quinta-feira, 30 de abril de 2026

Pitaquinho Musical - The New Pornographers (The Former Site Of)

Fosse o The New Pornographers um clube de futebol e talvez ele fosse aquele time azeitadinho que entra e sai temporada joga sempre da mesma forma, mantendo a qualidade. Ao cabo, pode-se dizer que o pop sofisticado dos canadenses pouco de modifica no transcorrer dos anos, com pequenas subidas ou descidas eventuais e, em seu décimo trabalho, The Former Site Of, temos mais uma coleção de canções de uma polidez aconchegante, sempre no modo irônico na abordagem de temas, como, imprevisibilidade do cotidiano, passagem do tempo, desgaste emocional e nostalgia. Tudo com aquele clima agridoce, em que as melodias calorosas contrastam com as letras reflexivas - o que pode ser percebido já no título do projeto. Aliás, o que faz total sentido, já que os integrantes do coletivo - A. C. Newman, Neko Case e companhia -, já estão mais próximos dos 60 anos, fora os quase 30 de carreira.

 


Não por acaso, músicas como Spooky Action funcionam ao mesmo tempo como metáforas existencialistas - na ideia de que partículas podem permanecer conectadas mesmo à distância -, ao passo em que também soam como reflexões sobre a importâncias das relações humanas, dos laços sólidos e das conexões, especialmente nestes tempos embrutecidos que vivemos (Enchendo minhas botas com poeira estelar / Enchendo meus bolsos com pedras). E tudo construído com aquela energia brilhosa, cheia de harmonia entre vocal e instrumental. Há uma série de outros momentos de beleza, como no caso de Votive ou mesmo a faixa-título. Há uma curiosidade sobre esse registro, que é o de que o grupo cogitou mudar de nome, depois de o baterista de longa data, Joe Seiders, ser preso por posse de material de abuso sexual infantil. Enfim, o sujeito foi desligado após o lamentável episódio. Com a banda mantendo a confiança em seu material, mesmo frente a esse lamentável caso.

Nota: 8,0 

Cinema - Caso 137 (Dossier 137)

De: Dominik Moll. Com Léa Drucker, Guslagie Malanga, Jonathan Turnbull e Stanislas Merhar. Drama / Policial, França, 2025, 115 minutos.

Ainda no começo de Caso 137 (Dossier 137), a investigadora Stephanie Bertrand (Léa Drucker) encontra um gato inusitadamente preso junto a um gradil, na base de um prédio. É meio que impossível saber como ele foi parar lá, mas Stephanie se esforça para retirá-lo daquela prisão. Adotando, em seguida, o bichano. E, bom, nem é preciso ser nenhum grande expert na interpretação de alegorias cinematográficas para compreender que aquele instante fortuito, talvez aluda à condição da própria protagonista. Afinal, ela tem uma ingrata tarefa como funcionária da Inspetoria Geral da Polícia Nacional: investigar excessos, exageros e eventuais crimes cometidos pela própria polícia. Por seus pares, no caso. O que em um contexto de protestos, como os ocorridos no final de 2018, na França, pode tornar esse trabalho um tanto mais complicado. De mãos atadas dentro de um sistema.

Ocorre que em um desses protestos perpetrados pelo grupo conhecido como Coletes Amarelos - em tese um grupo que não era ligado a nenhum lado político mas que, naquele contexto, reivindicava melhores condições de trabalho, aumento do poder de compra da população e a redução de preços de combustíveis (sim, só muda o País) - um jovem de apenas 20 anos acaba gravemente ferido na cabeça - por um disparo de flash ball -, após uma desastrosa ação policial (eu falei que só muda o País?). Quando recebe Joëlle (Sandra Colombo), a mãe do jovem, pela primeira vez em seu escritório para um depoimento, Stephanie não tem muito material, que não seja a revolta e o desespero de uma mãe que precisa lidar com um filho na UTI e com o genro, Rémi (Valentin Campagne), que também participava dos protestos - assim como sua filha e um outro filho -, preso por desacato.

 


A situação é nebulosa e Joëlle explica que eles nunca haviam antes participado de ações do tipo. Após perseguições e bombas de gás lacrimogêneo disparados pela polícia, a família acaba separada entre si. Até a ocorrência da tragédia. E há ainda um detalhe que deixa Stephanie meio esbugalhada da cabeça: a família Girard, Joëlle e seus filhos, reside na mesma Saint-Dizier em que moram seus pais. Que, mais tarde, ela descobrirá, possuem algum tipo de vínculo entre si, como muitas vezes ocorre em cidades pequenas. O conflito de interesses de lado a lado fica pra depois, com a protagonista empenhada em descobrir qualquer pista que possa lhe levar aos autores dos disparos. E em quais circunstâncias eles teriam ocorrido. Houve afinal excesso de violência? Abuso de poder? Ou os jovens teriam cometido algum ato ilícito? Com tudo piorando no contexto social de uma França fraturada, onde os próprios policiais como força de Estado também estavam engajados, via sindicato, na busca por condições melhores de trabalho.

Construindo esse quebra-cabeças sem pressa, o diretor Dominik Moll, de A Noite do Dia 12 (2022), brinda o espectador com uma série de instantes que permitem uma evolução vagarosa, de lento cozimento - quase ao estilo da burocracia jurídica -, com a entrada, aqui e ali, de outros personagens que fazem o caso evoluir. Da mesma forma, vídeos gravados durante a manifestação, imagens das câmeras de segurança e mesmo depoimentos de figuras-chave auxiliam nessa elaboração que, ao cabo, também funciona como veículo de denúncia da crise polícia a que estamos expostos há mais de uma década. O que se intensifica com o avanço de grupos extremistas de direita, que naturalizam a violência e o medo, utilizando-a inclusive como veículo de reforço de suas ideias. Talvez por isso que uma briga filmada na rua, entre dois homens desconhecidos, nem surpreenda. Ou mesmo a alienação completa, quando a mãe de Stephanie adere aos vídeos de gatinhos nas redes sociais, como uma espécie de refúgio. O mundo segue brutal e as pessoas inseguras. "Por que as pessoas odeiam tanto a polícia?", pergunta o exasperado filho da protagonista em certa altura. Talvez ele ainda não perceba que essa estrutura também contribui para essa fissura. Talvez até demais.

Nota: 8,0 

 

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Cine Baú - O Destino Bate à Sua Porta (The Postman Always Rings Twice)

De: Tay Garnett. Com Lana Turner, John Garfield e Cecil Kellaway. Suspense / Drama, EUA, 1946, 113 minutos.

Lançado no mesmo ano de Interlúdio (1946), O Destino Bate à Sua Porta (The Postman Always Rings Twice) parece um filme mais Hitchcock do que o próprio Hitchcock. Cheio de reviravoltas engenhosas e diálogos espirituosos, o clássico de Tay Garnett, que completa 80 anos de lançamento em maio, é poucas vezes lembrado como um dos grandes suspenses da história. E é preciso que se diga que ele merecia mais crédito, até mesmo pelo caráter um tanto imprevisível dos acontecimentos. Sim, em linhas gerais a narrativa, inspirada em um romance de James M. Cain - que receberia diversas adaptações -, parece até convencional: casal de amantes se une para planejar o assassinato do marido da adúltera, com o objetivo de herdar o restaurante deste. Só que, nesse caso, as coisas saem totalmente de controle. Primeiro quando uma das tentativas dá errado despertando a atenção dos investigadores locais. Depois, quando em uma nova ação, o resultado também não é o desejado.

E não é que Cora Smith (Lana Turner) não emane a energia da femme fatale assim que ela surge em cena pela primeira vez - em roupas curtas e alvíssimas, de pernas de fora, com um olhar enigmático e inquisidor para o novo visitante, um certo Frank Chambers (John Garfield), um forasteiro que chega ao restaurante de beira de estrada junto à uma empoeirada rodovia nos arredores de Los Angeles, interessado em uma vaga de emprego. Recebido com entusiasmo pelo dono da lancheira, o carismático e otimista Nick (Cecil Kellaway) - um homem mais velho que, por acaso, é também o marido de Cora -, Frank começa a trabalhar com o casal. Recebendo ordens poucos simpáticas da mulher. Isso até o instante em que ele comete uma ousadia: a beija após uma discussão. Que evoluirá para uma paixão. Os dois resolvem fugir, com Cora deixando um bilhete pedindo a separação. Só que ela nem chega na parada de ônibus e já meio que se arrepende, ao perceber que a vida com um pobretão como Frank não promete um futuro dos melhores.

 


Mas mesmo assim eles se gostam e elaboram um plano para dar cabo de Nick, que sempre toma um banho demorado de banheira, com direito à cantoria no final do dia. A ideia é que Cora espalhe bolinhas de gude pelo banheiro, para que uma queda seja simulada. Só que tudo desanda quando um policial passa por lá fazendo uma ronda de rotina. Com tudo piorando quando um gato é eletrocutado - o que causa uma queda de energia. Nick até cai em meio a isso, mas sobrevive e, bom o plano é deixado meio que de lado. Frank vai a Los Angeles pra trabalhar nas docas, mas acaba reencontrando um atabalhoado Nick, que quer que ele volte pra propriedade - que leva o bucólico nome de Twin Oaks -, para um anúncio: ele quer vender a propriedade pra que ele e Cora se mudem para o Norte do Canadá, para cuidarem da irmã adoentada do idoso. Essa é a deixa para que, em desespero, a dupla resolva colocar um novo plano de assassinato em prática: esse envolvendo a queda do carro de um penhasco após uma noite de bebedeira.

Sim, são muitas ocorrências em sequência e não deixa de ser um deleite acompanhar uma dupla de criminosos tão destrambelhada, num esforço para colocar a sua ideia mirabolante em prática. Apaixonados, Cora e Frank volta e meia encontram uma brecha para um banho de mar daqueles que funciona como uma alegoria do fortalecimento da paixão de ambos. E as imagens tanto da praia, como do deserto ventoso - o que faz com que uma placa caia, necessitando de reparos -, geram uma tensão meio torta, como se não soubéssemos o momento exato em que a violência explodirá (se é que ela explodirá, dadas as trapalhadas do casal central). Outro ponto interessante é perceber como Nick não apenas jamais desconfia das intenções da dupla, como ainda age como um sujeito amistoso em tempo integral e até eventualmente estúpido - o que torna tudo mais complexo e, não nego, divertido. Enfim, uma experiência com boas surpresas, que garante duas horinhas de entretenimento - ainda que tudo possa soar limpinho demais, no auge da aplicação do Código Hays.

 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Foi Um Disco que Passou em Minha Vida - Belle and Sebastian (Tigermilk)

Ser um pós adolescente alto, gordo, com óculos e cabelos estranhos, e com a autoestima lá no chão. Tudo isso às portas de um milênio que se iniciava, com uma série de decisões sobre futuro a serem tomadas - enquanto beijos eram negados e transas pareciam eternamente adiadas. Mais ou menos assim era ser o homem médio de 18 anos, em 1999. Só que todo esse turbilhão de sentimentos parece ambíguo, quando revisito Tigermilk, o primeiro disco do Belle and Sebastian, que completa 30 anos de lançamento em junho. Em partes porque a reclusão juvenil do inverno gaúcho de outrora, talvez tenha me permitido absorver o máximo possível de uma série de paixões que preservo até hoje - cinema, música, literatura -, e, aliás, reconheço esse privilégio. Mas também por estas mesmas experiências terem contribuído para que me tornasse quem sou. Sinceramente a gente nem entendia direito as letras de Stuart Murdoch e companhia - algo solucionado, em partes, com o Michaelis inglês-português ao lado. Mas havia um aconchego geral nas melodias, como um abraço caloroso de alguém que te diz: "ok, entendo tua dor e vem pra cá ser esquisito junto comigo".

E a verdade é que todo esse magnetismo indie do coletivo, que tornava evidentes às vulnerabilidades que eram confrontadas com um senso de humor corrosivo e verborrágico, possibilitou aos tímidos de plantão - ao menos do ponto de vista do amor ou dos desejos - um tipo de refúgio. Naquelas letras cheias de referências ao ambiente escolar e às suas estruturas de poder, fazer parte dos "não populares" era jogar um jogo em que começávamos atrás. E ter uma banda que olhava com carinho, com uma ternura adocicada e (quase) primaveril para o time dos desajustados era conquistar uma pequena vitória. "Passear nos ônibus da cidade por passatempo é triste / Por que você não me conduz ao fim da vida", canta a banda na abertura The State I Am In, canção sobre busca de identidade a algum sentido em meio a dilemas morais e afetivos, que evoluem para um irmão confessando ser gay no dia de um casamento e alegorias sobre pessoas feridas (ou "aleijadas") sendo libertadas de suas muletas.

 


Aliás, uma das grandes habilidades do grupo formado inicialmente por Stuart David, Isobel Campbell e outros foi a de dar voz aos feios, aos desajustados sociais, aos queers, ou a qualquer pessoa que não se encaixava num status quo ou que não correspondia às expectativas sociais impostas não apenas para aquele Reino Unido pré-Brexit, mas para qualquer País que experimentava certos avanços econômicos. Uma das grandes canções do disco, a magnética She's Losing It, com seu refrão grudento e sonoridade primaveril - um tipo de contraste que sempre foi uma das marcas -, trata de trauma ligado à abusos sexuais e de como as amizades entre aqueles que estão à margem podem ser o caminho para o processo de cura (Chelsea foi a garota que sofreu um abuso / Isso mudou sua filosofia em 82 / Ela sempre diz: "Olho por olho e dente por dente" / Quem precisa de garotos quando Lisa está por perto?). Por sinal, tudo com um senso de humor meio torto. E uma simplicidade comovente.

Diga-se de passagem, o apelo universal do disco, com seu instrumental sem firulas, refrãos que ficam e poesia de verve literária e cheia de referências, talvez não fosse por acaso. A história é que o álbum meio que brotou a partir de um trabalho de conclusão do curso de música no Stow College, de Glasgow - e era pra ser só um single, mas Murdoch se mostrou tão hábil nas composições que gestou o primeiro trabalho de estúdio meio que sem querer querendo. Tanto que a tiragem inicial teria sido apenas de 1000 unidades - com a banda sendo abraçada pelos indies no final dos anos 90, contexto em que a (bendita seja) gravadora Trama lançaria não apenas este, mas os três álbuns seguintes do grupo, os igualmente ótimos If You're Feeling Sinister (1996, que tem Get Me Away From Here I'm Dying, que meio que define o sentimento dos ouvintes) e The Boy With Arab Strap (1998), além do fraco Fold Your Hands Child, You Walk Like a Peasant (2000). Mas a delicadeza folk pop introspectiva exibida em Tigermilk, com sua crueza imprevisível, segue imbatível, fazendo os olhos dos fãs marejarem. Tanto que músicas como We Rule the School, My Wandering Days Are Over e Mary Jo (até hoje a melhor de todas), seguem inesquecíveis. Provando que os estranhos também dançam, amam, sonham.

 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Pitaquinho Musical - Courtney Barnett (Creature of Habit)

Vamos combinar que tem muita gente saudando o Creature of Habit, quinto disco de Courtney Barnett, como se fosse uma espécie de retorno às origens da artista australiana. E talvez isso fosse meio inevitável, já que o anterior e, menos caloroso, Things Take Time, Take Time (2021) havia sido gestado em um contexto ainda de pandemia, com o mundo todo meio borocoxô (a talvez fizesse pouco sentido um álbum excessivamente irônico, com letras debochadas sobre questões cotidianas aleatórias). Bom, corta pra 2026 e, por mais que estejamos caminhando rumo ao apocalipse, talvez nos reste sorrir - ou seguir como os músicos do Titanic, tocando enquanto tudo afunda. O que faz com que versos como "Eu sei que eu tenho um coração sensível / Estou sempre analisando ele / E quando o jogo para os urubus / Eles também não o querem", da irresistível Sugar Plum funcionem em toda a sua graça melancólica e adocicada.

 


Em linhas gerais as melodias estão também mais expansivas, quase radiofônicas - tanto que canções como Wonder, ou Same não fariam feio em algum bloquinho indie mais festivo, com bandas de slacker rock e folk. Claro que os temas mais contemplativos - de autoanálise, de incertezas, de bloqueios e de mudanças de percurso -, também estão lá, mesmo em instantes de fluidez. Um bom exemplo nesse sentido pode ser percebido na hilária e central Mantis, sobre a vez em que ela encontrou um louva-a-deus no batente da porta de casa, com esse evento meio aleatório se tornando matéria-prima para uma canção sobre paciência e perseverança frente ao sentimento de resignação (Me sentindo um pouco alienada / Estou flutuando sem rumo / Mas com os pés concretados / Debaixo desta criatura de hábito). "É uma espécie de recalibragem de rota", Barnett teria dito em entrevistas. O resultado é um disco iluminado, com um brilho e um polimento que soam despretensiosos, mas no fim são cheios de personalidade.

Nota: 8,5
  

Cinema - Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra (Good Luck, Have Fun, Don't Die)

De: Gore Verbinski. Com Sam Rockwell, Haley Lu Richardson, Juno Temple e Zazie Beetz. Comédia / Ficção Científica, EUA / Alemanha, 2025, 134 minutos.

Um filme que mais parece uma coletânea de episódios perdidos de Black Mirror, em uma temporada não tão satisfatória. Mais ou menos dessa forma é possível resumir a experiência com o pretensiosamente estranho Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra (Good Luck, Have Fun, Don't Die), obra dirigida por Gore Verbinski (dos três primeiros Piratas do Caribe), e que está em cartaz nos cinemas. Na trama, Sam Rockwell é um homem que alega ter vindo do futuro para um alerta geral: o de que as redes sociais e, mais ainda, a inteligência artificial, será a nossa ruína (ah, vá?). A menos que ele consiga recrutar um grupo ideal de voluntários - que ele pretende extrair de uma unidade da rede de restaurantes Norms - para uma jornada épica até o quarto de um adolescente nerd (daqueles que se entopem de Cheetos) da vizinhança, para impedir um apocalipse tecnológico.

Ok, as intenções podem ser boas a despeito da verborragia infinita e esquisita desse homem do futuro, que mais parece um morador de rua em roupas metalizadas - que, de quebra, ainda ameaça explodir tudo já que seu corpo está revestido de dinamite -, com a história melhorando sensivelmente após o sujeito recrutar aqueles que lhe auxiliarão na missão. Especialmente pelo fato de boa parte desse coletivo ter, em seu passado, alguma história meio trágica envolvendo o uso da tecnologia. Não por acaso, um dos bons momentos da trama envolve o casal de professores Mark (Michael Peña) e Janet (Zazie Beetz), que precisam lidar com alunos adolescentes que simplesmente não prestam mais atenção nas aulas - com o pescoço direcionado ao feed do Insta, com seus conteúdos de gosto duvidoso e rolagem infinita. Com o caos sendo estabelecido quando Mark simplesmente ousa encostar na tela do celular de um dos jovens. O que os converte em zumbis com uma sanha meio mortífera.

 


Sim, parece estranho e meio que é. Sendo necessária uma suspensão da descrença em absoluto para que haja qualquer tipo de apreciação. Mínima que seja. Quando adentra o restaurante, como um cauboi de filme sci-fi de segunda linha, o tal homem do futuro é confundido com um doidinho de bairro qualquer, que pretende incomodar as pessoas do local. O que atrai a atenção da polícia, obrigando o protagonista, Mark, Janet e outros, como a jovem Ingrid (Haley Lu Richardson), a buscarem uma fuga alternativa pelos fundos. Com evoluções pela madrugada sombria, em meio a becos, ruas mais escuras que o normal, e moradores de rua com um pendor para alguma violência, além de sujeitos mascarados com uma energia no limite entre o anarquismo e a milícia. Para Ingrid, aderir ao grupo representa uma oportunidade de superar a perda do namorado para uma espécie de aparato tecnológico de realidade virtual, que lhe permite "viver" uma outra vida que não a sua - algo que meio que já vimos mais de uma vez em Black Mirror. E como se desgraça pouca não fosse bobagem, Ingrid ainda sofre de uma curiosa doença, que a torna intolerante a dispositivos eletrônicos e redes de wi-fi. 

Há ainda outros integrantes nesse coletivo todo torto de salvação do mundo - como é o caso de Susan (Juno Temple), uma mãe enlutada pela perda do filho em um tiroteio em massa, desses que ocorrem dia sim dia também nas escolas dos Estados Unidos. Como forma de superar a dor, ela é estimulada a adquirir uma espécie de clone do menino - mas a cópia tem uma personalidade um tanto diferente do filho. O que a faz investir em outra tecnologia, esta mais precisa - um tipo de avatar em IA que replica a voz do menino. Todas essas pessoas estão devastadas - e irritadas, em alguma medida - com a tecnologia e os caminhos tomados por ela, o que as estimula a se tornarem voluntárias da missão. O objetivo é acoplar um pendrive que evitará o desastre futuro (representado pelo avanço desenfreado da tecnologia) e os vídeos de péssimo gosto feitos por IA. Alienação, excesso de mediação digital e consequente afastamento da realidade, anestesia emocional, perda de identidade, vigilância e paranoia contemporâneas. Esses são alguns dos temas que se espalham por essa comédia de ficção científica bem intencionada, mas, infelizmente, pouco profunda. Lá pelas tantas dá uma cansada, não dá pra negar.

Nota: 6,5

 

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Novidades em Streaming - Armand e os Limites das Famílias (Armand)

De: Halfdan Ullmann Tøndel. Com Renate Reinsve, Ellen Dorrit Petersen e Thea Lambrechts Vaulen. Drama, Noruega / Holanda / Alemanha / Reino Unido / Suécia, 2024, 117 minutos.

Precisamos falar sobre o Armand. Ou sobre Elizabeth. Ou vai ver necessitamos falar sobre muitas outras pessoas que navegam no universo sombrio do excelente drama Armand e os Limites das Famílias (Armand) - estreia do diretor Halfdan Ullmann Tøndel, que é neto de Ingmar Bergman e Liv Ulmann. Quando o filme, que venceu a Câmera de Ouro do Festival de Cannes, começa, temos a impressão de que será uma daquelas narrativas clássicas de pessoas adultas debatendo assuntos muito sérios à portas fechadas, com as revelações ocorrendo aos poucos. Bom, em partes é isso. Mas ao mesmo tempo tem-se aqui uma obra de sutilezas, repleta de ambiguidades e que não tem nenhuma pressa em acontecer. Ou mesmo fornecer qualquer evidência para uma conclusão mais óbvia. Aliás, em alguma medida, essa pode ser aquela produção de que frustra o espectador - especialmente pelo caráter surrealista do terço final.

Na trama, a atriz Elizabeth (Renate Reinsve) é chamada às pressas para a escola em que estuda seu filho Armand, um menino de apenas seis anos. Recebida pela professora Sunna (Thea Lambrechts Vaulen), ela é orientada a aguardar a chegada dos pais de um outro menino - de nome Jon - Sarah (Ellen Dorrit Petersen) e Anders (Endre Hellestveit), para uma reunião. No centro da história uma grave acusação: a de que Armand teria praticado algum tipo de violência, inclusive sexual, contra seu colega, que foi encontrado no banheiro da escola após a agressão. Para Elizabeth algo inconcebível. Para os pais de Jon uma agressão que precisa ser melhor investigada e que toma ares de preconceito a respeito do suposto estilo de vida mais livre de Elizabeth. Aliás, Sarah a acusa de ter se exibido (ou abraçado) seu filho de forma inadequada em visitas à sua casa (os meninos não são apenas amigos, mas também primos, já que Sarah é irmã de Thomas, ex-marido de Elizabeth, que teria morrido um acidente de trânsito).

 


Aliás, Thomas tem papel importante na tentativa de juntar os pontos que possam conduzir a algum tipo de explicação mais plausível para os acontecimentos - ele seria um sujeito violento com Elizabeth? O filho pequeno teria aprendido alguma coisa sobre esse tipo de comportamento ao presenciar agressões em casa? Ele teria de fato se suicidado, como tudo indica, ou a sua morte foi em decorrência de um acidente verdadeiramente? Pelo lado de Sarah e Anders a coisa também permanece no campo das incertezas. "Ele foi educado de forma não convencional" verbaliza a mulher que, claramente se incomoda com a presença magnética de Elizabeth que, ao pisar na escola mostra uma determinação que parece ainda mais evidente, a cada passo dado com as sandálias de salto. Que por sinal, contrastam com o aspecto soturno dos próprios corredores da escolas, sombrios e claustrofóbicos, com a contraluz surgindo aqui e ali de forma tímida.

Hábil, o diretor aposta ainda em uma série de alegorias que reforçam o caráter embaraçoso, caótico, invasivo e confuso da situação. Há, por exemplo, um alarme de incêndio estragado que não para nunca de tocar. Quando tem uma crise de riso frente ao absurdo da situação - o diretor a estende quase ao limite do aceitável - Elizabeth parece se tornar ao mesmo tempo uma figura patética, miserável e digna de pena. Há ainda uma diretora de departamento que tem um problema crônico de sangramento no nariz. Há ali algum tipo de incômodo onipresente. Ou um pedido de socorro sufocado, que é reforçado justamente pelos instantes mais alegóricos (com suas danças estilizadas e coreografias imprevisíveis). Sim, esse nunca será um daqueles filmes óbvios, claros, com pessoas boas e más milimetricamente calculadas. Nos corredores e bastidores as pequenas violências parecem sempre prontas a emergir. Assim como os segredos do passado, que retornam e bagunçam ainda mais. Não temos como ter certeza. O ser humano é complexo e esse filme fortalece essa ideia com maestria. Deixando margem para um sem fim de interpretações depois que sobem os créditos.

Nota: 8,5 

 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Tesouros Cinéfilos - A Última Ceia (The Monster's Ball)

De: Marc Forster. Com Halle Berry, Billy Bob Thornton, Heath Ledger e Peter Boyle. Drama, EUA, 2001, 111 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM SPOILERS] 

A cena em que Sonny (Heath Ledger) tira a própria vida na frente do pai, o policial Hank (Billy Bob Thornton), e do avô Buck (Peter Boyle), em A Última Ceia (Monster's Ball) segue sendo uma das mais impactantes da história moderna do cinema. Ela acontece meio que do nada. Sem que esperássemos aquela solução extrema - mesmo que o jovem habitasse um lar totalmente disfuncional. E como se drama pouco fosse bobagem, instantes antes de dar um tiro no próprio peito, Sonny ainda inquire seu pai, perguntando a ele se, alguma vez, ele já o tinha amado. "Não, eu nunca te amei" é a resposta seca. Perturbado, o rapaz o retruca dizendo um "pois eu sempre te amei" para, segundos depois, restar apenas o corpo atirado por sobre a poltrona, com uma enorme mancha de sangue inundando a camiseta branca. Buck era um pai horrível, como ele mesmo admite em certa altura. Mas há tempo para que a rota seja recalculada? Para que, frente a tantas tragédias, os cacos sejam recolhidos?

A Última Ceia está completando 25 anos de lançamento neste mês e segue ressoando, com sua narrativa sobre racismo, misoginia e violência psicológica - e de como esses comportamentos se perpetuam de geração em geração. "Ele puxou a mãe dele", verbaliza, a respeito do neto, um frio Buck, um idoso decadente que mal consegue se movimentar direito em direção ao banheiro, mas nunca perde a capacidade de reafirmar seus preconceitos. "O que esses 'negros' fazem no meu quintal?", pergunta à Hank, em certa altura, referindo-se a uma dupla de adolescentes da vizinhança, que mantinha algum grau de amizade com Sonny. Hank aprende a ser um intolerante incorrigível daqueles do interior dos Estados Unidos - a ação se passa no Estado da Geórgia - e que, nos dias atuais, vestiria com orgulho o bonezinho Make America Great Again. Grandão de arma na mão. Incapaz de chorar a morte do próprio filho por suicídio. Ou de compreender, ao menos inicialmente, que é parte do problema.

 


E, é preciso que se diga, essa obra que segue pungente em um País tão dividido pelo ódio - reforçado por seu bizarro, alaranjado, virulento e tirânico presidente - nem sempre é de fácil depuração. Tanto que, muitas vezes, consideraremos as decisões dos personagens, quaisquer que sejam, no mínimo questionáveis. Estamos, afinal, falando do ser humano em toda a sua complexidade. Com seus medos, desejos, incertezas e incoerências. Há uma cena quase ao final em que Leticia (Halle Berry, que venceria o Oscar pelo papel) descobre, por meio de desenhos engavetados, que os algozes do seu marido preso há onze anos (Sean Combs, que Deus o tenha) e enviado para a cadeira elétrica por assassinato, são justamente Hank e o falecido Sonny, que também tentava emplacar uma carreira na delegacia local. Naquela altura do campeonato, Leticia já havia tido com Hank talvez o mais quente, acolhedor e carinhoso sexo em anos, vindo de um sujeito que, inclusive, tinha tentado salvar a vida de seu filho de apenas 10 anos Tyrell (Coronji Calhoun), que havia sido atropelado em uma noite chuvosa.

Esse é o momento em que Leticia, endividada e despejada previamente, senta na varanda e olha reflexiva para o quintal, onde jazem de forma suntuosa os corpos de ambos os filhos da dupla, mais o do pai de Hank. Ficam só os dois. Tentando recomeçar. Hank é gentil com ela, após uma saída noturna para buscar seu sorvete preferido. O mesmo homem racista de outrora, agora parece disposto a um relacionamento com uma mulher preta. E isso depois de anunciar a aposentadoria, comprar um posto de gasolina e tentar ainda uma aproximação do pai dos meninos enxotados de seu quintal, que trabalha como mecânico nas redondezas (papel pequeno, mas bonito, de Mos Def). Sim, hoje em dia as pessoas podem achar que é muita forçação um preconceituoso incorrigível se ajeitar na vida, depois de tanto levar porrada. Mas estamos falando de uma obra de 25 anos atrás, quando estes temas ainda surgiam, aqui e ali, como pequenos ensaios hollywoodianos sobre o tema (vale o mesmo para o sempre impactante A Outra História Americana, lançado três anos antes). Ao cabo, trata-se de uma obra robusta, com ótimas interpretações e que segue ressoando frente ao impacto dos acontecimentos.