quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Cinema - A Voz de Hind Rajab (Sawt Hind Rajab)

De: Kaouther Ben Hania. Com Motaz Malhees, Saja Kilani, Clara Khouri e Amer Hlehel. Drama, Tunísia / França / EUA, 2025, 89 minutos.

"Vocês acham mesmo que a voz desesperada de uma criança vai despertar a empatia deles?". Vamos combinar que a pergunta feita pelo socorrista Omar (Motaz Malhees), perto do terço final de A Voz de Hind Rajab (Sawt Hind Rajab), é de uma franqueza excruciante. Àquela altura, tanto Omar quanto Rana (Saja Kilani) e a terapeuta Nisreen (Clara Khouri) parecem já exaustos, incomodados, desesperançosos. Gritam entre si em meio a um estresse alarmante - e não poderia ser diferente, como integrantes do movimento internacional humanitário Crescente Vermelho que, ali, atua junto à Faixa de Gaza. O período é o início daquela que ficaria marcada como uma das mais violentas e desmedidas ações militares de nossos tempos - a do genocídio perpetrado pelo exército de Israel contra o povo palestino. Milhares de pessoas morreram. Milhares de CRIANÇAS morreram. E seguem morrendo. A voz desesperada de uma criança é só mais uma, tentando despertar empatia entre sionistas que pregam a barbárie.

Só que há uma diferença no ótimo filme de Kaouther Ben Hania - dos excelentes A Bela e Os Cães (2017) e O Homem Que Vendeu Sua Pele (2020) -, que é o enviado da Tunísia à categoria Filme Estrangeiro no Oscar desse ano e que está em cartaz nos cinemas. Aqui, a voz abafada, chorosa e suplicante que ouvimos do outro lado de telefone não é a de alguém interpretando. De uma criança fazendo de conta. A voz é a da Hind Rajab real, uma criança de seis anos que implora por ajuda durante horas, após um ataque das forças militares de Israel dizimar os corpos dos tios e dos primos da pequena (que estava em um carro em um espaço ocupado). Do outro lado da linha, Omar e Rana se revezam ao telefone para, na medida do possível tentar tranquilizar a menina, em meio a um cenário em que não há nada tranquilo. Bombas seguem explodindo no entorno. Os barulhos de tiros emergem do nada. Hind tenta se esconder ao mesmo tempo em que suplica aos socorristas: "por favor venham me buscar. Estou com medo. Eu imploro".

 


E, sinceramente, um filme como esse é um tapão na cara da nossa sociedade, que segue assistindo passivamente os atos violentos de Netanyahu e sua gangue, sob a desculpa de estar em busca de integrantes do movimento de resistência Hamas. Aliás, não é preciso ir muito longe para saber que os repetidos cessar fogo ou qualquer outro tipo de movimento no sentido de encerrar a guerra - como no caso da bizarra criação do tal Conselho de Paz, perpetrado pelo ditador dos Estados Unidos Donald Trump -, não passam de fachada. As mortes de civis seguem a rodo. Com dados como os da organização Save The Children revelando o pior: que talvez 20 mil crianças tenham sido assassinadas nos últimos anos. Muitos bebês. Não há distinção para quem propõe limpeza étnica. O desespero de Omar, relatado no começo dessa resenha não é por acaso. Ninguém se sensibilizará com uma criança aos prantos, pedindo clemência em meio aos destroços do que resta de um veículo. Ou do que resta da geografia de um País.

E como se esse conjunto todo não fosse absolutamente horroroso, o trio central de socorristas - Nisreen tenta equilibrar as coisas como a voz plácida de uma terapeuta - ainda precisa lidar com as burocracias simbolizadas em tela por Mahdi (Amer Hlehel), que é o responsável por enviar as ambulâncias aos locais dos chamados. O que só será possível após um longo período de negociações em que entidades como a Cruz Vermelha, secretarias de saúde e os governos dos países cheguem a algum acordo que autorize a ação. O angustiante mapa que insiste em ser exibido na tela, mostra que há uma ambulância a apenas oito minutos de distância de onde está Hind - junto a um posto de gasolina. Mas há os protocolos. As decisões não podem ser intempestivas, sob risco de os próprios socorristas serem bombardeados. Mesmo em uma ambulância identificada. A situação é tensa - com a angústia crescente parecendo longe do fim. Infelizmente a gente meio que já sabe como essa história acaba. E obras como essa podem ajudar a dar visibilidade para o tema - que segue urgentíssimo.

Nota: 8,5

 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Novidades em Streaming - F1: O Filme (F1: The Movie)

De: Joseph Kosinski. Com Brad Pitt, Damson Idris, Javier Barden e Kerry Condon. Ação / Drama, EUA, 2025, 155 minutos.

F1: O Filme (F1: The Movie) ou "como fazer os republicanos voltarem a gostar de cinema". Sério, fazia tempo que eu não assistia a algo tão brega - e tão bocejante - quando essa obra do diretor Joseph Kosinski, indicada ao Oscar. Em geral não tenho problemas com esses filmes à moda soft power estadunidense meio anos 90, com aquela energia Make America Great Again, mas vamos combinar que a história do veterano disfuncional e errático que nunca deu certo em lugar algum, que retorna para uma jornada redentora já nos deixa cansados só de pensar. A gente já viu essa trama umas duzentas vezes e o próprio Kosinski conseguiu fazer uma obra nesse formato mas que ao menos tinha coração (ou alma), que foi o caso de Top Gun: Maverick (2022). Aqui, é lugar comum em cima de lugar comum, com clichês como o do iminente aposentado que entra num embate com o novato, da mulher de meia idade que já não tá casada porque investiu na carreira ou dos chefões que perderão uma puta grana meu, se a coisa não for revertida.

E, veja bem, minha percepção poderia estar enviesada até mesmo por não gostar de automobilismo - o que não me impediu de apreciar demais produções como Rush: No Limite da Emoção (2013) ou Ford vs Ferrari (2019). Mas ver os personagens de Brat Pitt - o piloto da velha guarda que nunca aconteceu Sonny Hayes - e Damson Idris - Joshua Pearce, companheiro de Sonny na equipe APXGP, um aprendiz impetuoso e destemido que pode ser a nova promessa da Fórmula 1 -, disputando quem será o piloto principal em uma corrida decisiva em uma partida de pôquer foi demais pra mim. Na terceira ponta dessa mesa aleatória de Texas Hold'Em, de sujeitos que nunca gostam de perder e que provavelmente acreditam muito na meritocracia, está a diretora técnica da equipe de construtores Kate McKenna (Kerry Condon) porque, bom, porque é conveniente colocar uma mulher nesse papel porque já mata dois coelhos numa cajadada: faz um levíssimo aceno às questões de gênero, ao passo que permite que ela se torna o futuro par romântico (ou algo que o valha) de Sonny. 

 


Durante as duas horas e meia (sim, pra quê?) do filme, ocorre um sem fim de cenas de corrida, com closes dos rostos dos pilotos, na ideia de conferir alguma emoção a mais (só que não). A estas, se somam sequências de tensão total da equipe nos boxes porque, como não poderia deixar de ser em um projeto do tipo, Sonny, que é convidado pelo dono Rubén Cervantes (Javier Barden) para tentar salvar a equipe da falência, é o sujeito mais imprevisível do planeta. Sabe o ousado meio burro, truculento, tosco, que acha que vai vencer na marra? É mais ou menos ele. Mesmo sem pilotar um carro de Fórmula 1 desde os anos 90 - pra deixar a coisa ainda mais sem sentido -, Rubén acredita que Sonny possa ser a salvação da lavoura na reta final da temporada, que conta com investidores insatisfeitos e um futuro incerto. Como um senhor próximo dos 60 anos, mas que se comporta como um adolescente tardio, o personagem de Brad Pitt participa de apresentações aleatórias, como na Nascar ou outras categorias de baixo, o que lhe permite pagar as contas e manter algum tipo de prestígio.

Mas é claro que a chegada do sujeito à APXGP vai bagunçar a coisa toda. E provocar um certo caos. Ainda mais quando, durante uma corrida, Sonny não aceita ceder a sua posição para o promissor Joshua. Mais do que isso, ele resolve patifar praticamente toda e qualquer corrida - obrigando as entradas aleatórias do safety car - que, mais adiante, surgirão como a surpreendente estratégia do protagonista para tentar, pelo menos, chegar em algum momento entre os 10 primeiros. Sim, uma coisa meio Dick Vigarista sem talento. Com trilha invasiva, fotografia saturada, narrador de autódromo estilo Rock and Roll Racing e personagens sem muita personalidade e profundidade - o que se sabe de Sonny é que ele é um falido em todos os sentidos -, a obra se arrasta até que aconteça aquilo que todo o mundo sabe que vai acontecer no final. E que servirá direitinho para que a galera legendária do Café com Deus Pai, que assiste canais de Youtube de coachs financeiros de gosto duvidoso, que beta desenfreadamente no campeonato local e que acredita que o comunismo vai ser implantado no País em 72 horas, saia feliz da sala de cinema. Acreditando que, se persistir, vai vencer na vida. 

Nota: 2,5 

 

Novidades em Streaming - O Último Azul

De: Gabriel Mascaro. Com Denise Weinberg, Rodrigo Santoro e Miriam Socarras. Ficção Científica / Drama / Fantasia / Aventura, Brasil / México / Chile / Holanda, 2025, 87 minutos.

Talvez um pouco menos político ou panfletário do que no anterior (e ótimo) Divino Amor (2019), mas igualmente relevante em seu exame um tanto niilista de uma sociedade cheia de contradições, em que defensores da família tradicional brasileira poderão incorrer em apoio a políticas que, justamente, ignoram a pluralidade desse tipo de estrutura de parentesco. Aqui, a trama lembra um pouco o ainda não muito conhecido livro nacional Velhos Demais Para Morrer (2020), de Vinícius Neves Mariano, sobre uma sociedade que entra em colapso econômico após os idosos se tornarem a maioria da população. O que os obriga a fugir, para tentar burlar o seu destino. Em O Último Azul, o tema do etarismo também está no centro, em uma distopia semelhante à de Mariano, com os velhos sendo enviados a uma espécie de colônia comandada pelo governo, sob a desculpa de dar a eles uma velhice digna.

Nas aparências, as intenções do Estado parecem boas. Os empregados que conduzem os idosos se portam de forma gentil, a ponto de concederem distinções aos aposentados que alcançam a idade limite - e não deixa de ser excentricamente divertido ver Tereza (a ótima Denise Weinberg), chegando em casa depois de um dia de trabalho no frigorífico, se deparando com empregados do governo colocando uma espécie de coroa de louros banhada a ouro na fachada da modesta habitação da protagonista. Sim, isso pode sugerir algo simpático - "a senhora agora é um patrimônio vivo nacional", aponta a jovem que gruda a distinção. Mas não deixa de ser uma espécie de marcador que lembrará a todos a sua volta de que, ali, naquela casinha, reside uma velha. Que já deveria ter ido pra tal da colônia. Com tudo piorando quando Tereza se dá conta de que já deveria ter se aposentado de forma oficial há dois anos - ela está com 77 e a idade limite é 75.

 


Com receio, em um cenário de incerteza, Tereza, tenta buscar mais informações - sendo barrada em qualquer tentativa de deslocamento. "Sabotar a atividade produtiva nacional é crime grave", lhe lembra outro burocrata. A protagonista queria ainda fazer muita coisa - como por exemplo, voar de avião, algo que nunca teve oportunidade. Mas o simples ato de comprar uma passagem se torna pesaroso. Há a necessidade de aval de algum familiar - sendo a pessoa mais próxima a preocupadíssima filha Joana (Clarissa Pinheiro) que, pelo visto, não vê a hora de a velha ir pra Colônia. Sem muita alternativa, Tereza resolve desviar de sua rota. Pegando um barquinho para a pequena Itaquatioca, momento em que ela estabelece amizade com o enigmático barqueiro Cadu (Rodrigo Santoro), que lhe apresentará alguns mistérios da natureza profunda, como a existência de uma espécie de caracol mágico, capaz de revelar o futuro a quem tiver contato com a sua gosma. 

Nesse ponto, a obra também difere de Divino Amor, por apostar em elementos que unem o bucólico e o onírico como forma de dar andamento às ações mundanas. O que é reforçado por um desenho de produção de beleza naturalista e caótica em igual medida - como no momento em que a dupla passa por uma espécie de "cemitério" de pneus que fica na taipa do riacho -, e por uma trilha sonora de tintas envolventes. Simples, curiosa e divertida, a produção, que venceu o Grande Prêmio do Júri no mais recente Festival de Berlim e que chega à Netflix, expõe a insatisfação da população em geral com o afastamento obrigatório de seus familiares - "devolvam o meu avô", "gente velha não é mercadoria" dizem pixações nas paredes -, reservando para o terço final uma surpresa a respeito dos caminhos possíveis para driblar as imposições do Estado. Ao fim e ao cabo, os caminhos envolvem poder, religião e um ímpeto para a engambelação. Mas sem abrir mão do afeto. Nada mais Brasil real do que isso.

Nota: 8,5 

 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Pitaquinho Musical - Jenny On Holiday (Quicksand Heart)

Não sei se é o ano musical que ainda não começou direito, mas eu admito que ando me empolgando com uns projetos meio aleatórios e que podem passar batido pelos ouvintes mais descompromissados - e esse é justamente o caso do excelente álbum Quicksand Heart da Jenny On Holiday, projeto em carreira solo de Jenny Hollingworth conhecida por dividir o comando do Let’s Eat Grandma. O disco mergulha sem pudor numa estética oitentista, com sintetizadores ensolarados e melodias que parecem saídas de fitas VHS gastas pelo tempo, mas sem soar datado. Aliás, pelo contrário: há um cuidado moderno na produção que mantém tudo arejado, fresco e alinhado com o pop alternativo atual, o que lhe permite ainda brincar com uma faceta mais leve e direta da composição.

 


Nesse sentido, a atmosfera do álbum transita bem entre o retrô e o nostálgico, evocando aquela sensação agridoce de lembrança boa, enquanto flerta com um indie pop etéreo, enfumaçado, que pode agradar fãs de Alvvays ou Snail Mail. Não à toa, Jenny já comentou que algumas músicas nasceram a partir das memórias de idas ao karaokê com amigos - e isso se reflete em refrãos simples, cativantes e fáceis de cantar junto. Um bom exemplo desse expediente pode ser percebido na irresistível These Streets I Know, uma baladona que homenageia sua cidade natal e de como nos conectamos com esse espaço em que crescemos - com seus lugares, pessoas, vivências (E todo o meu coração / Está nestas ruas que conheço / Movendo-se a cada dia mais rápido). Ao cabo trata-se de um registro despretensioso no melhor sentido: acolhedor, honesto e perfeito para ouvir com um sorriso no rosto.

Nota: 8,0

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Cinema - Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (If I Had Legs I'd Kick You)

De: Mary Bronstein. Com Rose Byrne, Conan O'Brien, Danielle Macdonald e A$AP Rocky. Drama, EUA, 2025, 114 minutos.

Em uma das primeiras cenas de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (If I Had Legs I'd Kick You), a psicoterapeuta Linda (Rose Byrne, em papel que lhe deu uma indicação ao Oscar), está chegando em seu apartamento com a sua filha pequena. Linda pede à pequena que vá ao banheiro lavar as mãos para que possam comer a pizza que encomendaram, quando vem a surpresa: o apartamento está, inexplicavelmente, alagado. Pior do que isso, quando chega à sala para tentar verificar de onde vem o vazamento, o susto: o teto cede abrindo uma enorme cratera escura que une um andar ao outro. Um buraco imenso que servirá como uma espécie de alegoria permanente para uma mulher que se esforça para ser a melhor mãe, mas que nunca parece se considerar suficiente. O buraco em seu peito, metafórico, talvez represente algum tipo de vazio. Uma ausência. Uma sensação de dívida que não se sabe bem qual. Uma carga que faz com que ela chore para, ali adiante, seguir em frente.

Em linhas gerais a obra de estreia de Mary Bronstein é riquíssima em simbolismos que emergem em meio a sentimentos de culpa, de sonhos reprimidos e de inseguranças ligadas à maternidade. Na sociedade há uma cobrança para que uma mãe - que, importante que se diga, não deixou de ser também mulher - esteja inteira para o cumprimento de seu propósito. Mas e se ela estiver despedaçada, fragilizada, quem a acolhe? Um marido muitas vezes ausente? Uma rede de apoio quase inexistente? Um terapeuta que oferece seus serviços de forma excessivamente racional e com pouca empatia? Linda precisa tomar decisões complexas, como se mudar temporariamente para um motel decadente enquanto o reparo do apartamento acontece. Um reparo que demorará mais do que o necessário por conta de burocracias diversas e uma certa má vontade de empreiteiro. O buraco permanece. Como uma lembrança do caos que está instaurado.

 


E como se problema pouco não fosse bobagem, a pequena filha que nunca aparece fisicamente - apenas como uma voz em desespero alternando momentos de infantilidade de alta demanda (como quando deseja um hamster) com outros de temores legítimos de meninice (quando questiona a todo o momento se ela vai morrer, por qualquer que seja o motivo) - padece de uma severa doença, que faz com que ela necessite de alimentação por sonda. O que exige de Linda uma atenção permanente. Nos poucos instantes de "folga", quando a menina dorme, por exemplo, a protagonista tenta com algum esforço comprar uma simples garrafa de vinho - barrando na má vontade da atendente. Ou mesmo sendo socorrida pelo amigo terapeuta, vivo por Conan O'Brien. O marido conversa com ela apenas por ligações telefônicas espaçadas feitas de sabe-se lá onde. Sendo as demais interações feitas com pacientes e seus distúrbios irritantes, mesquinhos, dos quais nem sempre ela consegue prestar atenção completa.

Uma dessas pacientes é uma jovem mãe de nome Caroline (Danielle Macdonald) que toma uma atitude extrema que movimenta a narrativa - e que dialoga com os assuntos da obra. "Sou o tipo de pessoa que não deveria ser mãe", comenta Linda em certa altura, enquanto revela aquele que talvez seja o grande trauma de sua juventude. O buraco, aquele do apartamento, ganha outros contornos que quase levam a experiência para o campo do realismo fantástico depois da segunda metade, quando o sentimento de culpa se amplia. Ao cabo essa pode ser uma experiência meio dolorosa, ainda que bastante realista, e que trata com uma boa dose de franqueza o processo de romantização da maternidade. A terapia em grupo não funciona. O mesmo valendo para qualquer tentativa de relaxamento. Ou mesmo de flerte, como no caso das desajeitadas investidas do superintendente do motel James (A$AP Rocky). "Eu vou melhorar", balbucia ela à filha de forma quase comovente no ápice do sofrimento. É difícil ficar alheio.

Nota: 8,0

 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Cinema - Sorry, Baby

De: Eva Victor. Com Eva Victor, Naomi Ackie, Lucas Hedges, Louis Cancelmi e John Carroll Lynch. Drama / Comédia, EUA / França, 2025, 103 minutos.

"É preferível que você vá direto ao pronto atendimento quando isso acontecer. Certo, lembrarei disso da próxima vez". Talvez só o deboche para que se consiga encarar uma segunda violência, depois que ocorre a primeira. Ou vai ver nem ele. Na cena em que ocorre o diálogo acima, Agnes (Eva Victor, que também dirige), a protagonista do ótimo e impactante Sorry, Baby, está em um hospital para ser examinada, após ter sido estuprada pelo próprio professor. Frente a uma série de protocolos e burocracias que envolvem não apenas a exposição de algo bastante íntimo e traumático, mas também a necessidade de falar meio que o tempo todo sobre o assunto, a jovem parece meio que de saco cheio. Saco cheio de tudo. De não ver uma solução possível ou satisfatória para o seu caso, de ter de rememorar a situação, ou mesmo de ver a condescendência das pessoas - inclusive de outras mulheres, mais preocupadas com a preservação de certa imagem, do que por algum tipo de compensação mais justa.

Sorry, Baby é um filme de impacto, mas que discute o tema do abuso sexual num tom tão irônico, quanto naturalista. Aliás, a obra evidencia algo quase óbvio: a maioria dos casos desse tipo de violência ocorre com pessoas próximas, na maioria dos casos de confiança. No caso de Agnes, ela é uma professora de Artes de uma faculdade do interior da região de New England que, ainda no começo do filme, recebe a visita da amiga Lydie (Naomi Ackie), que está grávida. Aproveitando a estada da amiga, a dupla participa de um jantar meio desconfortável com alguns colegas que integram um programa de pós-graduação coordenado pelo professor Preston Decker (Louis Cancelmi). De modo aparentemente afetuoso, Decker elogia o trabalho de Agnes - ela está desenvolvendo uma tese sobre Virginia Woolf. Em um dia de estudos na casa do docente, a protagonista sai do local correndo. Aos prantos. Quem assiste já sabe o que aconteceu. Mesmo que tudo que se veja seja a fachada da casa do sujeito.

 

 


Quando descreve o ocorrido à Lydie - o que envolve as tentativas do professor de tocá-la de forma nada consensual -, ela chega até a ficar insegura sobre como falar. "Isso parece 'aquilo'" comenta ela num tom incrédulo. Na universidade, o conselho disciplinar oferece um suporte de fachada a alguém que inicia uma jornada que lhe deixará emocionalmente exausta. Em resumo, não há muito o que fazer já que, diante do cenário, Decker pediu desligamento da Instituição. Não há como formalizar uma denúncia. Pior, não há nada que necessariamente prove o ocorrido. E pra piorar mais ainda do que tudo, Agnes parece não ter a certeza tão absoluta de desejar, ao cabo, que o sujeito seja punido. Que sua reputação seja comprometida - o que diz muito sobre o sistema patriarcal que vivemos e o medo das vítimas, que são a ponta frágil em uma estrutura de poder. Isso sem falar os protocolos irritantes, como no caso das perguntas do médico ("ele ejaculou em você?").

Sim, isso pode parecer necessário, mas tudo soa ainda mais frio. A burocracia da coisa - da denúncia ao suporte médico e emocional -, tudo parece cansativo, exaustivo. De forma inteligente, a obra realiza idas e vindas no tempo, o que envolverá ainda a presença de outras figuras, como o vizinho Gavin (o sempre inexpressivo Lucas Hedges) e o carismático Pete (John Carroll Lynch), o proprietário de uma lancheria de beira de estrada, que socorre Agnes após uma severa crise de pânico. Um tanto desalentador, o filme evidencia o fato de não haver muita solução em um mundo em que coisas do tipo podem acontecer, inclusive de forma recorrente (o que é reforçado pela sequência em que a protagonista conversa com o bebê da amiga). Mas ainda há espaço pra esperança. Afinal, pode parecer um comportamento meio resignado pensar que a vida continua, em um cenário em que "aquilo" acontece. Em que feridas são abertas e dificilmente curadas. Mas esse talvez seja um filme de sobrevivência e de suavidade nesse mundo tão bruto.

Nota: 8,0 

 

Novidades em Streaming - Blue Moon: Música e Solidão (Blue Moon)

De: Richard Linklater. Com Ethan Hawke, Andrew Scott, Margaret Qualley e Bobby Cannavale. Drama / Biografia, EUA, 2025, 100 minutos.

"Ele era alerta, dinâmico e divertido". "O homem mais triste que já conheci". Vistas nos letreiros iniciais do ótimo (e verborrágico) Blue Moon: Música e Solidão (Blue Moon), que está disponível pra aluguel nas plataformas da Amazon e da Apple TV, as frases acima podem passar meio despercebidas pra quem acaba de dar o play no mais recente filme do diretor Richard Linklater. Ditas, respectivamente, pelo diretor e produtor de teatro Oscar Hammerstein e pela cantora de cabaré Mabel Mercer, as contraditórias sentenças referem-se a mesma pessoa - no caso o letrista e compositor da Broadway Lorenz Hart que, aqui, ganha vida em interpretação marcante de Ethan Hawke, que foi indicado ao Oscar pelo papel. Hawke encarna Hart como a figura ao mesmo tempo amargurada e ressentida, genial e debochada - o que o coloca como um sujeito ao mesmo tempo carente e sem autoestima, mas também confiante e irônico.

Hart por muito tempo foi parceiro do compositor Richard Rogers, com quem escreveu, entre os anos 30 e 40, uma série de peças musicais de sucesso, como The Lady Is a Tramp, My Funny Valentine, Babes In Arms e a canção que dá título à obra de Linklater - aliás, a melodia tristíssima da composição, somada a letra melancólica sobre solidão, parecem ser bastante significativas. Não por acaso, a produção começa pelo final - e até onde se pode depreender do filme, a morte trágica de Hart, após complicações decorrentes de uma severa pneumonia, ainda é envolta em certo mistério. Alcoolista e com forte propensão à depressão, Hart tinha comportamento errático. Sumia por semanas sem dar notícias, o que deixa Rogers (Andrew Scott) exasperado. Tendo de buscar outras alternativas de parceiros criativos, como o jã citado Hammerstein (Simon Delaney).

 


Aliás, a madrugada em que toda a ação de Blue Moon se passa é justamente a da noite de estreia de Oklahoma! - uma peça nostálgica (de um tempo que supostamente nunca existiu), agridoce e ingênua que, nos anos posteriores à depressão estadunidense parece pronta pra cair nas graças do público. E até da crítica. Só que Hart está irritado. Esse é o primeiro material entregue por Hart e Hammerstein, o que deixa o homem amargurado. Melindrado. E até rancoroso. O que não o impede de ir até o Sardi's, restaurante de Manhattan famoso por receber figuras ilustres ligadas ao cinema e ao teatro, onde haverá uma celebração por conta da noite de abertura. Hart chega antes de todo o mundo e, familiarizado com o local, troca figurinhas com o carismático barman Eddie (Bobby Canavalle), alternando assuntos aleatórios sobre a sua própria (e difusa) sexualidade - "sou um omnisexual" -, a respeito de sua nova musa inspiradora, uma estudante de teatro de nome Elizabeth (Margaret Qualley), que tem um rosto "etéreo" (de acordo com sua descrição) e sobre o seu próprio futuro no mundo das artes.

Não é por acaso que esse preâmbulo que antecede a chegada de Rogers, Elizabeth, Hammerstein e os demais - que converterão aquela madrugada em uma espécie de noite da festa de aniversário de A Malvada (1950) - seja tão saboroso. A coisa quase beira ao cringismo, com Hart colocando a jovem Elizabeth em um pedestal, ao alegar que tem uma relação extrassensorial com a jovem, que bem podia ser sua filha. "É o prelúdio de uma transa", argumenta, enquanto se comporta de forma desajeitada frente aos encantos de sua mais nova amada. Com 1,50m de altura, uma semicalvície e uma arrogância que denuncia certa ausência de dignidade, o protagonista ocupa basicamente todos os frames, indo e vindo pelo ambiente, conversando com outras figuras conhecidas e contemporâneas, como no caso do escritor E. B. White (Patrick Kennedy) ou o futuro diretor de cinema George Roy Hill (David Rawle) - e não deixa de ser interessante descobrir os easter eggs que podem estar presentes nos diálogos descompromissados deles. Aliás, o diálogo é o forte aqui. É ele, basicamente, que faz a coisa escalar. E quase fugir do controle. É ele que inicia e termina. Mais ou menos como foi a vida de Hart. Que tinha na palavra o seu maior trunfo.

Nota: 8,0 

 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Pitaquinho Musical - Madison Beer (Locket)

Pra alguém tão jovem - apenas 26 anos -, já dá pra dizer que Madison Beer viveu bastante coisa. O que lhe permite ser, sem maiores dificuldades, uma das estrelas pop mais promissoras dessa década. Descoberta por Justin Bieber aos 13 anos após postar uma cover no Twitter, a nova iorquina só lançaria seu primeiro registro em 2021, o respeitável Life Support. Antes disso, ainda na adolescência sofreu com cyberbullying (com vazamento de fotos não autorizadas), passou por decepções com pessoas ligadas à indústria e foi diagnosticada com Transtorno de Personalidade Borderline e depressão. E talvez não seja por acaso que, diante desse contexto de vida complexo - que inclui aí um recente e meio traumático término de relacionamento -, as canções do terceiro registro de inéditas, o ótimo Locket, soem tão maduras e tão "adultas", mesmo quando expõem inseguranças e vulnerabilidades.

 


Pra quem acha que pode haver algum exagero, pode começar pela espetacular Bittersweet - que soa como uma coisa meio Taylor Swift no começo dos anos 2000, com sintetizadores suaves, melodia grudenta e letra maravilhosa sobre o processo de encontrar a paz, mesmo em um contexto de mágoas e de altos e baixos de um relacionamento (Agora que acabou, você vai culpar a mim por tudo / Eu sei que eu deveria estar amargurada, mas, meu bem, estou agridoce). Unindo o vintage e o futurista, o retrô e o contemporâneo, Beer consegue soar em alguns momentos quase como uma FKA Twigs de tintas mais pop e dançantes (nas movimentadas Yes Baby e Make You Mine), e em outros como uma Ariana Grande contemplativa (na magnética Bad Enough). Sim, pode parecer apenas mais um disco pop de arrancada de ano. Mas é interessante como ele cresce a cada reencontro. 

Nota: 9,0