segunda-feira, 18 de maio de 2026

Cinema - Exit 8 (8番出口)

De: Genki Kawamura. Com Kazunari Ninomiya, Yamato Kochi, Kotone Hanase e Naru Asanuma. Suspense / Drama, Japão, 2025, 95 minutos.

Vamos combinar que alegorias cinematográficas sobre a estagnação da vida, as dificuldades de seguir em frente ou o sentimento de seguir meio preso em uma mesma rotina não chegam a ser novidade. De obras divertidas como Feitiço do Tempo (1993), passando por experiências emocionais e sufocantes como O Show de Truman (1998) ou existencialistas como Sinédoque Nova York (2009), não foram poucas as produções que tornaram a repetição como um acontecimento ligado a outras travas - afetivas ou morais. E também há aqueles casos em que uma obra sobre pessoas enclausuradas em loopings temporais infinitos talvez sejam apenas um exercício de estilo, que leva o terror até o limite sem que haja uma grande explicação simbólica por trás. Onde a coisa ocorre apenas para nos deixar apreensivos, sem que haja um significado maior por trás - e, na cabeça me vem de imediato o clássico moderno cult Cubo (1997), que aterrorizou plateias da década de noventa, com os seus acontecimentos enigmáticos.

Talvez o curioso Exit 8 (8番出口) seja mais o estilo da segunda categoria. Ou talvez uma mescla das duas, especialmente pelas ocorrências do primeiro ato, chamado apenas de Homem Perdido (sendo este interpretado por Kazunari Ninomiya). Assim como faz, provavelmente, dia após dia, esse sujeito pega o metrô, se espreme entre as pessoas - com seus hábitos e estranhezas -, vai para o trabalho, almoça, volta, chega em casa, algumas horinhas de descanso, come, mija, assiste TV, dorme e volta no dia seguinte e novamente, para viver aquele dia repetidas vezes, por semanas, anos, décadas. Ao cabo, essa é a vida de qualquer pessoa. Rotina, tédio, vazio - e nem é preciso ser um grande conhecedor de metáforas para perceber que esses comportamentos mecânicos, cotidianos, quase como na música de mesmo nome de Chico Buarque (Todo o dia ela faz tudo sempre igual / Me sacode às seis horas da manhã) nos possibilitam identificação imediata.

 


Só que neste dia, em especial, o Homem Perdido recebe uma ligação de uma aparente ex-namorada, com uma notícia que lhe deixa em choque: ela está grávida. E, pior do que isso, como se abalo pouco fosse bobagem, ele ainda presencia um empresário irritado no metrô que, publicamente e sem nenhum constrangimento, apupa uma jovem mãe que, simplesmente, não consegue fazer com que seu bebê pare de chorar. Um assunto, queira ou não, se conecta ao outro: um filho que certamente representará um ponto de virada. Justamente antes de ele entrar em um longo corredor em L que se repete, se repete e se repete em uma infinidade de corredores em L que direcionam pra tal saída número oito. Apenas um outro sujeito sisudo passando. Cartazes espalhados pela parede. As mesmas portas e sistemas de ventilação. Placas com algumas informações e temos um sujeito preso em uma realidade embaralhada, dobrada, que se repete meio que sem explicação. E para fugir dali será necessário reconhecer pequenas anomalias do trajeto, mudando rotas que possam intervir nessa realidade paralela torta recém estabelecida. 

Parece complexo e em alguma medida talvez seja. E, como eu disse, talvez tenhamos aqui uma excelente ferramenta simbólica de como notícias ou acontecimentos inesperados são capazes de nos tirar da zona de conforto ou do lugar a que estamos acostumados. Sendo necessários novos movimentos para que possamos ir adiante. A chegada de um filho talvez seja um exemplo óbvio de como as coisas mudam profundamente nas nossas vidas - e de como pode haver um apego a um passado que não mais retornará. Ou vai ver que Exit 8 é apenas um filme inspirado em um jogo de videogame indie (lançado em 2023 e eu só soube disso após ver a obra), que brinca com nossos medos, temores, indecisões e incertezas. Reforçadas por temas ligados à avanços tecnológicos, redes sociais, burocracias, distopias políticas, alienação urbana e vigilância estatal. Em uma obra assim há margem para uma serie de interpretações. Com as possibilidades se ampliando conforme outras personagens - O Caminhante e o Menino - entram na trama, no transcorrer da história. Curioso, excêntrico, moderno e com ótimo, ainda que simples, aparato técnico - do desenho de produção à trilha sonora - esse é aquele tipo de projeto que alude à exaustão do mundo, ao mesmo tempo em que olha com ternura para aqueles que simplesmente insistem em existir. Vale conferir.

Nota: 8,0 

 

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Enzo (Enzo)

De: Robin Campillo. Com Eloy Pohu, Maksym Slivinskyi, Élodie Bouchez e Pierfrancisco Favino. Drama, França / Bélgica / Itália, 2025, 103 minutos.

Quem acompanha a carreira do diretor Robin Campillo sabe que seus filmes costumam ser atravessados por questões ligadas ao universo LGBTQIA+, algumas vezes de maneira mais explícita, como no ótimo 120 Batimentos por Minuto (2017), em outras de forma mais sutil, como no caso do recente Enzo (Enzo), que chega para aluguel nas plataformas da Apple TV e da Amazon Prime. No ponto central, independente da obra, parecem estar as ideias de pertencimento, desejo, exclusão e negação em diferentes graus. E que muitas vezes são exploradas em historias que tensionam esses temas que, inclusive, quebram em alguma medida o que prevê o status quo. E talvez não seja por acaso que no universo do protagonista que dá nome ao mais recente projeto do realizador haja uma predileção pelo trabalho na construção civil. Como pedreiro mesmo.

O que, inicialmente, parece ser uma forma de confrontar os pais Paolo (Pierfrancisco Favino) e Marion (Élodie Bouchez) - algo bastante natural para um adolescente de 16 anos como Enzo (Eloy Pohu) -, não demorará para soar como uma espécie de alegoria de expiação dos próprios desejos do rapaz. Talvez estar perto de homens suados em uma construção, para alguém que está amadurecendo e formando suas noções de sexualidade, seja algum tipo de propósito. Ou talvez não. Enzo, afinal, tem uma jovem namorada. Ou ao menos faz de conta que tem. Talvez para se exibir para os demais - em uma idade que a elaboração da masculinidade e da identidade parecem em eterno movimento. Mas quem parece lhe deixar efetivamente animado no canteiro de obras é Vlad (Maksym Slivinskyi), um ucraniano que está fugindo da guerra, enquanto busca uma existência mais digna na França.

 


E creio que seja que nesse ponto da mescla entre narrativa queer e debate político-social e imigração que o filme se perde um pouco. Ao cabo, alguns dos temas parecem mais importantes do que a forma como são trabalhados. Indo de lá para cá, entre a voluptuosa casa dos pais e sua rotina como aprendiz de servente, Enzo parece o típico jovem descompromissado no que diz respeito ao futuro (por mais contraditório que tudo possa ser, uma vez que ele já trabalha). Mas ao mesmo tempo em que seu irmão mais velho (Nathan Japy) parece pronto para entrar numa universidade, convivendo harmonicamente com seus colegas que também frequentam a casa dos pais, o protagonista parece apenas um revoltadinho pequeno-burguês, que tem alguma aptidão para as artes, e que soa apenas meio rebelde sem muita causa. Afinal, não deixa de ser bastante cômodo ser desobediente em meio a um sem fim de braçadas na piscina enorme do casarão da família (ou eu tô militando demais?).

E, bom, não é que não haja bons momentos, mas talvez esse fosse um filme bem melhor se fosse mais centrado na figura de Vlad que, ao lado do companheiro de trabalho Miroslav (Vladislav Holyk), vive de fato uma situação angustiante. Especialmente depois de o segundo receber uma ligação do governo, convocando-o para participar do conflito contra a Rússia. Só que Enzo, com o perdão do trocadilho, parece o legítimo Enzo - e talvez o interesse pelos ucranianos, pela sua rotina, as idas à boate e o convívio com pessoas de outros estratos sociais seja apenas uma fuga do mundo, frente a um cenário de privilégios. Há uma cena em que o chefe de Enzo fica embasbacado ao descobrir que ele vive em uma mansão com vista para o mar, que talvez custe alguns milhões de euros. E, sim, por mais que a obra trate das exclusões em suas mais variadas formas, o que falta aqui é um pouco mais de conflito. Algo que faça com que a gente se importe um pouco com um Enzo birrento. 

Nota: 6,0 

 

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Pitaquinho Musical - Yaya Bey (Fidelity)

"Diga o que pensa, pense no que diz / É um novo dia, não há como fugir de si mesmo". Vamos combinar que, muito provavelmente, não foi por acaso que a primeira canção escrita por Yaya Bey para Fidelity, seu quinto registro de inéditas, tenha sido justamente Blue. Ao cabo, ela parece uma música ao mesmo tempo vulnerável e resiliente, e que emerge em um momento em que a artista se sentia meio que no fundo do poço. Algo que ela mesma mencionou no material de divulgação, quando detalhou o fato de ter desabado emocionalmente, em um hotel de Miami, justamente na semana de lançamento de Do It Afraid (2024), seu trabalho anterior. Quem acompanha a carreira da cantora sabe que ela perdeu o pai em 2024, tendo ainda de lutar contra outras pressões da indústria - e que certamente tem a ver com o fato de ser uma mulher negra, buscando sobreviver nessa máquina trituradora de famosos que é o showbiz, com a sua avidez ininterrupta em busca da mais recente novidade.

 


E tudo isso talvez explique porque esse registro parece ser tão nostalgicamente anos noventa - com aquele R&B classudo, mesclado com pop caloroso e uma neo soul ao mesmo tempo contemporânea, urbana e melancólica -, mas com menos apego ao aparato comercial, de melodias acessíveis, ou refrãos cantaroláveis. Aqui, a artista bebe da fonte de cantoras daquela década, como Brandy ou Aaliyah, para apresentar uma coleção de canções discretas, quase sonolentas, em que os versos surgem minimalistas mas sensuais, quentes mas elegantes. O resultado são canções que fluem gostoso, ainda que sejam menos palatáveis, o que talvez exija alguma persistência do ouvinte que se acostumou com joias como as movimentadas Merlot and Grigio ou End of the World, do disco anterior. Em geral esse pode até ser um trabalho meio que de ressaca emocional. Mas é uma ressaca de boas canções, como Forty Days, Higher e a já citada Blue.

Nota: 8,0 


terça-feira, 12 de maio de 2026

Tesouros Cinéfilos - Melancolia (Melancholia)

De: Lars Von Trier. Com Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Alexander Skarsgård, John Hurt e Charlotte Rampling. Drama / Ficção Científica, Dinamarca / Suécia / França / Alemanha, 2011, 131 minutos.

Um filme catástrofe, mas sobre a nossa catástrofe interior. Não sobre um planeta que vai colidir com o nosso, mas como as nossas angústias colidem com o corpo físico. Nos deixando desabilitados ou mesmo incapazes de superar medos, incertezas ou dores. O consciente sendo simplesmente invadido pelo inconsciente. E toda a complexidade que envolve doenças como depressão ou ansiedade. Aliás, quem já sofreu com tais quadros, talvez tenha muito mais facilidade em compreender os motivos de Claire, a personagem de Charlotte Gainsbourg, sofrer tanto com aquilo que ela acredita ser a proximidade da morte. Para o espectador nunca fica exatamente claro o seu quadro de ansiedade - ainda que ele só aumente conforme o planeta sugestivamente chamado de Melancolia (Melancholia), se aproxima inapelavelmente da Terra. Azul, imenso, imprevisível, doloroso.

Sim, hoje em dia, após tantos debates a respeito da obra de Lars Von Trier - de Dogville (2003) -, já parece bastante claro o fato de que a catástrofe em vias de ocorrer no filme, é muito menos literal do que imaginamos. Aliás, o próprio diretor dinamarquês, em entrevistas, chegou a comentar que a ideia para o filme surgiu justamente das longas sessões de terapia com o seu psicólogo, quando tratava um severo caso de depressão. Aliás, o que o filme deixa claro, também, é que esse tipo de doença independe de condição social, de prestígio ou qualquer outra coisa. Não por acaso, o cenário é voluptuosa casa de campo de John (Kiefer Sutherland), o marido de Claire. E que servirá de palco para o casamento da irmã de Claire, Justine (Kirsten Dunst). O que parece mais uma medida desesperada de tentar fazer com que ela supere, de qualquer maneira, a depressão. Que, como todos sabemos, não se resolve com felicidade forçada. Ou meios sorrisos.

 


Não por acaso, Justine trafega por aquele ambiente como se estivesse deslocada. Como se fosse uma mera convidada. Ou algum tipo de participante involuntária de algum game, como aquele visto em Vidas em Jogo (1997). "Você está feliz?", as pessoas insistem em perguntar. O seu sorriso que consegue ser melancólico e doce em igual medida, entrega: mesmo quando ela se diverte, como na parte em que a limusine que a conduz para o casamento tranca no acesso, não parece ser algo natural. O mesmo valendo para a forma com que ela protela essa felicidade protocolar, que responde aos ritos sociais e ao que prevê as convenções, O que pode ser percebido no momento em que, ao invés de simplesmente entrar no salão de festas após mais de duas horas de atraso que exasperam os convidados, ela ainda optar por cumprimentar o seu cavalo preferido no estábulo. Ou mesmo indo simplesmente dormir, mais adiante - este, aliás, um dos mais tradicionais refúgios de pessoas em depressão.

Dividido em duas metades, uma para Justine e outra para Claire, a obra se ocupa de uma série de pequenos momentos que estabelecem diálogo com a proposta da produção - que, sim, pode parecer hermética em seus excessos de imagens oníricas ou cheias de simbolismos, mas que nunca soam essencialmente complexas apenas porque sim. O que fica evidente já na colagem inicial em que várias ocorrências alegóricas são despejadas em câmera lenta, com uma delas chamando bastante a atenção e que, muito provavelmente, servirá como guia daquilo que acompanharemos pelas próximas duas horas - que é o momento em que Claire surge em meio a um denso mato, em que tenta avançar enquanto é impedida por um emaranhado de raízes que emergem do solo. É como se caminhar fosse simplesmente impossível frente ao que ela sente. Numa metáfora bastante direta no que diz respeito ao tema da depressão.

 

 

E se na parte de Justine a chegada do planeta Melancolia parece apenas uma ideia meio distante - refutada ou não pelos cientistas ou por teóricos da conspiração -, o segmento de Claire aumenta a tensão, com a expansão da ideia de que outro corpo celeste vai simplesmente colidir com o nosso, sem margem para sobrevivência. E a forma como Claire surge acuada, aqui e ali, sem ter muito o que fazer, enquanto se empenha em apoiar a própria irmã que sofre, só evidencia o desgaste gerado em quem padece de quadros clínicos do tipo. Enigmática e visualmente exuberante - as cenas noturnas que parecem obter um contraste enevoado entre o sombrio e o iluminado -, a obra funciona quase como uma grande ópera da dor, em um microcosmo que avalia a aflição doméstica, mas sem ignorar a complexidade do mundo e do tecido social como um todo. Vencedora de vários prêmios, a produção está disponível na Mubi, e completa 15 anos de seu lançamento oficial no Festival de Cannes, agora em maio. Vale resgatar.

Pitaquinho Musical - Bemti (Adeus Atlântico)

Vamos combinar que, em política, muito se usa a palavra multilateralismo para definir as formas como diversas nações trabalham de forma cooperativa, na intenção de resolver seus problemas. E, bom, se fosse possível a utilização do mesmo substantivo na música, talvez ele pudesse ser definido por aquilo que artistas como o Bemti, conseguem em álbuns como Adeus Atlântico, seu terceiro registro de inéditas. Sim, porque se anteriormente o mineiro tinha como marca da MPB mais tradicional - como no anterior Logo Ali (2021) -, aqui temos a impressão de estar em um encontro sonoro global, tamanha a quantidade de referências utilizadas pelo artista. Reflexo de suas constantes viagens não apenas pelo interior do Brasil - de Rio de Janeiro à Bahia, passando pela sua própria terra natal -, e por países, como, Portugal e Inglaterra.

 


E ainda que siga tendo como base a viola caipira - espécie de marca registrada -, Bemti amplia as referências, incorporando, aqui e ali, elementos de britpop, new age, indie rock, psicodelia e até estilos em alta, atualmente, como o amapiano, da África do Sul. O resultado é um registro de raríssima beleza, capaz de navegar pelo rock rural de Sá e Guarabyra, como na irresistível e calorosa Quase Sertão, pelo folk alternativo à Bon Iver da faixa-título, e pelo soft rock oitentista de Euforia. Direto, orgânico, humano, onírico e altamente sofisticado, esse é daqueles álbuns pequenos, mas que só crescem a cada audição. E que materializam sentimentos ligados à memória, à saudade de casa e ao deslocamento contínuo, como parte da experiência humana. Se estiver em dúvida, comece por Miragem (Viver de futuro é ensaio / Preso na função dos triunfos / Dentro de um aquário / Que todo mundo vê). Seguramente uma das melhores canções lançadas em 2026.

Nota: 9,5 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Jovens Mães (Jeunes Mères)

De: Jean-Pierre e Luc Dardenne. Com Lucie Laruelle, Babette Verbeek, Elsa Houben, Janaïna Halloy Fokan e Samia Hilmi. Drama, França / Bélgica, 2025, 106 minutos.

Em uma das tantas sequências comoventes do ótimo Jovens Mães (Jeunes Mères), mais recente produção dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne e que chega para aluguel nas plataformas da Apple TV e da Amazon Prime, uma desesperada Ariane (a ótima Janaïna Halloy Fokan) explica à sua mãe o fato de nunca a ter reprovado por ser pobre. "Eu só não queria ter o filho", suplica aos prantos, após ter levado um tapa de Nathalie (Christelle Cornil), a sua genitora e avó da bebê que carrega, a contragosto, nos braços. A visita de Ariane a Nathalie tem um objetivo central: ela dá à sua mãe os motivos pelos quais ela pretende doar a filha a uma família de acolhimento. Alguém que poderá criá-la, exatamente como permite a Lei, com melhores condições. Ariane queria abortar. A mãe não permitiu. O que é apenas uma das tantas facetas problemáticas das pressões sociais que envolvem a maternidade.

Talvez poucas jovens mulheres admitam o fato de terem sido mães para agradar a família. Quem nunca ouviu dos pais sobre o desejo de ser avô ou avó - cedendo a esse tipo de situação apenas para não romper essa lógica familiar? E que envolve, em muitos casos, o discurso conservador do papel da mulher na sociedade? O filme dos Dardenne, um mosaico complexo a respeito das eventuais precariedades da maternidade, evidencia feridas sociais variadas em que temas, como, abandono, dependência afetiva, falta de maturidade emocional, relações tóxicas, autodestruição e problemas financeiros são salpicados, aqui e ali, por meio de cinco histórias diferentes, em que mães que, em muitos casos, sequer saíram da adolescência, precisam lidar com o peso dessa enorme responsabilidade. O que ocorre, em muitos casos, com pouca estrutura familiar e com, óbvio, o abandono dos parceiros (jovens meninos que só passarão a pensar sobre o significado de colocar um filho no mundo depois que a coisa acontece).

 


Em linhas gerais essa é uma experiência dolorida e que, mais uma vez, como costuma acontecer na filmografia dos Dardenne, olha para a juventude não como uma alegoria meio abstrata para futuro ou perda de inocência. E, sim, como um estado de formação urgente frente às pressões do mundo. Em suas obras, não são poucos os casos em que adolescentes, ou mesmo crianças, são levados à tomarem decisões que, até mesmo para os adultos, podem ser eticamente questionáveis - e basta pensar em obras essenciais como Rosetta (1999), O Filho (2002), A Criança (2004) ou mesmo a recente O Jovem Ahmed (2019), para que sejamos confrontados com questões ligadas à violências, traumas e solidão. Ou mesmo a temas ainda mais complexos, ligados à questões políticas ou sociais. Em Jovens Mães, as cinco jovens do filme buscam acolhimento em uma espécie de abrigo, o que também torna evidente a importância da sororidade. Enquanto lidam com um ambiente em permanente combustão.

E não deixa de ser impressionante perceber como um filme tão curto consegue ser dotado de tanta complexidade. Se na primeira cena da obra já somos impactados pelo desespero de Jessica (Babette Verbeek), que busca algum contato com a mãe biológica que lhe abandonou, ao mesmo tempo em que precisa lidar com a própria gravidez, no instante seguinte temos Perla (Lucie Laruelle), que tem uma relação turbulenta com seu namorado (e pai do seu bebê), ao mesmo tempo em que sonha em ter uma família mais "normal", como é da sua irmã. Sendo um tanto trágico que isso tenha de acontecer em meio a interrupção de uma adolescência. No caso, a dela própria. Já Julie (Elsa Houben) precisa lidar com o vício e suas recaídas - com a maternidade surgindo, estranhamente, como uma chance para um recomeço. E há ainda Naïma (Samia Hilmi), que parece um ponto mais luminoso da narrativa, ainda que ela não escape de um lado sombrio. Indicada à Palma de Ouro no Festival de Cannes, a obra venceria o prêmio nas categorias Melhor Roteiro e do Júri Ecumênico. E é sempre muito prazeroso ver qualquer filme da dupla, afinal, nunca saímos os mesmos de qualquer que seja a sessão.

Nota: 9,0 

 

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Pitaquinho Musical - Luca Argel (O Homem Triste)

Quem acompanha a carreira do brasileiro radicado em Portugal Luca Argel, sabe que ele é capaz de ser irônico e debochado - como no simples e divertido Conversa de Fila (2019), que é uma verdadeira coletânea de sambinhas cotidianos -, mas também sério e contemplativo como no político Sabina (2023), que é inspirado em texto de Luiz Antônio Simas. O que não costuma mudar no repertório do artista é o aceno à MPB clássica que, mesclada a outros ritmos, costumam conferir força as suas composições que, com O Homem Triste, parecem ainda mais urgentes e atuais. Ainda mais em tempos de machosfera, de masculinidade frágil, de ascensão da cultura redpill e de incels que acham que podem moldar as mulheres ao seu gosto. Geralmente alinhados à políticos de extrema direita que, com seu reacionarismo atroz, ampliam discursos de ódio e, consequentemente, casos de feminicídio e violência.

 


"Começou há quatro anos, com o nascimento do meu afilhado. Olhava para ele aprendendo a andar, a falar, até que um dia ele voltou da escola diferente. Mais agressivo, rejeitando alguns brinquedos, algumas roupas, algumas cores que ele antes gostava. [...] Fiquei me perguntando: como os meninos aprendem a ser homens? Que preço temos que pagar?", explicou Argel no material de divulgação. O resultado é um conjunto de canções que exploram o conceito do álbum, equilibrando à perfeição o peso do tema, com a suavidade pop das melodias. Algo que podemos perceber, por exemplo, na ondulante e inaugural faixa-título (Foi no jornal que aprendi ser homem / Foi na igreja e no futebol). Em outros pontos, os temas surgem de forma alegórica, como no reggae Primeiro Mar (O primeiro mar de todo mundo / Fica dentro de uma mulher) ou no sambinha spoken word Se Acabou (Votar, governar, falar bem alto / E beber, e sujar e não limpar / E fazer filhos e fugir / E cortar árvores, furar minas).

Nota: 8,5 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Honey, Não! (Honey, Don't!)

De: Ethan Coen. Com Margaret Qualley, Chris Evans, Aubrey Plaza e Charlie Day. Comédia / Policial, Reino Unido / EUA, 2025, 89 minutos.

Acho que o problema de filmes como Honey, Não! (Honey, Don't!), que acaba de chegar à Amazon Prime, é a expectativa gerada. Especialmente pelos nomes envolvidos na produção, a começar pelo diretor. Tudo bem que já vai fazer quase uma década que o Ethan Coen não entrega uma produção decente - vá lá, se considerarmos A Balada de Buster Scruggs (2018) um bom filme e há controvérsias -, mas a gente olha o nome dele ali e pensa em Fargo (1996), em O Grande Lebowski (1998) e em Onde Os Fracos Não Tem Vez (2007) e em tudo de legal que ele já faz ao lado do irmão Joel e fica meio que vivendo de passado. Ou vai ver os tempos são outros e esse tipo de humor meio nonsense, escrachado mas contido e estranhamente violento, que é a marca registrada da dupla, talvez já não caiba mais em uma década tão esquisita como essa. Enfim, a gente teria gostado mais desse último filme se ele tivesse sido lançado, sei lá, em 1994?

Honestamente não sei dizer e tudo piora quando um filme tão curtinho consegue ser tão confuso. Ou tão raso - com a profundidade de um pires -, com as eventuais boas ideias tão espalhadas aleatoriamente, que a gente não consegue se apegar em nada. No centro da trama há um pastor pentecostal, seu nome é Drew Devlin (Chris Evans), que parece estar envolvido em algum tipo de maracutaia com a máfia francesa, que é representada ali pela chefona do tráfico sexy Chère (Lera Abova). Enquanto leva, aqui e ali, algumas jovens de sua congregação para a cama (além do carisma, ele tem a lata do Chris Evans, não esqueçamos), ele é informado por Chère que o bicho tá pegando pro lado dele, especialmente após o assassinato de Mia Novotny (Kara Petersen), que parece ter sido premeditado. E não sei dizer se em 2026, haja alguém considere divertida uma sequência de sexo inesperadamente interrompido.

 


Aliás, a maioria das tentativas de humor do filme, envolvem instantes sexualmente constrangedores, até com o uso de rimas visuais óbvias, que acho que nem um estudante de cinema compraria a ideia - como no momento em que a detetive Honey (Margaret Qualley) e a policial MG Falcone (Aubrey Plaza) transam pela primeira vez. Para no take seguinte, após um corte, uma torneira surgir borbulhante, enquanto jorra água para a limpeza de brinquedos sexuais diversos. Sim, legal, eu sou total contra esse puritanismo que tem invadido nosso cinema, atualmente, mas desde que a coisa tenha algum nexo narrativo. E que não use de alegorias tão pouco inspiradas. Com tudo piorando no momento em que Honey sai para confrontar o namorado violento de sua sobrinha para, num ato de pura subversão (uau), colar um adesivo feminista em cima de outro do MAGA (óbvio), que estampava o carro do sujeito.

E que a questão política não faça muito sentido, é algo até meio normal. Só seria mais legal se as bandeiras levantadas fossem menos infantilizadas, ou não soassem como um debate de Twitter de 2017. Nós temos, afinal, uma investigadora e uma policial lésbicas - com a primeira tendo uma irmã com uma dúzia de filhos -, um reverendo golpista e hedonista e mais um punhado de gente no entorno e lá pelas tantas a gente já não se importa com ninguém. Há um esforço de estilização obviamente Irmãos Coen na fotografia, ou mesmo na montagem, mas, no fundo, quem são, de fato, aquelas pessoas? O centro de tudo está em Mia e a morte dela descambará para uma sequência de cenas de violência e de sangue jorrando que é meio que típico da dupla. Ou de Ethan. E lembra lá em cima, que falei dos nomes envolvidos? Vocês chegaram até aqui e leram na resenha: Margaret Qualley, que esteve impecável em A Substância (2024) e Aubrey Plaza e sua trajetória de respeito. Bom, elas também precisam pagar boletos. Ou vai ver se enganaram, como nós, com o nome no cartaz. Vai saber.

Nota: 3,5