De: Curry Barker. Com Inde Navarrette, Michael Johnston, Cooper Tomlinson e Megan Lawless. Suspense, EUA, 2026, 109 minutos.
Vamos combinar que a gente chegou num ponto em que o público parece tão ansioso por um terror efetivamente bom que, quando aparece alguma coisa apenas mais ou menos, como esse Obsessão (Obsession), já fica todo mundo meio que... obcecado (com o perdão do trocadilho). E confesso que, enquanto assistia à sequência meio que aleatória em que Nikki (a, de fato, ótima Inde Navarrette) faz um sanduíche com os restos do gato morto de Bear (Michael Johnston), eu só conseguia lembrar da psicopata vivida por Glenn Close em Atração Fatal (1987), em uma década em que esses suspenses de paixões compulsivas que desencadeariam, mais adiante, uma série de eventos violentos, eram moda. E, vamos lá, o problema do segundo longa do Youtuber Curry Baker nem é o fato desse subgênero já ter existido antes, de forma muito efetiva. E, sim, porque ele nos exaure rondando um tema que poderia, aparentemente, ser melhor adaptado aos tempos em que vivemos.
Sim, não é que não existam mulheres obsessivas por seus parceiros, mas vamos combinar que essa ideia de casal que mantém um perfil único nas redes sociais porque a esposa não deixa o jovem ir pro churras com os parças, parece meio deslocada em um tempo em que a misoginia só cresce. Nesse sentido, Obsessão parece ser aquele filme pro incel redpill meio desavisado assistir com os amigos, pra depois ficar dizendo como a "dona patroa" é igualzinha à Nikki, já que o alecrim não pode ir nem na esquina sem que ele seja vigiado (sendo que, na grande maioria dos casos, parece ser o inverso o que acontece, com os homens de masculinidade frágil incidindo sobre roupas, atividades, comportamentos e, se deixar, até o voto de suas companheiras). "Ah, mas isso que a gente vê na tela é apenas uma projeção do comportamento cringe do próprio Bear e de suas obsessões, já que ele é o protagonista meio freak e de cabelo oleoso, que fica obcecado pela colega de trabalho", poderá alguém dizer. É uma interpretação talvez até mais esperada, já que parece haver uma Nikki "real" por baixo daquela camada alienada, que sofre uma maldição. E espero que o público capte essa nuance.
E, bom, como já dito, na trama Bear é o sujeito introspectivo e de poucas habilidades sociais, que mantém uma amizade com a galera do trampo, como no caso de Ian (Cooper Tomlinson) e Sarah (Megan Lawless) e está meio que na friendzone com Nikki, sua amiga de infância e paixonite à moda Apenas Mais Uma de Amor, do Lulu Santos, que ele precisa lidar diariamente quando a firma de instrumentos musicais em que todos trabalham, abre. Aliás, essa paixão é tão desequilibrada, que ele chega ao ponto de ensaiar com os amigos, o que e como deveria dizer para Nikki, no sentido de conquistá-la. Lembrando, Bear deve estar próximo dos 30 anos. E nunca deve ter procurado um terapeuta (ainda que sua dispensa esteja entupida de opioides). Aliás, mais uma falhazinha meio básica do roteiro: ninguém ali tem vida para além daquela rotina de solidão em quatro paredes, gatos que morrem aleatoriamente e tentativas frustradas de se relacionar - outras ocupações, famílias, tudo uma camada abaixo. Bear é o esquisitão e Nikki o considera um bom amigo, já tendo deixado isso meio que claro pra todo mundo.
Mas o protagonista é insistente e resolve ir a uma loja de quinquilharias para jovens místicos, onde compra um artefato conhecido como Salgueiro do Desejo, que lhe possibilita um único pedido que pode ou não funcionar. Que a desigualdade do mundo acabe? Que as guerras cessem? Que o líder bizarro da extrema direita sucumba? Um bilhão de dólares? Bom, o próprio Baker já admitiu em entrevistas que, em um eventual mundo real em que essa peça existisse, nada faria muito sentido e o caos absoluto reinaria. Mas Bear quebra o item solicitando ao destino que Nikki "lhe ame mais do que tudo no mundo". O que instaurará o terror de um relacionamento que se inicia bem, com uma conexão boa ainda que gerada por linhas tortas, mas que evolui para a codependência absurdamente sufocante, o que deixará uma trilha de morte, sangue, vísceras e carne de gato no sanduíche. E de urina e vômito. Porque sim, né, terror psicológico tem dessas metáforas nem tão metafóricas.
E não é que não existam boas sequências de sustos, algumas no estilo de gerar medo onde, aparentemente, não existe nada. Nenhum motivo para temor. Seja numa madrugada em que Nikki acorda inesperadamente para olhar Bear dormindo - uma coisa meio O Exorcismo de Emily Rose (2005), esse sim um filme apavorante -, ou quando ela forma uma espécie de barreira protetora de fita tape na entrada de casa para, supostamente, impedir o companheiro de sair. De ir longe. Com a gente compreendendo segundos depois a luta interior de Nikki - com a sua verdadeira personalidade afogada em uma espécie de limbo. Mas, voltando ao início, ao tentar uma abordagem dos problemas que podem haver em uma relação de chantagens emocionais, carências afetivas infinitas e intimidade tóxica, a obra consegue entreter com sua "possessão demoníaca" lateral e bateção de cabeça inesperada, ainda que mesmo esses eventos pareçam meio exagerados e infantis em alguma medida (talvez ela tenha tração maior com adolescentes, de fato, e nem sei se isso é bom). É um filme com méritos, mas bem de longe de ser a última bolacha do pacote, que parte da crítica anda vendendo.
Nota: 6,0




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