terça-feira, 9 de junho de 2026

Novidades em Streaming - Risa e o Telefone do Vento (Risa y la Cabina del Viento)

De: Juan Cabral. Com Elena Romero, Julienta Cazzuchelli, Diego Peretti e Joaquín Furriel. Drama / Fantasia, Argentina, 2025, 97 minutos.

Da negação à aceitação, o luto costuma ser encarado de formas distintas por cada pessoa. Tristeza, frustração, revolta, ressentimento - em geral os sentimentos variam ainda que, em grande parte dos casos, a saudade permaneça. A lembrança. E no caso de Risa (Elena Romero), a protagonista do tocante Risa e o Telefone do Vento (Risa y la Cabina del Viento), que estreou na última semana na Netflix, essa memória do pai morto em um incêndio de grandes proporções, se torna ainda mais difusa, já que ela nunca chegou a conhecer direito o sujeito. Vencedora do prêmio máximo do Festival Internacional de Mar Del Plata, a obra do diretor Juan Cabral é calorosa, emocionante e, eventualmente, fantasiosa. Especialmente depois do momento em que Risa descobre que uma cabine de telefone, tipo aquelas que os fenícios utilizavam, é a única "construção" que resistiu ao fogo.

Entre o místico, o enigmático e o sobrenatural, a cabine passar a funcionar como uma espécie de ponte entre os vivos, que ficaram na cidade após o incêndio que levaria deste plano 144 pessoas da região de Ushuaia, no Sul do País, e seus parentes mortos, com quem eles conversam ao telefone. Claro, que conversa é modo de dizer, já que este é um diálogo mais simbólico, num bate-papo que opera como forma de expiação da dor. Uma tentativa, como dito no começo, de superar o luto. De se reerguer, meio que literalmente, dos escombros - e não deixa de ser interessante perceber como as máquinas de lavar espalhadas pelo cenário, funcionam não apenas como uma evidência tardia da tragédia, mas também uma alegoria de uma limpeza (de alma) que nunca chega, para quem precisa seguir adiante. 

 


Para a pequena Risa, que mora com sua valente mãe Sara (Julieta Cazzuchelli), o telefone parece ser a oportunidade perfeita para conversar com Rodrigo (Joaquín Furriel), o falecido pai, que deve estar nesse além desconhecido. Mas como proceder? Em certa noite o telefone toca insistentemente - como num sonho confuso, abstrato, inexplicável. Quando atende o aparelho, Risa ouve as vozes do outro lado, que lhe alertam que, para conseguir conversar com seu pai, ela deverá cumprir uma série de missões no mundo dos vivos. O que permitirá às pessoas enlutadas juntar as forças necessárias para avançar. De ações simples como jogar xadrez com um professor aposentado da vizinhança, passando pelo alerta a uma família a respeito de um seguro disponível como herança em um banco da Patagônia, até chegar ao suporte uma cachorra abandonada, a simpática Chuleta, Risa se converte em uma espécie de Amelie Poulain do mundo dos mortos, andando de lá para cá na ideia de deixar a vida de quem ficou mais confortável perante a dor.

Acompanhando a pequena, seu babá com cara de poucos amigos, mas que é puro coração - seu nome é Esteban (Diego Peretti) -, contribui aqui e ali em sua jornada, sendo ranzinza e espirituoso, enquanto se esforça para que a menina lhe obedeça. Juntando-se à dupla há ainda um simpático hamster adotado - o que adiciona aquela pitada doce de filme para toda a família (ainda que envolva fantasmas com vozes fragmentadas e confusas). Aliás, tudo se torna mais caótico quando Risa finalmente escuta seu pai, sendo surpreendida por uma notícia que gera uma reviravolta interessante. Cheia de ambiguidades e boas reflexões sobre luto, perda, memória e dores, essa é uma produção de grande simplicidade, o que é reforçado pela fotografia dessaturada e fragmentada, pelo naturalismo gritante e pela trilha sonora quente, permeada pelas canções do grupo argentino Babasónicos. Aliás, Risa é o nome de uma música da banda - e parece haver todo um significado mais profundo de busca de conexão em sua letra (Na sala cheia de desconhecidos / Busquei o calor ao seu lado). É só um componente a mais.

Nota: 7,0 

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Cinema - O Bolo do Presidente (Mamlaket al-qasab)

De: Hasan Hadi. Com Baneen Ahmad Nayyef, Waheed Thabet Khreibat e Sajad Mohamad Qasem. Drama, Iraque / EUA / Qatar, 2025, 105 minutos.

No clássico do cinema iraniano Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), um menino empreende uma verdadeira via-sacra para conseguir entregar um caderno para um colega de sala de aula, o que fará com que ele seja salvo de uma carraspana de seu rígido professor. Parece uma premissa simplíssima - e é -, mas, em muitos casos, a filmografia do diretor Abbas Kiarostami (e de seus pares) tinha essa característica: a de partir de um microcosmo para um exame mais amplo do contexto social, político, cultural e religioso do País de origem. E, enquanto assistia ao O Bolo do Presidente (Mamlaket al-qasab), obra da ainda incipiente produção iraquiana e que está em cartaz nas salas de cinema do País, me peguei pensando nas semelhanças entre ambas as produções, com seu estilo naturalista, quase documental, em que situações, dores ou expectativas cotidianas e até domésticas, recebem contornos mais amplos.

Irã e Iraque já foram até rivais em uma dura e sangrenta guerra nos anos 80, mas aqui parecem se assemelhar nessa busca por certo minimalismo fílmico. Que centra a narrativa no olhar de uma criança que, frente às tragédias do mundo que lhe rondam, precisa cumprir uma pesada missão. No caso da pequena Lamia (Baneen Ahmad Nayyef), ela tem o azar de ser a sorteada para elaborar um bolo para a sua turma da escola, como parte das comemorações do aniversário do presidente Saddam Hussein. Talvez isso não fosse assim tão complicado em um outro contexto, mas o caso é que Lamia, que vive com a sua avó diabética Bibi (Waheed Thabet Khreibat), é extremamente pobre. O que tornará a obtenção de farinha, ovos, leite e fermento uma jornada difícil - ainda mais em País que sofre uma série de sanções dos Estados Unidos, decorrentes da Guerra do Golfo.

 


É a década de 90 e já na abertura do filme dirigido por Hasan Hadi fica claro o cenário de escassez vivido pelos iranianos, com a população enfileirada diante de um caminhão pipa, se acotovelando para obter um galão de água. Na escola, o severo professor de Lamia já deu a letra: se a pequena não cumprir com a sua meta, sofrerá duras sanções governamentais. Aliás, Lamia não está sozinha nessa barca já que o pequeno Saeed (Sajad Mohamad Qasem), colega da criança, também é escolhido - no caso, para levar as frutas para a mesma celebração. Desesperada diante da situação e sem muitas alternativas no horizonte, Bibi decide doar a neta para uma família em melhores condições. A respeito do bolo? Eles que lutem, é mais ou menos a resposta da idosa. Só que Lamia, amedrontada, não aceita a situação e foge. Para encontrar, no meio do caminho, justamente Saeed que, entre um trambique e outro ao lado do pai deficiente, tenta conseguir a grana para as frutas.

Como já dito, trata-se de uma obra pequena, que se equilibra entre instantes mais calorosos - fortalecidos pela amizade cheia de idas e vindas das crianças -, com outros de mais impacto, como no momento em que um adulto oferece ajuda à Lamia para que, mais adiante, percebamos as suas verdadeiras (e torpes intenções). De lá para cá pela cidade, a protagonista terá o apoio de um cômico motorista de táxi que, inclusive, prestará socorro à Bibi, no momento em que ela vai à polícia para pedir socorro depois do sumiço da neta, e passa mal. Praticando golpes e também sendo passados para trás, Lamia e Saeed precisam aprender a sobreviver nesse cenário pantanoso, barulhento e caótico em que, não bastassem as mazelas cotidianas e a sua própria miséria, ainda lidam com a violência de uma guerra em curso, com suas bombas explodindo, tiros ao longe, e soldados feridos. "Bibi lhe disse por que ela está braba comigo?", pergunta uma Lamia chorosa, quase na reta final da obra, sendo meio que impossível segurar as lágrimas. Não há muita brecha para a esperança, para além do apoio daqueles que estão próximos. É a lição que fica dessa pequena joia, que venceu a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes.

Nota: 8,5  

 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Novidades em Streaming - A História do Som (The History of Sound)

De: Oliver Hermanus. Com Paul Mescal, Josh O'Connor e Chris Cooper. Drama / Romance, EUA / Reino Unido / Itália, 2025, 128 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM ALGUNS SPOILERS] 

Vamos combinar que se o subgênero do "drama do gay triste" pode até não estar oficialmente formalizado, ainda que caminhe para isso. Até porque parece haver uma convenção meio incômoda de que narrativas queers necessitam, inevitavelmente, virem acompanhadas de sofrimento. De O Segredo de Brokeback Mountain (2005), passando pelo premiado Moonlight (2016) e, claro, por alternativos, como, Todos Nós Desconhecidos (2023), a impressão que se tem é a de que a experiência gay, especialmente a masculina - sempre carregada de uma tonelada a mais de preconceitos - parece ter de vir, invariavelmente, acompanhada de perda, de luto, de dor. Ou mesmo da impossibilidade da felicidade amorosa - como uma espécie de punição meio que natural, do ponto de vista conservador, para aquilo que é claramente desviante. Que foge da lógica ou das convenções. Meio que como a jovem depravada que é a primeira a morrer nos filmes de terror, guardadas todas as proporções.

E, é preciso que se diga que não há nenhum problema nesse estilo, que já nos brindou com grandes produções - como as citadas acima. Só que, às vezes, a impressão que se tem é que a mão pesa um tanto na abordagem desse sofrimento quase infinito, desesperançoso. O que piora quando a obra passa a impressão de ter potencial para explorar outras subtramas para além do "veja bem como esse homem sofre em silêncio e dentro do armário em tempos tão complicados" - e esse parece ser exatamente o caso de A História do Som (The History of Sound), do diretor Oliver Hermanus. Exibido em Cannes e estrelado por Paul Mescal e Josh O'Connor, esse é aquele tipo de filme elegante, de grande apuro técnico - da fotografia ao desenho de produção -, mas que quase se torna cansativo ao nos apresentar um romance secreto entre dois estudantes de um conservatório do começo do século passado que termina, claro, de forma trágica.

 


Quando a obra começa começa, uma narração em off nos apresenta uma ideia interessante e que meio que simplesmente desaparece alguns minutos depois: a de que algumas pessoas possuem uma habilidade única de perceber a música para além do som. Um dom. Como se o barulho - seja da natureza ou dos instrumentos - tivesse cor, sabor. E, sim, a gente sabe que isso pode acontecer, de associar uma canção a algo para além do abstrato e eu considerei isso tão bonito e essa parece ser justamente a capacidade do protagonista Lionel Worthing (Mescal), que eu achei um pecado isso ser ignorado, mais adiante. Claro, a música é justamente o que conectará Lionel - que tinha no falecido pai - com sua viola na varanda de sua pequena propriedade do interior do Kentucky uma referência -, à David White (O'Connor), que ele conhece em um pub de New England (ele toca justamente uma canção folclórica que era tocada por seu pai na juventude, num instante nostálgico, caloroso e bonito).

Após iniciaram um relacionamento às escondidas, David é convocado para a primeira guerra (o ano é 1917). Quando retorna do conflito, dois anos depois, a dupla se reaproxima para a execução de um inovador e simpático projeto universitário, que está no centro da melhor parte da narrativa (e que tenho a impressão que, por si só, renderia um filme à parte), e que envolve a captura de músicas folclóricas em cilindros de cera pela América rural. O que seriam, na realidade, os primórdios da gravação de sons, ainda de forma rudimentar. E, bom, se o filme poderia centrar mais a coisa na história do som, como sugere seu título original, não podemos esquecer que essa é a obra de gay sofrendo. E, por mais que a música tradicional, antiga, passada de geração a geração, se espalhe de forma fluída por cada fragmento da produção - de forma vagarosa, melancólica -, lá pelas tantas a dupla se separa, quando Lionel vai tentar a vida em Roma, cantando em um prestigioso coral. E o belo trecho em que aparece a antiga The Unquiet Grave - sobre um homem em luto que fica ao lado do caixão da esposa morta, não deixando-a descansar -, é a deixa, de forma alegórica, para os acontecimentos que virão mais adiante. Com o luto infinito percorrendo décadas.

Nota: 6,5 

 

Novidades em Streaming - Manas

De: Mariana Brennand. Com Jamilli Corrêa, Rômulo Braga, Dira Paes e Fátima Macedo. Drama, Brasil, 2024, 101 minutos.

"Não existe felicidade fora do projeto de Deus. Do projeto de Deus chamado família". Vamos combinar que a cena de uma pastora da igreja evangélica discursando em favor da família - enquanto que meio que todo o mundo sabe que grande parte da violência sofrida por crianças e adolescente da região de Marajó, no Pará, cenário do filme Manas, emerge do ambiente doméstico -, é só uma forma de evidenciar a hipocrisia não apenas daquelas pessoas, mas da nossa sociedade. "Tem coisa que não adianta tu querer mexer", alerta uma desalentada Danielle (Fátima Macedo), que está grávida de mais um filho do marido Marcílio (Rômulo Braga), enquanto trava uma luta interior para acobertar os abusos praticados pelo homem contra a sua filha Marcielli (Jamilli Corrêa), ao mesmo tempo em que parece sonhar, com o olhar duro, vulnerável e melancólico, com o fim do ciclo de violência.

Ao cabo, a obra da diretora Marianna Brennand nunca é fácil. E talvez por ser tão evidente - ainda que, paradoxalmente, sutil - em sua abordagem, o desconforto se amplie. O histórico de violência naquela localidade (aliás, no Brasil como um todo) não é novidade - inclusive com a pauta sendo apropriada politicamente pelas piores pessoas do planeta, em sua ignorância gritante, sempre acreditando que Deus pode ser a cura de tudo. Marcílio, Danielle e as filhas alternam os dias em um templo improvisado junto às águas, em que cantos evangélicos meio constrangedores ecoam, ao mesmo tempo em que sobrevivem colhendo açaí e camarão, que será comercializado, especialmente na balsa - local em que os moradores sabem que as violências sexuais se ampliam, com a presença de forasteiros, homens adultos, oferecendo dinheiro ou comida para as adolescentes. 

 


Quando o filme começa, meio que a ficha demora para cair para o espectador. Se a balsa parece suspeita, o ambiente doméstico soa parcialmente seguro - especialmente pela presença ensolarada de Marcílio, que alterna algum tipo de afeto rústico, com gestos disciplinadores de quem ensina desde cedo valores como trabalho. Mas é aí que reside o pulo do gato, já que a confiança no adulto também tende a burlar a identificação dos limites por parte da ponta mais vulnerável da equação. E, de fato, a coisa começa a ficar estranha quando a rede de Marcielle estraga e o pai a convida para deitar em sua cama. O que poderia ser apenas a sugestão de algo carinhoso, se torna mais evidentemente desprezível quando o sujeito convida a filha para uma caçada no mato. A primeira caçada - num simbolismo torpe e repulsivo do ato que ele está prestes a praticar. Ciente do que acontece, a jovem tenta forjar, em vão, uma carteira de identidade falsa no posto local, o que poderia lhe possibilitar uma espécie de fuga, assim como fez a sua irmã mais velha Cláudia que, aos 19 anos, foi embora dali para nunca mais voltar.

Naturalista e em estilo documental - aliás, Mariana Brennand é documentarista -, a obra, que esteve na nossa pré-lista do Oscar desse ano e recebeu dezenas de prêmios internacionais, tem uma fluidez própria, não tendo pressa em expor suas ideias. Tecnicamente bem executada, a produção é daquelas que utiliza os sons da natureza - o zumbido dos bichos repetitivo e letárgico, ou mesmo a ondulação constante das águas -, como forma de evidenciar ainda mais o caos interior e a moral abjeta das ocorrências locais. Um tipo de entorpecimento visto em outros filmes como A Febre (2019) ou mesmo nas obras do diretor Apichatpong Weerasethakul - guardadas as devidas proporções temáticas, claro. "Eu fui caçar sozinha com o pai", praticamente grita a protagonista à Jaci (Ingrid Trigueiri) uma exasperada comerciante local, que a lembra que isso não acontece só com ela. "Você tem que tentar a vida na cidade", a alerta. A presença da delegada Aretha (Dira Paes), uma funcionária do Estado que surge como figura de proteção, parece acender em Marcielle uma faísca que já estava pronta para queimar. Como se interrompe um ciclo de violência que se perpetua de geração em geração? Talvez a medida tenha de ser mais drástica. Alegórica ou não. É o recado que fica dessa experiência vigorosa e cheia de simbolismos, que vale ser conferida.

Nota: 9,0 

 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Tesouros Cinéfilos - Pillion

De: Harry Lighton. Com Harry Melling, Alexander Skarsgård e Lesley Sharp. Drama / Comédia / Romance, Reino Unido / Irlanda, 2025, 107 minutos.

O público cinéfilo mais cracudo a respeito do que rola nos bastidores já percebeu: Pillion foi adiado diversas vezes e essa resenha foi escrita na esteira daquela que deveria ter sido a data de estreia oficial - no caso a última quinta-feira, dia 21 de maio. E vamos combinar que esse timing meio que já passou, até mesmo porque a obra já foi exibida em festivais, já teve estreia mundial e já tá rolando em ambientes, digamos, "alternativos", pra quem quiser acessá-la. Meio que quem quis viu - e toda essa coisa de adiar infinitamente uma produção, aparentemente apenas por causa do seu tema (a trama acompanha um jovem gay introvertido em suas primeiras experiências sexuais, quando conhece um taciturno motoqueiro que o inicia no universo BDSM) só torna tudo mais estranho. Sim, a família tradicional brasileira ainda se choca com qualquer coisa que desvie do padrão. E, aqui, não parece ser muito diferente. Por mais que os motivos para os atrasos pareçam ser sempre outros do que apenas o bom e velho preconceito.

Sobre o filme, que venceu o prêmio de Melhor Roteiro na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes - é a estreia de Harry Lighton na direção - vai depender do olhar e da percepção de quem assiste. Se por um lado a obra nos apresenta uma relação fetichista quase abusiva entre dois homens - um deles mais velho -, por outro este também é um conto sobre amadurecimento e de como os primeiros amores podem ser dolorosos, complexos, frustrantes. Ao cabo, contribuindo para a nossa formação como sujeitos. Sim, pode parecer impactante ver um jovem sem nenhuma experiência vestido com roupas diminutas de couro, enquanto o outro o humilha de todas as formas, mas é importante deixar os julgamentos para os conservadores. Aqui, não cabe analisar o fetiche em si e sim como se desenrola essa experiência em toda a sua complexidade, com o envolvimento de familiares e de toda uma comunidade de motoqueiros.

 


Aliás, o termo "pillion" costuma ser utilizado como forma de definir não apenas o assento traseiro de uma motocicleta, mas também quem o ocupa. E, naturalmente, por extensão, parece haver aqui a alegoria mais do que perfeita para o comportamento confiante e misterioso de Ray (Alexander Skarsgård), que levará na garupa o tímido Colin (o sempre expressivo Harry Melling). A dupla se conhece em um boteco onde Colin se apresenta com os seus amigos que formam um quarteto de vozes. É noite de Natal em Londres - aliás, está aí mais um filme natalino para assistir em família -, e Ray se aproxima do rapaz de forma determinada. Mais do que isso, combinam um encontro antes da chegada do Papai Noel, para desespero dos pais de Colin - não por preconceito, já que eles acolhem as opções do filho, a ponto da mãe (Lesley Sharp), ajudá-lo nos encontros com homens -, mas pelo receio de ele estar indo ao encontro de um desconhecido que pouco se sabe. O date, por assim dizer, termina em um beco. Com uma sessão de sexo oral.

A partir dali eles passam a manter um certo vínculo, ainda que as dinâmicas de poder sejam opostas - não por acaso, em uma tentativa de encontro na noite de Ano Novo, Colin tenta chamar Ray para um rolezinho no pub dos motoqueiros, mas ele nem dá as caras. E quando reaparece, surge cheio das exigências, obrigando-o a fazer comida, fazendo-o dormir no chão e ignorando qualquer uma das suas solicitações de afeto. Rastejando atrás dele, no limite. Em contrapartida, não apenas o inicia no sexo, como lhe dá um prazer que talvez ele dificilmente sentiria em outras circunstâncias. "Ele diz que tenho aptidão para a devoção", explica o jovem em certa altura da projeção. Tudo enquanto sua mãe se empenha em saber mais sobre o sujeito. Alternando momentos engraçados, estranhos, sensuais e afetuosos - como na sequência da surpresa de aniversário, ou nas tentativas frustradas de executar Eric Satie ao piano -, essa é uma obra pouco convencional, que não julga seus personagens ou os torna meras caricaturas. Alguém fez uma ótima piada no Letterboxd ao resumir o filme com um título alternativo: call me by your slave. Perfeito. Bem distante do gosto do reacionário médio.

 

Pitaquinho Musical - Aldous Harding (Train on the Island)

Vamos combinar que o exercício de escutar qualquer disco da Aldous Harding, é mais ou menos como entrar em um carro para pegar a estrada em direção a um local nunca antes explorado. Meio que como uma viagem ao desconhecido - pra ficar na alegoria mais óbvia. Sim, seus álbuns não costumam ser lá muito fáceis, palatáveis ou, vá lá, comerciais. Suas curvas no limite entre o experimentalismo folk, o indie de cafofo e o art rock excêntrico costumam ser tortas ou pouco previsíveis. Se estamos indo pra cá, não demora para que o rumo mude pra lá. Se em um instante a melodia parece direcionada para algo caloroso ou de fácil identificação, em outro a coisa soa estranha ou teatral - com o vocal subindo e descendo inesperadamente. O que em tempos em que nos acostumamos a sermos alimentados com papinhas culturais prontas, ultraprocessadas ou de fácil digestão, pode soar como um exercício desafiador. Mas também compensador.

 


Afinal, parece que a gente tá sempre buscando a melhor banda dos últimos tempos da última semana. Ou, minimamente, aquele artista que nos retire da zona de conforto da lógica algorítmica do refrãozinho de IA ou da dancinha de Tik Tok. E, como se fosse uma Fiona Apple em Fetch the Bolt Cutters, Harding entrega, com Train on the Island, uma experiência enigmática, evocativa, que provoca, que mexe com as nossas sensações. São músicas deslocadas que jamais soam feias, ainda que a sua beleza necessite ser escavada. Um bom exemplo de tudo isso pode ser percebido no single One Stop que, com seu piano e vocal expressivos e mudanças de direção que fogem da lógica, parece algo no limite entre um Radiohead fase Amnesiac (2001) e uma Kate Bush de Hounds of Love (1985). Há uma série de outros ótimos momentos como, Venus in the Zinnia, What Am I Gonna do? e a faixa-título, em que temas, como, cobrança por padrões corporais, feminilidade performática e sensualidade caricatural emergem em versos cheios de simbolismos e alegorias. É tipo uma refeição que a cada nova bocada gera mais satisfação.

Nota: 9,0 

terça-feira, 26 de maio de 2026

Pitaquinho Musical - Juliana Linhares (Até Cansar o Cansaço)

Vamos combinar que poucos memes são tão universais na hora de evidenciar a exaustão coletiva dos nossos tempos, do que aquele extraído do desenho do Tintin que, ao ouvir um claramente extenuado capitão Haddock dizendo um "que semana, hein?", o retruca apenas com um enfastiado "capitão, é apenas quarta-feira?" E como a gente faz para confrontar esse sentimento geral de fadiga? Bom, no caso da cantora potiguar Juliana Linhares esse confronto se dá de forma paradoxal: dançando. E mais do que isso: dançando "até cansar o cansaço", como ela afirma já na primeira frase do seu segundo registro de inéditas, o irresistível e autoexplicativo Até Cansar o Cansaço. Em linhas gerais a artista chegou a explicar em entrevistas que a ideia com o disco é a de não contemplar o esgotamento de forma passiva - convertendo-o em uma espécie de veículo para o movimento, para o sonho e para o encontro de corpos.

 


E, bom, se isso não chega a ser uma novidade em termos de conceito - se pensarmos, por exemplo, o quanto Chico Buarque utilizava a imagem do carnaval como alegoria catártica de enfrentamento e de sobrevivência (até mesmo à Ditadura Militar) -, aqui, a artista mescla uma série de ritmos e estilos, do baião ao xote, passando pelo forró, pela MPB psicodélica e pelo indie eletrônico, formando uma tapeçaria ao mesmo tempo vibrante e viva, mas também atmosférica e contemplativa. "O presente no Brasil é urgente: violência, cansaço, precarização da vida, mas também os afetos, as festas, a rua que pulsa e nossas formas de sobreviver. E, justamente por encarar tudo isso de frente, ela consegue produzir futuro", explicou em entrevista ao site da UBC. Juliana, que também integra o excelente coletivo Pietá, já havia brilhado no belo Nordeste Ficção (2001). Em Até Cansar o Cansaço a criatividade segue em alta, como comprovam as irresistíveis Emaran... não. Na realidade ouça todo o disco. De fones. No repeat. Com atenção. É recompensador.

Nota: 9,0 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Sobreviventes: Depois do Terremoto (Konkeuriteu Yutopia)

De: Um Tae-hwa. Com Lee Byung-hun, Park Seo-joon e Park Bo-young. Drama / Ficção científica, Coréia do Sul, 2023, 131 minutos.

Vamos combinar que não são poucas as obras a utilizarem a ideia do espaço confinado - com pessoas passando por situações limite, criando novas regras e códigos morais e ainda lutando pela sobrevivência -, como uma espécie de alegoria para uma sociedade em ruína, decadente ou à beira do colapso. Com falta de recursos, em meio à escaladas autoritárias ou com um sentimento meio que de paranoia coletiva - seja em distopias como Expresso do Amanhã (2013), em dramas sociais como o clássico da literatura O Senhor das Moscas (1954) ou em ficções panópticas como a série Silo (2023 até a atualidade) -, essas produções, em muitos casos, olham para esses cenários com certo distanciamento, ainda que versem diretamente sobre nós. E sobre nosso comportamento diante de temas, como, capitalismo tardio, colapso ambiental, tecnologia desenfreada, desumanização do outro e, como sempre, avanço da extrema direita.

Portanto, não é com surpresa que assistimos aos eventos de Sobreviventes: Depois do Terremoto (Konkeuriteu Yutopia), obra enviada pela Coreia do Sul ao Oscar de 2024 (não chegou entre às finalistas), que está disponível na plataforma da Amazon. Para além do título em português um tanto click bait - provavelmente tentando fisgar aquele público fã de filmes catástrofe como O Dia Depois de Amanhã (2004), 2012 (2009) ou Terremoto: Falha de San Andreas (2015) -, essa é uma produção que não se detém muito no terremoto em si, ou nas eventuais tentativas desesperadas de fuga, quando ocorre uma catástrofe natural. E sim no que acontece depois do Terremoto, com uma Coreia do Sul devastada, vivendo uma nova Era Glacial. E com apenas um prédio - parte do condomínio Hwang Gung -, tendo ficado de pé. Sorte dos moradores? Dificilmente. Especialmente em meio a um cenário de desespero, em que forasteiros tentando não morrer congelados, buscam invadir o complexo habitacional.

 


Em linhas gerais, é possível perceber que esse é aquele tipo de projeto que realiza um tipo de crítica nem tão sutil assim às bolhas imobiliárias modernas - com sua ânsia por concreto, ferro e arranhas-céus que fazem a festa de especuladores de mercado -, que perdem valor ao primeiro chacoalhão sísmico. Sim, a natureza tem pressa e de nada vai adiantar construir infinitamente, esgotando completamente todo e qualquer recurso, sem um bom planejamento. Ou, minimamente, pensando a questão a partir de um ponto de vista mais social - em que todos deveriam ter direito a um teto pra chamar de seu. Aqui no Rio Grande do Sul, quando das enchentes de maio de 2024, muitos diziam que sairíamos melhor da tragédia: mais empáticos, mais solidários, mais receptivos. Resumindo, a coisa é o contrário: com apartamentos de um dormitório a preços exorbitantes e pouca margem para quem deseja alugar com preço justo. Ou seja, quem tem cresceu o olho. E quem não tem, bom, que lute. Meritocracia, né? Todos têm as mesmas horas no dia (contém ironia).

No filme do diretor Um Tae-hwa o debate é mais ou menos esse. Quando apenas um prédio resta, quem afinal tem o direito de viver nele? Proprietários? Quem aluga? Forasteiros que ali passavam? Quando o caos começa a ser instalado, os moradores precisam decidir se aceitam ou não a presença dos "invasores" que, se ficarem do lado de fora, congelam. Só que naquele instante, o casal protagonista, a pacífica Min-sung (Park Seo-joon) e o prático Myung-hwa (Park Bo-young) já estavam abrigando às escondidas uma mãe desesperada com seu filho pequeno - o que, mais adiante, será considerado um crime. Em meio a escassez de recursos - sem água, luz, sem remédios e com alimento contado -, o coletivo elege como líder o misterioso Yeong-tak (Lee Byung-hun) que, verdade seja dita, a despeito do ato heroico (quase, argh, messiânico) de evitar um incêndio no primeiro andar, ninguém se lembra ao certo se mora efetivamente ali. Em um cenário em que novos (e rígidos) códigos se estabelecem, não demorará para que essa utopia de concreto - uma divertida ironia, diga-se -, colapse. O colapso dentro do colapso. Meio que como o capitalismo terminando depois do fim do mundo. Há esperança? Há. De preferência bem longe dos "homens de bem", com sua paixão ignóbil pela propriedade privada.

Nota: 7,5 

 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary)

De: Christopher Miller e Phil Lord. Com Ryan Gosling, Sandra Huller e James Ortiz. Ficção científica / Drama / Aventura, EUA, 2026, 156 minutos.

"Rocky, telefone, minha casa!". Vamos combinar que, se ao final de Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary), aparecesse em algum canto dos créditos finais o nome de Steven Spielberg, não seria nenhuma surpresa. Tamanha a cara de blockbuster situado em algum local entre as décadas de 80 e 90, que a adaptação do livro de Andy Weir que ainda está nos cinemas - mas também já disponível para aluguel na Amazon e na Apple TV - tem. Ao cabo trata-se de uma obra movimentada, calorosa e cheia de afeto - muito mais próxima de algo como um ET: O Extraterrestre (1985) dos confins do universo, do que da sisudez existencialista de um A Chegada (2016), por exemplo. E vamos combinar que a gente não precisa ser cabeça o tempo todo. Ou esperar um grande exame da nossa situação global política, social, cultural ou religiosa atual, para assistir um filme. Talvez faça bem se divertir simplesmente. E esquecer por algumas horinhas daquilo que nos atormenta. Um filme que não doi. E que nos faz abrir um sorriso largo. Como aqueles que víamos na Sessão da Tarde.

Ingenuidade de minha parte? Talvez. Mas foi exatamente esse o meu sentimento assistindo à produção dirigida por Christopher Miller e Phil Lord e protagonizada por um Ryan Gosling no auge do carisma e do charme. Aliás, ele sendo um astronauta naturalmente curioso que acorda do coma em uma nave espacial sabe-se lá onde ou em que ponto da galáxia, que faz o contraponto ideal ao estilo prudente e austero de Eva Stratt (a sempre ótima Sandra Huller), uma das líderes da Força Tarefa Petrova e que, mais adiante será uma espécie de chefe geral do Projeto Hail Mary. Um projetinho simples, aliás, que visa tentar salvar o mundo da mais nova desgraça que nos afeta - como se não bastassem às pandemias, as guerras e o avanço da extrema direita maluca. E que envolve o surgimento de um novo micro-organismo que tem uma habilidade única: se alimentar da luz solar. O que fará com que o sol se enfraqueça dentro de algumas décadas, se nada for feito. O que prejudicará não apenas a temperatura do globo - com uma nova Era Glacial à caminho -, mas também a nossa agricultura. Nossa capacidade de produzir alimento. Um desastre.

 


E pra tentar evitar essa tragédia que se avizinha, Stratt vai atrás do único sujeito possível pra salvar nosso mundinho de meu Deus: um professor de biologia de escola fundamental, que responde pelo nome de Ryland Grace (Gosling). Ocorre que Grace já foi motivo de chacota no meio acadêmico no passado, caindo em desgraça após escrever um artigo onde buscava evidenciar um fato que, de forma resumida, ia contra um consenso científico que existe até hoje: de que a existência de vida em outros planetas, ou mesmo em ambientes hostis, não exigiria necessariamente a presença de água. Da ligação entre oxigênio e hidrogênio. E como o tal micro-organismo - o nome oficial no livro e no filme é astrofágico - que se alimenta da luz solar navega entre Vênus e o Sol em um arco chamado de Linha de Petrova (em homenagem à Irina Petrova, a cientista que o descobre), talvez resida aí o segredo de sua resistência. O que caberá ao protagonista, um biólogo molecular de formação, descobrir.

Assim como ocorre no livro, no filme temos uma série de idas e vindas no tempo, que alternam entre o passado, quando o projeto estava sendo construído - com a participação de cientistas, engenheiros e pesquisadores de todo o mundo - e o presente (que talvez seja o futuro, claro), com Grace despertando na nave de um coma induzido de doze anos. E meio que não apenas aprendendo a sobreviver sozinho em uma nave. Mas também compreendendo qual a sua missão naquele local inóspito. O que ocorrerá em meio de flashbacks bem conduzidos, que unem uma ponta à outra, e que tanto na obra literária como no filme funcionam como uma espécie de recuperação paulatina da memória. Com cada nova lembrança operando como uma peça de quebra-cabeças. Uma ponte. Até o momento em que ele lembrará que está ao lado de um planeta chamado Tau Ceti, porque o dito parece ser resistente à ação dos astrofágicos, preservando sua luz natural. Cabendo a Grace descobrir os motivos e, mesmo estando há anos-luz de distância da Terra, tentar enviar algum sinal (ou até material) que explique os fatos.

 

 

Sim, pode parecer meio complicadinho lendo, mas não é. É simples: o Sol na Terra tá perdendo força, Grace está do lado do planeta que não perde luz mesmo com os astrofágicos tendo "contaminado" parte da galáxia. Só que quando Grace olha pela janelinha, percebe que não está sozinho: há uma enorme nave que lhe avizinha, chamada de Blip-A e que tentará fazer algum contato. E, bom, pra quem não leu o livro e pouco sabe da produção, vale se manter no escuro, com o perdão do trocadilho, para desvendar os acontecimentos. E as surpresas decorrentes deles. Mais leve, divertido e menos burocrático que o livro - que inicia muito bem e lá pelas tantas, não nego, dá uma aborrecida -, o filme não perde muito tempo com subtramas desnecessárias, focando-se no senso de amizade e de companheirismo entre Stratt e sua equipe (é linda a cena com a música Sign of The Times, de Harry Styles) e no esforço coletivo para superar as adversidades. Além de ter ótimos efeitos práticos, desenho de produção e trilha sonora. É o filme conforto de 2026 por excelência. Assim como foram os do Spielberg em décadas passadas. 

Nota: 8,0 

Pitaquinho Musical - Arlo Parks (Ambiguous Desire)

Existe algo de noturno, de noite prestes a acontecer, que se espalha por cada canto de Ambiguos Desire, novo registro de inéditas da sempre ótima Arlo Parks. Tomemos como exemplo uma canção como Heaven, uma balada eletrônica minimalista, de madrugada avançada, com uma linha de baixo catártica, e que parece personificar não apenas em termos de melodia, mas também nos versos (Vamos nos envolver / Adidas e gasolina / Meus amigos se espalhando pelas ruas), o conceito do disco. Conceito que, aliás, parece explorar uma certa euforia do coletivo, de sensação de pertencimento e de construção de memórias - com amigos, com pessoas que amamos. "Esse é um álbum que nasceu dessa descoberta tardia da madrugada como espaço emocional e sensorial e de tempo que se dissolve", comentaria a cantora em entrevista ao NME.

 


Outro bom exemplo nesse sentido é a envolvente Nightswimming, que tem uma batidinha enigmática e uma energia R&B noventista, mas sem deixar de lado a personalidade da artista, que com sua voz sussurrada e aconchegante parece tornar versos como "Quando o sol se põe entre as árvores / Estou sozinha pensando em nós dois", maiores do que parecem. Aliás, verdade seja dita que Parks também tem uma capacidade única em dar vida ou cor a certa banalidade do cotidiano. É o caso, por exemplo, de Get Go, uma das melhores disco, com sua letra que converte a pista de dança em uma alegoria para a superação de dores e decepções. Tudo banhado por um clima dançante inspirado em rádios piratas londrinas, no limite entre o melancólico e o onírico, o enfumaçado e o sofisticado. Ah, e em meio a tudo ainda há a parceria com o Sampha, em Senses, talvez uma das melhores canções lançadas no ano até o momento. Além da deliciosa What If I Say It?. Arlo Parks nunca erra. Não ia ser agora.

Nota: 9,0 

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Cinema - Exit 8 (8番出口)

De: Genki Kawamura. Com Kazunari Ninomiya, Yamato Kochi, Kotone Hanase e Naru Asanuma. Suspense / Drama, Japão, 2025, 95 minutos.

Vamos combinar que alegorias cinematográficas sobre a estagnação da vida, as dificuldades de seguir em frente ou o sentimento de seguir meio preso em uma mesma rotina não chegam a ser novidade. De obras divertidas como Feitiço do Tempo (1993), passando por experiências emocionais e sufocantes como O Show de Truman (1998) ou existencialistas como Sinédoque Nova York (2009), não foram poucas as produções que tornaram a repetição como um acontecimento ligado a outras travas - afetivas ou morais. E também há aqueles casos em que uma obra sobre pessoas enclausuradas em loopings temporais infinitos talvez sejam apenas um exercício de estilo, que leva o terror até o limite sem que haja uma grande explicação simbólica por trás. Onde a coisa ocorre apenas para nos deixar apreensivos, sem que haja um significado maior por trás - e, na cabeça me vem de imediato o clássico moderno cult Cubo (1997), que aterrorizou plateias da década de noventa, com os seus acontecimentos enigmáticos.

Talvez o curioso Exit 8 (8番出口) seja mais o estilo da segunda categoria. Ou talvez uma mescla das duas, especialmente pelas ocorrências do primeiro ato, chamado apenas de Homem Perdido (sendo este interpretado por Kazunari Ninomiya). Assim como faz, provavelmente, dia após dia, esse sujeito pega o metrô, se espreme entre as pessoas - com seus hábitos e estranhezas -, vai para o trabalho, almoça, volta, chega em casa, algumas horinhas de descanso, come, mija, assiste TV, dorme e volta no dia seguinte e novamente, para viver aquele dia repetidas vezes, por semanas, anos, décadas. Ao cabo, essa é a vida de qualquer pessoa. Rotina, tédio, vazio - e nem é preciso ser um grande conhecedor de metáforas para perceber que esses comportamentos mecânicos, cotidianos, quase como na música de mesmo nome de Chico Buarque (Todo o dia ela faz tudo sempre igual / Me sacode às seis horas da manhã) nos possibilitam identificação imediata.

 


Só que neste dia, em especial, o Homem Perdido recebe uma ligação de uma aparente ex-namorada, com uma notícia que lhe deixa em choque: ela está grávida. E, pior do que isso, como se abalo pouco fosse bobagem, ele ainda presencia um empresário irritado no metrô que, publicamente e sem nenhum constrangimento, apupa uma jovem mãe que, simplesmente, não consegue fazer com que seu bebê pare de chorar. Um assunto, queira ou não, se conecta ao outro: um filho que certamente representará um ponto de virada. Justamente antes de ele entrar em um longo corredor em L que se repete, se repete e se repete em uma infinidade de corredores em L que direcionam pra tal saída número oito. Apenas um outro sujeito sisudo passando. Cartazes espalhados pela parede. As mesmas portas e sistemas de ventilação. Placas com algumas informações e temos um sujeito preso em uma realidade embaralhada, dobrada, que se repete meio que sem explicação. E para fugir dali será necessário reconhecer pequenas anomalias do trajeto, mudando rotas que possam intervir nessa realidade paralela torta recém estabelecida. 

Parece complexo e em alguma medida talvez seja. E, como eu disse, talvez tenhamos aqui uma excelente ferramenta simbólica de como notícias ou acontecimentos inesperados são capazes de nos tirar da zona de conforto ou do lugar a que estamos acostumados. Sendo necessários novos movimentos para que possamos ir adiante. A chegada de um filho talvez seja um exemplo óbvio de como as coisas mudam profundamente nas nossas vidas - e de como pode haver um apego a um passado que não mais retornará. Ou vai ver que Exit 8 é apenas um filme inspirado em um jogo de videogame indie (lançado em 2023 e eu só soube disso após ver a obra), que brinca com nossos medos, temores, indecisões e incertezas. Reforçadas por temas ligados à avanços tecnológicos, redes sociais, burocracias, distopias políticas, alienação urbana e vigilância estatal. Em uma obra assim há margem para uma serie de interpretações. Com as possibilidades se ampliando conforme outras personagens - O Caminhante e o Menino - entram na trama, no transcorrer da história. Curioso, excêntrico, moderno e com ótimo, ainda que simples, aparato técnico - do desenho de produção à trilha sonora - esse é aquele tipo de projeto que alude à exaustão do mundo, ao mesmo tempo em que olha com ternura para aqueles que simplesmente insistem em existir. Vale conferir.

Nota: 8,0 

 

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Enzo (Enzo)

De: Robin Campillo. Com Eloy Pohu, Maksym Slivinskyi, Élodie Bouchez e Pierfrancisco Favino. Drama, França / Bélgica / Itália, 2025, 103 minutos.

Quem acompanha a carreira do diretor Robin Campillo sabe que seus filmes costumam ser atravessados por questões ligadas ao universo LGBTQIA+, algumas vezes de maneira mais explícita, como no ótimo 120 Batimentos por Minuto (2017), em outras de forma mais sutil, como no caso do recente Enzo (Enzo), que chega para aluguel nas plataformas da Apple TV e da Amazon Prime. No ponto central, independente da obra, parecem estar as ideias de pertencimento, desejo, exclusão e negação em diferentes graus. E que muitas vezes são exploradas em historias que tensionam esses temas que, inclusive, quebram em alguma medida o que prevê o status quo. E talvez não seja por acaso que no universo do protagonista que dá nome ao mais recente projeto do realizador haja uma predileção pelo trabalho na construção civil. Como pedreiro mesmo.

O que, inicialmente, parece ser uma forma de confrontar os pais Paolo (Pierfrancisco Favino) e Marion (Élodie Bouchez) - algo bastante natural para um adolescente de 16 anos como Enzo (Eloy Pohu) -, não demorará para soar como uma espécie de alegoria de expiação dos próprios desejos do rapaz. Talvez estar perto de homens suados em uma construção, para alguém que está amadurecendo e formando suas noções de sexualidade, seja algum tipo de propósito. Ou talvez não. Enzo, afinal, tem uma jovem namorada. Ou ao menos faz de conta que tem. Talvez para se exibir para os demais - em uma idade que a elaboração da masculinidade e da identidade parecem em eterno movimento. Mas quem parece lhe deixar efetivamente animado no canteiro de obras é Vlad (Maksym Slivinskyi), um ucraniano que está fugindo da guerra, enquanto busca uma existência mais digna na França.

 


E creio que seja que nesse ponto da mescla entre narrativa queer e debate político-social e imigração que o filme se perde um pouco. Ao cabo, alguns dos temas parecem mais importantes do que a forma como são trabalhados. Indo de lá para cá, entre a voluptuosa casa dos pais e sua rotina como aprendiz de servente, Enzo parece o típico jovem descompromissado no que diz respeito ao futuro (por mais contraditório que tudo possa ser, uma vez que ele já trabalha). Mas ao mesmo tempo em que seu irmão mais velho (Nathan Japy) parece pronto para entrar numa universidade, convivendo harmonicamente com seus colegas que também frequentam a casa dos pais, o protagonista parece apenas um revoltadinho pequeno-burguês, que tem alguma aptidão para as artes, e que soa apenas meio rebelde sem muita causa. Afinal, não deixa de ser bastante cômodo ser desobediente em meio a um sem fim de braçadas na piscina enorme do casarão da família (ou eu tô militando demais?).

E, bom, não é que não haja bons momentos, mas talvez esse fosse um filme bem melhor se fosse mais centrado na figura de Vlad que, ao lado do companheiro de trabalho Miroslav (Vladislav Holyk), vive de fato uma situação angustiante. Especialmente depois de o segundo receber uma ligação do governo, convocando-o para participar do conflito contra a Rússia. Só que Enzo, com o perdão do trocadilho, parece o legítimo Enzo - e talvez o interesse pelos ucranianos, pela sua rotina, as idas à boate e o convívio com pessoas de outros estratos sociais seja apenas uma fuga do mundo, frente a um cenário de privilégios. Há uma cena em que o chefe de Enzo fica embasbacado ao descobrir que ele vive em uma mansão com vista para o mar, que talvez custe alguns milhões de euros. E, sim, por mais que a obra trate das exclusões em suas mais variadas formas, o que falta aqui é um pouco mais de conflito. Algo que faça com que a gente se importe um pouco com um Enzo birrento. 

Nota: 6,0 

 

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Pitaquinho Musical - Yaya Bey (Fidelity)

"Diga o que pensa, pense no que diz / É um novo dia, não há como fugir de si mesmo". Vamos combinar que, muito provavelmente, não foi por acaso que a primeira canção escrita por Yaya Bey para Fidelity, seu quinto registro de inéditas, tenha sido justamente Blue. Ao cabo, ela parece uma música ao mesmo tempo vulnerável e resiliente, e que emerge em um momento em que a artista se sentia meio que no fundo do poço. Algo que ela mesma mencionou no material de divulgação, quando detalhou o fato de ter desabado emocionalmente, em um hotel de Miami, justamente na semana de lançamento de Do It Afraid (2024), seu trabalho anterior. Quem acompanha a carreira da cantora sabe que ela perdeu o pai em 2024, tendo ainda de lutar contra outras pressões da indústria - e que certamente tem a ver com o fato de ser uma mulher negra, buscando sobreviver nessa máquina trituradora de famosos que é o showbiz, com a sua avidez ininterrupta em busca da mais recente novidade.

 


E tudo isso talvez explique porque esse registro parece ser tão nostalgicamente anos noventa - com aquele R&B classudo, mesclado com pop caloroso e uma neo soul ao mesmo tempo contemporânea, urbana e melancólica -, mas com menos apego ao aparato comercial, de melodias acessíveis, ou refrãos cantaroláveis. Aqui, a artista bebe da fonte de cantoras daquela década, como Brandy ou Aaliyah, para apresentar uma coleção de canções discretas, quase sonolentas, em que os versos surgem minimalistas mas sensuais, quentes mas elegantes. O resultado são canções que fluem gostoso, ainda que sejam menos palatáveis, o que talvez exija alguma persistência do ouvinte que se acostumou com joias como as movimentadas Merlot and Grigio ou End of the World, do disco anterior. Em geral esse pode até ser um trabalho meio que de ressaca emocional. Mas é uma ressaca de boas canções, como Forty Days, Higher e a já citada Blue.

Nota: 8,0 


terça-feira, 12 de maio de 2026

Tesouros Cinéfilos - Melancolia (Melancholia)

De: Lars Von Trier. Com Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Alexander Skarsgård, John Hurt e Charlotte Rampling. Drama / Ficção Científica, Dinamarca / Suécia / França / Alemanha, 2011, 131 minutos.

Um filme catástrofe, mas sobre a nossa catástrofe interior. Não sobre um planeta que vai colidir com o nosso, mas como as nossas angústias colidem com o corpo físico. Nos deixando desabilitados ou mesmo incapazes de superar medos, incertezas ou dores. O consciente sendo simplesmente invadido pelo inconsciente. E toda a complexidade que envolve doenças como depressão ou ansiedade. Aliás, quem já sofreu com tais quadros, talvez tenha muito mais facilidade em compreender os motivos de Claire, a personagem de Charlotte Gainsbourg, sofrer tanto com aquilo que ela acredita ser a proximidade da morte. Para o espectador nunca fica exatamente claro o seu quadro de ansiedade - ainda que ele só aumente conforme o planeta sugestivamente chamado de Melancolia (Melancholia), se aproxima inapelavelmente da Terra. Azul, imenso, imprevisível, doloroso.

Sim, hoje em dia, após tantos debates a respeito da obra de Lars Von Trier - de Dogville (2003) -, já parece bastante claro o fato de que a catástrofe em vias de ocorrer no filme, é muito menos literal do que imaginamos. Aliás, o próprio diretor dinamarquês, em entrevistas, chegou a comentar que a ideia para o filme surgiu justamente das longas sessões de terapia com o seu psicólogo, quando tratava um severo caso de depressão. Aliás, o que o filme deixa claro, também, é que esse tipo de doença independe de condição social, de prestígio ou qualquer outra coisa. Não por acaso, o cenário é voluptuosa casa de campo de John (Kiefer Sutherland), o marido de Claire. E que servirá de palco para o casamento da irmã de Claire, Justine (Kirsten Dunst). O que parece mais uma medida desesperada de tentar fazer com que ela supere, de qualquer maneira, a depressão. Que, como todos sabemos, não se resolve com felicidade forçada. Ou meios sorrisos.

 


Não por acaso, Justine trafega por aquele ambiente como se estivesse deslocada. Como se fosse uma mera convidada. Ou algum tipo de participante involuntária de algum game, como aquele visto em Vidas em Jogo (1997). "Você está feliz?", as pessoas insistem em perguntar. O seu sorriso que consegue ser melancólico e doce em igual medida, entrega: mesmo quando ela se diverte, como na parte em que a limusine que a conduz para o casamento tranca no acesso, não parece ser algo natural. O mesmo valendo para a forma com que ela protela essa felicidade protocolar, que responde aos ritos sociais e ao que prevê as convenções, O que pode ser percebido no momento em que, ao invés de simplesmente entrar no salão de festas após mais de duas horas de atraso que exasperam os convidados, ela ainda optar por cumprimentar o seu cavalo preferido no estábulo. Ou mesmo indo simplesmente dormir, mais adiante - este, aliás, um dos mais tradicionais refúgios de pessoas em depressão.

Dividido em duas metades, uma para Justine e outra para Claire, a obra se ocupa de uma série de pequenos momentos que estabelecem diálogo com a proposta da produção - que, sim, pode parecer hermética em seus excessos de imagens oníricas ou cheias de simbolismos, mas que nunca soam essencialmente complexas apenas porque sim. O que fica evidente já na colagem inicial em que várias ocorrências alegóricas são despejadas em câmera lenta, com uma delas chamando bastante a atenção e que, muito provavelmente, servirá como guia daquilo que acompanharemos pelas próximas duas horas - que é o momento em que Claire surge em meio a um denso mato, em que tenta avançar enquanto é impedida por um emaranhado de raízes que emergem do solo. É como se caminhar fosse simplesmente impossível frente ao que ela sente. Numa metáfora bastante direta no que diz respeito ao tema da depressão.

 

 

E se na parte de Justine a chegada do planeta Melancolia parece apenas uma ideia meio distante - refutada ou não pelos cientistas ou por teóricos da conspiração -, o segmento de Claire aumenta a tensão, com a expansão da ideia de que outro corpo celeste vai simplesmente colidir com o nosso, sem margem para sobrevivência. E a forma como Claire surge acuada, aqui e ali, sem ter muito o que fazer, enquanto se empenha em apoiar a própria irmã que sofre, só evidencia o desgaste gerado em quem padece de quadros clínicos do tipo. Enigmática e visualmente exuberante - as cenas noturnas que parecem obter um contraste enevoado entre o sombrio e o iluminado -, a obra funciona quase como uma grande ópera da dor, em um microcosmo que avalia a aflição doméstica, mas sem ignorar a complexidade do mundo e do tecido social como um todo. Vencedora de vários prêmios, a produção está disponível na Mubi, e completa 15 anos de seu lançamento oficial no Festival de Cannes, agora em maio. Vale resgatar.

Pitaquinho Musical - Bemti (Adeus Atlântico)

Vamos combinar que, em política, muito se usa a palavra multilateralismo para definir as formas como diversas nações trabalham de forma cooperativa, na intenção de resolver seus problemas. E, bom, se fosse possível a utilização do mesmo substantivo na música, talvez ele pudesse ser definido por aquilo que artistas como o Bemti, conseguem em álbuns como Adeus Atlântico, seu terceiro registro de inéditas. Sim, porque se anteriormente o mineiro tinha como marca da MPB mais tradicional - como no anterior Logo Ali (2021) -, aqui temos a impressão de estar em um encontro sonoro global, tamanha a quantidade de referências utilizadas pelo artista. Reflexo de suas constantes viagens não apenas pelo interior do Brasil - de Rio de Janeiro à Bahia, passando pela sua própria terra natal -, e por países, como, Portugal e Inglaterra.

 


E ainda que siga tendo como base a viola caipira - espécie de marca registrada -, Bemti amplia as referências, incorporando, aqui e ali, elementos de britpop, new age, indie rock, psicodelia e até estilos em alta, atualmente, como o amapiano, da África do Sul. O resultado é um registro de raríssima beleza, capaz de navegar pelo rock rural de Sá e Guarabyra, como na irresistível e calorosa Quase Sertão, pelo folk alternativo à Bon Iver da faixa-título, e pelo soft rock oitentista de Euforia. Direto, orgânico, humano, onírico e altamente sofisticado, esse é daqueles álbuns pequenos, mas que só crescem a cada audição. E que materializam sentimentos ligados à memória, à saudade de casa e ao deslocamento contínuo, como parte da experiência humana. Se estiver em dúvida, comece por Miragem (Viver de futuro é ensaio / Preso na função dos triunfos / Dentro de um aquário / Que todo mundo vê). Seguramente uma das melhores canções lançadas em 2026.

Nota: 9,5 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Jovens Mães (Jeunes Mères)

De: Jean-Pierre e Luc Dardenne. Com Lucie Laruelle, Babette Verbeek, Elsa Houben, Janaïna Halloy Fokan e Samia Hilmi. Drama, França / Bélgica, 2025, 106 minutos.

Em uma das tantas sequências comoventes do ótimo Jovens Mães (Jeunes Mères), mais recente produção dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne e que chega para aluguel nas plataformas da Apple TV e da Amazon Prime, uma desesperada Ariane (a ótima Janaïna Halloy Fokan) explica à sua mãe o fato de nunca a ter reprovado por ser pobre. "Eu só não queria ter o filho", suplica aos prantos, após ter levado um tapa de Nathalie (Christelle Cornil), a sua genitora e avó da bebê que carrega, a contragosto, nos braços. A visita de Ariane a Nathalie tem um objetivo central: ela dá à sua mãe os motivos pelos quais ela pretende doar a filha a uma família de acolhimento. Alguém que poderá criá-la, exatamente como permite a Lei, com melhores condições. Ariane queria abortar. A mãe não permitiu. O que é apenas uma das tantas facetas problemáticas das pressões sociais que envolvem a maternidade.

Talvez poucas jovens mulheres admitam o fato de terem sido mães para agradar a família. Quem nunca ouviu dos pais sobre o desejo de ser avô ou avó - cedendo a esse tipo de situação apenas para não romper essa lógica familiar? E que envolve, em muitos casos, o discurso conservador do papel da mulher na sociedade? O filme dos Dardenne, um mosaico complexo a respeito das eventuais precariedades da maternidade, evidencia feridas sociais variadas em que temas, como, abandono, dependência afetiva, falta de maturidade emocional, relações tóxicas, autodestruição e problemas financeiros são salpicados, aqui e ali, por meio de cinco histórias diferentes, em que mães que, em muitos casos, sequer saíram da adolescência, precisam lidar com o peso dessa enorme responsabilidade. O que ocorre, em muitos casos, com pouca estrutura familiar e com, óbvio, o abandono dos parceiros (jovens meninos que só passarão a pensar sobre o significado de colocar um filho no mundo depois que a coisa acontece).

 


Em linhas gerais essa é uma experiência dolorida e que, mais uma vez, como costuma acontecer na filmografia dos Dardenne, olha para a juventude não como uma alegoria meio abstrata para futuro ou perda de inocência. E, sim, como um estado de formação urgente frente às pressões do mundo. Em suas obras, não são poucos os casos em que adolescentes, ou mesmo crianças, são levados à tomarem decisões que, até mesmo para os adultos, podem ser eticamente questionáveis - e basta pensar em obras essenciais como Rosetta (1999), O Filho (2002), A Criança (2004) ou mesmo a recente O Jovem Ahmed (2019), para que sejamos confrontados com questões ligadas à violências, traumas e solidão. Ou mesmo a temas ainda mais complexos, ligados à questões políticas ou sociais. Em Jovens Mães, as cinco jovens do filme buscam acolhimento em uma espécie de abrigo, o que também torna evidente a importância da sororidade. Enquanto lidam com um ambiente em permanente combustão.

E não deixa de ser impressionante perceber como um filme tão curto consegue ser dotado de tanta complexidade. Se na primeira cena da obra já somos impactados pelo desespero de Jessica (Babette Verbeek), que busca algum contato com a mãe biológica que lhe abandonou, ao mesmo tempo em que precisa lidar com a própria gravidez, no instante seguinte temos Perla (Lucie Laruelle), que tem uma relação turbulenta com seu namorado (e pai do seu bebê), ao mesmo tempo em que sonha em ter uma família mais "normal", como é da sua irmã. Sendo um tanto trágico que isso tenha de acontecer em meio a interrupção de uma adolescência. No caso, a dela própria. Já Julie (Elsa Houben) precisa lidar com o vício e suas recaídas - com a maternidade surgindo, estranhamente, como uma chance para um recomeço. E há ainda Naïma (Samia Hilmi), que parece um ponto mais luminoso da narrativa, ainda que ela não escape de um lado sombrio. Indicada à Palma de Ouro no Festival de Cannes, a obra venceria o prêmio nas categorias Melhor Roteiro e do Júri Ecumênico. E é sempre muito prazeroso ver qualquer filme da dupla, afinal, nunca saímos os mesmos de qualquer que seja a sessão.

Nota: 9,0 

 

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Pitaquinho Musical - Luca Argel (O Homem Triste)

Quem acompanha a carreira do brasileiro radicado em Portugal Luca Argel, sabe que ele é capaz de ser irônico e debochado - como no simples e divertido Conversa de Fila (2019), que é uma verdadeira coletânea de sambinhas cotidianos -, mas também sério e contemplativo como no político Sabina (2023), que é inspirado em texto de Luiz Antônio Simas. O que não costuma mudar no repertório do artista é o aceno à MPB clássica que, mesclada a outros ritmos, costumam conferir força as suas composições que, com O Homem Triste, parecem ainda mais urgentes e atuais. Ainda mais em tempos de machosfera, de masculinidade frágil, de ascensão da cultura redpill e de incels que acham que podem moldar as mulheres ao seu gosto. Geralmente alinhados à políticos de extrema direita que, com seu reacionarismo atroz, ampliam discursos de ódio e, consequentemente, casos de feminicídio e violência.

 


"Começou há quatro anos, com o nascimento do meu afilhado. Olhava para ele aprendendo a andar, a falar, até que um dia ele voltou da escola diferente. Mais agressivo, rejeitando alguns brinquedos, algumas roupas, algumas cores que ele antes gostava. [...] Fiquei me perguntando: como os meninos aprendem a ser homens? Que preço temos que pagar?", explicou Argel no material de divulgação. O resultado é um conjunto de canções que exploram o conceito do álbum, equilibrando à perfeição o peso do tema, com a suavidade pop das melodias. Algo que podemos perceber, por exemplo, na ondulante e inaugural faixa-título (Foi no jornal que aprendi ser homem / Foi na igreja e no futebol). Em outros pontos, os temas surgem de forma alegórica, como no reggae Primeiro Mar (O primeiro mar de todo mundo / Fica dentro de uma mulher) ou no sambinha spoken word Se Acabou (Votar, governar, falar bem alto / E beber, e sujar e não limpar / E fazer filhos e fugir / E cortar árvores, furar minas).

Nota: 8,5 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Honey, Não! (Honey, Don't!)

De: Ethan Coen. Com Margaret Qualley, Chris Evans, Aubrey Plaza e Charlie Day. Comédia / Policial, Reino Unido / EUA, 2025, 89 minutos.

Acho que o problema de filmes como Honey, Não! (Honey, Don't!), que acaba de chegar à Amazon Prime, é a expectativa gerada. Especialmente pelos nomes envolvidos na produção, a começar pelo diretor. Tudo bem que já vai fazer quase uma década que o Ethan Coen não entrega uma produção decente - vá lá, se considerarmos A Balada de Buster Scruggs (2018) um bom filme e há controvérsias -, mas a gente olha o nome dele ali e pensa em Fargo (1996), em O Grande Lebowski (1998) e em Onde Os Fracos Não Tem Vez (2007) e em tudo de legal que ele já faz ao lado do irmão Joel e fica meio que vivendo de passado. Ou vai ver os tempos são outros e esse tipo de humor meio nonsense, escrachado mas contido e estranhamente violento, que é a marca registrada da dupla, talvez já não caiba mais em uma década tão esquisita como essa. Enfim, a gente teria gostado mais desse último filme se ele tivesse sido lançado, sei lá, em 1994?

Honestamente não sei dizer e tudo piora quando um filme tão curtinho consegue ser tão confuso. Ou tão raso - com a profundidade de um pires -, com as eventuais boas ideias tão espalhadas aleatoriamente, que a gente não consegue se apegar em nada. No centro da trama há um pastor pentecostal, seu nome é Drew Devlin (Chris Evans), que parece estar envolvido em algum tipo de maracutaia com a máfia francesa, que é representada ali pela chefona do tráfico sexy Chère (Lera Abova). Enquanto leva, aqui e ali, algumas jovens de sua congregação para a cama (além do carisma, ele tem a lata do Chris Evans, não esqueçamos), ele é informado por Chère que o bicho tá pegando pro lado dele, especialmente após o assassinato de Mia Novotny (Kara Petersen), que parece ter sido premeditado. E não sei dizer se em 2026, haja alguém considere divertida uma sequência de sexo inesperadamente interrompido.

 


Aliás, a maioria das tentativas de humor do filme, envolvem instantes sexualmente constrangedores, até com o uso de rimas visuais óbvias, que acho que nem um estudante de cinema compraria a ideia - como no momento em que a detetive Honey (Margaret Qualley) e a policial MG Falcone (Aubrey Plaza) transam pela primeira vez. Para no take seguinte, após um corte, uma torneira surgir borbulhante, enquanto jorra água para a limpeza de brinquedos sexuais diversos. Sim, legal, eu sou total contra esse puritanismo que tem invadido nosso cinema, atualmente, mas desde que a coisa tenha algum nexo narrativo. E que não use de alegorias tão pouco inspiradas. Com tudo piorando no momento em que Honey sai para confrontar o namorado violento de sua sobrinha para, num ato de pura subversão (uau), colar um adesivo feminista em cima de outro do MAGA (óbvio), que estampava o carro do sujeito.

E que a questão política não faça muito sentido, é algo até meio normal. Só seria mais legal se as bandeiras levantadas fossem menos infantilizadas, ou não soassem como um debate de Twitter de 2017. Nós temos, afinal, uma investigadora e uma policial lésbicas - com a primeira tendo uma irmã com uma dúzia de filhos -, um reverendo golpista e hedonista e mais um punhado de gente no entorno e lá pelas tantas a gente já não se importa com ninguém. Há um esforço de estilização obviamente Irmãos Coen na fotografia, ou mesmo na montagem, mas, no fundo, quem são, de fato, aquelas pessoas? O centro de tudo está em Mia e a morte dela descambará para uma sequência de cenas de violência e de sangue jorrando que é meio que típico da dupla. Ou de Ethan. E lembra lá em cima, que falei dos nomes envolvidos? Vocês chegaram até aqui e leram na resenha: Margaret Qualley, que esteve impecável em A Substância (2024) e Aubrey Plaza e sua trajetória de respeito. Bom, elas também precisam pagar boletos. Ou vai ver se enganaram, como nós, com o nome no cartaz. Vai saber.

Nota: 3,5 

 

terça-feira, 5 de maio de 2026

Cine Baú - Interlúdio (Notorious)

De: Alfred Hitchcock. Com Ingrid Bergman, Cary Grant, Claude Rains e Leopoldine Konstantin. Suspense / Romance / Drama, EUA, 1946, 101 minutos

Uma das histórias que mais gosto sobre Interlúdio (Notorious) ocorreu em 1979, décadas depois do lançamento do clássico suspense de espionagem. Naquele ano, Alfred Hitchcock era homenageado na cerimônia Life Achiement Award, quando Ingrid Bergman, a estrela da obra de 1946, lhe deu um "presente" inusitado - no caso, a chave original que abria, no filme, a misteriosa adega do casarão de Alexander Sebastian (o ótimo Claude Rains) e que seria decisiva para uma grave descoberta: a de que os alemães refugiados no Rio de Janeiro, após a Segunda Guerra Mundial, guardavam uma quantidade generosa de minério de urânio, escondido em garrafas de vinho. Na obra-prima de mistério, essa é uma sequência de forte impacto. E que ganha mais força pela engenhosidade, com Devlin (Cary Grant), escolhendo beijar deliberadamente Alicia (Ingrid Bergman), como forma de tentar distrair o executivo Sebastian. Que, naquela altura, já estava casado com Alicia, como parte de um estratagema para desvendar os segredos dos alemães.

Evidentemente que a chave, essa peça tão pequena, possui extrema importância em Interlúdio. Então não deixa de ser divertido pensar em Hitchcock - que sempre teve um talento absurdo para converter objetos triviais do cotidiano em catalisadores de tensão dramática - recuperando o objeto tantos anos depois. Nos bastidores, há a garantia de que o Mestre do Suspense foi, de fato, surpreendido - a chave teria ficado por anos com Cary Grant, que teria presenteado Ingrid mais tarde. Foi quase como um contragolpe simbólico e meio inesperado. Um acerto de contas curioso. Hitchcock sempre teve esse apego à coisa prosaica, ao item cenográfico - seja a corda em Festim Diabólico (1948), o isqueiro em Pacto Sinistro (1951) a cortina em Disque M Para Matar (1954) ou à câmera fotográfica em Janela Indiscreta (1954). Elementos que criam tensão ou ameaça, mesmo que semioticamente eles não venham embutidos desse sentido. É como se a chave em sua mão fosse uma anedota.

 


E por mais que a chave seja fundamental para o andamento de Interlúdio - a cena em que Alicia luta para escondê-la nas mãos, tentando passá-la para Devlin em meio a um jantar no casarão de Sebastian está impressa de maneira inesquecível na retina do fã de cinema - o filme é muito mais do que isso. É um thriller de espionagem política que teve a ousadia de tratar do belicismo do pós-guerra, em um momento em que ainda havia um tanto de incerteza a respeito do uso de energia atômica (por assim, dizer). E, como se não bastasse esse pano de fundo em que o nazismo moribundo busca respirar na América do Sul, sendo observado a certa distância por Devlin - o agente do governo dos Estados Unidos que recruta Alicia, filha de um espião alemão condenado pela justiça, com quem ela tinha uma relação conturbada -, há ainda espaço para aquilo que Hitchcock faz de melhor, que é a narrativa clássica que coloca em conflito a paixão e o dever. O que resultará em um sem fim de sequências imprevisíveis, irônicas e psicologicamente tensas.

Afinal de contas, vamos combinar que não deixa de ser eticamente questionável o protagonista simplesmente empurrar o seu objeto de desejo, por quem ele se apaixona imediatamente, em direção a um grupo perigoso de alemães nazistas, esperando que tudo ocorra normalmente. O fato de Sebastian ser um antigo amigo do pai de Alicia, e alguém que tem completa devoção pela jovem, para irritação da mãe controladora do sujeito (vivida por Leopoldine Konstantin) - por sinal, outro arquétipo recorrente na filmografia de Hitchcock -, burla ainda mais a lógica, tornando incerto cada encontro e desencontro entre o casal. Conferindo uma fluidez um tanto lânguida à narrativa - reforçada pelas belas vistas da sacada do Copacana Palace no Rio de Janeiro -, a obra avança sem pressa, possibilitando ao público desvendar os mistérios aos poucos, percebendo nos detalhes os riscos vividos pelos protagonistas. Como é o caso da parte em que Sebastian revela com um sorriso torto e debochado, que assistia o casal com o seu binóculo, em meio a um encontro no clube de equitação. 

 

 

Aliás, esse é só mais um dos típicos instantes hitchcockianos de geração de suspense onde aparentemente não deveria haver nenhuma tensão maior - o mesmo valendo para o momento em que um certo Emil (Eberhard Krumschmidt), um atrapalhado alemão, dá bandeira a respeito do conteúdo de uma garrafa de vinho (aparentemente sendo "suicidado" mais adiante), em meio a um jantar.  Lembrado com carinho pelos fãs, Interlúdio integra uma série de listas de grandes filmes da história do cinema, como a do American Film Institute (AFI) - é o 38º em uma lista de 100 Suspenses - tendo recebido ainda duas indicações ao Oscar (nas categorias Roteiro Original e Ator Coadjuvante para Rains). Não por acaso, sua engenhosidade sedutora, que faz com que uma garrafa de vinho se converta em peça-chave e evidência criminal - a bebida alcoólica, aliás, renderia outro capítulo -, pavimentaria o caminho para que o diretor construísse uma sólida carreira, com clássicos que permanecem até hoje no coração dos cinéfilos.


Pitaquinho Musical - Grace Ives (Girlfriend)

Vamos combinar que, em alguma medida, talvez o disco anterior de Grace Ives, Janky Star (2022), fosse um pouco mais hermético, com tintas mais experimentais. O que talvez pudesse afastar aquele ouvinte mais ocasional. Digamos que o "problema" foi solucionado com Girlfriend, o recente terceiro trabalho de estúdio, que parece uma experiência mais solta, mais direta. E sem abrir mão do bedroom pop sofisticado e lo-fi, mas com algumas doses da eletrônica minimalista, que costumam caracterizar seu som. Mais convidativa, após um período meio conturbado de uso de substâncias (nas entrevistas, ela não deixa claras quais), a artista nova-iorquina abre espaço para melodias cantaroláveis e mais emocionalmente abertas. É o caso da imediatamente grudenta Fire 2, que equilibra com perfeição os arranjos bem polidos, com as letras metafóricas sobre esgotamento e vulnerabilidade.  

 


Aliás, curioso pensar como a radiofônica e calorosa Lullaby, que encerrava o registro anterior, já parecia apontar para esse novo direcionamento. Proposital ou não, Grace Ives está mais palatável. Ela saiu do fundo poço, daquela sensação de teias de aranha pelo caminho. Como comprovam as refrescantes My Mans, Dance With Me e Stupid Bitches. Não que não haja espaço para algum estranhamento, afinal, essa meio que sempre foi uma das características da cantora - aquela coisa de quebra, de imprevisibilidade. Mas mesmo em canções como a onírica Now I'm, que abre o álbum, parece haver espaço para algum tipo de conforto, de espontaneidade. Claro que, mesmo assim, o disco nunca percorre um caminho óbvio, havendo espaço para a eletrônica mais contagiante, como em Avalanche ou para a contemplação, como em Drink Up.

Nota: 8,5 

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Ágon: O Corpo e a Luta (Agon)

De: Giulio Bertelli. Com Alice Bellandi, Sofija Zobina e Yile Yara Vianello. Drama, Itália / França / EUA, 2025, 100 minutos.

Ágon: O Corpo e a Luta (Agon) trata de um assunto que, aqui e ali, a gente vê pincelado, especialmente em tempos de Olimpíadas: o treinamento para atletas de elite, independente da modalidade, é pesado. Num nível quase excruciante de exigência. E de abnegação. Participar desse tipo de disputa, afinal, exige foco. Seja no judô, na esgrima ou no tiro de carabina. Alcançar uma medalha é para poucos. Lidar com a  derrota - ou pior, a dor de uma lesão, de um cancelamento (algo típico dos nossos tempos) ou de um trauma profundo - é para menos pessoas ainda. Ao cabo, quando a gente assiste aos Jogos Olímpicos em toda a sua beleza e exuberância, dificilmente a gente imagina o que acontece por trás. Quais as cobranças. Quais as pressões exercidas - por governos, por patrocinadores, pelo público. E o que a estreia de Giulio Bertelli faz, é nos jogar para esse ambiente. Mas nunca de uma forma cômoda.

"Como velejador offshore, eu sei como é passar pela dor das lesões e da recuperação, lidar com a mídia ou simplesmente com a complexidade de administrar essa máquina que é o esporte profissional. Mas também havia a vontade de contar o lado B, a solidão, a espera", comentou Bertelli, um privilegiado herdeiro da Prada - ele é filho da designer de moda Miuccia Prada -, em entrevista ao site Harper's Bazaar. E, evidentemente, como fica claro na obra que chega à Mubi, a sua condição de nepobaby não significou acomodação. Ou achar que o jogo já estava ganho. Com elegância e até quebrando uma certa lógica do que se espera de um cinema mais óbvio, o diretor adota um estilo quase documental - de fotografia granulada, ângulos oblíquos e câmera no rosto (ou em close até mesmo de partes mais "desconfortáveis") -, pra registrar a preparação de três atletas para os fictícios jogos de Ludoj, de 2024.

 


Inspirado no terrível acidente ocorrido com o esgrimista da União Soviética Vladimir Smirnov, em 1982, o filme recupera essa história para contar o drama de outra atleta, a esgrimista Giovana Falconetti (Yile Yara Vianello), quando seu florete perfura a máscara de uma adversária em meio às oitavas de final dos Jogos. Em meio a explicações sobre padrões de segurança da malha metálica dos equipamentos e sobre regulamentos técnicos gerais - em um tipo de detalhamento dificilmente visto em uma produção de cinema (talvez em documentários) - a atleta vive o dilema de prosseguir ou não na disputa. Tudo enquanto, óbvio, nas redes sociais, ela sofre todo o tipo de pressão em comentários sempre bem ponderados (contém ironia), por prosseguir mesmo frente ao dilema ético gerado pelo acidente. Na década vigente isso é parte da engrenagem, diga-se.

Aliás, as redes sociais e toda a distração proporcionada por elas na era moderna parecem parte intrínseca da narrativa - não sendo poucos os momentos em que sequências reais de treinamentos, se mesclam com jogos de videogame, conversas em redes sociais ou disputas online, que meio que burlam os limites entre a realidade e a ficção. Afinal, o que é real ou mesmo viver, existir, para alguém que tem como única rotina treinar, treinar e treinar? Não é por acaso que, em certa altura, uma das atletas está em uma boate, sendo praticamente impossível ouvir qualquer tipo de conversa no ambiente. Como se estivessem mudas para suas próprias vontades e desejos, recebendo todo o tipo de atenção e pressão por performance, as protagonistas parecem se ver como bonecos de ventríloquos alienados e manipulados por todos os lados. O que é reforçado pela burocracia que envolve meio que tudo, como na parte em que a judoca Alice Bellandi (que interpreta ela mesma, ampliando o naturalismo da experiência) precisa entregar uma série de documentos pra participar de uma competição. 

 
 
 
No filme, por sinal, Alice sofre uma grave lesão que lhe obriga a correr contra o relógio para a próxima competição e a cena em que ela passa por uma invasiva cirurgia no joelho é meio que gráfica até demais - sendo parte das formas com que Bertelli encontra para evidenciar as agruras das jovens, que contrastam com as capas de revistas e as expectativas geradas ao serem alçadas ao posto de "próxima promessa" do esporte. É o caso, por exemplo, da atiradora de carabina Alex Sokolov (Sofija Zobina) que, a despeito do seu discurso pacifista, vê sua vida virar de cabeça para baixo, quando tem um vídeo viralizado em que ela aparece em uma caça à animais selvagens. Espada, luta, tiro. Certamente não é por acaso que o realizador centra essas histórias em esportes de de força. De exigência e disciplina quase militares. É preciso superar muita coisa. Ainda mais sendo mulher. Os gritos de felicidade - ou por um golpe bem dado - podem facilmente se converter em urros de desespero. E pouca gente estará do outro lado para acolhê-las. 

Nota: 8,0