segunda-feira, 6 de julho de 2026

Novidades em Streaming - Obsessão (Obsession)

De: Curry Barker. Com Inde Navarrette, Michael Johnston, Cooper Tomlinson e Megan Lawless. Suspense, EUA, 2026, 109 minutos.

Vamos combinar que a gente chegou num ponto em que o público parece tão ansioso por um terror efetivamente bom que, quando aparece alguma coisa apenas mais ou menos, como esse Obsessão (Obsession), já fica todo mundo meio que... obcecado (com o perdão do trocadilho). E confesso que, enquanto assistia à sequência meio que aleatória em que Nikki (a, de fato, ótima Inde Navarrette) faz um sanduíche com os restos do gato morto de Bear (Michael Johnston), eu só conseguia lembrar da psicopata vivida por Glenn Close em Atração Fatal (1987), em uma década em que esses suspenses de paixões compulsivas que desencadeariam, mais adiante, uma série de eventos violentos, eram moda. E, vamos lá, o problema do segundo longa do Youtuber Curry Baker nem é o fato desse subgênero já ter existido antes, de forma muito efetiva. E, sim, porque ele nos exaure rondando um tema que poderia, aparentemente, ser melhor adaptado aos tempos em que vivemos.

Sim, não é que não existam mulheres obsessivas por seus parceiros, mas vamos combinar que essa ideia de casal que mantém um perfil único nas redes sociais porque a esposa não deixa o jovem ir pro churras com os parças, parece meio deslocada em um tempo em que a misoginia só cresce. Nesse sentido, Obsessão parece ser aquele filme pro incel redpill meio desavisado assistir com os amigos, pra depois ficar dizendo como a "dona patroa" é igualzinha à Nikki, já que o alecrim não pode ir nem na esquina sem que ele seja vigiado (sendo que, na grande maioria dos casos, parece ser o inverso o que acontece, com os homens de masculinidade frágil incidindo sobre roupas, atividades, comportamentos e, se deixar, até o voto de suas companheiras). "Ah, mas isso que a gente vê na tela é apenas uma projeção do comportamento cringe do próprio Bear e de suas obsessões, já que ele é o protagonista meio freak e de cabelo oleoso, que fica obcecado pela colega de trabalho", poderá alguém dizer. É uma interpretação talvez até mais esperada, já que parece haver uma Nikki "real" por baixo daquela camada alienada, que sofre uma maldição. E espero que o público capte essa nuance.

 


E, bom, como já dito, na trama Bear é o sujeito introspectivo e de poucas habilidades sociais, que mantém uma amizade com a galera do trampo, como no caso de Ian (Cooper Tomlinson) e Sarah (Megan Lawless) e está meio que na friendzone com Nikki, sua amiga de infância e paixonite à moda Apenas Mais Uma de Amor, do Lulu Santos, que ele precisa lidar diariamente quando a firma de instrumentos musicais em que todos trabalham, abre. Aliás, essa paixão é tão desequilibrada, que ele chega ao ponto de ensaiar com os amigos, o que e como deveria dizer para Nikki, no sentido de conquistá-la. Lembrando, Bear deve estar próximo dos 30 anos. E nunca deve ter procurado um terapeuta (ainda que sua dispensa esteja entupida de opioides). Aliás, mais uma falhazinha meio básica do roteiro: ninguém ali tem vida para além daquela rotina de solidão em quatro paredes, gatos que morrem aleatoriamente e tentativas frustradas de se relacionar - outras ocupações, famílias, tudo uma camada abaixo. Bear é o esquisitão e Nikki o considera um bom amigo, já tendo deixado isso meio que claro pra todo mundo. 

Mas o protagonista é insistente e resolve ir a uma loja de quinquilharias para jovens místicos, onde compra um artefato conhecido como Salgueiro do Desejo, que lhe possibilita um único pedido que pode ou não funcionar. Que a desigualdade do mundo acabe? Que as guerras cessem? Que o líder bizarro da extrema direita sucumba? Um bilhão de dólares? Bom, o próprio Baker já admitiu em entrevistas que, em um eventual mundo real em que essa peça existisse, nada faria muito sentido e o caos absoluto reinaria. Mas Bear quebra o item solicitando ao destino que Nikki "lhe ame mais do que tudo no mundo". O que instaurará o terror de um relacionamento que se inicia bem, com uma conexão boa ainda que gerada por linhas tortas, mas que evolui para a codependência absurdamente sufocante, o que deixará uma trilha de morte, sangue, vísceras e carne de gato no sanduíche. E de urina e vômito. Porque sim, né, terror psicológico tem dessas metáforas nem tão metafóricas.

 

 

E não é que não existam boas sequências de sustos, algumas no estilo de gerar medo onde, aparentemente, não existe nada. Nenhum motivo para temor. Seja numa madrugada em que Nikki acorda inesperadamente para olhar Bear dormindo - uma coisa meio O Exorcismo de Emily Rose  (2005), esse sim um filme apavorante -, ou quando ela forma uma espécie de barreira protetora de fita tape na entrada de casa para, supostamente, impedir o companheiro de sair. De ir longe. Com a gente compreendendo segundos depois a luta interior de Nikki - com a sua verdadeira personalidade afogada em uma espécie de limbo. Mas, voltando ao início, ao tentar uma abordagem dos problemas que podem haver em uma relação de chantagens emocionais, carências afetivas infinitas e intimidade tóxica, a obra consegue entreter com sua "possessão demoníaca" lateral e bateção de cabeça inesperada, ainda que mesmo esses eventos pareçam meio exagerados e infantis em alguma medida (talvez ela tenha tração maior com adolescentes, de fato, e nem sei se isso é bom). É um filme com méritos, mas bem de longe de ser a última bolacha do pacote, que parte da crítica anda vendendo.

Nota: 6,0 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

A Volta ao Mundo em 80 Filmes - Hanami (Cabo Verde)

De: Denise Fernandes. Com Sanaya Andrade, Dailma Mendes e Alice da Luz. Drama, Cabo Verde / Portugal / Suíça, 2024, 101 minutos.

A passagem em que as personagens discutem o conceito de "hanami", no filme caboverdiano de mesmo nome, é meio breve, quase imperceptível. O que não reduz o seu impacto. Extraída de um conceito japonês, hanami alude a ideia de contemplação frente à transitoriedade das coisas. É observar algo que pode ser belo, mesmo que fugidio. As pessoas, os lugares, os amores, as amizades, aquilo que realmente importa e meio que se modifica o tempo todo. Nos escapa. E todo esse ciclo de vida, de idas e vindas, de partidas e de retornos e de memórias que permanecem e escapam parece ser central na obra contemplativa da diretora Denise Fernandes, e que está disponível na Reserva Imovision. Para a protagonista de Hanami, Nana (Dailma Mendes na infância e Sanaya Andrade na adolescência) o caráter transformador da experiência humana tem início quando ela ainda é uma criança pequena: com sua mãe, Nia (Alice da Luz), lhe deixando para trás, em busca de uma vida melhor.

Em geral o que temos aqui é um fiapo de história que, não demora, se converte em um experimento imersivo, em que as amplas paisagens, a trilha sonora enigmática, os silêncios contínuos e todo o conjunto tão contemplativo quanto fantástico, ganha força conforme a narrativa se desenvolve. Nesse sentido, a obra funciona quase como um veículo permeado por divagações poéticas e geograficamente extensas, que são a alegoria perfeita para o sentimento que invade aqueles que acompanhamos. Tudo é amplo, mas íntimo, espalhado, mas discreto. Quando Nia deixa a filha ainda bebê na ilha que fica no sopé de um vulcão, a imagem de várias mulheres ao mesmo tempo amparando a pequena, nos permite lembrar do conceito de coletividade, de comunidade, especialmente no que diz respeito a ideia de criar uma criança. A rede de apoio recebe contornos reais. Pessoas de carne e osso que navegarão em volta dos mistérios de Nana.

 


E por mais reflexivo que o projeto seja, não são poucos os momentos em que a mera passagem do tempo recebe outras tintas, outros significados na rotina dos nativos do arquipélago escurecido e de natureza discreta que acompanhamos. Em um momento curioso, como forma de evidenciar a escassez material e financeira dos que ali residem, o tio de Nana (seu nome é Manuel) verbaliza todos os ingredientes que compõem a receita de um tiramisu. Para ao final de cada item citado, afirmar que eles não têm nada daquilo à disposição. O que não o impede de sonhar ser um confeiteiro - o que é corroborado pela volúpia com que as crianças consomem os doces que ele elabora. Da mesma forma, ruminações filosóficas sobre vasos quebrados que podem se tornar mais fortes após remendados - mais sólidos, ainda se unidos -, funcionam como uma metáfora quase espectral do ambiente. 

A paz e a tranquilidade que residem na rotina - de colher ovos pela manhã, ouvir os pássaros cantar e brincar de esconde esconde entre crianças -, é quebrada quando Nana passa a sofrer de uma severa e um tanto inexplicável febre. O que a leva ao pé da montanha na tentativa de obter uma cura - que pode vir, por exemplo, com a obtenção de uma planta conhecida como sabão de feiticeira (e que é solicitada por sua avó). No caminho, outras figuras excêntricas, como o avô Orlando, que opera como um curandeiro do local, além de um pesquisador da área de vulcões chamado sugestivamente de Kenji Mizoguchi - e certamente esse aspecto não é aleatório, dada a preferência do antigo diretor japonês por obras pictóricas, de fluidez lenta, de planos longos e cheios de simbolismos que, de quebra ainda conectam o conceito de hanami -, movimentam a trama, que se desenrola em direção ao mais esperado desfecho: o de que o mundo anda e cabe a nós sermos capazes de contemplar sua beleza. Justamente porque tudo é passageiro.


terça-feira, 30 de junho de 2026

Pitaquinho Musical - Vince Staples (Cry Baby)

Vamos combinar que basta uma olhadinha na capa (e no título) do sétimo e mais recente disco do rapper Vince Staples, para que tenhamos a certeza: sua caneta segue incandescente. Sim, o bebê chorão e gordinho embrulhado na bandeira americana, e que talvez se ache meio que o dono do mundo, pode até ser a metáfora mais óbvia para a situação atual dos Estados Unidos. Mas a força do registro, que leva o sugestivo nome de Cry Baby, segue nos versos vigorosos e cheios de potência que capturam a tensão, o absurdo e o peso emocional da contemporaneidade - e de como, vá lá, a derrocada do sonho americano parece um processo de difícil reversão em uma nação comandada pelo líder de extrema direita mais patético do planeta. "Deus abençoe os EUA / Deus abençoe os EUA / Você pode viver pela arma, morrer pela arma (apenas na América)", verbaliza o artista na pungente e ótima Only In America - um libelo de resistência à glorificação da violência -, como que resumindo o conceito que se espalha por toda a obra.

 


Como um todo, o disco parece muito mais uma experiência sombria, soturna e que desconstrói esse patriotismo de boutique excessivamente militar e religioso que rege a atualidade. Com Staples se aproximando, para além do rap, de outros estilos, como o pós punk, o noise rock e até o indie garageiro. Esse tipo de percepção ecoa com força em canções como a inaugural Blackberry Marmalade que, com sua eletrônica oitentista à Siouxsie and the Banshees, fala de como a cultura negra é explorada em uma sociedade ao mesmo tempo preconceituosa, vigilante e que gera o medo constante. Manipulação midiática (TV Guide), violência policial (Go! Go! Gorilla), fadiga em um sistema que não muda (White Flag) e o histórico de lutas raciais (na espetacular Cotton), são temas que se alternam em versos que conseguem ser pesados e realistas, mas também movimentados e dançantes. "A música me faz sentir como algodão / Me levanta quando penso que vou cair", verbaliza o artista na já citada Cotton. É uma sensação que parece se espalhar por cada fragmento do trabalho.

Nota: 9,0 

Novidades em Streaming - Twinless: Um Gêmeo a Menos (Twinless)

De: James Sweeney. Com Dylan O'Brien, James Sweeney, Aisling Franciosi e Chris Perfetti. Comédia / Drama, EUA, 2025, 100 minutos.

Que filme inesperadamente simpático e cheio de carisma esse Twinless: Um Gêmeo a Menos (Twinless), de James Sweeney. Confesso que fui assistir com poucas expectativas - até por um certo cansaço da narrativa de sofrimento queer, que parece fazer barulho com um público restrito ou somente em festivais alternativos, como o de Sundance. Mas aqui temos não apenas uma produção cheia de boas surpresas e reviravoltas - aliás, vale a pena ir meio às cegas -, como uma leve subversão no que diz respeito ao comportamento daqueles que acompanhamos. Tudo começa em um funeral, em que o taciturno Roman (Dylan O'Brien, que está excelente) tenta juntar os cacos após a trágica morte do irmão Rocky, em um acidente automobilístico. Em meio a discussões com a própria mãe Lisa (Lauren Graham) sobre o que fazer com os objetos do irmão, Rocky decide participar de um daqueles grupos de apoio meio constrangedores, que muito vemos nos filmes de Hollywood.

É nesse local que Roman conhecerá Dennis (Sweeney, que também atua), que alega também ter perdido o irmão, com quem não teria muito contato. De forma meio surpreendente, até pela personalidade diametralmente oposta de ambos - Dennis é o gay de perfil mais brincalhão (inclusive em hora errada), ao passo que Roman é o hétero mais introspectivo -, a dupla faz amizade. Meio que se apoiando em tudo - de compras no mercado e jantas aleatórias a idas ao jogo de hóquei no gelo. Em meio a confidências, Roman de ressente de nunca ter sido capaz de conversar sobre os relacionamentos com o irmão falecido. Que teria saído de casa justamente por causa do preconceito familiar - e dele mesmo. Aliás, em uma das tantas cenas bonitas da obra, Roman se emociona ao verbalizar seu sentimento de culpa por nunca ter sido capaz de aceitar a preferência sexual do irmão. Por ter surtado por ele ser gay. Por tê-lo chamado de "veado". "Não sei como continuar aqui sem você", chora copiosamente, amparado por Dennis.

 


[SPOILERS A PARTIR DAQUI] Só que nessa altura do campeonato, o espectador já sabe que Dennis esconde de Roman o maior segredo da história. Não apenas ele havia tido um encontro amoroso e cheio de paixão sexual com Rocky pouco tempo antes do seu falecimento, como ele estava no local na hora em que o acidente ocorreu. Pior do que isso, a sua atitude de confronto em plena rua, no cruzamento de uma avenida, pode ter sido decisiva para o atropelamento - em uma cena de ciúmes de um outro rapaz. Como forma de preservar a amizade, Dennis age quase como um mitômano, dobrando a aposta nas mentiras, em sequências como a do reencontro com o ex que estava na cena do acidente. Ou fingindo crises de ansiedade aleatórias, como nos momentos em que ele passa a se morder de ciúmes da colega de trabalho Marcie (Aisling Franciosi), com quem Roman inicia um relacionamento.

Repleto de belas sequências sobre dor, ciúmes, memórias, luto, segundas chances e recomeços, a obra evolui de forma divertida (e tensa) conforme o tempo passa, com a verdade chegando muito próxima de ser revelada. Inteligente e discreta, Marcie terá papel decisivo no terço final - e confesso que adorei o fato de ela nem de longe ser uma megera esquisita (ela é um doce), ao passo que Dennis também é ótimo como a "bicha má" ressentida, mas charmosamente carismática, que precisa lidar com as próprias frustrações. E mesmo dramático, o filme diverte com boas piadas - como no momento da briga com um grupelho de fedelhos homofóbicos ("achei que a geração Z fosse mais legal") - e um sem fim de instantes afetuosos, inventivos e devastadores. Tecnicamente atenta ao público mais jovem, com edição ágil e trilha sonora de nomes como as Haim, essa é daquelas produções que descem direitinho. Tá na Amazon.

Nota: 8,0

 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Cine Baú - Platoon

De: Oliver Stone. Com Charlie Sheen, Tom Berenger, Willem Dafoe e Forest Whitaker. Drama / Guerra, EUA / Reino Unido, 1986, 120 minutos.

Vamos combinar que não são necessários nem os primeiros dez minutos do clássico Platoon, de Oliver Stone, para que sejamos confrontados pelo absurdo da guerra - especialmente no que diz respeito ao seu caráter degradante. Afinal de contas, não há nada heroico em participar de um conflito. Aliás, uma batalha em que mal se compreendem as motivações - como costuma ser o padrão quando o assunto é a participação dos Estados Unidos me guerras. Quando chega como voluntário do exército americano no sul do Vietnã, no limite da divisa com o Camboja, o universitário Chris Taylor (Charlie Sheen) parece um tipo de idealista que está indo ao front para fugir de um certo padrão imaginado de sonho americano - especialmente para uma classe média desencantada nos anos 60. Só que não demora para que o olhar de deslumbramento quase romântico do jovem, em seu dever cívico, se converta em repulsa. Ou mesmo medo.

"O inferno é o lugar impossível da sensatez", verbaliza o homem em uma das diversas narrações em off que ele fará no transcorrer da produção - ruminações eventualmente existencialistas, a respeito do equívoco completo de todo aquele aparato preparado por homens, para que outros homens lutem contra sujeitos desconhecidos por uma causa... política? Cultural? Social? Geográfica? Religiosa? Na primeira andança pela selva seguindo o pelotão do tenente Wolfe (Mark Moses), Chris se depara com cadáveres putrefatos, serpentes ameaçadoras, o calor escaldante que se alterna com a chuva forte da madrugada, sem possibilidade de abrigo. A sensação como um todo é de um torpor pestilento. As formigas devoram os pescoços suados, em meio a tentativas de permanecer em silêncio. "Acho que cometi um erro, não sei se consigo ficar durante um ano aqui", divaga o jovem, aludindo à experiências dos protagonistas de outra obra-prima do gênero, no caso O Franco Atirador (1978).

 


Naquela altura do campeonato - no caso, os primeiros minutos do filme - Chris já havia escapado da morte, em uma emboscada vietcongue após ficar simplesmente paralisado diante da ameaça. E como se desgraça pouca não fossem bobagem, nas tentativas eventualmente frustradas de capturar guerrilheiros inimigos, o protagonista ainda precisa lidar com os conflitos internos que emergem, especialmente entre o compassivo sargento Elias Grodin (Willem Dafoe) e o autoritário e pragmático Robert Barnes (Tom Berenger). Se por um lado, Elias é como uma bússola moral que conquista o respeito dos demais primando pela disciplina, sem perder a empatia, do outro Barnes é o típico valentão da antessala do fascismo, daqueles que acredita que uma guerra é uma batalha de bem contra o mal, em um contexto em que qualquer tipo de ética é substituída por uma lógica única de sobrevivência, em que não há margem para confiança.

Em certo sentido, essa rivalidade entre ambos se sobressai na impactante e inesquecível sequência da aldeia em que os americanos, acreditando que os moradores - camponeses simples, muitos deles civis produtores de arroz - estariam abrigando vietcongues (e mesmo armas), agridem famílias, mulheres, crianças, em um processo de desumanização que encontra eco nos dias atuais (ainda mais quando assistimos a barbárie cometida em Gaza, perpetrada pelo lunático governo de Israel, com o apoio de Donald Trump). Gravitando o trio central outros personagens aparecem, aqui e ali, contribuindo para discussões para além do mero senso de camaradagem, como no caso do racismo, que é incorporado de forma orgânica com a presença de figuras como King (Keith David), Big Harold (Forest Whitaker) e Francis (Corey Todd), que se aproximam de forma natural naquilo que, em alguma medida, opera como uma espécie de alegoria para a própria sociedade americana, com suas divisões.

 

 

Cru, violento e quase agoniante - o que é reforçado pelas diversas tomadas de câmera muito próximas de seus personagens, que vagam pela selva com todo o seu aspecto imprevisível (a ponto de em um momento Chris sequer perceber a presença de uma sanguessuga em seu rosto) -, o filme se tornaria o primeiro grande sucesso de Stone, que, poucos sabem, participou da Guerra do Vietnã, com a sua experiência servindo de ponto de partida para a obra. Premiada com a estatueta máxima no Oscar de 1987, a produção ainda venceria outras nas categorias, como, Diretor, Som e Montagem. No que diz respeito à outras honrarias, Platoon atualmente figura como o 86° Melhor Filme da História, de acordo com lista elaborada pelo American Film Institute. Em 2011, o canal britânico Channel 4 consideraria este o sexto melhor filme de guerra já feito. Não são poucas as credenciais.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Novidades em Streaming - O Órfão (Árva)

De: László Nemes. Com Bojtorján Barabas, Andrea Waskovics, Elíz Szabó e Marcin Czarnik. Drama, Hungria / França / Reino Unido / Alemanha, 2025, 133 minutos.

Um filme sobre a procura de um filho por seu pai, mas que também pode ser lido como uma alegoria para a busca de uma Pátria por uma identidade que parece perdida. Em linhas gerais não é exagero dizer que O Órfão (Árva) - o enviado da Hungria para a mais recente edição do Oscar e que estreou na última semana na Mubi - parte de um microcosmo que envolve uma família traumatizada não apenas pela segunda guerra, mas também pela ocupação soviética, imediatamente após o conflito. Com as feridas abertas como um todo no tecido social de uma nação que, no limite, parece ter trocado um regime ditatorial por outro - no caso o nazismo pelo stalinismo húngaro. Sim, talvez esse contexto não seja algo tão simples assim de se entender, ainda mais se levarmos em conta o fato de, inicialmente, a Hungria ter sido aliada dos alemães para, mais adiante, ser invadida e saqueada pelos militares de Hitler. O que resultaria em milhares de judeus deportados para campos de extermínio.

No filme de László Nemes - do agonizante vencedor do Oscar O Filho de Saul (2015), que também tem a guerra como pano de fundo -, o conflito já se encerrou há mais de uma década. O ano é 1957 e o protagonista - o pequeno Andor (Bojtorján Barabas) -, após ter sido resgatado dez anos antes por sua mãe, Klára (Andrea Waskovics), uma sobrevivente do holocausto, é detido pela polícia junto com outros adolescentes por, supostamente ter participado da Revolução Húngara no ano anterior, ocasião em que estudantes, professores, intelectuais, artistas e outros trabalhadores se rebelaram contra o domínio soviético. Milhares morreram e muitos fugiram do País. Em linhas gerais, Andor acredita que seu pai, um dos desaparecidos, possa estar vivo em algum local - aliás, ele tenta se "comunicar" com o genitor em uma espécie de porão abandonado. Mas sem nunca ter certeza disso.

 


Em paralelo o rapaz, que parece saído de alguma obra do neorrealismo italiano - o que é reforçado pela fotografia granulada e dessaturada das ruas decadentes de Budapeste, com sua arquitetura antiquada e ambientação urbana opressiva (com a presença de militares por todos os cantos) -, especialmente por suas andanças infinitas ladeando prédios e terrenos ermos, mantém uma graciosa amizade com Sari (Elíz Szabó) que, secretamente, ajuda a manter seu irmão escondido em uma habitação abandonada (ele seria um revolucionário sendo procurado pelo Estado). Já outro amigo de Andor, Geza (Marcin Czarnik), um ator de teatro, parece ser aquilo que mantém seu vínculo não apenas com a humanidade, mas também com a identidade de seu povo e de sua família (já que seu pai era o proprietário do cinema local). Especialmente em um cenário de vigilância, prisões políticas e opressão a opositores. 

A desilusão é profunda - e parece ampliada em uma obra que tem sua própria medida de tempo, desenrolando-se sem pressa, com seus pequenos eventos diversos, sejam as idas ao cinema e a sinagoga e os encontros familiares, se espalhando de forma vagarosa. E como se desgraça pouca não fosse bobagem, tudo piora quando aparece na vida de Andor e de sua mãe um certo Mihály Berend (Grégory Gadebois), um sujeito tão misterioso quanto truculento que alega ser seu "novo pai" (e que teria ajudado Klára a se esconder dos nazistas). Estiloso do ponto de vista técnico - talvez até com certo exagero nesse sentido, o que poderia desviar a atenção para o que realmente importa em termos de temática -, o filme utiliza a cor vermelha dos balões e de outros objetos, como uma metáfora para a onipresença dos comunistas em solo húngaro. Da mesma forma, a violência que emerge do boxe como esporte, em substituição ao caráter lúdico do futebol em uma época do auge de Puskas, também pode funcionar como forma de evidenciar certo cansaço de um povo, há tanto oprimido. Sim, pode ser muita coisa para elaborar em uma produção eventualmente exaustiva com suas mais de duas horas. Mas não dá pra negar que é um esforço fílmico notável.

Nota: 8,0 

 

terça-feira, 23 de junho de 2026

Novidades em Streaming - Depois do Fogo (Rebuilding)

De: Max Walker-Silverman. Com Josh O'Connor, Lily LaTorre, Meghann Fahy, Kali Reis e Amy Madigan. Drama, EUA, 2025, 96 minutos.

Quem acompanhou mais de perto as enchentes que assolaram, em maio de 2024, diversos municípios do Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul, sabe que não foram poucos os entrevistados que, em meio aos escombros da tragédia que devastou tudo, levando os bens materiais (e até imateriais) de uma vida, reuniram forças para dizer que "ao menos estavam vivos". Por mais que casas, carros, eletrodomésticos e, no caso de moradores do campo, maquinários, galpões, animais e plantações, tenham sido levados pela fúria das águas, ao menos restaram as famílias e a sua resiliência. Em meio a um quadro desalentador - afinal foram muitos óbitos também -, o recomeço contou com o apoio de instituições públicas e privadas e de pessoas. Muitas pessoas. Numa ação coletiva que possibilitou algum tipo de recuperação - de autoestima, de dignidade, de esperança. 

E não deixa de ser tocante perceber como o recém chegado à Netflix, Depois do Fogo (Rebuilding) trata justamente desse processo, vivido pelos flagelados climáticos: o de recuperar aquilo que realmente importa, num contexto de turbulência. Ao cabo, aqui temos uma experiência afetuosa e gentil que centra menos a sua narrativa no que desencadeia cheias, secas, queimadas, tsunamis e outros problemas climáticos e mais no que vem depois do ocorrido. O componente político certamente faria falta se esse fosse um projeto mais abertamente panfletário - e, admito que lá pelas tantas me incomodou um pouco o fato de os problemas ambientais estarem tão em segundo plano -, mas aqui o que é importa é o microcosmo dos vínculos familiares. Ou o que nos faz humanos. É clássica a frase de que sairíamos melhores como humanidade, depois da pandemia. Ou das cheias. Enfim, espero que tenhamos saído.

 


Na tocante obra dirigida por Max Walker-Silverman, que teria se inspirado em histórias da própria família (sua avó perdeu a casa num incêndio) Josh O'Connor é o cauboi Dusty, que tem a sua fazenda de oitenta hectares onde criava animais consumida por um incêndio de grandes proporções. Enquanto reside em um trailer improvisado oferecido pelo governo aos desalojados - ao lado de um grupo de outros moradores que passaram pelo mesmo -, Dusty estuda a possibilidade de ir morar e trabalhar em um rancho familiar no Estado de Montana, trocando o seu Colorado natal, no pé das montanhas rochosas. Taciturno e sem perspectivas para o solo dizimado pelo fogo - restando apenas galhos de árvores secas e retorcidas em meio ao cenário desértico quase pós-apocalíptico -, o protagonista só consegue ensaiar um meio sorriso quando está com a sua filha, a pequena Callie Rose (a ótima Lily LaTorre), fruto de um relacionamento com a ex-esposa Ruby (Meghann Fahy). 

É ela, afinal, que lhe lembrará de forma afetuosa e meio que o tempo todo daquilo que importa - e daquilo que transforma um lar em lar de verdade. Sim, pode parecer papo barato de autoajuda, mas não deixa de ser comovente ver como o olhar de Dusty - entre uma postura entortada e outra, que se soma a incapacidade meio natural de um sujeito rústico do campo em seu comunicar -, ganha tons de doçura a cada ida a pequena biblioteca local para leituras improvisadas e momentos aleatórios em família (sério, é impossível ficar alheio à sequência da colagem de estrelas brilhosas nas paredes internas do trailer que, agora, é a casa deles). O senso de coletividade entre vizinhos, distribuindo cortesias (e comida), e se apoiando em tarefas domésticas cotidianas (como consertar uma torneira) nos faz lembrar do clima geral contemplativo, bucólico e resignado que assistimos em Nomadland (2020). Mas aqui a melancolia se converte em conforto e em lágrimas genuínas, quando nos percebemos torcendo por aqueles que estão ali, apenas querendo reconstruir as suas vidas, em meio a angústias, sonhos interrompidos e desejos de reconexão. Aliás, esse conjunto de ideias recebe um sentido quase alegórico na reta final, quando todos ali parecem perceber o significado de "família". É bonito demais.

Nota: 8,0 

 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Pitaquinho Musical - Edgar (Rewind)

O título autoexplicativo do novo registro do rapper Edgar dá a dica: Rewind representa uma espécie de volta ao passado para o artista. Um retorno a uma outra época, mas não como mera nostalgia de quem fica apegado àquele período de forma meio estática e, sim, como algo natural para quem parece estar em movimento permanente. Para ele, o trabalho representa um rebobinar não só na música, mas também na vida pessoal. "É a ideia de retornar às origens e olhar para raízes que, em alguns momentos, não receberam tanta atenção", comentou Edgar no material de divulgação. Na prática, isso significa recolocar estilos como o reggae, o dancehall, o paredão, o dub e outros ritmos latinos, além da cultura sound system no centro - o que representa esse ideal fervilhante e tropical de rua, de vida, de cenários urbanos e de comunidade em um conjunto que opera também como um organismo político, com seus próprios códigos. 

 


Em resumo, não significa deixar o rap e o funk, que sonoramente formavam a matéria-prima do ótimo trabalho anterior Universidade Favela (2024) - nosso sexto colocado na lista de melhores nacionais daquele ano -, até porque esses estilos seguem presentes, mas de se reconectar com a essência. Ao cabo, Edgar não é apenas um músico na busca por condensar os tempos complexos que vivemos - de avanço da extrema direita, de opressão policial, de desigualdades sociais (com seus trilionários tecnológicos) e de racismo estrutural -, mas também um difusor daquilo que é popular, periférico e que integra essa engrenagem. O resultado dessa mescla pode ser percebido nas ótimas Cops With Guns, na sensualíssima Mão Pro Alto, na já clássica ZUM ZUM ZUM, escrita quando Edgar tinha 17 anos, e em Baila Loco, em que emula Manu Chao em uma cristalização do imaginário da dança, enquanto a tragédia no entorno ocorre, como ele explicou à Revista Noize. Vale o play.

Nota: 8,0 

Novidades em Streaming - O Drama (The Drama)

De: Kristoffer Borgli. Com Zendaya, Robert Pattinson, Alana Haim, Hailey Gates e Mamoudou Athie. Comédia / Drama / Romance, EUA, 2026, 105 minutos.

Em uma das sequências mais esquisitas de Serotonina, de Michel Houellebecq, o protagonista Florent-Claude elabora um plano macabro na sua mente: especialista em tiro à distância, ele imagina como seria assassinar, a sangue-frio, o filho pequeno de uma antiga namorada. Em seu delírio sombrio - aliás, algo meio típico nos cínicos protagonistas masculinos do escritor francês - ele chega a engendrar detalhes de sua intenção (como posicionaria a arma, melhor momento para atirar, etc). Por fim ele não coloca o plano em prática, ainda que o leitor saia horrorizado daquele momento. A ponto de eu nunca mais ter esquecido desse instante da obra. E, bom, aí chegamos por linhas meio tortas em O Drama (The Drama), filme do diretor Kristoffer Borgli - dos ótimos Doente de Mim Mesma (2022) e O Homem dos Sonhos (2023) -, que recria meio que essa ideia: qual foi a pior coisa que já imaginamos fazer ou já fizemos em nossas vidas? E como isso afeta a nós ou aqueles que nos rodeiam?

Verbalizar, afinal, aquilo que está debaixo de muitas camadas do que se imagina um código de ética ou uma moral inquestionáveis, pode não ser tarefa fácil. Decisões erradas todo o mundo toma, mas e quando elas podem gerar traumas, dores ou coisa pior para os envolvidos? Verdade seja dita que a ideia dessa produção modesta e com bons atores é até boa - o que me fez ir ao encontro dela. Pena que, ao cabo, ela seja tão trivial. Na trama, Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson) estão prestes a se casar. O início tem certa leveza, com a dupla discutindo com seus respectivos padrinhos e madrinhas os votos - o que deve ou não ser incluso no texto, em meio a lugares-comuns e clichês engraçadinhos que remontam a sua trajetória. Aliás, trajetória que se inicia de forma meio estranha, com Charlie parecendo um stalker meio afobado, em sua intenção de se aproximar de Emma, enquanto ela lê tranquilamente em uma cafeteria (o livro, seu nome é O Estrago, é fictício, infelizmente). 

 


Mais adiante e ainda mais perto do matrimônio, em meio a debates a respeito da substituição ou não da DJ da festa por um suposto vício em drogas, o casal se reúne com o casal de amigos Rachel (Alana Haim) e Mike (Mamoudou Athie). A conversa descontraída ganha tons mais sérios quando Mike instiga Rachel a revelar qual a pior atitude que ela já tomou em sua vida e ela concorda, desde que todos na mesa façam o mesmo. Mike começa, contando como, na juventude, em companhia de uma ex, usou-a como escudo humano durante um ataque feito por um cachorro. Já Rachel, fornece detalhes de como teria prendido um irritante menino mais novo que ela em um armário em uma habitação abandonada no meio de um bosque. Na vez de Charlie ele conta meio envergonhado sobre ter praticado cyberbullying com um antigo colega, meio que destruindo sua vida. E aí chega Emma que [SPOILERS A PARTIR AQUI], meio que pesando o clima, relata como, em sua juventude, esteve muito perto de promover um tiroteio em massa na sua escola, com o rifle de seu pai (com um evento meio aleatório lhe impedindo, por mais que o detalhamento do plano estivesse prestes a sair do papel).

A informação meio que quebra o equilíbrio não apenas do casal, que até aquele momento parecia apenas perfeito, mas também da relação com seus amigos, que passam a evitar Emma, atribuindo-lhe uma culpa retroativa por algo que ela não fez mas que se configura em um dos grandes traumas da era moderna nos Estados Unidos (um País que, se bobear, permite comprar pistolas e revólveres no mercadinho da esquina). O fato de Emma ser uma menina negra que sofria bullying em sua escola é um tema praticamente ignorado e que poderia tornar a narrativa muito mais complexa e potente do que sugere sua trama de humor meio sombrio em que paira no ar a dúvida sobre se ela ainda seria capaz de praticar tal ato. Aliás, pior do que isso, a obra sequer cogita a possibilidade de todos eles, como adultos, simplesmente conversarem a respeito, trazendo angústias, sofrimentos, traumas e memórias que poderiam representar uma cura. Ao contrário, Charlie fica brochado e de muxoxo pelos cantos, enquanto a irritante Rachel simplesmente se afasta sem muita explicação. Pra piorar o terço final joga o ápice do absurdo pro próprio casamento, tentando uma solução mágica à moda Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004). Infelizmente não cola.

Nota: 4,0 

 

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Pitaquinho Musical - Kevin Morby (Little Wide Open)

Vamos combinar que existe uma beleza meio sofisticada e um tanto sutil na forma como Kevin Morby descreve o meio oeste e o sul americanos, com suas pequenas cidades hipocritamente conservadoras, de jardins bonitos e cerquinhas brancas, ladeadas por estradas que levam às montanhas - aquele habitat de imaginário americano típico, em que o senso de comunidade contrasta com pequenas opressões, com homens e mulheres coabitando esse espaço, cumprindo seus rituais, crescendo, sonhando, se frustrando. E em linhas gerais as suas cordas nostálgicas, no limite entre o indie, o folk e o rock alternativo, parecem traduzir bem a ideia desse ambiente idílico, capaz de tornar palpáveis o deserto, a igreja e os postos de gasolina, num sentimento quase cinematográfico. Talvez nostálgico. Foi meio que assim em toda a sua discografia, não sendo diferente no recente Little Wide Open, o oitavo registro da carreira.

 


Da abertura com Badlands, que não faria feio na trilha sonora de um faroeste moderno, com sua letra intuitiva a respeito da rudeza geográfica desses locais, até a conclusão com Field Guide for the Butterflies, Morby elabora uma série de canções meditativas, em que o contraste entre a eventual suavidade das melodias e crueza das letras, equilibra à perfeição a percepção do campo (ou do interior) como um local tranquilo e familiar, mas que sempre parece guardar algo abaixo da superfície - ao estilo do que vemos em filmes como Pecados Íntimos (2006), de Todd Field. Um bom exemplo nesse sentido, pode ser percebido na poderosa 100.000, que rumina sobre esses locais isolados, com baixa densidade populacional, mas que carregam tensões meio invisíveis no que diz respeito às expectativas sociais e até do que é ser um "homem" típico dos Estados Unidos (Morra pelo seu País / Ou uns pelos outros / Com seus carros musculosos / Na frente da garagem). Outras canções de grande beleza, como Javelin, Dandelion e a faixa-título valem ser conferidas, nesse disco que tem produção de Aaron Dessner, do The National, o que é sempre um bom indicativo.

Nota: 8,0 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Novidades em Streaming - Rebelião Silenciosa (À Bras-le-Corps)

De: Marie Elsa-Sgualdo. Com Lila Gueneau Lefas, Grégoire Colin e Cyril Metzger. Drama, Suíça / Bélgica / França, 2025, 101 minutos.

Vamos combinar que nem chega a surpreender o fato de a maior violência sofrida por Emma (a ótima Lila Gueneau Lefas), a protagonista de Rebelião Silenciosa (À Bras-le-Corps), nem ser tanto a da guerra que a espreita - com soldados alemães circulando nos limites da floresta, representando uma ameaça constante -, e, sim, do microcosmo que ela habita, com sua estrutura essencialmente patriarcal e de rígidos códigos religiosos. O ano é 1943 e, se na Suíça rural onde se passa a narrativa, temos uma nação neutra no que diz respeito aos horrores do conflito - é possível, afinal, compreender o medo e a incerteza paralisantes frente aos soldados nazistas -, também temos uma jovem disposta a romper com esse sistema que, se não é gritantemente misógino, opera pelas frestas no sentido de reservar às mulheres uma série de papeis previamente estabelecidos. Emma talvez ainda nem saiba que, ali adiante, a guerra terminará. E, alegoricamente, talvez a opressão intrínseca às mulheres a vida na pequena comunidade também. Ou assim deveria ser.

Na trama, Emma mora com seu pai e as duas irmãs nesse espaço aparentemente idílico, mas que não impede que a violência chegue até ali, mesmo de onde não se espera. Dedicada, a adolescente de 15 anos atua como uma espécie de governanta faz tudo do pastor local - seu nome é Robert (Grégoire Colin) - e espera receber um tipo de "prêmio de virtude", que seria destinado à algumas mulheres como um reconhecimento pelo seu empenho e esforço recorrentes. E que seria concedido por líderes locais como o próprio pastor, um médico e outros (a maioria homens), o que lhe permitiria ir para um internato para estudar enfermagem. E, bom, não é preciso dizer que nessa comunidade onde os homens decidem meio que tudo - aliás, o valor da bolsa é repassado justamente para o pai, marido ou algum tutor -, as jovens devem ser íntegras, imaculadas e moralmente incorruptíveis para que sejam "dignas" da obtenção da distinção. Sim, o sonho molhado da extrema direita reside em 1943.

 


Só que a coisa muda de figura quando surge na propriedade o jornalista Louis (Cyril Metzger), que está pela região para escrever um artigo para um periódico a respeito do cultivo de trufas selvagens. Extrovertido e charmoso, o rapaz traz certa leveza para o ambiente taciturno da casa, dançando e brincando com todos. E, atraindo a atenção de Emma, que é levada por ele para a floresta isolada durante um passeio, ocasião em que a violenta - o que nos faz lembrar que a grande maioria de casos de abuso sexual é perpetrado justamente por pessoas em que se têm confiança. Ou de onde dificilmente se esperaria tal agressão. Quando segue sua jornada, Louis deixa para trás uma Emma não apenas traumatizada pelo ataque - mostrado pela diretora Marie Elsa-Sguardo de forma bastante sutil (optando por takes do rosto da jovem e de suas mãos retesadas, enquanto agarra o capim) -, mas também grávida. "Deus, por favor, me proteja da vergonha", suplica ela após o fato, sem nunca acreditar que o errado é o agressor.

Só que mesmo nesse cenário de violência estrutural, o estupro parece virar uma espécie de chave em Emma que, inicialmente, tenta forçar um aborto em uma cena de forte impacto e bem conduzida frente ao choque. Mais adiante, ela se casa em uma união sem muito amor com o guarda de fronteira Paul (Thomas Doret), que assume o filho prometendo mundos e fundos para, mais adiante, operar como o machinho meio escroto de sempre. Insatisfeita com esse conjunto, Emma assume as rédeas da própria história, confrontando aqui e ali as micro (e macro) violências - e uma das melhores cenas envolve ela reencontrando e desafiando o jornalista. Taciturna e silenciosa no exterior, mas como um furacão interior, a protagonista navega nessas águas densas que podem se abrir justamente pela união das mulheres - da mãe expulsa da aldeia por ter sido infiel, passando pela filha do patrão, até chegar às irmãs ainda pequenas. Ela se afasta de Paul, a guerra termina, o pastor sofre com a demência. A alegórica dança final é a metáfora para a libertação das amarras conservadoras. Pode parecer óbvio. Mas não deixa de emocionar. Tá disponível na Reserva Imovision.

Nota: 8,0 

 

terça-feira, 16 de junho de 2026

Cinema - Alpha

De: Julia Ducournau. Com Mélissa Boros, Golshifteh Farahani, Tahar Rahim e Emma Mackey. Drama / Terror, Bélgica / França, 2025, 128 minutos. 

Uma alegoria sobre os diversos tipos de preconceito ou apenas um body horror sem sentido, que busca o choque pelo choque? Uma fábula sobre amadurecimento em um mundo distópico ou uma obra repleta de simbolismos, em tempos em que ainda nos recuperamos de uma pandemia? Colapso ambiental, avanço da extrema direita, tecnologia desenfreada, xenofobia - tudo isso ao mesmo tempo e, talvez, ainda mais um pouco. Verdade seja dita, assim como já havia ocorrido no ótimo Titane (2021), projeto anterior da diretora Julia Ducournau, Alpha, que chega aos cinemas, é mais uma daquelas experiências abertas, que permitem as mais variadas interpretações. Para o bem ou para o mal, esse é o tipo de cinema mais exagerado, que suscita amor e ódio em igual medida, enquanto os cinéfilos mais engajados se apressam em comparar o horror físico sombrio da diretora, ao modus operandi de um David Cronenberg, num cruzamento com o David Lynch (o que talvez tenha sentido, de fato).

Aqui a protagonista é uma adolescente de 13 anos - o nome da betinha (não sobra nada pra ela) é Alpha (Mélissa Boros) - que, numa noite de rebeldia aleatória e de drogadição perigosa à moda anos 90 ao som de Portishead, volta para casa com uma tatuagem no braço, onde está inscrita uma enorme letra "A". Em linhas gerais isso não significaria grandes coisas não fosse por um detalhe: nesse universo alternativo em que a trama ocorre, um novo vírus se espalha justamente pelo contato com sangue contaminado (o que parece ser uma possível alusão aos primeiros anos do HIV, especialmente pelo aceno à transmissão sexual). Entre a indignação e o acolhimento frente à barbeiragem da filha, sua mãe (Golshifteh Farahani), que é enfermeira, lhe leva para uma série de exames, a fim de detectar possíveis indícios da doença, que tem como principal "sintoma" converter o infectado em uma espécie de estátua de mármore em vida, que sopra um tipo de vento avermelhado (o que gera um efeito ao mesmo tempo estranho e fascinante).

 


Quando retorna para a escola, Alpha precisa lidar com o bullying dos colegas, que estão apavorados com a fato dela poder estar doente - o que é reforçado pelos constantes sangramentos de seu braço, justamente onde está a infeccionada a tatuagem, que nunca sara. E como se desgraça pouca não fosse bobagem, a adolescente ainda precisa lidar com o inesperado retorno de seu tio Amin (Tahar Rahim), um viciado em heroína que reaparece confuso, doente e pedindo abrigo à sua mãe. Em linhas gerais o conjunto é soturno, quase fantasmagórico, alternando momentos eventualmente fantásticos - como na cena em que Alpha se aventura do lado de fora da janela de seu quarto, enfrentando uma dura ventania -, com outros que apenas evidenciam o preconceito de quem pode estar carregando consigo um vírus letal. O que é reforçado na sequência da piscina em que a jovem desperta o mais completo horror naqueles que compartilham o ambiente com ela, após bater a cabeça e sangrar gravemente.

Talvez para alguns espectadores, as sequências meio repetitivas e o caráter aleatoriamente enigmático da narrativa pode soar cansativo ali pelas tantas - ainda mais quando a coisa se torna forçadamente simbólica, indo de ideias meio abstratas emprestadas da Bíblia (do pó viemos ao pó voltaremos?), até chegar às surpresas meio confusas, com uma revelação final que pode nem colar tanto assim - e confesso que também me aborreci um pouco, lá pelas tantas. Ainda assim, como já dito, os filmes de Julia Ducournau sempre funcionam como um exercício interessante de gênero, em que nos pegamos pensando sobre o que assistimos, ao mesmo tempo em que juntamos pistas para algum tipo de conclusão mais lógica sobre (e, spoiler, nunca seremos definitivos a respeito). Tenso, fragmentado e cheio da ambiguidades, o filme concorreu à Palma de Ouro no mais recente Festival de Cannes e, mesmo tendo saído de mãos abanando, reflete os tempos paranoicos e de deterioração do tecido social em que vivemos.

Nota: 7,0 

 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Tesouros Cinéfilos - A Sombra de Meu Pai (My Father's Shadow)

De: Akinola Davies Jr. Com Sope Dirisu, Godwin Chiemerie Egbo e Chibuike Marvellous Egbo. Drama, Reino Unido / Nigéria, 2025, 94 minutos.

Vamos combinar que quando o assunto é Golpe de Estado, meio que só muda o endereço. Ou o País, já que muitos têm o seu, a grande maioria perpetrado por militares, em muitos casos com o apoio dos Estados Unidos. E no caso da Nigéria não é diferente - e é exatamente esse o pano de fundo do sensível e potente A Sombra de Meu Pai (My Father's Shadow), o enviado do Reino Unido para a categoria de Filme Estrangeiro, no último Oscar. Aqui, temos uma experiência contemplativa, por vezes quase onírica, sobre um pai - seu nome é Folarin (Sope Dirisu) - que, com o objetivo de preservar seus filhos Akin (Godwin Chiemerie Egbo) e Remi (Chibuike Marvellous Egbo), mantém uma vida meio dupla em que, aparentemente, integra um grupo de resistência à violência de Estado. O que parece ficar mais claro a cada novo encontro com pessoas e ambientes desconhecidos pelos pequenos.

Tão misterioso quanto amoroso, o pai convida as crianças para uma viagem improvisada à capital Lagos - a ideia é cobrar o seu empregador o pagamento do salário atrasado já há alguns meses. O que também se torna oportunidade para que nos aprofundemos nos bastidores políticos, sociais, culturais e até religiosos da nação africana. Tudo é feito de forma bastante sutil, cabendo ao espectador montar essa espécie de quebra-cabeças que, no limite, e às vésperas das eleições, culminará na possível vitória no pleito de MKO Abiola, um empresário e filantropo que, com sua popularidade, parece unir o País. O ano é 1993 e a turbulência ronda por cada canto, pelas frestas - não por acaso, na primeira parte da viagem, ainda em um ônibus, tem início uma discussão acalorada sobre política, que não faria feio nos tempos do Brasil de Lula e de combate à uma extrema direita golpista, truculenta e antidemocrática. O ônibus para por falta de gasolina. E o embate segue do lado de fora da condução.

 


Tendo seu pagamento adiado para o final da tarde, Folarin resolve levar Akin e Remi para essa Lagos mais profunda, alternando entre momentos prosaicos e calorosos, em que visitam o parque de diversões, tomam banho de mar e saboreiam iguarias gastronômicas da capital, com outros mais tensos, em que conduções repletas de militares com caras de poucos amigos, trafegam normalmente em meio ao trânsito. Fervilhante, a obra converte a capital, com sua imprevisibilidade urbana, cheia de cores e repleta de diversidade em um elemento central da narrativa, ressaltando a complexidade da experiência de vida em um País africano - em muitos casos culturalmente heterogêneo, mas invariavelmente repleto de contrastes sociais. "A Nigéria é um País difícil" divaga Floarin em certa altura, como que tentando fornecer algum tipo de amparo às crianças. Que lhe olham no limite entre a ternura e o receio.

Aliás, um dos pontos centrais da narrativa está justamente na força da relação desse trio, que sai de casa deixando apenas um bilhete para a mãe. Em conversas íntimas e francas, os filhos inquirem o pai a respeito de seu comportamento errático, distante, de quem está muito mais ausente do que presente. Revelações comoventes como a da perda do irmão na juventude - em um trágico afogamento -, que se alternam com um quase fatídico atropelamento em meio ao trânsito agitado, formam uma espécie de alegoria para a perturbação do todo. Como se naquele microcosmo de um pai que não consegue fornecer condições mínimas de sobrevivência aos próprios filhos, estivesse uma metáfora para o sofrimento de todo um povo. Dinâmico mas reflexivo, esperançoso mas dolorido, esse é aquele tipo de projeto que parece sempre guiado pelo olhar de uma criança, que ainda não sabe sobre o mundo que lhe aguarda lá fora. E talvez aí esteja parte de sua beleza.

 

Pitaquinho Musical - Olivia Rodrigo (you seem pretty sad for a girl so in love)

Poucas vezes em uma obra literária a aproximação entre o que sentimos no amor e na doença - ambos capazes de produzir sintomas físicos como perda de apetite, desconfortos gastrointestinais, palpitações, insônia e ansiedade -, foi tão metaforicamente bem evidenciado, como no clássico O Amor nos Tempos do Cólera. Se apaixonar, afinal, tanto para Florentino Ariza, o protagonista da obra do colombiano Gabriel García Marquez, como para uma jovem cantora de vinte e poucos anos, como a Olivia Rodrigo, pode ser conviver, permanentemente, com essa dicotomia. Essa dor que parece mais a de uma doença infecciosa, mas que também pode ser só as borboletas no estômago agindo sobre nós de forma avassaladora. E se o tema não chega a ser uma novidade, é preciso sabedoria para abordá-lo, o que Olivia parece ter de sobra mesmo em sua juventude, como fica claro em you seem pretty sad for a girl so in love (aliás, a ambiguidade já surge no título), o terceiro registro de inéditas da artista.

 


E, bom, aqui no Picanha a gente é suspeito em falar, já que tanto SOUR (2021) quanto GUTS (2023) figuraram na nossa lista de melhores do ano (ambos na terceira colocação), especialmente pela capacidade única da cantora em condensar a experiência de chegar à vida adulta e amadurecer meio que na marra, não apenas com suas letras formidáveis - em músicas como Deja Vu e Making the Bed -, mas também com suas melodias pouco óbvias, com seus sintetizadores existencialistas e uma nebulosidade indie pop hipnótica. Menos riot grrrl (talvez para tristeza de alguns) e rock à Sleater Kinney e mais sintetizadores perfumados pelos anos oitenta - o que fica evidente não apenas na participação de Robert Smith, mas na sonoridade eventualmente adocicada, a artista constroi uma verdadeira fábula dividida em duas partes distintas, em que paixão surge não como algo oposto à dor e, sim, como algo intrínseco a ela. É como um estado febril em que começamos eufóricos para, logo mais, mergulharmos em um torpor que parece nos deixar tristes, mesmo quando felizes. Sim, talvez seja muita divagação ou excesso de interpretação para um mero álbum de música pop. Mas o caso é que canções como drop dead, maggots for brains, u + me + <3, my way, stupid song, the cure e what's wrong with me são irretocáveis. Não é exagero.

Nota: 9,5 

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Cine Baú - Bunny Lake Desapareceu (Bunny Lake Is Missing)

De: Otto Preminger. Com Carol Lynley, Keir Dullea, Laurence Olivier e Martita Hunt. Suspense, Reino Unidos, 1965, 106 minutos

Vamos combinar que, se não chega a ser exatamente um subgênero do cinema, a vertente dos suspenses sobre pessoas que desaparecem para, mais adiante, terem a sua própria existência questionada, tem as suas obras marcantes. Do clássico A Dama Oculta (1938), de Alfred Hitchcock - aliás, um verdadeira mestre também nessa corrente -, à suspenses mais atuais, como, Plano de Vôo (2005), não foram poucas as produções que utilizaram essa narrativa de paranoia em que a tensão migra, em certa medida, do sumiço em si para um questionamento à respeito da saúde mental dos envolvidos. Especialmente em situações em que o protagonista jura de pé junto que o desaparecido realmente existe - ainda que no entorno, as dúvidas estejam postas. E é exatamente esse o caso do agoniante Bunny Lake Desapareceu (Bunny Lake Is Missing), obra dirigida por Otto Preminger, que entrou recentemente no catálogo da HBO Max.

Na trama acompanhamos a jovem Ann (Carol Lynley), que está de mudança para a Inglaterra, acompanhada do irmão Steven (Keir Dullea), um jornalista que está a trabalho no Reino Unido. Tudo parece mais ou menos dentro da rotina: malas entregues, novo apartamento sendo aos poucos habitado, adaptação ocorrendo. Bom, isso até o momento em que Ann vai até a pré-escola local para buscar Bunny, a filha de apenas quatro anos - é o seu primeiro dia no educandário - para, depois de alguns instantes de desespero, perceber que a pequena desapareceu sem deixar rastro. A professora que deveria saber de sua guarda está no dentista. A tia da cozinha não sabe de nada. As mães de outros alunos não se recordam bem da novata. No refeitório ninguém parece ter notado a sua presença. Pior do que isso, depois da polícia ser chamada, parece haver algo muito estranho naquele caso: Bunny realmente existe? Ou é fruto da imaginação de Ann?

 


Hábil na construção da tensão, Preminger - que aqui adapta um popular romance lançado nos anos 50 -, parece disposto a desviar a nossa atenção o tempo todo, adicionando camadas de incerteza à trama. Por exemplo, logo que Ann chega ao novo apartamento, ela é inquirida pelo excêntrico Horatio Wilson (Noel Coward), o senhorio do local - um poeta, dramaturgo e apresentador de rádio aposentado, de modos estranhos que, não bastasse toda a esquisitice do comportamento, ainda assediará a protagonista mais adiante. Outra distração são as máscaras africanas, que poderiam sugerir pistas falsas, ainda mais quando integradas ao cenário em que o mesmo Wilson se encontra. Outros brinquedos - como os da loja de bonecas -, objetos perturbadores, como o rádio da extravagante senhora Ford (Martita Hunt), uma residente da escola que parece cheia de segredos, pessoas que aparecem inesperadamente e outros elementos de significados ambíguos reforçam a ideia de drama psicológico entre o real e o imaginário, o concreto e o abstrato.

[SPOILERS A PARTIR DAQUI] Claro que o espectador mais atento talvez consiga solucionar os enigmas mais cedo - e as pistas para essa conclusão são ao mesmo tempo divertidas e macabras, como no caso da primeira sequência do filme, em que Steven simplesmente recolhe um coelhinho de pelúcia do chão (um bunny), levando-o junto antes de ir ao encontro dos homens da mudança. O mesmo valendo para a sombra eventualmente ampliada do sujeito, nas cenas internas mais claustrofóbicas. Ou mesmo nas discussões com o detetive Newhouse (Laurence Olivier) que se desenrolam entre provocações, ambiguidades e frases de duplo sentido. Conspirações, traumas de infância, solidão e outros temas são salpicados aqui e ali, num thriller de desfecho eletrizante, em que Ann precisa enganar o próprio irmão, que encarna uma versão psicologicamente tão desequilibrada quanto o vilão de O Mensageiro do Diabo (1955). Preminger já tinha uma carreira de sucesso quando filmou Bunny Lake - Laura (1944), Passos na Noite (1951) e Anatomia de Um Crime (1959) são só alguns a terem inscrito seu nome na história. E, vá lá, talvez esta tenha sido sua última grande obra.

 

Pitaquinho Musical - Genesis Owusu (REDSTAR WU & THE WORLDWIDE SCOURGE)

Vamos combinar que, se você não está com raiva em 2026, você meio que está vivendo errado. Massacres na Palestina, preconceitos de toda a ordem, imperialismo pós-capitalista e multimilionários decidindo nosso futuro em um contexto de tecnologia desenfreada, avanço da extrema direita e degradação ambiental. É meio difícil ficar alheio a tudo isso e, talvez uma boa forma de canalizar essa revolta, seja ouvindo música - especialmente aquela capaz de traduzir com maestria esse contexto pós-apocalíptico de nossa existência. E esse é justamente o caso de Genesis Owusu, artista ganês-australiano que, com REDSTAR WU & THE WORLDWIDE SCOURGE, entrega o seu melhor trabalho. Mantendo a característica mistura de pós punk, soul de tintas psicodélicas e rap experimental, o cantor reforça o caráter político não apenas dos versos, mas das melodias enérgicas, especialmente após o existencialista e alegórico (e ótimo!) trabalho anterior, Struggler.

 


Peça central do disco, LIFE KEEPS GOING parece condensar com excelência a ideia que faz colidir o colapso iminente da sociedade, com a necessidade que temos de seguir adiante em meio ao caos. Com letra que se alterna entre o amargo e o esperançoso, a canção preserva um estado de tensão que, aparentemente, nunca chega a uma explosão. Não há catarse, como se certa letargia também fosse uma espécie de curiosa forma de resistência em um cenário de resignação. Às vezes mais literal (DEATH CULT ZOMBIE), em outras mais metafórico (MOST NORMAL AMERICAN VOTER), o trabalho alterna momentos mais acelerados, diretos, com outros mais contemplativos, de abraço ao senso de comunidade, de coletividade. "Viver na década de 2020 tem sido uma experiência estranha", comentou Owusu no material de divulgação. Se a turbulência interior pode ser matéria-prima para a arte, o fato é que temos alguém capaz de resumir esse sentimento com maestria.

Nota: 8,5 

terça-feira, 9 de junho de 2026

Novidades em Streaming - Risa e o Telefone do Vento (Risa y la Cabina del Viento)

De: Juan Cabral. Com Elena Romero, Julienta Cazzuchelli, Diego Peretti e Joaquín Furriel. Drama / Fantasia, Argentina, 2025, 97 minutos.

Da negação à aceitação, o luto costuma ser encarado de formas distintas por cada pessoa. Tristeza, frustração, revolta, ressentimento - em geral os sentimentos variam ainda que, em grande parte dos casos, a saudade permaneça. A lembrança. E no caso de Risa (Elena Romero), a protagonista do tocante Risa e o Telefone do Vento (Risa y la Cabina del Viento), que estreou na última semana na Netflix, essa memória do pai morto em um incêndio de grandes proporções, se torna ainda mais difusa, já que ela nunca chegou a conhecer direito o sujeito. Vencedora do prêmio máximo do Festival Internacional de Mar Del Plata, a obra do diretor Juan Cabral é calorosa, emocionante e, eventualmente, fantasiosa. Especialmente depois do momento em que Risa descobre que uma cabine de telefone, tipo aquelas que os fenícios utilizavam, é a única "construção" que resistiu ao fogo.

Entre o místico, o enigmático e o sobrenatural, a cabine passar a funcionar como uma espécie de ponte entre os vivos, que ficaram na cidade após o incêndio que levaria deste plano 144 pessoas da região de Ushuaia, no Sul do País, e seus parentes mortos, com quem eles conversam ao telefone. Claro, que conversa é modo de dizer, já que este é um diálogo mais simbólico, num bate-papo que opera como forma de expiação da dor. Uma tentativa, como dito no começo, de superar o luto. De se reerguer, meio que literalmente, dos escombros - e não deixa de ser interessante perceber como as máquinas de lavar espalhadas pelo cenário, funcionam não apenas como uma evidência tardia da tragédia, mas também uma alegoria de uma limpeza (de alma) que nunca chega, para quem precisa seguir adiante. 

 


Para a pequena Risa, que mora com sua valente mãe Sara (Julieta Cazzuchelli), o telefone parece ser a oportunidade perfeita para conversar com Rodrigo (Joaquín Furriel), o falecido pai, que deve estar nesse além desconhecido. Mas como proceder? Em certa noite o telefone toca insistentemente - como num sonho confuso, abstrato, inexplicável. Quando atende o aparelho, Risa ouve as vozes do outro lado, que lhe alertam que, para conseguir conversar com seu pai, ela deverá cumprir uma série de missões no mundo dos vivos. O que permitirá às pessoas enlutadas juntar as forças necessárias para avançar. De ações simples como jogar xadrez com um professor aposentado da vizinhança, passando pelo alerta a uma família a respeito de um seguro disponível como herança em um banco da Patagônia, até chegar ao suporte uma cachorra abandonada, a simpática Chuleta, Risa se converte em uma espécie de Amelie Poulain do mundo dos mortos, andando de lá para cá na ideia de deixar a vida de quem ficou mais confortável perante a dor.

Acompanhando a pequena, seu babá com cara de poucos amigos, mas que é puro coração - seu nome é Esteban (Diego Peretti) -, contribui aqui e ali em sua jornada, sendo ranzinza e espirituoso, enquanto se esforça para que a menina lhe obedeça. Juntando-se à dupla há ainda um simpático hamster adotado - o que adiciona aquela pitada doce de filme para toda a família (ainda que envolva fantasmas com vozes fragmentadas e confusas). Aliás, tudo se torna mais caótico quando Risa finalmente escuta seu pai, sendo surpreendida por uma notícia que gera uma reviravolta interessante. Cheia de ambiguidades e boas reflexões sobre luto, perda, memória e dores, essa é uma produção de grande simplicidade, o que é reforçado pela fotografia dessaturada e fragmentada, pelo naturalismo gritante e pela trilha sonora quente, permeada pelas canções do grupo argentino Babasónicos. Aliás, Risa é o nome de uma música da banda - e parece haver todo um significado mais profundo de busca de conexão em sua letra (Na sala cheia de desconhecidos / Busquei o calor ao seu lado). É só um componente a mais.

Nota: 7,0 

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Cinema - O Bolo do Presidente (Mamlaket al-qasab)

De: Hasan Hadi. Com Baneen Ahmad Nayyef, Waheed Thabet Khreibat e Sajad Mohamad Qasem. Drama, Iraque / EUA / Qatar, 2025, 105 minutos.

No clássico do cinema iraniano Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), um menino empreende uma verdadeira via-sacra para conseguir entregar um caderno para um colega de sala de aula, o que fará com que ele seja salvo de uma carraspana de seu rígido professor. Parece uma premissa simplíssima - e é -, mas, em muitos casos, a filmografia do diretor Abbas Kiarostami (e de seus pares) tinha essa característica: a de partir de um microcosmo para um exame mais amplo do contexto social, político, cultural e religioso do País de origem. E, enquanto assistia ao O Bolo do Presidente (Mamlaket al-qasab), obra da ainda incipiente produção iraquiana e que está em cartaz nas salas de cinema do País, me peguei pensando nas semelhanças entre ambas as produções, com seu estilo naturalista, quase documental, em que situações, dores ou expectativas cotidianas e até domésticas, recebem contornos mais amplos.

Irã e Iraque já foram até rivais em uma dura e sangrenta guerra nos anos 80, mas aqui parecem se assemelhar nessa busca por certo minimalismo fílmico. Que centra a narrativa no olhar de uma criança que, frente às tragédias do mundo que lhe rondam, precisa cumprir uma pesada missão. No caso da pequena Lamia (Baneen Ahmad Nayyef), ela tem o azar de ser a sorteada para elaborar um bolo para a sua turma da escola, como parte das comemorações do aniversário do presidente Saddam Hussein. Talvez isso não fosse assim tão complicado em um outro contexto, mas o caso é que Lamia, que vive com a sua avó diabética Bibi (Waheed Thabet Khreibat), é extremamente pobre. O que tornará a obtenção de farinha, ovos, leite e fermento uma jornada difícil - ainda mais em País que sofre uma série de sanções dos Estados Unidos, decorrentes da Guerra do Golfo.

 


É a década de 90 e já na abertura do filme dirigido por Hasan Hadi fica claro o cenário de escassez vivido pelos iranianos, com a população enfileirada diante de um caminhão pipa, se acotovelando para obter um galão de água. Na escola, o severo professor de Lamia já deu a letra: se a pequena não cumprir com a sua meta, sofrerá duras sanções governamentais. Aliás, Lamia não está sozinha nessa barca já que o pequeno Saeed (Sajad Mohamad Qasem), colega da criança, também é escolhido - no caso, para levar as frutas para a mesma celebração. Desesperada diante da situação e sem muitas alternativas no horizonte, Bibi decide doar a neta para uma família em melhores condições. A respeito do bolo? Eles que lutem, é mais ou menos a resposta da idosa. Só que Lamia, amedrontada, não aceita a situação e foge. Para encontrar, no meio do caminho, justamente Saeed que, entre um trambique e outro ao lado do pai deficiente, tenta conseguir a grana para as frutas.

Como já dito, trata-se de uma obra pequena, que se equilibra entre instantes mais calorosos - fortalecidos pela amizade cheia de idas e vindas das crianças -, com outros de mais impacto, como no momento em que um adulto oferece ajuda à Lamia para que, mais adiante, percebamos as suas verdadeiras (e torpes intenções). De lá para cá pela cidade, a protagonista terá o apoio de um cômico motorista de táxi que, inclusive, prestará socorro à Bibi, no momento em que ela vai à polícia para pedir socorro depois do sumiço da neta, e passa mal. Praticando golpes e também sendo passados para trás, Lamia e Saeed precisam aprender a sobreviver nesse cenário pantanoso, barulhento e caótico em que, não bastassem as mazelas cotidianas e a sua própria miséria, ainda lidam com a violência de uma guerra em curso, com suas bombas explodindo, tiros ao longe, e soldados feridos. "Bibi lhe disse por que ela está braba comigo?", pergunta uma Lamia chorosa, quase na reta final da obra, sendo meio que impossível segurar as lágrimas. Não há muita brecha para a esperança, para além do apoio daqueles que estão próximos. É a lição que fica dessa pequena joia, que venceu a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes.

Nota: 8,5  

 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Novidades em Streaming - A História do Som (The History of Sound)

De: Oliver Hermanus. Com Paul Mescal, Josh O'Connor e Chris Cooper. Drama / Romance, EUA / Reino Unido / Itália, 2025, 128 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM ALGUNS SPOILERS] 

Vamos combinar que se o subgênero do "drama do gay triste" pode até não estar oficialmente formalizado, ainda que caminhe para isso. Até porque parece haver uma convenção meio incômoda de que narrativas queers necessitam, inevitavelmente, virem acompanhadas de sofrimento. De O Segredo de Brokeback Mountain (2005), passando pelo premiado Moonlight (2016) e, claro, por alternativos, como, Todos Nós Desconhecidos (2023), a impressão que se tem é a de que a experiência gay, especialmente a masculina - sempre carregada de uma tonelada a mais de preconceitos - parece ter de vir, invariavelmente, acompanhada de perda, de luto, de dor. Ou mesmo da impossibilidade da felicidade amorosa - como uma espécie de punição meio que natural, do ponto de vista conservador, para aquilo que é claramente desviante. Que foge da lógica ou das convenções. Meio que como a jovem depravada que é a primeira a morrer nos filmes de terror, guardadas todas as proporções.

E, é preciso que se diga que não há nenhum problema nesse estilo, que já nos brindou com grandes produções - como as citadas acima. Só que, às vezes, a impressão que se tem é que a mão pesa um tanto na abordagem desse sofrimento quase infinito, desesperançoso. O que piora quando a obra passa a impressão de ter potencial para explorar outras subtramas para além do "veja bem como esse homem sofre em silêncio e dentro do armário em tempos tão complicados" - e esse parece ser exatamente o caso de A História do Som (The History of Sound), do diretor Oliver Hermanus. Exibido em Cannes e estrelado por Paul Mescal e Josh O'Connor, esse é aquele tipo de filme elegante, de grande apuro técnico - da fotografia ao desenho de produção -, mas que quase se torna cansativo ao nos apresentar um romance secreto entre dois estudantes de um conservatório do começo do século passado que termina, claro, de forma trágica.

 


Quando a obra começa começa, uma narração em off nos apresenta uma ideia interessante e que meio que simplesmente desaparece alguns minutos depois: a de que algumas pessoas possuem uma habilidade única de perceber a música para além do som. Um dom. Como se o barulho - seja da natureza ou dos instrumentos - tivesse cor, sabor. E, sim, a gente sabe que isso pode acontecer, de associar uma canção a algo para além do abstrato e eu considerei isso tão bonito e essa parece ser justamente a capacidade do protagonista Lionel Worthing (Mescal), que eu achei um pecado isso ser ignorado, mais adiante. Claro, a música é justamente o que conectará Lionel - que tinha no falecido pai - com sua viola na varanda de sua pequena propriedade do interior do Kentucky uma referência -, à David White (O'Connor), que ele conhece em um pub de New England (ele toca justamente uma canção folclórica que era tocada por seu pai na juventude, num instante nostálgico, caloroso e bonito).

Após iniciaram um relacionamento às escondidas, David é convocado para a primeira guerra (o ano é 1917). Quando retorna do conflito, dois anos depois, a dupla se reaproxima para a execução de um inovador e simpático projeto universitário, que está no centro da melhor parte da narrativa (e que tenho a impressão que, por si só, renderia um filme à parte), e que envolve a captura de músicas folclóricas em cilindros de cera pela América rural. O que seriam, na realidade, os primórdios da gravação de sons, ainda de forma rudimentar. E, bom, se o filme poderia centrar mais a coisa na história do som, como sugere seu título original, não podemos esquecer que essa é a obra de gay sofrendo. E, por mais que a música tradicional, antiga, passada de geração a geração, se espalhe de forma fluída por cada fragmento da produção - de forma vagarosa, melancólica -, lá pelas tantas a dupla se separa, quando Lionel vai tentar a vida em Roma, cantando em um prestigioso coral. E o belo trecho em que aparece a antiga The Unquiet Grave - sobre um homem em luto que fica ao lado do caixão da esposa morta, não deixando-a descansar -, é a deixa, de forma alegórica, para os acontecimentos que virão mais adiante. Com o luto infinito percorrendo décadas.

Nota: 6,5 

 

Novidades em Streaming - Manas

De: Mariana Brennand. Com Jamilli Corrêa, Rômulo Braga, Dira Paes e Fátima Macedo. Drama, Brasil, 2024, 101 minutos.

"Não existe felicidade fora do projeto de Deus. Do projeto de Deus chamado família". Vamos combinar que a cena de uma pastora da igreja evangélica discursando em favor da família - enquanto que meio que todo o mundo sabe que grande parte da violência sofrida por crianças e adolescente da região de Marajó, no Pará, cenário do filme Manas, emerge do ambiente doméstico -, é só uma forma de evidenciar a hipocrisia não apenas daquelas pessoas, mas da nossa sociedade. "Tem coisa que não adianta tu querer mexer", alerta uma desalentada Danielle (Fátima Macedo), que está grávida de mais um filho do marido Marcílio (Rômulo Braga), enquanto trava uma luta interior para acobertar os abusos praticados pelo homem contra a sua filha Marcielli (Jamilli Corrêa), ao mesmo tempo em que parece sonhar, com o olhar duro, vulnerável e melancólico, com o fim do ciclo de violência.

Ao cabo, a obra da diretora Marianna Brennand nunca é fácil. E talvez por ser tão evidente - ainda que, paradoxalmente, sutil - em sua abordagem, o desconforto se amplie. O histórico de violência naquela localidade (aliás, no Brasil como um todo) não é novidade - inclusive com a pauta sendo apropriada politicamente pelas piores pessoas do planeta, em sua ignorância gritante, sempre acreditando que Deus pode ser a cura de tudo. Marcílio, Danielle e as filhas alternam os dias em um templo improvisado junto às águas, em que cantos evangélicos meio constrangedores ecoam, ao mesmo tempo em que sobrevivem colhendo açaí e camarão, que será comercializado, especialmente na balsa - local em que os moradores sabem que as violências sexuais se ampliam, com a presença de forasteiros, homens adultos, oferecendo dinheiro ou comida para as adolescentes. 

 


Quando o filme começa, meio que a ficha demora para cair para o espectador. Se a balsa parece suspeita, o ambiente doméstico soa parcialmente seguro - especialmente pela presença ensolarada de Marcílio, que alterna algum tipo de afeto rústico, com gestos disciplinadores de quem ensina desde cedo valores como trabalho. Mas é aí que reside o pulo do gato, já que a confiança no adulto também tende a burlar a identificação dos limites por parte da ponta mais vulnerável da equação. E, de fato, a coisa começa a ficar estranha quando a rede de Marcielle estraga e o pai a convida para deitar em sua cama. O que poderia ser apenas a sugestão de algo carinhoso, se torna mais evidentemente desprezível quando o sujeito convida a filha para uma caçada no mato. A primeira caçada - num simbolismo torpe e repulsivo do ato que ele está prestes a praticar. Ciente do que acontece, a jovem tenta forjar, em vão, uma carteira de identidade falsa no posto local, o que poderia lhe possibilitar uma espécie de fuga, assim como fez a sua irmã mais velha Cláudia que, aos 19 anos, foi embora dali para nunca mais voltar.

Naturalista e em estilo documental - aliás, Mariana Brennand é documentarista -, a obra, que esteve na nossa pré-lista do Oscar desse ano e recebeu dezenas de prêmios internacionais, tem uma fluidez própria, não tendo pressa em expor suas ideias. Tecnicamente bem executada, a produção é daquelas que utiliza os sons da natureza - o zumbido dos bichos repetitivo e letárgico, ou mesmo a ondulação constante das águas -, como forma de evidenciar ainda mais o caos interior e a moral abjeta das ocorrências locais. Um tipo de entorpecimento visto em outros filmes como A Febre (2019) ou mesmo nas obras do diretor Apichatpong Weerasethakul - guardadas as devidas proporções temáticas, claro. "Eu fui caçar sozinha com o pai", praticamente grita a protagonista à Jaci (Ingrid Trigueiri) uma exasperada comerciante local, que a lembra que isso não acontece só com ela. "Você tem que tentar a vida na cidade", a alerta. A presença da delegada Aretha (Dira Paes), uma funcionária do Estado que surge como figura de proteção, parece acender em Marcielle uma faísca que já estava pronta para queimar. Como se interrompe um ciclo de violência que se perpetua de geração em geração? Talvez a medida tenha de ser mais drástica. Alegórica ou não. É o recado que fica dessa experiência vigorosa e cheia de simbolismos, que vale ser conferida.

Nota: 9,0