez seja justamente por isso que obras como a excelente A Meia-Irmã Feia (Den Stygge Stesøsteren), que chega agora à plataforma Mubi, sejam tão instigantes. Tão subversivas.

Afinal de contas, no filme de estreia da realizadora Emilie Blichfeldt, temos uma quebra completa da lógica existente na história da Cinderela, com a narrativa sendo deslocada para Elvira (Lea Myren), a tal meia-irmã feia, que entra em uma espécie de competição pelo amor do príncipe Julian (Isac Calmroth) com a lindíssima Agnes (Thea Sofie Loch Næss). Se no clássico de Charles Perrault temos uma Agnes pura, incorruptível e de moral inabalável, que é maltratada pela madrasta e pelas duas meias-irmãs - num daqueles casos clássicos de maniqueísmo que envolve a dualidade entre o bem e o mal -, aqui temos a adição de uma boa dose de complexidade no que diz respeito ao comportamento de todos naquele microcosmo. Elvira pode ser feia, mas jamais será tratada como a coitadinha, que agora passa a ser a mocinha. Em igual medida, Agnes também tomará atitudes eticamente questionáveis. Mas a pergunta que fica é, até que ponto vale o esforço para se encaixar em certo padrão de beleza, para atender aquilo que é esteticamente aceitável?

 


A um amigo, cheguei a afirmar que A Meia-Irmã Feia era quase como um A Substância (2024) dos contos de fadas. O body horror aqui é inserido no comportamento pouco convencional de Rebekka (Ane Dahl Torp), que talvez seja a grande vilã da história. Como a mãe de Elvira - e de Alma (Flo Fagerli) -, Rebekka teme pelo futuro financeiro da família ao se ver falida depois de um casamento arranjado justamente com o pai de Agnes. Na tentativa de manter as aparências, a ideia é arranjar o casamento do príncipe Julian com Elvira, que precisa passar por uma recauchutagem - o que envolverá cirurgias plásticas primitivas no nariz, aplicação de cílios postiços com técnicas rudimentares e até a ingestão de larvas de tênia (a solitária), que lhe possam fazer emagrecer na marra. De forma concomitante, Agnes será impedida a ir a um baile promovido pelo Rei, e que poderá selar o destino do filho a partir da escolha de sua noiva.

Chocante e repulsiva, a obra não alivia nas cenas em que partes do corpo são marteladas, costuradas, cortadas - tudo na busca pelo corpo idealizado, que poderá então ser digno de receber amor (e não deixa de ser interessante perceber como o subtexto serve justamente como alerta em tempos em que debates atuais sobre autoestima, inclusão e diversidade estão tão em alta). Beleza, todos sabem (ou deveriam saber), não é definidora de caráter e os esforços comoventes de Elvira - o que envolve ainda aulas de etiqueta básica -, gerarão mais e mais sofrimento conforme os dias passarem. E, consequentemente, mais ressentimento - o que poderia ser central na explicação de seu comportamento no conto original. Buscando quebrar estereótipos, a o filme busca uma leitura à luz dos nossos tempos, expondo como as exigências estéticas podem ser violentas, excludentes e crueis. E tudo elaborado de forma tecnicamente impecável, o que envolve ótimos efeitos, desenho de produção convincente e trilha sonora incômoda. Blichfeldt afirmou em entrevistas que algumas de suas inspirações são Julia Ducournau e David Cronenberg. Acho que dá pra dizer que os mentores ficariam orgulhosos.

Nota: 8,5 

 

Novidades em Streaming - The Mastemind

De: Kelly Reichardt. Com Josh O'Connor, Alana Haim, Bill Campo, Hope Davis e Gaby Hoffmann. Policial / Drama, EUA, 2025, 111 minutos.

Um filme sobre roubo de obras de arte moroso, letárgico e sem nenhum espaço pra catarse. E que, ainda assim, parece ser revelador de certo período nos Estados Unidos - no caso, os anos 70 da Guerra do Vietnã e do governo de Ronald Reagan. Assim é o recente The Mastermind, obra dirigida por Kelly Reichardt - do ótimo First Cow (2020) -, que está disponível na Mubi. Na trama acompanhamos o carpinteiro desempregado e trambiqueiro nas horas vagas J. B. Mooney (Josh O'Connor), que engendra um plano nem tão elaborado assim para roubar quatro quadros do pintor Arthur Dove, que estão dispostos em um museu do subúrbio da região de Massachusetts. Sem muita pressa para a execução, Mooney é paciente na hora de examinar como opera o local, com seus guardas que poucos inspiram segurança, caixas de vidro facilmente violáveis e rotas de fuga bastante plausíveis.

Aliás, quando o filme começa a gente até demora um pouco a perceber que ele já está fazendo algum tipo de estudo. Observando por cima de mesas e por entre corredores - enquanto um de seus filhos propõe charadas aleatórias que só servem de distração. Em certo momento ele recua uma pequena gaveta que exibe uma peça de arte que replica um cenário de guerra, de onde furta um "bonequinho" - tipo um soldado. Ninguém percebe a ação que é completa, ao estilo do protagonista do clássico Pickpocket: O Batedor de Carteiras (1959) de Robert Bresson: a peça vai parar dentro de um estojo de óculos e dali para a bolsa da esposa Terri (uma Alana Haim pouco aproveitada aqui), que sequer percebe a ação. Mooney já está trabalhando e o próximo passo envolve contratar três capangas que possam executar o plano. A grana pra pagar o trio será fornecida pela mãe Sarah (Hope Davis), sob uma desculpa qualquer que envolve um futuro projeto de decoração. 

 


Não é preciso ser muito ligado para perceber que esse certo desencanto coletivo - ou mesmo a desesperança por um futuro melhor -, se espalha pelas frestas. Não é apenas o exigente pai de Mooney, Carl (Sterling Thompson) que o cobra pra que ele tome jeito na vida. As perspectivas parecem convincentemente desanimadoras em um País em que mães protestam nas ruas contra a Guerra da Vietnã e em que cartazes do Tio Sam espalhados pela cidade convidam para o alistamento e para um certo espírito de luta pela Pátria. Meio alienado, o protagonista faz seu corre - quer dizer, corre é modo de dizer -, numa tentativa meio desajeitada de furto, enquanto o sistema de segurança falha miseravelmente. Após ser enganado por um dos capangas, Mooney precisa atuar diretamente no roubo. Na fuga. E em uma tentativa desesperada de fazer com que os quadros meio que sumam de vista - em uma época em que câmeras de segurança a cada esquina ainda não eram uma realidade.

Ao cabo, um filme com esse tema poderia ter mais ação, mas aqui a ideia é proporcionar uma experiência contemplativa, excêntrica e até engraçada - como no instante em que Mooney leva os quadros para uma fazenda, derruba uma escada de madeira e quase se machuca. Parece bobo, quase banal em alguma medida, mas é uma evidência generalizada do despreparo em uma antecipação de suspense que meio que nunca se consolida - por mais que a trilha percussiva e jazzística invasiva insista em direcionar para o outro lado. Tecnicamente bem executado, o projeto conta com excelente recriação de época - dos figurinos ao desenho de produção -, com a fotografia dessaturada, entre o azulado e o amarelado, reforçando o caráter arenoso e o retrô. O sonho americano falhou novamente. Por mais que as figuras marginalizadas insistam em encontrar seu rumo em um ecossistema que desmorona.

Nota: 8,0 

 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Pitaquinho Musical - The Cribs (Selling a Vibe)

Vamos combinar que o The Cribs é aquele tipo de banda que dificilmente erra e, em seu nono registro de estúdio, Selling a Vibe, o trio formado pelos irmãos Gary, Ryan e Ross Jarman reafirma uma de suas maiores virtudes: a capacidade de envelhecer com dignidade sem abrir mão da identidade. A banda continua fiel ao seu DNA indie, com algumas pinceladas de power pop e pós punk, mas agora soando menos impulsiva e mais consciente de cada escolha. Mais ou menos como se tivesse trocado a urgência juvenil do trabalho anterior, o frenético Night Network (2020), um dos nossos favoritos daquele ano, por um refinamento emocional - o que vá lá, certamente tem a ver com a maturidade de quem já está há mais de 20 anos na estrada. Em resumo, as guitarras seguem lá, mas aparecem menos nervosas, abrindo espaço para melodias que respiram e crescem com o tempo.

 

 

Esse novo momento fica evidente em canções como a faixa-título, Never The Same e Self Respect, que apostam em arranjos mais contidos e em um lirismo direto, quase confessional. Expediente que se repete em outras canções majestosas, como na ótima Distractions, que parece unir Beach House e Weezer em uma letra sobre a busca de significado nas coisas simples, e uma certa inconformidade que emerge do sentimento de vazio na rotina (Nestes dias de excesso / As histórias mais curtas são as mais doces / Agora as coisas que me fizeram distrair / Podem distrair alguém novo). Não é um disco que busca impacto imediato, mas sim permanência - daqueles que vão se revelando aos poucos, sem alarde. Ao cabo, Selling a Vibe mostra um The Cribs confortável com sua trajetória, seguro o bastante para desacelerar e, justamente por isso, continuar acertando.

Nota: 8,5