segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Pérolas da Netflix - As Linhas Tortas de Deus (Los Renglones Torcidos de Dios)

De: Oriol Paulo. Com Bárbara Lennie, Loreto Meuleón, Eduard Fernández, Pablo Derqui e Samuel Soler. Suspense, Espanha, 2022, 155 minutos.

Quem acompanha a carreira do diretor Oriol Paulo sabe que seus filmes costumam ser experiências vertiginosas, novelescas, cheias de reviravoltas e de quebras de expectativa que, em alguma medida, exigem do espectador uma boa dose de suspensão da descrença. Foi assim com os enigmáticos Um Contratempo (2016) e Durante a Tormenta (2018), valendo o mesmo para o curioso As Linhas Tortas de Deus (Los Renglones Torcidos de Dios), uma daquelas pequenas joias escondidas na Netflix e que servem direitinho para uma sessão de final de semana, que renderá boas discussões em família, assim que os créditos subirem. Sim, o título pode passar uma energia meio cinema gospel, mas as tais "linhas tortas de Deus" tem um significado mais metafórico que, em alguma medida, permite explicar o comportamento de seres humanos complexos, disfuncionais ou marginalizados que, em muitos casos, ocupavam no passado os chamados sanatórios ou outras casas para o tratamento de pacientes psiquiátrico.

A propósito, é em um desses espaços - o sanatório Nossa Senhora da Fonte -, que se passa toda a trama, que é inspirada em romance homônimo do escritor Torcuato Luna de Tena. O ano é 1979, e a delegada Alice Gould de Almenara (a elegantíssima Barbara Lennie) chega ao local com um objetivo secreto, que ela esconde dos médicos e responsáveis: investigar um possível assassinato ocorrido um ano antes, quando um jovem chamado Damian morreu misteriosamente na Instituição. Sem provas definitivas os diretores do espaço - entre eles Samuel Alvar (Eduard Férnandez), que tem implementado uma metodologia que permite mais liberdade aos internos, com contato com a natureza, espaços para exercitar a criatividade e outros -, alegam que Damian teria se suicidado e que o caso estaria encerrado. Isso até o pai de jovem, Raimundo del Olmo (Lluís Soler / Joan Crosas), solicitar à Alice que fizesse uma investigação, acessando os arquivos do local, e levantando novas evidências.

 


Como mencionei lá no começo, para o espectador já acostumado às produções de Paulo, evidentemente as coisas não serão tão simples assim. Quando começa a "trabalhar" em segredo no sanatório, a investigadora esconde sua real identidade de figuras como a doutora Montserrat (Loreto Mauléon) ou do médico Teodoro Ruipérez (Federico Aguado) - a quem explica que foi enviada ao local por recomendação do próprio marido, Heliodoro (David Selvas), após tentar envenenar este por três vezes seguidas (até por que ele teria a intenção de ficar com seu dinheiro). Claro, tudo parte do estratagema montado para tornar a sua entrada no local fidedigna - o que envolve ainda um terceiro homem, um certo doutor Donadío. Em meio ao estranhamento generalizado ao se deparar com os internos Gnomo (Luis Sacristán), Homem Elefante (Francisco Pastor) e os gêmeos Rômulo e Remo (Samuel Soler), Alice conhece e faz amizade como um certo Ignacio (Pablo Derqui) que, é um dos suspeitos descartados do crime, por sofrer de hidrofobia (medo irracional da água).

[SPOILERS A PARTIR DAQUI ] Claro, pode haver aqui e ali um excesso de informações e de personagens, o que exige do espectador uma atenção total não apenas aos diálogos, mas aos objetos cênicos, figurinos e acontecimentos que ajudam a fornecer pistas do que realmente possa estar acontecendo lá e quais os segredos envolvidos. Quando uma tragédia acontece e mais um interno acaba morto, Alice passa a ter sua sanidade questionada - especialmente quando nada que envolve seu passado parece fazer sentido (com os fatos, aos poucos, sendo revelados). Alice seria uma espécie de Leonardo Di Caprio em Ilha do Medo (2010), com todos a sua volta mentindo ou ela é de fato uma investigadora com um objetivo bem definido? Logo no começo, uma carta de recomendações faz uma espécie de alerta que vale para quem assiste e que pode ser a chave de tudo: é importante não acreditar em que tudo o que a protagonista diz, com sua eloquência intrigante, intelecto evidentemente superior e certo pendor pra mitomania. Capaz de manipular os demais, ela pode estar apenas mentindo. Usando suas habilidades, charme e elegância sedutora. Ou não. Vai ver ela é só uma doidinha, com suas maluquices - e talvez o comportamento nada amistoso de Samuel reforce essas ideias. Enfim, tudo isso é parte da diversão nessa experiência envolvente, que nos arremessa de cá para lá a todo instante, com idas e vindas no tempo que embolam passado, presente e futuro, e que ainda deixam uma série de questionamentos no ar. 

 

Pitaquinho Musical - Weezer (Gold Album)

Muito provavelmente os mais novos nem saibam disso, mas no final dos anos 90, em programas da MTV como Garganta e Torcicolo e Gordo a Go-Go, o apresentador João Gordo - sim, o líder do Ratos de Porão - costumava ter uma espécie de mantra que ele volta e meia repetia, em alguma eventual discussão musical: "quem não gosta de Weezer bom sujeito não é". E, por mais que não dê pra falar em retorno às origens da banda de Rivers Cuomo e companhia - até mesmo porque o estilo musical meio que nunca mudou muito, com a sonoridade entre o power pop e o indie rock preservada e e as letras existencialistas sobre as dores do homem médio romântico, intelectual e moderno intactas -, o fato é que a produção recente pouco empolgava, como atestam o medonho Van Weezer (2021) e a totalmente descartável coletânea de EPs SZNZ (2022).

 


E, bom, pra quem em pleno ano da graça de 2026 ainda sonha com um reboot de Pinkerton (1996), talvez Golden Album, o décimo sétimo (sim, pasme) disco dos californianos possa ser um bom caminho para esse tipo de nostalgia musical - ainda que, com mais de 30 anos de carreira, todos ali estejam muito mais experientes, com outros dilemas para além de frustrações sexuais adolescentes e incertezas generalizadas. Peguemos como exemplo o single We Might as Well Be Strangers que, com participação de Karly Hartzman dos incensados alternativos do Wednesday, e que é uma canção tão hedonista à Weezer do Velho Testamento, que não faria feio talvez no Green Album. Já a divertida Hoops, faz a crítica as burocracias tecnológicas da era moderna, ao narrar as desventuras de um sujeito que apanha pra usar objetos simples do cotidiano, como torradeiras ou ferros de passar. Ao cabo, não se trata de reinventar a roda. É apenas o Weezer sendo direto, em dez músicas e um pouco mais de 30 minutos de duração - o que na era do fan service é um baita acerto.

Nota: 8,5 

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Cinema - Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte (Teenage Sex and Death at Camp Miasma)

De: Jane Schoenbrun. Com Hannah Einbinder, Gillian Anderson e Jack Haven. Comédia / Suspense / Drama, Canadá / EUA / Reino Unido, 2026, 112 minutos.

Existe um diálogo em Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte (Teenage Sex and Death at Camp Miasma), que talvez seja central pra compreender as ideias que se espalham pela excelente nova obra da diretora Jane Schoenbrun. Nela, a jovem diretora Kris Williams (a sempre ótima, divertida e carismática Hannah Einbinder) divaga sobre o papel decisivo da franquia de filmes slasher Camp Miasma na sua formação - destacando especialmente o olhar da protagonista e toda a carga simbólica sobre gênero ou representações identitárias difusas, que são emanadas por esse rosto em close. Sua interlocutora é a própria Billy Presley (Gillian Anderson que, se o mundo fosse justo seria lembrada com uma indicação à coadjuvante no próximo Oscar), que foi a protagonista do primeiro filme da franquia, portanto a dona do olhar, e que está sendo visitada por Kris para um convite para um possível reboot, recomeço ou como quer que chamemos em tempos de pouca originalidade de estúdios e um apelo generalizado à uma nostalgia quase infantilizante.

Sensual, estranha e meio durona, Billy responde: "existem filmes que são apenas sobre carne e sangue". E é isso. Na produção de Schoenbrun - que já havia chamado a atenção no anterior I Saw the TV Glow (2024) -, Kris é aquele tipo de realizadora que parece a pessoa ideal para oxigenar uma franquia oitentista machista e transfóbica, mas de alto potencial lucrativo por sua memória afetiva: ela fez barulho em Sundance, foi tema de uma série de matérias e entrevistas em sites independentes e realiza um tipo de cinema queer ou, vá lá, woke (para desespero do cidadão de bem de extrema direita), que pretende ser mais inclusivo em tempos de Black Lives Matter, #metoo e outras campanhas em favor de minorias. A participação de Billy, atualmente uma senhora excêntrica e reclusa à moda Norma Desmond de Crepúsculo dos Deuses (1950), que abandonou a carreira depois da estreia de sucesso do primeiro Camp Miasma é uma espécie de "plus a mais" sugerida pela produção - o que para Kris é uma baita mão na roda, já que ela sempre foi apaixonada pelos filmes antigos, que assistia desde quando era criança.

 


Kris quer repaginar a franquia, que tem como vilã central uma jovem transgênero que leva o apelido de Little Death e que usa um estranho capacete que lembra um duto de ventilação de teto, daqueles quadradinhos (papel de Jack Haven), atualizando-a de acordo com a agenda atual. Ela, como diretora de causas LGBTQIA+ parece a pessoa indicada. Só que tem um problema: Billy parece com pouco saco para esse papo, o que faz com que ela dê uma espécie de aula particular à jovem diretora, que alude a autoras como Linda Williams, que muito já teorizou sobre os gêneros do corpo - e como eles são capazes de, para além de fazer com que o filme seja objeto de simples contemplação, sejam também veículo para sentir, sofrer, ou secretar. Em resumo, Linda sugere em ensaios como Film Bodies: Genre, Gender and Excess (1991) que, em certos filmes, é necessário que alguma coisa simplesmente aconteça com o nosso corpo: choro, sangue, gozo e outros fluídos que decorrem de reações afetivas do espectador. De sobressaltos, de repulsa, de excitação, de gritos, de violência, de sangue, de vísceras. Uma coisa mais direta e eventualmente, para a crítica mais purista, pode ser considerada mais baixa, vulgar ou profana.

Sim, apesar de já ter feito dois cursos de cinema, além da formação em Jornalismo, não é a minha ideia aqui ficar dando carteiraço sobre autores e suas ideias e como elas se relacionam com essa obra, mas no diálogo que inicia essa resenha pensei imediatamente nesse contraponto entre aquilo que se considera cinema de arte - hermético, reflexivo, contemplativo -, e essas produções mais frontais, como eram os slashers dos anos 80 e 90 e como eles foram importantes, para o bem ou para o mal, para a nossa formação. Por mexerem conosco fisicamente - por nos deixarem tensos, enojados, excitados (e confesso que nunca mais esqueci o quão desestabilizado fiquei ao assistir, por exemplo, à franquia Poltergeist na minha adolescência). E, por mais que haja no centro dessa brilhante joia do cinema independente, que estreia semana que vem na Mubi, um subtexto geral sobre libertação feminina, autonomia sobre o próprio corpo, subversão de expectativas de gênero, recompensas e até de papel da religião, do patriarcado e do moralismo generalizado dos nossos tempos, o filme também homenageia, de fato, essa era de filmes mais simples, mais carnais, mais afrontosos. Em que a depravação e a liberdade - curiosamente desejadas por Kris como uma espécie de "cura" orgásmica (quase uma pequena morte, o que é só mais uma sacada inteligente do roteiro) para os freios relativos a sua sexualidade - são vistas como o oposto do recato, da virtude, e de certa higiene quando o assunto é o tesão.

 

 

Em linhas gerais, o caso é que eu poderia ficar horas e horas falando desse filme e nunca seria o suficiente para contemplá-lo no todo. De sua abertura absurdamente original e divertida - que, desde já entra para o panteão dos grandes começos -, com o vasto sucesso de Camp Miasma sendo recuperado em cartazes do filme, burburinho da mídia, artigos, brinquedos, objetos de uso doméstico, jogos de videogame, discos, revistas, charges e polêmicas; passando pelos ótimos diálogos cheios de easter eggs metalinguísticos ("Tem mais alguém na casa? Tipo, sua mãe empalhada no quarto, só pra dar um exemplo aleatório?"); até chegar ao desenho de produção onírico e vibrante (ainda que grande parte do filme se passe em uma propriedade isolada, na neve e no meio do nada) e à trilha sonora de Alex G, com outros nomes como Andy Shauf e Counting Crows (sim, e em uma das melhores sequências, diga-se), tudo funciona bem. Engraçado (juro que já soltei uma gargalhada nos primeiros trinta segundos e vocês saberão por quê), sensual, tenso, surrealista, romântico em alguma medida e cheio de possibilidades interpretativas, esse é um projeto que nunca se encerra quando os créditos sobem. É para ver e rever. E continuar vendo eternamente. Exatamente como fazemos com os filmes de nossa infância. Alguns deles repletos de sangue, suor e lágrimas.

Nota: 10 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Pitaquinho Musical - Antropoceno (No Ritmo da Terra)

"A ideia de nós humanos, nos descolarmos da terra, vivendo numa abstração civilizatória, é absurda". Em tempos em que o colapso climático parece irreversível - meio que basta abrir as notícias do dia para ter certeza disso -, a frase dita pelo escritor brasileiro e líder indígena Ailton Krenak, no famoso livro Ideias Para Adiar o Fim do Mundo, parece ainda mais verdadeira. E é justamente tomando por base a obra do autor, que o Antropoceno lança o seu segundo registro de inéditas, No Ritmo da Terra. Criado pela paulista Lua Viana, o projeto mescla shoegaze, metal experimental, pós rock e psicodelia, com ritmos brasileiros ritualísticos ligados ao candomblé, ao afoxé e à capoeira, além de gravações de campo da Floresta Amazônica, que resultam em um conjunto de canções que parece estabelecer um vínculo direto entre ancestralidade e futurismo, tradição e inovação.

 


Funcionando por meio de um processo imersivo o disco, que dá continuidade ao igualmente relevante Natureza Morta (2025), pode soar desafiador como mera experiência musical. Especialmente por propor um mergulho na floresta, com seus habitantes, sons, elementos e ontologia. Ainda assim, no fundo parece haver algo maior aqui e que alude a um processo político e evocativo de enfrentamento, resistência, práticas decoloniais e subversão de influências ligadas ao capital. O que é complementado pela presença de letras que, para além do português, contam com versos em tupi e iorubá, além de um vasto conjunto percussivo de atabaques, tamborins, berimbaus e caxixis, que se unem a guitarras ruidosas e sintetizadores ferozes. "Se há um futuro a ser vivido, ele é ancestral". A frase de Krenak, de forma carga simbólica, centraliza as ideias que se espalham no registro. É uma força que transborda e se solidifica a cada nova audição.

Nota: 9,0 

Tesouros Cinéfilos - Cidade dos Sonhos (Mullholand Drive)

De: David Lynch. Com Naomi Watts, Laura Harring e Justin Theroux. Suspense / Drama, EUA / França, 2021, 146 minutos.

Vamos combinar que, em muitos casos ficamos tão focados em tentar entender o que acontece no terço final de Cidade dos Sonhos (Mullholand Drive), que quase esquecemos o básico: de que o clássico moderno de David Lynch, que completa 25 anos de lançamento em 2026, é um excelente suspense romântico, com um roteiro instigante e repleto de surpresas inesperadas. Hoje em dia os finais em aberto e até certa falta de lógica narrativa parecem rotina no cinema mais experimental, com suas pontas soltas, alegorias e significados nem tão óbvios. E por mais que certo hermetismo sempre tenha feito parte das produções de Lynch - como no caso de Veludo Azul (1986), por exemplo -, o público ficou tão desesperado em compreender os eventos que rondam a dupla central Betty (Naomi Watts) e Rita (Laura Harring) que o diretor chegou a lançar um famoso extra na edição em DVD do filme, em que citava Dez Pistas para Desvendar Mullholand Drive.

De coisas como prestar atenção a um abajur vermelho recorrente, reparar no local do acidente e até descobrir o título do filme dentro do filme que Adam (Justin Theroux) está produzindo, estas eram apenas algumas pistas que poderiam conduzir o espectador a solução - no que foi um exercício divertido e legítimo de um tempo em que a internet ainda engatinhava e as redes sociais sequer existiam. Aliás, Cidade dos Sonhos é tão um produto do seu tempo - daquela virada de milênio ainda incerta em que o atentado ao World Trade Center acabara de acontecer -, que a dinâmica de quebra-cabeças cheio de peças espalhadas pedindo para serem encaixadas (chaves, cinzeiros, espelhos, xícaras de café e até moradores de rua sujos e inesperados) pareceu um atrativo a mais em uma experiência noir polida que, por si só, talvez já fosse envolvente o suficiente. Sem que precisássemos de uma resposta exata sobre os eventos vistos no Clube Silêncio, com a excêntrica e já falecida cantora Rebecca Del Rio entoando a mais melancólica das canções antes de simplesmente desmaiar.

 


Sim, hoje em dia não são poucas as teorias já consolidadas em fóruns do Reddit a respeito desse romance de estrutura circular que conta a história de uma deslumbrada aspirante a atriz de nome Betty Elms, que chega à Hollywood para tentar uma carreira no cinema. No local, ela se estabelece na casa de uma certa tia Ruth que, a bem da verdade, nunca aparece. Mas as coisas não serão tão simples já que ela se depara com a inesperada presença de Rita na residência, que afirma ter sofrido um acidente na Mullholand Drive do título, sem se recordar de mais nada que envolva o acontecimento (a não ser o fato de que ela sente estar em perigo). Para o espectador, o impacto da primeira meia hora é ondulante, quase amortecedor. Com a trama bebendo na fonte dos clássicos de Alfred Hitchcock, com Rita escapando da morte - dois homens (que não sabemos quem são) em um carro lhe apontam uma pistola, com a intenção de assassiná-la -, após uma batida de outro carro em altíssima velocidade, guiado por jovens desvairados e bêbados. Uma ocorrência que, em alguma medida, a salva.

Em linhas gerais parece haver um mistério que ronda esse conjunto todo - o que é reforçado pelo clima onírico da fotografia excêntrica, ao mesmo tempo opressiva mas primaveril que orna essa cidade fervilhante e pela trilha sonora de notas cortantes de Angelo Badalamenti, que emula as melodias lentas e frias vistas na série clássica, cult e noventista Twin Peaks (outro trabalho do maestro com Lynch). Há também um certo maravilhamento pela própria experiência de cinema (e de arte em geral), com uma série de instantes metalinguísticos que parecem brincar com o senso de realidade - o que é a verdade quando tudo o que assistimos está sendo filmado? -, e conforme entendemos que talvez Betty já tenha conhecido Rita anteriormente. Ou talvez uma projeção dela, por quem ela se apaixona não apenas por sua elegância à femme fatale da Hollywood clássica, mas também pela ideia do que ela representa como artista inalcançável (não por não ser capaz, como fica claro em uma sequência de ensaios, mas por ela não ser a pessoa indicada para este ou aquele papel, em uma máquina em que cartas marcadas parecem ter acesso facilitado no almejado panteão de estrelas da capital do cinema).

 

 

A presença de um volume inesperado de dinheiro, a existência de uma chave que não se sabe muito bem qual o uso, ou mesmo a aparição de pessoas estranhas e enigmáticas que parecem ter informações a mais sobre os envolvidos ali - como no caso do misterioso Cauboi (Monty Montgomery), os nada amistosos irmãos Castigliane ou mesmo a onipresente Diane Selwyn, que ressurge como num susto na memória de Rita, adicionam uma pimenta a mais em uma experiência cheia de tensões sexuais, de realidades alternativas e de um submundo de fantasias pomposas que se corroem e nem sempre se confirmam. E isso sem falar na misteriosa Camilla Rhodes que, aos poucos vai ocupando lugar de destaque na narrativa. Sedutor, estranho, assombroso, tenso e comovente, esse é daqueles filmes que não se resolvem após a subida de créditos, praticamente exigindo do espectador uma conversa de bar para teorias mais elaboradas, que burlem os limites entre fantasia e realidade. Ainda que o próprio Lynch tenha admitido em entrevistas, que se trata, como mencionamos lá no começo, apenas de uma história de amor. O que também é parte da beleza.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Novidades em Streaming - 100 Noites de Desejo (100 Nights of Hero)

De: Julia Jackman.Com Emma Corrin, Maika Monroe, Nicholas Galitzine, Amir El-Masry e Charli XCX. Fantasia / Romance, Reino Unido, 2025, 91 minutos. 

Era uma vez três irmãs - Rosa, Mina e Caterina -, que viviam com o pai, um capitão do mar. Após a morte da mãe das jovens, o pai prepara-as para aquilo que a sociedade patriarcal espera delas: ser boas esposas e mães, obedientes e com habilidades domésticas. Só que o homem não sabe que, em segredo, o trio aprendeu algo proibido nesse universo alternativo: ler e escrever. Quando o pai retorna de viagem com um comerciante rico a tiracolo, Rosa é escolhida para casar-se com o rapaz, acreditando no fato de ela ser dócil, virtuosa e santa. Só que essa não é a personalidade real de Rosa, uma moça inteligente, extrovertida e dotada de habilidades artísticas. E mesmo que o matrimônio pareça feliz em um primeiro momento, com as convenções estabelecidas, a confiança é quebrada quando Rosa, num instante afetivo, escreve I love you, em uma janela embaçada. É o suficiente para que o marido surte com a ideia de a própria esposa ser capaz de escrever seus próprios pensamentos. Sim, escrever. Ela se torna uma ameaça, uma bruxa, impura, vadia.

Vamos combinar que a história dentro da história narrada por Hero (Emma Corrin) à Cherry (Maika Monroe), em 100 Noites de Desejo (100 Nights of Hero), parece ainda dizer muito sobre os tempos sombrios atuais - em que políticos de extrema direita nutrem um desejo nem tão secreto assim de que suas esposinhas de bem sejam apenas donas de casa submissas, do modo mais tradicional possível. De preferência sem independência, sem vontades, sem desejos pessoais. Sem voto. Sem ideias (subversivas). Sem leitura e escrita. Enfim, vocês sabem como opera esse campo. Ao cabo, a obra dirigida por Julia Jackman e que é inspirada na graphic novel de Isabel Greenberg, é um conto de fadas esteticamente belo, que pega algumas ideias de As Mil e Uma Noites, para contar a história de Cherry, que é deixada em seu castelo por seu marido negligente Jerome (Amir El-Masry), que resolve testar sua fidelidade após a chegada do sedutor Manfred (Nicholas Galitzine) ao local.

 


Caso Cherry ceda às investidas de Manfred, Jerome lhe concederá direito sobre o reino. Restando à adúltera Cherry o destino inevitável das bruxas desviantes do período: a morte. De preferência de alguma forma bem cruel. Só que Hero, para além de criada de Cherry, é uma amiga pessoal. Uma amiga talvez até demais - e são várias as sugestões homoeróticas do filme que estreou na última semana na Mubi. Não apenas entre a dupla central de mulheres, mas também entre Jerome e Manfred - o que é reforçado pelo fato de o primeiro ser simplesmente incapaz de confirmar uma noite de núpcias adequada, como prevê a tradição. "Quero ser tocada, pra gerar um filho, claro", verbaliza à jovem de forma meio desajeitada, em certa altura. Mas Hero parece estar um passo à frente dessa ameaça que parece se espalhar de todas as formas nos corredores desse universo gerido por homens velhos e cheios de códigos morais rígidos. É por isso que ela mesma sugere contar a história de Rosa (vivida por Charli XCX) e suas irmãs. Como uma forma de reter meio que eternamente por esses três meses e pouco, as investidas de Manfred.

Em geral, o que temos aqui é uma produção que consegue ser ao mesmo tempo modesta, mas também sofisticada - além de cheia de metáforas e simbolismos que apontam os dedos para o absurdo da dominação dos homens, com o uso da religião como veículo. Nesse mundo alternativo, o idílio pacífico pensado por Kiddo é quebrado quando seu pai, um certo Birdman (Richard E. Grant) resolve criar um código rígido, especialmente no que diz respeito à gênero. Para Cherry, ter um filho pode até ser um objetivo - até mesmo para que ela sobreviva nesse espaço em que mulheres parecem ter apenas uma "utilidade" -, mas essa ideia vai sendo meio que dissipada, conforme ela mergulha no universo fantástico de Hero (que, sim, tem esse nome não por acaso). Com ótimos figurinos e desenho de produção, esse é aquele tipo de narrativa cheia de carisma, que não carece de grandes acontecimentos ou reviravoltas para passar o seu recado. Talvez em tempos tão brutos, um pouco de realismo fantástico não faça mal. 

Nota: 7,0 

 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Pitaquinho Musical - Nia Archives (Emotional Junglist)

Vamos combinar que discos como Emotional Junglist, o segundo da sempre ótima Nia Archives, são a prova viva de que a música mais experimental não precisa ser hermética, complexa, cabeçuda. Conhecida entre seus pares por ser uma das referências modernas do jungle - estilo musical precursor do drum and bass e que é marcado pela bateria acelerada, linhas de baixo graves e samples movimentados -, aqui a inglesa parece disposta a explorar outros estilos, como o R&B, o brit pop, o indie rock, o pós punk, o dub e o reggae. E não é que Nia não tenha sido versátil na estreia Silent Is Loud (2024) que, para os puristas, talvez seja um disco até melhor. Mas aqui essas ideias parecem mais espalhadas, menos presas a uma caixinha, mais exploratórias. Com o resultado sendo uma coleção de canções etéreas e sofisticadas, mas também sedutoras e despojadas. É um registro que cresce e só vai melhorando a cada novo play.

 


Um bom exemplo dessa mescla pode ser percebido na ensolarada This Could Be..., que não faria feio na trilha sonora de alguma sitcom do final dos anos 90 ou começo dos 2000 - sentimento reforçado por sua letra de romance torto, mas esperançosa, sobre estar com o coração aberto para encontrar o amor (Talvez você seja o único / Este pode ser o começo de algo bom). Já Vertical, com seus sintetizadores sonhadores e batidas ritmadas, parece algo que poderia estar em algum disco da Björk, em sua fase mais, vá lá, comercial. Como um todo, o registro é cheio de surpresas. Algumas mais transcendentais, como no caso da apaixonante Superlust, talvez uma das melhores músicas do ano; outras mais vulneráveis e íntimas, como no caso de Tender, parceria com Sampha. Sério, é tudo tão bem acabado aqui, que esse é daqueles trabalhos que pedem um fone de ouvido e um pouco de calmaria. Vai ser difícil não se conectar imediatamente com a beleza desse disco, facilmente um dos melhores do ano.

Nota: 9,5 

Novidades em Streaming - Mayday (Mayday)

De: John Francis Daley e Jonathan Goldstein. Com Ryan Reynolds, Kenneth Branagh, Marcin Dorocinski e Maria Bakalova. Ação / Comédia, EUA, 2026, 111 minutos.

Antes de falar qualquer coisa mais aprofundada sobre Mayday (Mayday) é preciso reconhecer que, no fundo, talvez essa seja apenas uma homenagem a um dos filmes mais gays da história - no caso, o "clássico" Ases Indomáveis (1986), que completa 40 anos de lançamento neste 2026. E, nesse sentido, por que não reviver o clima bélico da Guerra Fria e das disputas oitentistas entre Estados Unidos e União Soviética que marcaram aqueles anos, com uma produção de ação divertida, eventualmente exagerada, e que faz a crítica que nunca ofende ninguém a respeito do absurdo dos conflitos? Sim, falar em Reagan e Gorbachev pode parecer algo meio anacrônico em uma observação meio direta, mas o caso é que as motivações por trás das disputas entre grandes potências meio que nunca se alteraram, com a hegemonia econômica, tecnológica e geográfica estando no centro. Aliás, com a aposta até sendo dobrada quando pensamos em Trump e, vá lá, Putin.

E, bom, como não são todos os filmes que necessariamente precisam ser vastos panfletos políticos com pano de fundo social, na obra dos diretores John Francis Daley e Jonathan Goldstein que, admito, nunca nem tinha ouvido falar, temos uma boa comédia de ação sobre um tenente da Marinha de nome Troy Kelly (Ryan Reynolds, afinal, não sei se alguém conseguiria ter uma cara mais estadunidense, até de uma forma meio tapada, do que ele), que é designado para uma missão de reconhecimento sobre a Rússia. Prestígio que ele conquista após salvar um colega de esquadrão em uma manobra milagrosa durante um treinamento - o que já é um aceno ao estilo Top Gun, com direito a exageradíssima Jump, do Van Halen, na trilha sonora. Em solo russo, a missão dá errada, seu companheiro de caça é morto e ele precisa, em um movimento desesperado, se ejetar. Sendo salvo, em pleno deserto nevado dos recantos siberianos pelo excêntrico Nikolai "Nick" Ustinov (Kenneth Branagh), um ex-oficial da KGB.

 


Só que o que poderia ser trágico para Troy (ser localizado por um militar soviético), se torna realmente a sua salvação, quando ele percebe que Nick não apenas abomina tudo que envolva o governo opressivo de Gorbachev, como ainda é um adorador da cultura americana - com direito a cartazes na parede de sua cabana com inscrições de I love New York e do elenco de Ases Indomáveis (fita VHS que ele preserva, secretamente, e que admite já ter assistido a mais de uma centena de vezes), além do sonho molhado de poder se empanturrar de Mc Donald's. Nick está falando a verdade? Está mentindo? É um impostor? Não tendo com quem contar em solo inimigo, Troy aceita a ajuda desse sujeito cheio de habilidades militares, que lhe salvará dezenas de vezes em um sem fim de sequências engraçadíssimas de lutas - como na cena do bar -, com fugas engenhosas, como na do trem, e outros estratagemas diversos, sendo um dos mais aleatoriamente cômicos o que envolve o encontro com sua filha Anna (Maria Bakalova).

Rodando pela Rússia rural em busca de um equipamento telefônico que permita driblar a vigilância e contatar a embaixada dos Estados Unidos, a dupla embarca em um road movie inesperado, onde Troy conhecerá a hospitalidade dos habitantes alheios às tensões políticas daqueles tempos, recebendo-os em suas casas de forma amistosa e sem julgamentos. Líder da KGB, Alexander Volkov (Marcin Dorocinski) empreenderá as buscas pelo americano capturado, o que envolverá boas surpresas pelo caminho, reviravoltas interessantes e uma série de instantes de humor involuntário - como na cena do esconderijo tanto no tonel de bebida como no armário, ou outra que envolve um enorme aparato fálico que, nada mais é do que uma alegoria para essas nações e seus líderes torpes, que só conseguem medir forças comparando o tamanho dos armamentos (que talvez compensem outras faltas). Carismático e até meio bobo em muitas vezes, esse é aquela projeto ideal pra quem quer passar o tempo sem pensar muito - ainda que, aqui e ali, haja um ensaio para uma crítica a respeito do absurdo do belicismo e de toda a dor gerada por essa indústria, lembrada também na pequena participação de David Morse, como o pai de Troy. Tá disponível na plataforma da Apple TV.

Nota: 7,0