De: Christian Petzold. Com Paula Beer, Barbara Auer, Enno Trebs e Matthias Brandt. Drama / Suspense, Alemanha, 2025, 86 minutos.
Devo admitir que eu entendo o espectador eventual que fica frustrado com filmes como Mirrors No. 3 (Miroirs No. 3) - a nota média do público é 53 no Metacritic -, a mais nova produção do sempre acima da média Christian Petzold e que está disponível na Reserva Imovision. Sim, a impressão que dá é que meio que nada acontece nessa obra essencialmente econômica, contemplativa e bucólica, a respeito de uma jovem de nome Laura (Paula Beer, colaboradora habitual do diretor) que, após um grave acidente em uma estradinha vicinal de interior, se "muda" para a casa de Betty (Barbara Auer), que reside há alguns metros da tragédia. Levando o estilo pautado por silêncios e movimentos vagarosos, em que olhares podem dizer muito mais do que palavras - como já visto, por exemplo, nos excelentes Phoenix (2014) e Afire (2023) -, o realizador parece ter ainda mais calma para entregar aos poucos os eventuais segredos que, em alguma medida, unem aquelas mulheres.
Quando passa de carro acompanhada por um casal de amigos e pelo namorado que morre no acidente, Laura se vê estranhamente conectada pelo olhar de Betty - ambas chegam a virar o pescoço para seguirem se observando para além da próxima curva. A jovem protagonista é uma estudante de música da Universidade de Artes de Berlim que parece deprimida, em seu comportamento errático, caminhando silenciosamente pela beira do rio com roupas maltrapilhas - o desgosto se amplia quando ela perde sua bolsa, sendo justamente no retorno para casa que ocorre a batida. Por um daqueles milagres, Laura sofre apenas leves arranhões, sendo impelida a ficar na casa de campo de ares primaveris, com a cerquinha branca a ser pintada e a horta de plantas não convencionais pronta para ser reformada. E por mais que Betty estranhe o comportamento de sua nova moradora, o inverso também ocorre já que não são poucas as vezes em que Laura observa a anfitriã sozinha a noite, na rua, olhando para o nada de forma taciturna.
Fosse um filme de suspense bem apegado aos clichês do gênero e já saberíamos que coisas estranhas poderiam acontecer naquela casa. Mas tudo é mais simples do que parece - ainda que envolto em mistérios e coincidências. Quando Betty convida o marido Richard (Matthias Brandt) e o filho Max (Enno Trebs) para um almoço em que apresentará a convidada, as peças do quebra-cabeças começam a ser formadas: traumatizada e enlutada, aquela família ainda se ressente de ter perdido uma filha de idade próxima a de Laura e que talvez fosse não apenas semelhante fisicamente à ela, mas também mantivesse certos hábitos parecidos (como o apego às artes, evidenciado pelo gosto pelo piano). Para os dois homens, mecânicos rústicos, ocupados com consertos na casa - como da lava-louças e outros equipamentos -, toda aquela cena gera desgosto. Betty parece ter severos distúrbios psicológicos que a presença da jovem não ajuda a sanar. Vizinhos curiosos circulando pelo entorno pouco ajudam, com as tensões, ainda que leves, se acentuando conforme os dias passam.
Mas essa não é uma obra, como já dito no começo da resenha, sobre grandes acontecimentos. E sim sobre como a experiência humana pode ser complexa, imprevisível e capaz até de ser reparadora em espaços que menos se imagina. Quem nunca andou pelo meio rural, por exemplo, e foi acolhido por alguma família do campo que ofereceu frutas, água fresca e um espaço para descanso, para respiro? Em tempos em que pessoas vivem suas vidas como máquinas apressadas, reféns do pior do capitalismo tardio, talvez Laura só desejasse parar um pouco. Desacelerar. Contemplar. Aparentemente a sua relação com o namorado não era das melhores - ela fica indiferente ao fato, quando Max lhe pergunta sobre a perda ou a respeito de o quão triste ela está. Em geral não são fornecido mais detalhes. Toxicidade? Violência? Redpilagem? Não temos como saber. Mas ao passar a borracha nos fatos do passado, a jovem se permite abrir um meio sorriso no take final. Talvez ela possa ter sido curada. E aquela família também, ainda que tanto ela quanto a filha, jamais sejam esquecidas.
Nota: 8,0







