quinta-feira, 19 de março de 2026

Picanha.doc - Alabama: Presos do Sistema (The Alabama Solution)

De: Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman. Com Melvin Ray e Robert Council. Documentário, EUA, 2025, 114 minutos.

Vamos combinar que a gente tende a pensar que os problemas do sistema prisional - superpopulação, condições insalubres e violação de direitos humanos, só pra ficar em alguns exemplos -, são exclusividade do Brasil. Mas basta assistir a um documentário impactante como Alabama: Presos do Sistema (The Alabama Solution), que está disponível na HBO Max, para percebermos que isso também ocorre em países como os Estados Unidos. Aliás, se o sistema judiciário da terra do Tio Sam já costuma ser pra lá de questionável em qualquer circunstância, tudo tende a ser muito pior quando se tem um presidente que navega na antessala do fascismo - e teríamos de ser muito ingênuos pra acreditar que uma coisa não influencia a outra. Enfim, a obra dos cineastas Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman, e que foi uma das indicadas ao Oscar em sua categoria, é revoltante em muitas medidas.

Por que, vamos ser honestos, como é possível pensar em ressocialização de encarcerados se os presos permanecem em celas lotadas - com o dobro da capacidade ocupada -, sem qualquer tipo de higiene mínima que seja (com ratos, baratas e outros bichos espalhados), convivendo ainda com mofo, umidade, calor e outras condições precárias? Isso sem falar na falta de atendimento de saúde ou mesmo de agentes capacitados para a gestão das prisões. E que não desejem simplesmente assassinar presos por motivos fúteis, como no absurdo caso da morte de Steven Davis, que foi espancado até vir a óbito - e uma boa parte da trama é centrada nesse caso (que é só mais um entre tantos, em que a violência estatal surge como alternativa de contenção). E tudo que a mãe de Davis, Sandy, tem, é uma foto do filho desfigurado e muita vontade de obter algum tipo de justiça.

 


Em linhas gerais, o que o filme nos sugere é que há um problema meio generalizado no sistema carcerário estadunidense, que parece ser ainda mais grave no Sul dos Estados Unidos, onde costuma residir aquele tipo de cidadão de bem médio, o redneck de arma em punho que acredita que "bandido bom é bandido morto". Aliás, não é difícil imaginar essa parcela da população, sempre com a Bíblia a tiracolo, absolutamente indignada por esse desejo de dignidade, mínima que seja, para quem desviou da rota e veio a cometer algo ilícito. O punitivismo, aqui e ali, também aparece no cerne da narrativa - especialmente quando um grupo de presos começa a estudar e a ganhar força de forma coletiva, com o surgimento de movimentos como o Alabama Livre, que lutava por melhores condições nos presídios, além de remuneração de presos por trabalho prisional, possibilidade de revisão de sentenças, especialmente as mais longas, e diminuição sistemática da violência.

Claro que, em uma situação como a vista no documentário, é fácil saber qual a ponta mais fraca da equação - tanto que a ideia para a obra surge quando a dupla de diretores vai a um dos presídios para filmar um evento supostamente festivo e passa a achar estranho o comportamento taciturno dos presos que, por medo de retaliações, fazem revelações escabrosas sobre abusos e falhas do sistema. E nada do que vemos no filme seria possível se não fossem os celulares contrabandeados, que circulam nas celas, permitindo àqueles homens apresentarem o seu lado de uma narrativa que, quase sempre, só ouve a outra parte. Dando destaque a outros presos que também integraram o movimento Alabama Livre, que resultou em greves e paralisações que chamaram a atenção da opinião pública no País, como Robert Council e Melvin Ray, a produção ainda evidencia outras complexidades de um sistema corroído, com dificuldades para acessar advogados, para julgamentos mais justos ou mesmo para a liberdade de pensamento. "Vá para a Igreja ou o diabo te pega" aponta uma placa nada singela nas ruas floridas e meio insólitas do Alabama. Só que o inferno aqui, vem com derramamento de sangue, torturas psicológicas e dificuldade de manter a sanidade. É quase intragável. 

 

quarta-feira, 18 de março de 2026

Novidades em Streaming - Elio (Elio)

De: Adrian Molina, Domee Shi e Madeline Sharafian. Yonas Kibreab, Brad Garrett, Remy Edgelry e Zoe Saldaña. Animação / Aventura / Ficção científica, EUA, 2025, 99 minutos.

Muito se fala de um certo desgaste da Pixar, tanto que filmes como Elio (Elio), que foi um dos indicados ao Oscar na categoria Animação, sequer foram muito comentados. E vamos combinar que a história batida de menino órfão que sonha em ser astronauta - um tipo de trama que parece meio deslocada no tempo -, não ajuda muito. Com a narrativa edificante sobre amadurecimento e superação de dificuldades em um contexto de traumas e perdas familiares, sendo daquelas de arrancar bocejos até das crianças. Com tudo piorando se somada a completa falta de carisma das personagens, a começar pelo protagonista bastante esquecível (um menininho comum que é meio deslumbrado pelo espaço, a ponto de construir uma engenhoca meio que implorando por uma abdução alienígena). O que ele faz deitado na praia, dia após dia, até ser acossado por uma dupla de valentões que mexe em seu rádio amador.

Depois de uma briga e de um olho roxo, Elio (Yonas Kibreab) consegue se infiltrar no local de trabalho de sua tia, Olga (Zoe Saldaña) - responsável por sua guarda -, que, convenientemente, é uma major da Força Aérea que precisa lidar com um teórico da conspiração de sua equipe, que afirma finalmente ter obtido alguma resposta à famosa Missão Voyager - programa da Nasa iniciado nos anos 70. Claro, ninguém acredita na balela do tal Gunther Melmac (Brendan Hunt), mas essa se torna a deixa perfeita para que Elio invada os computadores pra tentar um contato improvisado com os alienígenas, o que gera uma queda de luz que quase custa o emprego de Olga. A solução? Enviar o menino para um acampamento, local em que ele reencontra os valentões. Depois de mais alguns rebus o protagonista é, enfim, abduzido (pra alegria dele), ao mesmo tempo em que Olga recebe estranhas mensagens interplanetárias.

 

 


A segunda parte da história também tem aquela carinha de mais do mesmo, mas em tempos tão brutos como os que vivemos - de avanço da extrema direita e de políticas de ataque à minorias (especialmente os imigrantes) -, não deixa de ser interessante uma narrativa que lembra a importância de unir forças diante de um mal maior. Quando finalmente chega ao seu destino, Elio é recebido em um local conhecido como Comuniverso, onde alienígenas das mais variadas partes do mundo compartilham seus saberes (um local pautado pela generosidade e pelo pensar coletivo). Bom, isso até a chegada de um certo Lorde Grigon (Brad Garrett), uma espécie de senhor da guerra do planeta Hylurg que, rejeitado anteriormente pelo Comuniverso, pretende tomar o local a força. Promovendo uma guerra e escravizando o povo dali. Isso até a entrada de Elio na história, que pretende ser nomeado embaixador da Terra, após negociar com Grigon.

Em linhas gerais dá pra se dizer que, ok, é um filme que não doi. Ele avança meio que naquela lógica do enfrentamento a um vilão em que a ajuda mútua será fundamental - com esses ideais sendo reforçados no momento em que Elio conhece Glordon (Remy Edgelry), uma espécie de minhoca amistosa e repulsiva, com quem o pequeno faz amizade justamente quando tenta fugir da prisão perpetrada pelo grande vilão. Glordon é o filho de Grigon e passa a ser moeda de troca para o monstrengo deixe o Comuniverso em paz. Ao mesmo tempo, a carismática Ooooo (Shirley Henderson), um supercomputador gelatinoso e líquido e talvez a única figura realmente marcante, envia para a Terra um clone de Elio, para que Olga não se preocupe. E, claro, muita coisa dá errada no meio do caminho até que as peças se encaixem, as amizades se fortaleçam e a redenção de todos ocorra. Se isso ainda tem algum valor em 2026 é difícil saber já que pouca gente deu bola pra animação, que tá disponível na Disney+.

Nota: 6,0

 

segunda-feira, 16 de março de 2026

10 Considerações Sobre a Cerimônia do Oscar 2026

Finalmente o Oscar aconteceu e passamos a régua oficialmente na temporada de premiações - e, aqui, algumas considerações sobre a cerimônia ocorrida na noite de ontem.

 


1) Bom, antes de mais nada parece até papo de perdedor o fato de termos tido quatro indicações (ou cinco, se somarmos o fotógrafo Adolpho Veloso por Sonhos de Trem), mas o caso é que a grande maioria das projeções indicava meio que exatamente o que aconteceu. Em nenhuma das categorias éramos, de fato, favoritos, por mais que mantivéssemos a torcida e o sonho de pé, Timothée Chalamet perdeu espaço, mas o Michael B. Jordan tinha crescido na reta final. Valor Sentimental nunca deixou de estar um passo a frente com suas nove indicações e uma campanha sólida para conceder o primeiro Oscar da história à Noruega. Sobre o elenco, o nosso é lindo e talvez merecesse o reconhecimento. Mas vocês acham mesmo que na primeira vez na história o prêmio iria para algum filme que não fosse de Hollywood? No mais, valeu a festa, a torcida e, principalmente, a visibilidade para o nosso cinema, que alcança muitos públicos, se consolidando como um polo forte de cinema, como sempre fomos na verdade. Ah, e não dá pra esquecer que temos o molho. E quem tem o molho NUNCA PERDE!

2) Não sei se vocês ficaram com essa impressão, mas por mais que estivéssemos torcendo alucinadamente por O Agente Secreto, me pareceu como um todo uma cerimônia meio morna do ponto de vista do impacto mesmo. Por gosto pessoal, não acho que o Conan tenha a acidez na medida certa de um Jimmy Kimmel - tanto que, quando ele entrou no palco, fez uma das melhores piadas da noite. Não é que precisasse ser um show de fundo político, mas os Estados Unidos vive meio que um caos permanente desde a entrada do laranjão para o segundo governo e, onde estavam os nossos astros protestando? Tirando uma onda? Batendo de frente? Sim, sei que teve brochezinho fuck ICE e, aqui e ali, alguma piada sobre, mas eu achei foi pouco. Menos mal que os vencedores de categorias menores fizeram o trabalho de lembrar que uma premiação com tanta visibilidade, também é oportunidade para colocar o dedo na ferida.

3) Também foi uma cerimônia meio que sem grandes surpresas. Nas categorias de atuação, por exemplo, as bolsas de apostas meio que acertaram a respeito dos vencedores. O mesmo valendo para roteiro, direção, filme em língua estrangeira, animação e diversas técnicas. Nesse sentido, os bolões podem ter sido meio sem emoção, já que todo mundo votou meio igual. Pra não dizer que foi tudo previsível, a vitória de Mr. Nobody Against Putin em Documentário não era esperada. Ainda que essa seja uma das categorias mais estranhas do planeta, com ausências inacreditáveis e vitórias historicamente improváveis.

4) Ainda sobre as categorias de atuação, entre os bons momentos da noite acho que dá pra incluir a vitória da carismática Amy Madigan, por A Hora do Mal. Eu até não morro de amores por esse filme, mas é sempre legal quando uma obra meio que quebra a lógica e vai ganhando força no transcorrer da temporada - desbancando outras que teriam mais força ou mais apelo. Ok, ela parecia meio atrapalhadinha na hora dos agradecimentos, mas ficou a impressão de que a própria Academia deu a ela um tempinho a mais pra se organizar nas falas.

5) Ponto altíssimo da noite, a apresentação da canção I Lied to You, de Pecadores, com todo o aparato musical de uma grande apresentação. O filme de Ryan Coogler, aliás, venceu quatro estatuetas, contra seis de Uma Batalha Após a Outra, que pode ser considerado o grande campeão da noite.

6) Sinceramente, uma coisa que não simpatizo muito na premiação, é essa coisa de que tudo meio que tem de virar um teaser, um produto ou uma propaganda para algo que está por vir. É Anna Wintour no palco pra lembrar o público sobre O Diabo Veste Prada, é os atores da Marvel fazendo teatrinho sem graça, aludindo aos filmes ainda mais sem graça. Eu sei que tudo ali não passa de um negócio, no fundo, mas acho que seria mais orgânico sem esse tipo de coisa. Já as piadinhas sobre uso de IA e outras tecnologias, especialmente aquela parte em que houve um deboche com as irritantes interrupções do Youtube, que deve transmitir a premiação a partir do ano que vem (ou isso também era piada?), gostei demais!

7) Todo o mundo falou dos esquecimentos bizarros do In Memorian, mas verdade seja dita: a forma como essa parte transcorreu desta vez foi bem bonita, com ex-companheiros lembrando de algumas personalidades que se se foram (sendo o destaque os 17 atores que trabalharam com Rob Reiner). Aliás, foi um ano de perdas de grandes astros, como Catherine O'Hara e Robert Redford, então é justo que essa parte tenha sido mais "engordada". 

8) Importantíssimo momento da noite: a vitória de Autumn Arkapaw, que se tornou a primeira mulher negra a vencer o Oscar na categoria Fotografia (e foi comovente ver ela pedindo para as mulheres da sala se levantarem). Seu discurso foi poderoso, assim como o de outras vencedoras, como Jessie Buckley.  

9) Continua sendo absolutamente estranho o hábito da Academia de subir o som para que as pessoas se retirem do palco em meio aos discursos, especialmente nas categorias menores. Foi constrangedor o que rolou com a galera de Two People Exchanging Saliva, que praticamente foi expulsa do palco à força. 

10) O lance de um novo meme do DiCaprio? Ok, legalzinho. Que é o saldo dessa premiação. Apenas legalzinha. E ano que vem tem mais! 

sexta-feira, 13 de março de 2026

Quem Ganha o Oscar 2026?

Verdade seja dita que a safra não parece estar das melhores, com muitos filmes apenas médios na disputa das estatuetas do Oscar 2026 e um favoritismo meio generalizado para Uma Batalha Após a Outra e Pecadores nas categorias centrais. Como brasileiros, inevitavelmente o nosso foco estará nas categorias em que O Agente Secreto está indicado - ainda que muitos dos nossos especialistas estejam pouco otimistas em relação a alguma vitória. Por mais que uma coisa seja as previsões e as premiações prévias e a outra seja a vida real - e não dá pra negar que a nossa campanha, capitaneada por Kléber Mendonça Filho e Wagner Moura foi um show de carisma. No mais, consegui assistir a grande maioria das obras indicadas desse ano, o que permite aquela análise racional, sem ignorar o coração, já que uma coisa é jogar no bolão e outra é apontar aquele que amamos de verdade. Enfim, o Oscar é domingo, a Globo mudou toda a grande de programação para a exibir a maior premiação do cinema, e o TNT e a HBO Max também transmitem, como de costume (fora as tantas lives País afora envolvendo influenciadores e entendidos da área). Enfim, será uma experiência legal e estaremos atentos.

 


 

 

FILME

Uma Batalha Após a Outra passou o rodo nas premiações prévias, levando inclusive as prestigiadíssimas estatuetas do PGA (Produtores), do DGA (Diretores), do WGA (Roteiro Adaptado) e do ACE (Editores em Comédia) - o que o coloca como amplo favorito. Só que de uns dias pra cá teve início um burburinho sobre uma possível virada de Pecadores pra cima da obra de Paul Thomas Anderson, o que é reforçado pelas conquistas no SAG (Atores), no WGA (Roteiro Original) e no Bafta (Roteiro Original) e o ACE (Editores em Drama). Ainda assim, o peso de uma possível vitória pende pro lado de Uma Batalha..., já que outras conquistas, como o Critics Choice e o Bafta - ambas na categoria central - reforçam essa tese. Eu queria poder dizer que O Agente Secreto tem chance? Queria. Mas é um sonho bem distante e se configuraria como uma zebra histórica. Ainda que no Gold Derby sejamos o quarto colocado entre os possíveis favoritos (vai Brasil!).

Ganha: Uma Batalha Após a Outra

Na torcida: O Agente Secreto (mas vou adoras se Pecadores faturar) 

 

DIRETOR

Nessa categoria quase dá pra cravar, sem medo de errar, que finalmente chegou a vez de Paul Thomas Anderson vencer - e as prévias, especialmente com a conquista no DGA, reforçam essa tese. O fato de Uma Batalha Após a Outra ter força como um todo nas premiações anteriores também contribui para essa percepção. O único que poderia desbancar Anderson seria Ryan Coogler, de Pecadores, mas no Gold Derby há uma percepção de que isso dificilmente vai ocorrer. Em termos de torcida eu estaria com o segundo, até porque os demais indicados não me empolgam.

Ganha: Paul Thomas Anderson, por Uma Batalha Após a Outra

Na torcida: Ryan Coogler, por Pecadores 

 

ATOR

Até umas duas semanas atrás, tudo indicava que o Timothée Chalamet iria levar a estatueta pelo seu papel no insosso Marty Supreme - o que era reforçado pelas vitórias no Critics Choice, no Globo de Ouro e em outras prévias. Mas aí o Michael B. Jordan venceu o SAG, surpreendendo geral. E o Chalamet foi cancelado após falar merda. Será que vem aí uma virada histórica? No nosso caso, evidentemente estamos torcendo pelo Wagner Moura, o que é considerado uma zebra, por mais que algumas publicações estrangeiras apontem para essa possibilidade - e o Globo de Ouro em Drama, verdade seja dita, nos deixou cheios de esperança. Talvez o sistema de votação possa auxiliar no sonho - lembrando que os votantes escolhem do quinto ao primeiro os seus preferidos, sendo feita uma média. Mas até lá é só um sonho mesmo. Meio distante.

Ganha:  Michael B. Jordan por Pecadores

Na torcida: Wagner Moura, por O Agente Secreto 

 

ATRIZ 

Aqui parece estar uma das barbadas da noite em matéria de bolão, já que a Jessie Buckley com cara de choro em modo permanente em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, passou o rodo nas prévias, com vitórias no SAG, no Bafta, no Critics e em outras premiações importante. Como eu sou um Emma Stoner de carteirinha, a minha torcida secreta é por ela e por seu ótimo papel no subestimado Bugonia. Mas é só pra brincar de torcer mesmo, já que a única que poderia desbancar Buckley seria a Rose Byrne por sua caracterização no ótimo Se Eu Tivesse Pernas Te Chutaria.

Ganha: Jessie Buckley, por Hamnet

Na torcida: Emma Stone, por Bugonia 

 

ATOR COADJUVANTE

Nessa categoria ao que tudo indica a estatueta vai pro Sean Penn por Uma Batalha Após a Outra porque, inclusive, é merecido, já que ele está absolutamente irritante e nojento como um oficial de tendências fascistas (e misóginas). Aliás, o ator rapou as premiações prévias vencendo o SAG, o Bafta, o Globo de Ouro e outras. Claro que nesse bolo todo poooode pesar um componente afetivo em favor do Stelan Skarsgard por Valor Sentimental, já que o veterano, além de ter mais de cinquenta anos de carreira, ainda fez um grande esforço de interpretação devido aos problemas de saúde. Seria uma zebrinha mas nem tanto. E correndo por fora ainda tem o Jacob Elordi, por Frankenstein, que faturou o Critics da categoria.

Ganha: Sean Penn, por Uma Batalha Após a Outra

Na torcida: Sean Penn, por Uma Batalha Após a Outra

 

ATRIZ COADJUVANTE

Aparentemente o mundo comprou a ideia de que a Amy Madigan merece a estatueta pelo excêntrico papel no mediano A Hora do Mal. Vá lá, o cinema de terror quase nunca é prestigiado, então seria uma forma de valorizar o gênero. As prévias, com as vitórias no SAG e no Critics dão certo favoritismo. Ainda que Wunni Mosaku tenha embaralhado um pouco a bolsa de apostas ao faturar o Bafta. E tem ainda a Teyana Taylor, que conquistou o Globo de Ouro correndo por fora e aposta na força de Uma Batalha Após a Outra pra tentar uma ultrapassagem na reta final. Em resumo, categoria que tem uma favorita, mas nada definido (o que dificulta o bolão).

Ganha: Amy Madigan, por A Hora do Mal

Na torcida: Teyana Taylor, por Uma Batalha Após a Outra

 

ROTEIRO ADAPTADO

Aqui não parece haver dúvida de que é Uma Batalha Após a Outra na cabeça, ate mesmo por ter faturado praticamente todas as prévias relevantes, incluindo aí o WGA (Roteiristas), o Bafta e o Critics. E o próprio favoritismo à categoria central ajuda a fortalecer essa ideia, já que, em muitos casos, o vencedor em Roteiro, costuma chegar com força para as cabeças. Hamnet corre por fora, mas parece já saber que perdeu com umas doze rodadas de antecipação. A minha torcida? Bugonia, óbvio!

Ganha: Uma Batalha Após a Outra

Na torcida: Bugonia 

 

ROTEIRO ORIGINAL

Vale a mesma lógica do Adaptado aqui, já que Pecadores fez a limpa nas prévias, levando WGA, Bafta, Critics e Globo de Ouro, entre outras premiações. No Gold Derby a percepção de chance de vitória é de quase 97%, então, podem ir sem erro no bolão. E como amo esse filme, vou adorar apreciar essa vitória.

Ganha: Pecadores

Na torcida: Pecadores 

 

ANIMAÇÃO

Aqui temos uma das maiores barbadas da noite, já que o ótimo Guerreiras do KPop chega com tudo, com vitórias nas prévias - como o Annie (Animação, que costuma ser um ótimo termômetro pra categoria), o Critics e o Globo de Ouro -, além de fortíssima campanha da Netflix. E isso sem falar no carinho do público, que simplesmente amou a produção. No Annie, aliás, a obra fez história ao faturar inacreditáveis dez estatuetas. Resumidamente, só um maluco pra não apostar nas meninas no bolão!

Ganha: Guerreiras do KPop

Na torcida: Guerreiras do KPop 

 

FILME INTERNACIONAL

Sim, a gente está obcecado e sonhando com a vitória de O Agente Secreto, mas, de forma racional, é preciso estarmos preparados pra uma eventual derrota, já que Valor Sentimental chega com mais força à reta final (sensação ampliada pelas outras indicações, como em categorias de atuação, por exemplo, além de conquistas no circuito europeu, como os prêmios no Gran Prix e no Júri Ecumênico de Cannes, e a vitória no Bafta). Ainda assim, não custa sonhar: O Globo de Ouro e o Critics ampliaram a visibilidade e a Academia parece já estar sabendo que não existe nada como o carinho da torcida brasileira - pro bem ou pro mal. Então, bora!

Ganha: O Agente Secreto (aqui foi difícil não votar com o coração)

Na torcida: O Agente Secreto

 

DOCUMENTÁRIO 

Mr. Nobody Against Putin até venceu o Bafta da categoria, o que poderia dar uma embaralhada na disputa já que, A Vizinha Perfeita, com toda a campanha e o aparato da Netflix por trás chega como franco favorito, o que inclui a vitória no Critics. No bolão, a disputa não deve fugir desses dois. Já o meu preferido na categoria - Alabama: Presos do Sistema - deve se contentar com o burburinho provocado pela exibição na HBO Max.

Ganha: A Vizinha Perfeita

Na torcida: Alabama: Presos do Sistema 

 

DIREÇÃO DE ELENCO

A categoria é novidade no Oscar, mas uma tradição em outras premiações, como o SAG e o Critics, com ambos tendo sido vencidos por Pecadores, o que o coloca como o favorito. Qualquer coisa diferente disso vai ser surpresa - inclusive a vitória de O Agente Secreto (e, nesse caso, só a indicação já pode ser considerada uma vitória). 

Ganha: Pecadores

Na torcida: O Agente Secreto

 

FOTOGRAFIA

Nessa categoria, o indicativo mais confiável de vitória costuma vir do prêmio ASC (Cinematografia) que, neste ano, concedeu a distinção à Uma Batalha Após a Outra, o que talvez o coloque à frente na corrida - ainda mais se incluirmos outras prévias importantes, como o Bafta, Correndo por fora, Pecadores conta com a primeira indicação para uma mulher negra na categoria (e apenas a quarta mulher na história), com a Autumn Durald Arkapaw. Sobre o brasileiro Adolpho Veloso por Sonhos de Trem, não custa sonhar: ele faturou o Bafta da categoria e pode ser uma boa surpresa (estamos na torcida!).

Ganha: Uma Batalha Após a Outra

Na torcida: Sonhos de Trem 

 

FIGURINO

Por ter vencido o CDG, um dos melhores termômetros para a categoria, Frankenstein larga na frente - e verdade seja dita, se tem algo realmente bom na produção de Guillermo Del Toro é o aparato técnico. O CDG, é preciso que se diga, se divide em duas distinções centrais - filmes de Época e Contemporâneo - tendo Uma Batalha Após a Outra faturado a segunda. Só que Frankenstein também ganhou o Critics e o Bafta e aí ele parece mesmo com o caminho pavimentado para a estatueta.

Ganha: Frankenstein

Na torcida: Pecadores 

 

EDIÇÃO

Aqui um bom termômetro costuma ser o ACE Eddie Awards que concedeu às estatuetas na prévias para Pecadores (Drama) e Uma Batalha Após a Outra (Comédia ou Musical), tendo este último vencido também o Bafta. Já o frenético F1: O Filme faturou o Critics, o que também o coloca como um bom competidor (e é um filme que também se vale muito do aparato técnico). Aliás, como uma das categorias que abre a noite ela pode servir para pavimentar o caminho do que virá pela frente, durante a premiação.

Ganha: Uma Batalha Após a Outra

Na torcida: Pecadores 

 

MAQUIAGEM E PENTEADO.

Frankenstein venceu o Bafta e o Critics e deve ser o grande ganhador da categoria levadas em conta as prévias. E até onde entendi, o Jacob Elordi ficava dez horas na cadeira de maquiagem até ficar apto a interpretar a criatura (nem tão) grotesca. Se for levado em conta esse combo, tá mais do que merecido. E o filme nem é a bomba que as pessoas estão dizendo ser.

Ganha: Frankenstein

Na torcida: A Meia-Irmã Feia (porque adorei esse filme) 

 

DESENHO DE PRODUÇÃO

Aparentemente Frankenstein deve passar o rodo em certas categorias técnicas, o que inclui a vitória em Desenho de Produção. A conquista do prêmio específico do setor (o ADG) na categoria Fantasia, nas prévias, somadas às estatuetas no Critics e no Bafta reforçam essa como uma escolha certeira. Uma Batalha Após a Outra até faturou o ADG em Filme de Época, mas deve ficar pelo caminho. E minha torcida, como não poderia deixar de ser, vai pra Pecadores.

Ganha: Frankenstein

Na torcida: Pecadores 

 

TRILHA SONORA

No Bafta e no Critics deu Pecadores e, levando-se em conta estas e outras prévias, o filme de Ryan Coogler deve vencer a categoria. Aliás, o compositor Ludwig Göransson já venceu anteriormente por Pantera Negra e Oppenheimer, o que também é uma ótima credencial. Ah, e tem uma coisa meio bizarra sobre essa categoria: das últimas 26 edições do Oscar, em 23 quem a venceu, faturou também Melhor Filme. É aguardar!

Ganha: Pecadores

Na torcida: Pecadores 

 

SOM

F1: O Filme faturou o Critics e o Bafta, além de ter ganhado o CAS (Cinema Audio Society). E os especialistas costumam lembrar que esses filmes barulhentos, e que necessitam uma engenharia a mais no setor, sempre saltam na frente. 

Ganha: F1: O Filme

Na torcida: Pecadores

 

EFEITOS VISUAIS

O prêmio de consolação para Avatar: Fogo e Cinzas deve vir nesta categoria, o que é reforçado pelas vitórias no Bafta e no Critics - com o favoritismo ampliado pelo VES Awards. Qualquer coisa diferente disso é meio que uma zebra.

Ganha: Avatar: Fogo e Cinzas

Na torcida: Pecadores 

 

CURTA ANIMAÇÃO

Nas categorias que costumam desempatar bolão é tudo meio imprevisível, ainda que o belíssimo Butterfly pareça estar um passo à frente não apenas pela temática - sobre um nadador que enfrenta o nazismo -, mas também pelo tipo de animação, que mais parece uma pintura que sai da tela. Particularmente o meu preferido é o tocante The Girl Who Cried Pearls que, se for direto ao coração dos votantes, deve ser o vencedor.

Ganha: Butterfly

Na torcida: The Girl Who Cried Pearls 

 

CANÇÃO ORIGINAL

Pelo visto não tem pra ninguém e vai dar Golden, o megahit de Guerreiras do KPop - especialmente após passarem o rodo nas prévias. E, verdade seja dita, eu posso até amar Pecadores, mas essa música é tão grudenta quanto imbatível.

Ganha: Golden, de Guerreiras do KPop

Na torcida: Golden, de Guerreiras do KPop 

 

CURTA DOCUMENTÁRIO

Esse tipo de categoria é outra que costuma pegar o votante pelo impacto e é meio difícil ficar alheio ao poder de All the Empty Rooms (sobre os quartos agora vazios, de crianças assassinadas em escolas dos Estados Unidos). É algo de forte impacto emocional. O meu preferido, ainda assim, é The Devil Is Busy, que fiz até uma pequena resenha abaixo.

Ganha: All the Empty Rooms

Na torcida: The Devil Is Busy 

 

CURTA LIVE ACTION

Nesse ano consegui assistir quatro dos cinco indicados e devo confessar a vocês que amei todos - desde o deboche de Jane Austen's Period Drama, até a tensão provocada por Two People Exchanging Saliva. The Singers tem o aparato da Natflix por trás, ao passo que A Friend os Dorothy é o mais tocante. Quem leva? Arremessa pra cima e sorteia um!

Ganha: Two People Exchanging Saliva

Na torcida: Jane Austen's Period Drama

 

E que venha o Oscar! 

 

quarta-feira, 11 de março de 2026

Curta Um Curta - Duas Pessoas Trocando Saliva (Deux Personnes Échangeant de la Salive)

De: Alexandre Singh e Natalie Musteata. Com Zar Amir Ebrahimi, Luàna Bajrami e Aurélie Boquien. Drama / Ficção Científica, França / EUA, 2024, 36 minutos.

Em um mundo cada vez mais frio e individualista e sobretudo pautado pelo consumo e pelo capital, o curta metragem francês indicado ao Oscar Duas Pessoas Trocando Saliva (Deux Personnes Échangeant de la Salive) imagina um cenário em que beijar na boca é considerado um crime em que a punição é a morte. Um ato subversivo, a ponto de as pessoas mastigarem alho deliberadamente como forma de afastar qualquer fagulha que seja de desejo. Escovas e mesmo as pastas de dente são adquiridas no mercado negro, com contrabandistas, que é exatamente o que a protagonista Malaise (Luàna Bajrami) faz depois de começar a trabalhar em uma chiquérrima loja de departamentos, onde passa a atender a elegante Angine (Zar Amir Ebrahimi), com quem faz uma curiosa amizade. Aliás, mais do que amizade, uma paixão que, nesse contexto distópico, jamais poderá se concretizar. Mais ainda aos olhos do público.

 


E tudo piora com o fato da ressentida Pétulante (Aurélie Boquien) ficar extremamente enciumada com a aproximação entre as duas mulheres. Angine, afinal, era sua cliente cativa e o fato de ser simplesmente trocada pela jovem a deixa devastada. Com a oportunidade de vingança surgindo após esta ouvir Malaise escovando os dentes no banheiro da loja. Filmado em um vigoroso preto e branco, o curta trágico mas envolvente parece simples em sua temática, sendo profundo no exame da repressão à intimidade como uma das ferramentas centrais de regimes autoritários. Com o domínio do corpo e, consequentemente, do desejo, se convertendo em forma de punição. Ainda mais quando o assunto são os casais homoafetivos ou que fujam do padrão esperado na sociedade regida pelo "cidadão de bem". Enfim, uma experiência potente em que os tapas dão lugar aos beijos, em um universo de conservadorismo atroz. 

 

Novidades em Streaming - Coração de Lutador (The Smashing Machine)

De: Benny Safdie. Com Dwayne Johnson, Emily Blunt e Mark Coleman. Drama / Biografia, EUA, 2025, 123 minutos. 

"Você perdeu uma luta, grande coisa, supera!". É em um momento de puro desespero diante do marido - uma montanha de músculos de 120 quilos - que desaba, que Dawn Staples (Emily Blunt) tenta argumentar apelando para uma coisa quase básica. Daquelas que a gente fala para as crianças pequenas: a de que perder faz parte da vida e que é preciso levantar a cabeça e partir para a próxima. Especialmente se você é um atleta de alto nível, como no caso do lutador de MMA Mark Kerr (Dwayne Johnson), um dos pioneiros em estilos de lutas mistas. Só que naquela altura de Coração de Lutador (The Smashing Machine), que está disponível na Amazon Prime, tanto Dawn quanto o espectador já perceberam que Mark está perdendo uma outra batalha pessoal: a do vício em medicamentos analgésicos potentes (os opióides) que arruinarão sua carreira. A sequência seguinte é a de um Mark caído no chão da cozinha, após uma overdose.

Em linhas gerais eu tendo a me perguntar, especialmente em filmes de certos subgêneros - como esse, que se enquadra no drama esportivo biográfico -, se há material suficiente para sustentar um longa metragem de duas horas. E no caso da obra de Benny Safdie há um pequeno milagre na tentativa de fazer um fiapinho de história em um material com mais envergadura. Isso significa produção de qualidade? Não necessariamente. Talvez pra quem goste o esporte seja um prato cheio ver um bando de sujeitos gigantescos se esmurrando - sempre na camaradagem, claro -, conhecendo também um pouco das origens de certos torneios que, atualmente, inclusive no Brasil, são muito populares. Mas o resumo do resumo da ópera desse filme vencedor do Leão de Prata de Berlim, é que temos a história de um atleta promissor, talvez um dos melhores de sua geração, que, entre os anos de 1997 e 2000 atinge rapidamente o auge e o declínio.

 


Ok, nos momentos em que Mark não está esmurrando portas e paredes em discussões com a esposa - algo que meio que assusta em um cenário atual de tanta violência contra as mulheres e casos de feminicídio -, ele é apresentado como um sujeito afetuoso, um gigante gentil mais ou menos carismático e talvez oprimido pela fama repentina (ainda que em suas entrevistas se apresente como alguém autoconfiante, truculento e arrogante). Na primeira sequência com Dawn já é possível perceber a sua toxicidade, ao vermos ele se mostrar contrariado a respeito da receita de uma vitamina de banana (ocasião em que ela parece mais a empregada do que a companheira). Talvez fossem outros tempos e o caso é que Dawn não arreda pé de seu lado, mesmo quando as coisas começam a desandar. Mais do que isso, o protagonista talvez só permaneça vivo por causa dela - é ela que o encontra na cozinha, ligando desesperada para o grande amigo e parceiro de lutas Mark Coleman (Ryan Bader).

Após as derrotas impostas pela vida, Mark vai para um centro de reabilitação - o que é uma perda dupla pra quem é atleta. E precisa do corpo para trabalhar. Como na jornada do heroi típica, o homem retorna amoroso para os braços da esposa, que estranha algumas de suas atitudes dispersas ("sem remédio você vira um escroto", ela chega a esbravejar). Ao mesmo tempo em que ele treina com Bas Rutten (o veterano interpreta ele mesmo) para um retorno épico em uma competição no Japão - mas, aqui, como na volta de Rocky Balboa em 2006, a conquista maior está na trajetória e na superação. E não dá pra negar que Safdie - em sua primeira incursão longe do irmão Josh, com quem fez Joias Brutas (2019) - se empenha em entregar um projeto com início meio e fim, ainda que não deixe de ser gritante a completa falta de profundidade de todos que acompanhamos ali. Sinceramente, a gente meio que entra e sai da experiência sem conhecer ninguém direito. É tudo raso. Como um pires. Ou uma pancadaria de octógono. Quando vê tu já tá apanhando. Sem se livrar da apatia. Uma pena.

Nota: 4,5 

 

segunda-feira, 9 de março de 2026

Cinema - Marty Supreme (Marty Supreme)

De: Josh Safdie. Com Timothée Chalamet, Gwyneth Palthrow, Odessa A'Zion e Fran Drescer. Drama / Comédia, EUA, 2025, 150 minutos.

Galera, eu não sei como tem sido pra vocês a experiência com cinema e talvez eu esteja mesmo ficando velho, chato, cansado de alguns padrões - e eu quero evitar a palavra exigente pra não soar presunçoso. Mas lá pela oitava tentativa de golpe perpetrado pelo personagem central do histriônico Marty Supreme (Marty Supreme), eu já tava com os olhos na nuca de tão revirados. Olha só, eu não tenho nenhum problema com personagens amorais, odiosos ou arrogantes desde que isso não fique martelando meio que o tempo todo na nossa cara. Até porque não ficamos naquelas de "uau, como ele é ousado", após assistir ao protagonista vivido por Timothée Chalamet participar de uma série de jogos amadores de tênis de mesa em um boteco repleto de machinhos de meia idade apostando merrecas, só pra levantar uma grana depois de se ferrar mais uma vez. Afinal, em filmes como A Cor do Dinheiro (1986), obra menor de Scorsese, essa estratégia já era usada com muito mais charme.

O caso é que muita coisa que deveria soar como bacana na produção de Josh Safdie - que meio que repete o modus operandi de Joias Brutas (2019) -, lá pelas tantas começa a irritar. Essa tentativa, por exemplo, de soar engraçadinha a todo o custo, faz com que uma obra de duas horas e meia de duração soe como uma coletânea aleatória de esquetes de humor desajeitadas - e basta pensar na abertura com a batida cena dos espermatozoides indo até o óvulo (totalmente desconectada), passando pela sequência da queda da banheira em uma espelunca em formato de hotel, ou mesmo o instante em que Marty tenta contrabandear uma joia que, na realidade, não passa de uma bijuteria, para que constatemos o fato de tudo soar exagerado mas não orgânico, caótico e pouco sutil. É um filme que tenta ser anárquico o tempo todo e que talvez agrade o homem médio que acredita que a vida no capitalismo tardio é pautada pelo individualismo atroz, pela gritaria, pelas perseguições, pelos tiros e pela selvageria do cada um por si a cada frame. Para quem conseguir evitar os bocejos, talvez cole.

 


E, ok, pra não dizer que tudo é desastre, o pano de fundo do tênis de mesa - um esporte que nós, brasileiros, estamos aprendendo a amar depois de Hugo Calderano -, é excelente. As imagens das partidas são críveis e as disputas bem divertidas. Com o empenho de Marty - vagamente inspirado na história real de Marty Reisman, que escreveu um livro de memórias (que ninguém nunca nem viu), nos anos 70 - em ser um esportista nos Estados Unidos dos anos 50, só sendo possível com um tipo de alpinismo social que envolve a aproximação com uma veterana estrela de Hollywood de nome Kay Stone (Gwyneth Paltrow) e seu marido Milton Rockwell (Kevin O'Leary), um magnata da indústria da produção de canetas, que faz algumas propostas meio indecentes para Marty subir na vida (que ele nega, mas depois se arrepende). No entorno do protagonista outras figuras entram e saem dando movimento a narrativa, enquanto o jovem tenta a todo o custo obter uma grana para participar de um torneio no Japão, após ele ser humilhado pelo temido Koto Endo (Koto Kawaguchi).

Outras pequenas subversões também soam descoladas da realidade, por mais que, por exemplo, a trilha sonora se empenhe na nostalgia aleatória, com músicas como Forever Young, do Alphaville, ou Everybody Wants to Change the World, do Tears for Fears aparecendo aqui e ali. A trama se passa nos anos 50, não é demais lembrar. Já o pano de fundo político soa excessivamente discreto e não é que todo o filme precise ser um panfleto ambulante, mas as subtramas envolvendo um ex-jogador que esteve um campo de concentração na Segunda Guerra ou mesmo os trambiques funcionando como denúncia do declínio do sonho americano no período, nunca alcançam qualquer profundidade. Já que tudo retorna para a figura do protagonista e seu exibicionismo deturpado, seu ímpeto trapaceiro e sua obstinação por prestígio a qualquer preço - tudo embalado pelo carisma de uma bolinha de tênis laranja (e que me desculpem os fãs, mas o não consigo comprar o Chalamet com bigodinho cafajeste). Que este seja um dos favoritos ao Oscar de Melhor Filme, talvez seja um indicativo de safra fraca. Ou, como já disse, eu que tô sem saco mesmo e esperava mais depois de tanto falatório.

Nota: 5,0 

 

quinta-feira, 5 de março de 2026

Cinema - Song Sung Blue: Um Sonho a Dois (Song Sung Blue)

De: Craig Brewer. Com Kate Hudson, Hugh Jackman, Michael Imperioli e Jim Belushi. Drama / Música, EUA, 2025, 132 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM ALGUNS SPOILERS] 

Vamos combinar que, não fosse a indicação de Kate Hudson à Melhor Atriz no Oscar desse ano - e a campanha deve ter sido pesada com certeza - e talvez Song Sung Blue: Um Sonho a Dois (Song Sung Blue) passasse meio batido. Ao cabo temos aqui aquele romance musical meio genérico - um subgênero famoso por filmes como Nasce Uma Estrela (2018) ou La La Land: Cantando Estações (2017) -, com uma pitadinha a mais de tragédia e a diferença de ser uma obra inspirada em eventos reais. Como de praxe em experiências do tipo, a obra se ancora não apenas no carisma de seus personagens, tentando enlaçar o público em uma narrativa de superação a partir do poder da arte. Sim, pode ter aquela carinha de mais do mesmo mas, vá lá, a energia é meio Sessão da Tarde. E, importante comentar, se você não conhece a história verdadeira de Mike (Hugh Jackman) e Claire Sardina (Kate Hudson) talvez valha a pena evitar os spoilers.

O começo do filme dirigido por Craig Brewer - de carreira discreta e que talvez tenha em Meu Nome É Dolemite (2019) um dos seus melhores momentos -, é bem interessante. Discursando como se estivesse diante de uma plateia, com câmera no rosto e um ar de estrela do rock, não demora para que percebamos que Mike é, na realidade, um sujeito de meia idade que frequenta há vinte anos um grupo de alcoolistas anônimos. É seu "aniversário" de duas décadas sem beber e, como músico amador que se apresenta em feiras, eventos e outros, ele tem uma exibição marcada em uma casa de shows de Wisconsin onde ele deveria, a contragosto, fazer um tipo de performance onde imitaria o cantor pop Don Ho (famoso pelo hit Tiny Bubbles). Na mesma noite, ele conhece e se encanta por Claire, que encarna a cantora country Patsy Cline com personalidade e vigor. E, bom, não demora para que eles se aproximem e, mais do que parceiros artísticos, se convertam em um casal.

 


 

E, como já comentei, a história é real e remonta ao final da década de 80 e o começo dos anos 90, ocasião em que Mike e Claire passam a ensaiar músicas de Neil Diamond, se apresentando com o nome de Lightning and Thunder - dupla que faria sucesso localmente naquela região. Polvilhado por instantes cômicos - em um deles eles são contratados para cantar para um público não tão adequado de motoqueiros estilo Harley Davidson (que tem apreço não só pela extrema direita, mas também pelo rock farofão de ZZ Top, Lynyrd Skynyrd e Steppenwolf), em uma noite que termina entre risadas e um pedido de casamento - e trágicos, como aquele do acidente sofrido por Claire, o filme se desenvolve em meio a conflitos familiares, incertezas sobre o futuro e a tentativa de uma vida melhor não apenas para a dupla, mas também para seus filhos.

Fazendo um aceno para os fãs dos anos 90, a obra inclui uma performance clássica em que o duo abriu um show do Pearl Jam, com a presença de Eddie Vedder (John Beckwith) e tudo no palco, sendo também divertidos os momentos em que outros artistas são citados, como no caso do Michael Imperioli encarnando um Buddy Holly que, mais tarde, entrará para o grupo de apoio de Mike e Claire. Espalhando algumas das canções de Diamond em situações chave para dar andamento à narrativa - seja nos problemas de saúde ou nos casos de superação -, a produção brinca sobre o fato de o público meio que só conhecer o clássico Sweet Caroline, ou o fato de Diamond não ser um dos artistas mais expressivos que se conheça. O que não impediu o sucesso da banda. Doce e amargo, como uma música triste de melodia feliz, esse é o tipo de projeto melodramático e inspirador que, em tempos de turbulência, parece recuperar, em partes, os ideais do sonho americano. Por mais triste que seja, importantíssimo lembrar, um País sem saúde pública.

Nota: 6,5