segunda-feira, 1 de junho de 2026

Novidades em Streaming - A História do Som (The History of Sound)

De: Oliver Hermanus. Com Paul Mescal, Josh O'Connor e Chris Cooper. Drama / Romance, EUA / Reino Unido / Itália, 2025, 128 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM ALGUNS SPOILERS] 

Vamos combinar que se o subgênero do "drama do gay triste" pode até não estar oficialmente formalizado, ainda que caminhe para isso. Até porque parece haver uma convenção meio incômoda de que narrativas queers necessitam, inevitavelmente, virem acompanhadas de sofrimento. De O Segredo de Brokeback Mountain (2005), passando pelo premiado Moonlight (2016) e, claro, por alternativos, como, Todos Nós Desconhecidos (2023), a impressão que se tem é a de que a experiência gay, especialmente a masculina - sempre carregada de uma tonelada a mais de preconceitos - parece ter de vir, invariavelmente, acompanhada de perda, de luto, de dor. Ou mesmo da impossibilidade da felicidade amorosa - como uma espécie de punição meio que natural, do ponto de vista conservador, para aquilo que é claramente desviante. Que foge da lógica ou das convenções. Meio que como a jovem depravada que é a primeira a morrer nos filmes de terror, guardadas todas as proporções.

E, é preciso que se diga que não há nenhum problema nesse estilo, que já nos brindou com grandes produções - como as citadas acima. Só que, às vezes, a impressão que se tem é que a mão pesa um tanto na abordagem desse sofrimento quase infinito, desesperançoso. O que piora quando a obra passa a impressão de ter potencial para explorar outras subtramas para além do "veja bem como esse homem sofre em silêncio e dentro do armário em tempos tão complicados" - e esse parece ser exatamente o caso de A História do Som (The History of Sound), do diretor Oliver Hermanus. Exibido em Cannes e estrelado por Paul Mescal e Josh O'Connor, esse é aquele tipo de filme elegante, de grande apuro técnico - da fotografia ao desenho de produção -, mas que quase se torna cansativo ao nos apresentar um romance secreto entre dois estudantes de um conservatório do começo do século passado que termina, claro, de forma trágica.

 


Quando a obra começa começa, uma narração em off nos apresenta uma ideia interessante e que meio que simplesmente desaparece alguns minutos depois: a de que algumas pessoas possuem uma habilidade única de perceber a música para além do som. Um dom. Como se o barulho - seja da natureza ou dos instrumentos - tivesse cor, sabor. E, sim, a gente sabe que isso pode acontecer, de associar uma canção a algo para além do abstrato e eu considerei isso tão bonito e essa parece ser justamente a capacidade do protagonista Lionel Worthing (Mescal), que eu achei um pecado isso ser ignorado, mais adiante. Claro, a música é justamente o que conectará Lionel - que tinha no falecido pai - com sua viola na varanda de sua pequena propriedade do interior do Kentucky uma referência -, à David White (O'Connor), que ele conhece em um pub de New England (ele toca justamente uma canção folclórica que era tocada por seu pai na juventude, num instante nostálgico, caloroso e bonito).

Após iniciaram um relacionamento às escondidas, David é convocado para a primeira guerra (o ano é 1917). Quando retorna do conflito, dois anos depois, a dupla se reaproxima para a execução de um inovador e simpático projeto universitário, que está no centro da melhor parte da narrativa (e que tenho a impressão que, por si só, renderia um filme à parte), e que envolve a captura de músicas folclóricas em cilindros de cera pela América rural. O que seriam, na realidade, os primórdios da gravação de sons, ainda de forma rudimentar. E, bom, se o filme poderia centrar mais a coisa na história do som, como sugere seu título original, não podemos esquecer que essa é a obra de gay sofrendo. E, por mais que a música tradicional, antiga, passada de geração a geração, se espalhe de forma fluída por cada fragmento da produção - de forma vagarosa, melancólica -, lá pelas tantas a dupla se separa, quando Lionel vai tentar a vida em Roma, cantando em um prestigioso coral. E o belo trecho em que aparece a antiga The Unquiet Grave - sobre um homem em luto que fica ao lado do caixão da esposa morta, não deixando-a descansar -, é a deixa, de forma alegórica, para os acontecimentos que virão mais adiante. Com o luto infinito percorrendo décadas.

Nota: 6,5 

 

Novidades em Streaming - Manas

De: Mariana Brennand. Com Jamilli Corrêa, Rômulo Braga, Dira Paes e Fátima Macedo. Drama, Brasil, 2024, 101 minutos.

"Não existe felicidade fora do projeto de Deus. Do projeto de Deus chamado família". Vamos combinar que a cena de uma pastora da igreja evangélica discursando em favor da família - enquanto que meio que todo o mundo sabe que grande parte da violência sofrida por crianças e adolescente da região de Marajó, no Pará, cenário do filme Manas, emerge do ambiente doméstico -, é só uma forma de evidenciar a hipocrisia não apenas daquelas pessoas, mas da nossa sociedade. "Tem coisa que não adianta tu querer mexer", alerta uma desalentada Danielle (Fátima Macedo), que está grávida de mais um filho do marido Marcílio (Rômulo Braga), enquanto trava uma luta interior para acobertar os abusos praticados pelo homem contra a sua filha Marcielli (Jamilli Corrêa), ao mesmo tempo em que parece sonhar, com o olhar duro, vulnerável e melancólico, com o fim do ciclo de violência.

Ao cabo, a obra da diretora Marianna Brennand nunca é fácil. E talvez por ser tão evidente - ainda que, paradoxalmente, sutil - em sua abordagem, o desconforto se amplie. O histórico de violência naquela localidade (aliás, no Brasil como um todo) não é novidade - inclusive com a pauta sendo apropriada politicamente pelas piores pessoas do planeta, em sua ignorância gritante, sempre acreditando que Deus pode ser a cura de tudo. Marcílio, Danielle e as filhas alternam os dias em um templo improvisado junto às águas, em que cantos evangélicos meio constrangedores ecoam, ao mesmo tempo em que sobrevivem colhendo açaí e camarão, que será comercializado, especialmente na balsa - local em que os moradores sabem que as violências sexuais se ampliam, com a presença de forasteiros, homens adultos, oferecendo dinheiro ou comida para as adolescentes. 

 


Quando o filme começa, meio que a ficha demora para cair para o espectador. Se a balsa parece suspeita, o ambiente doméstico soa parcialmente seguro - especialmente pela presença ensolarada de Marcílio, que alterna algum tipo de afeto rústico, com gestos disciplinadores de quem ensina desde cedo valores como trabalho. Mas é aí que reside o pulo do gato, já que a confiança no adulto também tende a burlar a identificação dos limites por parte da ponta mais vulnerável da equação. E, de fato, a coisa começa a ficar estranha quando a rede de Marcielle estraga e o pai a convida para deitar em sua cama. O que poderia ser apenas a sugestão de algo carinhoso, se torna mais evidentemente desprezível quando o sujeito convida a filha para uma caçada no mato. A primeira caçada - num simbolismo torpe e repulsivo do ato que ele está prestes a praticar. Ciente do que acontece, a jovem tenta forjar, em vão, uma carteira de identidade falsa no posto local, o que poderia lhe possibilitar uma espécie de fuga, assim como fez a sua irmã mais velha Cláudia que, aos 19 anos, foi embora dali para nunca mais voltar.

Naturalista e em estilo documental - aliás, Mariana Brennand é documentarista -, a obra, que esteve na nossa pré-lista do Oscar desse ano e recebeu dezenas de prêmios internacionais, tem uma fluidez própria, não tendo pressa em expor suas ideias. Tecnicamente bem executada, a produção é daquelas que utiliza os sons da natureza - o zumbido dos bichos repetitivo e letárgico, ou mesmo a ondulação constante das águas -, como forma de evidenciar ainda mais o caos interior e a moral abjeta das ocorrências locais. Um tipo de entorpecimento visto em outros filmes como A Febre (2019) ou mesmo nas obras do diretor Apichatpong Weerasethakul - guardadas as devidas proporções temáticas, claro. "Eu fui caçar sozinha com o pai", praticamente grita a protagonista à Jaci (Ingrid Trigueiri) uma exasperada comerciante local, que a lembra que isso não acontece só com ela. "Você tem que tentar a vida na cidade", a alerta. A presença da delegada Aretha (Dira Paes), uma funcionária do Estado que surge como figura de proteção, parece acender em Marcielle uma faísca que já estava pronta para queimar. Como se interrompe um ciclo de violência que se perpetua de geração em geração? Talvez a medida tenha de ser mais drástica. Alegórica ou não. É o recado que fica dessa experiência vigorosa e cheia de simbolismos, que vale ser conferida.

Nota: 9,0 

 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Tesouros Cinéfilos - Pillion

De: Harry Lighton. Com Harry Melling, Alexander Skarsgård e Lesley Sharp. Drama / Comédia / Romance, Reino Unido / Irlanda, 2025, 107 minutos.

O público cinéfilo mais cracudo a respeito do que rola nos bastidores já percebeu: Pillion foi adiado diversas vezes e essa resenha foi escrita na esteira daquela que deveria ter sido a data de estreia oficial - no caso a última quinta-feira, dia 21 de maio. E vamos combinar que esse timing meio que já passou, até mesmo porque a obra já foi exibida em festivais, já teve estreia mundial e já tá rolando em ambientes, digamos, "alternativos", pra quem quiser acessá-la. Meio que quem quis viu - e toda essa coisa de adiar infinitamente uma produção, aparentemente apenas por causa do seu tema (a trama acompanha um jovem gay introvertido em suas primeiras experiências sexuais, quando conhece um taciturno motoqueiro que o inicia no universo BDSM) só torna tudo mais estranho. Sim, a família tradicional brasileira ainda se choca com qualquer coisa que desvie do padrão. E, aqui, não parece ser muito diferente. Por mais que os motivos para os atrasos pareçam ser sempre outros do que apenas o bom e velho preconceito.

Sobre o filme, que venceu o prêmio de Melhor Roteiro na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes - é a estreia de Harry Lighton na direção - vai depender do olhar e da percepção de quem assiste. Se por um lado a obra nos apresenta uma relação fetichista quase abusiva entre dois homens - um deles mais velho -, por outro este também é um conto sobre amadurecimento e de como os primeiros amores podem ser dolorosos, complexos, frustrantes. Ao cabo, contribuindo para a nossa formação como sujeitos. Sim, pode parecer impactante ver um jovem sem nenhuma experiência vestido com roupas diminutas de couro, enquanto o outro o humilha de todas as formas, mas é importante deixar os julgamentos para os conservadores. Aqui, não cabe analisar o fetiche em si e sim como se desenrola essa experiência em toda a sua complexidade, com o envolvimento de familiares e de toda uma comunidade de motoqueiros.

 


Aliás, o termo "pillion" costuma ser utilizado como forma de definir não apenas o assento traseiro de uma motocicleta, mas também quem o ocupa. E, naturalmente, por extensão, parece haver aqui a alegoria mais do que perfeita para o comportamento confiante e misterioso de Ray (Alexander Skarsgård), que levará na garupa o tímido Colin (o sempre expressivo Harry Melling). A dupla se conhece em um boteco onde Colin se apresenta com os seus amigos que formam um quarteto de vozes. É noite de Natal em Londres - aliás, está aí mais um filme natalino para assistir em família -, e Ray se aproxima do rapaz de forma determinada. Mais do que isso, combinam um encontro antes da chegada do Papai Noel, para desespero dos pais de Colin - não por preconceito, já que eles acolhem as opções do filho, a ponto da mãe (Lesley Sharp), ajudá-lo nos encontros com homens -, mas pelo receio de ele estar indo ao encontro de um desconhecido que pouco se sabe. O date, por assim dizer, termina em um beco. Com uma sessão de sexo oral.

A partir dali eles passam a manter um certo vínculo, ainda que as dinâmicas de poder sejam opostas - não por acaso, em uma tentativa de encontro na noite de Ano Novo, Colin tenta chamar Ray para um rolezinho no pub dos motoqueiros, mas ele nem dá as caras. E quando reaparece, surge cheio das exigências, obrigando-o a fazer comida, fazendo-o dormir no chão e ignorando qualquer uma das suas solicitações de afeto. Rastejando atrás dele, no limite. Em contrapartida, não apenas o inicia no sexo, como lhe dá um prazer que talvez ele dificilmente sentiria em outras circunstâncias. "Ele diz que tenho aptidão para a devoção", explica o jovem em certa altura da projeção. Tudo enquanto sua mãe se empenha em saber mais sobre o sujeito. Alternando momentos engraçados, estranhos, sensuais e afetuosos - como na sequência da surpresa de aniversário, ou nas tentativas frustradas de executar Eric Satie ao piano -, essa é uma obra pouco convencional, que não julga seus personagens ou os torna meras caricaturas. Alguém fez uma ótima piada no Letterboxd ao resumir o filme com um título alternativo: call me by your slave. Perfeito. Bem distante do gosto do reacionário médio.

 

Pitaquinho Musical - Aldous Harding (Train on the Island)

Vamos combinar que o exercício de escutar qualquer disco da Aldous Harding, é mais ou menos como entrar em um carro para pegar a estrada em direção a um local nunca antes explorado. Meio que como uma viagem ao desconhecido - pra ficar na alegoria mais óbvia. Sim, seus álbuns não costumam ser lá muito fáceis, palatáveis ou, vá lá, comerciais. Suas curvas no limite entre o experimentalismo folk, o indie de cafofo e o art rock excêntrico costumam ser tortas ou pouco previsíveis. Se estamos indo pra cá, não demora para que o rumo mude pra lá. Se em um instante a melodia parece direcionada para algo caloroso ou de fácil identificação, em outro a coisa soa estranha ou teatral - com o vocal subindo e descendo inesperadamente. O que em tempos em que nos acostumamos a sermos alimentados com papinhas culturais prontas, ultraprocessadas ou de fácil digestão, pode soar como um exercício desafiador. Mas também compensador.

 


Afinal, parece que a gente tá sempre buscando a melhor banda dos últimos tempos da última semana. Ou, minimamente, aquele artista que nos retire da zona de conforto da lógica algorítmica do refrãozinho de IA ou da dancinha de Tik Tok. E, como se fosse uma Fiona Apple em Fetch the Bolt Cutters, Harding entrega, com Train on the Island, uma experiência enigmática, evocativa, que provoca, que mexe com as nossas sensações. São músicas deslocadas que jamais soam feias, ainda que a sua beleza necessite ser escavada. Um bom exemplo de tudo isso pode ser percebido no single One Stop que, com seu piano e vocal expressivos e mudanças de direção que fogem da lógica, parece algo no limite entre um Radiohead fase Amnesiac (2001) e uma Kate Bush de Hounds of Love (1985). Há uma série de outros ótimos momentos como, Venus in the Zinnia, What Am I Gonna do? e a faixa-título, em que temas, como, cobrança por padrões corporais, feminilidade performática e sensualidade caricatural emergem em versos cheios de simbolismos e alegorias. É tipo uma refeição que a cada nova bocada gera mais satisfação.

Nota: 9,0 

terça-feira, 26 de maio de 2026

Pitaquinho Musical - Juliana Linhares (Até Cansar o Cansaço)

Vamos combinar que poucos memes são tão universais na hora de evidenciar a exaustão coletiva dos nossos tempos, do que aquele extraído do desenho do Tintin que, ao ouvir um claramente extenuado capitão Haddock dizendo um "que semana, hein?", o retruca apenas com um enfastiado "capitão, é apenas quarta-feira?" E como a gente faz para confrontar esse sentimento geral de fadiga? Bom, no caso da cantora potiguar Juliana Linhares esse confronto se dá de forma paradoxal: dançando. E mais do que isso: dançando "até cansar o cansaço", como ela afirma já na primeira frase do seu segundo registro de inéditas, o irresistível e autoexplicativo Até Cansar o Cansaço. Em linhas gerais a artista chegou a explicar em entrevistas que a ideia com o disco é a de não contemplar o esgotamento de forma passiva - convertendo-o em uma espécie de veículo para o movimento, para o sonho e para o encontro de corpos.

 


E, bom, se isso não chega a ser uma novidade em termos de conceito - se pensarmos, por exemplo, o quanto Chico Buarque utilizava a imagem do carnaval como alegoria catártica de enfrentamento e de sobrevivência (até mesmo à Ditadura Militar) -, aqui, a artista mescla uma série de ritmos e estilos, do baião ao xote, passando pelo forró, pela MPB psicodélica e pelo indie eletrônico, formando uma tapeçaria ao mesmo tempo vibrante e viva, mas também atmosférica e contemplativa. "O presente no Brasil é urgente: violência, cansaço, precarização da vida, mas também os afetos, as festas, a rua que pulsa e nossas formas de sobreviver. E, justamente por encarar tudo isso de frente, ela consegue produzir futuro", explicou em entrevista ao site da UBC. Juliana, que também integra o excelente coletivo Pietá, já havia brilhado no belo Nordeste Ficção (2001). Em Até Cansar o Cansaço a criatividade segue em alta, como comprovam as irresistíveis Emaran... não. Na realidade ouça todo o disco. De fones. No repeat. Com atenção. É recompensador.

Nota: 9,0 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Sobreviventes: Depois do Terremoto (Konkeuriteu Yutopia)

De: Um Tae-hwa. Com Lee Byung-hun, Park Seo-joon e Park Bo-young. Drama / Ficção científica, Coréia do Sul, 2023, 131 minutos.

Vamos combinar que não são poucas as obras a utilizarem a ideia do espaço confinado - com pessoas passando por situações limite, criando novas regras e códigos morais e ainda lutando pela sobrevivência -, como uma espécie de alegoria para uma sociedade em ruína, decadente ou à beira do colapso. Com falta de recursos, em meio à escaladas autoritárias ou com um sentimento meio que de paranoia coletiva - seja em distopias como Expresso do Amanhã (2013), em dramas sociais como o clássico da literatura O Senhor das Moscas (1954) ou em ficções panópticas como a série Silo (2023 até a atualidade) -, essas produções, em muitos casos, olham para esses cenários com certo distanciamento, ainda que versem diretamente sobre nós. E sobre nosso comportamento diante de temas, como, capitalismo tardio, colapso ambiental, tecnologia desenfreada, desumanização do outro e, como sempre, avanço da extrema direita.

Portanto, não é com surpresa que assistimos aos eventos de Sobreviventes: Depois do Terremoto (Konkeuriteu Yutopia), obra enviada pela Coreia do Sul ao Oscar de 2024 (não chegou entre às finalistas), que está disponível na plataforma da Amazon. Para além do título em português um tanto click bait - provavelmente tentando fisgar aquele público fã de filmes catástrofe como O Dia Depois de Amanhã (2004), 2012 (2009) ou Terremoto: Falha de San Andreas (2015) -, essa é uma produção que não se detém muito no terremoto em si, ou nas eventuais tentativas desesperadas de fuga, quando ocorre uma catástrofe natural. E sim no que acontece depois do Terremoto, com uma Coreia do Sul devastada, vivendo uma nova Era Glacial. E com apenas um prédio - parte do condomínio Hwang Gung -, tendo ficado de pé. Sorte dos moradores? Dificilmente. Especialmente em meio a um cenário de desespero, em que forasteiros tentando não morrer congelados, buscam invadir o complexo habitacional.

 


Em linhas gerais, é possível perceber que esse é aquele tipo de projeto que realiza um tipo de crítica nem tão sutil assim às bolhas imobiliárias modernas - com sua ânsia por concreto, ferro e arranhas-céus que fazem a festa de especuladores de mercado -, que perdem valor ao primeiro chacoalhão sísmico. Sim, a natureza tem pressa e de nada vai adiantar construir infinitamente, esgotando completamente todo e qualquer recurso, sem um bom planejamento. Ou, minimamente, pensando a questão a partir de um ponto de vista mais social - em que todos deveriam ter direito a um teto pra chamar de seu. Aqui no Rio Grande do Sul, quando das enchentes de maio de 2024, muitos diziam que sairíamos melhor da tragédia: mais empáticos, mais solidários, mais receptivos. Resumindo, a coisa é o contrário: com apartamentos de um dormitório a preços exorbitantes e pouca margem para quem deseja alugar com preço justo. Ou seja, quem tem cresceu o olho. E quem não tem, bom, que lute. Meritocracia, né? Todos têm as mesmas horas no dia (contém ironia).

No filme do diretor Um Tae-hwa o debate é mais ou menos esse. Quando apenas um prédio resta, quem afinal tem o direito de viver nele? Proprietários? Quem aluga? Forasteiros que ali passavam? Quando o caos começa a ser instalado, os moradores precisam decidir se aceitam ou não a presença dos "invasores" que, se ficarem do lado de fora, congelam. Só que naquele instante, o casal protagonista, a pacífica Min-sung (Park Seo-joon) e o prático Myung-hwa (Park Bo-young) já estavam abrigando às escondidas uma mãe desesperada com seu filho pequeno - o que, mais adiante, será considerado um crime. Em meio a escassez de recursos - sem água, luz, sem remédios e com alimento contado -, o coletivo elege como líder o misterioso Yeong-tak (Lee Byung-hun) que, verdade seja dita, a despeito do ato heroico (quase, argh, messiânico) de evitar um incêndio no primeiro andar, ninguém se lembra ao certo se mora efetivamente ali. Em um cenário em que novos (e rígidos) códigos se estabelecem, não demorará para que essa utopia de concreto - uma divertida ironia, diga-se -, colapse. O colapso dentro do colapso. Meio que como o capitalismo terminando depois do fim do mundo. Há esperança? Há. De preferência bem longe dos "homens de bem", com sua paixão ignóbil pela propriedade privada.

Nota: 7,5 

 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary)

De: Christopher Miller e Phil Lord. Com Ryan Gosling, Sandra Huller e James Ortiz. Ficção científica / Drama / Aventura, EUA, 2026, 156 minutos.

"Rocky, telefone, minha casa!". Vamos combinar que, se ao final de Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary), aparecesse em algum canto dos créditos finais o nome de Steven Spielberg, não seria nenhuma surpresa. Tamanha a cara de blockbuster situado em algum local entre as décadas de 80 e 90, que a adaptação do livro de Andy Weir que ainda está nos cinemas - mas também já disponível para aluguel na Amazon e na Apple TV - tem. Ao cabo trata-se de uma obra movimentada, calorosa e cheia de afeto - muito mais próxima de algo como um ET: O Extraterrestre (1985) dos confins do universo, do que da sisudez existencialista de um A Chegada (2016), por exemplo. E vamos combinar que a gente não precisa ser cabeça o tempo todo. Ou esperar um grande exame da nossa situação global política, social, cultural ou religiosa atual, para assistir um filme. Talvez faça bem se divertir simplesmente. E esquecer por algumas horinhas daquilo que nos atormenta. Um filme que não doi. E que nos faz abrir um sorriso largo. Como aqueles que víamos na Sessão da Tarde.

Ingenuidade de minha parte? Talvez. Mas foi exatamente esse o meu sentimento assistindo à produção dirigida por Christopher Miller e Phil Lord e protagonizada por um Ryan Gosling no auge do carisma e do charme. Aliás, ele sendo um astronauta naturalmente curioso que acorda do coma em uma nave espacial sabe-se lá onde ou em que ponto da galáxia, que faz o contraponto ideal ao estilo prudente e austero de Eva Stratt (a sempre ótima Sandra Huller), uma das líderes da Força Tarefa Petrova e que, mais adiante será uma espécie de chefe geral do Projeto Hail Mary. Um projetinho simples, aliás, que visa tentar salvar o mundo da mais nova desgraça que nos afeta - como se não bastassem às pandemias, as guerras e o avanço da extrema direita maluca. E que envolve o surgimento de um novo micro-organismo que tem uma habilidade única: se alimentar da luz solar. O que fará com que o sol se enfraqueça dentro de algumas décadas, se nada for feito. O que prejudicará não apenas a temperatura do globo - com uma nova Era Glacial à caminho -, mas também a nossa agricultura. Nossa capacidade de produzir alimento. Um desastre.

 


E pra tentar evitar essa tragédia que se avizinha, Stratt vai atrás do único sujeito possível pra salvar nosso mundinho de meu Deus: um professor de biologia de escola fundamental, que responde pelo nome de Ryland Grace (Gosling). Ocorre que Grace já foi motivo de chacota no meio acadêmico no passado, caindo em desgraça após escrever um artigo onde buscava evidenciar um fato que, de forma resumida, ia contra um consenso científico que existe até hoje: de que a existência de vida em outros planetas, ou mesmo em ambientes hostis, não exigiria necessariamente a presença de água. Da ligação entre oxigênio e hidrogênio. E como o tal micro-organismo - o nome oficial no livro e no filme é astrofágico - que se alimenta da luz solar navega entre Vênus e o Sol em um arco chamado de Linha de Petrova (em homenagem à Irina Petrova, a cientista que o descobre), talvez resida aí o segredo de sua resistência. O que caberá ao protagonista, um biólogo molecular de formação, descobrir.

Assim como ocorre no livro, no filme temos uma série de idas e vindas no tempo, que alternam entre o passado, quando o projeto estava sendo construído - com a participação de cientistas, engenheiros e pesquisadores de todo o mundo - e o presente (que talvez seja o futuro, claro), com Grace despertando na nave de um coma induzido de doze anos. E meio que não apenas aprendendo a sobreviver sozinho em uma nave. Mas também compreendendo qual a sua missão naquele local inóspito. O que ocorrerá em meio de flashbacks bem conduzidos, que unem uma ponta à outra, e que tanto na obra literária como no filme funcionam como uma espécie de recuperação paulatina da memória. Com cada nova lembrança operando como uma peça de quebra-cabeças. Uma ponte. Até o momento em que ele lembrará que está ao lado de um planeta chamado Tau Ceti, porque o dito parece ser resistente à ação dos astrofágicos, preservando sua luz natural. Cabendo a Grace descobrir os motivos e, mesmo estando há anos-luz de distância da Terra, tentar enviar algum sinal (ou até material) que explique os fatos.

 

 

Sim, pode parecer meio complicadinho lendo, mas não é. É simples: o Sol na Terra tá perdendo força, Grace está do lado do planeta que não perde luz mesmo com os astrofágicos tendo "contaminado" parte da galáxia. Só que quando Grace olha pela janelinha, percebe que não está sozinho: há uma enorme nave que lhe avizinha, chamada de Blip-A e que tentará fazer algum contato. E, bom, pra quem não leu o livro e pouco sabe da produção, vale se manter no escuro, com o perdão do trocadilho, para desvendar os acontecimentos. E as surpresas decorrentes deles. Mais leve, divertido e menos burocrático que o livro - que inicia muito bem e lá pelas tantas, não nego, dá uma aborrecida -, o filme não perde muito tempo com subtramas desnecessárias, focando-se no senso de amizade e de companheirismo entre Stratt e sua equipe (é linda a cena com a música Sign of The Times, de Harry Styles) e no esforço coletivo para superar as adversidades. Além de ter ótimos efeitos práticos, desenho de produção e trilha sonora. É o filme conforto de 2026 por excelência. Assim como foram os do Spielberg em décadas passadas. 

Nota: 8,0 

Pitaquinho Musical - Arlo Parks (Ambiguous Desire)

Existe algo de noturno, de noite prestes a acontecer, que se espalha por cada canto de Ambiguos Desire, novo registro de inéditas da sempre ótima Arlo Parks. Tomemos como exemplo uma canção como Heaven, uma balada eletrônica minimalista, de madrugada avançada, com uma linha de baixo catártica, e que parece personificar não apenas em termos de melodia, mas também nos versos (Vamos nos envolver / Adidas e gasolina / Meus amigos se espalhando pelas ruas), o conceito do disco. Conceito que, aliás, parece explorar uma certa euforia do coletivo, de sensação de pertencimento e de construção de memórias - com amigos, com pessoas que amamos. "Esse é um álbum que nasceu dessa descoberta tardia da madrugada como espaço emocional e sensorial e de tempo que se dissolve", comentaria a cantora em entrevista ao NME.

 


Outro bom exemplo nesse sentido é a envolvente Nightswimming, que tem uma batidinha enigmática e uma energia R&B noventista, mas sem deixar de lado a personalidade da artista, que com sua voz sussurrada e aconchegante parece tornar versos como "Quando o sol se põe entre as árvores / Estou sozinha pensando em nós dois", maiores do que parecem. Aliás, verdade seja dita que Parks também tem uma capacidade única em dar vida ou cor a certa banalidade do cotidiano. É o caso, por exemplo, de Get Go, uma das melhores disco, com sua letra que converte a pista de dança em uma alegoria para a superação de dores e decepções. Tudo banhado por um clima dançante inspirado em rádios piratas londrinas, no limite entre o melancólico e o onírico, o enfumaçado e o sofisticado. Ah, e em meio a tudo ainda há a parceria com o Sampha, em Senses, talvez uma das melhores canções lançadas no ano até o momento. Além da deliciosa What If I Say It?. Arlo Parks nunca erra. Não ia ser agora.

Nota: 9,0