De: Hasan Hadi. Com Baneen Ahmad Nayyef, Waheed Thabet Khreibat e Sajad Mohamad Qasem. Drama, Iraque / EUA / Qatar, 2025, 105 minutos.
No clássico do cinema iraniano Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), um menino empreende uma verdadeira via-sacra para conseguir entregar um caderno para um colega de sala de aula, o que fará com que ele seja salvo de uma carraspana de seu rígido professor. Parece uma premissa simplíssima - e é -, mas, em muitos casos, a filmografia do diretor Abbas Kiarostami (e de seus pares) tinha essa característica: a de partir de um microcosmo para um exame mais amplo do contexto social, político, cultural e religioso do País de origem. E, enquanto assistia ao O Bolo do Presidente (Mamlaket al-qasab), obra da ainda incipiente produção iraquiana e que está em cartaz nas salas de cinema do País, me peguei pensando nas semelhanças entre ambas as produções, com seu estilo naturalista, quase documental, em que situações, dores ou expectativas cotidianas e até domésticas, recebem contornos mais amplos.
Irã e Iraque já foram até rivais em uma dura e sangrenta guerra nos anos 80, mas aqui parecem se assemelhar nessa busca por certo minimalismo fílmico. Que centra a narrativa no olhar de uma criança que, frente às tragédias do mundo que lhe rondam, precisa cumprir uma pesada missão. No caso da pequena Lamia (Baneen Ahmad Nayyef), ela tem o azar de ser a sorteada para elaborar um bolo para a sua turma da escola, como parte das comemorações do aniversário do presidente Saddam Hussein. Talvez isso não fosse assim tão complicado em um outro contexto, mas o caso é que Lamia, que vive com a sua avó diabética Bibi (Waheed Thabet Khreibat), é extremamente pobre. O que tornará a obtenção de farinha, ovos, leite e fermento uma jornada difícil - ainda mais em País que sofre uma série de sanções dos Estados Unidos, decorrentes da Guerra do Golfo.
É a década de 90 e já na abertura do filme dirigido por Hasan Hadi fica claro o cenário de escassez vivido pelos iranianos, com a população enfileirada diante de um caminhão pipa, se acotovelando para obter um galão de água. Na escola, o severo professor de Lamia já deu a letra: se a pequena não cumprir com a sua meta, sofrerá duras sanções governamentais. Aliás, Lamia não está sozinha nessa barca já que o pequeno Saeed (Sajad Mohamad Qasem), colega da criança, também é escolhido - no caso, para levar as frutas para a mesma celebração. Desesperada diante da situação e sem muitas alternativas no horizonte, Bibi decide doar a neta para uma família em melhores condições. A respeito do bolo? Eles que lutem, é mais ou menos a resposta da idosa. Só que Lamia, amedrontada, não aceita a situação e foge. Para encontrar, no meio do caminho, justamente Saeed que, entre um trambique e outro ao lado do pai deficiente, tenta conseguir a grana para as frutas.
Como já dito, trata-se de uma obra pequena, que se equilibra entre instantes mais calorosos - fortalecidos pela amizade cheia de idas e vindas das crianças -, com outros de mais impacto, como no momento em que um adulto oferece ajuda à Lamia para que, mais adiante, percebamos as suas verdadeiras (e torpes intenções). De lá para cá pela cidade, a protagonista terá o apoio de um cômico motorista de táxi que, inclusive, prestará socorro à Bibi, no momento em que ela vai à polícia para pedir socorro depois do sumiço da neta, e passa mal. Praticando golpes e também sendo passados para trás, Lamia e Saeed precisam aprender a sobreviver nesse cenário pantanoso, barulhento e caótico em que, não bastassem as mazelas cotidianas e a sua própria miséria, ainda lidam com a violência de uma guerra em curso, com suas bombas explodindo, tiros ao longe, e soldados feridos. "Bibi lhe disse por que ela está braba comigo?", pergunta uma Lamia chorosa, quase na reta final da obra, sendo meio que impossível segurar as lágrimas. Não há muita brecha para a esperança, para além do apoio daqueles que estão próximos. É a lição que fica dessa pequena joia, que venceu a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes.
Nota: 8,5







