quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Novidades em Streaming - Um Poeta (Un Poeta)

De: Simón Mesa Soto. Com Ubeimar Rios, Rebeca Andrade e Guillermo Cardona. Comédia / Drama, Colômbia / Suécia / Alemanha, 2025, 120 minutos

Devo confessar que poucas vezes nos últimos anos, vi um filme escalar de forma tão desvairadamente engraçada como neste Um Poeta (Un Poeta) - pequena joia do cinema colombiano (aliás, foi o enviado do País para o Oscar 2026). Ao cabo, esta parece ser uma obra que tem em seu cerne uma questão bastante simples: quem ainda lê (ou mesmo se preocupa) com poesia nos dias de hoje? Muitas vezes relegada a saraus acadêmicos performáticos e presunçosos, essa manifestação artística que legou ao mundo nomes como Carlos Drummond de Andrade, Gabriela Mistral e Pablo Neruda (só pra ficar nos sul-americanos) ainda mobiliza Oscar Restrepo (o ótimo Ubeimar Rios), com sua roupa troncha e óculos feios de homem de meia idade que, na juventude, quando lançou dois livros, sonhava com uma espécie de estrelato literário que, verdade seja dita, nunca foi alcançado.

Falido e ainda tendo de cuidar da mãe doente, Oscar zanza pela cidade como uma Baby Jane (1962) das letras - ressentido por não ter reconhecimento, sendo integrante de uma espécie de segunda divisão da poesia (ninguém sequer se lembra exatamente de quem é ele, o que é reforçado pelos livros carcomidos e desgastados que ele carrega à tiracolo e que são um detalhe do desenho de produção não menos do que genial). Assim como já dito, é seu figurino desastrado que reforça sua imagem como um sujeito quadrado, sem nenhum carisma, mas que talvez tenha algum talento médio para os versos ou as reflexões cotidianas - e nem temos como saber direito, fora os encontros verborrágicos com os doidinhos de bairro que trafegam pelas ruas, após as madrugadas frustradas de bebedeira em que o protagonista vai parar na sarjeta.

 


Depois de relutar em sair da pindaíba para ministrar aulas - sua família já não aguentava mais a sua arrogância pseudointelectual de um homem infantilizado, choroso e cheio de dívidas -, ele topa, a contragosto, ser professor de um grupo de alunos de uma escola de poesia local. Isso após ter se humilhado perante o escritor Efrain Mendoza (Guillermo Cardona), um dos diretores da Instituição, que chega ao ridículo de lhe enviar a um bizarro canal de TV local, como estratégia para atrair possíveis leitores para as suas mofadas obras (sequência que integra a primeira parte que, não por acaso, recebe o nome de O Fracasso). Como professor, ele se encanta pela jovem Yurlady (Rebeca Andrade), que parece ter um talento não apenas nato, mas, orgânico para a poesia, com sua fruição de frases, liberdade e sensibilidade saltando os olhos. O que faz com que ele empreenda uma verdadeira via-sacra para ampliar a visibilidade da adolescente que, aos 15 anos, parece ter outros interesses, como unhas com esmaltação em gel e mesmo ficar com as amigas. Ou, vá lá, no mínimo, não frequentar encontros culturais de gosto duvidoso, que reúnem idosos decrépitos da área de humanas, capazes de tornar os cubículos da universidade em espaços em que reinam o egocentrismo. 

[ALGUNS SPOILERS A PARTIR DAQUI] E tudo se torna ainda mais complexo, no (des)encontro com a numerosa família de Yurlady, que conta com um tio trambiqueiro que acredita na possibilidade de sucesso da sobrinha por seu talento. Aliás, o próprio Oscar se ressente do distanciamento de sua filha, que parece ter vergonha dele (Você me odeia? Não, eu tenho é pena de você. Parece uma criança.) A despeito de todo esse conjunto, a pupila aceita participar da abertura de um sarau, que conta com a presença da embaixadora da Holanda, que destina recursos para o evento (a parte dois recebe o nome de Magnus Opus). E é próximo da terceira parte - A Arte Vai nos Salvar -, que a coisa escala. Yurlady passa mal após beber pela primeira vez, e Oscar é acusado de abuso de forma um tanto inusta, o que resultará em um sem fim de sequências inesperadamente engraçadas - como a da perseguição do irmão furioso da jovem. Com uma energia que lembra as obras da dupla de realizadores Gaston Duprat e Mariano Cohn - como O Homem ao Lado (2009) e Cidadão Ilustre (2017) - essa é uma experiência que diverte e emociona, com seu anti-heroi atípico, errático e completamente f*dido, mas que nos apaixona inesperadamente. Tá no Telecine Play e vale demais.

Nota: 9,0 

 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Novidades em Streaming - Primavera (Primavera)

De: Damiano Michieletto. Com Tecla Insolia, Michele Riondino, Andrea Pennacchi e Stefano Accorsi. Drama, Itália / França, 2025, 111 minutos.

Vamos combinar que talvez eu não tenha sido o único a cair em um clickbait cinematográfico. Afinal, um filme chamado Primavera (Primavera), que tem como um de seus personagens centrais justamente o compositor Antonio Vivaldi (Michele Riondino), por óbvio, deveria ter alguma menção que fosse a respeito do clássico concerto para violino ou mesmo sobre os bastidores de sua criação? Bom, não no filme do diretor Damiano Michieletto - e, verdade seja dita, para além da obra que eu esperava encontrar há aquela que existe e, aqui, talvez a primavera tenha mais a ver com alguma metáfora para o florescer, ou algum tipo de simbolismo relacionado à libertação das amarras patriarcais. Ainda mais em um ambiente tão fechado e conservador como o de um orfanato exclusivamente voltado a meninas, o Ospedalle Della Pietá, situado na Europa do começo do século 18.

É nesse ambiente invariavelmente hostil para as mulheres - e que é conduzido com rigidez por uma madre superiora não muito amistosa (papel de Fabrizia Sacchi) -, que um grupo de adolescentes, estando entre elas a jovem talentosa Cecília (Tecla Insolia), ocupa seus dias em aulas de música. Com a instituição perdendo patrocinadores - normalmente representantes da elite econômica que possuem outros interesses nesses locais (como casamentos arranjados com as garotas) - para outros educandários, a diretoria dá um ousado passo: recontratar justamente Vivaldi, que já havia trabalhado na Pietá. E que, na realidade, atuaria por décadas no convento. Em uma das primeiras audições, o compositor se impressiona com a habilidade e virtuosismo de Cecília, selecionando-a como spalla (a primeira violinista, um papel nobilíssimo em uma orquestra).

 


Mas esse é um filme em que as oportunidades financeiras ou artísticas para as mulheres entram em choque com a possibilidade de bons matrimônios - e Cecília está prometida para um certo Sanfermo (Stefano Accorsi), um oficial do exército que está para retornar da Guerra Otomano-Veneziana (1499-1503), tanto que sequer faz objeção quanto a isso. Aliás, como órfã que não está autorizada a exibir o rosto para homens desconhecidos (tanto que as apresentações dominicais são feitas em mezaninos da igreja, com as jovens distantes da balaustrada), ela acredita que a união com um homem mais velho possa lhe garantir não apenas o seu futuro. Mas também o da Pietá, que receberia um valor em dinheiro em troca. Todas essas elucubrações, essas divagações, Cecília faz em cartas que direciona a uma mãe que ela sequer sabe se está viva - e que lhe abandona no educandário na juventude. Talvez ela seria uma prostituta. O que, na época, seria um crime. Aliás, hoje em dia, pra extrema direita raivosa, talvez seja crime também.

Ainda assim, Cecília segue estudando com Vivaldi e auxiliando-o na preparação de um concerto para o Rei da Dinamarca - e não é preciso ser um cinéfilo veterano para saber que a coisa vai escalar, ainda mais quando certos segredos íntimos envolvendo a protagonista virem à tona. Com excelente desenho de produção que faz com que nos sintamos, de fato, em um ambiente suntuoso e áspero como o dos corredores da Pietá; trilha sonora de notas de violino meio onipresentes e fotografia acinzentada, puxando pra um azul escuro que acentua a melancolia geral já que o sol quase nunca aparece, essa é uma produção bem ao estilo das de época, com seus figurinos e maquiagens empoladas e uma discussão embrionária sobre independência feminina, sororidade e busca por emancipação - emocional, financeira, social. Sobre a concepção da Primavera que se daria na própria Pietá? Fica para um outro filme. A despeito do título, que nos enganou.

Nota: 7,0 

 

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Cinema - O Apego (L'attachement)

De: Carine Tardieu. Com Valeria Bruni Tedeschi, César Blotti, Pio Marmaï e Vimala Pons. Drama, Bélgica / França, 2024, 106 minutos.

"De vez em quando / Duas pessoas se encontram / Aparentemente sem nenhum motivo / Elas apenas passam pela rua" (Don't Get Me Wrong - The Pretenders) 

[ATENÇÃO: TEXTO COM ALGUNS SPOILERS

"Qual a diferença entre amor e apego?". Vamos combinar que não foram poucos os pensadores a teorizarem a respeito do assunto central do tocante O Apego (L'attachement), que está em cartaz nas salas de cinema do País. Do psicanalista Erich Fromm, passando pela filósofa Simone Wei, até chegar ao psicólogo John Bowlby - criador não apenas da Teoria do Apego, mas de ideias a respeito da necessidade central dos seres humanos de formar vínculos - muitos são (e foram) os autores que dissertaram sobre a complexidade do tema. Então, não surpreende o fato de o tópico volta e meia reaparecer em obras literárias, músicas, teatro ou cinema. Sim, o filme dirigido por Carine Tardieu pode parecer apenas uma singela produção que divaga sobre luto, memória, maternidade, relacionamentos, configurações familiares na modernidade e responsabilidade afetiva, entre outros temas. Mas o fato é que constrói, nesse contexto, uma narrativa delicada e repleta de reflexões.

Em alguma medida, a imprevisibilidade ou mesmo a aleatoriedade da experiência humana também está no centro do filme - o que já pode ser percebido na abertura, quando a tranquilidade de Sandra (Valeria Bruni Tedeschi), uma mulher de meia idade independente, dona de uma livraria voltada à temas mais progressistas (ou feministas), é quebrada em certa manhã quando a sua campainha, inesperadamente toca. Na porta, seus vizinhos do apartamento ao lado em uma emergência: a bolsa de Cécile (Melissa Barbaud) rompeu e ela precisa ir com urgência à maternidade com o marido Alex (Pio Marmaï). Sem alternativa, o casal pede à Sandra que cuide do pequeno Elliot (César Blotti), o filho de apenas cinco anos. De forma repentina, a protagonista que, por óbvio, nunca teve filhos ou uma convivência maior com crianças, se vê como babá improvisada de um menino esperto e curioso, que assombra ela com suas tiradas inteligentes ("os adultos estão sempre com pressa").

 


Só que Sandra estranha certo atraso do casal - a noite vira, o dia ocorre (e são engraçadas as tentativas meio tortas da mulher em se adaptar em seu dia de trabalho com o filho do vizinho à tiracolo). Quando Alex retorna, sua cara não está boa: Cécile sofreu uma embolia amniótica, que resultou numa tragédia. A pequena Lucille, o bebê, sobreviveu. Sandra descobre, mais adiante, que Elliott não é filho de Alex, e sim de um relacionamento anterior de sua, agora, falecida esposa. A vizinha, de forma empática, não consegue ficar alheia a tudo e oferece ajuda. Um ombro. E isso, conforme vai se aproximando cada vez mais do menino. De Alex. De sua família como um todo que, vá lá, vai se tornar de forma inevitável a sua "família escolhida". Outro conceito que aparece volta e meia nas artes, em estudos, e que, de forma muito justa, é apropriado pela comunidade LGBTQIA+, que sofre preconceito nos laços de sangue. Há uma canção lindíssima da Rina Sawayama chamada Chosen Family, que evidencia esse conceito à perfeição.

Nesse contexto tem-se um filme singelo em que acontecimentos cotidianos ganham mais força do que o normal - como no momento em que Alex tromba com Sandra no corredor do prédio, com as compras se espatifando no chão. Papeladas pra resolver, vidas pra tocar, arrependimentos do que poderia ter sido e não foi (como no instante em que Alex revela ter forçado a barra para que tivessem um filho, mesmo que Cécile não desejasse passar por uma nova maternidade), tudo vai surgindo de forma naturalista, orgânica, sem forçação. A solidão de Alex que tenta de forma desajeitada se aproximar da vizinha de forma amorosa após um beijo, apenas evidencia a sua fragilidade e baixa autoestima em um momento em que ainda trabalha o luto e o sentimento de abandono. E isso não tem a ver com o fato de Sandra ser uma mulher mais velha, uma vez que ela é interessante, inteligente e, mais do que tudo, presente. 

 

 

Nesse sentido o filme, inspirado em obra de Alex Ferney, sem tradução no Brasil, não força situações irreais por mera condescendência. Há todo um ideal de nunca abandonar a verossimilhança para qualquer ajuste inadequado. "Ainda é cedo pra ficar com alguém?" pergunta Alex à própria Sandra, após alguns meses como viúvo depois de, talvez, estar se apaixonando novamente. Com uma trilha sonora excelente - o auge é a sequência ao som de Don't Get Me Wrong, do Pretenders (um golpe baixo, né?) -, a obra quebra certas convenções em um roteiro arejado e que, facilmente, a gente se apega (com o perdão do trocadilho). "Estou feliz por você", diz Sandra a Alex durante o casamento dele com a enfermeira Emilia (Vimala Pons), que dança feliz ao fundo. A vida é que isso, altos, baixos, quedas e voltas por cima, dores e alegrias. Nesse turbilhão a gente nunca tem certeza de nada. E talvez resida aí uma parte da beleza.

Nota: 8,5 

Pitaquinho Musical - Bebé (Dissolução)

Talvez uma pitadinha menos eletrônico do que no excelente SALVE-SE! - nosso 24º colocado na lista de melhores nacionais de 2024 - e um pouco mais acústico ou introspectivo. Mas, obviamente, preservando a mescla de MPB, soul e jazz que são marcas registradas. Essas parecem ser as primeiras impressões quando ouvimos Dissolução, o mais novo registro de inéditas da sempre ótima Bebé. Olhando um pouco mais para dentro, buscando talvez uma essência, a artista povoa o álbum com violões, baixos acústicos e percussões, deixando um pouco de lado os beats, os sintetizadores e a programação, que davam uma cara mais urbana pra produção. Claro, isso não significa abandonar completamente estas ideias, mas reconfigurá-las, o que pode ser percebido, por exemplo, em Evapora Lágrima, um trip hop ondulante, que acena para um ambiente onírico, bucólico, ao mesmo em que versa sobre perdas e superação de dores.

 


Um outro exemplo desse espírito mais orgânico pode ser observado em Variante Estelar / Para Lô Borges que homenageia o músico, um dos fundadores do Clube da Esquina, que nos deixou em novembro do ano passado, aos 73 anos. Aliás, à Revista Noize ela explicou, de forma aparentemente jocosa, que sua família a "alienou" no que diz respeito ao consumo desse rock rural mineiro. Sobre a simbiose que gestou a letra (O Rei descansa no oceano livre pra chorar / Agora o sol vai condensar / Num verbo desdobrando um jeito novo de lembrar), ela fala em download cósmico. Aliás, é nessa mesma canção que ela cita a dissolução, um conceito que rege o trabalho - essa capacidade nossa de se reconstruir, após se desfazer, como numa alquimia. Com participações de, entre outros, Tássia Reis e Tuyo, Bebé segue sua mágica particular. São músicas simples, como Se Tocar e Vulcânica, mas cheias de alma.

Nota: 8,5 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Novidades em Streaming - Nouvelle Vague

De: Richard Linklater. Com Guillaume Marbeck, Zoey Deutch, Aubry Dullin e Bruno Dreyfürst. Comédia / Drama, França / EUA, 2025, 105 minutos.

Sem querer exagerar, mas já exagerando, a impressão que temos quando assistimos ao ótimo Nouvelle Vague, que está disponível no Telecine, é que ficou muito tênue a linha entre o nascimento de clássico absoluto e um dos piores (e mais caóticos) filmes já feitos. Sim, o tempo fez justiça e Jean-Luc Godard viria a se tornar um dos grandes diretores da história do cinema - diferentemente do que ocorreria, por exemplo, com o esforçado Tommy Wiseau que tornou o excêntrico clássico cult The Room (2003) uma das coisas mais tenebrosas já feitas para a telona. História, aliás, contada no excelente O Artista do Desastre (2018). Já aqui, na trama dirigida pelo versátil Richard Linklater, em certa altura o grupo que está por trás da turbulenta produção de Acossado (1959), conclui uma primeira exibição da obra, ainda em fase experimental. "O mundo não está pronto para um filme tão repugnante", exulta um deles. Parece ser um elogio. Ou talvez uma crítica.

Entre tantas frases atribuídas ao gênio do cinema francês que, como tantos outros - Truffaut, Rivette, Rohmer - iniciou sua carreira como jornalista no periódico Cahiers du Cinéma, uma das mais famosas afirma que "o cinema é a fraude mais bonita do mundo". E não deixa de ser interessante perceber como o realizador é capaz de tratar ao mesmo tempo com paixão e certo desprezo (ao menos pelo formalismo), na concepção de sua primeira obra. Sem respeitar meio que nada, adotando um estilo totalmente anárquico - para desespero de atores, produtores, roteiristas, figurinistas, maquiadores e tantos outros. Godard (Guillaume Marbeck) ainda era jovem quando enfiou na cabeça, com um comportamento um tanto ególatra - reforçado pelos onipresentes óculos escuros e pelas frases cheias de afetação e pomposidade -, que precisava dirigir um filme. Não bastava, ao cabo, escrever sobre eles. Truffaut (Adrien Rouyard) tinha apenas 28 anos quando gestou o clássico Os Incompreendidos (1959). Era preciso integrar esse movimento.

 


O embrião desse sentimento vem justamente de uma exibição da obra em uma edição do Festival de Cannes. E após Godard, sem nenhum pudor, criticar duramente o trabalho do produtor Georges de Beauregard (Bruno Dreyfürst) em La Passe du Diable (1958). Como um doidinho de bairro zanzando pra lá e pra cá, o futuro diretor de aproxima de Beauregard (ou Beau Beau, como ele o chama carinhosamente), apresentando a ele um plot baratíssimo sobre um sujeito que rouba um carro, mata um policial e tenta fugir acompanhado de sua namorada jornalista, que o dedura mais tarde. Nesse contexto ele recruta o ator (e boxeador) Jean Paul Belmondo (Aubry Dullin) e a grande estrela norte-americana Jean Seberg (Zoey Deutch), que acabava de ser capa da Cahiers, justamente pelo seu papel em Anatomia de Um Crime (1959). Sendo divertida, aliás, a devoção da atriz ao trabalho de Otto Preminger, um diretor famoso pelo rigor técnico e que formará um contraponto à completa improvisação e falta de qualquer lógica de Godard.

Còmica, a produção de Linklater reconta os 20 dias de filmagem de Acossado, com os atores sendo surpreendidos a todo o momento não apenas com mudanças de cronogramas, mas com roteiro e diálogos criados em cima da hora, excesso de citações empoladas sem muito sentido para a narrativa, uso de locações reais nada combinadas e figurantes que mal sabiam que estavam integrando o elenco de um filme. Ah e, óbvio, os inevitáveis jump cuts (os cortes secos, bruscos). Só que o que poderia ser a pior coisa já feita no planeta - e, verdade seja dita, muitas foram às críticas quando do lançamento do projeto -, se tornaria uma obra-prima influentíssima, de um cinema muito mais calcado na realidade do que em uma... fraude. Ou algo que tenha cara de fraude. Para o espectador é sempre um choque assistir a Acossado - e não deixa de ser magnético perceber como o realizador foi engenhoso ao adaptar câmeras a carrinhos improvisados, muitas vezes apostando na crueza de um único take. Entre a insegurança e certa arrogância, Godard desconstruiu o sentido da arte apostando no naturalismo, na sugestão (do visto pelo não visto), em uma obra experimental e quase amadora, mas cheia de esforço, paixão e fúria. Nouvelle Vague, a despeito de ter sido esnobado na temporada de premiações, captura bem esse clima da época: essa beleza quase ingênua da intenção acima de tudo. Pra quem ama essa arte é impossível não se comover.

Nota: 8,5 

 

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Novidades em Streaming - Tatame (Tatami)

De: Guy Nattiv e Zar Amir Ebrahimi. Com Arienne Mandi, Zar Amir Ebrahimi e Jayme Ray Newman. Drama, EUA / Geórgia / Reino Unido, 2023, 105 minutos.

Existe uma cena de forte carga simbólica - uma das tantas, na realidade -, no excelente Tatame (Tatami), que é aquele momento em que a protagonista Leila Hosseini (Arienne Mandi), uma das mais promissoras atletas do judô iraniano, sente que está sufocando durante uma importante luta. Mal conseguindo respirar frente às pressões recebidas do governo desde que entrou no mundial disputado na capital da Geórgia, Tbilisi, ela arranca o hijab (aquele véu islâmico) que cobre a cabeça e parte do peito, o que lhe possibilita um fôlego a mais. Claro que o gesto instintivo, frente à exaustão de tudo, não impede a derrota de Leila. Mas há um significado a mais naquele ato de rebeldia: se livrar da peça é resistir. É deixar de obedecer uma série de imposições autoritárias de um governo que interfere até na maneira como os atletas devem se vestir. A liberdade, portanto, é maior. Perder a luta, naquela altura do campeonato, é só um detalhe.

E creio que o que mais surpreende o espectador desavisado - ainda que quando o assunto seja à opressão desses regimes tirânicos não haja tanta surpresa -, é saber que a história que se vê na produção dirigida pelo israelense Guy Nattiv e pela iraniana Zar Amir Ebrahimi (que está no excelente Holy Spider, 2022) não ocorre apenas em filmes. Até por que, por mais que o caso de Leila seja ficcional, há um episódio famoso envolvendo o atleta Saeid Mollaei que, em 2019, teria sofrido forte pressão das autoridades iranianas para que abandonasse o mundial em sua categoria. Tudo para não enfrentar o israelense Sagi Muki. Sim, para o governo iraniano uma luta entre dois atletas de nações diferentes não é apenas uma luta. Que deveria dizer respeito apenas ao campo do esporte. No fundo há todo um componente político, cultural e religioso envolvendo os dois países e que, aqui, se estende, em mais uma alegoria bastante óbvia, para o tatame. O exercício de lutar, nesse caso, passa a ter outras nuances.

 


E na trama dessa pequena produção que chegou à plataforma do Telecine, Leila inicia na competição de forma despretensiosa, sempre apoiada por sua treinadora Maryam (a multitarefas Zar Amir Ebrahimi), ela mesma uma atleta de excelência no passado que, misteriosamente, teve de abandonar uma competição por conta de uma lesão. Claro que, mais adiante, descobriremos que o governo iraniano agindo como polícia política vigilante da delegação de seu País será algo rotineiro - independente de gênero, ainda que, para as mulheres, por óbvio em uma nação tão patriarcal, a mão sempre pese mais. Depois de vencer três lutas, Leila recebe um amistoso pedido de foto de um fã na arquibancada. Quando o sujeito se aproxima com o celular, ele revela um vídeo de seu pai já sequestrado pelo regime. A instrução é clara: ou ela abandona o campeonato ou as medidas contra seus familiares podem ser drásticas.

Aliás, não por acaso, a opressão se estende ao marido e ao filho de Leila, que permanecem no Irã, tendo organizado uma torcida à parte (e comovente) com amigos e familiares em sua casa. Os dois são orientados a fugir, deixando a sua nação de origem para trás. Quando percebem as estranhas movimentações - e as brigas sussurradas em meio a corredores entre Leila e Maryam (que quer que ela desista pelo seu bem para que ninguém, enfim, seja torturado ou morra e para que ela possa ter algum futuro) -, os integrantes da Associação de Judô ensaiam uma investigação, liderada pela integrante do comitê Stacey (Jaime Ray Newman). Uma situação difícil, em que a tensão cresce a cada nova vitória conquistada - aliás, méritos para a produção, que recria os embates à perfeição, adotando uma fotografia em preto e branco que combina bem com uma obra sutil, mas potente. E que não precisa de grandes reviravoltas para apontar o absurdo de certos atletas terem de disputar não apenas com seus rivais, mas também com governos tirânicos.

Nota: 8,5 

 

Cinema - Refém Por Um Fio (Dead Man's Wire)

De: Gus Van Sant. Com Bill Skarsgard, Dacre Montgomery, Colman Domingo, Al Pacino e Myha'la. Policial / Suspense, EUA, 2026, 106 minutos.

Vamos combinar que filmes sobre pessoas confinadas em um mesmo lugar podem facilmente se tornar entediantes, se não forem capazes de criar um senso de movimento frente ao cenário restrito. E, justiça seja feita à Refém Por Um Fio (Dead Man's Wire), mais recente produção do versátil diretor Gus Van Sant e que está em cartaz nos cinemas do País, que consegue manter a atenção do espectador, mesmo que o fiapo de história (real, aliás) verse sobre um sujeito revoltado que resolve sequestrar, mantendo como refém, o filho do CEO de uma empresa de crédito hipotecário que lhe teria gerado uma dívida milionária, após a compra de um terreno. Em tempos de crítica ao capitalismo tardio e a sua sanha selvagem de enriquecimento ilícito de poucos, o pleito de Tony Kiritsis (Bill Skarsgard) parece até justo. Ainda que a sua atitude extrema envolva um carnaval quase ao estilo do clássico Um Dia de Cão (1972).

Sim, porque para Kiritsis não basta apenas o perdão da dívida, já que ele resolve mobilizar uma série de canais de TV locais para uma retratação pública por ter sido enganado. Ele exige um pedido de desculpas em rede nacional - algo que ele repete, e repete e repete, mesmo quando acordos entre as partes são ensaiados, em meio ao contexto caótico. Como forma de nunca perder o controle em seu determinado objetivo, Kiritsis utiliza uma espécie de espingarda de cano cerrado acoplada à cabeça do jovem Richard Hall (Dacre Montgomery), que vira uma espécie de bode expiatório da coisa toda, já que seu pai M. L. Hall (Al Pacino), encontra-se no calor da Flórida, de férias, e portanto bem distante de Indianápolis. Estamos no mês de fevereiro de 1977, em um País que ainda se recuperava da tensão da Guerra do Vietnã e dos escândalos relacionados ao governo Nixon, que certamente abalaram à moral do estadunidense médio em sua busca pelo "sonho americano". 

 


No caso de Kiritsis, o sonho era uma grande área de terras de sete hectares, em que ele pretendia investir em um centro comercial. O aporte de US$ 3 milhões feito pelo protagonista logo vira um pesadelo conforme as dívidas se acumulam - ele exige o perdão do valor atrasado há quatro anos, enquanto mantém a cabeça de Richard atada ao engenhoso sistema, que pode levar a um disparo acidental caso as coisas saiam do controle. Dada a tensão da coisa toda, o protagonista negocia com a polícia uma forma de sair do prédio da Meridian Mortgage, o que envolve o furto de uma viatura que levará a dupla até a casa de Kiritsis. Lá, como se enfiado dentro de um bunker particular, ele segue no seu intento. Como precaução, ele enche o próprio apartamento de explosivos, exigindo também a evacuação completa dos demais moradores.

E, bom, comentei no começo da resenha sobre movimento em um filme do gênero e, por mais que permaneçamos praticamente uma hora com a dupla dentro de seu apartamento, a real é que a coisa nunca se torna cansativa - até mesmo pelo carisma do protagonista, que parece ser bem relacionado não apenas com a polícia local (ele conhece os agentes, os chama pelos nomes), como também com a imprensa, aqui representada pelo radialista Fred Templo (Colman Domingo), com sua voz aveludada na hora de trazer as notícia do dia. Além dele, acompanhamos a jovem repórter Linda Page (Myha'la), que vê na matéria uma oportunidade de sair do tédio. Com ótima trilha sonora e filmado em um estilo setentista dessaturado, com imagens que parecem extraídas de arquivo, a produção tem uma cara meio documental, reforçada pelo caráter espetacular da coisa toda. E não é demais pensar que se algo assim ocorresse nos dias de hoje, seria motivo para um dia inteiro de farmação de views de criadores de conteúdo ansiosos pelos próximos cliques. Não é o melhor do Gus Van Sant? Certamente não. Mas dá pra se divertir bem aqui.

Nota: 7,5 

 

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Pitaquinho Musical - Maglore (Fluxo Natural)

Dia desses estava ouvindo o ótimo podcast Vamos Falar Sobre Música (VFSM) e um dos integrantes, o conterrâneo gaúcho Renan Guerra, resumiu à perfeição a experiência do ouvinte com a Maglore: "é uma banda conforto" que, a despeito de nunca se repetir em termos de sonoridade, mantém um certo padrão. Uma identidade própria. Uma personalidade. Afinal, por mais que Fluxo Natural, o sexto registro de inéditas, pareça mais expansivo e ensolarado do que o intimista trabalho anterior V (2022) - nosso sexto colocado na lista daquele ano - bom, continua sendo um disco da Maglore em todos os seus frames. Misturando o rock bucólico à Clube da Esquina, que aqui é reforçado pelas citações diversas à mares, ventos, rios, chuvas, pássaros voando e sonhos almejados (o que aparece já nos títulos das canções, como Raio de Sol, O Rio e o Mar, Farol), com o pop oitentista de sintetizadores sofisticados, o coletivo formado pelo vocalista e guitarrista Teago Oliveira, pelo guitarrista e tecladista Lelo Brandão, pelo baixista Lucas Gonçalves e pelo batera Felipe Dieder entrega uma coleção de canções em que temas cotidianos, políticos e românticos se alternam. Sempre de forma sólida, coesa.

 


Peça central do disco, a candidata a hit Sonho Real, seguramente uma das melhores músicas nacionais do ano, une guitarra e sintetizador em uma melodia polida - ou talvez menos empoeirada do que no começo da carreira -, em uma letra que coloca em rota de conflito o real e o abstrato, o concreto e o fantasioso. Culminando no pegajoso refrão, que faz a gente ficar cantarolando "num sonho reaaaaal" horas depois. Já Amor Sci-Fi, outro ótimo instante, parece imaginar algum tipo de paixão bem ao estilo dos filmes de ficção científica - mas sempre intenso, arriscado, imprevisível. Já Tudo Bem é Maglore até as entranhas com seus versos vulneráveis e cheios de honestidade (Tudo bem se você não tá bem / Eu também / E talvez ninguém). Quase no final, Curva de Trivela brinca sobre o amadurecimento, a partir de uma alegoria futebolística. "O recado mais profundo do disco é do amor como algo que permanece", enfatizou Teago no material de divulgação. O que pode ser percebido até em canções de essência política, como Palestina nos Seus Olhos.

Nota: 9,0