De: Alexandre Singh e Natalie Musteata. Com Zar Amir Ebrahimi, Luàna Bajrami e Aurélie Boquien. Drama / Ficção Científica, França / EUA, 2024, 36 minutos.
Em um mundo cada vez mais frio e individualista e sobretudo pautado pelo consumo e pelo capital, o curta metragem francês indicado ao Oscar Duas Pessoas Trocando Saliva (Deux Personnes Échangeant de la Salive) imagina um cenário em que beijar na boca é considerado um crime em que a punição é a morte. Um ato subversivo, a ponto de as pessoas mastigarem alho deliberadamente como forma de afastar qualquer fagulha que seja de desejo. Escovas e mesmo as pastas de dente são adquiridas no mercado negro, com contrabandistas, que é exatamente o que a protagonista Malaise (Luàna Bajrami) faz depois de começar a trabalhar em uma chiquérrima loja de departamentos, onde passa a atender a elegante Angine (Zar Amir Ebrahimi), com quem faz uma curiosa amizade. Aliás, mais do que amizade, uma paixão que, nesse contexto distópico, jamais poderá se concretizar. Mais ainda aos olhos do público.
E tudo piora com o fato da ressentida Pétulante (Aurélie Boquien) ficar extremamente enciumada com a aproximação entre as duas mulheres. Angine, afinal, era sua cliente cativa e o fato de ser simplesmente trocada pela jovem a deixa devastada. Com a oportunidade de vingança surgindo após esta ouvir Malaise escovando os dentes no banheiro da loja. Filmado em um vigoroso preto e branco, o curta trágico mas envolvente parece simples em sua temática, sendo profundo no exame da repressão à intimidade como uma das ferramentas centrais de regimes autoritários. Com o domínio do corpo e, consequentemente, do desejo, se convertendo em forma de punição. Ainda mais quando o assunto são os casais homoafetivos ou que fujam do padrão esperado na sociedade regida pelo "cidadão de bem". Enfim, uma experiência potente em que os tapas dão lugar aos beijos, em um universo de conservadorismo atroz.
De: Benny Safdie. Com Dwayne Johnson, Emily Blunt e Mark Coleman. Drama / Biografia, EUA, 2025, 123 minutos.
"Você perdeu uma luta, grande coisa, supera!". É em um momento de puro desespero diante do marido - uma montanha de músculos de 120 quilos - que desaba, que Dawn Staples (Emily Blunt) tenta argumentar apelando para uma coisa quase básica. Daquelas que a gente fala para as crianças pequenas: a de que perder faz parte da vida e que é preciso levantar a cabeça e partir para a próxima. Especialmente se você é um atleta de alto nível, como no caso do lutador de MMA Mark Kerr (Dwayne Johnson), um dos pioneiros em estilos de lutas mistas. Só que naquela altura de Coração de Lutador (The Smashing Machine), que está disponível na Amazon Prime, tanto Dawn quanto o espectador já perceberam que Mark está perdendo uma outra batalha pessoal: a do vício em medicamentos analgésicos potentes (os opióides) que arruinarão sua carreira. A sequência seguinte é a de um Mark caído no chão da cozinha, após uma overdose.
Em linhas gerais eu tendo a me perguntar, especialmente em filmes de certos subgêneros - como esse, que se enquadra no drama esportivo biográfico -, se há material suficiente para sustentar um longa metragem de duas horas. E no caso da obra de Benny Safdie há um pequeno milagre na tentativa de fazer um fiapinho de história em um material com mais envergadura. Isso significa produção de qualidade? Não necessariamente. Talvez pra quem goste o esporte seja um prato cheio ver um bando de sujeitos gigantescos se esmurrando - sempre na camaradagem, claro -, conhecendo também um pouco das origens de certos torneios que, atualmente, inclusive no Brasil, são muito populares. Mas o resumo do resumo da ópera desse filme vencedor do Leão de Prata de Berlim, é que temos a história de um atleta promissor, talvez um dos melhores de sua geração, que, entre os anos de 1997 e 2000 atinge rapidamente o auge e o declínio.
Ok, nos momentos em que Mark não está esmurrando portas e paredes em discussões com a esposa - algo que meio que assusta em um cenário atual de tanta violência contra as mulheres e casos de feminicídio -, ele é apresentado como um sujeito afetuoso, um gigante gentil mais ou menos carismático e talvez oprimido pela fama repentina (ainda que em suas entrevistas se apresente como alguém autoconfiante, truculento e arrogante). Na primeira sequência com Dawn já é possível perceber a sua toxicidade, ao vermos ele se mostrar contrariado a respeito da receita de uma vitamina de banana (ocasião em que ela parece mais a empregada do que a companheira). Talvez fossem outros tempos e o caso é que Dawn não arreda pé de seu lado, mesmo quando as coisas começam a desandar. Mais do que isso, o protagonista talvez só permaneça vivo por causa dela - é ela que o encontra na cozinha, ligando desesperada para o grande amigo e parceiro de lutas Mark Coleman (Ryan Bader).
Após as derrotas impostas pela vida, Mark vai para um centro de reabilitação - o que é uma perda dupla pra quem é atleta. E precisa do corpo para trabalhar. Como na jornada do heroi típica, o homem retorna amoroso para os braços da esposa, que estranha algumas de suas atitudes dispersas ("sem remédio você vira um escroto", ela chega a esbravejar). Ao mesmo tempo em que ele treina com Bas Rutten (o veterano interpreta ele mesmo) para um retorno épico em uma competição no Japão - mas, aqui, como na volta de Rocky Balboa em 2006, a conquista maior está na trajetória e na superação. E não dá pra negar que Safdie - em sua primeira incursão longe do irmão Josh, com quem fez Joias Brutas (2019) - se empenha em entregar um projeto com início meio e fim, ainda que não deixe de ser gritante a completa falta de profundidade de todos que acompanhamos ali. Sinceramente, a gente meio que entra e sai da experiência sem conhecer ninguém direito. É tudo raso. Como um pires. Ou uma pancadaria de octógono. Quando vê tu já tá apanhando. Sem se livrar da apatia. Uma pena.
De: Josh Safdie. Com Timothée Chalamet, Gwyneth Palthrow, Odessa A'Zion e Fran Drescer. Drama / Comédia, EUA, 2025, 150 minutos.
Galera, eu não sei como tem sido pra vocês a experiência com cinema e talvez eu esteja mesmo ficando velho, chato, cansado de alguns padrões - e eu quero evitar a palavra exigente pra não soar presunçoso. Mas lá pela oitava tentativa de golpe perpetrado pelo personagem central do histriônico Marty Supreme (Marty Supreme), eu já tava com os olhos na nuca de tão revirados. Olha só, eu não tenho nenhum problema com personagens amorais, odiosos ou arrogantes desde que isso não fique martelando meio que o tempo todo na nossa cara. Até porque não ficamos naquelas de "uau, como ele é ousado", após assistir ao protagonista vivido por Timothée Chalamet participar de uma série de jogos amadores de tênis de mesa em um boteco repleto de machinhos de meia idade apostando merrecas, só pra levantar uma grana depois de se ferrar mais uma vez. Afinal, em filmes como A Cor do Dinheiro (1986), obra menor de Scorsese, essa estratégia já era usada com muito mais charme.
O caso é que muita coisa que deveria soar como bacana na produção de Josh Safdie - que meio que repete o modus operandi de Joias Brutas (2019) -, lá pelas tantas começa a irritar. Essa tentativa, por exemplo, de soar engraçadinha a todo o custo, faz com que uma obra de duas horas e meia de duração soe como uma coletânea aleatória de esquetes de humor desajeitadas - e basta pensar na abertura com a batida cena dos espermatozoides indo até o óvulo (totalmente desconectada), passando pela sequência da queda da banheira em uma espelunca em formato de hotel, ou mesmo o instante em que Marty tenta contrabandear uma joia que, na realidade, não passa de uma bijuteria, para que constatemos o fato de tudo soar exagerado mas não orgânico, caótico e pouco sutil. É um filme que tenta ser anárquico o tempo todo e que talvez agrade o homem médio que acredita que a vida no capitalismo tardio é pautada pelo individualismo atroz, pela gritaria, pelas perseguições, pelos tiros e pela selvageria do cada um por si a cada frame. Para quem conseguir evitar os bocejos, talvez cole.
E, ok, pra não dizer que tudo é desastre, o pano de fundo do tênis de mesa - um esporte que nós, brasileiros, estamos aprendendo a amar depois de Hugo Calderano -, é excelente. As imagens das partidas são críveis e as disputas bem divertidas. Com o empenho de Marty - vagamente inspirado na história real de Marty Reisman, que escreveu um livro de memórias (que ninguém nunca nem viu), nos anos 70 - em ser um esportista nos Estados Unidos dos anos 50, só sendo possível com um tipo de alpinismo social que envolve a aproximação com uma veterana estrela de Hollywood de nome Kay Stone (Gwyneth Paltrow) e seu marido Milton Rockwell (Kevin O'Leary), um magnata da indústria da produção de canetas, que faz algumas propostas meio indecentes para Marty subir na vida (que ele nega, mas depois se arrepende). No entorno do protagonista outras figuras entram e saem dando movimento a narrativa, enquanto o jovem tenta a todo o custo obter uma grana para participar de um torneio no Japão, após ele ser humilhado pelo temido Koto Endo (Koto Kawaguchi).
Outras pequenas subversões também soam descoladas da realidade, por mais que, por exemplo, a trilha sonora se empenhe na nostalgia aleatória, com músicas como Forever Young, do Alphaville, ou Everybody Wants to Change the World, do Tears for Fears aparecendo aqui e ali. A trama se passa nos anos 50, não é demais lembrar. Já o pano de fundo político soa excessivamente discreto e não é que todo o filme precise ser um panfleto ambulante, mas as subtramas envolvendo um ex-jogador que esteve um campo de concentração na Segunda Guerra ou mesmo os trambiques funcionando como denúncia do declínio do sonho americano no período, nunca alcançam qualquer profundidade. Já que tudo retorna para a figura do protagonista e seu exibicionismo deturpado, seu ímpeto trapaceiro e sua obstinação por prestígio a qualquer preço - tudo embalado pelo carisma de uma bolinha de tênis laranja (e que me desculpem os fãs, mas o não consigo comprar o Chalamet com bigodinho cafajeste). Que este seja um dos favoritos ao Oscar de Melhor Filme, talvez seja um indicativo de safra fraca. Ou, como já disse, eu que tô sem saco mesmo e esperava mais depois de tanto falatório.
De: Craig Brewer. Com Kate Hudson, Hugh Jackman, Michael Imperioli e Jim Belushi. Drama / Música, EUA, 2025, 132 minutos.
[ATENÇÃO: TEXTO COM ALGUNS SPOILERS]
Vamos combinar que, não fosse a indicação de Kate Hudson à Melhor Atriz no Oscar desse ano - e a campanha deve ter sido pesada com certeza - e talvez Song Sung Blue: Um Sonho a Dois (Song Sung Blue) passasse meio batido. Ao cabo temos aqui aquele romance musical meio genérico - um subgênero famoso por filmes como Nasce Uma Estrela (2018) ou La La Land: Cantando Estações (2017) -, com uma pitadinha a mais de tragédia e a diferença de ser uma obra inspirada em eventos reais. Como de praxe em experiências do tipo, a obra se ancora não apenas no carisma de seus personagens, tentando enlaçar o público em uma narrativa de superação a partir do poder da arte. Sim, pode ter aquela carinha de mais do mesmo mas, vá lá, a energia é meio Sessão da Tarde. E, importante comentar, se você não conhece a história verdadeira de Mike (Hugh Jackman) e Claire Sardina (Kate Hudson) talvez valha a pena evitar os spoilers.
O começo do filme dirigido por Craig Brewer - de carreira discreta e que talvez tenha em Meu Nome É Dolemite (2019) um dos seus melhores momentos -, é bem interessante. Discursando como se estivesse diante de uma plateia, com câmera no rosto e um ar de estrela do rock, não demora para que percebamos que Mike é, na realidade, um sujeito de meia idade que frequenta há vinte anos um grupo de alcoolistas anônimos. É seu "aniversário" de duas décadas sem beber e, como músico amador que se apresenta em feiras, eventos e outros, ele tem uma exibição marcada em uma casa de shows de Wisconsin onde ele deveria, a contragosto, fazer um tipo de performance onde imitaria o cantor pop Don Ho (famoso pelo hit Tiny Bubbles). Na mesma noite, ele conhece e se encanta por Claire, que encarna a cantora country Patsy Cline com personalidade e vigor. E, bom, não demora para que eles se aproximem e, mais do que parceiros artísticos, se convertam em um casal.
E, como já comentei, a história é real e remonta ao final da década de 80 e o começo dos anos 90, ocasião em que Mike e Claire passam a ensaiar músicas de Neil Diamond, se apresentando com o nome de Lightning and Thunder - dupla que faria sucesso localmente naquela região. Polvilhado por instantes cômicos - em um deles eles são contratados para cantar para um público não tão adequado de motoqueiros estilo Harley Davidson (que tem apreço não só pela extrema direita, mas também pelo rock farofão de ZZ Top, Lynyrd Skynyrd e Steppenwolf), em uma noite que termina entre risadas e um pedido de casamento - e trágicos, como aquele do acidente sofrido por Claire, o filme se desenvolve em meio a conflitos familiares, incertezas sobre o futuro e a tentativa de uma vida melhor não apenas para a dupla, mas também para seus filhos.
Fazendo um aceno para os fãs dos anos 90, a obra inclui uma performance clássica em que o duo abriu um show do Pearl Jam, com a presença de Eddie Vedder (John Beckwith) e tudo no palco, sendo também divertidos os momentos em que outros artistas são citados, como no caso do Michael Imperioli encarnando um Buddy Holly que, mais tarde, entrará para o grupo de apoio de Mike e Claire. Espalhando algumas das canções de Diamond em situações chave para dar andamento à narrativa - seja nos problemas de saúde ou nos casos de superação -, a produção brinca sobre o fato de o público meio que só conhecer o clássico Sweet Caroline, ou o fato de Diamond não ser um dos artistas mais expressivos que se conheça. O que não impediu o sucesso da banda. Doce e amargo, como uma música triste de melodia feliz, esse é o tipo de projeto melodramático e inspirador que, em tempos de turbulência, parece recuperar, em partes, os ideais do sonho americano. Por mais triste que seja, importantíssimo lembrar, um País sem saúde pública.
De: Geeta Gandbhir e Christalyn Hampton. Documentário, EUA, 2024, 31 minutos.
"Nunca pensei que eu teria mais direitos há 25 anos do que a minha filha tem agora". A frase dita por uma das personagens do curta documental O Diabo Não Tem Descanso (The Devil Is Busy) - que está disponível na HBO Max e que é um dos indicados ao Oscar em sua categoria -, pode até chocar, mas nunca surpreender. Estamos, afinal, falando de aborto em um País (os Estados Unidos), a cada dia mais reacionário ou avesso a qualquer medida de avanço civilizatório. O que só piora com governos como o de Donald Trump - ocupadíssimo com a guerra, qualquer que seja, enquanto a população padece. Na trama acompanhamos a rotina de Tracii, a chefe de segurança de uma clínica feminina de Atlanta que, frente a uma série de restrições resultantes de medidas retrógradas votadas pelo Congresso, precisa lidar ainda com um grupo de doidinhos de bairro que protestam em frente ao local (normalmente aquele tipo de desocupado que se considera moralmente superior, mesmo sendo uma das piores pessoas possíveis para a sociedade).
Em um período de um dia, o curta dirigido por Geeta Gandbhir e Christalyn Hampton - aliás, Geeta também é o nome por trás do excelente documentário A Vizinha Perfeita (2025), um dos favoritos em sua categoria para o Oscar -, acompanha o dia a dia de Tracii, desde a recepção de pacientes (que, em muitos casos, chegam ao local escondidas ou envergonhadas), lhe possibilitando o acesso a serviços médicos, exames de rotina e cuidados preventivos. Os abortos em si, a causa de toda a polêmica que emerge do cidadão de bem que acha que as decisões políticas do País devem ser feitas com a Bíblia debaixo do braço, só podem ser realizados até o limite de seis semanas de gestação - momento em que muitas das jovens sequer percebem que estão grávidas. Do receio das profissionais em serem presas por realizarem seu ofício, passando por discussões sobre os limites da autonomia da mulher em uma sociedade em que homens engravatados em gabinetes tomam as decisões, a obra propõe a reflexão em um cenário de retrocessos.
De: Ugo Bienvenu. Com Oscar Tresanini, Margot Oldra e Ugo Bienvenu. Animação / Fantasia / Ficção científica, França / EUA / Reino Unido, 2025, 89 minutos.
"Você não me contou qual o seu pedido. Eu queria que as coisas... mudassem". É possível ter esperança em relação ao futuro? Em relação ao mundo que habitamos? Vamos combinar que, às portas de uma nova guerra mundial, em um contexto de crises políticas, sociais e ambientais, uma obra mais ou menos otimista como a singela animação Arco (Arco) parece quase excessivamente ingênua. Utópica, em alguma medida. As mudanças sonhadas pela pequena Íris (Margot Oldra) podem sugerir certa ambiguidade de quem é apenas uma pré-adolescente cheia de dúvidas, medos e incertezas. Mas ela também funciona como uma ideia mais ampla, naquele cenário - o ano é 2075 e o mundo parece em direção a um colapso inevitável. Aliás, no universo habitado por Íris e seus familiares, as casas são equipadas com reforçadas e enormes redomas de vidro, que as protegem de queimadas, tornados e outras catástrofes climáticas. Um processo que chegou a um ponto de não retorno.
Mas a parte em que Íris surge na história dirigida por Ugo Bienvenu - e que é uma das indicadas ao Oscar na categoria Animação - é a segunda. Porque no começo de tudo estamos no ano de 2932, em um mundo em que a devastação climática fez com que a Terra ficasse alagada de forma permanente, com as residências sendo construídas sobre altas palafitas. Em cada habitação há toda uma energia de sustentabilidade, o que é reforçado pela ampla biodiversidade que rodeia cada casa - e não demora para que compreendamos os motivos desse ambiente ecologicamente favorável: às portas do terceiro milênio as viagens no tempo já são uma realidade, o que faz com que os pais do protagonista Arco (Oscar Tresanini), retornem ao passado sempre voltando com alguma variedade de planta a tiracolo, que será propagada após plantada. Sim, aparentemente o mundo aprendeu algum tipo de lição de que sem florestas, árvores, fotossíntese e todo o resto, não há vida.
Só que nem tudo são flores para Arco, que se ressente com uma medida de Governo que impede que crianças viajem no tempo - o que só é permitido a partir dos 12 anos. Insatisfeito, o menino resolve furtar a capa mágica de sua irmã, bem como o diamante de refração que permite a conclusão da jornada, na ideia de voltar ao tempo dos dinossauros (o garoto parece ser fã da turma do Jurassic Park). Só que, claro, as coisas saem errado e Arco acaba caindo justamente em 2075, sendo encontrado no meio do mato por Íris. A mesma que fará de tudo para proteger o visitante inesperado, principalmente de um trio meio maluquete de conspiradores - seus nomes são Dougie (Vicente Macaigna), Stewie (Luís Garrel) e Frankie (William Lebghil) - que querem capturar o menino de todas as formas, por acreditarem já terem visto aparições do tipo duas décadas antes. Desesperado, como se fosse um ET de Spielberg, Arco fará de tudo para tentar voltar para casa. Tendo como barreira o fato de ter perdido a sua pedra preciosa em meio à queda.
E como se as coisas não fossem excessivamente complicadas, Arco e Íris precisam lidar com outras preocupações - os pais da menina, por exemplo, nunca estão em casa (aparecem apenas como hologramas que trabalham, pelo visto, em escala 7x0). Já o carismático robô Mikki (o próprio Ugo Bienvenu), a despeito dos seus esforços em ser uma espécie de babá que é pau pra toda obra, acaba pifando em certa altura, o que atrairá a atenção de outros robôs. E tudo piora quando um enorme incêndio florestal se inicia, sendo que uma das únicas chances de Arco poder voltar envolve a possibilidade de um dia com sol e chuva ao mesmo tempo. Discutindo temas relacionados à importância das amizades, memória e infância a obra, que está em cartaz no cinemas, equilibra bem instantes singelos, divertidos, tensos e reflexivos. Nos fazendo pensar sobre futuro, especialmente no que diz respeito aos impactos da tecnologia e do clima para as próximas gerações.
Vamos combinar que existem discos que soam tão pequenos, tão minimalistas, mas que parecem se expandir a cada nova audição, como se preenchessem todos os espaços. E é exatamente esse o sentimentos com Dream Life, o novo registro de inéditas da italiana Marta Del Grandi. De atmosfera simples, mas emocionalmente amplo, o álbum propositalmente gira em torno da ideia dos sonhos - mas não apenas evocando imagens oníricas, mas como uma metáfora para expectativas, memórias, desejos e a forma como nos relacionamos com o presente. A própria artista, em entrevistas, revelou que as coincidências e encontros que teve durante a concepção do registro, a levavam sempre de volta a esse contexto em que o real e o irreal, ou o concreto e o abstrato, se misturam. "As canções refletem isso, equilibrando momentos mais introspectivos e partes mais surreais e extravagantes", apontou a cantora.
E um bom exemplo desse expediente pode ser percebido na evocativa 20 Days of Summer que, com seus efeitos eletrônicos minúsculos, refrão pegajoso e estilo vocal rarefeito soa ao mesmo tempo nostálgica, mas contemporânea, altamente pop e sensual, mas de tintas experimentais e econômicas - o que é reforçado pela letra de espírito transitório sobre expectativas, memórias e desejos (Como me perdi numa nuvem? / Vinte dias de verão é tudo o que me resta / Para continuar e tentar respirar). Em outras, como na magnética Shoe Shaped Cloud, o pano de fundo político se entrecruza com ideais de identidade, de consciência e de tempo presente, com a figura da nuvem funcionando como uma alegoria visual que se conecta com emoções e experiências internas (Há uma nuvem em forma de sapato / Bloqueia o céu acima de nós).
De: Paul Greengrass. Com Matthew McCounaghey e America Ferrera. Drama / Suspense, EUA, 2025, 129 minutos.
Praticamente duas horas ininterruptas de um ônibus cheio de crianças em idade escolar, tentando se livrar a qualquer custo de um incêndio de proporções devastadoras. Bom, digamos que se você é masoquista o suficiente, bem-vindo à O Ônibus Perdido (The Lost Bus), obra do diretor Paul Greengrass - de Relatos do Mundo (2020) - e que só dei play por causa da maratona Oscar 2026 (a produção tem uma única e merecida indicação na categoria Efeitos Visuais). Por que eu preciso dizer a vocês que, com mais de três décadas como fã de cinema e sem soar presunçoso, a gente meio que fica com o faro apurado na hora de detectar filme ruim. Sabe aquela coisa que hoje em dia a gente tem de identificar bolsonarista só de olhar pra estampa do sujeito? Pois é, é meio que uma habilidade desenvolvida e, vamos combinar que filme catástrofe talvez combinasse mais com meados dos anos 90. Ou talvez, vá lá, fosse melhor se não fosse tão focado no heroísmo do sujeito taciturno que resolve salvar o dia por conta própria.
E por mais que as queimadas - e as tempestades, as nevascas, os tornados e outros problemas climáticos - estejam se intensificando a cada ano, a gente não vai ver uma linha a mais sobre como o aquecimento global e as crises do setor podem ser decisivas a cada nova catástrofe. Ainda no começo do filme, enquanto o motorista de ônibus Kevin Mckay (Matthew McConaughey) leva as crianças em segurança para as suas casas - em meio a avisos sobre colocarem o cinto, não chegarem perto da janela ou não bagunçarem -, o rádio alerta para os mais de 210 dias sem chuvas no norte da Califórnia. Com a tendência de a situação se agravar nos próximos dias. Some-se a isso as instalações precárias das torres de transmissão da concessionária Pacific Gas & Eletric (PGE), que fornece luz e gás natural para a região, e tá feito o estrago. Uma fagulha que seja de um equipamento mal ajustado e o resultado pode ser fatal.
Aliás, como foi nesse caso - o evento ocorreu em novembro de 2018, destruindo 13.500 casas e deixando 85 mortos. Fora a devastação ambiental, com seus danos incalculáveis. Poderia ser este um filme de denúncia sobre o absurdo de deixar nas mãos de empresas preocupadas apenas com o lucro, o destino de milhares de pessoas? Poderia. Mas esse não é um projeto sobre a tragédia do capitalismo tardio e sobre como muita gente queimará meio que praticamente viva se práticas mais sustentáveis não forem adotadas meio que pra ontem - o que só piora com o governo Trump. Aqui, em meio a bandeiras estadunidenses que se espalham a cada gabinete ou fachada de prédio, e bombeiros com caras de poucos amigos sem saber muito bem que rumo tomar diante do caos, emerge o destemido Kevin, um ferrado que afundou em meio a decadência do sonho americano.
E como nesse tipo de projeto clichê pouco é bobagem é claro que o protagonista é aquele sujeito poucas ideias, que adia o conserto do próprio ônibus colocando todo mundo em risco, ao mesmo tempo em que precisa lidar com traumas pessoais como a superação do luto pela morte do pai, com quem ele não teve contato por mais de duas décadas, enquanto tenta se aproximar do filho, que não o tolera. Nesse contexto há ainda a mãe de Kevin, Sherry (Mary Kathlene McCabe), uma idosa dependente. Ah, ele é separado. E odeia seu emprego. Mas claro que, mesmo sendo alguém meio intragável, será ele o recrutado para salvar um grupo de alunos que está isolado em uma escola próxima a uma zona de evacuação de Paradise, aos cuidados da carismática professora Mary (America Ferrera). Ali pelos vinte e poucos minutos ele chega no local, recolhe todo mundo iniciando a interminável tentativa de escapada. Tudo em meio a embates de bastidores envolvendo burocratas sem graça alguma e o caos total no trânsito. E boa sorte pra quem aguentar o suplício até a conclusão.