segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Novidades em Streaming - A Garota Canhota (左撇子女孩)

De: Shih-Ching Tsou. Com Nina Ye, Ma Shih-Yuan e Janel Tsai. Drama, Taiwan / EUA / França / Reino Unido, 2025, 108 minutos.

Em uma das tantas cenas comoventes do tocante A Garota Canhota (左撇子女孩) - obra enviada por Taiwan para a próxima edição do Oscar e que está na short list -, a pequena I-Jing (Nina Ye) fica exasperada após a morte de seu suricato de estimação. O animalzinho cai da sacada do prédio em que sua família reside, colidindo com um motoqueiro - em uma tragédia que poderia ser maior, mas que ganha tintas cômicas da produção de Shih-Ching Tsou. I-Jing se sente responsável pelo ocorrido. É ela, afinal, que arremessa uma bolinha de plástico para o bichinho que, tentando ir atrás do objeto, despenca das alturas. Mais do que isso, ela atira a bolinha com a mão esquerda - a "mão do diabo", como havia alertado o seu severo avô, algumas vezes. Aludindo a uma tradição antiquada de certas religiões, em que a mão esquerda (e seu uso), seria sinônimo de impureza, de azar ou de outros estigmas.

Claro que as motivações das dores vividas pela pequena protagonista nada tem a ver com isso - por mais que seu conservador avô brigue com ela para que ela coma ou escreva com a mão direita. De qualquer maneira, a vida de I-Jing, de sua irmã I-Ann (Ma Shih-Yuan) e de sua mãe Shu-Fen (Janel Tsai) não é nada fácil. Perambulando por uma Taipei fervilhante e caótica - cheia de luzes e de brilho, mas também de pobreza e de urbanidade -, o trio se instala na capital taiwanesa abrindo uma barraquinha para comercialização de macarrão instantâneo. A ideia parece envolver algum tipo de recomeço, já que o patriarca da família padece em um hospital, tendo as custas do tratamento mantidas por Shu-Fen - o que, aliás, torna difícil ela honrar os próprios compromissos financeiros. Para obter uma renda extra, I-Ann trabalha também em uma pequena loja de periferia que comercializa nozes de areca, espécie de estimulante local. Ah, I-Ann transa com o chefe e mantém uma disputa com uma colega de trabalho.

 


Nesse cenário frenético, I-Jing opera como uma espécie de elo, a unir certa ingenuidade infantil que envolve seu universo ainda minúsculo, com a aspereza da vida adulta. Se em um instante ela está brincando ou tentando se divertir naquele cenário neon esmaecido - resultado, inclusive, do estilo de filmagem à Sean Baker (que produz) -, em outros ela tá ouvindo esporros diversos de sua ansiosa mãe, ou ajudando um carismático vendedor de uma barraca vizinha, a tentar empurrar as suas quinquilharias goela abaixo de qualquer cliente que passe pelo local. Quando a mão esquerda se torna uma "ameaça", I-Jing passa a operar pequenos furtos - talvez de forma inconsciente, ou com algum propósito mais nobre. Em outro momento mais tenso, ela chega a pegar uma faca gigante de cortar carne, com uma intenção que quase não combina com seus olhos doces. O avô lhe vendeu as ideias erradas. Aliás, o que é um problema em sociedades patriarcais, machistas, preconceituosas e cheias de ideias torpes e retrógradas.

Em linhas gerais esse é um daqueles filmes tipicamente asiáticos - em que a aspereza da cidade, com seus barulhos e movimentos incessantes, contrasta com instantes afetuosos de um microcosmo familiar que luta para sobreviver, que briga, mas também se une na dor. De forma despretensiosa a obra, que está disponível para a Netflix, ainda reserva para os minutos finais uma das maiores surpresas da temporada, escancarando ainda a hipocrisia da suposta perfeição doméstica e a complexidade que envolve ser mãe solo. Vergonhas, traumas, memórias doloridas, esperança por um futuro melhor, uma scooter que roda entre a liberdade e certa adrenalina, tudo é descortinado com impacto e leveza em igual medida, com a mão esquerda de uma criança sendo apenas uma desculpa cômoda para os esqueletos que estão no armário de adultos.

Nota: 8,0 

 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Novidades em Streaming - A Longa Marcha (The Long Walk)

De: Francis Lawrence. Com Cooper Hoffman, David Jonsson, Mark Hamill, Ben Wang, Judy Greer e Charlie Plummer. Ficção Científica / Terror, EUA, 2025, 108 minutos. 

Vamos combinar que não deixa de ser meio curioso pensar que Stephen King escreveu o primeiro rascunho de A Longa Marcha (The Long Walk) no mesmo ano em que Sidney Pollack lançaria o clássico A Noite dos Desesperados (1969). Ainda assim, em em contexto em que a Guerra do Vietnã escalava empilhando corpos e um certo desencanto capitalista parecia rondar o mundo na entrada de década de 70, a coincidência não chega a surpreender. Em ambas as obras acompanhamos um grupo de pessoas participando de um jogo macabro em que os vencedores sairão com uma boa quantia de dinheiro, além de certo prestígio meritocrático. Na obra de Pollack, casais sem perspectivas financeiras reúnem-se em um salão para dançar infinitamente, numa espécie de prova de resistência à moda de um Big Brother do capitalismo tardio. Já na produção dirigida por Francis Lawrence, a partir do livro de King, vence quem for capaz de superar os demais em uma interminável caminhada.

E não é preciso nem ser muito politizado para perceber como a obra funciona como um panfleto de denúncia de contrastes sociais em uma era de vigilância, de espetacularização e de avanço da extrema direita e de outros regimes opressores mundo afora. E basta ver o discurso tão inflamado quanto limitado cognitivamente do major interpretado por um caricato Mark Hamill para perceber que, naquele cenário distópico, figuras ao estilo de um Donald Trump se divertiriam verdadeiramente, ao ver jovens lutando (literalmente) por suas vidas. Aliás, a coisa quase beira o arremedo, quando assistimos aquele sujeito de óculos escuros e de roupa militar por sobre um tanque, enquanto sinaliza aos participantes os objetivos daquela competição torpe - usando lugares-comuns à moda neofascista conclamando um retorno a tempos gloriosos, de esperança e de coragem. "Há uma epidemia de preguiça que precisa ser combatida", alega o major - e não seria nenhuma surpresa se ele vestisse um boné do Maga em meio ao seu discurso.

 


A óbvia referência a Trump funciona como um lembrete de que mudam os tempos, mas a retórica segue a mesma - e o caso é que mesmo as ficções científicas mais distópicas nunca parecem capazes de superar a realidade. Na trama, após uma Guerra Civil devastadora em um período de tempo que não se sabe qual, os Estados Unidos passam por um período econômico deprimente. Como forma de tentar resgatar valores como o patriotismo (sempre ele) e a ética laboral, o governo totalitário convoca cinquenta adolescentes, um de cada Estado, para participar da disputa que envolve uma série de regramentos - de velocidade mínima permitida à impedimento de desistência. A escolta ao grupo é feita por um grupo militar armado que não hesitará em executar os "frágeis" ou desistentes - e não deixa de ser assombrosa a naturalização da desumanização nesse cenário distópico, já que, lá pelas tantas, ninguém mais parece se impactar tanto com os corpos sendo empilhados pelo caminho. Num mar de sangue nem tão alegórico assim, que alude ao pior do capitalismo tardio, com o sonho de uma vida melhor passando pela sujeição às maiores humilhações. Aliás, os jovens participantes sequer podem parar para fazer suas necessidades, sob pena de levar um tiro. É grosseiro, torpe, vil, cruel. E aparentemente divertidíssimo - o suco do entretenimento -, para aqueles sádicos que comandam o espetáculo.

Já os jovens daquele microcosmo funcionam como eventuais estereótipos - o nerd, o destemido, o valentão, o atormentado, o taciturno, o malvado -, o que faz com que a experiência carregue uma energia cinéfila meio anos 80, ainda que a fotografia esmaecida, de tons desbotados e o cenário bucólico recortado pelo asfalto interminável, sugiram o inverso. Como uma espécie de líder involuntário (ou talvez bússola moral) do grupo, o carismático protagonista Raymond (Cooper Hoffman, de Licorice Pizza) conduzido ao local por sua chorosa mãe (Judy Greer), logo faz amizade com Pete (David Jonsson), compartilhando dores, traumas passados, desejos, anseios. Aliás, amizade ou qualquer tipo de sentimentalismo nessa corrida nunca parece uma boa ideia já que naquela competição perversa apenas um sobrevive. Mas servirá para que eles se estimulem a prosseguir - com os três mosqueteiros (sim, são quatro) sendo completados pelos esperançosos e inocentes Hank (o ótimo Ben Wang) e Arthur (Tut Nyuot). Ao cabo, a obra é cheia de diálogos, percalços e dores que servem para lembrar que, em um mundo tão individualista como o que vivemos, o senso coletivo ainda pode ser a resposta no combate à tirania. Por mais paradoxal que isso possa ser em uma produção do tipo.

Nota: 7,0 

 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Cinema - Foi Apenas Um Acidente (Yek Tasadef Sadeh)

De: Jafar Panahi. Com Vahid Mobasseri, Ebrahim Azizi, Mariam Afshari e Mohammad Ali Elyasmehr. Drama / Comédia, Irã / França / Luxemburgo, 2025, 103 minutos.

Quando a gente assiste a um filme como Foi Apenas Um Acidente (Yek Tasadef Sadeh), é meio que impossível não associá-lo à situação vivida pelo próprio diretor da obra, o iraniano Jafar Panahi. Perseguido pelo governo há quase duas décadas por atividades supostamente subversivas - com o seu cinema provocativo sendo veículo para críticas ao regime em vigor no País -, o realizador tem empreendido verdadeiros calvários para concluir cada um de seus projetos. E para tentar driblar a censura e as barreiras impostas pelos aiatolás e seu conservadorismo atroz. De histórias mirabolantes, como a do envio de uma cópia de Isso Não É Um Filme (2011), para o Festival de Cannes, em um pendrive escondido em um bolo, ao uso de metáforas e de metalinguagem em Sem Ursos (2022), suas produções têm sido um símbolo de resistência e de enfrentamento, enfim, um engenhoso exercício criativo em meio à proibição.

E talvez por isso, mesmo filmes que não pareçam assim tão inspiradores como este, que está em cartaz nas salas do Brasil e deverá ser figurinha certa na próxima edição do Oscar, faz com que passemos pano para as eventuais imperfeições. Afinal, frente a um cenário de ameaças - Panahi chegou a ser preso em 2022, passando sete meses encarcerado, sendo libertado após uma greve de fome -, uma obra que é uma alegoria para o medo e de como agir quando o algoz é confrontado, é, enfim, um ato de coragem. Na trama, o mecânico de automóveis Vahid (Vahid Mobasseri) é surpreendido pela chegada à oficina mecânica em que trabalha de um certo Eghbal (Ebrahim Azizi), sujeito que, no passado, teria lhe torturado por conta de diferenças étnicas em um flagrante caso de xenofobia. Vahid identifica o sujeito pelo barulho característico da perna mecânica de seu algoz, que perambula pelo ambiente acompanhado da esposa e da filha, após um acidente em que atropelam um cachorro.

 


Com medo e meio que sem saber direito o que fazer, Vahid resolve seguir Eghbal até a sua casa, encontrando o momento certo para abordá-lo, agredi-lo e conduzi-lo até uma isolada região desértica com o objetivo de enterrá-lo vivo. O ódio que carrega, resultado de uma sequência de humilhações vividas por ele, justificaria essa Lei de Talião improvisada (do "olho por olho, dente por dente?"). Em desespero, Eghbal garante haver um engano. Não tendo sido ele o carrasco que o manteve enclausurado - e Vahid não consegue ter certeza, porque tudo o que ele tem é o barulho da perna mecânica e a voz. Receoso de estar cometendo uma injustiça, ele desiste do seu intento, colocando o homem em um caixão à moda Festim Diabólico (1948), na intenção de descobrir se Eghbal é, de fato, quem é. O que resultará em um excêntrico road movie pelas ruas de Teerã, com a entrada em cena de outras figuras como a fotógrafa Shiva (Mariam Afshari), a noiva Goli (Hadis Pakbaten) e Hamid (Mohammad Ali Elyasmehr), um empregado de uma farmácia local. Todos previamente flagelados (ou não) por Eghbal.

Em linhas gerais, o que a obra - que venceu a Palma de Ouro do mais recente Festival de Cannes - parece questionar por cada um de seus poros é como fazer, em um cenário de tantas diferenças políticas, sociais, culturais (ou de polarização), para simplesmente tolerar o outro. A sua existência. Claro que se um lado é o violento e age com raiva, truculência e intolerância, o outro também deveria agir assim? É por esse caminho que resolvemos os problemas e pacificamos uma sociedade? Em longos diálogos, o quinteto completado pelo noivo de Goli, Ali (Majid Panahi, filho do diretor) vai pra lá e pra cá tentando tomar algum tipo de decisão. Para Hamid é matar, enterrar e pronto. Para os demais, como no caso da própria Shiva que, claramente, só quer seguir em frente com a sua profissão, a dúvida pairando no ar parece ser uma barreira. 

 

 

Em meio a choques e pequenas colisões, o grupo passará por outros suplícios urbanos, como propinas policiais, subornos aleatórios, a turbulência do trânsito, o capitalismo tardio ostensivo, um carro que entra em pane e até uma inesperada gravidez, com as implicações doentias de uma sociedade patriarcal - e tão guiada pela religião. Árida, excêntrica, caótica e inacreditavelmente divertida, essa é uma obra que repete os temas usuais de Panahi, que permanentemente precisa driblar as restrições, para a construção de uma experiência fragmentada, que olha para os traumas coletivos do Irã sem apontar um vilão em específico, já que o problema está no todo. No tecido. Nas entranhas. Com vidas - trabalho, relacionamento, famílias - sendo afetadas. Todos os dias. Com a coletividade meio que em pane, confusa, sem saber como agir. E sendo atropelada sem nem perceber.

Nota: 7,5 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Novidades em Streaming - Brincando com Fogo (Jouer Avec le Feu)

De: Delphine e Muriel Coulin. Com Vincent Lindon, Bejnamin Voisin e Stefan Crepon. Drama, França, 2024, 118 minutos.

"Quando dizem que não é político, é aí que você deve se preocupar". Ainda no começo de Brincando com Fogo (Jouer Avec le Feu) a primeira vez em que Pierre (o sempre ótimo Vincent Lindon) inquire seu filho Fus (Benjamin Voisin) a respeito de suas amizades, ele é incisivo. "Não quero você andando com fascistas", ele argumenta, com seu olhar forte mas melancólico, que transmite medo, mas ternura. "Perder" um jovem para um grupo masculinista de extrema direita - normalmente aqueles incels frustrados, consumidores de conteúdo red pill -, que compensa o seu fracasso na base do ódio, da violência e da truculência contra tudo e contra todos, especialmente minorias, afinal, não deve ser fácil. E parece ser justamente o que está acontecendo com Pierre, um trabalhador ferroviário que vê o seu filho mais velho a cada dia mais fascinado por esses ideais. O homem chega a ser alertado por um colega de trabalho, a respeito da presença de Fus tumultuando um protesto de operários, que desejam entrar em greve.

Em linhas gerais a obra das diretoras Delphine e Muriel Coulin aborda um certo desencanto com os tempos atuais - de avanço de ideais racistas, xenófobas, misóginas -, com o campo contrário tendo de funcionar como uma zona de contenção. Como se fosse uma espécie de Otávio, o personagem de Gianfrancesco Guarnieri em Eles Não Usam Black Tie (1982), Pierre é o socialista mais ou menos desiludido, que opera em um modo meio letárgico, quase no piloto automático em relação a sua vida. Prestes a se aposentar, deseja cuidar dos filhos - o mais novo, o afetuoso Louis (Stefan Crepon) está prestes a conseguir uma vaga no curso de Letras na prestigiada Sorbonne. "Ela ficaria orgulhosa", lembra o menino aludindo à falecida mãe, que padeceu aparentemente de um câncer. À Pierre, em meio a turnos de trabalho exaustivos na madrugada, restou cuidar dos meninos. O que ele tenta fazer da melhor forma.

 


Só que em certo dia, Pierre abre o notebook de Fus e fica estarrecido com o que vê. Não apenas ele está em perfis de grupos de extrema direita, como se se vangloria de compartilhar vídeos em que violências diversas ocorrem, especialmente contra imigrantes - com gritos nacionalistas e toda uma estética radicalista, que vai das cabeças raspadas às tatuagens tribais. Após uma discussão mais forte entre os dois, Pierre persegue Fus, ocasião em que descobre um gigantesco galpão abandonado que funciona como ponto de encontra dessa unidade neonazi. Lá dentro, um bando de machinhos tentam compensar a micropenia coletiva com sessões de brigas estilo Clube da Luta (1999), o que envolve gritedo, baba e suor. "Somos só bucha de canhão", "não é uma questão de esquerda ou direita", "estamos cansados do sistema", são frases prontas que Fus espalha, como se fosse um gerador de lero-lero do chatGPT, que só formula textos prontos e vazios que busquem amparar suas motivações.

Sem ofender a inteligência do espectador a obra é hábil em construir uma atmosfera de tensão crescente, mas sem ser necessariamente maniqueísta.  Estamos, afinal, falando de uma família, que cresceu indo a jogos de futebol, ou batendo bola no pátio de casa. Alternando instantes de amor e de ódio, como em qualquer relação de pai e filho. Então, é bastante natural que Pierre tente investir, ao menos até onde dá, no caminho do amor. Ao passo que Fus também é afetuoso à sua maneira com o irmão e com o próprio pai, o que faz com que percebamos o óbvio em uma produção como essa: o ser humano é um sujeito complexo e cheio de nuances. Pode ser bom ou mal ou os dois. O seu tio bolsonarista que cuida tão bem de sua tia não é a pior pessoa do mundo. Ao mesmo tempo em que alguém do campo progressista não está livre de falhas ou de dilemas éticos. Só que o que parece ser meio infalível é o destino de quem adere tão cegamente e de forma tão alienante a ideologias tão extremas. E exemplos nesse sentido, lamentavelmente, não faltam.

Nota: 9,0 

 

Cinema - Bugonia (Bugonia)

De: Yorgos Lanthimos. Com Emma Stone, Jesse Plemons e Aidan Delbis. Drama / Ficção Científica / Comédia, EUA / Canadá / Coréia do Sul / Irlanda / Reino Unidos, 2025, 118 minutos.

Teorias conspiratórias, crises climáticas, CEOs performáticos, tecnologia difusa, trabalho precarizado, incelismo cultural, distorção da realidade, corporações que vendem a doença e a cura, podcasts e opiniões sobre basicamente tudo. Vamos combinar que todo esse mal-estar contemporâneo, com suas divisões políticas, sociais e culturais, parece condensado nas irresistíveis cerca de duas horas de Bugonia (Bugonia). No novo filme de Yorgos Lanthimos - se você acompanha a carreira do diretor sabe que seu "método" é meio que o do estranhamento e o do choque - não parece haver mocinhos a quem possamos nos apegar ou mesmo torcer. Se por um lado o seboso Teddy (Jesse Plemons) parece um channer anárquico e alucinado que frequenta fóruns de internet em que doidinhos de bairro divagam sobre os mais aleatórios tipos de terraplanismo, por outro a empresária Michelle (Emma Stone) não fica atrás, com sua cultura corporativa de aparências e enriquecimento com base no sofrimento alheio.

Ao lado do primo autista Don (Aidan Delbis), Teddy elabora um audacioso plano: o de sequestrar Michelle, que ele acredita fielmente não apenas ser uma alienígena do galáxia de Andrômeda - numa clara alegoria sobre dominação - mas também a responsável direta por toda a dor causada a sua família. Teddy e Don são dois solitários que trabalham com apicultura e parecem ter genuíno apreço pelo meio ambiente, ao passo que Michelle é justamente uma das diretoras de um conglomerado farmacêutico de nome Auxolith, que fabrica inseticidas que, justamente, tem aniquilado as colmeias de abelhas. Uma ameaça, aliás, bastante real. Quando esses dois universos tão distintos colidem, o resultado é uma experiência provocativa que não alivia para as tragédias decorrentes do capitalismo, que parece não ter limites em sua sanha desenvolvimentista - mesmo que alguns fiquem pelo caminho -, nos fazendo também questionar se o caminho adotado pela dupla de abilolados representa é o ideal para a resolução dos problemas.

 


E, em alguma medida, creio que seja exatamente aí que o filme se torna mais profundo. Mais complexo. Ao mostrar que as pessoas podem ter nuances e traços distintos de personalidade. Afinal, seria muito cômodo e um tanto maniqueísta tornar Michelle a pobre sofredora sequestrada - meio como no caso do escritor de Louca Obsessão (1990) -, que está nas mãos de dois malucos do ancapistão que, se for preciso, vão praticar as piores torturas para alcançar seus objetivos, seja lá quais sejam exatamente. Tanto que antes de ela ser levada por Teddy e Don, já entendemos que ela é uma arrombada manipuladora, que se incomoda com a sua equipe ao gravar um vídeo institucional sobre diversidade (ela reclama do excesso do uso da palavra, o que parece deixar brecha pra outras interpretações), ao mesmo tempo em que soa como uma falsiane ao divulgar à nova política da empresa, que permite aos empregados saírem às 17h30. Mas desde que não haja pendências, claro! "Vocês decidem", sorri ela cativante, com seus olhos angulosos, que estampam uma série de capas de revistas do universo corporativo.

Com a mãe em coma - mais um efeito colateral das políticas literalmente tóxicas da Auxolith -, e uma fúria masculinista que vai no limite da metáfora, quando ele mesmo se aplica um medicamento redutor de libido, Teddy é retratado sim como o esquisitão de cabelos compridos, meio hippie sujo, meio troll de segunda categoria, mas que também parece ter sua parcela de razão ao evidenciar que o colapso ambiental global, se não for refreado, pode ser o símbolo do desastre futuro. À uma acuada Michelle, ele pede que retorne à Andrômeda. E simplesmente pare com essa devastação. O sentimento geral de paranoia decadente do mundo parece ampliado pela trilha sonora de cordas incômodas - cortesia do compositor Jerskin Fendrix, que deve ser nominado ao Oscar - e por um espírito bélico que escala, sem termos a certeza de onde tudo aquilo vai parar. O final, criticado por alguns, amado por outros (meu caso), é a cereja do bolo: seguimos disputando espaço, brigando (inclusive na internet) e tentando marcar posição, enquanto que manda no capital e toma as decisões nos aniquila pelas entranhas. Pode parecer meio niilista no geral. Até meio misantropo em alguns casos. Mas esse é o cinema de Lanthimos. Para o bom ou para o mal.

Nota: 8,5 

 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

30 Grandes Filmes de 2025

Tenho a impressão - e pode ser apenas impressão mesmo - de que, diferentemente do que ocorreu com a música, o ano do cinema como um todo, não foi tão bom assim. Ok, vocês poderão argumentar lembrando da grande fase que vive o Brasil nesse campo, com a vitória no Oscar e boas perspectivas para a temporada de premiações que se aproxima. Mas ainda assim parece pouco. Filmes em que havia grande expectativa se tornaram experiências frustrantes (aliás, se me animar ainda faço uma relação com as grandes decepções de 2025), e obras consideradas boas foram apenas isso mesmo, boas. Claro, ainda há toda uma quantidade de produções que deverão estar nas premiações do ano que vem - especialmente o Oscar -, casos de Foi Apenas Um Acidente, Valor Sentimental e No Other Choice, muitos deles chegando nos cinemas em dezembro. Mas, ainda assim, quando olhamos para o Termômetro ou para a bolsa de apostas e vemos que Pecadores e Uma Batalha Após a Outra seguem sendo os grandes da temporada - e que obras medianas como Sonhos de Trem, Bugônia ou Casa de Dinamite aparecem como possibilidades até mesmo para Melhor Filme, temos a impressão de que a nossa tese se confirma. 

 


 

Obviamente que o Oscar passado e os filmes que chegaram por aqui no primeiro semestre do ano, seja na telona ou no streaming, ajudam a alavancar e até mesmo diversificar o nosso levantamento. Que, aliás, vocês já sabem não costuma se guiar apenas por Hollywood. Na real nesses mais de 10 anos de Picanha Cultural, sempre acreditei que a nossa lista pudesse ser uma forma de falar mais de variedade do que de cinema estadunidense. De obras europeias, asiáticas e sulamericanas, algumas que só chegaram neste ano no streaming e que faço questão de destacar. Como um pequeno recorte daquilo que foi possível conferir nessa vida sempre tão corrida. Acho que nesse ano também assisti a menos filmes do que gostaria. Teve isso também - o que pode ser percebido pelo número de postagens menor, a cada semana, aqui na página. De qualquer forma, fazemos o que está ao alcance. E, verdade seja dita, sempre nos orgulhamos do resultado. Esse site contabiliza cerca de 30 mil visitantes por mês. Um ato meio que de resistência da escrita em meio a um cenário de vídeos cada vez mais curtos e de paciência mínima da audiência (e talvez eu que seja só um tiozão nesse rolê). Mas seguimos. Eis os nossos 30 Grandes Filmes de 2025.

 

 

 

30) Amores Materialistas (Materialists): Parte do magnetismo do cinema de Celine Song está na forma como a diretora subverte pequenas lógicas. Em Amores Materialistas ela revisita um tema clássico: casamento por amor ou por dinheiro? Dakota Johnson é Lucy, casamenteira profissional em Nova York, que organiza encontros entre solteiros ricos e bem resolvidos. Durante a festa de uma cliente, conhece Harry, um Pedro Pascal charmoso, elegante e bem-sucedido, que parece interessado justamente nela, e não nas suas clientes. Mas nem tudo é simples: John, garçom e ator em meio período, surge como contraponto, representando a luta contra dívidas e a frustração de amores que não se resolvem financeiramente. Entre flashbacks e encontros luxuosos, Lucy observa o mundo com uma honestidade quase cruel, refletindo sobre como relacionamentos envolvem poder, dinheiro, vulnerabilidade e frustrações. Song constrói uma comédia romântica que foge da previsibilidade: não há começo, meio e fim óbvios. A narrativa flui entre diálogos práticos e niilistas, observações sobre traições, ciúmes e desilusões, sempre envolta em cenários sofisticados e prazerosos de assistir. A trilha sonora - com The Ronettes, Cat Power, Harry Nilsson e Françoise Hardy - completa o charme, tornando a experiência leve, divertida e reflexiva. Leia a resenha completa.

 

 


29) Vermiglio: A Noiva da Montanha (Vermiglio): Guerras, fanatismo, patriarcado e autoritarismo. É nessa atmosfera opressiva da Itália dos anos 40 que se passa Vermiglio: A Noiva da Montanha, da diretora Maura Delpero. A rotina cotidiana de ordenhar vacas, buscar lenha e água é interrompida pela chegada de Pietro, um soldado taciturno em fuga da guerra. Seu ato heroico de salvar Attilio desperta admiração e vergonha entre os moradores, e também o interesse de Lucia, que se vê dividida entre o amor e os limites impostos pela comunidade. O filme segue um ritmo contemplativo, com silêncios extensos, planos longos e uma neve que oprime, enquanto o espectador monta o quebra-cabeças do que se passa. Entre cenas de delicadeza e brutalidade, Delpero constrói um retrato sutil de hierarquias, misoginia e expectativas sufocantes para mulheres e meninas. Ada, por exemplo, sofre por não poder expressar seu amor pela amiga Virginia, enquanto sua educação termina abruptamente apesar do talento e esforço. Mesmo com tragédias, nascimentos e limitações impostas pela rigidez patriarcal, pequenas réstias de esperança surgem: um olhar, uma conversa sobre ser ouvido, um gesto de afeto. Triste, gélido e contemplativo, Vermiglio não é apenas um filme sobre guerra, mas sobre os silêncios, regras e desejos contidos nas entrelinhas da vida em comunidade. Leia a resenha completa.

 

 


 

28) Você é o Universo (Ти – Космос): Será ficção científica, alegoria existencialista ou só um lembrete de como a solidão na era digital pode ser devastadora? Você é o Universo, do ucraniano Pawlo Ostrikow, mistura catástrofe espacial com reflexão sobre isolamento e conexões humanas, e está disponível na Reserva Imovision. Andriy é um transportador de resíduos nucleares que cruza o espaço em missões de dois anos rumo a Calisto, satélite de Júpiter. Quando a Terra explode em circunstâncias meio confusas, ele se vê condenado a vagar sozinho, entretendo-se com discos de vinil, comida e conversas com o robô Maxim, que mistura o humor estranho de tiozão com inteligência artificial. O isolamento parece absoluto até que surge Catherine, que alega estar numa estação espacial perto de Saturno. As mensagens levam horas para chegar, mas a comunicação cria uma relação delicada e poética, incluindo tentativas de Andriy de recriar o rosto da amiga com massa de modelar. A narrativa espacial funciona como metáfora: guerras, pandemias, crises e isolamento refletem o que a humanidade enfrenta na Terra, enquanto a busca por conexão se mostra vital. Entre humor, absurdos e melancolia, Você é o Universo emociona ao lembrar que, mesmo em distâncias impossíveis, laços humanos e empatia permanecem o que nos define. Leia a resenha completa.

 

 


27) Dahomey: Dirigido por Mati Diop, o documentário acompanha a devolução de obras de arte saqueadas ao Benin, refletindo sobre o impacto cultural, histórico e simbólico desse gesto. Em linhas gerais o filme foge do caminho tradicional de especialistas comentando o tema e propõe uma experiência sensorial e poética, dando voz aos objetos como se fossem testemunhas de um passado marcado pela violência colonial, pelo apagamento cultural e pelo desenraizamento de um povo. A narrativa segue o trajeto dos tesouros - cuidadosamente embalados, transportados por avião e monitorados a cada passo - até o retorno ao país de origem, mesclando imagens de museus, caixotes e procedimentos técnicos com uma narração em off que ecoa como lamento e memória viva. Entre rituais, danças e debates públicos sobre ancestralidade, reparação e autodeterminação, o filme provoca uma reflexão sobre o peso da colonização, o direito à memória e o papel da arte na resistência cultural. Em pouco mais de uma hora, Dahomey consegue transformar um gesto político e simbólico em reflexão profunda, lembrando que a devolução de objetos roubados não é apenas histórica: é uma forma de reconhecer vidas, histórias e direitos que foram interrompidos, resgatando fragmentos de um passado que se recusa a ser esquecido. Leia a resenha completa.

 

 


 

26) Meu Bolo Favorito (Keyk-e Mahbub-e Man): Meu Bolo Favorito é uma obra iraniana delicada e subversiva que aborda solidão na terceira idade, invisibilidade dos idosos e o desejo de amor em um contexto moralista e restritivo. Mahin, viúva há 30 anos, enfrenta o silêncio da casa grande e vazia após seus filhos partirem para a Europa, lidando com a saudade e as lembranças de uma vida marcada por normas rígidas, perseguições e restrições. Dirigido com sensibilidade por Behtash Sanaeeha e Maryam Moghadam, o filme combina humor e poesia para mostrar Mahin decidida a buscar companhia e afeto novamente. Em um restaurante frequentado por veteranos, ela conhece o taxista Faramarz, outro solitário em busca de conexão. A conversa fluirá no seu próprio tempo - econômica, jamais invasiva. A forma será educada, convidativa, como poucas vezes se vê nos dias de hoje, sempre tão apressados, tão urgentes. Toda a maldade que percorre as ruas dessa Teerã tão conservadora quanto patriarcal ficará do lado de fora. Entre jardinagem, música, dança e conversas suaves, surge uma relação que resiste às barreiras do conservadorismo iraniano. Premiado pela Federação dos Críticos do Festival de Berlim, o longa é delicado, comovente e nos lembra que, mesmo cercados de regras e limitações, a vida e o amor encontram espaço para florescer. Leia a resenha completa.

 

 


25) O Reformatório Nickel (Nickel Boys): O Reformatório Nickel mergulha no racismo estrutural dos Estados Unidos dos anos 60 ao acompanhar Elwood Curtis, um jovem negro enviado injustamente a um reformatório. Ao lado do carismático Turner, ele enfrenta violência física e psicológica em uma instituição que reflete o desprezo e a segregação racial da época. Cada espancamento, cada humilhação, cada olhar discriminatório é uma lembrança do sistema que o oprime. Dirigido por RaMell Ross, o filme usa uma câmera subjetiva que coloca o espectador dentro da experiência de Elwood e Turner, tornando a violência e a injustiça ainda mais tangíveis. Entre momentos alegóricos e simbólicos - discursos de Martin Luther King na televisão, filmes de Sidney Poitier e objetos cotidianos que parecem instrumentos de tortura - a obra alterna suavidade e brutalidade, esperança e desespero, lembrando-nos que, mesmo em um ambiente hostil, a humanidade persiste. A relação de Elwood com sua avó amorosa, suas reflexões sobre identidade e cor da pele e os laços que cria com Turner e outros jovens revelam resiliência diante da injustiça. Comovente, inquietante e reflexivo, O Reformatório Nickel é daqueles projetos que permanecem na memória depois que os créditos sobem, lembrando que a luta por dignidade e igualdade ainda ecoa hoje. Leia a resenha completa.

 

 


24) O Bom Professor (Pas de Vagues): Quem assistiu ao ótimo dinamarquês A Caça, de Thomas Vinterberg, lembra do sentimento de revolta diante de uma acusação de crime sexual aparentemente infundada. Em O Bom Professor, a situação é semelhante: Julien, professor do primeiro grau e homossexual, vê sua reputação desmoronar após uma brincadeira em sala de aula ser interpretada como assédio. A diferença é que, além de lidar com a acusação, ele enfrenta o preconceito e a homofobia, que amplificam a tensão. Tudo começa com um elogio feito a uma aluna introspectiva, seu nome é Leslie, que apresenta uma carta à diretoria alegando comportamentos inapropriados do professor. Situações corriqueiras e comentários ambíguos são transformados em provas de uma suposta culpa, enquanto a escola, os colegas e a própria comunidade contribuem para criar um clima de julgamento coletivo. Quando um vídeo íntimo de Julien com seu namorado é divulgado, a pressão aumenta. Inspirado em fatos reais, o filme de Teddy Lussi-Modeste é um retrato cruel e necessário do impacto da homofobia e do linchamento moral sobre a vida de educadores, mostrando que a defesa da dignidade profissional ainda é um desafio urgente. Leia a resenha completa.

 

 


 

23) Flow (Straume): Um gatinho em fuga, uma enchente inesperada e uma floresta que mais parece saída de um jogo de videogame: assim começa Flow, animação letã de Gints Zilbalodis, que venceu o Oscar e o Globo de Ouro em sua categoria, neste ano. Sem diálogos, mas repleta de simbolismos, a obra explora a importância da coletividade, do respeito às diferenças e o impacto do homem sobre o meio ambiente - tudo através da jornada do pequeno protagonista em busca de sobrevivência. Ao longo da narrativa, o gato cruza com outros animais - um labrador, uma capivara, um lêmure e um pássaro gigante, todos de personalidades distintas - e, juntos, enfrentam uma gigantesca inundação, aprendendo que a união é essencial diante do caos. Minimalista, contemplativa e visualmente impressionante, a animação utiliza recursos modestos de forma magistral - o total gasto foi de US$ 3,7 milhões, usando um software livre (a ferramenta Blender) -, lembrando que até os menores gestos de solidariedade podem fazer diferença em um mundo à beira do colapso. O gosto pode ser meio amargo ao final, mas quando pensamos sobre futuro, a obra funciona, inclusive, como um alerta. Leia a resenha completa.

 

 


22) Em Rumo a Uma Terra Desconhecida (To a Land Unknown):De certa forma é uma espécie de destino dos palestinos não terminar onde começaram, mas em algum lugar inesperado e distante.” A frase dita pelo já falecido intelectual Edward Said e que abre Em Rumo a Uma Terra Desconhecida, de Mahdi Fleifel, resume à perfeição a jornada de refugiados que vivem em deslocamento constante, sem nunca encontrar pertencimento. No centro da narrativa, os primos Chatila e Reda tentam sobreviver em uma Atenas urbana e agitada, entre pequenos golpes e desafios cotidianos, sonhando com um futuro na Alemanha, onde aguardam familiares. E, quem sabe, um pouco de estabilidade. O filme acompanha também a tentativa de ajudar o adolescente Malik, fugindo da Faixa de Gaza, numa travessia marcada por planos arriscados, contrabandistas e improvisos desesperados. Fleifel evita o maniqueísmo: seus protagonistas não são mártires nem vilões, mas seres humanos complexos, com medos, sonhos e contradições. Entre furtos, conflitos e decisões éticas complicadas, a obra expõe a violência estrutural que os cerca, enquanto cada pequeno instante de luz só reforça o peso do desespero. Trágico, cru e profundamente comovente, é um filme que permanece na memória muito depois dos créditos finais. Leia a resenha completa.

 

 


21) Diamante Bruto (Diamant Brut): Eu já me decidi. Vou ficar famosa e vou ter dinheiro”. Essa frase, dita por Liane, protagonista de Diamante Bruto, resume o núcleo da estreia de Agathe Riedinger. A jovem influencer de 19 anos encara a vida com uma urgência quase desesperada: busca validação, atenção e, acima de tudo, reconhecimento, mesmo que seja às custas do próprio corpo. Consultas sobre próteses de silicone, performances no TikTok e bicos feitos com produtos roubados são parte de um jogo de sobrevivência emocional e social que parece inevitável no universo digital em que ela está inserida. O filme acompanha Liane enquanto ela sonha com o estrelato em um reality show televisivo excêntrico, que mistura exposição extrema e exigências duvidosas. Sem nunca julgar a nossa anti-heroína, a diretora constrói uma personagem complexa, marcada pelo desejo de mudar sua vida e pela luta para ocupar espaços que parecem inalcançáveis. Em um mundo que explora corpos e, pior do que isso, corpos jovens, Liane é uma figura inegavelmente persistente, que aprende a jogar com o que o sistema oferece. E, no frame final dessa experiência onírica, nebulosa e naturalista, é impossível não torcer por ela - não por glamour, mas por força. E sobrevivência. Leia a resenha completa.

 

 


20) Memórias de Um Caracol (Memoirs of a Snail): Em tempos de consumo acelerado e inteligência artificial, um stop motion como Memórias de um Caracol soa ainda mais relevante. Indicado ao Oscar de Animação, o filme de Adam Elliot impressiona desde os primeiros minutos pelo rigor visual - mesmo quando se debruça sobre cenários feitos de entulho, feios e melancólicos por natureza. A técnica apurada serve a uma narrativa simples e profundamente trágica sobre dois irmãos gêmeos marcados pela perda precoce dos pais e por uma vida atravessada pela solidão. Apesar da forma, não há nada de infantil aqui. Classificado para adultos, o filme aborda luto, fanatismo religioso, sexualidade, fetiches e doenças com franqueza desconcertante. A história é narrada por Grace, a partir da morte de Pinky, uma ex-dançarina de bordel excêntrica que se torna sua amiga improvável. O estranho potatoes dito por Pinky no leito de morte funciona apenas como gatilho para um retorno ao passado. Nesse percurso, conhecemos a juventude difícil de Grace, alvo de bullying por conta de uma cicatriz no rosto, e a relação afetuosa com o irmão, que acaba separado dela e entregue a uma família de fanáticos religiosos. Elliot constrói uma sucessão de situações tragicômicas para compor um retrato estranho, soturno e, ainda assim, profundamente humano. Leia a resenha completa.

 

 


 

19) April (Ap'rili): Vencedor do Prêmio do Júri em Veneza, April passa longe de qualquer cartilha narrativa mais óbvia sobre seu tema. Não há tribunais, discursos edificantes ou explosões explícitas de intolerância. Para a diretora Dea Kulumbegashvili, o interesse está menos nas situações concretas e mais nas sensações - em um cinema de atmosfera, quase abstrato, que aposta no desconforto e no não dito. Não à toa, o filme se abre com a imagem de uma figura grotesca, quase monstruosa, movendo-se lentamente na escuridão, enquanto risadas e gritos infantis ecoam ao fundo. Uma alegoria que retorna sempre que a protagonista parece confrontar a si mesma. Nina leva uma vida marcada pela solidão, pela recusa de vínculos e por encontros sexuais fortuitos, atravessados por violência e risco. A personagem não é reduzida a uma caricatura: transita entre a nobreza e a inconsequência de seus atos, enquanto traumas do passado ressurgem para lembrá-la de uma monstruosidade latente que também a habita. Kulumbegashvili alterna longos planos de chuva, estradas lamacentas e dias cinzentos com campos floridos da primavera, construindo uma experiência rude e meditativa, de ritmo lento e magnetismo estranho. Um filme que vale justamente por se recusar ao óbvio - qualidade cada vez mais rara em tempos de massificação. Leia a resenha completa.

 

 


 

18) Terra Silenciosa (Cicha Ziemia): Logo na primeira cena de Terra Silenciosa pequenos ruídos se impõem: uma persiana emperrada, um zumbido incômodo, um ventilador quebrado. Nada funciona direito naquele refúgio idílico onde o casal polonês Anna e Adam passa férias em uma ilha italiana. O sol brilha, a paisagem é paradisíaca, mas há um desconforto latente, um ruído moral prestes a emergir - marca dessa ótima estreia de Aga Woszczynska, que chegou nesse ano à Reserva Imovision (e por isso enfiei na lista). A rotina é atravessada pela presença de Rahim, jovem imigrante árabe encarregado de consertar a piscina. Sua figura, suada e "fora do lugar", gera um mal-estar silencioso, sobretudo em Adam. O incômodo cresce até o momento em que Rahim sofre um acidente fatal diante do casal, que pouco faz para socorrê-lo. Para a polícia, trata-se de uma tragédia banal; para os turistas, tudo se dilui em depoimentos ambíguos e na conveniência do privilégio. É nesse silêncio que o filme encontra sua força, apostando em alegorias sobre xenofobia, desigualdade e responsabilidade moral. Ninguém parece disposto a culpar Anna e Adam, mas como seguir adiante sabendo que uma morte talvez pudesse ter sido evitada? O desfecho simbólico coroa uma obra que parte do íntimo para examinar estruturas maiores, com precisão e inquietação. Leia a resenha completa.

 

 


17) Oeste Outra Vez: Existe uma cena discretamente melancólica em Oeste Outra Vez que sintetiza bem as inquietações do filme: dois capangas do sertão goiano tentam conversar antes de dormir. Um deles admite estar meio pra baixo. O outro se dispõe a ouvir. Após alguns segundos de silêncio constrangedor, o primeiro confessa não conseguir pensar em assunto algum. A sequência, que poderia soar boba, funciona como alegoria direta de homens ainda jovens, incapazes de se comunicar - a não ser pela violência - em tempos cada vez mais niilistas. A aspereza daquele espaço ermo remete ao faroeste clássico, mas aqui não há conquista nem glória. O cenário sujo, arenoso e sem cor parece indicar um tempo morto, habitado por sujeitos sem horizonte. São homens pequenos não por circunstância física, mas por absoluta incapacidade emocional: não sabem nomear o que sentem, tampouco elaborar frustrações, especialmente as amorosas. Aqui, até a violência falha. Tiros erram o alvo, emboscadas são mal armadas e vinganças nunca se concretizam. Diferente dos caubóis clássicos, esses homens sequer são bons naquilo que acreditam dominar. Triste e esmaecido, o filme culmina em um desfecho tão errático quanto as decisões de seus personagens, dançando no vazio diante do imponderável. Leia a resenha completa.

 

 


16) Jurado N°2 (Juror #2): Pode ser apenas impressão, mas penso que se Jurado Nº 2 tivesse sido lançado nos anos 90, seria figurinha fácil no Oscar. Com o DNA dos dramas judiciais daquela década, o filme é daqueles que nos deixam absolutamente vidrados, especialmente pelo dilema moral que conduz a narrativa e pelas reflexões que suscita sobre os limites dos sistemas jurídicos e o peso dos preconceitos. A trama reconstrói a noite em que Kendall Carter morreu, após brigar com o namorado James Sythe, principal suspeito do crime. Imagens gravadas no bar mostram a discussão, a saída dos dois para a rua e Kendall caminhando sozinha pela estrada, sob chuva torrencial. Para a promotora local o caso é claro; ao defensor público resta tentar expor as lacunas do processo. A tensão aumenta quando descobrimos que o jornalista Justin Kemp esteve no local naquela noite. Ex-alcoólatra em recuperação, ele acredita ter atropelado um cervo na estrada escura — mas as “coincidências” logo se acumulam, ainda mais quando Justin é convocado para integrar o júri do caso. Conforme as peças se encaixam, Eastwood transforma um drama policial simples em algo engenhoso, repleto de ambiguidades morais. Uma obra direta, envolvente e inquieta, que lança luz sobre instituições supostamente infalíveis. É muito bom. Leia a resenha completa.

 

 


15) Tudo Que Imaginamos Como Luz (All We Imagine Is Light): Em Tudo Que Imaginamos Como Luz, a frase “você não pode escapar do seu destino” ecoa como síntese de uma realidade moldada pelo patriarcado e pelo conservadorismo. Ambientado em uma Mumbai ao mesmo tempo vibrante e opressiva, o filme acompanha Prabha e Anu, enfermeiras unidas por afeto e contraste. A primeira é rígida, resignada a um casamento arranjado e a uma espera infinita; a segunda, mais jovem, tenta driblar normas sociais em busca de desejo, intimidade e autonomia. Premiado em Cannes, o delicado trabalho de Payal Kapadia constrói uma tapeçaria urbana marcada por sororidade, desigualdade de classe, gentrificação e silêncios impostos às mulheres. A cidade surge quase onírica, tecnológica e decadente, enquanto pequenas histórias - o amor proibido de Anu, a solidão de Prabha, a luta de Parvaty contra a demolição de sua casa - se entrelaçam com naturalidade. Sem pressa ou respostas fáceis, o filme aposta na contemplação e na sensibilidade para falar de limites, escolhas e amarras invisíveis. Ao fim, Tudo Que Imaginamos Como Luz não promete rupturas grandiosas, mas sugere algo mais raro: a possibilidade de pequenos gestos de liberdade iluminarem, ainda que brevemente, um mundo endurecido. Leia a resenha completa.

 

 


14) Homem Com H: Homem com H, de Esmir Filho, é antes de tudo uma homenagem bonita e generosa - e rara, por acontecer em vida - a um dos maiores artistas brasileiros ainda em plena atividade. Falar de Ney Matogrosso como figura transgressora, iconoclasta e absolutamente única pode soar óbvio, mas em tempos como os atuais, de avanço da extrema direita e de preconceitos os mais variados, o óbvio precisa ser reafirmado. O filme entende isso e abraça a complexidade do artista: corpo livre, sexualidade dissidente, presença magnética e uma voz que atravessa gerações. Sem a pretensão de esgotar a trajetória, o longa constrói um panorama sensível que vai da infância marcada pelo pai militar às descobertas artísticas em meio à Ditadura, passando pela explosão estética dos Secos e Molhados e a consolidação solo. A encenação mistura o bucólico e o performático, natureza e lantejoula, mito e carne, sempre flertando com a alegoria. No centro de tudo está Jesuíta Barbosa, hipnótico, preenchendo a tela com intensidade e entrega, sem jamais cair na caricatura. Homem com H não é só um retrato - é um gesto político e afetivo. Em um Brasil cada vez mais reacionário, celebrar Ney Matogrosso é mais do que prazer: é uma necessidade. Leia a resenha completa.

 

 


13) Filhos (Vogter): Esse filme contundente de Gustav Möller, o mesmo diretor do ótimo Culpa (2018), dialoga diretamente com o cinema moral dos irmãos Dardenne, especialmente O Filho (2001), ao investigar culpa, luto e a possibilidade - ou não - de redenção. Com uma encenação econômica e repleta de silêncios eloquentes, o filme acompanha Eva, uma agente penitenciária que acredita genuinamente no caráter regenerativo do sistema prisional. Sua postura ética e cuidadosa com os detentos parece inabalável, ao menos até a chegada de Mikkel. O jovem preso, acusado de assassinato, carrega um peso insuportável: ele é o assassino do filho de Eva. A partir daí, o filme se constrói sobre tensões quase invisíveis, olhares prolongados e pequenas disputas que revelam um conflito interno devastador. Ao forçar sua transferência para a ala mais perigosa, Eva entra numa espiral em que justiça, vingança e autopunição se confundem. Claustrofóbico e de tensão crescente, Filhos evita respostas fáceis e aposta na ambiguidade moral. A pergunta que fica não é apenas sobre o sistema, mas sobre os limites do perdão - e se há, de fato, pessoas que não podem ser salvas. Uma frase que ecoa muito além dos créditos finais. Leia a resenha completa.

 

 


12) Apocalipse nos Trópicos: O documentário de Petra Costa, que tem boas chances de figurar em sua categoria no Oscar, parte de imagens aterradoras do 8 de janeiro de 2023 - como a dos fiéis ajoelhados e rezando dentro do STF destruído - para escancarar um Brasil em que fé, política e delírio messiânico se misturam de forma explosiva. De acordo com os extremistas não se trata mais de esquerda ou direita, mas da retórica do bem contra o mal, amplamente difundida por setores reacionários da Igreja Evangélica e absorvida por milhões de fiéis ao longo das últimas décadas. Nas trama, a diretora traça um panorama preciso da ascensão evangélica no poder institucional: da Bancada da Bíblia à eleição de Bolsonaro, passando pela indicação de um ministro “terrivelmente evangélico” ao STF. No centro está Silas Malafaia, como símbolo de um projeto político sustentado pelo pânico moral - banheiros unissex, aborto, ideologia de gênero - e pela demonização do adversário. Com vasto material de arquivo, Petra conecta esse movimento ao colonialismo teológico importado dos EUA e ao esvaziamento da Teologia da Libertação. O resultado é um documentário inquietante, melancólico e necessário, que alerta para perigos ainda latentes e que aludem à essa "cadela" que nunca dorme. Leia a resenha completa.

 

 


11) A Vida de Chuck (Life of Chuck): Uma cena aparentemente banal - uma baterista de rua e um homem de terno que para, escuta, e começa a dançar - sintetiza com delicadeza o espírito de A Vida de Chuck. O gesto inesperado transforma o cotidiano em epifania e revela o eixo da obra: a imprevisibilidade da existência, as marcas que deixamos e as que nos atravessam. Nada parece grandioso à primeira vista, mas tudo carrega potência. Esse momento pertence ao segundo ato, Artistas de Rua Para Sempre, talvez o coração emocional do filme. Chuck (Tom Hiddleston) é um contador comum que abandonou o sonho artístico, mas que o reencontra justamente quando tem pouco tempo de vida pela frente. O filme sugere que não somos nada “na fila do pão”, e ainda assim capazes de beleza, conexão e gestos que suspendem o tempo. Narrado de trás para frente, o longa amplia seu alcance ao ligar a morte de Chuck ao colapso do mundo, no segmento Obrigado, Chuck, com um professor tentando sobreviver ao fim das estruturas, enquanto mensagens celebram a existência de um homem comum (o tal Chuck do título). Já Eu Contenho Multidões revisita a infância marcada por perdas, dança, afeto e mistérios. Aberto, simbólico e profundamente humano esse belo filme de Mike Flanagan inspirado em Stephen King, lembra que somos partículas minúsculas - e, ainda assim, cheias de mundos. Leia a resenha completa.
 

 


10) Centenas de Castores (Hundreds of Beavers): Centenas de Castores é daqueles achados raros: uma obra chapada, delirante e genuinamente engraçada, que faz rir sem esforço - aliás, acho que fazia muito tempo que eu não gargalhava assistindo um filme. Com orçamento irrisório - de US$ 150 mil -, Mike Cheslik entrega uma comédia física anárquica, filmada em preto e branco, sem diálogos e cheia de intertítulos absurdos, que já nos primeiros minutos deixa claro o espírito da coisa. Na trama, acompanhamos Jean Kayak, um produtor de sidra azarado que perde tudo depois de um trágico acidente e parte numa jornada de sobrevivência tão improvável quanto nonsense. O humor é cartunesco, assumidamente artificial, com animais interpretados por adultos fantasiados, gags em cascata e uma lógica de desenho animado ao estilo Coiote e Papa-Léguas. Entre quedas, mordidas, castores vilanescos e armadilhas cada vez mais elaboradas, o filme aposta no exagero e na criatividade sem limites. Pode não agradar a todos, mas quem embarca encontra um exercício de cinema inventivo, físico e imprevisível, que dialoga com Chaplin, Monty Python e o espírito dos videogames noventistas. Um delírio feito na raça - e com personalidade de sobra. Leia a resenha completa.


 

 


 

9) A Garota da Agulha (Pigen Med Nålen): Enviado da Dinamarca para a mais recente edição do Oscar, A Garota da Agulha, de Magnus von Horn, é daqueles filmes que quase deveriam vir com um alerta de gatilho. Violento, trágico e profundamente sombrio, mas nunca gratuito, o longa usa o sofrimento como ferramenta para expor a hipocrisia moral que atravessa épocas. Ambientado no pós-Primeira Guerra, o filme dialoga de forma inquietante com o presente, lembrando que os discursos de virtude quase sempre escondem crueldades estruturais. A trajetória de Karoline (a impressionante Victoria Carmen Sonne) é uma sucessão de humilhações: despejo, exploração no trabalho, gravidez rejeitada, abandono e o retorno traumático do marido dado como morto. É nesse cenário de desolação que surge Dagmar (Trine Dyrholm), figura ambígua que oferece acolhimento e cria um vínculo tão necessário quanto perigoso. Von Horn conduz o espectador com rigor, fazendo compreender - sem necessariamente absolver - decisões extremas. A fotografia em preto e branco, a trilha perturbadora e os símbolos recorrentes reforçam o clima de desencanto. Em tempos de retrocessos, aborto criminalizado e violência contra a mulher - fortalecidos por discursos extremistas de direita - o filme é um tapão na nossa cara. E um espelho incômodo. Leia a resenha completa.

 

 


8) Bird: À primeira vista, Bird, da diretora Andrea Arnold, parece seguir o caminho conhecido do coming of age social: adolescência atravessada por pobreza, violência cotidiana, família disfuncional e poucas perspectivas. Bailey, vivida com enorme sensibilidade por Nykiya Adams, habita esse universo árido reforçado pela fotografia dessaturada e pela trilha sonora sempre precisa. Mas, à medida que o filme avança, fica claro que Arnold está menos interessada em soluções fáceis e mais em revelar como sobreviver também passa por reconhecer limites e aceitar a própria geografia emocional. A relação com o pai, Bug (o sempre excelente Barry Keoghan), é caótica, contraditória e, ainda assim, atravessada por afeto genuíno. É nesse mundo instável que surge Bird (Franz Rogowski), figura enigmática, quase saída do realismo fantástico, cuja amizade oferece a Bailey uma fresta de beleza, imaginação e esperança. Entre crença no abstrato, pequenos gestos de cuidado e uma trilha que flerta com a nostalgia, o filme recusa o cinismo e aposta no afeto como força transformadora. Sem dourar a pílula, Bird, que está disponível na Mubi, encontra poesia onde parecia não haver nada. É um filme essencialmente humano. E emociona justamente por isso. Leia a resenha completa.

 

 


7) Uma Batalha Após a Outra (One Battle After Another): Existe uma frase atribuída à Che Guevara que diz que "a revolução se faz através do homem, mas o homem tem de forjar, dia a dia, o seu espírito revolucionário". Em alguma medida é possível afirmar que tal sentença resume bem o sentimento vivido pelo personagem central de Uma Batalha Após a Outra -  uma experiência larga, grandiosa, que alterna momentos frenéticos de perseguição e de fugas espetaculares com instantes um tanto intimistas, domésticos e reflexivos. Não apenas sobre os tempos em que vivemos - de ascensão de uma extrema direita a cada dia mais radical -, mas também da persistência quase romântica em não deixar os ideais revolucionários esmorecerem. Mas como ir para além da paixão sanguínea e ideológica que move os movimentos de esquerda (ou progressistas) que lutam por justiça social e um maior equilíbrio entre quem está acima e abaixo da pirâmide? Com uma trilha sonora envolvente e uma edição ágil, mas nunca confusa, Uma Batalha Após a Outra é uma aventura política quente, exagerada, por vezes engraçada, inspirada em um conto de Thomas Pynchon, e que dialoga, inevitavelmente, com o atual contexto político. A gente mal vê as 2h40 passarem. O que não deixa de ser um mérito. Leia a resenha completa.

 

 


6) A História de Souleymane (L'histoire de Souleymane): "Qual é a sua história? A sua história de verdade?". É quase no momento final de A História de Souleymane que o protagonista desse premiado filme de Boris Lojkine é instigado por uma agente que dá assistência a refugiados (ele é um imigrante da Guiné, que trabalha como entregador, indo pra lá e pra cá de bicicleta) para que ele pare de mentir. E seja honesto com aquilo que está passando, está vivendo. E desafio qualquer espectador que assiste a essa pequena joia do cinema alternativo a não se debulhar em lágrimas naquele instante. Segurando o choro - e com a cabeça baixa, claramente envergonhado de tudo (da violência que sofre em um País estrangeiro, das dificuldades em ser reconhecido como cidadão, do trabalho precarizado que lhe fornece o mínimo), Souleymane (Abou Sangare, em performance impressionante) desaba. "Minha mãe me deu a vida. E eu só queria poder devolver a ela alguma dignidade", explica o rapaz em frente a consternada funcionária. Vamos combinar que em tempos de perseguição à imigrantes, de xenofobia, de ódio e de intolerância, uma produção como esta - dolorida, desalentadora, mas que preserva um fiapo de esperança - parece se tornar ainda mais impactante. Leia a resenha completa.

 

 


5) Código de Ética (Elfogy a Levego): Em Código de Ética, acompanhamos Ana, professora exemplar de Artes e Literatura, de reputação ilibada, em um tradicional colégio húngaro, cuja trajetória sólida entra em colapso após um gesto banal: sugerir aos alunos o filme Eclipse de Uma Paixão (1995), sobre o tórrido relacionamento entre os escritores Verlaine e Rimbaud. O que deveria ser apenas um convite extracurricular se transforma em escândalo quando um pai conservador - aquele "cidadão de bem" exemplar, que acha que se seu pobre filhinho tiver contato com produções do tipo se converterá automaticamente em um ouvinte assíduo da Lady Gaga, um seguidor de Ru Paul e suas drag races e um defensor contínuo da cultura woke e do gayzismo cultural - flagra o filho assistindo à obra e acusa a escola de “corrupção moral”. O filme expõe, com precisão incômoda, o avanço da censura travestida de zelo parental e a interferência ideológica no ambiente educacional. Atualíssimo, dialoga diretamente com debates recentes sobre controle de conteúdo, perseguição a professores e apagamento da diversidade. Sem recorrer a histrionismos, o longa revela como o medo, o moralismo e o poder econômico podem sufocar o pensamento crítico. Muda o país, mas o retrocesso é assustadoramente familiar. Leia a resenha completa.

 


4) A Semente do Fruto Sagrado ((Daneh Anjeer Moghadas): Em uma das tantas cenas incômodas do enviado da Alemanha ao último Oscar, as jovens Rezvan e Sana tentam argumentar com a sua mãe Najmeh sobre o absurdo de um regime autoritário e teocrático simplesmente impedir as mulheres de estarem nas ruas sem estar com o hijab (aquele lenço que cobre a cabeça) vestido adequadamente. Diante da TV elas se deparam com uma notícia sobre a morte de uma jovem supostamente por um AVC - ainda que, nas redes sociais, a história pareça ser bem outra e há a possibilidade de ela ter falecido após um caso brutal envolvendo a nefasta Polícia Moralidade (um órgão de governo do Irã, que consiste em patrulhas que fazem vigilância das vestes das mulheres), que teria espancado a garota até a morte em meio a protestos. Manifestações que servem como pano de fundo para a trama, que coloca em lados opostos não apenas Rezvan e Sana e sua mãe, mas também as adolescentes e o pai, Iman, um importante advogado que trabalha para o governo. Ao cabo, esse é o tipo de obra tensa e cheia de conflitos domésticos, que evidencia o problema da radicalização e de como ela é capaz de conduzir as pessoas em uma espiral de loucura, frente aquilo em que elas acreditam cegamente. Leia a resenha completa

 

 


3) O Agente Secreto: Muito provavelmente poucos filmes serão tão didáticos em evidenciar de que formas eram perseguidas pessoas que, não necessariamente, estavam conectadas ao aparato político em meio à ditadura militar, como no nosso enviado ao Oscar (e que estamos na torcida!). Professores, intelectuais, pesquisadores, jornalistas, artistas e muitos outros precisavam entrar em rota de fuga pelos motivos mais aleatórios - e que nem sempre estavam diretamente ligados ao confronto direto com os milicos ou às frentes de resistência ao regime. No caso de Marcelo (Wagner Moura), o protagonista da obra de Kleber Mendonça Filho, ele é um professor universitário especializado em tecnologia que meio que precisa sumir do mapa - e da faculdade em que ele trabalha em São Paulo -, depois que um industriário mal intencionado (e que detém o dinheiro) se sente incomodado com aquele "comunista cabeludo", que ousou patentear uma pesquisa a respeito de baterias de lítio. Em linhas gerais esse é mais um filme de fluidez lenta, que aposta nas sutilezas e em uma série de pequenos subtextos como forma de fortalecer os seus pontos. Repleta de grandes diálogos e de excelentes interpretações - não há como resistir às interações entre os personagens de Wagner e de Tânia Mara, essa é uma produção que atesta a força atual do nosso cinema, mais presente do que nunca. Leia a resenha completa.
 

 


 

2) Conclave (Conclave): É uma imagem de forte carga simbólica a da fumaça branca saindo da chaminé. Um evento que costuma mobilizar católicos no mundo todo e que, dada a sua raridade, também gera grande expectativa. A escolha de um Papa, afinal, não é algo tão simples. Aliás, é uma cerimônia ritualística, cercada de mistério e de suntuosidade, que pode levar dias para ser concluída. E que um filme recrie todos esses bastidores de uma forma tão envolvente, coesa e magnética é algo digno de nota. Afinal de contas, pensar em uma produção sobre a seleção de um novo pontífice poderia soar pouco empolgante. Mas, no microcosmo em que ocorre um conclave após a morte do atual Papa, parece importar menos a votação em si. E sim os rumos da coisa toda. As maquinações, os jogos de poder, as chantagens, as traições, as crises de fé. Afinal de contas, desejar um dos mais altos cargos do planeta, é algo que move ambições. Egos. Intenções. Gera sofrimentos. Dores. Incertezas. Ao cabo, Conclave é um filme completo em todos os seus aspectos. Impecável na parte técnica - do figurino à fotografia, passando pelo assombroso desenho de produção - e robusto em seu roteiro bem costurado e nas interpretações cheias de diálogos de impacto -, a obra ainda reserva para a sua conclusão uma das grandes surpresas da temporada. Para ver e rever. Leia a resenha completa.

 

 


 

1) Pecadores (Sinners): A maior alegoria do cinema recente sobre como se perpetua o racismo através dos tempos. Essa talvez seja uma das formas de encarar a experiência com o nosso campeão do ano. Em linhas gerais essa é uma obra que trafega por vários gêneros - indo do drama à comédia, passando pelo terror e pela ação -, sem nunca perder de vista a discussão sobre como os tentáculos podres do preconceito se espalham, mesmo em tempos em que a sociedade, supostamente, avança. Em certa altura, ainda no começo do filme dirigido por Ryan Coogler - de Pantera Negra (2018) -, um redneck que responde por Hogwood garante aos irmãos gêmeos Smoke e Stack (Michael B. Jordan em papel duplo) que a "klan não existe mais". Uma forma de tranquilizar a dupla que, no ano de 1932, está retornando ao seu Mississipi natal, interessada em instalar um bar de música, dança e bebidas para a comunidade afro do local (as famosas jukes, como era conhecidas). Tendo de lidar com um contexto de segregação racial e de preconceitos de todo o tipo. Musical, magnética, imprevisível, divertida, tensa, violenta e instigante essa é uma daquelas obras cheias de possibilidades de interpretação e que ainda faz um aceno para a literatura fantástica em seu terço final. E que ainda possui a melhor sequência do ano (vocês saberão ou até já sabem qual). Filmaço. Leia a resenha completa.

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