sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Novidades em Streaming - Todos Amam Touda (Al-djamí Iu-ríb Tuda)

De: Nabil Ayouch. Com Nisrin Erradi, Joud Chamihy e Lahcen Razzougui. Drama, Marrocos / França / Dinamarca / Noruega / Países Baixos / Bélgica, 2024, 102 minutos.

Não são necessários nem dez minutos de Todos Amam Touda (Al-djamí iu-ríb Tuda) - o enviado do Marrocos para a edição do Oscar do ano passado e que está disponível para aluguel na Amazon Prime -, para que as contradições do País, que fica na região noroeste da África, apareçam. Os letreiros da abertura da obra dirigida por Nabil Ayouch já fornecem alguns detalhes: "No século 19 as 'aitas' ergueram-se das planícies do Marrocos em direção às montanhas pela primeira vez. As mulheres ousaram cantá-lo em público em suas aldeias, lutando contra a injustiça, enfrentando os poderosos. Elas cantavam sem vergonha ou constrangimento, celebrando o prazer carnal. Elas ficaram conhecidas como sheikhats. Ao mesmo tempo idolatradas e desprezadas, a era moderna tentou destruí-las. Mas algumas resistiram, para que o poder de seu aita possa continuar a ressoar...".

Corta para uma dessas montanhas e surge em cena a carismática Touda (Nisrin Erradi), que insiste em tentar a vida como uma sheikhat, utilizando seu canto no sentido de preservar as tradições marroquinas, especialmente aquelas ligadas a já citada aita - que é uma forma de poesia cantada, que combina voz, percussão e dança. Sua apresentação é hipnótica, potente e sensual. Algo quase transcendental, como se corpo e alma, carne e natureza funcionassem como uma espécie de grito contra abusos de poder, injustiças sociais, de conflitos familiares, emancipação das mulheres e resistência política. Ao cabo, não demora para que percebamos que, para essas artistas, a luta se dá por meio da tradição oral. Um chamado público de denúncia contra os poderosos. A sequência é concluída com Touda sendo perseguida mata adentro por um trio de homens bêbados, repugnantes. Que abusam da força para estuprá-la. É agoniante. E ainda está no começo.

 


Sim, como em muitos países patriarcais, em que os homens se sentem à vontade e legitimados para associar à depravação ou a ilegalidade mulheres independentes, que quebram as normas sociais ou o status quo - o sonho molhadíssimo da extrema direita global, diga-se -, aqui a violência à elas e, por consequência, à Touda, parece emergir de todos os cantos, de todas as frestas. E não apenas quando ela canta e dança, em ambientes públicos, como bares, cabarés e festas da burguesia, mas em sua rotina, no foro íntimo, na vida doméstica. Ao cabo, Touda se empenha para manter as contas em dia, mesmo depois de ser abusada sexualmente. Tendo de recolher os cacos, até mesmo por ser uma mãe solo que cria um menino surdo e mudo de nome Yassine  (Joud Chamihy). O que representa uma série de outras barreiras e preconceitos cotidianos, com o simples fato de, por exemplo, encontrar uma escola adequada, se tornar algo complicado. 

Bem conduzida, entre o vibrante e o melancólico, o iluminado e o desalentador, a produção mostra como Touda tem de preservar o sorriso no rosto e o ânimo, mesmo estando devastada por dentro - e não deixa de ser fascinante o trabalho de Erradi, capaz de alternar em poucos segundos o estado de espírito, mesmo em meio a condições precárias, desiguais. No caminho da protagonista, um policial casado com quem ela se relaciona adiciona ainda o componente da instabilidade afetiva, por mais que ela tente se manter forte. E depois de passar por uma série de inseguranças no vilarejo em que mora, com apresentações canceladas - especialmente após confrontar determinadas humilhações -, ela resolve ir a grande Casablanca. Onde perceberá que a arte pode, de fato, ser um caminho para a salvação. A vida das sheikhats não irá se resolver - até por serem estigmatizadas, mesmo se mantendo relevantes. Mas ao furar a bolha e contar essa história para o mundo, Todos Amam Touda mostra que o machismo, a misoginia, a necessidade de controle do corpo e da sexualidade feminina (inclusive por meio da religião) e a falta de respeito às mulheres e ao local que ocupam como um todo no tecido social, devem ser combatidos de todas as formas. Especialmente com cultura, tradição, poesia, corpo, dança e luta. E não há nada mais político do que essa combinação.

Nota: 7,5 


quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Cinema - I Want Your Sex

De: Gregg Araki. Com Olivia Wilde, Cooper Hoffman, Mason Gooding, Chase Sui Wonders e Charli XCX. Comédia / Drama, EUA, 2026, 90 minutos. 

Se estudos mostram que os jovens estão mais conservadores, transando menos e até tendo outros interesses que não o sexo - ainda que a adesão à plataformas como Onlyfans e acessos ao XVideos talvez mostrem o contrário -, em alguma medida, um filme mais leve como I Want Your Sex, talvez possa ser uma alternativa divertida na hora de examinar esses tempos meio complexos em que vivemos. Sim, a obra do diretor Gregg Araki pode até ter o sexo já no seu título, ainda que a ousadia não avance para muito além de algumas cenas da Olivia Wilde com os seios de fora, usando roupas de couro coladíssimas ou transparentes e propondo alguns fetiches bastante convencionais - como se exibir de forma meio que onipresente de salto alto, com decotes abundantes e com uma atitude depravada ao estilo Millenial ou até mesmo Geração X, com bastante tesão. O que, no nosso caso, como brasileiros que cresceram nos anos 90, significa ter visto desde cedo na TV a Tiazinha do H, a prova da banheira ou o concurso da gata molhada (os dois últimos no saudoso Programa do Gugu).

Em linhas gerais a trama é bastante simples e coloca esse choque geracional meio que cara a cara quando Elliot (Cooper Hoffman, repetindo a preferência por mulheres mais velhas já vista em Licorice Pizza, mas com personalidade oposta em termos de confiança), um estudante de artes recém-formado, resolve tentar uma vaga de trabalho no escritório da performática artista plástica Erika Tracy (Wilde). O que ele consegue sem muito esforço, a despeito da fila quilométrica de interessados. Ao cabo, Erika é aquele tipo de artista contemporânea e provocativa que, em tempos em que uma banana colada com fita tape na parede rende milhões em um leilão, resolve criar uma peça repleta de simbolismos em que seus empregados mascam chicletes que, posteriormente, serão aplicados em uma tela que formará, em relevo, a imagem de lábios vaginais. No entorno da equipe, um sem fim de objetos - de vibradores a figurinos, passando por quadros excentricamente sensuais, que mais parecem saídos da mansão de algum ricaço do filme Laranja Mecânica (1971).

 


Importante dizer que fica claro, desde o primeiro minuto do filme, que a relação entre Erika e Elliot não será nada convencional - e o fato de a obra abrir com ela boiando de bruços em sua própria piscina, como um Joe Gillis de Crepúsculo dos Deuses (1950) dos nossos tempos, é a prova disso. E, claro, Elliot aparecer desesperado, tentando salvar a própria chefe da morte, vestindo apenas calcinha e sutiã rosas, não parece ajudar muito. Algum tipo de fetiche distinto? É o que descobriremos quando a trama retorna nove e meia semanas no tempo (sim, mais uma alusão engraçadinha), para contar não apenas como ambos se conheceram, mas como Erika, uma mulher já próxima dos 40 anos, se torna uma espécie de tutora (especialmente em um nível sexual) daquele rapaz notadamente desajeitado que, mesmo com apenas 23 anos, faz sexo bastante convencional em casa, com sua namorada Minerva (a cantora Charli XCX, que quase passa despercebida de tão discreta), que parece mais interessada em suas estudos científicos do que no namorado e seus desejos libidinosos.

Com idas e vindas no tempo, a trama mostra, por um lado, Elliot sendo interrogado por uma dupla de policiais (interpretados por Margaret Cho e Jonnhy Knoxville, sim, ele mesmo) e, por outro, os eventos do passado, que envolvem os vínculos do protagonista com pessoas do entorno que terão certa importância na narrativa, como o colega gay Zap (Mason Gooding) e a melhor amiga Apple (Chase Sui Wonders). Além, claro, da própria Erika, a artista cheia de afetação que parece debochar da arte contemporânea (que considera uma farsa, uma "masturbação arbitrária de sujeitos pretensioso"), ao mesmo tempo em que bebe dela. Ou busca validação dela - ao menos até o próximo cancelamento, mais um dos problemas desses tempos complexos e repletos de pessoas que se acham moralmente superioras, só porque frequentam o culto (mesmo que assistam pornô trans no sigilo). No meio do caminho, a dupla se aproxima e uma janela nunca antes imaginada por Elliot se abre, com debates interessantes a respeito da repressão sexual da atualidade ("os jovens de hoje preferem ver pornô ou jogar online"), leituras de Harold Robbins e performances sexuais excêntricas, que levam ao limite o sadomasoquismo, a submissão e até a humilhação. Sensual e extravagante, levemente audaciosa e cômica, essa é uma comédia soft porn dramática nem tão óbvia que avança um pouco a linha, mas sem perturbar demais o cidadão de bem.

Nota: 7,0  

 

terça-feira, 3 de novembro de 2026

Pitaquinho Musical - Ibibio Sound Machine (Chopping Mountain)

"As palavras têm um jeito / De propor uma mudança / Nesse mundo em que vivemos". Se existe uma fórmula para transformar o caos do mundo em pista de dança, o Ibibio Sound Machine parece ter encontrado o caminho em Chopping Mountain, sexto trabalho de inéditas do coletivo londrino liderado pela cantora filha de nigerianos Eno Williams. Mesclando o afropop de tintas futuristas que já virou uma espécie de marca registrada da banda, com boas doses de jazz, afrobeat, eletrônica e soul setentista, além de grooves irresistíveis, sintetizadores borbulhantes e vocais calorosos, o álbum passeia por diferentes épocas e geografias sem jamais perder a identidade. Nesse sentido, canções como Burning in Lagos (a efervescente abertura), When You Want to Dance e Concept of Love dão uma boa dimensão dessa mistura, enquanto a faixa título reforça a capacidade do grupo de transformar referências tão distintas em algo surpreendentemente coeso, dançante e propulsor.

 


Ainda assim, é importante não se deixar enganar pelo convite quase irresistível de mexer os quadris: por trás de toda essa arquitetura sonora ensolarada e cativante, existe um disco bastante atento aos tempos turbulentos de guerras, avanço da extrema direita, tecnologia cada vez mais invasiva e desastres ambientais que vivemos. Não por acaso, as mensagens de união, resistência, liberdade e esperança ganham contornos ainda mais interessantes. Não que o Ibibio Sound Machine esteja interessado em transformar a pista de dança em palanque - até porque os versos muitas vezes são mais sugestivos do que explícitos -, mas existe algo bastante significativo nessa escolha de responder a um mundo tão instável com música, afeto e celebração coletiva. Citada no começo desse textinho, Give Me Peace, ajuda a evidenciar esse lado mais reflexivo e político do trabalho. No fim das contas, Chopping Mountain é um daqueles discos que conseguem fazer pensar sem exigir que ninguém abandone a pista. Afinal, diante de tanta coisa fora do lugar, dançar também pode ser uma forma de resistência.

Nota: 9,0 

Novidades em Srreaming - Michael

De: Antoine Fuqua. Com Jaafar Jackson, Colman Domingo, Nia Long e Miles Teller. Drama / Biografia, EUA, 2026, 127 minutos.

Vamos combinar: a gente sabe que não é tarefa fácil condensar uma vida tão complexa e tão cheia de acontecimentos como a do astro Michael Jackson em um filme de apenas duas horas - e talvez seja esse o sentimento ao final dessa cinebiografia tão, mas tão chapa branca, que vai no limite do insosso. Sim, o mundo todo está se perguntando os motivos de temas espinhosos relacionados ao Rei do Pop - como as acusações de abuso sexual infantil, as mudanças em sua aparência (inclusive no que diz respeito à cor da pele) ou mesmo o abuso de medicamentos após o fatídico acidente que quase o levou à morte (o da queimadura na cabeça, durante a gravação de um comercial para a Pepsi) - terem sido simplesmente ignorados em Michael, mas o caso é que pega meio mal fingir que a coisa toda não existe, por mais que haja implicações jurídicas que impeçam certas abordagens. 

E o fato de a obra do diretor Antoine Fuqua (Dia de Treinamento, 2001) ter sido, em grande parte, produzida, roteirizada e até estrelada por familiares - o protagonista é vivido por Jaafar Jackson, sobrinho de Michael -, torna tudo ainda pior. A completa ausência da irmã Janet, por exemplo, parece ter a ver com esse contexto, já que mesmo ela teria ficado incomodada com o estilo absolutamente laudatório e apologético da produção. E eu já sabia que a crítica estava meio que descendo a lenha na obra, que estreou recentemente na plataforma da Amazon Prime, mas quis ver com os meus próprios olhos. E, bom, se no começo parecia ruim - e eu já revirei os olhos nos primeiros quinze minutos, quando o pai de Michael, Joe Jackson (um esforçado e maquiado Colman Domingo), solta uma frase de efeito à moda livro de autoajuda de "na vida só se pode ser vencedor ou perdedor" -, no final, quando assistimos 15 minutos de apresentação masturbatória em um suposto epílogo heroico, parecia o começo.

 


Porque o problema é que o filme termina na metade dos anos 80, quando o artista se recupera da tragédia que resulta em queimaduras de terceiro grau, talvez em um dos únicos momentos mais intensos da trama. Ou que nos conecte um pouco mais com o humano Michael - que nem percebe que seus cabelos estão queimando depois que uma fagulha de fogo pousa em sua cabeça. O caso é que, de maneira geral a impressão que dá é que não estamos diante de um cantor, por maior que fosse o dono dos hits Beat It, Thriller e Billie Jean, mas sim de um ser elevado, quase celestial. E que não é apenas dono de uma voz angelical, mas que também, nas horas vagas, abriga bichos de estimação excêntricos, visita crianças acamadas em hospitais e assiste a uma série de filmes conforto, como Cantando na Chuva (1952) ou obras de Charlie Chaplin, com a mãe Katherine (Nia Long).

O grande conflito? Apenas com o autoritário Joe, que queria controlar todos os aspectos da carreira do filho, não abrindo mão do coletivo. Especialmente nos momentos em que ele se sente estimulado a dar seus voos solo - que resultariam nos clássicos álbuns Off The Wall (1979) e Thriller (1982). Entre conversas de bastidores com empresários, como John Branca (Miles Telles, de mullets) ou produtores e executivos da indústria musical, como o fundador da Motown Berry Gordy (Larenz Tate) e Quincy Jones (Kendrick Sampson), o patriarca da família - integrada ainda pelos outros quatro irmãos e pela flexível mãe Katherine (Nia Long) -, se impõe como uma barreira onipresente, sempre com cara de poucos amigos e feições carrancudas. O que não impede Michael de ir construindo sua carreira de forma quase absolutamente natural, dado o seu raro timbre vocal e habilidade na construção de hits (e confesso que senti falta de saber mais detalhes de como clássicos como Heal the World ou Smooth Criminal brotaram para o mundo). No mais fica uma sensação de incompletude e até de mais do mesmo, que talvez um documentário como Finding Neverland (2019) possa suprir.

Nota: 2,0 

 

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Novidades em Streaming - O Castigo (El Castigo)

De: Matías Bize. Com Antonia Zegers, Néstor Cantillana e Catalina Saavedra. Drama, Argentina / Chile, 2022, 86 minutos.

"Criar uma criança é fácil, basta satisfazer-lhe as vontades. Educar é que trabalhoso." Devo admitir a vocês que, enquanto assistia ao ótimo O Castigo (El Castigo) - obra dirigida pelo chileno Matías Bize, a partir de roteiro da escritora Coral Cruz -, a famosa frase do pedagogo Içami Tiba, não me saía da cabeça. Afinal de contas, estabelecer limites aos pequenos, lembrando-lhes que nem tudo nessa vida é permitido, que existem regras, responsabilidades e consequências para os atos, pode ser algo mais difícil do que parece. Gerando frustração, mas também reforçando a importância do equilíbrio entre amor e limites, acolhimento e responsabilidade. E é nesse meio do caminho que parece residir o dilema dessa pequena joia, que finalmente chega à Reserva Imovision, e que coloca o casal Ana (Antonia Zegers) e Mateo (Néstor Cantillana) em lados opostos quando o filho Lucas (Santiago Urbina) desaparece, sem deixar rastro.

No começo do filme, Ana e Mateo trafegam vagarosamente por uma estrada vicinal asfaltada, ladeada por uma densa floresta - um cenário meio isolado, no Sul do Chile. Quando o homem diz à esposa, "Ana, acho que já chega", ela dá meia volta e para o carro uns dois quilômetros depois. Quando tem início uma saga meio desesperada do casal clamando pelo nome de Lucas, em vão. Ele sumiu deixando apenas um boné para trás. Não demora para que tenhamos a compreensão do que aconteceu: "abandonar" o filho junto ao mato era parte de um castigo - um tipo de faz de conta que teria o objetivo de assustar o pequeno, que estava tornando a viagem dos dois (especialmente a de Ana) à casa de familiares, um verdadeiro inferno. O caso é que a trollada no próprio filho dá errado, e eles se veem numa situação inusitada, que os leva a um limite muito próximo ao da negligência parental. O filho sumiu e a culpa é, aparentemente, dos dois. E como explicar isso pra polícia, sem que eles sejam incriminados?

 


Inteligente, a obra se vale de longos planos sequência em que o casal se divide pelo mato, chamando por Lucas. Quando uma dupla de policiais chega para investigar - a noite está caindo e com ela vem o frio, e até o receio de que pumas selvagens possam estar espalhados pelo mato, o que aumenta o senso de urgência -, uma espécie de força tarefa é estabelecida para tentar localizar o menino. A cada "reencontro" entre Ana e Mateo nesse cenário vasto e claustrofóbico, uma série de ressentimentos vêm à tona, no que diz respeito ao tipo de criação dada à Lucas. "Você ama ser visto como o papai heroi, que aparece sempre rindo para salvar o filhinho", argumenta Ana, em um exame daquilo que acredita ser um excesso de flexibilização do marido, em relação aos caprichos do menino. "Então é normal que eu seja a bruxa, a pessoa que sempre diz não", completa a protagonista, tornando evidentes as divergências entre ambos - com ela sendo a figura de autoridade, que estabelece horários, que sustenta decisões domésticas difíceis e cobra responsabilidades, ao passo que Mateo é o permissivo, que atende a todos os pedidos e proporciona os momentos de prazer - como as idas aos jogos de futebol.

Em linhas gerais esse é um filme pequeno, urgente, que se utiliza do sumiço meio inexplicável de um filho, para a análise um tanto franca de como a maternidade pode significar uma existência de desejos e sonhos interrompidos, de frustrações e até de arrependimentos. [SPOILERS A PARTIR DAQUI] Com uma sinceridade comovente, em meio às lágrimas e conforme as horas avançam, Ana revela a Mateo que talvez nunca quisesse ter sido mãe. E que foi apenas levada - pelo contexto, pelas convenções sociais e pelas expectativas em relação ao papel da mulher, especialmente em comunidades mais conservadoras. "Você deve me achar um monstro, mas há uma parte de mim que deseja não encontrá-lo nunca. E essa é a primeira vez que ouso confessar", comenta às lágrimas a mãe, evidenciando a exaustão de quem tem uma vida que gira em torno do filho. "Lucas me faz me sentir vazia e me lembrar de tudo o que desisti e isso é meio que parecido com deixar de existir", desaba a mulher, amparada pelo próprio marido. Sim, pode ser chocante para quem assiste. Mas eu tenho a mais absoluta certeza de que, lá no fundinho e, independente do amor (quase) incondicional aos filhos, muita gente poderá concordar. Não se trata de não amar a família - e Ana faz questão de lembrar o marido disso o tempo todo. "O que eu odeio é ser mãe", argumenta Ana instantes antes de Lucas reaparecer, conduzido pelo policial. O impacto permanece até o fim dos créditos.

Nota: 9,0 

 

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Novidades em Streaming - A Terapia Certa (Lo Dejamos Acá)

De: Hernán Goldfrid. Com Ricardo Darín, Diego Peretti e Antonia Bengoechea. Comédia / Drama, Argentina, 2026, 98 minutos.

Devo admitir a vocês que fui assistir esse A Terapia Certa (Lo Dejamos Acá) com expectativas meio baixas - até mesmo pelo fato de o padrão Netflix de produção atual não empolgar - mas, verdade seja dita, me "diverti" bastante. E a palavra diverti vai entre aspas justamente por se tratar de uma comédia de humor negro com direito a uma série de reviravoltas, surpresas inesperadas, comentários engraçados e certo deboche enviesado a respeito dos tempos que vivemos - e, muito provavelmente, pra suportar a Argentina de Milei, só se for com muita terapia. E talvez não seja por acaso que, ainda no começo da obra de Hernán Goldfrid - do apenas médio Tese Sobre Um Homicídio (2013) - o psicanalista Ulysses Verón (o onipresente Ricardo Darín) pareça apenas resignado ao receber um prêmio de Excelência em Psicologia.

Em seu discurso, o sujeito lembra que a Argentina é o País com a maior quantidade proporcional de psicanalistas do mundo e que nos últimos anos o número de pessoas com transtornos duplicou - e arrisco dizer que essa não é exclusividade dos nossos hermanos. Da plateia, o renomado escritor Martín Bouchard (Diego Peretti) observa com atenção a fala de Ulysses, que recusa o prêmio após contar a história de um outro terapeuta, que se tratava justamente com ele, que abandona a carreira depois de anos de atividade, para morrer solitário de hipotermia. A tragédia poderia ser evitada? Quem cuida da cabeça do palhaço, quando não conseguimos mais sorrir? Bom, divagações a parte, o fato é que Martín, mesmo com uma carreira sólida na literatura, com elogios de público e crítica, está com um severo bloqueio criativo. Achando que Ulysses pode ser a solução.

 


O caso é que até o primeiro encontro de Martin e Ulysses - e é muito divertido ver a dupla Darín e Peretti em tela (a cena em que ambos dançam e se embebedam ao som de Careless Whisper, do Wham!, já está entre as menos esperadas e hilárias do ano) -, já percebemos que os métodos do segundo não parecem ser muito convencionais. Adepto de uma terapia meio que de choque, de confronto dos medos e paranoias, o terapeuta meio que conduz seus pacientes pela mão, auxiliando-os a tomar suas decisões no front de batalha. Por exemplo, a uma paciente que não consegue dialogar com sua mãe narcisista, ele decide por conta própria levá-la até a sua genitora para que conversem sobre. A uma outra, que está sendo traída pelo marido, determina que ela rompa essa "gaiola" em que se encontra presa e se liberte. As consultas aleatórias podem até invadir o cotidiano, como no caso das recomendações ao taxista infeliz com o casamento, que leva Ulysses ao programa de variedades da TV local, que ele participa semanalmente.

[SPOILERS A PARTIR DAQUI] No caso de Martín, o fato é que o alcoolismo tem atrapalhado o seu processo criativo - a despeito de a bebida ser um eventual indutor, como era com Hemingway e outros beberrões bons de copo. O atraso da entrega dos manuscritos à editora deixa o sujeito exasperado e, que solução poderia ser melhor do que simplesmente o terapeuta invadir a casa do seu paciente para escrever o livro em seu lugar, utilizando como matéria-prima suas próprias experiências como psicanalista? O escritor - o real e não o ghost writer - não percebe a maracutaia, ao menos inicialmente, por estar sempre bêbado (e. numa dessas. Ulysses consegue fazer cópias das chaves da residência do autor, onde ocorrem as sessões de terapia). E, bom, não é preciso ser nenhum expert em suspense de comédia pra saber que a coisa vai desandar. Ainda que Martín seja "curado", e O Pragmático, o mais novo e elogiado volume, venha a público.

 

 

No dia do lançamento do livro, Martin deixa a Ulysses um recado ambíguo: "esse é o resultado de segredos bem guardados". E para o público, cada nova curva da narrativa pode representar uma surpresa, como no momento em que o escritor liga para o seu terapeuta em um ato de desespero, junto ao parapeito de seu prédio. O caso é que O Pragmático se torna o melhor livro da carreira de Martín Bochard e, conforme sua desconfiança a respeito do processo criativo aumenta, também sobe a tensão a sobre a efetividade de um método terapêutico tão abusivo quanto eficiente. "Dos que vêm pedir ajuda nesse consultório, o que mais precisa de ajuda é você", observa, quase no final, a filha de Ulysses, Paula (Antonia Beongoechea), que é secretária do próprio pai e também estudante de Psicologia. É ela que começa a desconfiar do ocorrido e que tem papel importante na resolução. Ao cabo, trata-se de uma experiência curta e movimentada, de cores vivas e fotografia saturada à moda Netflix. Mas há um brilho aqui que talvez seja carregado pelos seus atores. E que talvez amplie a impressão de que o cinema argentino talvez seja maior do que é.

Nota: 7,0 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Pitaquinho Musical - Interpol (This Mirror Weighs a Ton)

Hipervigilância, inteligência artificial, onipresença das big techs, guerra cibernética, entretenimento alienante, ascensão da extrema direita e a consequente manipulação política. Vamos combinar que o pós punk soturno, urbano e de combustão meio lenta do Interpol nunca pareceu tão adequado aos tempos que vivemos, como em 2026 - e talvez não seja por acaso que a banda capitaneada por Paul Banks optou por olhar, por meio de This Mirror Weighs a Ton, com certo amargor para esse contexto em que parecemos a cada dia mais pessimistas, em um cenário de desinformação e de realidades distorcidas. Em linhas gerais o espelho pode "pesar uma tonelada", não apenas por aquilo que vemos, mas também por aquilo que parece deixar a nossa imagem deformada por conivência a certa banalização, especialmente frente ao fato de que meio que testemunhamos tudo, o tempo todo, em todo lugar. Sentimento reforçado pela ótima capa.

 


E talvez não seja por acaso que muitas das canções desse oitavo e mais recente projeto aludam à influência direta da tecnologia em nosso cotidiano. Um bom exemplo disso, pode ser percebido na sombria Iron City, uma espécie de balada metalizada ao piano, que parece simular uma espécie de diálogo entre o narrador que protege a sua família e uma IA, ao mesmo tempo em que tenta identificar se ela é benevolente ou hostil (Dormimos profundamente / E agora a incerteza dá lugar ao progresso). Outras músicas reforçam essas ideias que se espalham de forma melancólica, discutindo assuntos como violência midiática e exposição (Wounded Soldier), polarização em tempos digitais (Enemy), paranoia (See Out Loud) e introspecção e endurecimento emocional (na faixa-título). Verdade seja dita que o Interpol nunca deixou de ser relevante. Mas aqui talvez tenhamos o maior acerto desde o excelente El Pintor (2014).

Nota: 8,5 

Tesouros Cinéfilos - Natal Amargo (Amarga Navidad)

De: Pedro Almodóvar. Com Bárbara Lennie, Leonardo Sbaraglia, Patrick Criado, Victoria Luengo e Quim Gutiérrez. Drama / Comédia, Espanha, 2026, 111 minutos.

Devo admitir que vejo certa beleza meio poética em ver artistas mais velhos permanecendo criativos e relevantes - seja o Clint Eastwood com mais de 90 anos andando de cavalo em um filme ainda recente, mesmo tendo mais de noventa anos, ou acompanhando os Rolling Stones lançando álbum novo em pleno 2026, mesmo com mais de 60 anos de carreira. Mas se a gente acredita que há um tempo ideal de aposentadoria para qualquer ser humano, por quê para quem trabalha com música, cinema, literatura, artes plásticas ou qualquer outro campo da criatividade deveria ser diferente? Bom, Natal Amargo (Amarga Navidad), o novo filme do diretor Pedro Almodóvar, um dos favoritos aqui da casa, parece ser bastante autobiográfico ao versar sobre o assunto que, aqui e ali, aparentemente perturba artistas que vão se aproximando da velhice, como é o caso dele mesmo, que está com 77 anos. Até quando seguir produzindo? É possível viver apenas do prestígio já acumulado por décadas?

Em entrevista à Vogue espanhola, o realizador famoso por uma série de clássicos - muitos deles resenhados aqui no Picanha, como Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos (1988), Carne Trêmula (1998), Tudo Sobre Minha Mãe (1999) -, admitiu que um dos maiores medos de quem trabalha no meio artístico é perder a capacidade de criar. O que parece estar no centro do comportamento de Raúl (Leonardo Sbaraglia), um renomado cineasta especialmente ligado a causas LGBTQIA+, daqueles que são tão relevantes que um simples convite para participar de um painel na Europa, significa o depósito de 200 mil dólares em sua conta. Ele já tem fama, prestígio, e poderia seguir para sempre no ostracismo, que não passaria fome. Mas ele está empenhado em um novo roteiro - justamente o de Natal Amargo (que é o filme dentro do filme) sobre Elsa (Bárbara Lennie), uma diretora de comerciais de TV, que sofre com severas e recorrentes enxaquecas.

 


A trama de Elsa se passa em 2004 e, em alguma medida, remonta à juventude do próprio Raúl, uma vez que uma série de eventos parecem inspirados em sua própria vida pregressa. Por exemplo, o atual namorado Santi (Quim Gutiérrez) surge em sua juventude como o bombeiro que faz um bico como stripper Beau (Patrick Criado), o namorado de Elsa que ela conheceu em um clube voltado às mulheres, em meio à despedida de solteiro de uma amiga. Convidado por ela para protagonizar um comercial de cuecas, se torna seu companheiro. Na busca pela cura das dores de cabeça, Elsa vai e vem em meio à consultas em hospitais, até a sua amiga Patrícia (Victoria Luengo) à conectar com uma psiquiatra, que lhe promete um medicamento meio milagroso de tarja preta, que lhe resolveria uma possível síndrome do pânico (e junto a enxaqueca). Que poderia advir de um tipo de processo de autossabotagem já que ela teria tentado, em vão, ser diretora de cinema no passado, com dois filmes atualmente (ou dentro dessa trama) considerados cults por um diminuto público, em sua carreira.

Aqui e ali o excesso de personagens - os da linha do tempo de Raúl ocorrendo vinte anos depois, em 2025 -, e as idas e vindas entre as duas histórias podem gerar uma leve confusão, em uma produção metalinguística que, nem de longe, alude aos melhores momentos de Almodóvar. Só que, ainda assim, verdade seja dita, o diretor segue sendo muito superior a muitos cineastas metidos a cabeçudos que andam por aí, em sua análise afiada de temas gerais ligados ao luto (nas duas histórias os personagens sofrem com perdas), processo de envelhecimento, conflitos relacionados às dores do corpo e da mente e até o ego dos artistas, com seus bloqueios criativos e mesmo autossabotagens. No filme dentro do filme, Elsa vai para o litoral passar férias, inspirada a escrever um terceiro filme, com uma série de personagens femininas e suas relações complexas surgindo na história, como é o caso de Natália (Milena Smit), que seria inspirada em uma amiga de Mónica (Aitana Sánchez-Gijón), a assistente de Raúl. Entre o inseguro e o incerto, o acomodado e o ambicioso, Almodóvar, pelo visto, pode ficar tranquilo: seu cinema ainda tem respaldo do público e da crítica.