quinta-feira, 5 de março de 2026

Cinema - Song Sung Blue: Um Sonho a Dois (Song Sung Blue)

De: Craig Brewer. Com Kate Hudson, Hugh Jackman, Michael Imperioli e Jim Belushi. Drama / Música, EUA, 2025, 132 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM ALGUNS SPOILERS] 

Vamos combinar que, não fosse a indicação de Kate Hudson à Melhor Atriz no Oscar desse ano - e a campanha deve ter sido pesada com certeza - e talvez Song Sung Blue: Um Sonho a Dois (Song Sung Blue) passasse meio batido. Ao cabo temos aqui aquele romance musical meio genérico - um subgênero famoso por filmes como Nasce Uma Estrela (2018) ou La La Land: Cantando Estações (2017) -, com uma pitadinha a mais de tragédia e a diferença de ser uma obra inspirada em eventos reais. Como de praxe em experiências do tipo, a obra se ancora não apenas no carisma de seus personagens, tentando enlaçar o público em uma narrativa de superação a partir do poder da arte. Sim, pode ter aquela carinha de mais do mesmo mas, vá lá, a energia é meio Sessão da Tarde. E, importante comentar, se você não conhece a história verdadeira de Mike (Hugh Jackman) e Claire Sardina (Kate Hudson) talvez valha a pena evitar os spoilers.

O começo do filme dirigido por Craig Brewer - de carreira discreta e que talvez tenha em Meu Nome É Dolemite (2019) um dos seus melhores momentos -, é bem interessante. Discursando como se estivesse diante de uma plateia, com câmera no rosto e um ar de estrela do rock, não demora para que percebamos que Mike é, na realidade, um sujeito de meia idade que frequenta há vinte anos um grupo de alcoolistas anônimos. É seu "aniversário" de duas décadas sem beber e, como músico amador que se apresenta em feiras, eventos e outros, ele tem uma exibição marcada em uma casa de shows de Wisconsin onde ele deveria, a contragosto, fazer um tipo de performance onde imitaria o cantor pop Don Ho (famoso pelo hit Tiny Bubbles). Na mesma noite, ele conhece e se encanta por Claire, que encarna a cantora country Patsy Cline com personalidade e vigor. E, bom, não demora para que eles se aproximem e, mais do que parceiros artísticos, se convertam em um casal.

 


 

E, como já comentei, a história é real e remonta ao final da década de 80 e o começo dos anos 90, ocasião em que Mike e Claire passam a ensaiar músicas de Neil Diamond, se apresentando com o nome de Lightning and Thunder - dupla que faria sucesso localmente naquela região. Polvilhado por instantes cômicos - em um deles eles são contratados para cantar para um público não tão adequado de motoqueiros estilo Harley Davidson (que tem apreço não só pela extrema direita, mas também pelo rock farofão de ZZ Top, Lynyrd Skynyrd e Steppenwolf), em uma noite que termina entre risadas e um pedido de casamento - e trágicos, como aquele do acidente sofrido por Claire, o filme se desenvolve em meio a conflitos familiares, incertezas sobre o futuro e a tentativa de uma vida melhor não apenas para a dupla, mas também para seus filhos.

Fazendo um aceno para os fãs dos anos 90, a obra inclui uma performance clássica em que o duo abriu um show do Pearl Jam, com a presença de Eddie Vedder (John Beckwith) e tudo no palco, sendo também divertidos os momentos em que outros artistas são citados, como no caso do Michael Imperioli encarnando um Buddy Holly que, mais tarde, entrará para o grupo de apoio de Mike e Claire. Espalhando algumas das canções de Diamond em situações chave para dar andamento à narrativa - seja nos problemas de saúde ou nos casos de superação -, a produção brinca sobre o fato de o público meio que só conhecer o clássico Sweet Caroline, ou o fato de Diamond não ser um dos artistas mais expressivos que se conheça. O que não impediu o sucesso da banda. Doce e amargo, como uma música triste de melodia feliz, esse é o tipo de projeto melodramático e inspirador que, em tempos de turbulência, parece recuperar, em partes, os ideais do sonho americano. Por mais triste que seja, importantíssimo lembrar, um País sem saúde pública.

Nota: 6,5

 

Curta Um Curta - O Diabo Não Tem Descanso (The Devil Is Busy)

De: Geeta Gandbhir e Christalyn Hampton. Documentário, EUA, 2024, 31 minutos.

"Nunca pensei que eu teria mais direitos há 25 anos do que a minha filha tem agora". A frase dita por uma das personagens do curta documental O Diabo Não Tem Descanso (The Devil Is Busy) - que está disponível na HBO Max e que é um dos indicados ao Oscar em sua categoria -, pode até chocar, mas nunca surpreender. Estamos, afinal, falando de aborto em um País (os Estados Unidos), a cada dia mais reacionário ou avesso a qualquer medida de avanço civilizatório. O que só piora com governos como o de Donald Trump - ocupadíssimo com a guerra, qualquer que seja, enquanto a população padece. Na trama acompanhamos a rotina de Tracii, a chefe de segurança de uma clínica feminina de Atlanta que, frente a uma série de restrições resultantes de medidas retrógradas votadas pelo Congresso, precisa lidar ainda com um grupo de doidinhos de bairro que protestam em frente ao local (normalmente aquele tipo de desocupado que se considera moralmente superior, mesmo sendo uma das piores pessoas possíveis para a sociedade).

 


Em um período de um dia, o curta dirigido por Geeta Gandbhir e Christalyn Hampton - aliás, Geeta também é o nome por trás do excelente documentário A Vizinha Perfeita (2025), um dos favoritos em sua categoria para o Oscar -, acompanha o dia a dia de Tracii, desde a recepção de pacientes (que, em muitos casos, chegam ao local escondidas ou envergonhadas), lhe possibilitando o acesso a serviços médicos, exames de rotina e cuidados preventivos. Os abortos em si, a causa de toda a polêmica que emerge do cidadão de bem que acha que as decisões políticas do País devem ser feitas com a Bíblia debaixo do braço, só podem ser realizados até o limite de seis semanas de gestação - momento em que muitas das jovens sequer percebem que estão grávidas. Do receio das profissionais em serem presas por realizarem seu ofício, passando por discussões sobre os limites da autonomia da mulher em uma sociedade em que homens engravatados em gabinetes tomam as decisões, a obra propõe a reflexão em um cenário de retrocessos.

 

terça-feira, 3 de março de 2026

Cinema - Arco (Arco)

De: Ugo Bienvenu. Com Oscar Tresanini, Margot Oldra e Ugo Bienvenu. Animação / Fantasia / Ficção científica, França / EUA / Reino Unido, 2025, 89 minutos.

"Você não me contou qual o seu pedido. Eu queria que as coisas... mudassem". É possível ter esperança em relação ao futuro? Em relação ao mundo que habitamos? Vamos combinar que, às portas de uma nova guerra mundial, em um contexto de crises políticas, sociais e ambientais, uma obra mais ou menos otimista como a singela animação Arco (Arco) parece quase excessivamente ingênua. Utópica, em alguma medida. As mudanças sonhadas pela pequena Íris (Margot Oldra) podem sugerir certa ambiguidade de quem é apenas uma pré-adolescente cheia de dúvidas, medos e incertezas. Mas ela também funciona como uma ideia mais ampla, naquele cenário - o ano é 2075 e o mundo parece em direção a um colapso inevitável. Aliás, no universo habitado por Íris e seus familiares, as casas são equipadas com reforçadas e enormes redomas de vidro, que as protegem de queimadas, tornados e outras catástrofes climáticas. Um processo que chegou a um ponto de não retorno.

Mas a parte em que Íris surge na história dirigida por Ugo Bienvenu - e que é uma das indicadas ao Oscar na categoria Animação - é a segunda. Porque no começo de tudo estamos no ano de 2932, em um mundo em que a devastação climática fez com que a Terra ficasse alagada de forma permanente, com as residências sendo construídas sobre altas palafitas. Em cada habitação há toda uma energia de sustentabilidade, o que é reforçado pela ampla biodiversidade que rodeia cada casa - e não demora para que compreendamos os motivos desse ambiente ecologicamente favorável: às portas do terceiro milênio as viagens no tempo já são uma realidade, o que faz com que os pais do protagonista Arco (Oscar Tresanini), retornem ao passado sempre voltando com alguma variedade de planta a tiracolo, que será propagada após plantada. Sim, aparentemente o mundo aprendeu algum tipo de lição de que sem florestas, árvores, fotossíntese e todo o resto, não há vida.

 


Só que nem tudo são flores para Arco, que se ressente com uma medida de Governo que impede que crianças viajem no tempo - o que só é permitido a partir dos 12 anos. Insatisfeito, o menino resolve furtar a capa mágica de sua irmã, bem como o diamante de refração que permite a conclusão da jornada, na ideia de voltar ao tempo dos dinossauros (o garoto parece ser fã da turma do Jurassic Park). Só que, claro, as coisas saem errado e Arco acaba caindo justamente em 2075, sendo encontrado no meio do mato por Íris. A mesma que fará de tudo para proteger o visitante inesperado, principalmente de um trio meio maluquete de conspiradores - seus nomes são Dougie (Vicente Macaigna), Stewie (Luís Garrel) e Frankie (William Lebghil) - que querem capturar o menino de todas as formas, por acreditarem já terem visto aparições do tipo duas décadas antes. Desesperado, como se fosse um ET de Spielberg, Arco fará de tudo para tentar voltar para casa. Tendo como barreira o fato de ter perdido a sua pedra preciosa em meio à queda.

E como se as coisas não fossem excessivamente complicadas, Arco e Íris precisam lidar com outras preocupações - os pais da menina, por exemplo, nunca estão em casa (aparecem apenas como hologramas que trabalham, pelo visto, em escala 7x0). Já o carismático robô Mikki (o próprio Ugo Bienvenu), a despeito dos seus esforços em ser uma espécie de babá que é pau pra toda obra, acaba pifando em certa altura, o que atrairá a atenção de outros robôs. E tudo piora quando um enorme incêndio florestal se inicia, sendo que uma das únicas chances de Arco poder voltar envolve a possibilidade de um dia com sol e chuva ao mesmo tempo. Discutindo temas relacionados à importância das amizades, memória e infância a obra, que está em cartaz no cinemas, equilibra bem instantes singelos, divertidos, tensos e reflexivos. Nos fazendo pensar sobre futuro, especialmente no que diz respeito aos impactos da tecnologia e do clima para as próximas gerações.

Nota: 8,0

 

Pitaquinho Musical - Marta Del Grandi (Dream Life)

Vamos combinar que existem discos que soam tão pequenos, tão minimalistas, mas que parecem se expandir a cada nova audição, como se preenchessem todos os espaços. E é exatamente esse o sentimentos com Dream Life, o novo registro de inéditas da italiana Marta Del Grandi. De atmosfera simples, mas emocionalmente amplo, o álbum propositalmente gira em torno da ideia dos sonhos - mas não apenas evocando imagens oníricas, mas como uma metáfora para expectativas, memórias, desejos e a forma como nos relacionamos com o presente. A própria artista, em entrevistas, revelou que as coincidências e encontros que teve durante a concepção do registro, a levavam sempre de volta a esse contexto em que o real e o irreal, ou o concreto e o abstrato, se misturam. "As canções refletem isso, equilibrando momentos mais introspectivos e partes mais surreais e extravagantes", apontou a cantora.

 


 E um bom exemplo desse expediente pode ser percebido na evocativa 20 Days of Summer que, com seus efeitos eletrônicos minúsculos, refrão pegajoso e estilo vocal rarefeito soa ao mesmo tempo nostálgica, mas contemporânea, altamente pop e sensual, mas de tintas experimentais e econômicas - o que é reforçado pela letra de espírito transitório sobre expectativas, memórias e desejos (Como me perdi numa nuvem? / Vinte dias de verão é tudo o que me resta / Para continuar e tentar respirar). Em outras, como na magnética Shoe Shaped Cloud, o pano de fundo político se entrecruza com ideais de identidade, de consciência e de tempo presente, com a figura da nuvem funcionando como uma alegoria visual que se conecta com emoções e experiências internas (Há uma nuvem em forma de sapato / Bloqueia o céu acima de nós).

Nota: 8,5

segunda-feira, 2 de março de 2026

Novidades em Streaming - O Ônibus Perdido (The Lost Bus)

De: Paul Greengrass. Com Matthew McCounaghey e America Ferrera. Drama / Suspense, EUA, 2025, 129 minutos.

Praticamente duas horas ininterruptas de um ônibus cheio de crianças em idade escolar, tentando se livrar a qualquer custo de um incêndio de proporções devastadoras. Bom, digamos que se você é masoquista o suficiente, bem-vindo à O Ônibus Perdido (The Lost Bus), obra do diretor Paul Greengrass - de Relatos do Mundo (2020) - e que só dei play por causa da maratona Oscar 2026 (a produção tem uma única e merecida indicação na categoria Efeitos Visuais). Por que eu preciso dizer a vocês que, com mais de três décadas como fã de cinema e sem soar presunçoso, a gente meio que fica com o faro apurado na hora de detectar filme ruim. Sabe aquela coisa que hoje em dia a gente tem de identificar bolsonarista só de olhar pra estampa do sujeito? Pois é, é meio que uma habilidade desenvolvida e, vamos combinar que filme catástrofe talvez combinasse mais com meados dos anos 90. Ou talvez, vá lá, fosse melhor se não fosse tão focado no heroísmo do sujeito taciturno que resolve salvar o dia por conta própria.

E por mais que as queimadas - e as tempestades, as nevascas, os tornados e outros problemas climáticos - estejam se intensificando a cada ano, a gente não vai ver uma linha a mais sobre como o aquecimento global e as crises do setor podem ser decisivas a cada nova catástrofe. Ainda no começo do filme, enquanto o motorista de ônibus Kevin Mckay (Matthew McConaughey) leva as crianças em segurança para as suas casas - em meio a avisos sobre colocarem o cinto, não chegarem perto da janela ou não bagunçarem -, o rádio alerta para os mais de 210 dias sem chuvas no norte da Califórnia. Com a tendência de a situação se agravar nos próximos dias. Some-se a isso as instalações precárias das torres de transmissão da concessionária Pacific Gas & Eletric (PGE), que fornece luz e gás natural para a região, e tá feito o estrago. Uma fagulha que seja de um equipamento mal ajustado e o resultado pode ser fatal.

 


Aliás, como foi nesse caso - o evento ocorreu em novembro de 2018, destruindo 13.500 casas e deixando 85 mortos. Fora a devastação ambiental, com seus danos incalculáveis. Poderia ser este um filme de denúncia sobre o absurdo de deixar nas mãos de empresas preocupadas apenas com o lucro, o destino de milhares de pessoas? Poderia. Mas esse não é um projeto sobre a tragédia do capitalismo tardio e sobre como muita gente queimará meio que praticamente viva se práticas mais sustentáveis não forem adotadas meio que pra ontem - o que só piora com o governo Trump. Aqui, em meio a bandeiras estadunidenses que se espalham a cada gabinete ou fachada de prédio, e bombeiros com caras de poucos amigos sem saber muito bem que rumo tomar diante do caos, emerge o destemido Kevin, um ferrado que afundou em meio a decadência do sonho americano.

E como nesse tipo de projeto clichê pouco é bobagem é claro que o protagonista é aquele sujeito poucas ideias, que adia o conserto do próprio ônibus colocando todo mundo em risco, ao mesmo tempo em que precisa lidar com traumas pessoais como a superação do luto pela morte do pai, com quem ele não teve contato por mais de duas décadas, enquanto tenta se aproximar do filho, que não o tolera. Nesse contexto há ainda a mãe de Kevin, Sherry (Mary Kathlene McCabe), uma idosa dependente. Ah, ele é separado. E odeia seu emprego. Mas claro que, mesmo sendo alguém meio intragável, será ele o recrutado para salvar um grupo de alunos que está isolado em uma escola próxima a uma zona de evacuação de Paradise, aos cuidados da carismática professora Mary (America Ferrera). Ali pelos vinte e poucos minutos ele chega no local, recolhe todo mundo iniciando a interminável tentativa de escapada. Tudo em meio a embates de bastidores envolvendo burocratas sem graça alguma e o caos total no trânsito. E boa sorte pra quem aguentar o suplício até a conclusão.

Nota: 2,5

 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Curta Um Curta - Os Cantores (The Singers)

Ao assistir o curta metragem Os Cantores (The Singers), indicado ao Oscar em sua categoria neste ano e que está disponível na Netflix, fiquei com a sensação curiosa de estar diante de algo ao mesmo tempo simples, mas cheio de camadas. A obra, dirigida por Sam A. Davis a partir de texto escrito pelo russo Ivan Turguêniev, em 1850, parte de um recorte aparentemente modesto - o de vozes de trabalhadores cansados que se unem em um isolado boteco para uma disputa musical -, revelando aos poucos que cantar é muito mais do que alcançar a nota certa. É conexão, identidade e busca de permanência. Há uma delicadeza na forma como a câmera se aproxima dos personagens - esses sujeitos meio xucros, eventualmente incômodos -, quase pedindo licença, que contrasta com a potência emocional que explode quando a música finalmente ocupa o espaço.

 


O que mais chama a atenção é como o filme entende o silêncio tanto quanto entende o som. Entre uma apresentação e outra nessa espécie de competição improvisada, em meio a olhares concentrados e suspiros nervosos, está o verdadeiro coração da narrativa. Não se trata apenas de se expor publicamente, mas do que antecede esse gesto. E do que fica. Existe vulnerabilidade - e o curta não tenta polir isso. Pelo contrário: abraça as imperfeições como parte essencial da harmonia e da experiência coletiva. Se o curta com seus minúsculos 18 minutos de duração poderia mergulhar ainda mais fundo nas histórias individuais? Talvez. Fica aquela vontade de conhecer melhor cada trajetória, cada conflito íntimo. Ainda assim, Os Cantores funciona justamente por não exagerar na dose. É um filme que entende o poder da arte: vozes diferentes em disputa que, juntas, criam algo maior do que a soma das partes. Ficando aquela sensação boa de que, às vezes, a arte consegue organizar o caos do mundo nem que seja com uma boa canção. Vale conferir.

 

Cinema - Sirāt

De: Oliver Laxe. Com Sergi López e Bruno Nunez Ariona. Drama / Aventura, Espanha / França, 2025, 115 minutos.

Foi no clássico Assim Falou Zaratustra, que Nietzche sentenciou: "eu só poderia acreditar em um Deus que soubesse dançar". E, em alguma medida, as ideias subversivas de dança, de riso e de excesso parecem estar diretamente relacionadas à rave no deserto - um conceito que pode soar meio estranho se dissociado de algum ponto de reflexão -, vista ainda no começo de Sirāt, o enviado da Espanha para a categoria Filme Internacional no Oscar e que está em cartaz nas salas do País. Há algo de perturbador e hipnótico naquele universo em que somos inseridos, em que pessoas comuns movimentam o corpo freneticamente ao som de música eletrônica evocativa, que se repete como um mantra. "Não se escuta nada" lamenta alguém a certa altura, dada a altura elevada do barulho que sai das caixas de som. "Não é para escutar, é para dançar", retruca outra pessoa, enquanto um mundo meio apocalíptico se despedaça ao redor.

Em linhas gerais a obra dirigida por Oliver Laxe não é aquele projeto com começo, meio e fim bem desenhados ou que segue uma lógica de cartilha hollywoodiana. Em alguns fóruns online alguns espectadores ficaram descontentes com o tom excessivamente melancólico de saída de lugar nenhum para nenhum lugar. A ação como um todo se passa no Sul do Marrocos, no que parece ser a divisa com a Mauritânia. Um espaço em que tudo o que se enxerga é areia e poeira até onde a vista alcança. Enquanto um grupo de seres que parecem saídos de Mad Max movimenta o corpo como uma fuga alienante em um tempo de desesperança, Luis (Sergi López) procura desesperadamente a sua filha Mar, que teria se perdido (ou talvez até fugido) em uma dessas misteriosas raves do deserto. Ao lado do filho Esteban (Bruno Nunez Arjona) o homem faz uma investigação particular sem muito sucesso, mostrando fotos da garota, enquanto ouvem negativas sobre o paradeiro.

 


E como se tudo não fosse incômodo o suficiente, surge lá pelas tantas um grupo de militares que obriga a festa a parar - nenhuma surpresa quando se tratam dos maiores inimigos das artes ou da música, o que reforça a ideia da festa como uma forma de subverter a ordem dominante. De se libertar. Só que um grupo de jovens - seus nomes são Stef (Stefania Gadda), Jade (Jade Oukid), Tonin (Tonin Janvier), Bigui (Richard Bellamy) e Josh (Joshua Handerson) - consegue fugir do comboio militar, desviando a rota para tentar alcançar uma outra rave, em local ainda mais distante. O que faz com que as esperanças de Luis e Esteban se renovem. No rádio, uma série de transmissões fala sobre a iminência de uma Terceira Guerra Mundial, o que explicaria os conflitos armados, ao passo em que o coletivo tenta se apoiar em meio a um sem fim de percalços em sua cruzada pelo deserto, com a gasolina ficando escassa, veículos atolados e tragédias inimagináveis. 

Para além desse contexto de fluxo de vida em meio a conflitos há ainda um outro sentido, este relacionado ao título da obra, já que a palavra Sirāt significa caminho ou estrada. Aliás, mais do que isso, a via em que todas as almas devem atravessar no dia do Juízo Final. Se há aí uma explicação bíblica, divina ou religiosa que só será percebida conforme a narrativa avança - e certas barreiras são cruzadas - caberá a cada espectador interpretar. Não dá pra negar que, naquele estado de coisas todos ali parecem em um elo meio perdido entre a ruína e a salvação - o que é reforçado pelo fato de várias das pessoas que vemos terem braços e pernas amputados, ou outras deficiências que poderiam sugerir provações e mesmo a superação destas. Nada fica exatamente claro e esse é um projeto repleto de simbolismos ou alegorias sobre os nossos tempos. Sobre a busca por redenção. O que aqui envolve superar limites imprevisíveis do ponto de vista geográfico, em um tipo de purgatório particular que leva ao extremo o conceito de civilização como o conhecemos.

Nota: 8,5 

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Picanha.doc - Embaixo da Luz Neon (Come See Me in the Good Light)

De: Ryan White. Com Andrea Gibson e Megan Falley. Documentário, EUA, 2025, 105 minutos

"Pessoas que dizem não entender poesia talvez nunca tenham tido que dar uma notícia devastadora a alguém que amam". É quase no final do documentário Embaixo da Luz Neon (Come See Me in the Good Light), que a poeta e ativista Andrea Gibson lê um trecho do comovente Guardian Angel Fish, poema de onde se extrai o fragmento acima. Ao cabo, trata-se de um momento de vulnerabilidade e até de tentativa de suavizar a sua própria condição já que, com um câncer terminal, aquela provavelmente será sua última apresentação a um grande público. Aliás, plateia que lhe admira não apenas pela crueza e pela franqueza de sua arte, mas também pela simplicidade de seus versos - sempre diretos, descomplicados, mundanos. "A minha ideia sempre foi fazer poesia em que as pessoas não precisariam de diploma para compreender", reflete Andrea em outro ponto. O que ela alcança sem dificuldade, dada a onipresença de seu público.

Em uma obra sobre uma pessoa que recebe uma sentença de morte e precisa meio que lidar com a situação, são meio que inevitáveis alguns clichês do gênero - como no caso das seguidas idas ao hospital para a discussão de possíveis tratamentos, efeitos colaterais dilacerantes e até o exame existencial da própria existência. Mas nada disso compromete a apreciação do projeto do diretor Ryan White - de Boa Noite, Oppy (2022) -, que está indicado ao Oscar na categoria Documentário. O que se tem aqui é uma experiência dolorida, mas também um elogio ao poder das artes, da potência de existir e da importância do cuidado e do amor, o que é simbolizado, aqui, pela onipresença da também poeta e professora Megan Falley, sua namorada e companheira de vida. Pessoa que, por sinal, jamais a abandona mesmo que, em flashbacks, Andrea tenha aberto essa possibilidade à parceira.

 


Na trama, imagens antigas mostram como Andrea se tornaria uma espécie de celebridade da poesia - um tipo de James Dean Gay (dada a sua beleza e força no meio) -, a forma como ela e Megan se conhecem e como a descoberta do câncer, em meio à pandemia, transforma a vida de ambas. E, por mais pesado que o filme, que está disponível na Apple TV, possa parecer em meio à discussões sobre memória, finitude e luto, não são poucos os instantes em que o casal central trata a situação com deboche, como no momento em que Megan comenta com uma amiga que "daria uma dedada tão profunda em Andrea, que arrancaria o câncer naquela noite", gerando gargalhadas durante um jantar. "E vou fazer isso ao mesmo tempo em que rezo", brinca, de forma provocativa, trazendo a presença (ou ausência) de Deus para o debate, em uma espécie de ironia que alude a luta por sobrevivência de qualquer forma.

Entrecortado por várias das poesias de Andrea - como as famosas Tinture, The Little Things, Boomerang Valentine e Your Life (este último sobre a descoberta da sexualidade e de como foi a vivência queer em uma pequena e conservadora cidade dos Estados Unidos) -, o documentário é absurdamente naturalista ao mostrar a relação de ambas com seus amigos e familiares, de forma honesta, sem nunca soar condescendente. Claro que em um filme sobre uma pessoa tão relevante em seu meio e que sofre um grande impacto não apenas pela severa doença - um câncer no ovário que se alastra de forma dilacerante -, mas também pelos preconceitos sofridos desde jovem, há uma tendência maior ao elogio ou a exaltação das virtudes. O que talvez se explique pela ausência de grandes polêmicas em sua vida particular para além das óbvias questões de gênero e políticas. Para quem está fazendo o check list de filmes para o Oscar, vale conferir.