terça-feira, 7 de abril de 2026

Novidades em Streaming - Julie Permanece em Silêncio (Julie Zwijgt)

De: Leonardo Van Dijl. Com Tessa Van den Broeck, Pierre Gervais e Ruth Becquart. Drama, Bélgica / França, 2024, 100 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM SPOILERS] 

Enviado da Bélgica para a edição do Oscar do ano passado, Julie Permanece em Silêncio (Julie Zwijgt) - que está disponível na Reserva Imovision - é aquele tipo de filme para ser absorvido aos poucos. Sem pressa. Por mais atual e impactante que seja seu tema. Ao cabo, essa é aquela obra que se desenvolve pelas frestas, de forma muito sutil - cabendo ao espectador ir montando o quebra-cabeças. Que também lhe permitirá compreender os motivos de a protagonista optar por manter o silêncio. Ou a falar o suficiente, quando sentir que é necessário. Aliás, em uma das sequências de maior impacto da obra do diretor Leonardo Van Dijl, Julie (Tessa Van den Broeck) faz uma ligação para a diretora da escola de tênis em que ela treina para agradecer pelas medidas tomadas pela instituição. E para se desculpar por não ter falado. Julie está aos prantos, em um dos raros momentos em que desaba. A diretora diz que entende. E que essas coisas são assim mesmo.

Afinal de contas, verbalizar violências - físicas, sexuais, psicológicas - não deve ser nada fácil pra qualquer pessoa. Em qualquer situação. Que dirá para uma jovem e promissora tenista de apenas 16 anos, com uma vida pela frente. Dependendo de uma série de decisões de adultos, da escola em que treina ou mesmo do Estado para que ela tenha um futuro no esporte que ama. A gente pode até achar estranha a abertura do filme - com Julie dando suas raquetadas no espaço vazio, sem nenhuma bolinha ou adversário visível em quadra. A sensação que invade sua alma deve ser mais ou menos essa. A do vazio diante do tudo - e da busca por preencher seus dias e suas horas com o tênis. E talvez não seja por acaso que haja tantas sequências em que Julie e suas companheiras treinam repetidamente, interminavelmente. Há algo de persistência nisso. Uma alegoria de busca por superação, em um contexto em que já se arranca derrotado.

 


Na escola em que Julie treina, seu instrutor, Jeremy (Laurent Caron), é afastado dos treinamentos após uma antiga aluna, de nome Alina, tirar a própria vida. É o contexto da pandemia e as pressões do esporte podem ter batido? Pode ser. Mas fica a impressão de que talvez não seja apenas isso. Julie segue conversando com Jeremy pelo telefone, à noite, ao mesmo tempo em que um novo técnico, o carismático Backie (Pierre Gervais) aparece. Jeremy pede para que Julie tenha cuidado com ele, já que não confia em seus métodos. Já a protagonista parece mais desconfiada de seu antigo professor. Com a sensação piorando após um encontro um tanto estranho entre a dupla em uma cafeteria. Jeremy quer que Julie deponha em seu favor, já que há indícios de que o suicídio de Alina possa ter algo a ver com ele. Mas é tudo nebuloso, incerto. A fluidez e o curso dos fatos é vagarosa. E sempre que a adolescente é instigada ela adota um comportamento taciturno, introspectivo.

O caso é que Julie está sendo observada pela Federação Belga de Tênis. Podendo ser uma próxima atleta de elite - que, não por acaso, serve de referência para as demais. De uma forma quase incômoda (como fica claro em um instante em que seu novo treinador lhe privilegia). Qualquer fala ou acusação meio torta naquele ambiente ainda um tanto misógino e de proteção dos homens poderosos, pode significar sua ruína. Há todo um cálculo a ser feito que Julie parece, do alto de sua juventude e maturidade, fazer com destreza. Com inteligência. Em seu entorno, a família e os amigos a circundam tentando entender um pouco mais. Buscando qualquer informação que possa ser mais evidente para uma investigação com mais rigor. Mas esse é um filme que não precisa esfregar na cara do público as suas intenções. Não precisa ser um panfleto maniqueísta de luta, para que se saiba sobre o que ele versa. "Eu parei quando você pediu, né Julie? Eu parei!", alega um desesperado Jeremy depois que a casa começa a cair. Não é necessário ser muito esperto pra saber do que ele fala. Desconfortável é pouco.

Nota: 8,5 

 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Pitaquinho Musical - Robyn (Sexistential)

A capa absolutamente safadinha, movimentada e divertida de Sexistential já dá o tom: Robyn está de volta à pista e quer curtir. Quer a dopamina lá no alto, como qualquer mulher 40+ livre, independente e que na vida já passou por bastante coisa. E esse sentimento geral não está apenas nas batidas hipnóticas, transcendentais, mas também nas letras cheias de ambiguidades sensuais, que dialogam perfeitamente com o espírito contemporâneo de hiperestimulação que vivemos. Não é que ela reinventa a roda, mas não deixa de ser interessante perceber como ela dialoga com uma versão dela mesma do passado e com outras artistas que beberam de sua fonte - com seus mais 30 anos ela influenciou muita gente (de Britney Spears à Robyn, passando por Billie Eilish e Charlie XCX) -, mas sempre preservando a personalidade, com uma capacidade de olhar para o passado, sem ignorar o futuro. Sua música, ao cabo, consegue ser nostálgica e contemporânea, como uma nave espacial pousando nos anos 90.

 


"Foi como se tivesse explorado o espaço sideral e agora retornado a mim mesma", explicou a artista - salientando como a introspecção e a calmaria vistas no ótimo Honey (nosso oitavo colocado na lista de melhores internacionais de 2018) agora dão espaço a uma certa urgência, como uma chama excitante que acende uma coisa mais física, mais corpórea. Não por acaso, singles estimulantes como Dopamine funcionam quase como uma chave conceitual do registro, reforçando a ideia do amor e do desejo como um tipo de química que gera dependência (Eu sei que é só dopamina / Mas parece tão real pra mim). Claro que mesmo em um contexto de autoconfiança ainda há espaço para a vulnerabilidade (Sucker for Love), ambiguidades sexuais (Talk to Me) e as contradições entre desejo e maternidade (na faixa título). É um álbum de apenas 29 minutos e que, de forma impressionante, só cresce a cada nova audição. O que consolida a sueca como uma das grandes artistas pop dos tempos atuais.

Nota: 9,0 

Cinema - O Olhar Misterioso do Flamingo (La Misteriosa Mirada del Flamingo)

De: Diego Céspedes. Com Tamara Cortés, Matías Catalán e Paula Dinamarca. Drama, Chile / Espanha / França / Bélgica / Alemanha, 2025, 107 minutos.

Quem acompanha o cinema brasileiro de perto, certamente não deixou passar batido o ainda recente Os Primeiros Soldados (2021), obra tão sutil quanto comovente, que retorna ao início dos anos 80 para uma narrativa a respeito dos primeiros casos de contaminação de AIDS no Brasil - doença que, em uma época de pouca informação, chegou a ser apelidada de "peste gay", o que reforçaria o estigma em relação ao público LGBTQIA+. Em alguma medida, o tema central do filme dirigido por Rodrigo Oliveira, retorna em O Olhar Misterioso do Flamingo (La Misteriosa Mirada del Flamingo), obra enviada pelo Chile ao Oscar desse ano (não chegou a estar entre as finalistas), e que está em cartaz nas salas de cinema do País. Na trama, uma cidade mineradora no norte do País é assolada por uma doença mortal e que é transmitida pelo olhar, quando duas pessoas se apaixonam.

Parece simples até demais e uma alegoria quase óbvia quando pensamos no ano de 1982, em um espaço ermo, isolado e essencialmente arenoso. É nesse cenário que os trabalhadores - homens brutos, suados e solitários -, encontram conforto nos braços de um coletivo queer que habita o único bordel da região. Tudo corre mais ou menos bem até o dia em que a peste se espalha - e com ela o terror. Não por acaso, em uma das primeiras sequências, a pequena Lídia (Tamara Cortés) é acossada à beira de um lago por um grupo nada amistoso de adolescentes. Quando a notícia chega à Flamenco (Matías Catalán), mãe de Lídia, ela e suas colegas trans resolvem dar o troco: emboscam os meninos no mesmo local, obrigando o principal agressor a abrir bem os olhos. Em uma mirada profunda, Flamenco verbaliza em sussurro quase mortal: "peste". É como se a transmissão tivesse ocorrido. O destino fosse selado. Sem espaço para negociação.

 


O caso é que Flamenco padece há semanas de uma série de sintomas que fazem com que ela emagreça, em meio a tosses com sangue e crises de diarreia. Tomada pela peste, ela gera revolta de seu antigo amante, Yovani (Pedro Muñoz), que, desiludido, tenta assassiná-la, o que gera uma confusão na boate, justamente em uma noite que se pretende festiva. E, por mais sombrio que cada instante possa parecer - com armas sendo empunhadas e caras de poucos amigos -, o filme é conduzido pelo estreante Diego Céspedes com uma leveza quase onírica, que eleva à produção ao limite do realismo fantástico (o que é reforçado pela inebriante sequência na floresta, em que Yovani se apaixona perdidamente por Flamenco, após cruzar com seu olhar penetrante). E mesmo tomada por uma essência eventualmente calorosa, a obra nunca deixa de apontar o absurdo do preconceito que, verdade seja dita, podia ser bem maior há quase cinquenta anos, mas que ainda segue a galope em um mundo reacionário.

Não por acaso, quando Yovani padece da doença ainda desconhecida, a pequena Lídia questiona a mãe do rapaz, que vem da cidade para recolher o corpo do filho: "você chegou a ver algo de estranho nos olhos dele?". Ao que a idosa responde: "você é muito jovem para acreditar nessas histórias de sujeitos covardes que se escondem atrás da doença". Ao cabo, a tal peste podia ser até uma novidade, mas jamais transmitida apenas pelo olhar. A paralisia pode ter mais a ver com o amor interrompido do que por qualquer outra coisa - e o sexo tem papel central nisso. Caótico, naturalista, divertido, pouco convencional, folclórico e afetuoso com suas personagens - em especialmente a dona do bordel, a Mamãe Boa (Paula Dinamarca) -, esse é aquele tipo de projeto imprevisível. Quando parece que tudo vai descambar pra violência inevitável, somos surpreendidos por instantes agridoces. O tema é sério, mas tratado com delicadeza. E leveza. O que torna a experiência irresistível.

Nota: 8,0

 

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Novidades em Streaming - Uma Viagem Para Recordar (De Terugreis)

De: Jelle de Jonge. Com Leny Breederveld e Martin van Waardenberg. Comédia / Drama / Romance, Holanda / Bélgica, 2024, 100 minutos.

Vamos combinar que os filmes sobre idosos perdendo a memória - seja por Alzheimer, demência ou qualquer outra doença degenerativa - e tendo de lidar com a devastação emocional causada por situações do tipo, já se tornou quase um subgênero do cinema. De obras densas e mais sérias como Meu Pai (2020) ou Vortex (2021) à produções mais leves e divertidas, como no caso de Ella e John (2017) ou Viver Duas Vezes (2019) não foram poucos os filmes a abordarem o tema - conectando-o, em muitos casos, a assuntos como memória, finitude, perda de identidade e mesmo diferenças geracionais. Em alguma medida, tudo isso se encontra no adocicado Uma Viagem Para Recordar (De Terugreis), filme holandês que foi o enviado ao Oscar na edição do ano passado - não chegou entre os finalistas - e que agora chega para aluguel em plataformas como a Amazon Prime e a Apple TV.

Bom, como um filme de comédia, não é demais dizer que essa é uma obra com um bom senso cômico, que emerge em muitas ocasiões do fato de o mundo atual parecer meio complicado demais para os idosos. Em tempos em que tudo soa tão urgente, tão veloz, tão tecnológico, parece um contrasenso só querer um pouco de paz, diante da televisão. O que talvez explique o comportamento excessivamente ranzinza, aborrecido de Jaap (Martin van Waardenberg), que parece uma versão mais irritada e caricata de Larry David, que não deseja mais cantarolar no coral da Igreja. Com o seu mau humor piorando quando ele percebe que a esposa Maartje (Leny Breederveld) está perdendo a memória. Esquecendo das coisas. Se perdendo em lugares. O casamento desgastado já dura quase meio século, mas ainda há espaço para o amor. Será que há? 

 


As diferenças de personalidade de ambos - Maartje ainda parece disposta a viver experiências, curtir a vida, até mesmo namorar ou transar - fica ainda mais evidente quando a idosa enfia na cabeça que quer visitar um amigo que reside na Espanha e que ela não vê há décadas. Para Jaap sair de casa para tal empreitada parece ser mais ou menos como a pior coisa já inventada para se fazer no planeta, mas após uma situação em que a esposa se perde pela cidade, ele aceita entrar no carro. E rodar. E, claro, a partir dali a experiência ganha contornos de road movie com trilha sonora calorosa, lembranças afetuosas de lugares, objetos e pessoas do passado e um pouco de caos, claro, afinal a memória de Maartje vai falhar, nos dando aquele choque de realidade. Fora a surra que a dupla levará de qualquer aparato mais tecnológico que cruze seu caminho, como no momento em que a ambos sofrem pra abrir a porta do hotel.

Ok, esse é aquele filme que não doi, mas ainda parece que falta um pouquinho a mais para que a gente se conecte ou se comova verdadeiramente. Com a coisa se tornando um pouco mais do que uma coleção de situações meio aleatórias que se unem em uma história de um casal de idosos em viagem. Por mais que a sequência em que Jaap finge lutar com as vozes da cabeça de Maartje seja um esforço carismático, ali pelas tantas tudo vai se repetindo e meio que cansando. Ainda que a gente fique, de fato, reflexivo ao pensar no etarismo como um problema dos nossos tempos, especialmente em instantes que mostram academias apinhadas de jovens de corpos gostosos (o que se repete em outdoors pela cidade), ao passo em que a dupla quase bate um carro alugado por ele ser automático. É agridoce, sem pressa e nos faz lembrar da importâncias dos vínculos afetivos, das conexões. E era meio que só isso.

Nota: 6,5 

 

terça-feira, 31 de março de 2026

Novidades em Streaming - Justiça Artificial (Mercy)

De Timur Bekmambetov. Com Chris Pratt, Rebecca Ferguson e Chris Sullivan. Suspense / Ficção científica, EUA, 2025, 100 minutos.

Quando vi a premissa de Justiça Artificial (Mercy), que tá na Apple TV, admito que fiquei animado. Afinal, um filme que discute os limites do uso da inteligência artificial, em uma sociedade pós-moderna essencialmente punitivista, parecia uma boa ideia. Ou, no mínimo, uma boa oportunidade de discussões ou reflexões um pouco mais profundas a respeito destes temas. Bom, santa ingenuidade - e talvez se eu tivesse ligado o nome do diretor à pessoa, talvez nem tivesse dado play. Afinal de contas, Timur Bekmambetov foi um dos produtores da tenebrosa releitura de A Guerra dos Mundos (2025), que foi meio que onipresente em qualquer lista de piores de 2025. Só que eu gosto de ficção científica, ainda mais se tiver uma pegada mais existencialista, então porque não um projeto meio Minority Report: A Nova Lei (2002) meio Jogos Mortais (2004) pra dar aquela agitada, né?

Só que não. Na trama estamos em um futuro mais ou menos próximo - um punhadinho e anos na frente - e com o aumento da criminalidade em uma Los Angeles turbulenta e à beira do colapso social, qual poderia ser o problema de utilizar o ChatGPT para decidir se este ou aquele sujeito é culpado de algo ilícito? É nesse cenário escabroso que o delegado de polícia local Chris Raven (Chris Pratt) surge, mas não como inquisidor - algo que ele até já foi, já que auxiliou na construção da engenhoca que funciona como juiz digital para crimes violentos - e, sim, como alguém que está sendo acusado. Aliás, acusado de assassinar a própria esposa, Nicole (Anabelle Wallis), em circunstâncias estranhas. Violento e viciado em bebida alcoólica, esse sujeito detestável - que não temos nenhum motivo em especial para torcer -, não lembra de nada que ocorreu durante a manhã. E tem apenas 90 minutos para tentar provar sua inocência. 

 


Preso a uma espécie de cadeira elétrica, o homem tem acesso a uma série de documentos - fotos, vídeos, redes sociais dos envolvidos, imagens de câmeras corporais ou de segurança -, que podem ajudar a montar o quebra cabeças que solucione o caso. Enquanto um robô com o rosto e a voz de Rebecca Ferguson (seu nome é Maddox e ela integra o programa Mercy, que já julgou e condenou 18 réus, economizando recursos e agilizando os processos) lhe dá as instruções, lhe conduzindo de lá para cá e de cá para lá em um emaranhado de telas, pessoas e sons (e é quase um desafio não ficar tonto em meio a tudo aquilo, que só tem sentido em um filme mal feito, que tenta compensar as falhas com um aparato técnico ostensivo). Entre os contatos de Chris está sua filha Brit (Kylie Rogers), que mantém um misterioso segundo perfil no Instagram, além de outras figuras do entorno, como colegas policiais e companheiros de trabalho de Nicole, que podem ser a chave para a solução do caso.

Só que para além do dilema ético que poderia rondar esse tipo de decisão - capaz de deixar a galera do "bandido bom é bandido morto" mais ou menos excitada -, e que poderia ser melhor explorado na obra, tudo o que temos é um sujeito péssimo com a sua família (talvez ele não tenha matado a própria esposa, mas a impressão que dá é que ele tá sempre pronto a agredi-la física ou psicologicamente), essencialmente corrupto, já que integra um sistema de justiça falho interessado apenas em agradar parte da opinião pública, e que não tem nenhum tipo de personalidade mais complexa. Aliás, essa é mais uma produção que talvez fizesse sentido nos anos 90, afinal, quem, em pleno ano de 2026, ainda acha que dá pra torcer por um policial em um filme? E mais, um policial dos Estados Unidos? Nas ruas dessa Los Angeles turbulenta e dividida em guetos, fica ainda mais claro o racismo abjeto, com os habitantes da cidade sendo retratados como uma massa uniforme, latina (ou preta), pobre e sempre violenta. Mas quem vai salvar o dia e desmantelar o sistema? O policial misógino, claro. O cidadão de bem que vai se redimir. E que na próxima não vai socar a parede, quando ficar brabinho. Vai vendo.

Nota: 2,0 

 

Pitaquinho Musical - Buck Meek (The Mirror)

Vamos combinar que, quem gosta do Big Thief, dificilmente ficará alheio ao trabalho solo de Buck Meek, que é o guitarrista e vocal de apoio do grupo. Afinal, tem uma crueza ali, uma sujeirinha no bom sentido e um estilo meio de cafofo indie - por mais movimentada, calorosa ou expansiva que seja a música. E o expediente se repete em The Mirror, terceiro registro solo do artista - e bastam os primeiros acordes da deliciosa, teatral e resplandecente Gasoline, que abre o registro, para que sejamos catapultados àquele universo empoeirado, quase místico, em que falar de amor nunca é óbvio. Há uma ansiedade boa ali que se espalha pela melodia magnética, daquelas que ficam na cabeça já na primeira audição, se estendendo para a letra romântica, mas, metafísica sobre quantuns e fótons e feixes de luz e a respeito de quem vai verbalizar o amor primeiro (Será eu ou será ela? / A dizer eu te amo primeiro?).

 


Em geral parece haver uma evolução nessa mescla de folk, lo-fi e rock alternativo com uma pitada de psicodelia em relação ao anterior Haunted Mountain (2023) que, diga-se, já era um bom disco, ainda que soasse mais intimista ou, vá lá, menos comercial. Há, em geral, um maior preenchimento sonoro agora, um instrumental mais expressivo, mais estruturado, o que faz com que canções como Can I Mend It? pareçam saídas de algum disco do The Decemberists fase The King Is Dead (2011). Percepção que talvez também tenha a ver com a participação de seus companheiros de banda, Adrianne Lenker e o irmão Dylan, em vocais de apoio, o que dá movimento a coisa toda. Há, e importante: Meek é um frasista e tanto, apostando na ironia como âncora pra essa ideia de espelho do título, de como nos vemos por meio do olhar do outro, o que adiciona camadas a músicas supostamente simples (Por muitos anos vivi com medo dos valentões e dos críticos / Agora sei o que eles odeiam). É redondinho.

Nota: 8,5 

segunda-feira, 30 de março de 2026

Novidades em Streaming - Dreams (Drømmer)

De: Dag Johan Haugerud. Com Ella Øverbye, Selome Emnetu, Ane Dahl Torp e Anne Marit Jacobsen. Drama / Romance, Noruega, 2024, 111 minutos.

Creio que, poucas vezes na história do cinema, me deparei com a descrição de uma paixão avassaladora de forma tão poética, inteligente e vigorosa como na primeira meia hora do surpreendente e tocante Dreams (Drømmer) - o vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim do ano passado, e que foi incorporado, recentemente, ao catálogo da sempre ótima plataforma Reserva Imovision. Que atire a primeira pedra quem nunca se apaixonou por seu professor ou professora, e esse é exatamente o caso de Johanne (Ella Øverbye), uma estudante de ensino médio que tem uma atração instantânea e quase obsessiva por sua charmosa professora de francês Johanna (Selome Emnetu) - sim, com direito a peculiaridade de o nome de ambas ser diferenciado por apenas uma letra. Quando Johanna aparece pela primeira vez, com seu cacheado sedoso e um sorriso cheio de afeto, que parece ainda mais amplo em uma contraluz que a inunda pelo sol, o efeito parece meio que imediato sobre Johanne. E talvez seja.

Só que, em pleno processo de amadurecimento, entre não compreender bem aquilo que agonia o seu peito - um sentimento que parece ao mesmo tempo inconcebível e maravilhoso - a jovem também busca outros tipos de conexões, especialmente com o universo das artes, da dança e da literatura, que parecem aflorar a sua sensibilidade. E a sua percepção para o significado daquilo - para além do debate ético e quase meio lógico que poderia rondar uma adolescente de 15 ou 16 anos anos desejando de uma forma intensa a sua professora. Aliás, é justamente quando ela torce o pé e lê um livro - uma novela bastante romântica estilo Mulherzinhas -, que esse desabrochar inicia, ao menos em teoria. E ver Johanne em uma longa divagação em off nunca entediante, descrevendo as pequenas interações com a professora - seja em sala de aula, no pátio, nos corredores ou em outras situações - sempre em um estilo sublime, de devaneio quase transcendental, é comovente.

 


E, honestamente, é difícil não se conectar. Ou pensar em outras obras de arte - de canções populares como Apenas Mais Uma de Amor, do Lulu Santos (Eu gosto tanto de você / Que até prefiro esconder / Deixa assim ficar subentendido), a filmes como o clássico cult Encontros e Desencontros (2003), de Sofia Coppola -, que contribuam na definição do que é uma paixão platônica. Mas o caso é que é complicado para Johanne, por mais evoluídas que as pessoas ao seu redor sejam - inclusive a mãe progressista Kristin (Ane Dahl Torp), ou avó escritora Karin (Anne Marit Jacobsen) - verbalizar o seu amor. Mesmo para as suas amigas que, muitas vezes, a pegam olhando meio que para o nada sem muita explicação. Ao cabo, a fantasia se converte em um diário/livro com descrições bastante íntimas e cheias de vulnerabilidade que unem a narradora e seu objeto de desejo. Algo sexy mas secreto, e que ela morre de medo de contar para Johanna - por receio de que esta possa rir, "como riem os adultos quando uma criança fala algo fofo".

E vocês que leem essa resenha talvez achem curioso como um filme meio aleatório - que, na realidade, integra uma trilogia da diretora Dag Johan Haugerud (é a terceira parte depois de Sex e Love) - e que trata sobre o mais universal dos temas, possa ter tanto impacto. Mas é possível citar exemplos, como no instante em que Johanne descreve a forma elegante e cheia de personalidade com que a professora se veste - e de como a lã de suas blusas de tricô se conecta de forma bonita à sua pele -, ou mesmo em outro momento em que a protagonista admite que a realidade é sempre pior do que aquilo que idealizamos, em relação aos caminhos que nos conduzem àqueles que amamos. Pode parecer óbvio, mas a obra ganha ainda mais profundidade na segunda parte, quando o manuscrito do livro chega às mãos da avó e da mãe e de como elas tratam o caso - no limite entre o ensaio à denúncia de um crime sexual e a beleza do florescimento de alguém que está em pleno controle da situação e em processo de descoberta da própria sexualidade. Repleto de metáforas e alegorias, esse é um filme de fluidez magnética que, de quebra, ainda nos deixa meio nostálgicos em seu exame arrebatador das dores e delícias embriagantes das primeiras paixões.

Nota: 9,0 

 

quinta-feira, 19 de março de 2026

Picanha.doc - Alabama: Presos do Sistema (The Alabama Solution)

De: Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman. Com Melvin Ray e Robert Council. Documentário, EUA, 2025, 114 minutos.

Vamos combinar que a gente tende a pensar que os problemas do sistema prisional - superpopulação, condições insalubres e violação de direitos humanos, só pra ficar em alguns exemplos -, são exclusividade do Brasil. Mas basta assistir a um documentário impactante como Alabama: Presos do Sistema (The Alabama Solution), que está disponível na HBO Max, para percebermos que isso também ocorre em países como os Estados Unidos. Aliás, se o sistema judiciário da terra do Tio Sam já costuma ser pra lá de questionável em qualquer circunstância, tudo tende a ser muito pior quando se tem um presidente que navega na antessala do fascismo - e teríamos de ser muito ingênuos pra acreditar que uma coisa não influencia a outra. Enfim, a obra dos cineastas Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman, e que foi uma das indicadas ao Oscar em sua categoria, é revoltante em muitas medidas.

Por que, vamos ser honestos, como é possível pensar em ressocialização de encarcerados se os presos permanecem em celas lotadas - com o dobro da capacidade ocupada -, sem qualquer tipo de higiene mínima que seja (com ratos, baratas e outros bichos espalhados), convivendo ainda com mofo, umidade, calor e outras condições precárias? Isso sem falar na falta de atendimento de saúde ou mesmo de agentes capacitados para a gestão das prisões. E que não desejem simplesmente assassinar presos por motivos fúteis, como no absurdo caso da morte de Steven Davis, que foi espancado até vir a óbito - e uma boa parte da trama é centrada nesse caso (que é só mais um entre tantos, em que a violência estatal surge como alternativa de contenção). E tudo que a mãe de Davis, Sandy, tem, é uma foto do filho desfigurado e muita vontade de obter algum tipo de justiça.

 


Em linhas gerais, o que o filme nos sugere é que há um problema meio generalizado no sistema carcerário estadunidense, que parece ser ainda mais grave no Sul dos Estados Unidos, onde costuma residir aquele tipo de cidadão de bem médio, o redneck de arma em punho que acredita que "bandido bom é bandido morto". Aliás, não é difícil imaginar essa parcela da população, sempre com a Bíblia a tiracolo, absolutamente indignada por esse desejo de dignidade, mínima que seja, para quem desviou da rota e veio a cometer algo ilícito. O punitivismo, aqui e ali, também aparece no cerne da narrativa - especialmente quando um grupo de presos começa a estudar e a ganhar força de forma coletiva, com o surgimento de movimentos como o Alabama Livre, que lutava por melhores condições nos presídios, além de remuneração de presos por trabalho prisional, possibilidade de revisão de sentenças, especialmente as mais longas, e diminuição sistemática da violência.

Claro que, em uma situação como a vista no documentário, é fácil saber qual a ponta mais fraca da equação - tanto que a ideia para a obra surge quando a dupla de diretores vai a um dos presídios para filmar um evento supostamente festivo e passa a achar estranho o comportamento taciturno dos presos que, por medo de retaliações, fazem revelações escabrosas sobre abusos e falhas do sistema. E nada do que vemos no filme seria possível se não fossem os celulares contrabandeados, que circulam nas celas, permitindo àqueles homens apresentarem o seu lado de uma narrativa que, quase sempre, só ouve a outra parte. Dando destaque a outros presos que também integraram o movimento Alabama Livre, que resultou em greves e paralisações que chamaram a atenção da opinião pública no País, como Robert Council e Melvin Ray, a produção ainda evidencia outras complexidades de um sistema corroído, com dificuldades para acessar advogados, para julgamentos mais justos ou mesmo para a liberdade de pensamento. "Vá para a Igreja ou o diabo te pega" aponta uma placa nada singela nas ruas floridas e meio insólitas do Alabama. Só que o inferno aqui, vem com derramamento de sangue, torturas psicológicas e dificuldade de manter a sanidade. É quase intragável. 

 

quarta-feira, 18 de março de 2026

Novidades em Streaming - Elio (Elio)

De: Adrian Molina, Domee Shi e Madeline Sharafian. Yonas Kibreab, Brad Garrett, Remy Edgelry e Zoe Saldaña. Animação / Aventura / Ficção científica, EUA, 2025, 99 minutos.

Muito se fala de um certo desgaste da Pixar, tanto que filmes como Elio (Elio), que foi um dos indicados ao Oscar na categoria Animação, sequer foram muito comentados. E vamos combinar que a história batida de menino órfão que sonha em ser astronauta - um tipo de trama que parece meio deslocada no tempo -, não ajuda muito. Com a narrativa edificante sobre amadurecimento e superação de dificuldades em um contexto de traumas e perdas familiares, sendo daquelas de arrancar bocejos até das crianças. Com tudo piorando se somada a completa falta de carisma das personagens, a começar pelo protagonista bastante esquecível (um menininho comum que é meio deslumbrado pelo espaço, a ponto de construir uma engenhoca meio que implorando por uma abdução alienígena). O que ele faz deitado na praia, dia após dia, até ser acossado por uma dupla de valentões que mexe em seu rádio amador.

Depois de uma briga e de um olho roxo, Elio (Yonas Kibreab) consegue se infiltrar no local de trabalho de sua tia, Olga (Zoe Saldaña) - responsável por sua guarda -, que, convenientemente, é uma major da Força Aérea que precisa lidar com um teórico da conspiração de sua equipe, que afirma finalmente ter obtido alguma resposta à famosa Missão Voyager - programa da Nasa iniciado nos anos 70. Claro, ninguém acredita na balela do tal Gunther Melmac (Brendan Hunt), mas essa se torna a deixa perfeita para que Elio invada os computadores pra tentar um contato improvisado com os alienígenas, o que gera uma queda de luz que quase custa o emprego de Olga. A solução? Enviar o menino para um acampamento, local em que ele reencontra os valentões. Depois de mais alguns rebus o protagonista é, enfim, abduzido (pra alegria dele), ao mesmo tempo em que Olga recebe estranhas mensagens interplanetárias.

 

 


A segunda parte da história também tem aquela carinha de mais do mesmo, mas em tempos tão brutos como os que vivemos - de avanço da extrema direita e de políticas de ataque à minorias (especialmente os imigrantes) -, não deixa de ser interessante uma narrativa que lembra a importância de unir forças diante de um mal maior. Quando finalmente chega ao seu destino, Elio é recebido em um local conhecido como Comuniverso, onde alienígenas das mais variadas partes do mundo compartilham seus saberes (um local pautado pela generosidade e pelo pensar coletivo). Bom, isso até a chegada de um certo Lorde Grigon (Brad Garrett), uma espécie de senhor da guerra do planeta Hylurg que, rejeitado anteriormente pelo Comuniverso, pretende tomar o local a força. Promovendo uma guerra e escravizando o povo dali. Isso até a entrada de Elio na história, que pretende ser nomeado embaixador da Terra, após negociar com Grigon.

Em linhas gerais dá pra se dizer que, ok, é um filme que não doi. Ele avança meio que naquela lógica do enfrentamento a um vilão em que a ajuda mútua será fundamental - com esses ideais sendo reforçados no momento em que Elio conhece Glordon (Remy Edgelry), uma espécie de minhoca amistosa e repulsiva, com quem o pequeno faz amizade justamente quando tenta fugir da prisão perpetrada pelo grande vilão. Glordon é o filho de Grigon e passa a ser moeda de troca para o monstrengo deixe o Comuniverso em paz. Ao mesmo tempo, a carismática Ooooo (Shirley Henderson), um supercomputador gelatinoso e líquido e talvez a única figura realmente marcante, envia para a Terra um clone de Elio, para que Olga não se preocupe. E, claro, muita coisa dá errada no meio do caminho até que as peças se encaixem, as amizades se fortaleçam e a redenção de todos ocorra. Se isso ainda tem algum valor em 2026 é difícil saber já que pouca gente deu bola pra animação, que tá disponível na Disney+.

Nota: 6,0

 

segunda-feira, 16 de março de 2026

10 Considerações Sobre a Cerimônia do Oscar 2026

Finalmente o Oscar aconteceu e passamos a régua oficialmente na temporada de premiações - e, aqui, algumas considerações sobre a cerimônia ocorrida na noite de ontem.

 


1) Bom, antes de mais nada parece até papo de perdedor o fato de termos tido quatro indicações (ou cinco, se somarmos o fotógrafo Adolpho Veloso por Sonhos de Trem), mas o caso é que a grande maioria das projeções indicava meio que exatamente o que aconteceu. Em nenhuma das categorias éramos, de fato, favoritos, por mais que mantivéssemos a torcida e o sonho de pé, Timothée Chalamet perdeu espaço, mas o Michael B. Jordan tinha crescido na reta final. Valor Sentimental nunca deixou de estar um passo a frente com suas nove indicações e uma campanha sólida para conceder o primeiro Oscar da história à Noruega. Sobre o elenco, o nosso é lindo e talvez merecesse o reconhecimento. Mas vocês acham mesmo que na primeira vez na história o prêmio iria para algum filme que não fosse de Hollywood? No mais, valeu a festa, a torcida e, principalmente, a visibilidade para o nosso cinema, que alcança muitos públicos, se consolidando como um polo forte de cinema, como sempre fomos na verdade. Ah, e não dá pra esquecer que temos o molho. E quem tem o molho NUNCA PERDE!

2) Não sei se vocês ficaram com essa impressão, mas por mais que estivéssemos torcendo alucinadamente por O Agente Secreto, me pareceu como um todo uma cerimônia meio morna do ponto de vista do impacto mesmo. Por gosto pessoal, não acho que o Conan tenha a acidez na medida certa de um Jimmy Kimmel - tanto que, quando ele entrou no palco, fez uma das melhores piadas da noite. Não é que precisasse ser um show de fundo político, mas os Estados Unidos vive meio que um caos permanente desde a entrada do laranjão para o segundo governo e, onde estavam os nossos astros protestando? Tirando uma onda? Batendo de frente? Sim, sei que teve brochezinho fuck ICE e, aqui e ali, alguma piada sobre, mas eu achei foi pouco. Menos mal que os vencedores de categorias menores fizeram o trabalho de lembrar que uma premiação com tanta visibilidade, também é oportunidade para colocar o dedo na ferida.

3) Também foi uma cerimônia meio que sem grandes surpresas. Nas categorias de atuação, por exemplo, as bolsas de apostas meio que acertaram a respeito dos vencedores. O mesmo valendo para roteiro, direção, filme em língua estrangeira, animação e diversas técnicas. Nesse sentido, os bolões podem ter sido meio sem emoção, já que todo mundo votou meio igual. Pra não dizer que foi tudo previsível, a vitória de Mr. Nobody Against Putin em Documentário não era esperada. Ainda que essa seja uma das categorias mais estranhas do planeta, com ausências inacreditáveis e vitórias historicamente improváveis.

4) Ainda sobre as categorias de atuação, entre os bons momentos da noite acho que dá pra incluir a vitória da carismática Amy Madigan, por A Hora do Mal. Eu até não morro de amores por esse filme, mas é sempre legal quando uma obra meio que quebra a lógica e vai ganhando força no transcorrer da temporada - desbancando outras que teriam mais força ou mais apelo. Ok, ela parecia meio atrapalhadinha na hora dos agradecimentos, mas ficou a impressão de que a própria Academia deu a ela um tempinho a mais pra se organizar nas falas.

5) Ponto altíssimo da noite, a apresentação da canção I Lied to You, de Pecadores, com todo o aparato musical de uma grande apresentação. O filme de Ryan Coogler, aliás, venceu quatro estatuetas, contra seis de Uma Batalha Após a Outra, que pode ser considerado o grande campeão da noite.

6) Sinceramente, uma coisa que não simpatizo muito na premiação, é essa coisa de que tudo meio que tem de virar um teaser, um produto ou uma propaganda para algo que está por vir. É Anna Wintour no palco pra lembrar o público sobre O Diabo Veste Prada, é os atores da Marvel fazendo teatrinho sem graça, aludindo aos filmes ainda mais sem graça. Eu sei que tudo ali não passa de um negócio, no fundo, mas acho que seria mais orgânico sem esse tipo de coisa. Já as piadinhas sobre uso de IA e outras tecnologias, especialmente aquela parte em que houve um deboche com as irritantes interrupções do Youtube, que deve transmitir a premiação a partir do ano que vem (ou isso também era piada?), gostei demais!

7) Todo o mundo falou dos esquecimentos bizarros do In Memorian, mas verdade seja dita: a forma como essa parte transcorreu desta vez foi bem bonita, com ex-companheiros lembrando de algumas personalidades que se se foram (sendo o destaque os 17 atores que trabalharam com Rob Reiner). Aliás, foi um ano de perdas de grandes astros, como Catherine O'Hara e Robert Redford, então é justo que essa parte tenha sido mais "engordada". 

8) Importantíssimo momento da noite: a vitória de Autumn Arkapaw, que se tornou a primeira mulher negra a vencer o Oscar na categoria Fotografia (e foi comovente ver ela pedindo para as mulheres da sala se levantarem). Seu discurso foi poderoso, assim como o de outras vencedoras, como Jessie Buckley.  

9) Continua sendo absolutamente estranho o hábito da Academia de subir o som para que as pessoas se retirem do palco em meio aos discursos, especialmente nas categorias menores. Foi constrangedor o que rolou com a galera de Two People Exchanging Saliva, que praticamente foi expulsa do palco à força. 

10) O lance de um novo meme do DiCaprio? Ok, legalzinho. Que é o saldo dessa premiação. Apenas legalzinha. E ano que vem tem mais! 

sexta-feira, 13 de março de 2026

Quem Ganha o Oscar 2026?

Verdade seja dita que a safra não parece estar das melhores, com muitos filmes apenas médios na disputa das estatuetas do Oscar 2026 e um favoritismo meio generalizado para Uma Batalha Após a Outra e Pecadores nas categorias centrais. Como brasileiros, inevitavelmente o nosso foco estará nas categorias em que O Agente Secreto está indicado - ainda que muitos dos nossos especialistas estejam pouco otimistas em relação a alguma vitória. Por mais que uma coisa seja as previsões e as premiações prévias e a outra seja a vida real - e não dá pra negar que a nossa campanha, capitaneada por Kléber Mendonça Filho e Wagner Moura foi um show de carisma. No mais, consegui assistir a grande maioria das obras indicadas desse ano, o que permite aquela análise racional, sem ignorar o coração, já que uma coisa é jogar no bolão e outra é apontar aquele que amamos de verdade. Enfim, o Oscar é domingo, a Globo mudou toda a grande de programação para a exibir a maior premiação do cinema, e o TNT e a HBO Max também transmitem, como de costume (fora as tantas lives País afora envolvendo influenciadores e entendidos da área). Enfim, será uma experiência legal e estaremos atentos.

 


 

 

FILME

Uma Batalha Após a Outra passou o rodo nas premiações prévias, levando inclusive as prestigiadíssimas estatuetas do PGA (Produtores), do DGA (Diretores), do WGA (Roteiro Adaptado) e do ACE (Editores em Comédia) - o que o coloca como amplo favorito. Só que de uns dias pra cá teve início um burburinho sobre uma possível virada de Pecadores pra cima da obra de Paul Thomas Anderson, o que é reforçado pelas conquistas no SAG (Atores), no WGA (Roteiro Original) e no Bafta (Roteiro Original) e o ACE (Editores em Drama). Ainda assim, o peso de uma possível vitória pende pro lado de Uma Batalha..., já que outras conquistas, como o Critics Choice e o Bafta - ambas na categoria central - reforçam essa tese. Eu queria poder dizer que O Agente Secreto tem chance? Queria. Mas é um sonho bem distante e se configuraria como uma zebra histórica. Ainda que no Gold Derby sejamos o quarto colocado entre os possíveis favoritos (vai Brasil!).

Ganha: Uma Batalha Após a Outra

Na torcida: O Agente Secreto (mas vou adoras se Pecadores faturar) 

 

DIRETOR

Nessa categoria quase dá pra cravar, sem medo de errar, que finalmente chegou a vez de Paul Thomas Anderson vencer - e as prévias, especialmente com a conquista no DGA, reforçam essa tese. O fato de Uma Batalha Após a Outra ter força como um todo nas premiações anteriores também contribui para essa percepção. O único que poderia desbancar Anderson seria Ryan Coogler, de Pecadores, mas no Gold Derby há uma percepção de que isso dificilmente vai ocorrer. Em termos de torcida eu estaria com o segundo, até porque os demais indicados não me empolgam.

Ganha: Paul Thomas Anderson, por Uma Batalha Após a Outra

Na torcida: Ryan Coogler, por Pecadores 

 

ATOR

Até umas duas semanas atrás, tudo indicava que o Timothée Chalamet iria levar a estatueta pelo seu papel no insosso Marty Supreme - o que era reforçado pelas vitórias no Critics Choice, no Globo de Ouro e em outras prévias. Mas aí o Michael B. Jordan venceu o SAG, surpreendendo geral. E o Chalamet foi cancelado após falar merda. Será que vem aí uma virada histórica? No nosso caso, evidentemente estamos torcendo pelo Wagner Moura, o que é considerado uma zebra, por mais que algumas publicações estrangeiras apontem para essa possibilidade - e o Globo de Ouro em Drama, verdade seja dita, nos deixou cheios de esperança. Talvez o sistema de votação possa auxiliar no sonho - lembrando que os votantes escolhem do quinto ao primeiro os seus preferidos, sendo feita uma média. Mas até lá é só um sonho mesmo. Meio distante.

Ganha:  Michael B. Jordan por Pecadores

Na torcida: Wagner Moura, por O Agente Secreto 

 

ATRIZ 

Aqui parece estar uma das barbadas da noite em matéria de bolão, já que a Jessie Buckley com cara de choro em modo permanente em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, passou o rodo nas prévias, com vitórias no SAG, no Bafta, no Critics e em outras premiações importante. Como eu sou um Emma Stoner de carteirinha, a minha torcida secreta é por ela e por seu ótimo papel no subestimado Bugonia. Mas é só pra brincar de torcer mesmo, já que a única que poderia desbancar Buckley seria a Rose Byrne por sua caracterização no ótimo Se Eu Tivesse Pernas Te Chutaria.

Ganha: Jessie Buckley, por Hamnet

Na torcida: Emma Stone, por Bugonia 

 

ATOR COADJUVANTE

Nessa categoria ao que tudo indica a estatueta vai pro Sean Penn por Uma Batalha Após a Outra porque, inclusive, é merecido, já que ele está absolutamente irritante e nojento como um oficial de tendências fascistas (e misóginas). Aliás, o ator rapou as premiações prévias vencendo o SAG, o Bafta, o Globo de Ouro e outras. Claro que nesse bolo todo poooode pesar um componente afetivo em favor do Stelan Skarsgard por Valor Sentimental, já que o veterano, além de ter mais de cinquenta anos de carreira, ainda fez um grande esforço de interpretação devido aos problemas de saúde. Seria uma zebrinha mas nem tanto. E correndo por fora ainda tem o Jacob Elordi, por Frankenstein, que faturou o Critics da categoria.

Ganha: Sean Penn, por Uma Batalha Após a Outra

Na torcida: Sean Penn, por Uma Batalha Após a Outra

 

ATRIZ COADJUVANTE

Aparentemente o mundo comprou a ideia de que a Amy Madigan merece a estatueta pelo excêntrico papel no mediano A Hora do Mal. Vá lá, o cinema de terror quase nunca é prestigiado, então seria uma forma de valorizar o gênero. As prévias, com as vitórias no SAG e no Critics dão certo favoritismo. Ainda que Wunni Mosaku tenha embaralhado um pouco a bolsa de apostas ao faturar o Bafta. E tem ainda a Teyana Taylor, que conquistou o Globo de Ouro correndo por fora e aposta na força de Uma Batalha Após a Outra pra tentar uma ultrapassagem na reta final. Em resumo, categoria que tem uma favorita, mas nada definido (o que dificulta o bolão).

Ganha: Amy Madigan, por A Hora do Mal

Na torcida: Teyana Taylor, por Uma Batalha Após a Outra

 

ROTEIRO ADAPTADO

Aqui não parece haver dúvida de que é Uma Batalha Após a Outra na cabeça, ate mesmo por ter faturado praticamente todas as prévias relevantes, incluindo aí o WGA (Roteiristas), o Bafta e o Critics. E o próprio favoritismo à categoria central ajuda a fortalecer essa ideia, já que, em muitos casos, o vencedor em Roteiro, costuma chegar com força para as cabeças. Hamnet corre por fora, mas parece já saber que perdeu com umas doze rodadas de antecipação. A minha torcida? Bugonia, óbvio!

Ganha: Uma Batalha Após a Outra

Na torcida: Bugonia 

 

ROTEIRO ORIGINAL

Vale a mesma lógica do Adaptado aqui, já que Pecadores fez a limpa nas prévias, levando WGA, Bafta, Critics e Globo de Ouro, entre outras premiações. No Gold Derby a percepção de chance de vitória é de quase 97%, então, podem ir sem erro no bolão. E como amo esse filme, vou adorar apreciar essa vitória.

Ganha: Pecadores

Na torcida: Pecadores 

 

ANIMAÇÃO

Aqui temos uma das maiores barbadas da noite, já que o ótimo Guerreiras do KPop chega com tudo, com vitórias nas prévias - como o Annie (Animação, que costuma ser um ótimo termômetro pra categoria), o Critics e o Globo de Ouro -, além de fortíssima campanha da Netflix. E isso sem falar no carinho do público, que simplesmente amou a produção. No Annie, aliás, a obra fez história ao faturar inacreditáveis dez estatuetas. Resumidamente, só um maluco pra não apostar nas meninas no bolão!

Ganha: Guerreiras do KPop

Na torcida: Guerreiras do KPop 

 

FILME INTERNACIONAL

Sim, a gente está obcecado e sonhando com a vitória de O Agente Secreto, mas, de forma racional, é preciso estarmos preparados pra uma eventual derrota, já que Valor Sentimental chega com mais força à reta final (sensação ampliada pelas outras indicações, como em categorias de atuação, por exemplo, além de conquistas no circuito europeu, como os prêmios no Gran Prix e no Júri Ecumênico de Cannes, e a vitória no Bafta). Ainda assim, não custa sonhar: O Globo de Ouro e o Critics ampliaram a visibilidade e a Academia parece já estar sabendo que não existe nada como o carinho da torcida brasileira - pro bem ou pro mal. Então, bora!

Ganha: O Agente Secreto (aqui foi difícil não votar com o coração)

Na torcida: O Agente Secreto

 

DOCUMENTÁRIO 

Mr. Nobody Against Putin até venceu o Bafta da categoria, o que poderia dar uma embaralhada na disputa já que, A Vizinha Perfeita, com toda a campanha e o aparato da Netflix por trás chega como franco favorito, o que inclui a vitória no Critics. No bolão, a disputa não deve fugir desses dois. Já o meu preferido na categoria - Alabama: Presos do Sistema - deve se contentar com o burburinho provocado pela exibição na HBO Max.

Ganha: A Vizinha Perfeita

Na torcida: Alabama: Presos do Sistema 

 

DIREÇÃO DE ELENCO

A categoria é novidade no Oscar, mas uma tradição em outras premiações, como o SAG e o Critics, com ambos tendo sido vencidos por Pecadores, o que o coloca como o favorito. Qualquer coisa diferente disso vai ser surpresa - inclusive a vitória de O Agente Secreto (e, nesse caso, só a indicação já pode ser considerada uma vitória). 

Ganha: Pecadores

Na torcida: O Agente Secreto

 

FOTOGRAFIA

Nessa categoria, o indicativo mais confiável de vitória costuma vir do prêmio ASC (Cinematografia) que, neste ano, concedeu a distinção à Uma Batalha Após a Outra, o que talvez o coloque à frente na corrida - ainda mais se incluirmos outras prévias importantes, como o Bafta, Correndo por fora, Pecadores conta com a primeira indicação para uma mulher negra na categoria (e apenas a quarta mulher na história), com a Autumn Durald Arkapaw. Sobre o brasileiro Adolpho Veloso por Sonhos de Trem, não custa sonhar: ele faturou o Bafta da categoria e pode ser uma boa surpresa (estamos na torcida!).

Ganha: Uma Batalha Após a Outra

Na torcida: Sonhos de Trem 

 

FIGURINO

Por ter vencido o CDG, um dos melhores termômetros para a categoria, Frankenstein larga na frente - e verdade seja dita, se tem algo realmente bom na produção de Guillermo Del Toro é o aparato técnico. O CDG, é preciso que se diga, se divide em duas distinções centrais - filmes de Época e Contemporâneo - tendo Uma Batalha Após a Outra faturado a segunda. Só que Frankenstein também ganhou o Critics e o Bafta e aí ele parece mesmo com o caminho pavimentado para a estatueta.

Ganha: Frankenstein

Na torcida: Pecadores 

 

EDIÇÃO

Aqui um bom termômetro costuma ser o ACE Eddie Awards que concedeu às estatuetas na prévias para Pecadores (Drama) e Uma Batalha Após a Outra (Comédia ou Musical), tendo este último vencido também o Bafta. Já o frenético F1: O Filme faturou o Critics, o que também o coloca como um bom competidor (e é um filme que também se vale muito do aparato técnico). Aliás, como uma das categorias que abre a noite ela pode servir para pavimentar o caminho do que virá pela frente, durante a premiação.

Ganha: Uma Batalha Após a Outra

Na torcida: Pecadores 

 

MAQUIAGEM E PENTEADO.

Frankenstein venceu o Bafta e o Critics e deve ser o grande ganhador da categoria levadas em conta as prévias. E até onde entendi, o Jacob Elordi ficava dez horas na cadeira de maquiagem até ficar apto a interpretar a criatura (nem tão) grotesca. Se for levado em conta esse combo, tá mais do que merecido. E o filme nem é a bomba que as pessoas estão dizendo ser.

Ganha: Frankenstein

Na torcida: A Meia-Irmã Feia (porque adorei esse filme) 

 

DESENHO DE PRODUÇÃO

Aparentemente Frankenstein deve passar o rodo em certas categorias técnicas, o que inclui a vitória em Desenho de Produção. A conquista do prêmio específico do setor (o ADG) na categoria Fantasia, nas prévias, somadas às estatuetas no Critics e no Bafta reforçam essa como uma escolha certeira. Uma Batalha Após a Outra até faturou o ADG em Filme de Época, mas deve ficar pelo caminho. E minha torcida, como não poderia deixar de ser, vai pra Pecadores.

Ganha: Frankenstein

Na torcida: Pecadores 

 

TRILHA SONORA

No Bafta e no Critics deu Pecadores e, levando-se em conta estas e outras prévias, o filme de Ryan Coogler deve vencer a categoria. Aliás, o compositor Ludwig Göransson já venceu anteriormente por Pantera Negra e Oppenheimer, o que também é uma ótima credencial. Ah, e tem uma coisa meio bizarra sobre essa categoria: das últimas 26 edições do Oscar, em 23 quem a venceu, faturou também Melhor Filme. É aguardar!

Ganha: Pecadores

Na torcida: Pecadores 

 

SOM

F1: O Filme faturou o Critics e o Bafta, além de ter ganhado o CAS (Cinema Audio Society). E os especialistas costumam lembrar que esses filmes barulhentos, e que necessitam uma engenharia a mais no setor, sempre saltam na frente. 

Ganha: F1: O Filme

Na torcida: Pecadores

 

EFEITOS VISUAIS

O prêmio de consolação para Avatar: Fogo e Cinzas deve vir nesta categoria, o que é reforçado pelas vitórias no Bafta e no Critics - com o favoritismo ampliado pelo VES Awards. Qualquer coisa diferente disso é meio que uma zebra.

Ganha: Avatar: Fogo e Cinzas

Na torcida: Pecadores 

 

CURTA ANIMAÇÃO

Nas categorias que costumam desempatar bolão é tudo meio imprevisível, ainda que o belíssimo Butterfly pareça estar um passo à frente não apenas pela temática - sobre um nadador que enfrenta o nazismo -, mas também pelo tipo de animação, que mais parece uma pintura que sai da tela. Particularmente o meu preferido é o tocante The Girl Who Cried Pearls que, se for direto ao coração dos votantes, deve ser o vencedor.

Ganha: Butterfly

Na torcida: The Girl Who Cried Pearls 

 

CANÇÃO ORIGINAL

Pelo visto não tem pra ninguém e vai dar Golden, o megahit de Guerreiras do KPop - especialmente após passarem o rodo nas prévias. E, verdade seja dita, eu posso até amar Pecadores, mas essa música é tão grudenta quanto imbatível.

Ganha: Golden, de Guerreiras do KPop

Na torcida: Golden, de Guerreiras do KPop 

 

CURTA DOCUMENTÁRIO

Esse tipo de categoria é outra que costuma pegar o votante pelo impacto e é meio difícil ficar alheio ao poder de All the Empty Rooms (sobre os quartos agora vazios, de crianças assassinadas em escolas dos Estados Unidos). É algo de forte impacto emocional. O meu preferido, ainda assim, é The Devil Is Busy, que fiz até uma pequena resenha abaixo.

Ganha: All the Empty Rooms

Na torcida: The Devil Is Busy 

 

CURTA LIVE ACTION

Nesse ano consegui assistir quatro dos cinco indicados e devo confessar a vocês que amei todos - desde o deboche de Jane Austen's Period Drama, até a tensão provocada por Two People Exchanging Saliva. The Singers tem o aparato da Natflix por trás, ao passo que A Friend os Dorothy é o mais tocante. Quem leva? Arremessa pra cima e sorteia um!

Ganha: Two People Exchanging Saliva

Na torcida: Jane Austen's Period Drama

 

E que venha o Oscar! 

 

quarta-feira, 11 de março de 2026

Curta Um Curta - Duas Pessoas Trocando Saliva (Deux Personnes Échangeant de la Salive)

De: Alexandre Singh e Natalie Musteata. Com Zar Amir Ebrahimi, Luàna Bajrami e Aurélie Boquien. Drama / Ficção Científica, França / EUA, 2024, 36 minutos.

Em um mundo cada vez mais frio e individualista e sobretudo pautado pelo consumo e pelo capital, o curta metragem francês indicado ao Oscar Duas Pessoas Trocando Saliva (Deux Personnes Échangeant de la Salive) imagina um cenário em que beijar na boca é considerado um crime em que a punição é a morte. Um ato subversivo, a ponto de as pessoas mastigarem alho deliberadamente como forma de afastar qualquer fagulha que seja de desejo. Escovas e mesmo as pastas de dente são adquiridas no mercado negro, com contrabandistas, que é exatamente o que a protagonista Malaise (Luàna Bajrami) faz depois de começar a trabalhar em uma chiquérrima loja de departamentos, onde passa a atender a elegante Angine (Zar Amir Ebrahimi), com quem faz uma curiosa amizade. Aliás, mais do que amizade, uma paixão que, nesse contexto distópico, jamais poderá se concretizar. Mais ainda aos olhos do público.

 


E tudo piora com o fato da ressentida Pétulante (Aurélie Boquien) ficar extremamente enciumada com a aproximação entre as duas mulheres. Angine, afinal, era sua cliente cativa e o fato de ser simplesmente trocada pela jovem a deixa devastada. Com a oportunidade de vingança surgindo após esta ouvir Malaise escovando os dentes no banheiro da loja. Filmado em um vigoroso preto e branco, o curta trágico mas envolvente parece simples em sua temática, sendo profundo no exame da repressão à intimidade como uma das ferramentas centrais de regimes autoritários. Com o domínio do corpo e, consequentemente, do desejo, se convertendo em forma de punição. Ainda mais quando o assunto são os casais homoafetivos ou que fujam do padrão esperado na sociedade regida pelo "cidadão de bem". Enfim, uma experiência potente em que os tapas dão lugar aos beijos, em um universo de conservadorismo atroz. 

 

Novidades em Streaming - Coração de Lutador (The Smashing Machine)

De: Benny Safdie. Com Dwayne Johnson, Emily Blunt e Mark Coleman. Drama / Biografia, EUA, 2025, 123 minutos. 

"Você perdeu uma luta, grande coisa, supera!". É em um momento de puro desespero diante do marido - uma montanha de músculos de 120 quilos - que desaba, que Dawn Staples (Emily Blunt) tenta argumentar apelando para uma coisa quase básica. Daquelas que a gente fala para as crianças pequenas: a de que perder faz parte da vida e que é preciso levantar a cabeça e partir para a próxima. Especialmente se você é um atleta de alto nível, como no caso do lutador de MMA Mark Kerr (Dwayne Johnson), um dos pioneiros em estilos de lutas mistas. Só que naquela altura de Coração de Lutador (The Smashing Machine), que está disponível na Amazon Prime, tanto Dawn quanto o espectador já perceberam que Mark está perdendo uma outra batalha pessoal: a do vício em medicamentos analgésicos potentes (os opióides) que arruinarão sua carreira. A sequência seguinte é a de um Mark caído no chão da cozinha, após uma overdose.

Em linhas gerais eu tendo a me perguntar, especialmente em filmes de certos subgêneros - como esse, que se enquadra no drama esportivo biográfico -, se há material suficiente para sustentar um longa metragem de duas horas. E no caso da obra de Benny Safdie há um pequeno milagre na tentativa de fazer um fiapinho de história em um material com mais envergadura. Isso significa produção de qualidade? Não necessariamente. Talvez pra quem goste o esporte seja um prato cheio ver um bando de sujeitos gigantescos se esmurrando - sempre na camaradagem, claro -, conhecendo também um pouco das origens de certos torneios que, atualmente, inclusive no Brasil, são muito populares. Mas o resumo do resumo da ópera desse filme vencedor do Leão de Prata de Berlim, é que temos a história de um atleta promissor, talvez um dos melhores de sua geração, que, entre os anos de 1997 e 2000 atinge rapidamente o auge e o declínio.

 


Ok, nos momentos em que Mark não está esmurrando portas e paredes em discussões com a esposa - algo que meio que assusta em um cenário atual de tanta violência contra as mulheres e casos de feminicídio -, ele é apresentado como um sujeito afetuoso, um gigante gentil mais ou menos carismático e talvez oprimido pela fama repentina (ainda que em suas entrevistas se apresente como alguém autoconfiante, truculento e arrogante). Na primeira sequência com Dawn já é possível perceber a sua toxicidade, ao vermos ele se mostrar contrariado a respeito da receita de uma vitamina de banana (ocasião em que ela parece mais a empregada do que a companheira). Talvez fossem outros tempos e o caso é que Dawn não arreda pé de seu lado, mesmo quando as coisas começam a desandar. Mais do que isso, o protagonista talvez só permaneça vivo por causa dela - é ela que o encontra na cozinha, ligando desesperada para o grande amigo e parceiro de lutas Mark Coleman (Ryan Bader).

Após as derrotas impostas pela vida, Mark vai para um centro de reabilitação - o que é uma perda dupla pra quem é atleta. E precisa do corpo para trabalhar. Como na jornada do heroi típica, o homem retorna amoroso para os braços da esposa, que estranha algumas de suas atitudes dispersas ("sem remédio você vira um escroto", ela chega a esbravejar). Ao mesmo tempo em que ele treina com Bas Rutten (o veterano interpreta ele mesmo) para um retorno épico em uma competição no Japão - mas, aqui, como na volta de Rocky Balboa em 2006, a conquista maior está na trajetória e na superação. E não dá pra negar que Safdie - em sua primeira incursão longe do irmão Josh, com quem fez Joias Brutas (2019) - se empenha em entregar um projeto com início meio e fim, ainda que não deixe de ser gritante a completa falta de profundidade de todos que acompanhamos ali. Sinceramente, a gente meio que entra e sai da experiência sem conhecer ninguém direito. É tudo raso. Como um pires. Ou uma pancadaria de octógono. Quando vê tu já tá apanhando. Sem se livrar da apatia. Uma pena.

Nota: 4,5 

 

segunda-feira, 9 de março de 2026

Cinema - Marty Supreme (Marty Supreme)

De: Josh Safdie. Com Timothée Chalamet, Gwyneth Palthrow, Odessa A'Zion e Fran Drescer. Drama / Comédia, EUA, 2025, 150 minutos.

Galera, eu não sei como tem sido pra vocês a experiência com cinema e talvez eu esteja mesmo ficando velho, chato, cansado de alguns padrões - e eu quero evitar a palavra exigente pra não soar presunçoso. Mas lá pela oitava tentativa de golpe perpetrado pelo personagem central do histriônico Marty Supreme (Marty Supreme), eu já tava com os olhos na nuca de tão revirados. Olha só, eu não tenho nenhum problema com personagens amorais, odiosos ou arrogantes desde que isso não fique martelando meio que o tempo todo na nossa cara. Até porque não ficamos naquelas de "uau, como ele é ousado", após assistir ao protagonista vivido por Timothée Chalamet participar de uma série de jogos amadores de tênis de mesa em um boteco repleto de machinhos de meia idade apostando merrecas, só pra levantar uma grana depois de se ferrar mais uma vez. Afinal, em filmes como A Cor do Dinheiro (1986), obra menor de Scorsese, essa estratégia já era usada com muito mais charme.

O caso é que muita coisa que deveria soar como bacana na produção de Josh Safdie - que meio que repete o modus operandi de Joias Brutas (2019) -, lá pelas tantas começa a irritar. Essa tentativa, por exemplo, de soar engraçadinha a todo o custo, faz com que uma obra de duas horas e meia de duração soe como uma coletânea aleatória de esquetes de humor desajeitadas - e basta pensar na abertura com a batida cena dos espermatozoides indo até o óvulo (totalmente desconectada), passando pela sequência da queda da banheira em uma espelunca em formato de hotel, ou mesmo o instante em que Marty tenta contrabandear uma joia que, na realidade, não passa de uma bijuteria, para que constatemos o fato de tudo soar exagerado mas não orgânico, caótico e pouco sutil. É um filme que tenta ser anárquico o tempo todo e que talvez agrade o homem médio que acredita que a vida no capitalismo tardio é pautada pelo individualismo atroz, pela gritaria, pelas perseguições, pelos tiros e pela selvageria do cada um por si a cada frame. Para quem conseguir evitar os bocejos, talvez cole.

 


E, ok, pra não dizer que tudo é desastre, o pano de fundo do tênis de mesa - um esporte que nós, brasileiros, estamos aprendendo a amar depois de Hugo Calderano -, é excelente. As imagens das partidas são críveis e as disputas bem divertidas. Com o empenho de Marty - vagamente inspirado na história real de Marty Reisman, que escreveu um livro de memórias (que ninguém nunca nem viu), nos anos 70 - em ser um esportista nos Estados Unidos dos anos 50, só sendo possível com um tipo de alpinismo social que envolve a aproximação com uma veterana estrela de Hollywood de nome Kay Stone (Gwyneth Paltrow) e seu marido Milton Rockwell (Kevin O'Leary), um magnata da indústria da produção de canetas, que faz algumas propostas meio indecentes para Marty subir na vida (que ele nega, mas depois se arrepende). No entorno do protagonista outras figuras entram e saem dando movimento a narrativa, enquanto o jovem tenta a todo o custo obter uma grana para participar de um torneio no Japão, após ele ser humilhado pelo temido Koto Endo (Koto Kawaguchi).

Outras pequenas subversões também soam descoladas da realidade, por mais que, por exemplo, a trilha sonora se empenhe na nostalgia aleatória, com músicas como Forever Young, do Alphaville, ou Everybody Wants to Change the World, do Tears for Fears aparecendo aqui e ali. A trama se passa nos anos 50, não é demais lembrar. Já o pano de fundo político soa excessivamente discreto e não é que todo o filme precise ser um panfleto ambulante, mas as subtramas envolvendo um ex-jogador que esteve um campo de concentração na Segunda Guerra ou mesmo os trambiques funcionando como denúncia do declínio do sonho americano no período, nunca alcançam qualquer profundidade. Já que tudo retorna para a figura do protagonista e seu exibicionismo deturpado, seu ímpeto trapaceiro e sua obstinação por prestígio a qualquer preço - tudo embalado pelo carisma de uma bolinha de tênis laranja (e que me desculpem os fãs, mas o não consigo comprar o Chalamet com bigodinho cafajeste). Que este seja um dos favoritos ao Oscar de Melhor Filme, talvez seja um indicativo de safra fraca. Ou, como já disse, eu que tô sem saco mesmo e esperava mais depois de tanto falatório.

Nota: 5,0 

 

quinta-feira, 5 de março de 2026

Cinema - Song Sung Blue: Um Sonho a Dois (Song Sung Blue)

De: Craig Brewer. Com Kate Hudson, Hugh Jackman, Michael Imperioli e Jim Belushi. Drama / Música, EUA, 2025, 132 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM ALGUNS SPOILERS] 

Vamos combinar que, não fosse a indicação de Kate Hudson à Melhor Atriz no Oscar desse ano - e a campanha deve ter sido pesada com certeza - e talvez Song Sung Blue: Um Sonho a Dois (Song Sung Blue) passasse meio batido. Ao cabo temos aqui aquele romance musical meio genérico - um subgênero famoso por filmes como Nasce Uma Estrela (2018) ou La La Land: Cantando Estações (2017) -, com uma pitadinha a mais de tragédia e a diferença de ser uma obra inspirada em eventos reais. Como de praxe em experiências do tipo, a obra se ancora não apenas no carisma de seus personagens, tentando enlaçar o público em uma narrativa de superação a partir do poder da arte. Sim, pode ter aquela carinha de mais do mesmo mas, vá lá, a energia é meio Sessão da Tarde. E, importante comentar, se você não conhece a história verdadeira de Mike (Hugh Jackman) e Claire Sardina (Kate Hudson) talvez valha a pena evitar os spoilers.

O começo do filme dirigido por Craig Brewer - de carreira discreta e que talvez tenha em Meu Nome É Dolemite (2019) um dos seus melhores momentos -, é bem interessante. Discursando como se estivesse diante de uma plateia, com câmera no rosto e um ar de estrela do rock, não demora para que percebamos que Mike é, na realidade, um sujeito de meia idade que frequenta há vinte anos um grupo de alcoolistas anônimos. É seu "aniversário" de duas décadas sem beber e, como músico amador que se apresenta em feiras, eventos e outros, ele tem uma exibição marcada em uma casa de shows de Wisconsin onde ele deveria, a contragosto, fazer um tipo de performance onde imitaria o cantor pop Don Ho (famoso pelo hit Tiny Bubbles). Na mesma noite, ele conhece e se encanta por Claire, que encarna a cantora country Patsy Cline com personalidade e vigor. E, bom, não demora para que eles se aproximem e, mais do que parceiros artísticos, se convertam em um casal.

 


 

E, como já comentei, a história é real e remonta ao final da década de 80 e o começo dos anos 90, ocasião em que Mike e Claire passam a ensaiar músicas de Neil Diamond, se apresentando com o nome de Lightning and Thunder - dupla que faria sucesso localmente naquela região. Polvilhado por instantes cômicos - em um deles eles são contratados para cantar para um público não tão adequado de motoqueiros estilo Harley Davidson (que tem apreço não só pela extrema direita, mas também pelo rock farofão de ZZ Top, Lynyrd Skynyrd e Steppenwolf), em uma noite que termina entre risadas e um pedido de casamento - e trágicos, como aquele do acidente sofrido por Claire, o filme se desenvolve em meio a conflitos familiares, incertezas sobre o futuro e a tentativa de uma vida melhor não apenas para a dupla, mas também para seus filhos.

Fazendo um aceno para os fãs dos anos 90, a obra inclui uma performance clássica em que o duo abriu um show do Pearl Jam, com a presença de Eddie Vedder (John Beckwith) e tudo no palco, sendo também divertidos os momentos em que outros artistas são citados, como no caso do Michael Imperioli encarnando um Buddy Holly que, mais tarde, entrará para o grupo de apoio de Mike e Claire. Espalhando algumas das canções de Diamond em situações chave para dar andamento à narrativa - seja nos problemas de saúde ou nos casos de superação -, a produção brinca sobre o fato de o público meio que só conhecer o clássico Sweet Caroline, ou o fato de Diamond não ser um dos artistas mais expressivos que se conheça. O que não impediu o sucesso da banda. Doce e amargo, como uma música triste de melodia feliz, esse é o tipo de projeto melodramático e inspirador que, em tempos de turbulência, parece recuperar, em partes, os ideais do sonho americano. Por mais triste que seja, importantíssimo lembrar, um País sem saúde pública.

Nota: 6,5

 

Curta Um Curta - O Diabo Não Tem Descanso (The Devil Is Busy)

De: Geeta Gandbhir e Christalyn Hampton. Documentário, EUA, 2024, 31 minutos.

"Nunca pensei que eu teria mais direitos há 25 anos do que a minha filha tem agora". A frase dita por uma das personagens do curta documental O Diabo Não Tem Descanso (The Devil Is Busy) - que está disponível na HBO Max e que é um dos indicados ao Oscar em sua categoria -, pode até chocar, mas nunca surpreender. Estamos, afinal, falando de aborto em um País (os Estados Unidos), a cada dia mais reacionário ou avesso a qualquer medida de avanço civilizatório. O que só piora com governos como o de Donald Trump - ocupadíssimo com a guerra, qualquer que seja, enquanto a população padece. Na trama acompanhamos a rotina de Tracii, a chefe de segurança de uma clínica feminina de Atlanta que, frente a uma série de restrições resultantes de medidas retrógradas votadas pelo Congresso, precisa lidar ainda com um grupo de doidinhos de bairro que protestam em frente ao local (normalmente aquele tipo de desocupado que se considera moralmente superior, mesmo sendo uma das piores pessoas possíveis para a sociedade).

 


Em um período de um dia, o curta dirigido por Geeta Gandbhir e Christalyn Hampton - aliás, Geeta também é o nome por trás do excelente documentário A Vizinha Perfeita (2025), um dos favoritos em sua categoria para o Oscar -, acompanha o dia a dia de Tracii, desde a recepção de pacientes (que, em muitos casos, chegam ao local escondidas ou envergonhadas), lhe possibilitando o acesso a serviços médicos, exames de rotina e cuidados preventivos. Os abortos em si, a causa de toda a polêmica que emerge do cidadão de bem que acha que as decisões políticas do País devem ser feitas com a Bíblia debaixo do braço, só podem ser realizados até o limite de seis semanas de gestação - momento em que muitas das jovens sequer percebem que estão grávidas. Do receio das profissionais em serem presas por realizarem seu ofício, passando por discussões sobre os limites da autonomia da mulher em uma sociedade em que homens engravatados em gabinetes tomam as decisões, a obra propõe a reflexão em um cenário de retrocessos.

 

terça-feira, 3 de março de 2026

Cinema - Arco (Arco)

De: Ugo Bienvenu. Com Oscar Tresanini, Margot Oldra e Ugo Bienvenu. Animação / Fantasia / Ficção científica, França / EUA / Reino Unido, 2025, 89 minutos.

"Você não me contou qual o seu pedido. Eu queria que as coisas... mudassem". É possível ter esperança em relação ao futuro? Em relação ao mundo que habitamos? Vamos combinar que, às portas de uma nova guerra mundial, em um contexto de crises políticas, sociais e ambientais, uma obra mais ou menos otimista como a singela animação Arco (Arco) parece quase excessivamente ingênua. Utópica, em alguma medida. As mudanças sonhadas pela pequena Íris (Margot Oldra) podem sugerir certa ambiguidade de quem é apenas uma pré-adolescente cheia de dúvidas, medos e incertezas. Mas ela também funciona como uma ideia mais ampla, naquele cenário - o ano é 2075 e o mundo parece em direção a um colapso inevitável. Aliás, no universo habitado por Íris e seus familiares, as casas são equipadas com reforçadas e enormes redomas de vidro, que as protegem de queimadas, tornados e outras catástrofes climáticas. Um processo que chegou a um ponto de não retorno.

Mas a parte em que Íris surge na história dirigida por Ugo Bienvenu - e que é uma das indicadas ao Oscar na categoria Animação - é a segunda. Porque no começo de tudo estamos no ano de 2932, em um mundo em que a devastação climática fez com que a Terra ficasse alagada de forma permanente, com as residências sendo construídas sobre altas palafitas. Em cada habitação há toda uma energia de sustentabilidade, o que é reforçado pela ampla biodiversidade que rodeia cada casa - e não demora para que compreendamos os motivos desse ambiente ecologicamente favorável: às portas do terceiro milênio as viagens no tempo já são uma realidade, o que faz com que os pais do protagonista Arco (Oscar Tresanini), retornem ao passado sempre voltando com alguma variedade de planta a tiracolo, que será propagada após plantada. Sim, aparentemente o mundo aprendeu algum tipo de lição de que sem florestas, árvores, fotossíntese e todo o resto, não há vida.

 


Só que nem tudo são flores para Arco, que se ressente com uma medida de Governo que impede que crianças viajem no tempo - o que só é permitido a partir dos 12 anos. Insatisfeito, o menino resolve furtar a capa mágica de sua irmã, bem como o diamante de refração que permite a conclusão da jornada, na ideia de voltar ao tempo dos dinossauros (o garoto parece ser fã da turma do Jurassic Park). Só que, claro, as coisas saem errado e Arco acaba caindo justamente em 2075, sendo encontrado no meio do mato por Íris. A mesma que fará de tudo para proteger o visitante inesperado, principalmente de um trio meio maluquete de conspiradores - seus nomes são Dougie (Vicente Macaigna), Stewie (Luís Garrel) e Frankie (William Lebghil) - que querem capturar o menino de todas as formas, por acreditarem já terem visto aparições do tipo duas décadas antes. Desesperado, como se fosse um ET de Spielberg, Arco fará de tudo para tentar voltar para casa. Tendo como barreira o fato de ter perdido a sua pedra preciosa em meio à queda.

E como se as coisas não fossem excessivamente complicadas, Arco e Íris precisam lidar com outras preocupações - os pais da menina, por exemplo, nunca estão em casa (aparecem apenas como hologramas que trabalham, pelo visto, em escala 7x0). Já o carismático robô Mikki (o próprio Ugo Bienvenu), a despeito dos seus esforços em ser uma espécie de babá que é pau pra toda obra, acaba pifando em certa altura, o que atrairá a atenção de outros robôs. E tudo piora quando um enorme incêndio florestal se inicia, sendo que uma das únicas chances de Arco poder voltar envolve a possibilidade de um dia com sol e chuva ao mesmo tempo. Discutindo temas relacionados à importância das amizades, memória e infância a obra, que está em cartaz no cinemas, equilibra bem instantes singelos, divertidos, tensos e reflexivos. Nos fazendo pensar sobre futuro, especialmente no que diz respeito aos impactos da tecnologia e do clima para as próximas gerações.

Nota: 8,0

 

Pitaquinho Musical - Marta Del Grandi (Dream Life)

Vamos combinar que existem discos que soam tão pequenos, tão minimalistas, mas que parecem se expandir a cada nova audição, como se preenchessem todos os espaços. E é exatamente esse o sentimentos com Dream Life, o novo registro de inéditas da italiana Marta Del Grandi. De atmosfera simples, mas emocionalmente amplo, o álbum propositalmente gira em torno da ideia dos sonhos - mas não apenas evocando imagens oníricas, mas como uma metáfora para expectativas, memórias, desejos e a forma como nos relacionamos com o presente. A própria artista, em entrevistas, revelou que as coincidências e encontros que teve durante a concepção do registro, a levavam sempre de volta a esse contexto em que o real e o irreal, ou o concreto e o abstrato, se misturam. "As canções refletem isso, equilibrando momentos mais introspectivos e partes mais surreais e extravagantes", apontou a cantora.

 


 E um bom exemplo desse expediente pode ser percebido na evocativa 20 Days of Summer que, com seus efeitos eletrônicos minúsculos, refrão pegajoso e estilo vocal rarefeito soa ao mesmo tempo nostálgica, mas contemporânea, altamente pop e sensual, mas de tintas experimentais e econômicas - o que é reforçado pela letra de espírito transitório sobre expectativas, memórias e desejos (Como me perdi numa nuvem? / Vinte dias de verão é tudo o que me resta / Para continuar e tentar respirar). Em outras, como na magnética Shoe Shaped Cloud, o pano de fundo político se entrecruza com ideais de identidade, de consciência e de tempo presente, com a figura da nuvem funcionando como uma alegoria visual que se conecta com emoções e experiências internas (Há uma nuvem em forma de sapato / Bloqueia o céu acima de nós).

Nota: 8,5

segunda-feira, 2 de março de 2026

Novidades em Streaming - O Ônibus Perdido (The Lost Bus)

De: Paul Greengrass. Com Matthew McCounaghey e America Ferrera. Drama / Suspense, EUA, 2025, 129 minutos.

Praticamente duas horas ininterruptas de um ônibus cheio de crianças em idade escolar, tentando se livrar a qualquer custo de um incêndio de proporções devastadoras. Bom, digamos que se você é masoquista o suficiente, bem-vindo à O Ônibus Perdido (The Lost Bus), obra do diretor Paul Greengrass - de Relatos do Mundo (2020) - e que só dei play por causa da maratona Oscar 2026 (a produção tem uma única e merecida indicação na categoria Efeitos Visuais). Por que eu preciso dizer a vocês que, com mais de três décadas como fã de cinema e sem soar presunçoso, a gente meio que fica com o faro apurado na hora de detectar filme ruim. Sabe aquela coisa que hoje em dia a gente tem de identificar bolsonarista só de olhar pra estampa do sujeito? Pois é, é meio que uma habilidade desenvolvida e, vamos combinar que filme catástrofe talvez combinasse mais com meados dos anos 90. Ou talvez, vá lá, fosse melhor se não fosse tão focado no heroísmo do sujeito taciturno que resolve salvar o dia por conta própria.

E por mais que as queimadas - e as tempestades, as nevascas, os tornados e outros problemas climáticos - estejam se intensificando a cada ano, a gente não vai ver uma linha a mais sobre como o aquecimento global e as crises do setor podem ser decisivas a cada nova catástrofe. Ainda no começo do filme, enquanto o motorista de ônibus Kevin Mckay (Matthew McConaughey) leva as crianças em segurança para as suas casas - em meio a avisos sobre colocarem o cinto, não chegarem perto da janela ou não bagunçarem -, o rádio alerta para os mais de 210 dias sem chuvas no norte da Califórnia. Com a tendência de a situação se agravar nos próximos dias. Some-se a isso as instalações precárias das torres de transmissão da concessionária Pacific Gas & Eletric (PGE), que fornece luz e gás natural para a região, e tá feito o estrago. Uma fagulha que seja de um equipamento mal ajustado e o resultado pode ser fatal.

 


Aliás, como foi nesse caso - o evento ocorreu em novembro de 2018, destruindo 13.500 casas e deixando 85 mortos. Fora a devastação ambiental, com seus danos incalculáveis. Poderia ser este um filme de denúncia sobre o absurdo de deixar nas mãos de empresas preocupadas apenas com o lucro, o destino de milhares de pessoas? Poderia. Mas esse não é um projeto sobre a tragédia do capitalismo tardio e sobre como muita gente queimará meio que praticamente viva se práticas mais sustentáveis não forem adotadas meio que pra ontem - o que só piora com o governo Trump. Aqui, em meio a bandeiras estadunidenses que se espalham a cada gabinete ou fachada de prédio, e bombeiros com caras de poucos amigos sem saber muito bem que rumo tomar diante do caos, emerge o destemido Kevin, um ferrado que afundou em meio a decadência do sonho americano.

E como nesse tipo de projeto clichê pouco é bobagem é claro que o protagonista é aquele sujeito poucas ideias, que adia o conserto do próprio ônibus colocando todo mundo em risco, ao mesmo tempo em que precisa lidar com traumas pessoais como a superação do luto pela morte do pai, com quem ele não teve contato por mais de duas décadas, enquanto tenta se aproximar do filho, que não o tolera. Nesse contexto há ainda a mãe de Kevin, Sherry (Mary Kathlene McCabe), uma idosa dependente. Ah, ele é separado. E odeia seu emprego. Mas claro que, mesmo sendo alguém meio intragável, será ele o recrutado para salvar um grupo de alunos que está isolado em uma escola próxima a uma zona de evacuação de Paradise, aos cuidados da carismática professora Mary (America Ferrera). Ali pelos vinte e poucos minutos ele chega no local, recolhe todo mundo iniciando a interminável tentativa de escapada. Tudo em meio a embates de bastidores envolvendo burocratas sem graça alguma e o caos total no trânsito. E boa sorte pra quem aguentar o suplício até a conclusão.

Nota: 2,5