De: Oliver Hermanus. Com Paul Mescal, Josh O'Connor e Chris Cooper. Drama / Romance, EUA / Reino Unido / Itália, 2025, 128 minutos.
[ATENÇÃO: TEXTO COM ALGUNS SPOILERS]
Vamos combinar que se o subgênero do "drama do gay triste" pode até não estar oficialmente formalizado, ainda que caminhe para isso. Até porque parece haver uma convenção meio incômoda de que narrativas queers necessitam, inevitavelmente, virem acompanhadas de sofrimento. De O Segredo de Brokeback Mountain (2005), passando pelo premiado Moonlight (2016) e, claro, por alternativos, como, Todos Nós Desconhecidos (2023), a impressão que se tem é a de que a experiência gay, especialmente a masculina - sempre carregada de uma tonelada a mais de preconceitos - parece ter de vir, invariavelmente, acompanhada de perda, de luto, de dor. Ou mesmo da impossibilidade da felicidade amorosa - como uma espécie de punição meio que natural, do ponto de vista conservador, para aquilo que é claramente desviante. Que foge da lógica ou das convenções. Meio que como a jovem depravada que é a primeira a morrer nos filmes de terror, guardadas todas as proporções.
E, é preciso que se diga que não há nenhum problema nesse estilo, que já nos brindou com grandes produções - como as citadas acima. Só que, às vezes, a impressão que se tem é que a mão pesa um tanto na abordagem desse sofrimento quase infinito, desesperançoso. O que piora quando a obra passa a impressão de ter potencial para explorar outras subtramas para além do "veja bem como esse homem sofre em silêncio e dentro do armário em tempos tão complicados" - e esse parece ser exatamente o caso de A História do Som (The History of Sound), do diretor Oliver Hermanus. Exibido em Cannes e estrelado por Paul Mescal e Josh O'Connor, esse é aquele tipo de filme elegante, de grande apuro técnico - da fotografia ao desenho de produção -, mas que quase se torna cansativo ao nos apresentar um romance secreto entre dois estudantes de um conservatório do começo do século passado que termina, claro, de forma trágica.
Quando a obra começa começa, uma narração em off nos apresenta uma ideia interessante e que meio que simplesmente desaparece alguns minutos depois: a de que algumas pessoas possuem uma habilidade única de perceber a música para além do som. Um dom. Como se o barulho - seja da natureza ou dos instrumentos - tivesse cor, sabor. E, sim, a gente sabe que isso pode acontecer, de associar uma canção a algo para além do abstrato e eu considerei isso tão bonito e essa parece ser justamente a capacidade do protagonista Lionel Worthing (Mescal), que eu achei um pecado isso ser ignorado, mais adiante. Claro, a música é justamente o que conectará Lionel - que tinha no falecido pai - com sua viola na varanda de sua pequena propriedade do interior do Kentucky uma referência -, à David White (O'Connor), que ele conhece em um pub de New England (ele toca justamente uma canção folclórica que era tocada por seu pai na juventude, num instante nostálgico, caloroso e bonito).
Após iniciaram um relacionamento às escondidas, David é convocado para a primeira guerra (o ano é 1917). Quando retorna do conflito, dois anos depois, a dupla se reaproxima para a execução de um inovador e simpático projeto universitário, que está no centro da melhor parte da narrativa (e que tenho a impressão que, por si só, renderia um filme à parte), e que envolve a captura de músicas folclóricas em cilindros de cera pela América rural. O que seriam, na realidade, os primórdios da gravação de sons, ainda de forma rudimentar. E, bom, se o filme poderia centrar mais a coisa na história do som, como sugere seu título original, não podemos esquecer que essa é a obra de gay sofrendo. E, por mais que a música tradicional, antiga, passada de geração a geração, se espalhe de forma fluída por cada fragmento da produção - de forma vagarosa, melancólica -, lá pelas tantas a dupla se separa, quando Lionel vai tentar a vida em Roma, cantando em um prestigioso coral. E o belo trecho em que aparece a antiga The Unquiet Grave - sobre um homem em luto que fica ao lado do caixão da esposa morta, não deixando-a descansar -, é a deixa, de forma alegórica, para os acontecimentos que virão mais adiante. Com o luto infinito percorrendo décadas.
Nota: 6,5







