quarta-feira, 8 de julho de 2026

Novidades em Streaming - Beladona (Belladone)

De Alanté Kavaïté. Com Nadia Tereszkiewicz, Daphne Patakia, Dali Benssalah, Alexandra Stweart, Patrick Chesnais e Miou-Miou. Ficção científica / Drama, 2025, 95 minutos.

Vamos combinar que filmes sobre etarismo ou que confabulem a respeito do destino dos idosos, tem se tornado uma espécie de subgênero curiosamente recorrente - como evidenciam distopias recentes, como a enigmática produção japonesa Plano 75 (2022) ou o exuberante nacional O Último Azul (2025). Sim, em uma sociedade no limite entre o niilismo e a misantropia, o simples ato de permitir uma velhice digna parece certo exagero - e talvez não seja por acaso que, em um contexto tão pautado pela individualidade e pelo produtivismo infinito como um efeito do capitalismo tardio, ficções científicas do tipo tenham certa tração. Em Beladona (Belladone), que está disponível na Reserva Imovision, temos novamente este futuro próximo em que uma jovem chamada Gaëlle (Nadia Tereszkiewicz), é responsável por cuidar de um grupo de idosos refugiados em uma ilha.

Em geral não há muitas informações para além de um letreiro inicial que indica que, nessa realidade paralela, idosos com cerca de 80 anos são enviados para instituições. Para viver? Para morrer? Apartados de suas famílias? Cuidados pelo Estado? Pouco se sabe. E não demorará muito para que compreendamos que Gaëlle opera, em seu isolamento permanentemente preocupado, de forma meio clandestina. Só que sendo responsável por oito velhos, os problemas de saúde são inevitáveis, o que fará com que ela acione, via rádio, uma embarcação que navega em alto-mar, atraindo para o local a bela médica Aline (Daphne Patakia) e seu caloroso irmão David (Dali Benssalah), que, inicialmente, auxiliarão no socorro geral do grupo de anciãos. Como no caso de Pierre (Patrick Chesnais), um fã de literatura que mantém uma biblioteca em uma das habitações do local.

 


Em alguma medida a chegada à ilha de dois jovens tão bonitos, tão inteligentes e tão cheios de vida como Aline e David - a tiracolo ainda está a fofíssima filha de Aline -, parece reanimar o coletivo octogenário. Até mesmo retirando-os, ao menos momentaneamente, de certa resignação de quem, apenas, aguarda a morte como um destino inevitável. Não por acaso, Evy (Alexandra Stweart, uma bela senhora do alto dos seus oitenta e muitos anos), até se anima a usar um novo vestido que estava a muito guardado, como forma de despertar a atenção de David, que tem idade para ser seu neto. Já Olivier (Jean-Claude Drouot), que tem como hobby a pintura, anima-se a instigar Aline a posar para ele, para um novo quadro. Há um certo descontentamento geral de Gaëlle com toda aquela movimentação. Que rompe a lógica da rotina a que todos ali estavam acostumados.

[SPOILERS A PARTIR DAQUI] E tudo piora quando, após uma noite em que todos ali jantam animados - abusando da comida, da bebida e até de outros prazeres sensoriais -, os idosos começam a padecer um a um. Como médica, Aline parece ter explicações razoáveis para as mortes - problemas circulatórios, tumores e etc -, mas Gaëlle parece ter dificuldade em aceitar a finitude. O que a leva a culpar os forasteiros. De forma metafórica, a diretora Alanté Kavaïté espalha pela ilha a própria planta beladona que, se consumida em pequenas doses pode ter um sem fim de efeitos benéficos, sendo essencialmente venenosa em sua versão in natura - suas bagas e folhas. Essa dicotomia entre o homeopático e o tóxico, a celebração e a dor, ou mesmo entre a vida e a morte parece guiar a narrativa, que nos conduz a uma série de reflexões sobre dignidade na terceira idade, autoridade e excesso de zelo. É uma produção bem executada tecnicamente, com trilha sonora existencialista e cenários idílicos que reforçam o ideal contemplativo do todo. Ainda que não haja um grande ponto chave ou de virada, que aprofunde a questão. É bonito e carismático, mas só.

Nota: 7,0 

 

Novidades em Streaming - Águias da República (Republikens Örnar)

De: Tarik Saleh. Com Fares Fares, Zineb Triki, Lyna Khoudri, Amr Waked e Cherien Dabis. Drama / Suspense, Suécia / Dinamarca / Finlândia / França, 2025, 129 minutos.

"Faraó das telas". O apelido pode ser meio brega, mas define bem a condição de George Fahmy (Fares Fares), o protagonista de Águias da República (Republikens Örnar), que foi o enviado da Suécia para a última edição do Oscar e que está disponível na Reserva Imovision. George é um renomado ator egípcio que participa de uma série de produções de gosto meio duvidoso - aqueles tipos de filmes românticos e épicos bastante populares -, mas que consegue ultrapassar com certa tranquilidade o rígido código de regras de censura do País. Aliás, como galã de cinema que trafega em ambientes mais progressistas, o protagonista aparenta ter ideias opostas às do patriotismo nacionalista, religioso e militar que, aqui, são fortemente representados pelo general Abdul Fatah Al-Sisi, que governa o País com mão de ferro, perseguindo opositores, rivais políticos, imprensa e, claro, setores ligados às artes, a educação e a cultura.

Em geral George tenta ficar alheio a isso. Mas não consegue, especialmente após ser constrangido durante um almoço com seu filho, por um misterioso funcionário do governo que o observa à distância - mais tarde descobriremos que se trata de um certo Mansour (Amr Waked), que se comporta como um Robert Walker do clássico Pacto Sinistro (1951), de Alfred Hitchcock, com seu olhar desafiador e enigmático. Com tudo piorando após um encontro com um grupo de atores que se dizem favoráveis ao governo, atuando contra dissidentes que tentam manchar a imagem dos militares, instigando-o a fazer parte do coletivo. O protagonista evita o grupo, por acreditar haver contradições entre ser um artista e um patriota - ou ao menos o que eles imaginam ser um patriota (e, vamos combinar que, nessas horas a gente percebe que só muda o País no que diz respeito a esse aspecto).

 


Resumo da ópera, George tem seu contrato para um novo filme suspenso, com direito a sumiço do seu trailer que funciona como um camarim. De forma indireta sua família passa a ser ameaçada e até mesmo os amigos, como no caso da companheira de telas Rula (Cherien Dabis), que talvez fique sem contrato de trabalho após defendê-lo em uma entrevista em rede nacional. Já a jovem Donya (Lyna Khoudri), que tenta emplacar uma carreira no meio, também dependerá da decisão do sujeito de se juntar ou não a uma peça de propaganda financiada pelo governo, no sentido de limpar a sua imagem após os eventos decorrentes do golpe de 2013 no País (uma produção meio Dark Horse, o filme do pangaré, egípcio). Diante de tantas pressões ele aceita o papel. Mesmo não tendo nada a ver com Al-Sisi. Aliás, nem fisicamente nem do ponto de vista político, religioso e cultural.

Em meio as filmagens, Goerge se aproxima de Suzanne (Zineb Triki), a elegante e letrada esposa do ministro da defesa - com quem ele se identifica em um jantar, após citações à Shakespeare e indiretas a respeito de homens minúsculos que só sabem falar a língua da guerra. E como as coisas não estão muito bem com Donya que, verdade seja dita, só está com o sujeito pelo glamour e para provocar o pai militar, George passa a ter um caso com Suzanne. E, bom, se a intenção era obter sarna pra se coçar, aqui o sujeito obtém o kit completo. Tensa e com perseguições diversas - como no caso do filho estudante de um vizinho -, mas também divertida - a cena da compra do tadala é ótima -, a trama vai evidenciando como o mergulho nesse ambiente de violência estatal se torna um caminho meio que sem volta depois de certas decisões tomadas. Com chantagens e jogos de poder de parte a parte. Ao cabo, pode haver algo sedutor em aderir às esferas de poder. Mas George aprende, da pior forma possível, que o preço dessa proximidade pode ser alto. E devastador em igual medida.

Nota: 8,0 

  

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Novidades em Streaming - Obsessão (Obsession)

De: Curry Barker. Com Inde Navarrette, Michael Johnston, Cooper Tomlinson e Megan Lawless. Suspense, EUA, 2026, 109 minutos.

Vamos combinar que a gente chegou num ponto em que o público parece tão ansioso por um terror efetivamente bom que, quando aparece alguma coisa apenas mais ou menos, como esse Obsessão (Obsession), já fica todo mundo meio que... obcecado (com o perdão do trocadilho). E confesso que, enquanto assistia à sequência meio que aleatória em que Nikki (a, de fato, ótima Inde Navarrette) faz um sanduíche com os restos do gato morto de Bear (Michael Johnston), eu só conseguia lembrar da psicopata vivida por Glenn Close em Atração Fatal (1987), em uma década em que esses suspenses de paixões compulsivas que desencadeariam, mais adiante, uma série de eventos violentos, eram moda. E, vamos lá, o problema do segundo longa do Youtuber Curry Baker nem é o fato desse subgênero já ter existido antes, de forma muito efetiva. E, sim, porque ele nos exaure rondando um tema que poderia, aparentemente, ser melhor adaptado aos tempos em que vivemos.

Sim, não é que não existam mulheres obsessivas por seus parceiros, mas vamos combinar que essa ideia de casal que mantém um perfil único nas redes sociais porque a esposa não deixa o jovem ir pro churras com os parças, parece meio deslocada em um tempo em que a misoginia só cresce. Nesse sentido, Obsessão parece ser aquele filme pro incel redpill meio desavisado assistir com os amigos, pra depois ficar dizendo como a "dona patroa" é igualzinha à Nikki, já que o alecrim não pode ir nem na esquina sem que ele seja vigiado (sendo que, na grande maioria dos casos, parece ser o inverso o que acontece, com os homens de masculinidade frágil incidindo sobre roupas, atividades, comportamentos e, se deixar, até o voto de suas companheiras). "Ah, mas isso que a gente vê na tela é apenas uma projeção do comportamento cringe do próprio Bear e de suas obsessões, já que ele é o protagonista meio freak e de cabelo oleoso, que fica obcecado pela colega de trabalho", poderá alguém dizer. É uma interpretação talvez até mais esperada, já que parece haver uma Nikki "real" por baixo daquela camada alienada, que sofre uma maldição. E espero que o público capte essa nuance.

 


E, bom, como já dito, na trama Bear é o sujeito introspectivo e de poucas habilidades sociais, que mantém uma amizade com a galera do trampo, como no caso de Ian (Cooper Tomlinson) e Sarah (Megan Lawless) e está meio que na friendzone com Nikki, sua amiga de infância e paixonite à moda Apenas Mais Uma de Amor, do Lulu Santos, que ele precisa lidar diariamente quando a firma de instrumentos musicais em que todos trabalham, abre. Aliás, essa paixão é tão desequilibrada, que ele chega ao ponto de ensaiar com os amigos, o que e como deveria dizer para Nikki, no sentido de conquistá-la. Lembrando, Bear deve estar próximo dos 30 anos. E nunca deve ter procurado um terapeuta (ainda que sua dispensa esteja entupida de opioides). Aliás, mais uma falhazinha meio básica do roteiro: ninguém ali tem vida para além daquela rotina de solidão em quatro paredes, gatos que morrem aleatoriamente e tentativas frustradas de se relacionar - outras ocupações, famílias, tudo uma camada abaixo. Bear é o esquisitão e Nikki o considera um bom amigo, já tendo deixado isso meio que claro pra todo mundo. 

Mas o protagonista é insistente e resolve ir a uma loja de quinquilharias para jovens místicos, onde compra um artefato conhecido como Salgueiro do Desejo, que lhe possibilita um único pedido que pode ou não funcionar. Que a desigualdade do mundo acabe? Que as guerras cessem? Que o líder bizarro da extrema direita sucumba? Um bilhão de dólares? Bom, o próprio Baker já admitiu em entrevistas que, em um eventual mundo real em que essa peça existisse, nada faria muito sentido e o caos absoluto reinaria. Mas Bear quebra o item solicitando ao destino que Nikki "lhe ame mais do que tudo no mundo". O que instaurará o terror de um relacionamento que se inicia bem, com uma conexão boa ainda que gerada por linhas tortas, mas que evolui para a codependência absurdamente sufocante, o que deixará uma trilha de morte, sangue, vísceras e carne de gato no sanduíche. E de urina e vômito. Porque sim, né, terror psicológico tem dessas metáforas nem tão metafóricas.

 

 

E não é que não existam boas sequências de sustos, algumas no estilo de gerar medo onde, aparentemente, não existe nada. Nenhum motivo para temor. Seja numa madrugada em que Nikki acorda inesperadamente para olhar Bear dormindo - uma coisa meio O Exorcismo de Emily Rose  (2005), esse sim um filme apavorante -, ou quando ela forma uma espécie de barreira protetora de fita tape na entrada de casa para, supostamente, impedir o companheiro de sair. De ir longe. Com a gente compreendendo segundos depois a luta interior de Nikki - com a sua verdadeira personalidade afogada em uma espécie de limbo. Mas, voltando ao início, ao tentar uma abordagem dos problemas que podem haver em uma relação de chantagens emocionais, carências afetivas infinitas e intimidade tóxica, a obra consegue entreter com sua "possessão demoníaca" lateral e bateção de cabeça inesperada, ainda que mesmo esses eventos pareçam meio exagerados e infantis em alguma medida (talvez ela tenha tração maior com adolescentes, de fato, e nem sei se isso é bom). É um filme com méritos, mas bem de longe de ser a última bolacha do pacote, que parte da crítica anda vendendo.

Nota: 6,0 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

A Volta ao Mundo em 80 Filmes - Hanami (Cabo Verde)

De: Denise Fernandes. Com Sanaya Andrade, Dailma Mendes e Alice da Luz. Drama, Cabo Verde / Portugal / Suíça, 2024, 101 minutos.

A passagem em que as personagens discutem o conceito de "hanami", no filme caboverdiano de mesmo nome, é meio breve, quase imperceptível. O que não reduz o seu impacto. Extraída de um conceito japonês, hanami alude a ideia de contemplação frente à transitoriedade das coisas. É observar algo que pode ser belo, mesmo que fugidio. As pessoas, os lugares, os amores, as amizades, aquilo que realmente importa e meio que se modifica o tempo todo. Nos escapa. E todo esse ciclo de vida, de idas e vindas, de partidas e de retornos e de memórias que permanecem e escapam parece ser central na obra contemplativa da diretora Denise Fernandes, e que está disponível na Reserva Imovision. Para a protagonista de Hanami, Nana (Dailma Mendes na infância e Sanaya Andrade na adolescência) o caráter transformador da experiência humana tem início quando ela ainda é uma criança pequena: com sua mãe, Nia (Alice da Luz), lhe deixando para trás, em busca de uma vida melhor.

Em geral o que temos aqui é um fiapo de história que, não demora, se converte em um experimento imersivo, em que as amplas paisagens, a trilha sonora enigmática, os silêncios contínuos e todo o conjunto tão contemplativo quanto fantástico, ganha força conforme a narrativa se desenvolve. Nesse sentido, a obra funciona quase como um veículo permeado por divagações poéticas e geograficamente extensas, que são a alegoria perfeita para o sentimento que invade aqueles que acompanhamos. Tudo é amplo, mas íntimo, espalhado, mas discreto. Quando Nia deixa a filha ainda bebê na ilha que fica no sopé de um vulcão, a imagem de várias mulheres ao mesmo tempo amparando a pequena, nos permite lembrar do conceito de coletividade, de comunidade, especialmente no que diz respeito a ideia de criar uma criança. A rede de apoio recebe contornos reais. Pessoas de carne e osso que navegarão em volta dos mistérios de Nana.

 


E por mais reflexivo que o projeto seja, não são poucos os momentos em que a mera passagem do tempo recebe outras tintas, outros significados na rotina dos nativos do arquipélago escurecido e de natureza discreta que acompanhamos. Em um momento curioso, como forma de evidenciar a escassez material e financeira dos que ali residem, o tio de Nana (seu nome é Manuel) verbaliza todos os ingredientes que compõem a receita de um tiramisu. Para ao final de cada item citado, afirmar que eles não têm nada daquilo à disposição. O que não o impede de sonhar ser um confeiteiro - o que é corroborado pela volúpia com que as crianças consomem os doces que ele elabora. Da mesma forma, ruminações filosóficas sobre vasos quebrados que podem se tornar mais fortes após remendados - mais sólidos, ainda se unidos -, funcionam como uma metáfora quase espectral do ambiente. 

A paz e a tranquilidade que residem na rotina - de colher ovos pela manhã, ouvir os pássaros cantar e brincar de esconde esconde entre crianças -, é quebrada quando Nana passa a sofrer de uma severa e um tanto inexplicável febre. O que a leva ao pé da montanha na tentativa de obter uma cura - que pode vir, por exemplo, com a obtenção de uma planta conhecida como sabão de feiticeira (e que é solicitada por sua avó). No caminho, outras figuras excêntricas, como o avô Orlando, que opera como um curandeiro do local, além de um pesquisador da área de vulcões chamado sugestivamente de Kenji Mizoguchi - e certamente esse aspecto não é aleatório, dada a preferência do antigo diretor japonês por obras pictóricas, de fluidez lenta, de planos longos e cheios de simbolismos que, de quebra ainda conectam o conceito de hanami -, movimentam a trama, que se desenrola em direção ao mais esperado desfecho: o de que o mundo anda e cabe a nós sermos capazes de contemplar sua beleza. Justamente porque tudo é passageiro.


terça-feira, 30 de junho de 2026

Pitaquinho Musical - Vince Staples (Cry Baby)

Vamos combinar que basta uma olhadinha na capa (e no título) do sétimo e mais recente disco do rapper Vince Staples, para que tenhamos a certeza: sua caneta segue incandescente. Sim, o bebê chorão e gordinho embrulhado na bandeira americana, e que talvez se ache meio que o dono do mundo, pode até ser a metáfora mais óbvia para a situação atual dos Estados Unidos. Mas a força do registro, que leva o sugestivo nome de Cry Baby, segue nos versos vigorosos e cheios de potência que capturam a tensão, o absurdo e o peso emocional da contemporaneidade - e de como, vá lá, a derrocada do sonho americano parece um processo de difícil reversão em uma nação comandada pelo líder de extrema direita mais patético do planeta. "Deus abençoe os EUA / Deus abençoe os EUA / Você pode viver pela arma, morrer pela arma (apenas na América)", verbaliza o artista na pungente e ótima Only In America - um libelo de resistência à glorificação da violência -, como que resumindo o conceito que se espalha por toda a obra.

 


Como um todo, o disco parece muito mais uma experiência sombria, soturna e que desconstrói esse patriotismo de boutique excessivamente militar e religioso que rege a atualidade. Com Staples se aproximando, para além do rap, de outros estilos, como o pós punk, o noise rock e até o indie garageiro. Esse tipo de percepção ecoa com força em canções como a inaugural Blackberry Marmalade que, com sua eletrônica oitentista à Siouxsie and the Banshees, fala de como a cultura negra é explorada em uma sociedade ao mesmo tempo preconceituosa, vigilante e que gera o medo constante. Manipulação midiática (TV Guide), violência policial (Go! Go! Gorilla), fadiga em um sistema que não muda (White Flag) e o histórico de lutas raciais (na espetacular Cotton), são temas que se alternam em versos que conseguem ser pesados e realistas, mas também movimentados e dançantes. "A música me faz sentir como algodão / Me levanta quando penso que vou cair", verbaliza o artista na já citada Cotton. É uma sensação que parece se espalhar por cada fragmento do trabalho.

Nota: 9,0 

Novidades em Streaming - Twinless: Um Gêmeo a Menos (Twinless)

De: James Sweeney. Com Dylan O'Brien, James Sweeney, Aisling Franciosi e Chris Perfetti. Comédia / Drama, EUA, 2025, 100 minutos.

Que filme inesperadamente simpático e cheio de carisma esse Twinless: Um Gêmeo a Menos (Twinless), de James Sweeney. Confesso que fui assistir com poucas expectativas - até por um certo cansaço da narrativa de sofrimento queer, que parece fazer barulho com um público restrito ou somente em festivais alternativos, como o de Sundance. Mas aqui temos não apenas uma produção cheia de boas surpresas e reviravoltas - aliás, vale a pena ir meio às cegas -, como uma leve subversão no que diz respeito ao comportamento daqueles que acompanhamos. Tudo começa em um funeral, em que o taciturno Roman (Dylan O'Brien, que está excelente) tenta juntar os cacos após a trágica morte do irmão Rocky, em um acidente automobilístico. Em meio a discussões com a própria mãe Lisa (Lauren Graham) sobre o que fazer com os objetos do irmão, Rocky decide participar de um daqueles grupos de apoio meio constrangedores, que muito vemos nos filmes de Hollywood.

É nesse local que Roman conhecerá Dennis (Sweeney, que também atua), que alega também ter perdido o irmão, com quem não teria muito contato. De forma meio surpreendente, até pela personalidade diametralmente oposta de ambos - Dennis é o gay de perfil mais brincalhão (inclusive em hora errada), ao passo que Roman é o hétero mais introspectivo -, a dupla faz amizade. Meio que se apoiando em tudo - de compras no mercado e jantas aleatórias a idas ao jogo de hóquei no gelo. Em meio a confidências, Roman de ressente de nunca ter sido capaz de conversar sobre os relacionamentos com o irmão falecido. Que teria saído de casa justamente por causa do preconceito familiar - e dele mesmo. Aliás, em uma das tantas cenas bonitas da obra, Roman se emociona ao verbalizar seu sentimento de culpa por nunca ter sido capaz de aceitar a preferência sexual do irmão. Por ter surtado por ele ser gay. Por tê-lo chamado de "veado". "Não sei como continuar aqui sem você", chora copiosamente, amparado por Dennis.

 


[SPOILERS A PARTIR DAQUI] Só que nessa altura do campeonato, o espectador já sabe que Dennis esconde de Roman o maior segredo da história. Não apenas ele havia tido um encontro amoroso e cheio de paixão sexual com Rocky pouco tempo antes do seu falecimento, como ele estava no local na hora em que o acidente ocorreu. Pior do que isso, a sua atitude de confronto em plena rua, no cruzamento de uma avenida, pode ter sido decisiva para o atropelamento - em uma cena de ciúmes de um outro rapaz. Como forma de preservar a amizade, Dennis age quase como um mitômano, dobrando a aposta nas mentiras, em sequências como a do reencontro com o ex que estava na cena do acidente. Ou fingindo crises de ansiedade aleatórias, como nos momentos em que ele passa a se morder de ciúmes da colega de trabalho Marcie (Aisling Franciosi), com quem Roman inicia um relacionamento.

Repleto de belas sequências sobre dor, ciúmes, memórias, luto, segundas chances e recomeços, a obra evolui de forma divertida (e tensa) conforme o tempo passa, com a verdade chegando muito próxima de ser revelada. Inteligente e discreta, Marcie terá papel decisivo no terço final - e confesso que adorei o fato de ela nem de longe ser uma megera esquisita (ela é um doce), ao passo que Dennis também é ótimo como a "bicha má" ressentida, mas charmosamente carismática, que precisa lidar com as próprias frustrações. E mesmo dramático, o filme diverte com boas piadas - como no momento da briga com um grupelho de fedelhos homofóbicos ("achei que a geração Z fosse mais legal") - e um sem fim de instantes afetuosos, inventivos e devastadores. Tecnicamente atenta ao público mais jovem, com edição ágil e trilha sonora de nomes como as Haim, essa é daquelas produções que descem direitinho. Tá na Amazon.

Nota: 8,0

 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Cine Baú - Platoon

De: Oliver Stone. Com Charlie Sheen, Tom Berenger, Willem Dafoe e Forest Whitaker. Drama / Guerra, EUA / Reino Unido, 1986, 120 minutos.

Vamos combinar que não são necessários nem os primeiros dez minutos do clássico Platoon, de Oliver Stone, para que sejamos confrontados pelo absurdo da guerra - especialmente no que diz respeito ao seu caráter degradante. Afinal de contas, não há nada heroico em participar de um conflito. Aliás, uma batalha em que mal se compreendem as motivações - como costuma ser o padrão quando o assunto é a participação dos Estados Unidos me guerras. Quando chega como voluntário do exército americano no sul do Vietnã, no limite da divisa com o Camboja, o universitário Chris Taylor (Charlie Sheen) parece um tipo de idealista que está indo ao front para fugir de um certo padrão imaginado de sonho americano - especialmente para uma classe média desencantada nos anos 60. Só que não demora para que o olhar de deslumbramento quase romântico do jovem, em seu dever cívico, se converta em repulsa. Ou mesmo medo.

"O inferno é o lugar impossível da sensatez", verbaliza o homem em uma das diversas narrações em off que ele fará no transcorrer da produção - ruminações eventualmente existencialistas, a respeito do equívoco completo de todo aquele aparato preparado por homens, para que outros homens lutem contra sujeitos desconhecidos por uma causa... política? Cultural? Social? Geográfica? Religiosa? Na primeira andança pela selva seguindo o pelotão do tenente Wolfe (Mark Moses), Chris se depara com cadáveres putrefatos, serpentes ameaçadoras, o calor escaldante que se alterna com a chuva forte da madrugada, sem possibilidade de abrigo. A sensação como um todo é de um torpor pestilento. As formigas devoram os pescoços suados, em meio a tentativas de permanecer em silêncio. "Acho que cometi um erro, não sei se consigo ficar durante um ano aqui", divaga o jovem, aludindo à experiências dos protagonistas de outra obra-prima do gênero, no caso O Franco Atirador (1978).

 


Naquela altura do campeonato - no caso, os primeiros minutos do filme - Chris já havia escapado da morte, em uma emboscada vietcongue após ficar simplesmente paralisado diante da ameaça. E como se desgraça pouca não fossem bobagem, nas tentativas eventualmente frustradas de capturar guerrilheiros inimigos, o protagonista ainda precisa lidar com os conflitos internos que emergem, especialmente entre o compassivo sargento Elias Grodin (Willem Dafoe) e o autoritário e pragmático Robert Barnes (Tom Berenger). Se por um lado, Elias é como uma bússola moral que conquista o respeito dos demais primando pela disciplina, sem perder a empatia, do outro Barnes é o típico valentão da antessala do fascismo, daqueles que acredita que uma guerra é uma batalha de bem contra o mal, em um contexto em que qualquer tipo de ética é substituída por uma lógica única de sobrevivência, em que não há margem para confiança.

Em certo sentido, essa rivalidade entre ambos se sobressai na impactante e inesquecível sequência da aldeia em que os americanos, acreditando que os moradores - camponeses simples, muitos deles civis produtores de arroz - estariam abrigando vietcongues (e mesmo armas), agridem famílias, mulheres, crianças, em um processo de desumanização que encontra eco nos dias atuais (ainda mais quando assistimos a barbárie cometida em Gaza, perpetrada pelo lunático governo de Israel, com o apoio de Donald Trump). Gravitando o trio central outros personagens aparecem, aqui e ali, contribuindo para discussões para além do mero senso de camaradagem, como no caso do racismo, que é incorporado de forma orgânica com a presença de figuras como King (Keith David), Big Harold (Forest Whitaker) e Francis (Corey Todd), que se aproximam de forma natural naquilo que, em alguma medida, opera como uma espécie de alegoria para a própria sociedade americana, com suas divisões.

 

 

Cru, violento e quase agoniante - o que é reforçado pelas diversas tomadas de câmera muito próximas de seus personagens, que vagam pela selva com todo o seu aspecto imprevisível (a ponto de em um momento Chris sequer perceber a presença de uma sanguessuga em seu rosto) -, o filme se tornaria o primeiro grande sucesso de Stone, que, poucos sabem, participou da Guerra do Vietnã, com a sua experiência servindo de ponto de partida para a obra. Premiada com a estatueta máxima no Oscar de 1987, a produção ainda venceria outras nas categorias, como, Diretor, Som e Montagem. No que diz respeito à outras honrarias, Platoon atualmente figura como o 86° Melhor Filme da História, de acordo com lista elaborada pelo American Film Institute. Em 2011, o canal britânico Channel 4 consideraria este o sexto melhor filme de guerra já feito. Não são poucas as credenciais.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Novidades em Streaming - O Órfão (Árva)

De: László Nemes. Com Bojtorján Barabas, Andrea Waskovics, Elíz Szabó e Marcin Czarnik. Drama, Hungria / França / Reino Unido / Alemanha, 2025, 133 minutos.

Um filme sobre a procura de um filho por seu pai, mas que também pode ser lido como uma alegoria para a busca de uma Pátria por uma identidade que parece perdida. Em linhas gerais não é exagero dizer que O Órfão (Árva) - o enviado da Hungria para a mais recente edição do Oscar e que estreou na última semana na Mubi - parte de um microcosmo que envolve uma família traumatizada não apenas pela segunda guerra, mas também pela ocupação soviética, imediatamente após o conflito. Com as feridas abertas como um todo no tecido social de uma nação que, no limite, parece ter trocado um regime ditatorial por outro - no caso o nazismo pelo stalinismo húngaro. Sim, talvez esse contexto não seja algo tão simples assim de se entender, ainda mais se levarmos em conta o fato de, inicialmente, a Hungria ter sido aliada dos alemães para, mais adiante, ser invadida e saqueada pelos militares de Hitler. O que resultaria em milhares de judeus deportados para campos de extermínio.

No filme de László Nemes - do agonizante vencedor do Oscar O Filho de Saul (2015), que também tem a guerra como pano de fundo -, o conflito já se encerrou há mais de uma década. O ano é 1957 e o protagonista - o pequeno Andor (Bojtorján Barabas) -, após ter sido resgatado dez anos antes por sua mãe, Klára (Andrea Waskovics), uma sobrevivente do holocausto, é detido pela polícia junto com outros adolescentes por, supostamente ter participado da Revolução Húngara no ano anterior, ocasião em que estudantes, professores, intelectuais, artistas e outros trabalhadores se rebelaram contra o domínio soviético. Milhares morreram e muitos fugiram do País. Em linhas gerais, Andor acredita que seu pai, um dos desaparecidos, possa estar vivo em algum local - aliás, ele tenta se "comunicar" com o genitor em uma espécie de porão abandonado. Mas sem nunca ter certeza disso.

 


Em paralelo o rapaz, que parece saído de alguma obra do neorrealismo italiano - o que é reforçado pela fotografia granulada e dessaturada das ruas decadentes de Budapeste, com sua arquitetura antiquada e ambientação urbana opressiva (com a presença de militares por todos os cantos) -, especialmente por suas andanças infinitas ladeando prédios e terrenos ermos, mantém uma graciosa amizade com Sari (Elíz Szabó) que, secretamente, ajuda a manter seu irmão escondido em uma habitação abandonada (ele seria um revolucionário sendo procurado pelo Estado). Já outro amigo de Andor, Geza (Marcin Czarnik), um ator de teatro, parece ser aquilo que mantém seu vínculo não apenas com a humanidade, mas também com a identidade de seu povo e de sua família (já que seu pai era o proprietário do cinema local). Especialmente em um cenário de vigilância, prisões políticas e opressão a opositores. 

A desilusão é profunda - e parece ampliada em uma obra que tem sua própria medida de tempo, desenrolando-se sem pressa, com seus pequenos eventos diversos, sejam as idas ao cinema e a sinagoga e os encontros familiares, se espalhando de forma vagarosa. E como se desgraça pouca não fosse bobagem, tudo piora quando aparece na vida de Andor e de sua mãe um certo Mihály Berend (Grégory Gadebois), um sujeito tão misterioso quanto truculento que alega ser seu "novo pai" (e que teria ajudado Klára a se esconder dos nazistas). Estiloso do ponto de vista técnico - talvez até com certo exagero nesse sentido, o que poderia desviar a atenção para o que realmente importa em termos de temática -, o filme utiliza a cor vermelha dos balões e de outros objetos, como uma metáfora para a onipresença dos comunistas em solo húngaro. Da mesma forma, a violência que emerge do boxe como esporte, em substituição ao caráter lúdico do futebol em uma época do auge de Puskas, também pode funcionar como forma de evidenciar certo cansaço de um povo, há tanto oprimido. Sim, pode ser muita coisa para elaborar em uma produção eventualmente exaustiva com suas mais de duas horas. Mas não dá pra negar que é um esforço fílmico notável.

Nota: 8,0