De: Julia Ducournau. Com Mélissa Boros, Golshifteh Farahani, Tahar Rahim e Emma Mackey. Drama / Terror, Bélgica / França, 2025, 128 minutos.
Uma alegoria sobre os diversos tipos de preconceito ou apenas um body horror sem sentido, que busca o choque pelo choque? Uma fábula sobre amadurecimento em um mundo distópico ou uma obra repleta de simbolismos, em tempos em que ainda nos recuperamos de uma pandemia? Colapso ambiental, avanço da extrema direita, tecnologia desenfreada, xenofobia - tudo isso ao mesmo tempo e, talvez, ainda mais um pouco. Verdade seja dita, assim como já havia ocorrido no ótimo Titane (2021), projeto anterior da diretora Julia Ducournau, Alpha, que chega aos cinemas, é mais uma daquelas experiências abertas, que permitem as mais variadas interpretações. Para o bem ou para o mal, esse é o tipo de cinema mais exagerado, que suscita amor e ódio em igual medida, enquanto os cinéfilos mais engajados se apressam em comparar o horror físico sombrio da diretora, ao modus operandi de um David Cronenberg, num cruzamento com o David Lynch (o que talvez tenha sentido, de fato).
Aqui a protagonista é uma adolescente de 13 anos - o nome da betinha (não sobra nada pra ela) é Alpha (Mélissa Boros) - que, numa noite de rebeldia aleatória e de drogadição perigosa à moda anos 90 ao som de Portishead, volta para casa com uma tatuagem no braço, onde está inscrita uma enorme letra "A". Em linhas gerais isso não significaria grandes coisas não fosse por um detalhe: nesse universo alternativo em que a trama ocorre, um novo vírus se espalha justamente pelo contato com sangue contaminado (o que parece ser uma possível alusão aos primeiros anos do HIV, especialmente pelo aceno à transmissão sexual). Entre a indignação e o acolhimento frente à barbeiragem da filha, sua mãe (Golshifteh Farahani), que é enfermeira, lhe leva para uma série de exames, a fim de detectar possíveis indícios da doença, que tem como principal "sintoma" converter o infectado em uma espécie de estátua de mármore em vida, que sopra um tipo de vento avermelhado (o que gera um efeito ao mesmo tempo estranho e fascinante).
Quando retorna para a escola, Alpha precisa lidar com o bullying dos colegas, que estão apavorados com a fato dela poder estar doente - o que é reforçado pelos constantes sangramentos de seu braço, justamente onde está a infeccionada a tatuagem, que nunca sara. E como se desgraça pouca não fosse bobagem, a adolescente ainda precisa lidar com o inesperado retorno de seu tio Amin (Tahar Rahim), um viciado em heroína que reaparece confuso, doente e pedindo abrigo à sua mãe. Em linhas gerais o conjunto é soturno, quase fantasmagórico, alternando momentos eventualmente fantásticos - como na cena em que Alpha se aventura do lado de fora da janela de seu quarto, enfrentando uma dura ventania -, com outros que apenas evidenciam o preconceito de quem pode estar carregando consigo um vírus letal. O que é reforçado na sequência da piscina em que a jovem desperta o mais completo horror naqueles que compartilham o ambiente com ela, após bater a cabeça e sangrar gravemente.
Talvez para alguns espectadores, as sequências meio repetitivas e o caráter aleatoriamente enigmático da narrativa pode soar cansativo ali pelas tantas - ainda mais quando a coisa se torna forçadamente simbólica, indo de ideias meio abstratas emprestadas da Bíblia (do pó viemos ao pó voltaremos?), até chegar às surpresas meio confusas, com uma revelação final que pode nem colar tanto assim - e confesso que também me aborreci um pouco, lá pelas tantas. Ainda assim, como já dito, os filmes de Julia Ducournau sempre funcionam como um exercício interessante de gênero, em que nos pegamos pensando sobre o que assistimos, ao mesmo tempo em que juntamos pistas para algum tipo de conclusão mais lógica sobre (e, spoiler, nunca seremos definitivos a respeito). Tenso, fragmentado e cheio da ambiguidades, o filme concorreu à Palma de Ouro no mais recente Festival de Cannes e, mesmo tendo saído de mãos abanando, reflete os tempos paranoicos e de deterioração do tecido social em que vivemos.
Nota: 7,0







