"A ideia de nós humanos, nos descolarmos da terra, vivendo numa abstração civilizatória, é absurda". Em tempos em que o colapso climático parece irreversível - meio que basta abrir as notícias do dia para ter certeza disso -, a frase dita pelo escritor brasileiro e líder indígena Ailton Krenak, no famoso livro Ideias Para Adiar o Fim do Mundo, parece ainda mais verdadeira. E é justamente tomando por base a obra do autor, que o Antropoceno lança o seu segundo registro de inéditas, No Ritmo da Terra. Criado pela paulista Lua Viana, o projeto mescla shoegaze, metal experimental, pós rock e psicodelia, com ritmos brasileiros ritualísticos ligados ao candomblé, ao afoxé e à capoeira, além de gravações de campo da Floresta Amazônica, que resultam em um conjunto de canções que parece estabelecer um vínculo direto entre ancestralidade e futurismo, tradição e inovação.
Funcionando por meio de um processo imersivo o disco, que dá continuidade ao igualmente relevante Natureza Morta (2025), pode soar desafiador como mera experiência musical. Especialmente por propor um mergulho na floresta, com seus habitantes, sons, elementos e ontologia. Ainda assim, no fundo parece haver algo maior aqui e que alude a um processo político e evocativo de enfrentamento, resistência, práticas decoloniais e subversão de influências ligadas ao capital. O que é complementado pela presença de letras que, para além do português, contam com versos em tupi e iorubá, além de um vasto conjunto percussivo de atabaques, tamborins, berimbaus e caxixis, que se unem a guitarras ruidosas e sintetizadores ferozes. "Se há um futuro a ser vivido, ele é ancestral". A frase de Krenak, de forma carga simbólica, centraliza as ideias que se espalham no registro. É uma força que transborda e se solidifica a cada nova audição.
De: David Lynch. Com Naomi Watts, Laura Harring e Justin Theroux. Suspense / Drama, EUA / França, 2021, 146 minutos.
Vamos combinar que, em muitos casos ficamos tão focados em tentar entender o que acontece no terço final de Cidade dos Sonhos (Mullholand Drive), que quase esquecemos o básico: de que o clássico moderno de David Lynch, que completa 25 anos de lançamento em 2026, é um excelente suspense romântico, com um roteiro instigante e repleto de surpresas inesperadas. Hoje em dia os finais em aberto e até certa falta de lógica narrativa parecem rotina no cinema mais experimental, com suas pontas soltas, alegorias e significados nem tão óbvios. E por mais que certo hermetismo sempre tenha feito parte das produções de Lynch - como no caso de Veludo Azul (1986), por exemplo -, o público ficou tão desesperado em compreender os eventos que rondam a dupla central Betty (Naomi Watts) e Rita (Laura Harring) que o diretor chegou a lançar um famoso extra na edição em DVD do filme, em que citava Dez Pistas para Desvendar Mullholand Drive.
De coisas como prestar atenção a um abajur vermelho recorrente, reparar no local do acidente e até descobrir o título do filme dentro do filme que Adam (Justin Theroux) está produzindo, estas eram apenas algumas pistas que poderiam conduzir o espectador a solução - no que foi um exercício divertido e legítimo de um tempo em que a internet ainda engatinhava e as redes sociais sequer existiam. Aliás, Cidade dos Sonhos é tão um produto do seu tempo - daquela virada de milênio ainda incerta em que o atentado ao World Trade Center acabara de acontecer -, que a dinâmica de quebra-cabeças cheio de peças espalhadas pedindo para serem encaixadas (chaves, cinzeiros, espelhos, xícaras de café e até moradores de rua sujos e inesperados) pareceu um atrativo a mais em uma experiência noir polida que, por si só, talvez já fosse envolvente o suficiente. Sem que precisássemos de uma resposta exata sobre os eventos vistos no Clube Silêncio, com a excêntrica e já falecida cantora Rebecca Del Rio entoando a mais melancólica das canções antes de simplesmente desmaiar.
Sim, hoje em dia não são poucas as teorias já consolidadas em fóruns do Reddit a respeito desse romance de estrutura circular que conta a história de uma deslumbrada aspirante a atriz de nome Betty Elms, que chega à Hollywood para tentar uma carreira no cinema. No local, ela se estabelece na casa de uma certa tia Ruth que, a bem da verdade, nunca aparece. Mas as coisas não serão tão simples já que ela se depara com a inesperada presença de Rita na residência, que afirma ter sofrido um acidente na Mullholand Drive do título, sem se recordar de mais nada que envolva o acontecimento (a não ser o fato de que ela sente estar em perigo). Para o espectador, o impacto da primeira meia hora é ondulante, quase amortecedor. Com a trama bebendo na fonte dos clássicos de Alfred Hitchcock, com Rita escapando da morte - dois homens (que não sabemos quem são) em um carro lhe apontam uma pistola, com a intenção de assassiná-la -, após uma batida de outro carro em altíssima velocidade, guiado por jovens desvairados e bêbados. Uma ocorrência que, em alguma medida, a salva.
Em linhas gerais parece haver um mistério que ronda esse conjunto todo - o que é reforçado pelo clima onírico da fotografia excêntrica, ao mesmo tempo opressiva mas primaveril que orna essa cidade fervilhante e pela trilha sonora de notas cortantes de Angelo Badalamenti, que emula as melodias lentas e frias vistas na série clássica, cult e noventista Twin Peaks (outro trabalho do maestro com Lynch). Há também um certo maravilhamento pela própria experiência de cinema (e de arte em geral), com uma série de instantes metalinguísticos que parecem brincar com o senso de realidade - o que é a verdade quando tudo o que assistimos está sendo filmado? -, e conforme entendemos que talvez Betty já tenha conhecido Rita anteriormente. Ou talvez uma projeção dela, por quem ela se apaixona não apenas por sua elegância à femme fatale da Hollywood clássica, mas também pela ideia do que ela representa como artista inalcançável (não por não ser capaz, como fica claro em uma sequência de ensaios, mas por ela não ser a pessoa indicada para este ou aquele papel, em uma máquina em que cartas marcadas parecem ter acesso facilitado no almejado panteão de estrelas da capital do cinema).
A presença de um volume inesperado de dinheiro, a existência de uma chave que não se sabe muito bem qual o uso, ou mesmo a aparição de pessoas estranhas e enigmáticas que parecem ter informações a mais sobre os envolvidos ali - como no caso do misterioso Cauboi (Monty Montgomery), os nada amistosos irmãos Castigliane ou mesmo a onipresente Diane Selwyn, que ressurge como num susto na memória de Rita, adicionam uma pimenta a mais em uma experiência cheia de tensões sexuais, de realidades alternativas e de um submundo de fantasias pomposas que se corroem e nem sempre se confirmam. E isso sem falar na misteriosa Camilla Rhodes que, aos poucos vai ocupando lugar de destaque na narrativa. Sedutor, estranho, assombroso, tenso e comovente, esse é daqueles filmes que não se resolvem após a subida de créditos, praticamente exigindo do espectador uma conversa de bar para teorias mais elaboradas, que burlem os limites entre fantasia e realidade. Ainda que o próprio Lynch tenha admitido em entrevistas, que se trata, como mencionamos lá no começo, apenas de uma história de amor. O que também é parte da beleza.
De: Julia Jackman.Com Emma Corrin, Maika Monroe, Nicholas Galitzine, Amir El-Masry e Charli XCX. Fantasia / Romance, Reino Unido, 2025, 91 minutos.
Era uma vez três irmãs - Rosa, Mina e Caterina -, que viviam com o pai, um capitão do mar. Após a morte da mãe das jovens, o pai prepara-as para aquilo que a sociedade patriarcal espera delas: ser boas esposas e mães, obedientes e com habilidades domésticas. Só que o homem não sabe que, em segredo, o trio aprendeu algo proibido nesse universo alternativo: ler e escrever. Quando o pai retorna de viagem com um comerciante rico a tiracolo, Rosa é escolhida para casar-se com o rapaz, acreditando no fato de ela ser dócil, virtuosa e santa. Só que essa não é a personalidade real de Rosa, uma moça inteligente, extrovertida e dotada de habilidades artísticas. E mesmo que o matrimônio pareça feliz em um primeiro momento, com as convenções estabelecidas, a confiança é quebrada quando Rosa, num instante afetivo, escreve I love you, em uma janela embaçada. É o suficiente para que o marido surte com a ideia de a própria esposa ser capaz de escrever seus próprios pensamentos. Sim, escrever. Ela se torna uma ameaça, uma bruxa, impura, vadia.
Vamos combinar que a história dentro da história narrada por Hero (Emma Corrin) à Cherry (Maika Monroe), em 100 Noites de Desejo (100 Nights of Hero), parece ainda dizer muito sobre os tempos sombrios atuais - em que políticos de extrema direita nutrem um desejo nem tão secreto assim de que suas esposinhas de bem sejam apenas donas de casa submissas, do modo mais tradicional possível. De preferência sem independência, sem vontades, sem desejos pessoais. Sem voto. Sem ideias (subversivas). Sem leitura e escrita. Enfim, vocês sabem como opera esse campo. Ao cabo, a obra dirigida por Julia Jackman e que é inspirada na graphic novel de Isabel Greenberg, é um conto de fadas esteticamente belo, que pega algumas ideias de As Mil e Uma Noites, para contar a história de Cherry, que é deixada em seu castelo por seu marido negligente Jerome (Amir El-Masry), que resolve testar sua fidelidade após a chegada do sedutor Manfred (Nicholas Galitzine) ao local.
Caso Cherry ceda às investidas de Manfred, Jerome lhe concederá direito sobre o reino. Restando à adúltera Cherry o destino inevitável das bruxas desviantes do período: a morte. De preferência de alguma forma bem cruel. Só que Hero, para além de criada de Cherry, é uma amiga pessoal. Uma amiga talvez até demais - e são várias as sugestões homoeróticas do filme que estreou na última semana na Mubi. Não apenas entre a dupla central de mulheres, mas também entre Jerome e Manfred - o que é reforçado pelo fato de o primeiro ser simplesmente incapaz de confirmar uma noite de núpcias adequada, como prevê a tradição. "Quero ser tocada, pra gerar um filho, claro", verbaliza à jovem de forma meio desajeitada, em certa altura. Mas Hero parece estar um passo à frente dessa ameaça que parece se espalhar de todas as formas nos corredores desse universo gerido por homens velhos e cheios de códigos morais rígidos. É por isso que ela mesma sugere contar a história de Rosa (vivida por Charli XCX) e suas irmãs. Como uma forma de reter meio que eternamente por esses três meses e pouco, as investidas de Manfred.
Em geral, o que temos aqui é uma produção que consegue ser ao mesmo tempo modesta, mas também sofisticada - além de cheia de metáforas e simbolismos que apontam os dedos para o absurdo da dominação dos homens, com o uso da religião como veículo. Nesse mundo alternativo, o idílio pacífico pensado por Kiddo é quebrado quando seu pai, um certo Birdman (Richard E. Grant) resolve criar um código rígido, especialmente no que diz respeito à gênero. Para Cherry, ter um filho pode até ser um objetivo - até mesmo para que ela sobreviva nesse espaço em que mulheres parecem ter apenas uma "utilidade" -, mas essa ideia vai sendo meio que dissipada, conforme ela mergulha no universo fantástico de Hero (que, sim, tem esse nome não por acaso). Com ótimos figurinos e desenho de produção, esse é aquele tipo de narrativa cheia de carisma, que não carece de grandes acontecimentos ou reviravoltas para passar o seu recado. Talvez em tempos tão brutos, um pouco de realismo fantástico não faça mal.
Vamos combinar que discos como Emotional Junglist, o segundo da sempre ótima Nia Archives, são a prova viva de que a música mais experimental não precisa ser hermética, complexa, cabeçuda. Conhecida entre seus pares por ser uma das referências modernas do jungle - estilo musical precursor do drum and bass e que é marcado pela bateria acelerada, linhas de baixo graves e samples movimentados -, aqui a inglesa parece disposta a explorar outros estilos, como o R&B, o brit pop, o indie rock, o pós punk, o dub e o reggae. E não é que Nia não tenha sido versátil na estreia Silent Is Loud (2024) que, para os puristas, talvez seja um disco até melhor. Mas aqui essas ideias parecem mais espalhadas, menos presas a uma caixinha, mais exploratórias. Com o resultado sendo uma coleção de canções etéreas e sofisticadas, mas também sedutoras e despojadas. É um registro que cresce e só vai melhorando a cada novo play.
Um bom exemplo dessa mescla pode ser percebido na ensolarada This Could Be..., que não faria feio na trilha sonora de alguma sitcom do final dos anos 90 ou começo dos 2000 - sentimento reforçado por sua letra de romance torto, mas esperançosa, sobre estar com o coração aberto para encontrar o amor (Talvez você seja o único / Este pode ser o começo de algo bom). Já Vertical, com seus sintetizadores sonhadores e batidas ritmadas, parece algo que poderia estar em algum disco da Björk, em sua fase mais, vá lá, comercial. Como um todo, o registro é cheio de surpresas. Algumas mais transcendentais, como no caso da apaixonante Superlust, talvez uma das melhores músicas do ano; outras mais vulneráveis e íntimas, como no caso de Tender, parceria com Sampha. Sério, é tudo tão bem acabado aqui, que esse é daqueles trabalhos que pedem um fone de ouvido e um pouco de calmaria. Vai ser difícil não se conectar imediatamente com a beleza desse disco, facilmente um dos melhores do ano.
De: John Francis Daley e Jonathan Goldstein. Com Ryan Reynolds, Kenneth Branagh, Marcin Dorocinski e Maria Bakalova. Ação / Comédia, EUA, 2026, 111 minutos.
Antes de falar qualquer coisa mais aprofundada sobre Mayday (Mayday) é preciso reconhecer que, no fundo, talvez essa seja apenas uma homenagem a um dos filmes mais gays da história - no caso, o "clássico" Ases Indomáveis (1986), que completa 40 anos de lançamento neste 2026. E, nesse sentido, por que não reviver o clima bélico da Guerra Fria e das disputas oitentistas entre Estados Unidos e União Soviética que marcaram aqueles anos, com uma produção de ação divertida, eventualmente exagerada, e que faz a crítica que nunca ofende ninguém a respeito do absurdo dos conflitos? Sim, falar em Reagan e Gorbachev pode parecer algo meio anacrônico em uma observação meio direta, mas o caso é que as motivações por trás das disputas entre grandes potências meio que nunca se alteraram, com a hegemonia econômica, tecnológica e geográfica estando no centro. Aliás, com a aposta até sendo dobrada quando pensamos em Trump e, vá lá, Putin.
E, bom, como não são todos os filmes que necessariamente precisam ser vastos panfletos políticos com pano de fundo social, na obra dos diretores John Francis Daley e Jonathan Goldstein que, admito, nunca nem tinha ouvido falar, temos uma boa comédia de ação sobre um tenente da Marinha de nome Troy Kelly (Ryan Reynolds, afinal, não sei se alguém conseguiria ter uma cara mais estadunidense, até de uma forma meio tapada, do que ele), que é designado para uma missão de reconhecimento sobre a Rússia. Prestígio que ele conquista após salvar um colega de esquadrão em uma manobra milagrosa durante um treinamento - o que já é um aceno ao estilo Top Gun, com direito a exageradíssima Jump, do Van Halen, na trilha sonora. Em solo russo, a missão dá errada, seu companheiro de caça é morto e ele precisa, em um movimento desesperado, se ejetar. Sendo salvo, em pleno deserto nevado dos recantos siberianos pelo excêntrico Nikolai "Nick" Ustinov (Kenneth Branagh), um ex-oficial da KGB.
Só que o que poderia ser trágico para Troy (ser localizado por um militar soviético), se torna realmente a sua salvação, quando ele percebe que Nick não apenas abomina tudo que envolva o governo opressivo de Gorbachev, como ainda é um adorador da cultura americana - com direito a cartazes na parede de sua cabana com inscrições de I love New York e do elenco de Ases Indomáveis (fita VHS que ele preserva, secretamente, e que admite já ter assistido a mais de uma centena de vezes), além do sonho molhado de poder se empanturrar de Mc Donald's. Nick está falando a verdade? Está mentindo? É um impostor? Não tendo com quem contar em solo inimigo, Troy aceita a ajuda desse sujeito cheio de habilidades militares, que lhe salvará dezenas de vezes em um sem fim de sequências engraçadíssimas de lutas - como na cena do bar -, com fugas engenhosas, como na do trem, e outros estratagemas diversos, sendo um dos mais aleatoriamente cômicos o que envolve o encontro com sua filha Anna (Maria Bakalova).
Rodando pela Rússia rural em busca de um equipamento telefônico que permita driblar a vigilância e contatar a embaixada dos Estados Unidos, a dupla embarca em um road movie inesperado, onde Troy conhecerá a hospitalidade dos habitantes alheios às tensões políticas daqueles tempos, recebendo-os em suas casas de forma amistosa e sem julgamentos. Líder da KGB, Alexander Volkov (Marcin Dorocinski) empreenderá as buscas pelo americano capturado, o que envolverá boas surpresas pelo caminho, reviravoltas interessantes e uma série de instantes de humor involuntário - como na cena do esconderijo tanto no tonel de bebida como no armário, ou outra que envolve um enorme aparato fálico que, nada mais é do que uma alegoria para essas nações e seus líderes torpes, que só conseguem medir forças comparando o tamanho dos armamentos (que talvez compensem outras faltas). Carismático e até meio bobo em muitas vezes, esse é aquela projeto ideal pra quem quer passar o tempo sem pensar muito - ainda que, aqui e ali, haja um ensaio para uma crítica a respeito do absurdo do belicismo e de toda a dor gerada por essa indústria, lembrada também na pequena participação de David Morse, como o pai de Troy. Tá disponível na plataforma da Apple TV.
De: Cyril Aris. Com Mounia Akl, Hasan Akil e Tino Karam. Drama, Líbano / EUA / Qatar / Alemanha / Arábia Saudita, 2025, 110 minutos.
Vamos combinar que, no estado atual das coisas, é meio que impossível não ser eventualmente invadido pelo pessimismo ou pela desesperança em relação ao futuro. Guerras, pandemias, crises imigratórias, avanço da extrema direita, meio ambiente em colapso, tecnologia utilizada com objetivos escusos por poderosos, enfim, é tanta coisa que a vontade que dá é de se refugiar em uma ilha isolada - um espaço idílico qualquer - e nunca mais voltar. Em Um Triste em Belo Mundo (Nujum Al'amal w Al'alam), o representante do Líbano para a última edição do Oscar (não se classificou para a final), essa ilha é um tipo de metáfora para um ambiente utópico e, de preferência, distante da turbulência de um País marcado por uma sucessão de crises políticas, sociais e religiosas recentes, que decorrem de uma guerra civil que deixou uma série de feridas para a população.
Em geral esse é um contexto que, para o espectador mais desavisado (que era o meu caso), talvez exija um pouco de pesquisa para compreender as motivações das personagens centrais - sendo elas o casal Yasmina (Mounia Akl) e Nino (Hasan Akil) -, que tentam o tempo todo recolher os cacos do caos que os rodeia, em uma nação que parece em permanente busca por reconstrução. E, em alguma medida, não é difícil se identificar com Yasmina, uma consultora do governo que não esconde, nas entrelinhas (reforçadas pelas oníricas narrações em off), certo pendor à misantropia, o que explica seu comportamento taciturno, desconfiado e até solitário. Em contrapartida, Nino é o sócio de um restaurante de família tradicional, que busca superar o trauma da morte trágica dos pais em um atentado, vendo sempre o copo cheio. Esperançoso, acredita na construção de um mundo melhor, na permanência no País, na formação de uma família.
Quando crianças, ambos eram colegas de aula e, em meio a um ensaio de primeiro amor típico das séries iniciais, eles acabam separados (quase) para sempre nesse contexto de instabilidade do Líbano - e que também perpassava o foro íntimo de Yasmina, com a separação dos pais (e esse microcosmo do conflito interno, em muitos casos, funciona também como uma alegoria para o todo). Aguardando por muito tempo a sua companheira de escola para migrarem para a tão sonhada "ilha" (e toda a vez que a obra do diretor Cyril Aris viaja para esse espaço sonhador e abstrato ela se fortalece), Nino se frustra pelo reencontro nunca acontecido e sempre idealizado. Até um salto de quase trinta anos no tempo quando, após um excêntrico acidente de carro - Nino invade o escritório da mãe de Yasmina, após um instante de desatenção -, eles se reencontrarão. No restaurante do protagonista. Como forma de compensar parte dos danos.
Em suma, o comportamento de Nino pode ser estranhamente irritante - sempre com alguma chantagem psicológica ou com demonstrações de amor meio assustadoras, que fazem pensar nele como um stalker desesperado (como no momento em que ele simplesmente persegue Yasmina de carro, quando ela já está de malas prontas para migrar para a Alemanha a trabalho). Permanecendo no local, a dupla acaba cumprindo todos os rituais familiares típicos do conservadorismo: casam, tem uma filha, tentam recolher os cacos. "Você sabe que o País está desmoronando, né?", divaga Yasmina, que parece contrariada de uma forma meio permanente. No centro de tudo está uma obra que questiona o tempo todo, com sensibilidade e rudeza, se é possível ter qualquer tipo de ânimo. Com fotografia melancólica e acinzentada e trilha sonora existencialista, essa é uma experiência que não resolve para muito além do "é preciso sair daqui imediatamente para onde quer que seja". A gente pode até estranhar o que é a ilha no final. Mas ela é só um símbolo. Ainda mais em uma sociedade marcada pela diáspora.
Vamos combinar que existem certas bandas que nunca alcançaram um público maior, ainda que tenham uma discografia que, em nada, as desabone. E nessa seara, talvez um dos melhores representantes sejam os escoceses do Trashcan Sinatras que, recentemente, lançaram seu sétimo disco na carreira - o ótimo Ever The Optimist. Com aquela pegada indie ensolarada ao estilo dos conterrâneos do Teenage Fanclub, o grupo sempre foi marcado pelas letras existencialistas, que colidem a perfeição com as melodias primaveris típicas do jangle pop e com os refrãos pegajosos - vide clássicos passados como Obscurity Knocks, do álbum Cake (1990) ou Best Days on Earth, do anterior Wild Pendulum (2016). E tudo isso em um contexto marcado por dificuldades financeiras no transcorrer da carreira e até a morte ainda recente do vocalista e guitarrista John Douglas, pouco depois da chegada do último álbum.
Da abertura com a faixa título à Beatles numa mistura com o Blur, à conclusão com a premonitória Learning to Love Your Ghost, tem-se aqui um registro polido e de brilho particular, que nem parece de um coletivo que está prestes a completar quarenta anos de carreira - e que possui um tempo próprio, bastante particular, de vida simplesmente acontecendo. Em antigas entrevistas, o vocalista Francis Reader chegou a brincar sobre as vantagens do processo de espera e dos longos hiatos entre um trabalho e outro. "Uma delas é que nos impede de lançar álbuns horríveis", afirmou. Com título quase autoexplicativo a baladona Hold On Today, que parece saída de um disco do Girls, tem letra paradoxal e contemplativa sobre evitarmos domar o futuro, nos centrando no presente. Mas há outros destaques, como na dobradinha Bad Husband, que conta com a participação de Tracyanne Campbell, do Camera Obscura, e, especialmente, The Bitter End, séria candidata a uma das músicas do ano. Vale o play.
De: Fernando Eimbcke. Com Teresita Sánchez, Bastian Escobar e Hugo Ramírez. Drama / Comédia, México, 2026, 99 minutos.
Devo admitir que, assim que comecei a assistir ao premiado Moscas (Moscas), novidade da Mubi nesta semana, me recordei imediatamente de Fly, o clássico e divisivo episódio da terceira temporada de Breaking Bad - que é aquele em que Walter White (Bryan Cranston) constata a presença de uma mosca no seu higieniquíssimo laboratório de produção de metanfetamina. O que faz com que ele empreenda uma verdadeira missão particular, no sentido de tentar eliminá-la. Na obra do diretor Fernando Eimbcke também é uma mosca que perturba a tranquilidade de Olga (Teresita Sánchez), em sua rotina ordinária de partidas de sudoku ao computador e outras mesmices cotidianas. Só que há uma diferença entre Walter e a sua obsessiva necessidade de controle, que é parte de sua deterioração psicológica e Olga, que apenas abre a janela para expulsar o inseto. O que funcionará como uma alegoria do exterior que, aos poucos, invadirá sua rotina, com seus barulhos, movimentos, pessoas.
Olga mora sozinha, mas está mal de grana. Pior, uma grave unha encravada que, inclusive, dificulta seu movimento, exigirá dela um investimento de três mil pesos para o tratamento. Uma cirurgia que não é complexa, mas é cara. Para quem conta as moedas a cada ia ao armazém ou à farmácia, trata-se de um dinheirão. Em busca de alguma solução, a protagonista - uma figura taciturna, rude, de carisma negativo -, oferece um quarto do seu apartamento para interessados em alugá-los por curtos períodos. Especialmente para familiares que acompanham adoentados no hospital vizinho e que não possuem muitos recursos - sendo exatamente esse o caso de Túlio (Hugo Ramírez), cuja esposa está internada com câncer. Para lá e para cá pelas ruas fervilhantes, o sujeito leva à tiracolo o pequeno Cristian (Bastian Escobar), seu filho de dez anos aficionado pelo jogo de fliperama Cosmic Defenders Pro, que, em um primeiro momento, ele esconde de Olga para não ter de pagar mais pela estada.
Ao cabo, trata-se de um fiapo de história em que vidas diametralmente opostas colidem, encontrando, aqui e ali, pontos de contato em meio ao mal-estar generalizado da vida em sociedade, com seu individualismo atroz e certo pendor à introversão (pra não dizer misantropia). Olga chega a avisar Túlio de que, de preferência, ele sequer fale com ele. Use o banheiro interno o mais rápido possível e não compartilhe com ela outros cômodos da casa, a exceção do quarto que está sendo alugado. Pouco lhe interessa a vida daquele pai com seu filho empobrecidos, quase numa versão latina de Ladrões de Bicicletas (1948) - sendo uma experiência, assim como no clássico de Vittorio de Sica, bastante naturalista para países com tantos contrastes sociais como o México (vale também pro nosso Brasil). Sentimento ainda mais evidenciado por instantes em que Túlio sofre para comprar medicamentos ou garantir o suprimento mínimo alimentar para ele e o filho.
Onipresente, a mosca reaparece aqui e ali, como uma memória daquilo que chega, invade, faz barulho, incomoda e, enfim, nos obriga a sair do sofá e deixar a letargia de lado, nem que seja pra dar uma chinelada. Só que Túlio e Cristian não são insetos e quando o pai do menino simplesmente desaparece em circunstâncias um tanto misteriosas, cabe à taciturna protagonista uma aproximação meio a contragosto do jovem - o que resultará em uma troca inesperada de afeto, que terá como ponto de vínculo as perdas familiares, o luto e a necessidade de seguir em frente diante da tragédia (e não deixa de ser impactante o pequeno instante em que Túlio segura o rosto de Olga de forma carinhosa, enquanto ela padece de uma febre que lhe paralisa). Sim, o tipo de dinâmica que assistimos aqui não tem basicamente nenhuma novidade que não tem senha sido vista ou explorada de forma bastante efetiva em produções como Central do Brasil (1998) ou A Língua das Mariposas (1999). Mas há um certo charme enigmático reforçado pela fotografia em preto e branco, que nos deixa meio vidrados.