segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Grandes Filmes Nacionais - O Céu de Suely

De: Karim Aïmouz. Com Hermila Guedes, João Miguel, Georgina Castro e Zezita Matos. Drama, Brasil, 2026, 88 minutos.

"Compra minha rifa. E é uma rifa de quê? De uma 'noite no paraíso.". Existe uma expressão que cunhei para definir o tipo de experiência vista em filmes como O Céu de Suely, que é a do Brasil do Asfalto. É aquele tipo de narrativa de calor escaldante, da beira da estrada, do posto de gasolina, do trilho do trem, do caminhão barulhento que passa e das cidades milimetricamente periféricas, pequenas e urbanas, que a gente vê não apenas no cinema, mas também em obras literárias, como as do Marçal Aquino, ou em músicas populares, radiofônicas, bregas e sentimentais que vemos justamente na trilha sonora - como é o caso da versão de Everything I Own, da Diana, que em português recebeu o título de Tudo Que Eu tenho. No caso, esse espaço rodoviários, isolado costuma fugir um pouco do estereótipo do Nordeste arenoso, agreste, que povoa nosso imaginário, sendo próximo de urbe popular da praça, do motel, do karaokê, da rádio, da pirataria.

Disponível na Netflix e vencedora de diversos prêmios, a produção de Karim Aïnouz remonta a um período supostamente feliz do Brasil - o dos primeiros governos Lula, com certa esperança por um futuro melhor, mas que nem sempre parece alcançar aquela parcela mais vulnerabilizada da sociedade que, longe dos herdeiros, bem nascidos e endinheirados, luta uma luta meio que diária. Sim, se pra nossa esquerda mais caviar o Flávio Bolsonaro parece um filme de terror catastrófico de extrema direita, pras pessoas que acompanhamos nesse pequeno clássico moderno, esse fascismo tropical parece ser meio que parte do cenário há uns 500 anos. E é justamente a desesperança, o abandono e a busca por condições melhores de vida, que faz com que Hermila (Hermila Guedes), rife o próprio corpo na tentativa de comprar uma passagem de ônibus para Porto Alegre, no eterno sonho do Sul do Brasil como um idílio de riqueza, de abundância e de trabalho a ser alcançado.

 


Quando a obra começa, Hermila está retornando para a sua cidade natal, a pequena Iguatu, no interior do Ceará. Acompanhada do seu filho, Mateuzinho, a jovem de apenas 21 anos aguarda a chegada de Mateus, seu namorado e pai do menino, visto em uma imagem borrada e dessaturada do casal em clima de romance, na abertura do filme. Na chegada, a protagonista é recebida de forma carinhosa pela tia Maria (Maria Menezes) e pela avó Zezita (Zezita Matos). No local, Hermila reencontra antigas amizades, como João (João Miguel), um motoqueiro apaixonado que ronda a jovem em suas andanças, além da divertida prostituta Georgina (Georgina Castro), que será uma espécie de conselheira para a tal "noite no paraíso" - o ambicioso prêmio da rifa que Hermila resolver organizar com os locais, após tentativas pouco efetivas de comércio de números com outros prêmios, como garrafas de uísque, e do sumiço sem muita explicação de Mateus, que mal atende suas ligações (feitas num orelhão, só pra adicionar uma pitada a mais nessa semiologia urbana).

Quando a notícia da rifa de Hermila se espalha, as famílias de bem ficam meio que em choque - especialmente após as compras movimentarem a cidade. Ao descobrir o segredo do dinheiro que aumenta, Zezita inquire a neta: a esbofeteia, obrigando-a a se desculpar (e, verdade seja dita que se essa fosse uma produção dos dias de hoje, muito provavelmente o componente Igreja Evangélica, com todo o seu conservadorismo sombrio, seria ainda mais forte). Afetuosa, divertida e naturalista, essa é uma obra que comove, nos fazendo refletir sobre um dos tantos Brasis que está longe demais das capitais, dos nossos olhos, ouvidos, tato. Um dia após a completa derrota do campo progressista nas eleições 2026, O Céu de Suely, que completa 20 anos de lançamento em novembro, é um lembrete: uma vida melhor se faz resolvendo questões práticas. Diárias. Ter o que comer, onde dormir, um trabalho que permita empreender. Acolhimento em alguma medida. Qualidade de vida. Não pensava que uma obra desse tipo, um das 100 melhores da lista da Abraccine, funcionasse também como parte do processo de autocrítica. Mas funciona.

 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Novidades em Streaming - O Fim da Rua (The End of Oak Street)

De: David Robert Mitchell. Com Anne Hathaway, Ewan McGregor, Maisy Stella e Cristian Convery. Aventura / Ação / Suspense / Drama / Ficção Científica, EUA, 2026, 99 minutos.  

Vamos combinar que talvez tudo aquilo que A Última Casa (2026) desejasse ter sido, em termos de "filme sobre uma família em busca da sobrevivência após eventos estranhos começarem a acontecer", O Fim da Rua (The End of Oak Street) é. Sim, a obra de David Robert Mitchell (do estranho O Mistério de Silver Lake, 2018), que chegou nesta semana para aluguel nas plataformas, tem aquele típico cheirinho de nostalgia, não apenas pelo fato de a ação se passar no ano de 1982, mas também pela mistura meio Jurassic Park (1993) se tivesse sido dirigido, sei lá, pelo John Hughes, que recupera o subgênero dos dinossauros que, ao menos na minha bolha cinéfila, andava meio esquecido. E, assim como acontece, por exemplo, em uma comédia romântica, nos filmes de ação e de aventura a coisa tende a funcionar mais se nos importamos com aqueles que vemos em tela. E, não sei se são os tempos brutos, truculentos em que vivemos, mas eu torci para um caralho para que todos ali tivessem um final feliz.

Afinal, obras desses segmentos costumam ter também em seus DNAs algum tipo de metáfora sobre dar a importância para as coisas simples, respeitar as diferenças, abraçar oportunidades ou mesmo acreditar na força dos vínculos entre seres humanos diferentes. Na potência da coletividade, enfim. É um filme que não poderia ser mais distante de qualquer tipo de panfleto - e, que bom, como havíamos falado na resenha de Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte (2026), nem tudo precisa ser sobre política o tempo todo -, mas capaz de estabelecer forte vínculo com o espectador. Os dinossauros aqui podem até não ser alegoria simbólica para o capitalismo tardio, para o aquecimento global, para pandemias ou o avanço da extrema direita em todos os seus preconceitos. Mas ainda assim opera como uma ameaça mobilizante, capaz de tirar a família liderada por Denise (Anne Hathaway) e Greg (Ewan McGregor), no auge de seus carismas, da zona de conforto.

 


Na trama, a dupla vive uma vida mais ou menos confortável, ao lado dos filhos Brian (o excelente Cristian Convery) e Audrey (Maisy Stella), em um bairro de classe média de uma cidadezinha do Michigan. Nas aparências pode estar tudo meio perfeitinho, com seus gramados e cerquinhas brancas, mas tanto Denise quanto Greg têm os seus segredos. Ela tem escrito às escondidas, no porão da casa, um livro de autoficção em que verbaliza a insatisfação de uma dona de casa em sua vidinha ordinária - o material bruto é acompanhado por uma vizinha veterana, espécie de conselheira de Denise. Já Greg perdeu o emprego há mais de uma semana e finge estar fazendo um bico numa pizzaria para levantar uma grana extra, quando na realidade este é o único trabalho no momento - ofício, aliás, que envergonha a esposa. Para os filhos, a instabilidade dos pais se espalha pelas frestas, gerando tensões domésticas antes que tudo piore, verdadeiramente.

Em linhas gerais por mais que essa seja uma experiência que vai desembocar em uma séria tragédia - depois que o bairro entra em uma espécie de looping temporal ou buraco de minhoca que o leva meio que para a pré-história, de forma inesperada (e não esperem muitas explicações científicas sobre, que aqui não é o caso) -, não são poucos os instantes leves, de humor e afeto e feitos com equilíbrio. O que permite que o ânimo do espectador flutue de forma imprevisível - e que faz com que num momento estejamos rindo quando uma enorme pilha de cocô de dinossauro meio que brota na casa do vizinho; em outros entremos em pânico com, sei lá, um estegossauro ameaçador que surge do nada; para mais adiante nos comovermos quando todos se salvam no último segundo. Com tudo virando com a inesperada cena de uma dupla de dinossauros, digamos... acasalando - instante em que Greg pede para Denise tirar uma foto (antecipando os influencers de tragédias que habitam nossos tempos). Divertido, tenso, emocionante, por vezes até meio bobo e ainda uma espécie de homenagem a um cinema que rondava as telonas há cerca de trinta ou quarenta anos. Podem ir na fé.

Nota: 8,0 

 

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Pitaquinho Musical - Phoebe Bridgers (Lost Weekend)

Vamos combinar que, muito provavelmente, nem o mais otimista dos ouvintes de Punisher (2020), elogiado disco anterior de Phoebe Bridgers - e nosso sexto colocado na lista de melhores daquele ano -, seria capaz de incluir no bingo de possibilidades para o novo álbum da artista, Lost Weekend, uma canção "alegre e de amor". Mas aconteceu e ela se chama Bobby, um singelo tributo ao seu novo crush, o (ótimo) comediante Bo Burnham, que aparece não apenas nas letras repletas de homenagens, mas também contribui em algumas das composições - afinal, ele também é músico. Sim, quem se acostumou ao estilo taciturno, evocativo e quase sombrio da californiana, com seus dedilhados econômicos e voz sussurrante, talvez se surpreenda com esse lado mais ensolarado - ainda mais depois do falecimento do pai, de quem ela não era tão próxima, e do término meio traumático de relacionamento com o ator Paul Mescal.

 


Mas o fato é que Bridgers tem essa habilidade meio única de, aqui e ali, divagar sobre luto e perdas, mas também sobre paixões e conquistas de forma coesa - em alguns casos até na mesma música, que nos arremessa de lá para cá, muitas vezes saindo da sutileza para a exaltação sem tempo para respiro, como é o caso da assombrosa (com o perdão do trocadilho) Haunted. Ainda assim, por mais que haja uma série de instantes calorosos, as marcas registradas da artista - seu vocal que contrasta suavidade e grito; passando pelas melodias granuladas, poeirentas, oníricas; até chegar às letras cheias de ironias (Eu era a mais bela / do Governors Ball / Escondida no banheiro / Que nem a Shelley Duvall) - seguem intactas. Em entrevistas, Bridgers afirmou ter receio de estar ficando literal demais ou talvez perdendo certo cinismo em sua poética. Terá o amor a ver com isso? Se depender dos fãs e também da crítica que a abraçou, inclusive em sua incursão pelas Boygenius, seu legado segue intacto. Se estiver na dúvida, comece por Lost Boys. E siga o coração.

Nota: 9,0 

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Novidades em Streaming - Mirrors No. 3 (Miroirs No. 3)

De: Christian Petzold. Com Paula Beer, Barbara Auer, Enno Trebs e Matthias Brandt. Drama / Suspense, Alemanha, 2025, 86 minutos.

Devo admitir que eu entendo o espectador eventual que fica frustrado com filmes como Mirrors No. 3 (Miroirs No. 3) - a nota média do público é 53 no Metacritic -, a mais nova produção do sempre acima da média Christian Petzold, e que está disponível na Reserva Imovision. Sim, a impressão que dá é que meio que nada acontece nessa obra essencialmente econômica, contemplativa e bucólica, a respeito de uma jovem de nome Laura (Paula Beer, colaboradora habitual do diretor) que, após um grave acidente em uma estradinha vicinal de interior, se "muda" para a casa de Betty (Barbara Auer), que reside há alguns metros da tragédia. Levando ao limite o estilo pautado por silêncios e movimentos vagarosos, em que olhares podem dizer muito mais do que palavras - como já visto, por exemplo, nos excelentes Phoenix (2014) e Afire (2023) -, o realizador parece ter ainda mais calma para entregar aos poucos os eventuais segredos que talvez liguem aquelas mulheres que nem se conhecem.

Quando passa de carro acompanhada por um casal de amigos e pelo namorado que morre no acidente, Laura se vê estranhamente conectada pelo olhar de Betty - ambas chegam a virar o pescoço para seguirem se observando para além da próxima curva. A jovem protagonista é uma estudante de música da Universidade de Artes de Berlim que parece deprimida, em seu comportamento errático, caminhando silenciosamente pela beira do rio com roupas maltrapilhas - o desgosto se amplia quando ela perde sua bolsa, sendo justamente no retorno para casa, que o acidente. Por um daqueles milagres, Laura sofre apenas leves arranhões, sendo impelida a ficar na casa de campo de ares primaveris, com a cerquinha branca a ser pintada e a horta de plantas não convencionais pronta para ser reformada. E por mais que Betty estranhe o comportamento de sua nova moradora, o inverso também ocorre já que não são poucas as vezes em que Laura observa a anfitriã sozinha a noite, na rua, olhando para o nada de forma taciturna.

 


[ALGUNS SPOILERS A PARTIR DAQUI] Fosse um filme de suspense bem apegado aos clichês do gênero e já saberíamos que coisas estranhas poderiam acontecer naquela casa. Mas tudo é mais simples do que parece - ainda que envolto em mistérios e coincidências. Quando Betty convida o marido Richard (Matthias Brandt) e o filho Max (Enno Trebs) para um almoço em que apresentará a convidada, as peças do quebra-cabeças começam a ser formadas: traumatizada e enlutada, aquela família ainda se ressente de ter perdido uma filha de idade próxima a de Laura e que talvez fosse não apenas semelhante fisicamente à ela, mas também mantivesse certos hábitos parecidos (como o apego às artes, evidenciado pelo gosto pelo piano). Para os dois homens, mecânicos rústicos, ocupados com consertos na casa - como da lava-louças e outros equipamentos -, toda aquela cena gera desgosto. Betty parece ter severos distúrbios psicológicos que a presença da jovem não ajuda a sanar. Vizinhos curiosos circulando pelo entorno pouco ajudam, com as tensões, ainda que leves, se acentuando conforme os dias passam.

Mas essa não é uma obra, como já dito no começo da resenha, sobre grandes acontecimentos. E sim sobre como a experiência humana pode ser complexa, imprevisível e capaz até de ser reparadora em espaços que menos se imagina. Quem nunca andou pelo meio rural, por exemplo, e foi acolhido por alguma família do campo que ofereceu frutas, água fresca e um espaço para descanso, para respiro? Em tempos em que pessoas vivem suas vidas como máquinas apressadas, reféns do pior do capitalismo tardio, talvez Laura só desejasse parar um pouco. Desacelerar. Contemplar. Aparentemente a sua relação com o namorado não era das melhores - ela fica indiferente ao fato, quando Max lhe pergunta sobre a perda ou a respeito de o quão triste ela está. Em geral não são fornecido mais detalhes. Toxicidade? Violência? Redpilagem? Não temos como saber. Mas ao passar a borracha nos fatos do passado, a jovem se permite abrir um meio sorriso no take final. Talvez ela possa ter sido curada. E aquela família também, ainda que tanto ela quanto a filha, jamais sejam esquecidas.

Nota: 8,0 

 

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Pérolas da Netflix - As Linhas Tortas de Deus (Los Renglones Torcidos de Dios)

De: Oriol Paulo. Com Bárbara Lennie, Loreto Meuleón, Eduard Fernández, Pablo Derqui e Samuel Soler. Suspense, Espanha, 2022, 155 minutos.

Quem acompanha a carreira do diretor Oriol Paulo sabe que seus filmes costumam ser experiências vertiginosas, novelescas, cheias de reviravoltas e de quebras de expectativa que, em alguma medida, exigem do espectador uma boa dose de suspensão da descrença. Foi assim com os enigmáticos Um Contratempo (2016) e Durante a Tormenta (2018), valendo o mesmo para o curioso As Linhas Tortas de Deus (Los Renglones Torcidos de Dios), uma daquelas pequenas joias escondidas na Netflix e que servem direitinho para uma sessão de final de semana, que renderá boas discussões em família, assim que os créditos subirem. Sim, o título pode passar uma energia meio cinema gospel, mas as tais "linhas tortas de Deus" tem um significado mais metafórico que, em alguma medida, permite explicar o comportamento de seres humanos complexos, disfuncionais ou marginalizados que, em muitos casos, ocupavam no passado os chamados sanatórios ou outras casas para o tratamento de pacientes psiquiátrico.

A propósito, é em um desses espaços - o sanatório Nossa Senhora da Fonte -, que se passa toda a trama, que é inspirada em romance homônimo do escritor Torcuato Luna de Tena. O ano é 1979, e a delegada Alice Gould de Almenara (a elegantíssima Barbara Lennie) chega ao local com um objetivo secreto, que ela esconde dos médicos e responsáveis: investigar um possível assassinato ocorrido um ano antes, quando um jovem chamado Damian morreu misteriosamente na Instituição. Sem provas definitivas os diretores do espaço - entre eles Samuel Alvar (Eduard Férnandez), que tem implementado uma metodologia que permite mais liberdade aos internos, com contato com a natureza, espaços para exercitar a criatividade e outros -, alegam que Damian teria se suicidado e que o caso estaria encerrado. Isso até o pai de jovem, Raimundo del Olmo (Lluís Soler / Joan Crosas), solicitar à Alice que fizesse uma investigação, acessando os arquivos do local, e levantando novas evidências.

 


Como mencionei lá no começo, para o espectador já acostumado às produções de Paulo, evidentemente as coisas não serão tão simples assim. Quando começa a "trabalhar" em segredo no sanatório, a investigadora esconde sua real identidade de figuras como a doutora Montserrat (Loreto Mauléon) ou do médico Teodoro Ruipérez (Federico Aguado) - a quem explica que foi enviada ao local por recomendação do próprio marido, Heliodoro (David Selvas), após tentar envenenar este por três vezes seguidas (até por que ele teria a intenção de ficar com seu dinheiro). Claro, tudo parte do estratagema montado para tornar a sua entrada no local fidedigna - o que envolve ainda um terceiro homem, um certo doutor Donadío. Em meio ao estranhamento generalizado ao se deparar com os internos Gnomo (Luis Sacristán), Homem Elefante (Francisco Pastor) e os gêmeos Rômulo e Remo (Samuel Soler), Alice conhece e faz amizade como um certo Ignacio (Pablo Derqui) que, é um dos suspeitos descartados do crime, por sofrer de hidrofobia (medo irracional da água).

[SPOILERS A PARTIR DAQUI ] Claro, pode haver aqui e ali um excesso de informações e de personagens, o que exige do espectador uma atenção total não apenas aos diálogos, mas aos objetos cênicos, figurinos e acontecimentos que ajudam a fornecer pistas do que realmente possa estar acontecendo lá e quais os segredos envolvidos. Quando uma tragédia acontece e mais um interno acaba morto, Alice passa a ter sua sanidade questionada - especialmente quando nada que envolve seu passado parece fazer sentido (com os fatos, aos poucos, sendo revelados). Alice seria uma espécie de Leonardo Di Caprio em Ilha do Medo (2010), com todos a sua volta mentindo ou ela é de fato uma investigadora com um objetivo bem definido? Logo no começo, uma carta de recomendações faz uma espécie de alerta que vale para quem assiste e que pode ser a chave de tudo: é importante não acreditar em que tudo o que a protagonista diz, com sua eloquência intrigante, intelecto evidentemente superior e certo pendor pra mitomania. Capaz de manipular os demais, ela pode estar apenas mentindo. Usando suas habilidades, charme e elegância sedutora. Ou não. Vai ver ela é só uma doidinha, com suas maluquices - e talvez o comportamento nada amistoso de Samuel reforce essas ideias. Enfim, tudo isso é parte da diversão nessa experiência envolvente, que nos arremessa de cá para lá a todo instante, com idas e vindas no tempo que embolam passado, presente e futuro, e que ainda deixam uma série de questionamentos no ar. 

 

Pitaquinho Musical - Weezer (Gold Album)

Muito provavelmente os mais novos nem saibam disso, mas no final dos anos 90, em programas da MTV como Garganta e Torcicolo e Gordo a Go-Go, o apresentador João Gordo - sim, o líder do Ratos de Porão - costumava ter uma espécie de mantra que ele volta e meia repetia, em alguma eventual discussão musical: "quem não gosta de Weezer bom sujeito não é". E, por mais que não dê pra falar em retorno às origens da banda de Rivers Cuomo e companhia - até mesmo porque o estilo musical meio que nunca mudou muito, com a sonoridade entre o power pop e o indie rock preservada e e as letras existencialistas sobre as dores do homem médio romântico, intelectual e moderno intactas -, o fato é que a produção recente pouco empolgava, como atestam o medonho Van Weezer (2021) e a totalmente descartável coletânea de EPs SZNZ (2022).

 


E, bom, pra quem em pleno ano da graça de 2026 ainda sonha com um reboot de Pinkerton (1996), talvez Golden Album, o décimo sétimo (sim, pasme) disco dos californianos possa ser um bom caminho para esse tipo de nostalgia musical - ainda que, com mais de 30 anos de carreira, todos ali estejam muito mais experientes, com outros dilemas para além de frustrações sexuais adolescentes e incertezas generalizadas. Peguemos como exemplo o single We Might as Well Be Strangers que, com participação de Karly Hartzman dos incensados alternativos do Wednesday, e que é uma canção tão hedonista à Weezer do Velho Testamento, que não faria feio talvez no Green Album. Já a divertida Hoops, faz a crítica as burocracias tecnológicas da era moderna, ao narrar as desventuras de um sujeito que apanha pra usar objetos simples do cotidiano, como torradeiras ou ferros de passar. Ao cabo, não se trata de reinventar a roda. É apenas o Weezer sendo direto, em dez músicas e um pouco mais de 30 minutos de duração - o que na era do fan service é um baita acerto.

Nota: 8,5 

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Cinema - Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte (Teenage Sex and Death at Camp Miasma)

De: Jane Schoenbrun. Com Hannah Einbinder, Gillian Anderson e Jack Haven. Comédia / Suspense / Drama, Canadá / EUA / Reino Unido, 2026, 112 minutos.

Existe um diálogo em Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte (Teenage Sex and Death at Camp Miasma), que talvez seja central pra compreender as ideias que se espalham pela excelente nova obra da diretora Jane Schoenbrun. Nela, a jovem diretora Kris Williams (a sempre ótima, divertida e carismática Hannah Einbinder) divaga sobre o papel decisivo da franquia de filmes slasher Camp Miasma na sua formação - destacando especialmente o olhar da protagonista e toda a carga simbólica sobre gênero ou representações identitárias difusas, que são emanadas por esse rosto em close. Sua interlocutora é a própria Billy Presley (Gillian Anderson que, se o mundo fosse justo seria lembrada com uma indicação à coadjuvante no próximo Oscar), que foi a protagonista do primeiro filme da franquia, portanto a dona do olhar, e que está sendo visitada por Kris para um convite para um possível reboot, recomeço ou como quer que chamemos em tempos de pouca originalidade de estúdios e um apelo generalizado à uma nostalgia quase infantilizante.

Sensual, estranha e meio durona, Billy responde: "existem filmes que são apenas sobre carne e sangue". E é isso. Na produção de Schoenbrun - que já havia chamado a atenção no anterior I Saw the TV Glow (2024) -, Kris é aquele tipo de realizadora que parece a pessoa ideal para oxigenar uma franquia oitentista machista e transfóbica, mas de alto potencial lucrativo por sua memória afetiva: ela fez barulho em Sundance, foi tema de uma série de matérias e entrevistas em sites independentes e realiza um tipo de cinema queer ou, vá lá, woke (para desespero do cidadão de bem de extrema direita), que pretende ser mais inclusivo em tempos de Black Lives Matter, #metoo e outras campanhas em favor de minorias. A participação de Billy, atualmente uma senhora excêntrica e reclusa à moda Norma Desmond de Crepúsculo dos Deuses (1950), que abandonou a carreira depois da estreia de sucesso do primeiro Camp Miasma é uma espécie de "plus a mais" sugerida pela produção - o que para Kris é uma baita mão na roda, já que ela sempre foi apaixonada pelos filmes antigos, que assistia desde quando era criança.

 


Kris quer repaginar a franquia, que tem como vilã central uma jovem transgênero que leva o apelido de Little Death e que usa um estranho capacete que lembra um duto de ventilação de teto, daqueles quadradinhos (papel de Jack Haven), atualizando-a de acordo com a agenda atual. Ela, como diretora de causas LGBTQIA+ parece a pessoa indicada. Só que tem um problema: Billy parece com pouco saco para esse papo, o que faz com que ela dê uma espécie de aula particular à jovem diretora, que alude a autoras como Linda Williams, que muito já teorizou sobre os gêneros do corpo - e como eles são capazes de, para além de fazer com que o filme seja objeto de simples contemplação, sejam também veículo para sentir, sofrer, ou secretar. Em resumo, Linda sugere em ensaios como Film Bodies: Genre, Gender and Excess (1991) que, em certos filmes, é necessário que alguma coisa simplesmente aconteça com o nosso corpo: choro, sangue, gozo e outros fluídos que decorrem de reações afetivas do espectador. De sobressaltos, de repulsa, de excitação, de gritos, de violência, de sangue, de vísceras. Uma coisa mais direta e eventualmente, para a crítica mais purista, pode ser considerada mais baixa, vulgar ou profana.

Sim, apesar de já ter feito dois cursos de cinema, além da formação em Jornalismo, não é a minha ideia aqui ficar dando carteiraço sobre autores e suas ideias e como elas se relacionam com essa obra, mas no diálogo que inicia essa resenha pensei imediatamente nesse contraponto entre aquilo que se considera cinema de arte - hermético, reflexivo, contemplativo -, e essas produções mais frontais, como eram os slashers dos anos 80 e 90 e como eles foram importantes, para o bem ou para o mal, para a nossa formação. Por mexerem conosco fisicamente - por nos deixarem tensos, enojados, excitados (e confesso que nunca mais esqueci o quão desestabilizado fiquei ao assistir, por exemplo, à franquia Poltergeist na minha adolescência). E, por mais que haja no centro dessa brilhante joia do cinema independente, que estreia semana que vem na Mubi, um subtexto geral sobre libertação feminina, autonomia sobre o próprio corpo, subversão de expectativas de gênero, recompensas e até de papel da religião, do patriarcado e do moralismo generalizado dos nossos tempos, o filme também homenageia, de fato, essa era de filmes mais simples, mais carnais, mais afrontosos. Em que a depravação e a liberdade - curiosamente desejadas por Kris como uma espécie de "cura" orgásmica (quase uma pequena morte, o que é só mais uma sacada inteligente do roteiro) para os freios relativos a sua sexualidade - são vistas como o oposto do recato, da virtude, e de certa higiene quando o assunto é o tesão.

 

 

Em linhas gerais, o caso é que eu poderia ficar horas e horas falando desse filme e nunca seria o suficiente para contemplá-lo no todo. De sua abertura absurdamente original e divertida - que, desde já entra para o panteão dos grandes começos -, com o vasto sucesso de Camp Miasma sendo recuperado em cartazes do filme, burburinho da mídia, artigos, brinquedos, objetos de uso doméstico, jogos de videogame, discos, revistas, charges e polêmicas; passando pelos ótimos diálogos cheios de easter eggs metalinguísticos ("Tem mais alguém na casa? Tipo, sua mãe empalhada no quarto, só pra dar um exemplo aleatório?"); até chegar ao desenho de produção onírico e vibrante (ainda que grande parte do filme se passe em uma propriedade isolada, na neve e no meio do nada) e à trilha sonora de Alex G, com outros nomes como Andy Shauf e Counting Crows (sim, e em uma das melhores sequências, diga-se), tudo funciona bem. Engraçado (juro que já soltei uma gargalhada nos primeiros trinta segundos e vocês saberão por quê), sensual, tenso, surrealista, romântico em alguma medida e cheio de possibilidades interpretativas, esse é um projeto que nunca se encerra quando os créditos sobem. É para ver e rever. E continuar vendo eternamente. Exatamente como fazemos com os filmes de nossa infância. Alguns deles repletos de sangue, suor e lágrimas.

Nota: 10 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Pitaquinho Musical - Antropoceno (No Ritmo da Terra)

"A ideia de nós humanos, nos descolarmos da terra, vivendo numa abstração civilizatória, é absurda". Em tempos em que o colapso climático parece irreversível - meio que basta abrir as notícias do dia para ter certeza disso -, a frase dita pelo escritor brasileiro e líder indígena Ailton Krenak, no famoso livro Ideias Para Adiar o Fim do Mundo, parece ainda mais verdadeira. E é justamente tomando por base a obra do autor, que o Antropoceno lança o seu segundo registro de inéditas, No Ritmo da Terra. Criado pela paulista Lua Viana, o projeto mescla shoegaze, metal experimental, pós rock e psicodelia, com ritmos brasileiros ritualísticos ligados ao candomblé, ao afoxé e à capoeira, além de gravações de campo da Floresta Amazônica, que resultam em um conjunto de canções que parece estabelecer um vínculo direto entre ancestralidade e futurismo, tradição e inovação.

 


Funcionando por meio de um processo imersivo o disco, que dá continuidade ao igualmente relevante Natureza Morta (2025), pode soar desafiador como mera experiência musical. Especialmente por propor um mergulho na floresta, com seus habitantes, sons, elementos e ontologia. Ainda assim, no fundo parece haver algo maior aqui e que alude a um processo político e evocativo de enfrentamento, resistência, práticas decoloniais e subversão de influências ligadas ao capital. O que é complementado pela presença de letras que, para além do português, contam com versos em tupi e iorubá, além de um vasto conjunto percussivo de atabaques, tamborins, berimbaus e caxixis, que se unem a guitarras ruidosas e sintetizadores ferozes. "Se há um futuro a ser vivido, ele é ancestral". A frase de Krenak, de forma carga simbólica, centraliza as ideias que se espalham no registro. É uma força que transborda e se solidifica a cada nova audição.

Nota: 9,0