De: Olivia Wilde. Com Olivia Wilde, Penelope Cruz, Seth Rogen e Edward Norton. Drama / Comédia, EUA, 2025, 107 minutos.
Por que temos o hábito de culpar os outros pela nossa infelicidade, se muitas vezes somos nós mesmos que fazemos certas escolhas? Por qual motivo a grama do vizinho parece ser sempre melhor que a nossa e temos dificuldades em ser felizes com o que temos? O que nos faz ficar casados com quem não amamos ou não transamos? Por quê tanto ressentimento? Ou tantos desejos reprimidos? São tantas as perguntas suscitadas por essa joia chamada O Convite (The Invite) - que é baseada na produção espanhola Sentimental (2020) - que mal temos tempos de respirar pra começar a responder. E a verdade é que talvez esse nem seja um filme que procure respostas já que as questões surgem - algumas verbalizadas pelas personagens, outras ficando meio que no ar - e, ao cabo, permanecem conosco, assim que os créditos sobem. Esfregadas em nossas caras, como se estivéssemos em uma sessão de terapia coletiva. Conjunta. Com aqueles que acompanhamos.
Indo na esteira de outras produções com pessoas confinadas em um mesmo ambiente e dispostas e amplas divagações sobre relacionamentos, traumas, dores, sonhos despedaçados e insatisfações - não é difícil pensar em clássicos como Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? (1966) ou mesmo em produções mais recentes, como, Deus da Carnificina (2011) -, a obra dirigida e estrelada por Olivia Wilde parte de uma provocativa sentença do escritor Oscar Wilde: "devemos estar sempre apaixonados e, por isso, não devemos casar". Sim, a frase pode ser exagerada e até chocante para aqueles mais afeitos às convenções, como no caso do matrimônio, mas ela não é definitiva. Ela serve, em alguma medida, de deixa para a situação vivida pelo casal central (e anfitrião) da noite que se seguirá - no caso, o professor de um conservatório Joe (Seth Rogen) e a artista aposentada precocemente Angela (Olivia Wilde), ambos claramente meio que frustrados com tudo.
Aliás, muita dessa desilusão parece ter a ver com a completa incapacidade de comunicação da dupla. Joe chega furioso em casa no final do dia, depois de ter dado aula, pego o metrô e percorrido um pesado trecho de bicicleta que destroi suas costas, para se deparar com uma Angela animada pela perspectiva de receber o casal que mora no apartamento de cima - os sensualíssimos Pina (Penelope Cruz) e Hawk (Edward Norton) -, que parecem ter uma vida sexual absolutamente movimentada e selvagem, deixando os anfitriões exasperados (e sem sono) a cada madrugada. Com tudo piorando quando descobrimos, mais adiante, que Joe e Angela não transam há um ano. Joe não queria a visita. Angela preparou um banquete, mas esqueceu de comprar vinho - para seu desespero. Ela quer a janela aberta, ele fechada. Ele quer beliscar a comida pois está com fome, ela não deixa. A desconexão é daquelas que salta os olhos e vale destacar a ferocidade dos diálogos, quase sempre com um caráter passivo agressivo e, verdade seja dita que produções desse subgênero só funcionam com um texto de excelência (e esse aqui é ótimo).
Quando Pina e Hawk chegam, tudo parece piorar para a dupla central. Além de sexies, descolados, progressistas e abertos à novas experiências, eles namoram há apenas um ano. Pina, uma terapeuta sexual que já foi casada, deixou uma vida de insatisfação pra trás. Hawk, um bombeiro aposentado (o que representa uma quebra de estereótipos) era seu paciente, que estava em vias de dar cabo de sua própria vida. Ao menos até os dois se encontrarem, se aproximarem. As conversas entre polos tão distintos e tão opostos no que diz respeito ao ponto em que seus relacionamentos estão, será a marca de uma experiência que consegue ser sutil, mas com envergadura. As horas passam naquele ambiente e a impressão que temos é a de que poderíamos ficar por horas ouvindo aquele quarteto em uma tensão que parece crescer mesmo em instantes mínimos - como no caso da descoberta do veganismo de Pina, ou da necessidade de abrir uma garrafa de vinho que vinha sendo guardada para alguma ocasião especial. E, honestamente, nem vale a pena falar muito mais a respeito. A obra tem ganho tração e pode chegar, inclusive, ao Oscar, naquela sempre bem recebida cota do filme alternativo. Vale cada segundo.
Nota: 9,0







