De: Juan Cabral. Com Elena Romero, Julienta Cazzuchelli, Diego Peretti e Joaquín Furriel. Drama / Fantasia, Argentina, 2025, 97 minutos.
Da negação à aceitação, o luto costuma ser encarado de formas distintas por cada pessoa. Tristeza, frustração, revolta, ressentimento - em geral os sentimentos variam ainda que, em grande parte dos casos, a saudade permaneça. A lembrança. E no caso de Risa (Elena Romero), a protagonista do tocante Risa e o Telefone do Vento (Risa y la Cabina del Viento), que estreou na última semana na Netflix, essa memória do pai morto em um incêndio de grandes proporções, se torna ainda mais difusa, já que ela nunca chegou a conhecer direito o sujeito. Vencedora do prêmio máximo do Festival Internacional de Mar Del Plata, a obra do diretor Juan Cabral é calorosa, emocionante e, eventualmente, fantasiosa. Especialmente depois do momento em que Risa descobre que uma cabine de telefone, tipo aquelas que os fenícios utilizavam, é a única "construção" que resistiu ao fogo.
Entre o místico, o enigmático e o sobrenatural, a cabine passar a funcionar como uma espécie de ponte entre os vivos, que ficaram na cidade após o incêndio que levaria deste plano 144 pessoas da região de Ushuaia, no Sul do País, e seus parentes mortos, com quem eles conversam ao telefone. Claro, que conversa é modo de dizer, já que este é um diálogo mais simbólico, num bate-papo que opera como forma de expiação da dor. Uma tentativa, como dito no começo, de superar o luto. De se reerguer, meio que literalmente, dos escombros - e não deixa de ser interessante perceber como as máquinas de lavar espalhadas pelo cenário, funcionam não apenas como uma evidência tardia da tragédia, mas também uma alegoria de uma limpeza (de alma) que nunca chega, para quem precisa seguir adiante.
Para a pequena Risa, que mora com sua valente mãe Sara (Julieta Cazzuchelli), o telefone parece ser a oportunidade perfeita para conversar com Rodrigo (Joaquín Furriel), o falecido pai, que deve estar nesse além desconhecido. Mas como proceder? Em certa noite o telefone toca insistentemente - como num sonho confuso, abstrato, inexplicável. Quando atende o aparelho, Risa ouve as vozes do outro lado, que lhe alertam que, para conseguir conversar com seu pai, ela deverá cumprir uma série de missões no mundo dos vivos. O que permitirá às pessoas enlutadas juntar as forças necessárias para avançar. De ações simples como jogar xadrez com um professor aposentado da vizinhança, passando pelo alerta a uma família a respeito de um seguro disponível como herança em um banco da Patagônia, até chegar ao suporte uma cachorra abandonada, a simpática Chuleta, Risa se converte em uma espécie de Amelie Poulain do mundo dos mortos, andando de lá para cá na ideia de deixar a vida de quem ficou mais confortável perante a dor.
Acompanhando a pequena, seu babá com cara de poucos amigos, mas que é puro coração - seu nome é Esteban (Diego Peretti) -, contribui aqui e ali em sua jornada, sendo ranzinza e espirituoso, enquanto se esforça para que a menina lhe obedeça. Juntando-se à dupla há ainda um simpático hamster adotado - o que adiciona aquela pitada doce de filme para toda a família (ainda que envolva fantasmas com vozes fragmentadas e confusas). Aliás, tudo se torna mais caótico quando Risa finalmente escuta seu pai, sendo surpreendida por uma notícia que gera uma reviravolta interessante. Cheia de ambiguidades e boas reflexões sobre luto, perda, memória e dores, essa é uma produção de grande simplicidade, o que é reforçado pela fotografia dessaturada e fragmentada, pelo naturalismo gritante e pela trilha sonora quente, permeada pelas canções do grupo argentino Babasónicos. Aliás, Risa é o nome de uma música da banda - e parece haver todo um significado mais profundo de busca de conexão em sua letra (Na sala cheia de desconhecidos / Busquei o calor ao seu lado). É só um componente a mais.
Nota: 7,0







