Vamos combinar que algumas bandas demoram um pouco pra "acontecer" pra um público mais amplo e, por mais contraditório que isso possa ser, é também uma oportunidade para que esses artistas depurem seu som ao máximo para que a entrega seja a melhor a cada novo lançamento. E esse parece ser exatamente o caso do Ratboys, grupo de Chicago que chega ao seu sexto - e disparadamente o melhor - registro de inéditas. Cada vez mais distante do lo-fi um tiquinho mais intimista que marcaria os primeiros registros da carreira de mais de dez anos de existência, o coletivo parece expandir a sua sonoridade para além do indie de cafofo (que sempre foi ótimo, ressalte-se), com a chegada do excelente Singin' to an Empty Chair. Mais polido, por vezes ensolarado e com um aceno ainda mais acentuado para o comercial, o álbum é um primor de produção, equilibrando de forma perfeita as guitarrinhas rock que dão sustentação às melodias primaveris - por mais que os temas do disco possam ser cabeçudos.
Aliás, há um conceito - o da "conversa com uma cadeira vazia" - que meio que une a coisa toda. E que fica mais evidente em Just Want You to Know the Truth, peça central do registro e um épico de mais de oito minutos, em que emergem temas ligados à vulnerabilidades e traumas familiares. "Meu terapeuta me deu essa ideia não apenas para a composição, mas para o meu próprio processamento da vida e de todas essas grandes mudanças que minha família está passando", enfatizou em entrevistas. Em outros instantes, assuntos como distanciamento emocional (Open Up), falta de conexão em relacionamentos (Anywhere), aceitação e passagem do tempo (Penny in the Lake) e frustração e desejo de transformação (Burn it Down), formam esse clima meio generalizado de terapia, quase como um monólogo interior. Ainda assim é importante que se diga: o disco nunca soa triste ou sorumbático, e um bom exemplo é a grudenta Know You Then, uma das melhores canções desse início de ano. Vale a atenção.
De: Chris Appelhans e Maggie Kang. Com Arden Cho, May Hong, Ji-young Yoo, Ahn Hyo-seop e Lee Byung-hun. Comédia / Fantasia / Musical, EUA / Canadá, 2025, 95 minutos.
Vamos combinar que não é difícil compreender a verdadeira comoção gerada por Guerreiras do K-Pop (KPop Demon Hunters), obra disponível na Netflix e que está indicada ao Oscar 2026 na categoria Animação. Primeiro de tudo que é um filme esteticamente lindo. Depois tem as personagens cheios de carisma e extremamente bem desenhadas - com personalidades distintas. Aí entra o senso de humor e as ótimas piadas, que se intercalam com algumas das melhores canções pop da última temporada. É tudo tão legal que a gente até meio que ignora a historinha lugar-comum sobre autoaceitação e respeito às diferenças - algo que se tornou meio que um padrão no gênero - mas que, ainda assim, é super bem construída, trazendo o tema com leveza. Os adolescentes certamente adoram. E a geração 30+ inevitavelmente se divertirá, principalmente pelo fato de alguns dos vilões serem integrantes de uma boy band antiquada, que certamente faria sucesso na segunda metade dos anos 90.
Ah, e vale comentar uma coisa que me preocupou desnecessariamente, antes de conferir o filme dirigido pela dupla Chris Appelhans e Maggie Kang: não é necessário ser um grande fã de KPop para apreciar a produção, já que, música pop de qualidade é música pop de qualidade em qualquer parte do globo. Bom, a trama não poderia ser mais graciosa, por mais que envolva uma espécie de maldição em que demônios atacam vítimas humanas, para levar suas almas que servirão de alimento a um líder macabro - seu nome é Gwi-ma (Lee Byung-hun) e ele se assemelha a uma grande fogueira de tonalidades preta e violeta (a cor costuma ter associação com a morte). A forma de barrar essa entidade macabra envolve simplesmente a música. O canto. Algo que, através dos tempos uniria a população, criando uma espécie de barreira protetora dourada, chamada de Honmoon. Capaz de isolar o mundo que vivemos, da dimensão sombria.
É é aí que entra o nosso trio de heroínas integrantes do grupo Huntrix, sendo elas Rumi (Arden Cho), que vem de uma verdadeira dinastia de cantoras, Zooey (Ji-young Yoo), habilidosa rapper e letrista e Mira (May Hong), espécie de ovelha negra da família, que é iconoclasta a ponto de ter usado um saco de dormir na mais recente edição do Met Gala (em mais um aceno ao público adulto). São elas que seguem uma linhagem de jovens cantoras que, anos a fio, mantém o Gwi-ma nos submundos, não sendo capaz de levar seu plano maldito a cabo. Bom, ao menos até agora e dois são os motivos principais que complicarão as coisas: o primeiro é o fato de Rumi não apenas ter um segredo de infância que pode colocar tudo a perder, mas também ver a sua voz falhar justamente alguns dias antes da decisiva apresentação no Idol Awards (sendo a vitória fundamental para a consolidação do Honmoon). Já o segundo é que Gwi-ma resolve dar uma cartada um tanto ousada: criar no submundo uma boy band, seu nome é Saja Boys, que possa atrair a atenção dos fãs - e de suas almas, que lhe servirão de alimento.
E é muito bonito e engraçado ver como tudo se desenrola, principalmente quando entra em cena o enigmático Jinu (Ahn Hyo-seop), o líder dos Saja que estabelece uma relação muito próxima de Rumi. Jinu também preserva um dolorido segredo do passado, que fez com que ele abandonasse a família para se aproximar de Gwi-ma, sob a promessa de uma vida melhor através da música. Algo que nunca se consolida para além dos planos maquiavélicos do tal ser - e é absurdamente lindo ver as trocas entre esse casal central, que se aproxima e se afasta de acordo com os ventos da narrativa e que, todo o mundo já sabe, precisará unir forças para que o mal maior seja confrontado. Que músicas como Golden, Free (a minha preferida), What Ir Sounds Like, How It's Done e, inclusive Soda Pop (dos Saja) sejam tão monumentais, grudentas e performáticas, ajudando ainda a narrativa a andar, com suas letras cheias de significados, metáforas e ambiguidades, é só a cereja do bolo. É um filme pra todo mundo e acho difícil que alguma animação mereça mais o Oscar.
De: Park Chan-wook. Com Lee Byung-hun, Son Ye-jin, Park Hee-soon e Lee Sung-min. Comédia / Drama / Policial, Coréia do Sul, 2025, 139 minutos.
De Tempos Modernos (1936) à Parasita (2019) não foram poucos os filmes que nos mostraram ser possível fazer a crítica ao capitalismo - e sua sanha devorada -, mas sem abrir mão do tom ácido, debochado. Aliás, talvez essa seja uma escolha bastante certeira na hora de abordar o tema - com todo o respeito às obras sisudas. A gente ri de nervoso frente ao absurdo. Mas também compreende bem as metáforas - mesmo que o ato de superar candidatos a uma vaga de emprego, se torne uma luta meio que literal demais pela sobrevivência. E esse é justamente o caso de A Única Saída (Eojjeolsuga Eobsda), obra do diretor Park Chan-wook - do recente e ótimo Decisão de Partir (2022) -, que está em cartaz nos cinemas e que, em alguma medida, repete as ideias apresentadas no excelente O Corte (2005) do grego Costa-Gavras. As duas produções, aliás, foram inspiradas em um romance do escritor Donald Edwin Westlake, de 1997.
Na trama, Man-soo (Lee Byung-hun) vive uma vida de comercial de margarina. É feliz ao lado da esposa e dos dois filhos, tem uma casa ajardinada que lhe permite fazer aquele churrasco gostoso no final de semana a ponto de ele sussurrar, que tem "tudo", após um abraço coletivo em família. Bom, isso até a fábrica de papel que ele trabalha ser vendida para um grupo de investidores estrangeiros que pretendem fazer um corte de 20 por cento da força de trabalho. Pouco importa o fato de Man-soo, com seus 25 anos de dedicação à firma, ser um dos mais experientes - ele tenta argumentar com os novos diretores. "Eles não te deram a enguia, te deram?", pergunta um colega, dando a entender que o peixe em formato de cobra é não apenas um sinal de que ele está prestes a ser demitido, como também a alegoria sexual inevitável, que alude à ponta mais fraca dessa equação. O operário padrão, o chão de fábrica, é sempre quem se ferra nesses casos. Sem muita margem pra negociar com o patrão.
Desesperado, Man-soo entra pra uma espécie de mentoria ridícula dessas que, ao invés de ajudar, parece gerar mais pressão. A ideia é que ele volte ao mercado de trabalho em três meses - e as dolorosas entrevistas de emprego, com salas cheias de sujeitos arrogantes de terno e gravata, parecem piorar tudo (e a cena em que o protagonista tenta simplesmente ver o rosto de um de seus interlocutores, sendo atrapalhado por uma luz estourada do sol que vem da rua, é só mais uma metáfora para o sofrimento do homem). Em família, a ideia é cortar todos os gastos supostamente excessivos - aulas de dança, a conta da Netflix -, e começar a pensar na venda da casa e do carro como forma de evitar dívidas. A esposa Mi-ri (Son Ye-jin) volta a trabalhar em um consultório odontológico. Até os cachorros têm de ser doados momentaneamente, para desespero das crianças. Tudo parece complicado até Man-soo enxergar uma luz no fim do túnel. O que lhe exigirá uma tomada de decisão extrema.
[SPOILERS A PARTIR DAQUI] Em meio a tantas humilhações, o sujeito decide que quer a vaga de um gerente da empresa concorrente Moon Paper - o que envolve dar cabo de um certo Seon-chul (Park Hee-soon), que é o detentor do posto. Só que não basta apenas isso: para ficar com o cargo, ele precisa provar que é o melhor em sua área - que é o momento em que ele leva a noção de capitalismo tardio e de selvageria do mercado de trabalho ao limite, atraindo os outros postulantes para uma vaga fictícia, criada por ele. O que lhe permitirá colocar em prática um plano diabólico de... assassinato! Repleto de sequências excêntricas que evidenciam a completa inaptidão do sujeito para o seu propósito - tentativas falhas, fugas aleatórias, emboscadas que não funcionam a contento -, o filme avança como uma experiência desalentadora e pessimista, mas também hilária e ácida sobre o absurdo de, em tempos de automação de tudo, ainda estarmos disputando um espaço que nos garanta o mínimo de dignidade. Que ele seja em uma fábrica de papel, talvez seja só mais uma das ironias.
Ao concluir o documentário em curta-metragem Armado Com Uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud (Armed Only with a Camera: The Life and Death of Brent Renaud), fiquei com a impressão de que o homenageado no filme merecia mais. Assim como a história parece carecer de um pouco mais de profundidade - especialmente sobre os horrores da guerra e sobre quem, na maioria dos casos, a patrocina. Sim, porque assistir a um bando de militares homenageando o cineasta e documentarista Brent Renaud - assassinado em 13 de março de 2022 por tropas russas, enquanto documentava a Guerra da Ucrânia -, é pouco. Famoso por coberturas de conflitos e atentados diversos em países como Iraque, Somália, Haiti, Afeganistão e Honduras, o profissional deixou um amplo legado, que documenta o custo humano e o absurdo como um todo das guerras. O que fez com que pagasse com a própria vida - assim como centenas de jornalistas que atuam em locais do tipo.
"O jeito que você segura essa câmera, dá pra ver que você faz isso com o coração", resume um homem em uma maca, gravemente ferido, após os atentados com caminhões-bomba na cidade de Mogadíscio, a capital de Somália - um dos tantos momentos de impacto. Essa humanidade do homem que está armado apenas com uma câmera se espalha por outros fragmentos, como na relação com o irmão autista Craig, pelos animais e na paixão pelo seu próprio ofício. Que o curta disponível na HBO Max - e que é um dos indicados ao Oscar em sua categoria na premiação desse ano - poderia ser um longa, com mais ângulos, mais vozes e mais política (especialmente em tempos de avanço da extrema direita nos próprios Estados Unidos), não resta dúvida. De qualquer forma fica o registro deste projeto que funciona mais como uma desalentadora (e pequena) homenagem, do que como uma produção com mais estofo.
De: Lynne Ramsay. Com Jennifer Lawrende, Robert Pattinson, Lakeith Stanfield, Sissy Spacek e Nick Nolte. Drama, EUA / Reino Unido, 2025, 119 minutos.
Quem se aventurou a ler Morra, Amor (Die My Love), obra de Ariana Harwicz na qual o filme de Lynne Ramsay - de Precisamos Falar Sobre o Kevin (2011) e Você Nunca Esteve Realmente Aqui (2017) - se inspira, encontrou um livro curto, mas denso, caudaloso, quase intransponível em alguns momentos. Como uma alegoria que busca desfazer a romantização da maternidade, o próprio texto árido e direto de Harcwicz se apresenta como uma experiência catártica, incômoda e cheia de ambiguidades, que converte à chegada de um filho a um tipo de cárcere socialmente imposto. Presa em casa com um bebê que provavelmente ela não desejava e que apenas serve para legitimar o que se espera em termos de papeis de gênero, a protagonista Grace (Jennifer Lawrence), embarca em uma espiral de loucura, medo e violência. E de contradições - entre ser a mamãe idealizada, tradicional e plena e ser uma mulher com desejos, anseios e sonhos (muitos deles suprimidos).
Sim, pode ser meio desafiador pra quem está acostumado a narrativas um pouco mais convencionais - especialmente aquelas que glorificam o núcleo familiar como um conjunto invariavelmente harmônico e perfeito. Mas quem se aventurar a olhar para além dessa camada mais superficial, encontrará uma obra incômoda, que nunca julga sua protagonista - uma mulher, aliás, que parece em luta interior constante. E não deixa de ser interessante notar como tanto no livro, quanto no filme, os protagonistas parecem mergulhados em uma espécie de sonho psicótico, enevoado e bucólico, em que a beleza da natureza frondosa do entorno da propriedade em que moram, colide com a escuridão interior da casa. Uma casa, aliás, que Grace e Jackson (Rober Pattinson) "herdam" de um tio que teria se suicidado no local. O que serve como reforço desse cenário de tensão e de perturbação crescentes.
Aliás, em uma das primeiras sequências, Grace avança por meio do capinzal como se fosse uma felina, observando as suas presas. No alpendre da casa, Jackson e o bebê chamam a mamãe que, estranhamente, se aproxima com uma faca grande na mão, daquelas de cortar carne. Em nenhum momento ela faz insinuação de que irá ferir o próprio filho - mas não deixa de ser curioso notar como bastam alguns minutos de filme para que já sejamos catapultados para o senso de desorientação que guiará a protagonista pelas próximas duas horas. Diferente de outras mães ela não tem saco para a paparicação de outras mulheres, quando vai de carrinho de bebê à tiracolo ao mercadinho da região. Também se irrita com o cachorro recém adotado, que não para de latir por nada nesse mundo. O marido distante, que muitas vezes ela sequer sabe direito onde está - só pra cumprir o padrão do homem médio que sobrecarrega a mulher -, também a deixa inquieta. "Minhas mãos estão em minha buceta porque você come todo mundo menos eu", esbraveja ela durante uma discussão. É só mais um tópico.
O prazer suprimido também fica evidente em seu desalento como escritora que precisa adiar projetos - sendo igualmente potente um instante em que a tinta de sua caneta se mescla com o leite que verte de seus seios. Os universos colidem. Paixão e fúria, tesão e ternura, agitação e calmaria. Não por acaso, como forma de quebrar essa lógica de uma existência padronizada, o surgimento de um misterioso motoqueiro da vizinhança (Lakeith Stanfield) funciona como projeção de desejo (inclusive erótico), de pulsão de fuga e de violência que nunca se concretiza (o que talvez explique o pedido de Grace para que o sujeito corte o próprio lábio). Como afirmei antes, tanto livro como filme, que está disponível na Mubi, permitem uma série de interpretações, ainda que nunca fujam da ideia de ruptura das tradições, que colocam frente a frente uma certa vida domesticada e uma alucinação guiada pelo desejo. Cortante, instável, sensual e magnética, essa é aquela produção que nos deixa pensando depois que os créditos sobem. O que não deixa de ser um mérito.
De: Kaouther Ben Hania. Com Motaz Malhees, Saja Kilani, Clara Khouri e Amer Hlehel. Drama, Tunísia / França / EUA, 2025, 89 minutos.
"Vocês acham mesmo que a voz desesperada de uma criança vai despertar a empatia deles?". Vamos combinar que a pergunta feita pelo socorrista Omar (Motaz Malhees), perto do terço final de A Voz de Hind Rajab (Sawt Hind Rajab), é de uma franqueza excruciante. Àquela altura, tanto Omar quanto Rana (Saja Kilani) e a terapeuta Nisreen (Clara Khouri) parecem já exaustos, incomodados, desesperançosos. Gritam entre si em meio a um estresse alarmante - e não poderia ser diferente, como integrantes do movimento internacional humanitário Crescente Vermelho que, ali, atua junto à Faixa de Gaza. O período é o início daquela que ficaria marcada como uma das mais violentas e desmedidas ações militares de nossos tempos - a do genocídio perpetrado pelo exército de Israel contra o povo palestino. Milhares de pessoas morreram. Milhares de CRIANÇAS morreram. E seguem morrendo. A voz desesperada de uma criança é só mais uma, tentando despertar empatia entre sionistas que pregam a barbárie.
Só que há uma diferença no ótimo filme de Kaouther Ben Hania - dos excelentes A Bela e Os Cães (2017) e O Homem Que Vendeu Sua Pele (2020) -, que é o enviado da Tunísia à categoria Filme Estrangeiro no Oscar desse ano e que está em cartaz nos cinemas. Aqui, a voz abafada, chorosa e suplicante que ouvimos do outro lado de telefone não é a de alguém interpretando. De uma criança fazendo de conta. A voz é a da Hind Rajab real, uma criança de seis anos que implora por ajuda durante horas, após um ataque das forças militares de Israel dizimar os corpos dos tios e dos primos da pequena (que estava em um carro em um espaço ocupado). Do outro lado da linha, Omar e Rana se revezam ao telefone para, na medida do possível tentar tranquilizar a menina, em meio a um cenário em que não há nada tranquilo. Bombas seguem explodindo no entorno. Os barulhos de tiros emergem do nada. Hind tenta se esconder ao mesmo tempo em que suplica aos socorristas: "por favor venham me buscar. Estou com medo. Eu imploro".
E, sinceramente, um filme como esse é um tapão na cara da nossa sociedade, que segue assistindo passivamente os atos violentos de Netanyahu e sua gangue, sob a desculpa de estar em busca de integrantes do movimento de resistência Hamas. Aliás, não é preciso ir muito longe para saber que os repetidos cessar fogo ou qualquer outro tipo de movimento no sentido de encerrar a guerra - como no caso da bizarra criação do tal Conselho de Paz, perpetrado pelo ditador dos Estados Unidos Donald Trump -, não passam de fachada. As mortes de civis seguem a rodo. Com dados como os da organização Save The Children revelando o pior: que talvez 20 mil crianças tenham sido assassinadas nos últimos anos. Muitos bebês. Não há distinção para quem propõe limpeza étnica. O desespero de Omar, relatado no começo dessa resenha não é por acaso. Ninguém se sensibilizará com uma criança aos prantos, pedindo clemência em meio aos destroços do que resta de um veículo. Ou do que resta da geografia de um País.
E como se esse conjunto todo não fosse absolutamente horroroso, o trio central de socorristas - Nisreen tenta equilibrar as coisas como a voz plácida de uma terapeuta - ainda precisa lidar com as burocracias simbolizadas em tela por Mahdi (Amer Hlehel), que é o responsável por enviar as ambulâncias aos locais dos chamados. O que só será possível após um longo período de negociações em que entidades como a Cruz Vermelha, secretarias de saúde e os governos dos países cheguem a algum acordo que autorize a ação. O angustiante mapa que insiste em ser exibido na tela, mostra que há uma ambulância a apenas oito minutos de distância de onde está Hind - junto a um posto de gasolina. Mas há os protocolos. As decisões não podem ser intempestivas, sob risco de os próprios socorristas serem bombardeados. Mesmo em uma ambulância identificada. A situação é tensa - com a angústia crescente parecendo longe do fim. Infelizmente a gente meio que já sabe como essa história acaba. E obras como essa podem ajudar a dar visibilidade para o tema - que segue urgentíssimo.
De: Joseph Kosinski. Com Brad Pitt, Damson Idris, Javier Barden e Kerry Condon. Ação / Drama, EUA, 2025, 155 minutos.
F1: O Filme (F1: The Movie) ou "como fazer os republicanos voltarem a gostar de cinema". Sério, fazia tempo que eu não assistia a algo tão brega - e tão bocejante - quando essa obra do diretor Joseph Kosinski, indicada ao Oscar. Em geral não tenho problemas com esses filmes à moda soft power estadunidense meio anos 90, com aquela energia Make America Great Again, mas vamos combinar que a história do veterano disfuncional e errático que nunca deu certo em lugar algum, que retorna para uma jornada redentora já nos deixa cansados só de pensar. A gente já viu essa trama umas duzentas vezes e o próprio Kosinski conseguiu fazer uma obra nesse formato mas que ao menos tinha coração (ou alma), que foi o caso de Top Gun: Maverick (2022). Aqui, é lugar comum em cima de lugar comum, com clichês como o do iminente aposentado que entra num embate com o novato, da mulher de meia idade que já não tá casada porque investiu na carreira ou dos chefões que perderão uma puta grana meu, se a coisa não for revertida.
E, veja bem, minha percepção poderia estar enviesada até mesmo por não gostar de automobilismo - o que não me impediu de apreciar demais produções como Rush: No Limite da Emoção (2013) ou Ford vs Ferrari (2019). Mas ver os personagens de Brat Pitt - o piloto da velha guarda que nunca aconteceu Sonny Hayes - e Damson Idris - Joshua Pearce, companheiro de Sonny na equipe APXGP, um aprendiz impetuoso e destemido que pode ser a nova promessa da Fórmula 1 -, disputando quem será o piloto principal em uma corrida decisiva em uma partida de pôquer foi demais pra mim. Na terceira ponta dessa mesa aleatória de Texas Hold'Em, de sujeitos que nunca gostam de perder e que provavelmente acreditam muito na meritocracia, está a diretora técnica da equipe de construtores Kate McKenna (Kerry Condon) porque, bom, porque é conveniente colocar uma mulher nesse papel porque já mata dois coelhos numa cajadada: faz um levíssimo aceno às questões de gênero, ao passo que permite que ela se torna o futuro par romântico (ou algo que o valha) de Sonny.
Durante as duas horas e meia (sim, pra quê?) do filme, ocorre um sem fim de cenas de corrida, com closes dos rostos dos pilotos, na ideia de conferir alguma emoção a mais (só que não). A estas, se somam sequências de tensão total da equipe nos boxes porque, como não poderia deixar de ser em um projeto do tipo, Sonny, que é convidado pelo dono Rubén Cervantes (Javier Barden) para tentar salvar a equipe da falência, é o sujeito mais imprevisível do planeta. Sabe o ousado meio burro, truculento, tosco, que acha que vai vencer na marra? É mais ou menos ele. Mesmo sem pilotar um carro de Fórmula 1 desde os anos 90 - pra deixar a coisa ainda mais sem sentido -, Rubén acredita que Sonny possa ser a salvação da lavoura na reta final da temporada, que conta com investidores insatisfeitos e um futuro incerto. Como um senhor próximo dos 60 anos, mas que se comporta como um adolescente tardio, o personagem de Brad Pitt participa de apresentações aleatórias, como na Nascar ou outras categorias de baixo, o que lhe permite pagar as contas e manter algum tipo de prestígio.
Mas é claro que a chegada do sujeito à APXGP vai bagunçar a coisa toda. E provocar um certo caos. Ainda mais quando, durante uma corrida, Sonny não aceita ceder a sua posição para o promissor Joshua. Mais do que isso, ele resolve patifar praticamente toda e qualquer corrida - obrigando as entradas aleatórias do safety car - que, mais adiante, surgirão como a surpreendente estratégia do protagonista para tentar, pelo menos, chegar em algum momento entre os 10 primeiros. Sim, uma coisa meio Dick Vigarista sem talento. Com trilha invasiva, fotografia saturada, narrador de autódromo estilo Rock and Roll Racing e personagens sem muita personalidade e profundidade - o que se sabe de Sonny é que ele é um falido em todos os sentidos -, a obra se arrasta até que aconteça aquilo que todo o mundo sabe que vai acontecer no final. E que servirá direitinho para que a galera legendária do Café com Deus Pai, que assiste canais de Youtube de coachs financeiros de gosto duvidoso, que beta desenfreadamente no campeonato local e que acredita que o comunismo vai ser implantado no País em 72 horas, saia feliz da sala de cinema. Acreditando que, se persistir, vai vencer na vida.
De: Gabriel Mascaro. Com Denise Weinberg, Rodrigo Santoro e Miriam Socarras. Ficção Científica / Drama / Fantasia / Aventura, Brasil / México / Chile / Holanda, 2025, 87 minutos.
Talvez um pouco menos político ou panfletário do que no anterior (e ótimo) Divino Amor (2019), mas igualmente relevante em seu exame um tanto niilista de uma sociedade cheia de contradições, em que defensores da família tradicional brasileira poderão incorrer em apoio a políticas que, justamente, ignoram a pluralidade desse tipo de estrutura de parentesco. Aqui, a trama lembra um pouco o ainda não muito conhecido livro nacional Velhos Demais Para Morrer (2020), de Vinícius Neves Mariano, sobre uma sociedade que entra em colapso econômico após os idosos se tornarem a maioria da população. O que os obriga a fugir, para tentar burlar o seu destino. Em O Último Azul, o tema do etarismo também está no centro, em uma distopia semelhante à de Mariano, com os velhos sendo enviados a uma espécie de colônia comandada pelo governo, sob a desculpa de dar a eles uma velhice digna.
Nas aparências, as intenções do Estado parecem boas. Os empregados que conduzem os idosos se portam de forma gentil, a ponto de concederem distinções aos aposentados que alcançam a idade limite - e não deixa de ser excentricamente divertido ver Tereza (a ótima Denise Weinberg), chegando em casa depois de um dia de trabalho no frigorífico, se deparando com empregados do governo colocando uma espécie de coroa de louros banhada a ouro na fachada da modesta habitação da protagonista. Sim, isso pode sugerir algo simpático - "a senhora agora é um patrimônio vivo nacional", aponta a jovem que gruda a distinção. Mas não deixa de ser uma espécie de marcador que lembrará a todos a sua volta de que, ali, naquela casinha, reside uma velha. Que já deveria ter ido pra tal da colônia. Com tudo piorando quando Tereza se dá conta de que já deveria ter se aposentado de forma oficial há dois anos - ela está com 77 e a idade limite é 75.
Com receio, em um cenário de incerteza, Tereza, tenta buscar mais informações - sendo barrada em qualquer tentativa de deslocamento. "Sabotar a atividade produtiva nacional é crime grave", lhe lembra outro burocrata. A protagonista queria ainda fazer muita coisa - como por exemplo, voar de avião, algo que nunca teve oportunidade. Mas o simples ato de comprar uma passagem se torna pesaroso. Há a necessidade de aval de algum familiar - sendo a pessoa mais próxima a preocupadíssima filha Joana (Clarissa Pinheiro) que, pelo visto, não vê a hora de a velha ir pra Colônia. Sem muita alternativa, Tereza resolve desviar de sua rota. Pegando um barquinho para a pequena Itaquatioca, momento em que ela estabelece amizade com o enigmático barqueiro Cadu (Rodrigo Santoro), que lhe apresentará alguns mistérios da natureza profunda, como a existência de uma espécie de caracol mágico, capaz de revelar o futuro a quem tiver contato com a sua gosma.
Nesse ponto, a obra também difere de Divino Amor, por apostar em elementos que unem o bucólico e o onírico como forma de dar andamento às ações mundanas. O que é reforçado por um desenho de produção de beleza naturalista e caótica em igual medida - como no momento em que a dupla passa por uma espécie de "cemitério" de pneus que fica na taipa do riacho -, e por uma trilha sonora de tintas envolventes. Simples, curiosa e divertida, a produção, que venceu o Grande Prêmio do Júri no mais recente Festival de Berlim e que chega à Netflix, expõe a insatisfação da população em geral com o afastamento obrigatório de seus familiares - "devolvam o meu avô", "gente velha não é mercadoria" dizem pixações nas paredes -, reservando para o terço final uma surpresa a respeito dos caminhos possíveis para driblar as imposições do Estado. Ao fim e ao cabo, os caminhos envolvem poder, religião e um ímpeto para a engambelação. Mas sem abrir mão do afeto. Nada mais Brasil real do que isso.
Não sei se é o ano musical que ainda não começou direito, mas eu admito que ando me empolgando com uns projetos meio aleatórios e que podem passar batido pelos ouvintes mais descompromissados - e esse é justamente o caso do excelente álbum Quicksand Heart da Jenny On Holiday, projeto em carreira solo de Jenny Hollingworth conhecida por dividir o comando do Let’s Eat Grandma. O disco mergulha sem pudor numa estética oitentista, com sintetizadores ensolarados e melodias que parecem saídas de fitas VHS gastas pelo tempo, mas sem soar datado. Aliás, pelo contrário: há um cuidado moderno na produção que mantém tudo arejado, fresco e alinhado com o pop alternativo atual, o que lhe permite ainda brincar com uma faceta mais leve e direta da composição.
Nesse sentido, a atmosfera do álbum transita bem entre o retrô e o nostálgico, evocando aquela sensação agridoce de lembrança boa, enquanto flerta com um indie pop etéreo, enfumaçado, que pode agradar fãs de Alvvays ou Snail Mail. Não à toa, Jenny já comentou que algumas músicas nasceram a partir das memórias de idas ao karaokê com amigos - e isso se reflete em refrãos simples, cativantes e fáceis de cantar junto. Um bom exemplo desse expediente pode ser percebido na irresistível These Streets I Know, uma baladona que homenageia sua cidade natal e de como nos conectamos com esse espaço em que crescemos - com seus lugares, pessoas, vivências (E todo o meu coração / Está nestas ruas que conheço / Movendo-se a cada dia mais rápido). Ao cabo trata-se de um registro despretensioso no melhor sentido: acolhedor, honesto e perfeito para ouvir com um sorriso no rosto.
De: Mary Bronstein. Com Rose Byrne, Conan O'Brien, Danielle Macdonald e A$AP Rocky. Drama, EUA, 2025, 114 minutos.
Em uma das primeiras cenas de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (If I Had Legs I'd Kick You), a psicoterapeuta Linda (Rose Byrne, em papel que lhe deu uma indicação ao Oscar), está chegando em seu apartamento com a sua filha pequena. Linda pede à pequena que vá ao banheiro lavar as mãos para que possam comer a pizza que encomendaram, quando vem a surpresa: o apartamento está, inexplicavelmente, alagado. Pior do que isso, quando chega à sala para tentar verificar de onde vem o vazamento, o susto: o teto cede abrindo uma enorme cratera escura que une um andar ao outro. Um buraco imenso que servirá como uma espécie de alegoria permanente para uma mulher que se esforça para ser a melhor mãe, mas que nunca parece se considerar suficiente. O buraco em seu peito, metafórico, talvez represente algum tipo de vazio. Uma ausência. Uma sensação de dívida que não se sabe bem qual. Uma carga que faz com que ela chore para, ali adiante, seguir em frente.
Em linhas gerais a obra de estreia de Mary Bronstein é riquíssima em simbolismos que emergem em meio a sentimentos de culpa, de sonhos reprimidos e de inseguranças ligadas à maternidade. Na sociedade há uma cobrança para que uma mãe - que, importante que se diga, não deixou de ser também mulher - esteja inteira para o cumprimento de seu propósito. Mas e se ela estiver despedaçada, fragilizada, quem a acolhe? Um marido muitas vezes ausente? Uma rede de apoio quase inexistente? Um terapeuta que oferece seus serviços de forma excessivamente racional e com pouca empatia? Linda precisa tomar decisões complexas, como se mudar temporariamente para um motel decadente enquanto o reparo do apartamento acontece. Um reparo que demorará mais do que o necessário por conta de burocracias diversas e uma certa má vontade de empreiteiro. O buraco permanece. Como uma lembrança do caos que está instaurado.
E como se problema pouco não fosse bobagem, a pequena filha que nunca aparece fisicamente - apenas como uma voz em desespero alternando momentos de infantilidade de alta demanda (como quando deseja um hamster) com outros de temores legítimos de meninice (quando questiona a todo o momento se ela vai morrer, por qualquer que seja o motivo) - padece de uma severa doença, que faz com que ela necessite de alimentação por sonda. O que exige de Linda uma atenção permanente. Nos poucos instantes de "folga", quando a menina dorme, por exemplo, a protagonista tenta com algum esforço comprar uma simples garrafa de vinho - barrando na má vontade da atendente. Ou mesmo sendo socorrida pelo amigo terapeuta, vivo por Conan O'Brien. O marido conversa com ela apenas por ligações telefônicas espaçadas feitas de sabe-se lá onde. Sendo as demais interações feitas com pacientes e seus distúrbios irritantes, mesquinhos, dos quais nem sempre ela consegue prestar atenção completa.
Uma dessas pacientes é uma jovem mãe de nome Caroline (Danielle Macdonald) que toma uma atitude extrema que movimenta a narrativa - e que dialoga com os assuntos da obra. "Sou o tipo de pessoa que não deveria ser mãe", comenta Linda em certa altura, enquanto revela aquele que talvez seja o grande trauma de sua juventude. O buraco, aquele do apartamento, ganha outros contornos que quase levam a experiência para o campo do realismo fantástico depois da segunda metade, quando o sentimento de culpa se amplia. Ao cabo essa pode ser uma experiência meio dolorosa, ainda que bastante realista, e que trata com uma boa dose de franqueza o processo de romantização da maternidade. A terapia em grupo não funciona. O mesmo valendo para qualquer tentativa de relaxamento. Ou mesmo de flerte, como no caso das desajeitadas investidas do superintendente do motel James (A$AP Rocky). "Eu vou melhorar", balbucia ela à filha de forma quase comovente no ápice do sofrimento. É difícil ficar alheio.
De: Eva Victor. Com Eva Victor, Naomi Ackie, Lucas Hedges, Louis Cancelmi e John Carroll Lynch. Drama / Comédia, EUA / França, 2025, 103 minutos.
"É preferível que você vá direto ao pronto atendimento quando isso acontecer. Certo, lembrarei disso da próxima vez". Talvez só o deboche para que se consiga encarar uma segunda violência, depois que ocorre a primeira. Ou vai ver nem ele. Na cena em que ocorre o diálogo acima, Agnes (Eva Victor, que também dirige), a protagonista do ótimo e impactante Sorry, Baby, está em um hospital para ser examinada, após ter sido estuprada pelo próprio professor. Frente a uma série de protocolos e burocracias que envolvem não apenas a exposição de algo bastante íntimo e traumático, mas também a necessidade de falar meio que o tempo todo sobre o assunto, a jovem parece meio que de saco cheio. Saco cheio de tudo. De não ver uma solução possível ou satisfatória para o seu caso, de ter de rememorar a situação, ou mesmo de ver a condescendência das pessoas - inclusive de outras mulheres, mais preocupadas com a preservação de certa imagem, do que por algum tipo de compensação mais justa.
Sorry, Baby é um filme de impacto, mas que discute o tema do abuso sexual num tom tão irônico, quanto naturalista. Aliás, a obra evidencia algo quase óbvio: a maioria dos casos desse tipo de violência ocorre com pessoas próximas, na maioria dos casos de confiança. No caso de Agnes, ela é uma professora de Artes de uma faculdade do interior da região de New England que, ainda no começo do filme, recebe a visita da amiga Lydie (Naomi Ackie), que está grávida. Aproveitando a estada da amiga, a dupla participa de um jantar meio desconfortável com alguns colegas que integram um programa de pós-graduação coordenado pelo professor Preston Decker (Louis Cancelmi). De modo aparentemente afetuoso, Decker elogia o trabalho de Agnes - ela está desenvolvendo uma tese sobre Virginia Woolf. Em um dia de estudos na casa do docente, a protagonista sai do local correndo. Aos prantos. Quem assiste já sabe o que aconteceu. Mesmo que tudo que se veja seja a fachada da casa do sujeito.
Quando descreve o ocorrido à Lydie - o que envolve as tentativas do professor de tocá-la de forma nada consensual -, ela chega até a ficar insegura sobre como falar. "Isso parece 'aquilo'" comenta ela num tom incrédulo. Na universidade, o conselho disciplinar oferece um suporte de fachada a alguém que inicia uma jornada que lhe deixará emocionalmente exausta. Em resumo, não há muito o que fazer já que, diante do cenário, Decker pediu desligamento da Instituição. Não há como formalizar uma denúncia. Pior, não há nada que necessariamente prove o ocorrido. E pra piorar mais ainda do que tudo, Agnes parece não ter a certeza tão absoluta de desejar, ao cabo, que o sujeito seja punido. Que sua reputação seja comprometida - o que diz muito sobre o sistema patriarcal que vivemos e o medo das vítimas, que são a ponta frágil em uma estrutura de poder. Isso sem falar os protocolos irritantes, como no caso das perguntas do médico ("ele ejaculou em você?").
Sim, isso pode parecer necessário, mas tudo soa ainda mais frio. A burocracia da coisa - da denúncia ao suporte médico e emocional -, tudo parece cansativo, exaustivo. De forma inteligente, a obra realiza idas e vindas no tempo, o que envolverá ainda a presença de outras figuras, como o vizinho Gavin (o sempre inexpressivo Lucas Hedges) e o carismático Pete (John Carroll Lynch), o proprietário de uma lancheria de beira de estrada, que socorre Agnes após uma severa crise de pânico. Um tanto desalentador, o filme evidencia o fato de não haver muita solução em um mundo em que coisas do tipo podem acontecer, inclusive de forma recorrente (o que é reforçado pela sequência em que a protagonista conversa com o bebê da amiga). Mas ainda há espaço pra esperança. Afinal, pode parecer um comportamento meio resignado pensar que a vida continua, em um cenário em que "aquilo" acontece. Em que feridas são abertas e dificilmente curadas. Mas esse talvez seja um filme de sobrevivência e de suavidade nesse mundo tão bruto.
De: Richard Linklater. Com Ethan Hawke, Andrew Scott, Margaret Qualley e Bobby Cannavale. Drama / Biografia, EUA, 2025, 100 minutos.
"Ele era alerta, dinâmico e divertido". "O homem mais triste que já conheci". Vistas nos letreiros iniciais do ótimo (e verborrágico) Blue Moon: Música e Solidão (Blue Moon), que está disponível pra aluguel nas plataformas da Amazon e da Apple TV, as frases acima podem passar meio despercebidas pra quem acaba de dar o play no mais recente filme do diretor Richard Linklater. Ditas, respectivamente, pelo diretor e produtor de teatro Oscar Hammerstein e pela cantora de cabaré Mabel Mercer, as contraditórias sentenças referem-se a mesma pessoa - no caso o letrista e compositor da Broadway Lorenz Hart que, aqui, ganha vida em interpretação marcante de Ethan Hawke, que foi indicado ao Oscar pelo papel. Hawke encarna Hart como a figura ao mesmo tempo amargurada e ressentida, genial e debochada - o que o coloca como um sujeito ao mesmo tempo carente e sem autoestima, mas também confiante e irônico.
Hart por muito tempo foi parceiro do compositor Richard Rogers, com quem escreveu, entre os anos 30 e 40, uma série de peças musicais de sucesso, como The Lady Is a Tramp, My Funny Valentine, Babes In Arms e a canção que dá título à obra de Linklater - aliás, a melodia tristíssima da composição, somada a letra melancólica sobre solidão, parecem ser bastante significativas. Não por acaso, a produção começa pelo final - e até onde se pode depreender do filme, a morte trágica de Hart, após complicações decorrentes de uma severa pneumonia, ainda é envolta em certo mistério. Alcoolista e com forte propensão à depressão, Hart tinha comportamento errático. Sumia por semanas sem dar notícias, o que deixa Rogers (Andrew Scott) exasperado. Tendo de buscar outras alternativas de parceiros criativos, como o jã citado Hammerstein (Simon Delaney).
Aliás, a madrugada em que toda a ação de Blue Moon se passa é justamente a da noite de estreia de Oklahoma! - uma peça nostálgica (de um tempo que supostamente nunca existiu), agridoce e ingênua que, nos anos posteriores à depressão estadunidense parece pronta pra cair nas graças do público. E até da crítica. Só que Hart está irritado. Esse é o primeiro material entregue por Hart e Hammerstein, o que deixa o homem amargurado. Melindrado. E até rancoroso. O que não o impede de ir até o Sardi's, restaurante de Manhattan famoso por receber figuras ilustres ligadas ao cinema e ao teatro, onde haverá uma celebração por conta da noite de abertura. Hart chega antes de todo o mundo e, familiarizado com o local, troca figurinhas com o carismático barman Eddie (Bobby Canavalle), alternando assuntos aleatórios sobre a sua própria (e difusa) sexualidade - "sou um omnisexual" -, a respeito de sua nova musa inspiradora, uma estudante de teatro de nome Elizabeth (Margaret Qualley), que tem um rosto "etéreo" (de acordo com sua descrição) e sobre o seu próprio futuro no mundo das artes.
Não é por acaso que esse preâmbulo que antecede a chegada de Rogers, Elizabeth, Hammerstein e os demais - que converterão aquela madrugada em uma espécie de noite da festa de aniversário de A Malvada (1950) - seja tão saboroso. A coisa quase beira ao cringismo, com Hart colocando a jovem Elizabeth em um pedestal, ao alegar que tem uma relação extrassensorial com a jovem, que bem podia ser sua filha. "É o prelúdio de uma transa", argumenta, enquanto se comporta de forma desajeitada frente aos encantos de sua mais nova amada. Com 1,50m de altura, uma semicalvície e uma arrogância que denuncia certa ausência de dignidade, o protagonista ocupa basicamente todos os frames, indo e vindo pelo ambiente, conversando com outras figuras conhecidas e contemporâneas, como no caso do escritor E. B. White (Patrick Kennedy) ou o futuro diretor de cinema George Roy Hill (David Rawle) - e não deixa de ser interessante descobrir os easter eggs que podem estar presentes nos diálogos descompromissados deles. Aliás, o diálogo é o forte aqui. É ele, basicamente, que faz a coisa escalar. E quase fugir do controle. É ele que inicia e termina. Mais ou menos como foi a vida de Hart. Que tinha na palavra o seu maior trunfo.
Pra alguém tão jovem - apenas 26 anos -, já dá pra dizer que Madison Beer viveu bastante coisa. O que lhe permite ser, sem maiores dificuldades, uma das estrelas pop mais promissoras dessa década. Descoberta por Justin Bieber aos 13 anos após postar uma cover no Twitter, a nova iorquina só lançaria seu primeiro registro em 2021, o respeitável Life Support. Antes disso, ainda na adolescência sofreu com cyberbullying (com vazamento de fotos não autorizadas), passou por decepções com pessoas ligadas à indústria e foi diagnosticada com Transtorno de Personalidade Borderline e depressão. E talvez não seja por acaso que, diante desse contexto de vida complexo - que inclui aí um recente e meio traumático término de relacionamento -, as canções do terceiro registro de inéditas, o ótimo Locket, soem tão maduras e tão "adultas", mesmo quando expõem inseguranças e vulnerabilidades.
Pra quem acha que pode haver algum exagero, pode começar pela espetacular Bittersweet - que soa como uma coisa meio Taylor Swift no começo dos anos 2000, com sintetizadores suaves, melodia grudenta e letra maravilhosa sobre o processo de encontrar a paz, mesmo em um contexto de mágoas e de altos e baixos de um relacionamento (Agora que acabou, você vai culpar a mim por tudo / Eu sei que eu deveria estar amargurada, mas, meu bem, estou agridoce). Unindo o vintage e o futurista, o retrô e o contemporâneo, Beer consegue soar em alguns momentos quase como uma FKA Twigs de tintas mais pop e dançantes (nas movimentadas Yes Baby e Make You Mine), e em outros como uma Ariana Grande contemplativa (na magnética Bad Enough). Sim, pode parecer apenas mais um disco pop de arrancada de ano. Mas é interessante como ele cresce a cada reencontro.
1) Antes de mais nada, saudar aquele que deve ser o maior Oscar da história para o Brasil - não apenas em número de indicações, mas também em termos de chances para o nosso País (para desespero dos patriotas bolsonaristas da Shopee). Além das aguardadas nomeações para O Agente Secreto em Melhor Filme Internacional e para o Wagner Moura na categoria Melhor Ator - com a campanha sendo fortalecida após as vitórias no Globo de Ouro e em outras premiações internacionais, como no Festival de Cannes -, o filme de Kléber Mendonça Filho teve destaque nas categorias categorias Melhor Direção de Elenco e Melhor Filme (e em tempos em que tudo parece tão disputado e diluído no que diz respeito aos votantes da Academia, não custa sonhar).
2) Aliás, as quatro indicações de O Agente Secreto fazem com que ele empate em número de nomeações com Cidade de Deus, que em 2004 recebeu o mesmo número de indicações. Claro que, naquele ano absolutamente TUDO foi uma surpresa, porque o Brasil até enviou a obra de Meirelles ao Oscar de Filme Internacional - mas teve algum atraso na exibição, o que comprometeu a janela de lançamento, sendo recuperado no ano seguinte. Só que esse ano a situação é totalmente diferente. Com a campanha forte do filme - algo que o Brasil parece ter finalmente entendido - a gente meio que sonha com absolutamente tudo. E só saberemos dos resultados em 15 de março de 2026.
3) Mas não vou negar que tava meio ambicioso com o Brasil no Oscar - especialmente com O Agente Secreto. A expectativa era a de que pudéssemos figurar em outras categorias, como Atriz Coadjuvante (como que esnobam a Tania Maria?), Edição ou Roteiro Original. Mas faz parte, a disputa é grande e, aparentemente, a Academia abraçou com força o Valor Sentimental (veja a resenha logo abaixo), que parece ser o nosso grande rival nas disputas. Especialmente em Filme Internacional. A briga promete!
4) Falando em ausências doloridas, não vou negar que fiquei triste pelo fato de o documentário da Petra Costa, Apocalipse nos Trópicos ter sido esnobado. Ele estava na short list, o que deu visibilidade (e torcida). Mas acabou ficando de fora, numa categoria que nem sempre tem muita lógica - com muitos filmes bem contados ficando ausentes da relação final.
5) Ainda sobre Brasil, mais uma grande notícia! Após o crescimento na reta final -
especialmente após o acolhimento do público, que adorou o filme - Sonhos de Trem
foi lembrado não apenas na categoria principal, mas também em
Fotografia. O que, mais uma vez, significa o nosso País na disputa, já que o
diretor de fotografia é o brasileiríssimo Adolpho Veloso, que tem um
trabalho magnífico na construção do cenário de completo desalento na
produção da Netflix. E vale comentar que o sujeito não veio só pra
cumprir tabelam já que, nas bolsas de apostas há boas possibilidades de
ele sair com o carecão dourado na mão!
6) Eu tinha ignorado completamente os filmes Frankenstein e F1 por motivos de, sei lá, muita gente falando mal, reclamando, a crítica não comprando. Agora estão lá, cheios de indicações importantes em categorias relevantes, o que me obriga a assistir ambas as produções. Não sem certo ranço. Ah, sobre os indicados "estrangeiros" (como comentou o Wagner no Critics), adorei as várias nomeações de Bugonia. É um filmaço inexplicavelmente criticado.
7) Graças a Deus que Wicked foi completamente ignorado. O primeiro já era uma xaropice da porra, imagina ter que assistir a um segundo dessa filme, só pra estar em dia com o Oscar? Afe!
Indicados
Melhor Filme
Bugonia F1: O Filme Frankenstein Hamnet: A Vida Antes de Hamlet Marty Supreme Uma Batalha Após a Outra O Agente Secreto Valor Sentimental Pecadores Sonhos de Trem
Melhor Ator
Timothée Chalamet (Marty Supreme) Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra) Ethan Hawke (Blue Moon) Michael B. Jordan (Pecadores) Wagner Moura (O Agente Secreto)
Melhor Ator Coadjuvante
Benicio del Toro (Uma Batalha Após a Outra) Jacob Elordi (Frankenstein) Delroy Lindo (Pecadores) Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra) Stellan Skarsgard (Valor Sentimental)
Melhor Atriz
Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet) Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas Eu Te Chutaria) Kate Hudson (Song Sung Blue) Renate Reinsve (Valor Sentimental) Emma Stone (Bugonia)
Melhor Atriz Coadjuvante
Elle Fanning (Valor Sentimental) Inga Ibsdotter Lilleaas (Valor Sentimental) Amy Madigan (A Hora do Mal) Wunmi Mosaku (Pecadores) Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)
Melhor Direção
Chloé Zhao (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet) Josh Safdie (Marty Supreme) Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra) Joachim Trier (Valor Sentimental) Ryan Coogler (Pecadores)
Melhor Roteiro Original
Blue Moon Foi Apenas um Acidente Marty Supreme Valor Sentimental Pecadores
Melhor Roteiro Adaptado
Bugonia Frankenstein Hamnet: A Vida Antes de Hamlet Uma Batalha Após a Outra Sonhos de Trem
Melhor Filme Internacional
O Agente Secreto (Brasil) Foi Apenas um Acidente (França) Valor Sentimental (Noruega) Sirat (Espanha) A Voz de Hind Rajab (Tunísia)
Melhor Documentário
The Alabama Solution Come See Me in the Good Light Cutting Through Rocks Mr. Nobody Against Putin The Perfect Neighbor
Melhor Documentário em Curta-Metragem
All the Empty Rooms Armed Only With a Camera: The Life and Death of Brent Renaud Children No More: “Were and Are Gone” The Devil Is Busy Perfectly a Strangeness
Melhor Animação
Arco Elio Guerreiras do K-Pop Little Amélie or the Character of Rain Zootopia 2
Melhor Animação em Curta-Metragem
Butterfly Forevergreen The Girl Who Cried Pearls Retirement Plan The Three Sisters
Melhor Curta-Metragem
Butcher’s Stain A Friend of Dorothy Jane Austen’s Period Drama The Singers Two People Exchanging Saliva
Melhor Trilha Sonora Original
Bugonia Frankenstein Hamnet: A Vida Antes de Hamlet Uma Batalha Após a Outra Pecadores
Melhor Canção Original
“Dear Me” (Diane Warren: Relentless) “Golden” (Guerreiras do K-Pop) “I Lied To You” (Pecadores) “Sweet Dreams of Joy” (Viva Verdi!) “Train Dreams” (Sonhos de Trem)
Melhor Direção de Elenco
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet Marty Supreme Uma Batalha Após a Outra O Agente Secreto Pecadores
Melhor Fotografia
Frankenstein Marty Supreme Uma Batalha Após a Outra Pecadores Sonhos de Trem
Melhor Design de Produção
Frankenstein Hamnet: A Vida Antes de Hamlet Marty Supreme Uma Batalha Após a Outra Pecadores
Melhor Edição
F1: O Filme Marty Supreme Uma Batalha Após a Outra Valor Sentimental Pecadores
Melhor Som
F1: O Filme Frankenstein Uma Batalha Após a Outra Pecadores Sirat
Melhores Efeitos Visuais
Avatar: Fogo e Cinzas F1: O Filme Jurassic World: Recomeço The Lost Bus Pecadores
Melhor Figurino
Avatar: Fogo e Cinzas Frankenstein Hamnet: A Vida Antes de Hamlet Marty Supreme Pecadores
Melhor Maquiagem e Cabelo
Frankenstein Kokuho Pecadores Coração de Lutador: The Smashing Machine A Meia-Irmã Feia
De: Joachim Trier. Com Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Elle Fanning e Inga Ibsdotter Lilleaas. Drama, Dinamarca / Noruega / Alemanha / França / Reino Unido / Suécia, 2025, 133 minutos.
Existe uma cena pequena em Valor Sentimental (Affeksjonsverdi), que talvez dialogue diretamente com as ideias centrais do filme dirigido por Joachim Trier - do excelente A Pior Pessoa do Mundo (2021). Nela, durante um jantar, o veterano diretor de cinema Gustav Borg (Stellan Skarsgård) teoriza sobre a produção cultural nos tempos de hoje, tendo como argumento o fato de os artistas atuais serem excessivamente "pequeno burgueses". "Não se escreve 'Ulysses' levando um pirralho pro futebol, ou pagando o seguro do carro" - comenta o sujeito, no limite entre o pedantismo e o elitismo. "Um artista verdadeiro deve ser livre e deve permanecer livre", afirma, deixando em choque as suas duas filhas Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas). Sim, a fala pode soar excessivamente pragmática, direta e até insensível - ainda mais saindo da boca de um senhor de mais de setenta anos, que é cobrado por ter sido, durante grande parte de sua existência, um pai ausente.
Para aqueles que se impactam com aquilo que é dito de forma bastante racional por Gustav, é preciso que se diga que, na mesma sequência, ele garante às filhas incrédulas que elas foram a melhor coisa que lhes aconteceu. Ainda que, como renomado diretor de cinema, ele tenha estado em qualquer outro lugar do que a sua casa. Aliás, é justamente a casa centenária da família, com suas rachaduras, marcas do tempo e até um certo afundamento no solo - numa metáfora bastante clara pra certa decadência do todo -, que é o ponto de encontro de todos ali depois que a mãe de Nora e Agnes e, portanto, a ex-esposa de Gustav, morre. A casa, que atravessa gerações, histórias e memórias - boas ou ruins - e que são evidenciadas em uma bela sequência inicial, pertence ao pai. Que, fugindo de qualquer lógica, resolve que quer utilizá-la como cenário para um próximo filme. Desejando contar com Nora, uma respeitada atriz de teatro, no elenco.
Não é uma equação simples de ser resolvida. Nora pode não ser tão famosa, mas tem seu trabalho - aliás, acaba de estrear uma série que parece ter ido bem junto à crítica. E abomina com todas as forças a ideia de trabalhar com Gustav, seu pai, que meio que é redescoberto pela crítica, após a realização de uma retrospectiva de sua obra, exibida na França - o que inclui a reapresentação de um filme sobre a Segunda Guerra, inspirado na história trágica de sua mãe. E mesmo com seu último projeto tendo sido lançado quinze anos atrás, o trabalho do diretor chama a atenção da jovem Rachel Kemp (Elle Fanning), uma atriz estadunidense da geração Tik Tok, que, por fim, é convidada por Gustav para protagonizar o filme que é recusado por Nora. Entre idas e vindas e diálogos cheios de ressentimentos, a obra se converte em uma experiência familiar complexa sobre um pai ausente que pode ter sido, em sua juventude, um espírito excessivamente livre. Ainda que pai. Ainda que nada perfeito. Ausente. Mas dedicado ao trabalho. O que também possibilitou a criação das filhas.
Em linhas gerais essa é uma obra que utiliza os ambientes apertados da casa da família para reforçar o sentimento de claustrofobia que guia a todos ali - ainda que haja, aqui e ali, espaços para respiro, especialmente na relação tanto de Nora quanto de Gustav com o pequeno filho de Agnes, Erik (Øyvind Hesjedal Loven). A metalinguagem do filme dentro de um filme, sobre uma mãe que se suicida - e que faria alusão à história da própria mãe de Gustav -, pode ser uma alegoria nem tão criativa assim a respeito de luto, memória e algum tipo de busca por conexão. E por mais simples e naturalista que tudo seja, o que é reforçado pela quase ausência de trilha e por uma fotografia acinzentada, de tintas melancólicas, o filme permite uma série de reflexões bastante humanas sobre escolhas, erros, acertos, sonhos que ficam pelo caminho, frustrações e outros temas. "Sou muito sensível e somos muito parecidos", garante Gustav à Nora, no mesmo jantar que cito no começo dessa resenha. Aqui parece que um espírito livre reconhece outro. E, para que ele vá adiante, talvez seja preciso deixar certas coisas pra trás.
De: Emilie Blichfeldt. Com Lea Myren, Thea Sofie Loch Næss, Ane Dahl Torp e Isac Calmroth. Terror / Drama / Comédia, Dinamarca / Noruega / Polônia / Suécia / Romênia, 2025, 109 minutos.
Vamos combinar que, talvez para os padrões atuais, os contos de fadas sejam um tipo de história um tanto antiquada. Jovens virginais excessivamente belas e bondosas, em conflito com entidades malignas quaisquer, aguardando por um príncipe encantado que vai salvá-las em um cavalo branco, com ambos sendo felizes para sempre, pode até ter lá sua mágica em termos de um ideal a ser almejado - pelo menos nas páginas dos livros. Na vida real, em um tempo de avanço da extrema direita, de redpills e de incels violentos que desejam mulheres belas, recatadas e do lar - de preferência a tradwife que passa o dia na cozinha, atendendo com afeto os desejos do marido que mais parece um filho - esse papo não cola mais. E talvez seja justamente por isso que obras como a excelente A Meia-Irmã Feia (Den Stygge Stesøsteren), que chega agora à plataforma Mubi, sejam tão instigantes. Tão subversivas.
Afinal de contas, no filme de estreia da realizadora Emilie Blichfeldt, temos uma quebra completa da lógica existente na história da Cinderela, com a narrativa sendo deslocada para Elvira (Lea Myren), a tal meia-irmã feia, que entra em uma espécie de competição pelo amor do príncipe Julian (Isac Calmroth) com a lindíssima Agnes (Thea Sofie Loch Næss). Se no clássico de Charles Perrault temos uma Agnes pura, incorruptível e de moral inabalável, que é maltratada pela madrasta e pelas duas meias-irmãs - num daqueles casos clássicos de maniqueísmo que envolve a dualidade entre o bem e o mal -, aqui temos a adição de uma boa dose de complexidade no que diz respeito ao comportamento de todos naquele microcosmo. Elvira pode ser feia, mas jamais será tratada como a coitadinha, que agora passa a ser a mocinha. Em igual medida, Agnes também tomará atitudes eticamente questionáveis. Mas a pergunta que fica é, até que ponto vale o esforço para se encaixar em certo padrão de beleza, para atender aquilo que é esteticamente aceitável?
A um amigo, cheguei a afirmar que A Meia-Irmã Feia era quase como um A Substância (2024) dos contos de fadas. O body horror aqui é inserido no comportamento pouco convencional de Rebekka (Ane Dahl Torp), que talvez seja a grande vilã da história. Como a mãe de Elvira - e de Alma (Flo Fagerli) -, Rebekka teme pelo futuro financeiro da família ao se ver falida depois de um casamento arranjado justamente com o pai de Agnes. Na tentativa de manter as aparências, a ideia é arranjar o casamento do príncipe Julian com Elvira, que precisa passar por uma recauchutagem - o que envolverá cirurgias plásticas primitivas no nariz, aplicação de cílios postiços com técnicas rudimentares e até a ingestão de larvas de tênia (a solitária), que lhe possam fazer emagrecer na marra. De forma concomitante, Agnes será impedida a ir a um baile promovido pelo Rei, e que poderá selar o destino do filho a partir da escolha de sua noiva.
Chocante e repulsiva, a obra não alivia nas cenas em que partes do corpo são marteladas, costuradas, cortadas - tudo na busca pelo corpo idealizado, que poderá então ser digno de receber amor (e não deixa de ser interessante perceber como o subtexto serve justamente como alerta em tempos em que debates atuais sobre autoestima, inclusão e diversidade estão tão em alta). Beleza, todos sabem (ou deveriam saber), não é definidora de caráter e os esforços comoventes de Elvira - o que envolve ainda aulas de etiqueta básica -, gerarão mais e mais sofrimento conforme os dias passarem. E, consequentemente, mais ressentimento - o que poderia ser central na explicação de seu comportamento no conto original. Buscando quebrar estereótipos, a o filme busca uma leitura à luz dos nossos tempos, expondo como as exigências estéticas podem ser violentas, excludentes e crueis. E tudo elaborado de forma tecnicamente impecável, o que envolve ótimos efeitos, desenho de produção convincente e trilha sonora incômoda. Blichfeldt afirmou em entrevistas que algumas de suas inspirações são Julia Ducournau e David Cronenberg. Acho que dá pra dizer que os mentores ficariam orgulhosos.
De: Kelly Reichardt. Com Josh O'Connor, Alana Haim, Bill Campo, Hope Davis e Gaby Hoffmann. Policial / Drama, EUA, 2025, 111 minutos.
Um filme sobre roubo de obras de arte moroso, letárgico e sem nenhum espaço pra catarse. E que, ainda assim, parece ser revelador de certo período nos Estados Unidos - no caso, os anos 70 da Guerra do Vietnã e do governo de Ronald Reagan. Assim é o recente The Mastermind, obra dirigida por Kelly Reichardt - do ótimo First Cow (2020) -, que está disponível na Mubi. Na trama acompanhamos o carpinteiro desempregado e trambiqueiro nas horas vagas J. B. Mooney (Josh O'Connor), que engendra um plano nem tão elaborado assim para roubar quatro quadros do pintor Arthur Dove, que estão dispostos em um museu do subúrbio da região de Massachusetts. Sem muita pressa para a execução, Mooney é paciente na hora de examinar como opera o local, com seus guardas que poucos inspiram segurança, caixas de vidro facilmente violáveis e rotas de fuga bastante plausíveis.
Aliás, quando o filme começa a gente até demora um pouco a perceber que ele já está fazendo algum tipo de estudo. Observando por cima de mesas e por entre corredores - enquanto um de seus filhos propõe charadas aleatórias que só servem de distração. Em certo momento ele recua uma pequena gaveta que exibe uma peça de arte que replica um cenário de guerra, de onde furta um "bonequinho" - tipo um soldado. Ninguém percebe a ação que é completa, ao estilo do protagonista do clássico Pickpocket: O Batedor de Carteiras (1959) de Robert Bresson: a peça vai parar dentro de um estojo de óculos e dali para a bolsa da esposa Terri (uma Alana Haim pouco aproveitada aqui), que sequer percebe a ação. Mooney já está trabalhando e o próximo passo envolve contratar três capangas que possam executar o plano. A grana pra pagar o trio será fornecida pela mãe Sarah (Hope Davis), sob uma desculpa qualquer que envolve um futuro projeto de decoração.
Não é preciso ser muito ligado para perceber que esse certo desencanto coletivo - ou mesmo a desesperança por um futuro melhor -, se espalha pelas frestas. Não é apenas o exigente pai de Mooney, Carl (Sterling Thompson) que o cobra pra que ele tome jeito na vida. As perspectivas parecem convincentemente desanimadoras em um País em que mães protestam nas ruas contra a Guerra da Vietnã e em que cartazes do Tio Sam espalhados pela cidade convidam para o alistamento e para um certo espírito de luta pela Pátria. Meio alienado, o protagonista faz seu corre - quer dizer, corre é modo de dizer -, numa tentativa meio desajeitada de furto, enquanto o sistema de segurança falha miseravelmente. Após ser enganado por um dos capangas, Mooney precisa atuar diretamente no roubo. Na fuga. E em uma tentativa desesperada de fazer com que os quadros meio que sumam de vista - em uma época em que câmeras de segurança a cada esquina ainda não eram uma realidade.
Ao cabo, um filme com esse tema poderia ter mais ação, mas aqui a ideia é proporcionar uma experiência contemplativa, excêntrica e até engraçada - como no instante em que Mooney leva os quadros para uma fazenda, derruba uma escada de madeira e quase se machuca. Parece bobo, quase banal em alguma medida, mas é uma evidência generalizada do despreparo em uma antecipação de suspense que meio que nunca se consolida - por mais que a trilha percussiva e jazzística invasiva insista em direcionar para o outro lado. Tecnicamente bem executado, o projeto conta com excelente recriação de época - dos figurinos ao desenho de produção -, com a fotografia dessaturada, entre o azulado e o amarelado, reforçando o caráter arenoso e o retrô. O sonho americano falhou novamente. Por mais que as figuras marginalizadas insistam em encontrar seu rumo em um ecossistema que desmorona.
Vamos combinar que o The Cribs é aquele tipo de banda que dificilmente erra e, em seu nono registro de estúdio, Selling a Vibe, o trio formado pelos irmãos Gary, Ryan e Ross Jarman reafirma uma de suas maiores virtudes: a capacidade de envelhecer com dignidade sem abrir mão da identidade. A banda continua fiel ao seu DNA indie, com algumas pinceladas de power pop e pós punk, mas agora soando menos impulsiva e mais consciente de cada escolha. Mais ou menos como se tivesse trocado a urgência juvenil do trabalho anterior, o frenético Night Network (2020), um dos nossos favoritos daquele ano, por um refinamento emocional - o que vá lá, certamente tem a ver com a maturidade de quem já está há mais de 20 anos na estrada. Em resumo, as guitarras seguem lá, mas aparecem menos nervosas, abrindo espaço para melodias que respiram e crescem com o tempo.
Esse novo momento fica evidente em canções como a faixa-título, Never The Same e Self Respect,
que apostam em arranjos mais contidos e em um lirismo direto, quase
confessional. Expediente que se repete em outras canções majestosas,
como na ótima Distractions, que parece unir Beach House e Weezer
em uma letra sobre a busca de significado nas coisas simples, e uma
certa inconformidade que emerge do sentimento de vazio na rotina (Nestes
dias de excesso / As histórias mais curtas são as mais doces / Agora as
coisas que me fizeram distrair / Podem distrair alguém novo). Não é
um disco que busca impacto imediato, mas sim permanência - daqueles que
vão se revelando aos poucos, sem alarde. Ao cabo, Selling a Vibe
mostra um The Cribs confortável com sua trajetória, seguro o bastante
para desacelerar e, justamente por isso, continuar acertando.
De: Geeta Gandbhir. Com Ajike Owens e Susan Lorincz. Documentário / Drama / Policial, EUA, 2025, 96 minutos.
Vamos combinar que em um País em que é possível comprar, no mercadinho da esquina, um pacote de Doritos e uma pistola, situações como a vista no assombroso documentário A Vizinha Perfeita (The Perfect Neighbor), não chegam à surpreender. Some-se a isso a ascensão desvairada de uma extrema direita preconceituosa em todas as frentes - representada pelo ditador Donald Trump e o seu discurso de ódio a absolutamente todas as minorias (negros, imigrantes, latinos, periféricos) - e o estrago parece inevitável. E se ter um vizinho, qualquer que seja, já pode ser problemático em vários sentidos - com privacidades invadidas e desrespeito generalizado ao outro -, ladear a porta com uma idosa de tendência fascista pode ser ainda pior. E é justamente isso que acompanhamos na obra dirigida por Geeta Gandbhir, que está disponível na Netflix, e deve ser figurinha fácil em sua categoria no Oscar desse ano.
A história é real e meio que se repete, em matéria de escalada de violência. O filme começa com a polícia sendo acionada em um caso de assassinato, em uma pequena cidade do Condado de Marion, no Sul da Flórida. Voltando no tempo, compreenderemos as motivações (bizarras, por sinal) do crime, que vitimou Ajike Owens, que foi assassinada a sangue frio por Susan Lorincz, uma daquelas tias branquelas do ZAP que, na falta do que fazer - um bingo, crochê, hidroginástica ou qualquer outra coisa -, resolve encrencar com a vizinhança inteira, depois de se mudar para o bairro, ocupado em sua maioria por uma comunidade negra. Sem esconder o racismo entranhado em suas vísceras podres - o que faz com que uma mulher de 58 anos pareça muito mais velha do que, de fato, é -, Susan começa a, paulatinamente, acionar a polícia local para se queixar de crianças que jogam bola e brincam perto de seu pátio.
Sim, meio que basicamente é isso: Susan, que reside ao lado de um terreno baldio, se ressente que a garotada utilize o gramado pra jogar futebol americano, correr, agitar. O que fará com que ela chama a polícia não uma, mas dez, quinze, trinta vezes. Cinquenta vezes, talvez. Com as tensões escalando a cada novo chamado e um mal-estar coletivo emergindo do lugar. Como se fosse uma espécie de Bruxa dos 71 da vizinhança - mas sem o charme da Dona Clotilde -, Susan é a tia chata, solitária e mal amada, que implica com todo mundo, não se furtando em utilizar xingamentos cheios de preconceitos. Na tentativa de proteger as crianças, mães e pais formam uma barreira de contenção. Às vezes até contragolpeiam de forma mais forte - como no episódio em que uma delas arremessa uma placa em direção a casa de Susan. O que resultará em repetidos constrangimentos - e fica claro que até mesmo os policiais percebem onde está o verdadeiro problema. Que parece meio que sem solução, já que a véia jura que vai mudar dali - mas nunca muda.
Tenso e de suspense crescente, o documentário é hábil em utilizar, em grande parte, as próprias câmeras corporais dos policiais para contar a história - o que resulta em uma experiência bastante naturalista e orgânica, com cenas que mesclam discussões de meio de rua, em meio a presença ingênua das crianças que, sim, podem ser meio sapecas (como no instante em que uma delas tem a ideia de colocar um cachorro dentro da caçamba da caminhonete de Susan). Aproveitando ainda pra discutir o absurdo de leis como a Stand-Your-Ground, que possibilita a alegação de legítima defesa em caso de uso de força na propriedade privada, a obra ainda evidencia como, em casos envolvendo violência cometida por brancos contra pretos, a ponta fraca sempre parecerá evidente. E, por mais revoltante que o projeto seja, já que uma mãe de quatro filhos é simplesmente assassinada a sangue frio por causa da bagunça feita pelos pequenos, fica a lição quando o assunto é a busca por justiça: o povo jamais deve se calar. Sob pena da normalização desse tipo de agressão.
De: Ari Aster. Com Joaquin Phoenix, Emma Stone, Padro Pascal, Deirdre O'Connell e Austin Butler. Comédia / Drama / Faroeste, EUA / Reino Unido / Finlândia, 2025, 150 minutos.
Há algo que precisa ser dito sobre os filmes do Ari Aster: ninguém passa por eles e sai da mesma forma. Para o bem ou para o mal, as obras do diretor de Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (2019) e Beau Tem Medo (2022) costumam suscitar horas de debates sobre seus temas - quase sempre psicológicos, contemporâneos, políticos. Ou ao menos parece ser assim pra quem não acompanha suas produções esperando sempre um novo Hereditário (2018). Talvez à exceção do igualmente ótimo Bugonia (2025) - leia a resenha abaixo -, poucos projetos traduzirão tão bem os tempos turbulentos e caóticos, em que todo mundo grita, mas ninguém escuta, como em Eddington. Vendido como uma espécie de faroeste pós-pandêmico, o filme coloca em lados opostos um xerife local e o prefeito de uma minúscula cidade do Novo México. Ambos desejando o poder acima de tudo, com Deus acima de todos. Ou algo do tipo.
Sim, eu já estou tomando consciência de que as obras que não tomam um partido ou que erguem uma bandeira panfletária mais clara, tem se tornado recorrentes. E eu acho isso ótimo para que possamos refletir um pouco melhor e que não seja apenas confirmando aquilo que pensamos ser o certo. Em uma narrativa como a de Eddington eu nem acho que o centro da disputa esteja entre esquerda e direita, progressistas e conservadores, ou, vá lá e em última medida, republicanos e democratas. É isso também, mas mesmo sabendo pra onde apontaria o nosso radar nesse embate, não deixa de ser divertido se deparar com as contradições da província. E de como opera a Síndrome do Pequeno Poder em um município de pouco mais de dois mil habitantes, que é afetado não apenas na esfera local pelo comportamento excêntrico de seus habitantes, mas também em âmbito federal em um contexto de covid que avança e da explosão de movimentos como o Black Lives Matter.
E, sinceramente, é tudo muito saboroso e muito atual - e mais ainda, talvez, para os cronicamente online. Na primeira cena do filme, um mendigo meio noiado - aquele doidinho de bairro que toda a cidadezinha do interior tem - cruza o asfalto enquanto, ao fundo, um enorme outdoor anuncia uma obra que deverá movimentar a economia local: no caso a construção de um data center (daqueles que, daqui pra frente, consumirão toneladas de recursos naturais sob a desculpa de não frear a revolução tecnológica). Tentando a reeleição, o prefeito Ted Garcia (Pedro Pascal) é um entusiasta da ideia. Mas, claro, como bom democrata, não ignorando as compensações ambientais, como a implantação de usinas eólicas e outras medidas, e que são solicitadas pelo conselho local. E que deverão ser respeitadas, assim como devem ser respeitadas as medidas que marcaram aquele maio de 2020 que já parece tão distante, como o uso de máscaras em estabelecimentos fechados ou o respeito ao distanciamento social (quase como uma alegoria para o afastamento meio natural em tempos de niilismo e misantropia forçada).
Ainda na primeira hora, o xerife local Joe Cross (Joaquin Phoenix sendo o esquisitão que adoramos, não adianta) trava um embate com Ted em um mercadinho, justamente pela necessidade do uso de máscara. No caso, um idoso, que se recusava a vestir a peça. Assim como Joe também se recusa - e, mais adiante, entenderemos suas motivações, ao conhecer a sua sogra Dawn (Deirdre O'Connell), uma daquelas tias do ZAP que passam as tardes se alimentando de teorias conspiratórias diversas na internet (e que podem variar de clonagem de líderes políticos, até chegar a existência de uma enorme rede de pedófilos ligada aos democratas estadunidenses) -, o que faz com que ele tome uma drástica decisão: se candidatar para enfrentar Ted nas eleições municipais que se aproximam. As suas bandeiras? Aquelas que costumam atrair os extremistas de direita mais desvairados, claro.
Em paralelo a tudo isso, os locais precisam lidar com a explosão de casos de violência policial - como no caso do chocante assassinato de George Floyd -, e do avanço de grupos contrários a atuação das forças estatais, como os Antifas (que, de acordo com o sonho mais molhado do ditador Donald Trump, deveria ser enquadrado como terrorista). Todas essas questões respingam na cidadela, com jovens brancos e com sentimento de culpa realizando protestos antirracistas. Assim como adentram por aquelas estradas poeirentas à moda A Última Sessão de Cinema (1971) da atualidade podcasts de gosto duvidoso localizados na antessala do fascismo, fóruns de chans e de incels sobre a queda da moralidade e o retorno do sonho americano - com Vernon, o personagem de Austin Butler soando como um Tom Cruise de Magnólia (1999), mas em uma roupagem meio Luciano Cesa das ideias (se ele fosse bonito) -, colidindo com progressismo de boteco que leva loiras jovens à se sentirem como uma Rosa Parks contemporânea. Sim, parece difícil percorrer todos esses temas e ainda dar uma lógica pra tudo. Mas a tentativa de Aster de tratar de paranoia, conspiração, alienação, coincidências, protestos, vidas expostas, campanhas políticas rasas, traições, lavagem cerebral e convulsão social funciona direitinho. E com direito a um dedinho colocado nas nossas feridas, nos fazendo pensar no nosso papel em meio a tudo isso. Ignore a crítica dita especializada. E só vá!