A capa absolutamente safadinha, movimentada e divertida de Sexistential já dá o tom: Robyn está de volta à pista e quer curtir. Quer a dopamina lá no alto, como qualquer mulher 40+ livre, independente e que na vida já passou por bastante coisa. E esse sentimento geral não está apenas nas batidas hipnóticas, transcendentais, mas também nas letras cheias de ambiguidades sensuais, que dialogam perfeitamente com o espírito contemporâneo de hiperestimulação que vivemos. Não é que ela reinventa a roda, mas não deixa de ser interessante perceber como ela dialoga com uma versão dela mesma do passado e com outras artistas que beberam de sua fonte - com seus mais 30 anos ela influenciou muita gente (de Britney Spears à Robyn, passando por Billie Eilish e Charlie XCX) -, mas sempre preservando a personalidade, com uma capacidade de olhar para o passado, sem ignorar o futuro. Sua música, ao cabo, consegue ser nostálgica e contemporânea, como uma nave espacial pousando nos anos 90.
"Foi como se tivesse explorado o espaço sideral e agora retornado a mim mesma", explicou a artista - salientando como a introspecção e a calmaria vistas no ótimo Honey (nosso oitavo colocado na lista de melhores internacionais de 2018) agora dão espaço a uma certa urgência, como uma chama excitante que acende uma coisa mais física, mais corpórea. Não por acaso, singles estimulantes como Dopamine funcionam quase como uma chave conceitual do registro, reforçando a ideia do amor e do desejo como um tipo de química que gera dependência (Eu sei que é só dopamina / Mas parece tão real pra mim). Claro que mesmo em um contexto de autoconfiança ainda há espaço para a vulnerabilidade (Sucker for Love), ambiguidades sexuais (Talk to Me) e as contradições entre desejo e maternidade (na faixa título). É um álbum de apenas 29 minutos e que, de forma impressionante, só cresce a cada nova audição. O que consolida a sueca como uma das grandes artistas pop dos tempos atuais.
De: Diego Céspedes. Com Tamara Cortés, Matías Catalán e Paula Dinamarca. Drama, Chile / Espanha / França / Bélgica / Alemanha, 2025, 107 minutos.
Quem acompanha o cinema brasileiro de perto, certamente não deixou passar batido o ainda recente Os Primeiros Soldados (2021), obra tão sutil quanto comovente, que retorna ao início dos anos 80 para uma narrativa a respeito dos primeiros casos de contaminação de AIDS no Brasil - doença que, em uma época de pouca informação, chegou a ser apelidada de "peste gay", o que reforçaria o estigma em relação ao público LGBTQIA+. Em alguma medida, o tema central do filme dirigido por Rodrigo Oliveira, retorna em O Olhar Misterioso do Flamingo (La Misteriosa Mirada del Flamingo), obra enviada pelo Chile ao Oscar desse ano (não chegou a estar entre as finalistas), e que está em cartaz nas salas de cinema do País. Na trama, uma cidade mineradora no norte do País é assolada por uma doença mortal e que é transmitida pelo olhar, quando duas pessoas se apaixonam.
Parece simples até demais e uma alegoria quase óbvia quando pensamos no ano de 1982, em um espaço ermo, isolado e essencialmente arenoso. É nesse cenário que os trabalhadores - homens brutos, suados e solitários -, encontram conforto nos braços de um coletivo queer que habita o único bordel da região. Tudo corre mais ou menos bem até o dia em que a peste se espalha - e com ela o terror. Não por acaso, em uma das primeiras sequências, a pequena Lídia (Tamara Cortés) é acossada à beira de um lago por um grupo nada amistoso de adolescentes. Quando a notícia chega à Flamenco (Matías Catalán), mãe de Lídia, ela e suas colegas trans resolvem dar o troco: emboscam os meninos no mesmo local, obrigando o principal agressor a abrir bem os olhos. Em uma mirada profunda, Flamenco verbaliza em sussurro quase mortal: "peste". É como se a transmissão tivesse ocorrido. O destino fosse selado. Sem espaço para negociação.
O caso é que Flamenco padece há semanas de uma série de sintomas que fazem com que ela emagreça, em meio a tosses com sangue e crises de diarreia. Tomada pela peste, ela gera revolta de seu antigo amante, Yovani (Pedro Muñoz), que, desiludido, tenta assassiná-la, o que gera uma confusão na boate, justamente em uma noite que se pretende festiva. E, por mais sombrio que cada instante possa parecer - com armas sendo empunhadas e caras de poucos amigos -, o filme é conduzido pelo estreante Diego Céspedes com uma leveza quase onírica, que eleva à produção ao limite do realismo fantástico (o que é reforçado pela inebriante sequência na floresta, em que Yovani se apaixona perdidamente por Flamenco, após cruzar com seu olhar penetrante). E mesmo tomada por uma essência eventualmente calorosa, a obra nunca deixa de apontar o absurdo do preconceito que, verdade seja dita, podia ser bem maior há quase cinquenta anos, mas que ainda segue a galope em um mundo reacionário.
Não por acaso, quando Yovani padece da doença ainda desconhecida, a pequena Lídia questiona a mãe do rapaz, que vem da cidade para recolher o corpo do filho: "você chegou a ver algo de estranho nos olhos dele?". Ao que a idosa responde: "você é muito jovem para acreditar nessas histórias de sujeitos covardes que se escondem atrás da doença". Ao cabo, a tal peste podia ser até uma novidade, mas jamais transmitida apenas pelo olhar. A paralisia pode ter mais a ver com o amor interrompido do que por qualquer outra coisa - e o sexo tem papel central nisso. Caótico, naturalista, divertido, pouco convencional, folclórico e afetuoso com suas personagens - em especialmente a dona do bordel, a Mamãe Boa (Paula Dinamarca) -, esse é aquele tipo de projeto imprevisível. Quando parece que tudo vai descambar pra violência inevitável, somos surpreendidos por instantes agridoces. O tema é sério, mas tratado com delicadeza. E leveza. O que torna a experiência irresistível.
De: Jelle de Jonge. Com Leny Breederveld e Martin van Waardenberg. Comédia / Drama / Romance, Holanda / Bélgica, 2024, 100 minutos.
Vamos combinar que os filmes sobre idosos perdendo a memória - seja por Alzheimer, demência ou qualquer outra doença degenerativa - e tendo de lidar com a devastação emocional causada por situações do tipo, já se tornou quase um subgênero do cinema. De obras densas e mais sérias como Meu Pai (2020) ou Vortex (2021) à produções mais leves e divertidas, como no caso de Ella e John (2017) ou Viver Duas Vezes (2019) não foram poucos os filmes a abordarem o tema - conectando-o, em muitos casos, a assuntos como memória, finitude, perda de identidade e mesmo diferenças geracionais. Em alguma medida, tudo isso se encontra no adocicado Uma Viagem Para Recordar (De Terugreis), filme holandês que foi o enviado ao Oscar na edição do ano passado - não chegou entre os finalistas - e que agora chega para aluguel em plataformas como a Amazon Prime e a Apple TV.
Bom, como um filme de comédia, não é demais dizer que essa é uma obra com um bom senso cômico, que emerge em muitas ocasiões do fato de o mundo atual parecer meio complicado demais para os idosos. Em tempos em que tudo soa tão urgente, tão veloz, tão tecnológico, parece um contrasenso só querer um pouco de paz, diante da televisão. O que talvez explique o comportamento excessivamente ranzinza, aborrecido de Jaap (Martin van Waardenberg), que parece uma versão mais irritada e caricata de Larry David, que não deseja mais cantarolar no coral da Igreja. Com o seu mau humor piorando quando ele percebe que a esposa Maartje (Leny Breederveld) está perdendo a memória. Esquecendo das coisas. Se perdendo em lugares. O casamento desgastado já dura quase meio século, mas ainda há espaço para o amor. Será que há?
As diferenças de personalidade de ambos - Maartje ainda parece disposta a viver experiências, curtir a vida, até mesmo namorar ou transar - fica ainda mais evidente quando a idosa enfia na cabeça que quer visitar um amigo que reside na Espanha e que ela não vê há décadas. Para Jaap sair de casa para tal empreitada parece ser mais ou menos como a pior coisa já inventada para se fazer no planeta, mas após uma situação em que a esposa se perde pela cidade, ele aceita entrar no carro. E rodar. E, claro, a partir dali a experiência ganha contornos de road movie com trilha sonora calorosa, lembranças afetuosas de lugares, objetos e pessoas do passado e um pouco de caos, claro, afinal a memória de Maartje vai falhar, nos dando aquele choque de realidade. Fora a surra que a dupla levará de qualquer aparato mais tecnológico que cruze seu caminho, como no momento em que a ambos sofrem pra abrir a porta do hotel.
Ok, esse é aquele filme que não doi, mas ainda parece que falta um pouquinho a mais para que a gente se conecte ou se comova verdadeiramente. Com a coisa se tornando um pouco mais do que uma coleção de situações meio aleatórias que se unem em uma história de um casal de idosos em viagem. Por mais que a sequência em que Jaap finge lutar com as vozes da cabeça de Maartje seja um esforço carismático, ali pelas tantas tudo vai se repetindo e meio que cansando. Ainda que a gente fique, de fato, reflexivo ao pensar no etarismo como um problema dos nossos tempos, especialmente em instantes que mostram academias apinhadas de jovens de corpos gostosos (o que se repete em outdoors pela cidade), ao passo em que a dupla quase bate um carro alugado por ele ser automático. É agridoce, sem pressa e nos faz lembrar da importâncias dos vínculos afetivos, das conexões. E era meio que só isso.
De Timur Bekmambetov. Com Chris Pratt, Rebecca Ferguson e Chris Sullivan. Suspense / Ficção científica, EUA, 2025, 100 minutos.
Quando vi a premissa de Justiça Artificial (Mercy), que tá na Apple TV, admito que fiquei animado. Afinal, um filme que discute os limites do uso da inteligência artificial, em uma sociedade pós-moderna essencialmente punitivista, parecia uma boa ideia. Ou, no mínimo, uma boa oportunidade de discussões ou reflexões um pouco mais profundas a respeito destes temas. Bom, santa ingenuidade - e talvez se eu tivesse ligado o nome do diretor à pessoa, talvez nem tivesse dado play. Afinal de contas, Timur Bekmambetov foi um dos produtores da tenebrosa releitura de A Guerra dos Mundos (2025), que foi meio que onipresente em qualquer lista de piores de 2025. Só que eu gosto de ficção científica, ainda mais se tiver uma pegada mais existencialista, então porque não um projeto meio Minority Report: A Nova Lei (2002) meio Jogos Mortais (2004) pra dar aquela agitada, né?
Só que não. Na trama estamos em um futuro mais ou menos próximo - um punhadinho e anos na frente - e com o aumento da criminalidade em uma Los Angeles turbulenta e à beira do colapso social, qual poderia ser o problema de utilizar o ChatGPT para decidir se este ou aquele sujeito é culpado de algo ilícito? É nesse cenário escabroso que o delegado de polícia local Chris Raven (Chris Pratt) surge, mas não como inquisidor - algo que ele até já foi, já que auxiliou na construção da engenhoca que funciona como juiz digital para crimes violentos - e, sim, como alguém que está sendo acusado. Aliás, acusado de assassinar a própria esposa, Nicole (Anabelle Wallis), em circunstâncias estranhas. Violento e viciado em bebida alcoólica, esse sujeito detestável - que não temos nenhum motivo em especial para torcer -, não lembra de nada que ocorreu durante a manhã. E tem apenas 90 minutos para tentar provar sua inocência.
Preso a uma espécie de cadeira elétrica, o homem tem acesso a uma série de documentos - fotos, vídeos, redes sociais dos envolvidos, imagens de câmeras corporais ou de segurança -, que podem ajudar a montar o quebra cabeças que solucione o caso. Enquanto um robô com o rosto e a voz de Rebecca Ferguson (seu nome é Maddox e ela integra o programa Mercy, que já julgou e condenou 18 réus, economizando recursos e agilizando os processos) lhe dá as instruções, lhe conduzindo de lá para cá e de cá para lá em um emaranhado de telas, pessoas e sons (e é quase um desafio não ficar tonto em meio a tudo aquilo, que só tem sentido em um filme mal feito, que tenta compensar as falhas com um aparato técnico ostensivo). Entre os contatos de Chris está sua filha Brit (Kylie Rogers), que mantém um misterioso segundo perfil no Instagram, além de outras figuras do entorno, como colegas policiais e companheiros de trabalho de Nicole, que podem ser a chave para a solução do caso.
Só que para além do dilema ético que poderia rondar esse tipo de decisão - capaz de deixar a galera do "bandido bom é bandido morto" mais ou menos excitada -, e que poderia ser melhor explorado na obra, tudo o que temos é um sujeito péssimo com a sua família (talvez ele não tenha matado a própria esposa, mas a impressão que dá é que ele tá sempre pronto a agredi-la física ou psicologicamente), essencialmente corrupto, já que integra um sistema de justiça falho interessado apenas em agradar parte da opinião pública, e que não tem nenhum tipo de personalidade mais complexa. Aliás, essa é mais uma produção que talvez fizesse sentido nos anos 90, afinal, quem, em pleno ano de 2026, ainda acha que dá pra torcer por um policial em um filme? E mais, um policial dos Estados Unidos? Nas ruas dessa Los Angeles turbulenta e dividida em guetos, fica ainda mais claro o racismo abjeto, com os habitantes da cidade sendo retratados como uma massa uniforme, latina (ou preta), pobre e sempre violenta. Mas quem vai salvar o dia e desmantelar o sistema? O policial misógino, claro. O cidadão de bem que vai se redimir. E que na próxima não vai socar a parede, quando ficar brabinho. Vai vendo.
Vamos combinar que, quem gosta do Big Thief, dificilmente ficará alheio ao trabalho solo de Buck Meek, que é o guitarrista e vocal de apoio do grupo. Afinal, tem uma crueza ali, uma sujeirinha no bom sentido e um estilo meio de cafofo indie - por mais movimentada, calorosa ou expansiva que seja a música. E o expediente se repete em The Mirror, terceiro registro solo do artista - e bastam os primeiros acordes da deliciosa, teatral e resplandecente Gasoline, que abre o registro, para que sejamos catapultados àquele universo empoeirado, quase místico, em que falar de amor nunca é óbvio. Há uma ansiedade boa ali que se espalha pela melodia magnética, daquelas que ficam na cabeça já na primeira audição, se estendendo para a letra romântica, mas, metafísica sobre quantuns e fótons e feixes de luz e a respeito de quem vai verbalizar o amor primeiro (Será eu ou será ela? / A dizer eu te amo primeiro?).
Em geral parece haver uma evolução nessa mescla de folk, lo-fi e rock alternativo com uma pitada de psicodelia em relação ao anterior Haunted Mountain (2023) que, diga-se, já era um bom disco, ainda que soasse mais intimista ou, vá lá, menos comercial. Há, em geral, um maior preenchimento sonoro agora, um instrumental mais expressivo, mais estruturado, o que faz com que canções como Can I Mend It? pareçam saídas de algum disco do The Decemberists fase The King Is Dead (2011). Percepção que talvez também tenha a ver com a participação de seus companheiros de banda, Adrianne Lenker e o irmão Dylan, em vocais de apoio, o que dá movimento a coisa toda. Há, e importante: Meek é um frasista e tanto, apostando na ironia como âncora pra essa ideia de espelho do título, de como nos vemos por meio do olhar do outro, o que adiciona camadas a músicas supostamente simples (Por muitos anos vivi com medo dos valentões e dos críticos / Agora sei o que eles odeiam). É redondinho.
De: Dag Johan Haugerud. Com Ella Øverbye, Selome Emnetu, Ane Dahl Torp e Anne Marit Jacobsen. Drama / Romance, Noruega, 2024, 111 minutos.
Creio que, poucas vezes na história do cinema, me deparei com a descrição de uma paixão avassaladora de forma tão poética, inteligente e vigorosa como na primeira meia hora do surpreendente e tocante Dreams (Drømmer) - o vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim do ano passado, e que foi incorporado, recentemente, ao catálogo da sempre ótima plataforma Reserva Imovision. Que atire a primeira pedra quem nunca se apaixonou por seu professor ou professora, e esse é exatamente o caso de Johanne (Ella Øverbye), uma estudante de ensino médio que tem uma atração instantânea e quase obsessiva por sua charmosa professora de francês Johanna (Selome Emnetu) - sim, com direito a peculiaridade de o nome de ambas ser diferenciado por apenas uma letra. Quando Johanna aparece pela primeira vez, com seu cacheado sedoso e um sorriso cheio de afeto, que parece ainda mais amplo em uma contraluz que a inunda pelo sol, o efeito parece meio que imediato sobre Johanne. E talvez seja.
Só que, em pleno processo de amadurecimento, entre não compreender bem aquilo que agonia o seu peito - um sentimento que parece ao mesmo tempo inconcebível e maravilhoso - a jovem também busca outros tipos de conexões, especialmente com o universo das artes, da dança e da literatura, que parecem aflorar a sua sensibilidade. E a sua percepção para o significado daquilo - para além do debate ético e quase meio lógico que poderia rondar uma adolescente de 15 ou 16 anos anos desejando de uma forma intensa a sua professora. Aliás, é justamente quando ela torce o pé e lê um livro - uma novela bastante romântica estilo Mulherzinhas -, que esse desabrochar inicia, ao menos em teoria. E ver Johanne em uma longa divagação em off nunca entediante, descrevendo as pequenas interações com a professora - seja em sala de aula, no pátio, nos corredores ou em outras situações - sempre em um estilo sublime, de devaneio quase transcendental, é comovente.
E, honestamente, é difícil não se conectar. Ou pensar em outras obras de arte - de canções populares como Apenas Mais Uma de Amor, do Lulu Santos (Eu gosto tanto de você / Que até prefiro esconder / Deixa assim ficar subentendido), a filmes como o clássico cultEncontros e Desencontros (2003), de Sofia Coppola -, que contribuam na definição do que é uma paixão platônica. Mas o caso é que é complicado para Johanne, por mais evoluídas que as pessoas ao seu redor sejam - inclusive a mãe progressista Kristin (Ane Dahl Torp), ou avó escritora Karin (Anne Marit Jacobsen) - verbalizar o seu amor. Mesmo para as suas amigas que, muitas vezes, a pegam olhando meio que para o nada sem muita explicação. Ao cabo, a fantasia se converte em um diário/livro com descrições bastante íntimas e cheias de vulnerabilidade que unem a narradora e seu objeto de desejo. Algo sexy mas secreto, e que ela morre de medo de contar para Johanna - por receio de que esta possa rir, "como riem os adultos quando uma criança fala algo fofo".
E vocês que leem essa resenha talvez achem curioso como um filme meio aleatório - que, na realidade, integra uma trilogia da diretora Dag Johan Haugerud (é a terceira parte depois de Sex e Love) - e que trata sobre o mais universal dos temas, possa ter tanto impacto. Mas é possível citar exemplos, como no instante em que Johanne descreve a forma elegante e cheia de personalidade com que a professora se veste - e de como a lã de suas blusas de tricô se conecta de forma bonita à sua pele -, ou mesmo em outro momento em que a protagonista admite que a realidade é sempre pior do que aquilo que idealizamos, em relação aos caminhos que nos conduzem àqueles que amamos. Pode parecer óbvio, mas a obra ganha ainda mais profundidade na segunda parte, quando o manuscrito do livro chega às mãos da avó e da mãe e de como elas tratam o caso - no limite entre o ensaio à denúncia de um crime sexual e a beleza do florescimento de alguém que está em pleno controle da situação e em processo de descoberta da própria sexualidade. Repleto de metáforas e alegorias, esse é um filme de fluidez magnética que, de quebra, ainda nos deixa meio nostálgicos em seu exame arrebatador das dores e delícias embriagantes das primeiras paixões.
De: Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman. Com Melvin Ray e Robert Council. Documentário, EUA, 2025, 114 minutos.
Vamos combinar que a gente tende a pensar que os problemas do sistema prisional - superpopulação, condições insalubres e violação de direitos humanos, só pra ficar em alguns exemplos -, são exclusividade do Brasil. Mas basta assistir a um documentário impactante como Alabama: Presos do Sistema (The Alabama Solution), que está disponível na HBO Max, para percebermos que isso também ocorre em países como os Estados Unidos. Aliás, se o sistema judiciário da terra do Tio Sam já costuma ser pra lá de questionável em qualquer circunstância, tudo tende a ser muito pior quando se tem um presidente que navega na antessala do fascismo - e teríamos de ser muito ingênuos pra acreditar que uma coisa não influencia a outra. Enfim, a obra dos cineastas Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman, e que foi uma das indicadas ao Oscar em sua categoria, é revoltante em muitas medidas.
Por que, vamos ser honestos, como é possível pensar em ressocialização de encarcerados se os presos permanecem em celas lotadas - com o dobro da capacidade ocupada -, sem qualquer tipo de higiene mínima que seja (com ratos, baratas e outros bichos espalhados), convivendo ainda com mofo, umidade, calor e outras condições precárias? Isso sem falar na falta de atendimento de saúde ou mesmo de agentes capacitados para a gestão das prisões. E que não desejem simplesmente assassinar presos por motivos fúteis, como no absurdo caso da morte de Steven Davis, que foi espancado até vir a óbito - e uma boa parte da trama é centrada nesse caso (que é só mais um entre tantos, em que a violência estatal surge como alternativa de contenção). E tudo que a mãe de Davis, Sandy, tem, é uma foto do filho desfigurado e muita vontade de obter algum tipo de justiça.
Em linhas gerais, o que o filme nos sugere é que há um problema meio generalizado no sistema carcerário estadunidense, que parece ser ainda mais grave no Sul dos Estados Unidos, onde costuma residir aquele tipo de cidadão de bem médio, o redneck de arma em punho que acredita que "bandido bom é bandido morto". Aliás, não é difícil imaginar essa parcela da população, sempre com a Bíblia a tiracolo, absolutamente indignada por esse desejo de dignidade, mínima que seja, para quem desviou da rota e veio a cometer algo ilícito. O punitivismo, aqui e ali, também aparece no cerne da narrativa - especialmente quando um grupo de presos começa a estudar e a ganhar força de forma coletiva, com o surgimento de movimentos como o Alabama Livre, que lutava por melhores condições nos presídios, além de remuneração de presos por trabalho prisional, possibilidade de revisão de sentenças, especialmente as mais longas, e diminuição sistemática da violência.
Claro que, em uma situação como a vista no documentário, é fácil saber qual a ponta mais fraca da equação - tanto que a ideia para a obra surge quando a dupla de diretores vai a um dos presídios para filmar um evento supostamente festivo e passa a achar estranho o comportamento taciturno dos presos que, por medo de retaliações, fazem revelações escabrosas sobre abusos e falhas do sistema. E nada do que vemos no filme seria possível se não fossem os celulares contrabandeados, que circulam nas celas, permitindo àqueles homens apresentarem o seu lado de uma narrativa que, quase sempre, só ouve a outra parte. Dando destaque a outros presos que também integraram o movimento Alabama Livre, que resultou em greves e paralisações que chamaram a atenção da opinião pública no País, como Robert Council e Melvin Ray, a produção ainda evidencia outras complexidades de um sistema corroído, com dificuldades para acessar advogados, para julgamentos mais justos ou mesmo para a liberdade de pensamento. "Vá para a Igreja ou o diabo te pega" aponta uma placa nada singela nas ruas floridas e meio insólitas do Alabama. Só que o inferno aqui, vem com derramamento de sangue, torturas psicológicas e dificuldade de manter a sanidade. É quase intragável.
De: Adrian Molina, Domee Shi e Madeline Sharafian. Yonas Kibreab, Brad Garrett, Remy Edgelry e Zoe Saldaña. Animação / Aventura / Ficção científica, EUA, 2025, 99 minutos.
Muito se fala de um certo desgaste da Pixar, tanto que filmes como Elio (Elio), que foi um dos indicados ao Oscar na categoria Animação, sequer foram muito comentados. E vamos combinar que a história batida de menino órfão que sonha em ser astronauta - um tipo de trama que parece meio deslocada no tempo -, não ajuda muito. Com a narrativa edificante sobre amadurecimento e superação de dificuldades em um contexto de traumas e perdas familiares, sendo daquelas de arrancar bocejos até das crianças. Com tudo piorando se somada a completa falta de carisma das personagens, a começar pelo protagonista bastante esquecível (um menininho comum que é meio deslumbrado pelo espaço, a ponto de construir uma engenhoca meio que implorando por uma abdução alienígena). O que ele faz deitado na praia, dia após dia, até ser acossado por uma dupla de valentões que mexe em seu rádio amador.
Depois de uma briga e de um olho roxo, Elio (Yonas Kibreab) consegue se infiltrar no local de trabalho de sua tia, Olga (Zoe Saldaña) - responsável por sua guarda -, que, convenientemente, é uma major da Força Aérea que precisa lidar com um teórico da conspiração de sua equipe, que afirma finalmente ter obtido alguma resposta à famosa Missão Voyager - programa da Nasa iniciado nos anos 70. Claro, ninguém acredita na balela do tal Gunther Melmac (Brendan Hunt), mas essa se torna a deixa perfeita para que Elio invada os computadores pra tentar um contato improvisado com os alienígenas, o que gera uma queda de luz que quase custa o emprego de Olga. A solução? Enviar o menino para um acampamento, local em que ele reencontra os valentões. Depois de mais alguns rebus o protagonista é, enfim, abduzido (pra alegria dele), ao mesmo tempo em que Olga recebe estranhas mensagens interplanetárias.
A segunda parte da história também tem aquela carinha de mais do mesmo, mas em tempos tão brutos como os que vivemos - de avanço da extrema direita e de políticas de ataque à minorias (especialmente os imigrantes) -, não deixa de ser interessante uma narrativa que lembra a importância de unir forças diante de um mal maior. Quando finalmente chega ao seu destino, Elio é recebido em um local conhecido como Comuniverso, onde alienígenas das mais variadas partes do mundo compartilham seus saberes (um local pautado pela generosidade e pelo pensar coletivo). Bom, isso até a chegada de um certo Lorde Grigon (Brad Garrett), uma espécie de senhor da guerra do planeta Hylurg que, rejeitado anteriormente pelo Comuniverso, pretende tomar o local a força. Promovendo uma guerra e escravizando o povo dali. Isso até a entrada de Elio na história, que pretende ser nomeado embaixador da Terra, após negociar com Grigon.
Em linhas gerais dá pra se dizer que, ok, é um filme que não doi. Ele avança meio que naquela lógica do enfrentamento a um vilão em que a ajuda mútua será fundamental - com esses ideais sendo reforçados no momento em que Elio conhece Glordon (Remy Edgelry), uma espécie de minhoca amistosa e repulsiva, com quem o pequeno faz amizade justamente quando tenta fugir da prisão perpetrada pelo grande vilão. Glordon é o filho de Grigon e passa a ser moeda de troca para o monstrengo deixe o Comuniverso em paz. Ao mesmo tempo, a carismática Ooooo (Shirley Henderson), um supercomputador gelatinoso e líquido e talvez a única figura realmente marcante, envia para a Terra um clone de Elio, para que Olga não se preocupe. E, claro, muita coisa dá errada no meio do caminho até que as peças se encaixem, as amizades se fortaleçam e a redenção de todos ocorra. Se isso ainda tem algum valor em 2026 é difícil saber já que pouca gente deu bola pra animação, que tá disponível na Disney+.