quarta-feira, 20 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary)

De: Christopher Miller e Phil Lord. Com Ryan Gosling, Sandra Huller e James Ortiz. Ficção científica / Drama / Aventura, EUA, 2026, 156 minutos.

"Rocky, telefone, minha casa!". Vamos combinar que, se ao final de Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary), aparecesse em algum canto dos créditos finais o nome de Steven Spielberg, não seria nenhuma surpresa. Tamanha a cara de blockbuster situado em algum local entre as décadas de 80 e 90, que a adaptação do livro de Andy Weir que ainda está nos cinemas - mas também já disponível para aluguel na Amazon e na Apple TV - tem. Ao cabo trata-se de uma obra movimentada, calorosa e cheia de afeto - muito mais próxima de algo como um ET: O Extraterrestre (1985) dos confins do universo, do que da sisudez existencialista de um A Chegada (2016), por exemplo. E vamos combinar que a gente não precisa ser cabeça o tempo todo. Ou esperar um grande exame da nossa situação global política, social, cultural ou religiosa atual, para assistir um filme. Talvez faça bem se divertir simplesmente. E esquecer por algumas horinhas daquilo que nos atormenta. Um filme que não doi. E que nos faz abrir um sorriso largo. Como aqueles que víamos na Sessão da Tarde.

Ingenuidade de minha parte? Talvez. Mas foi exatamente esse o meu sentimento assistindo à produção dirigida por Christopher Miller e Phil Lord e protagonizada por um Ryan Gosling no auge do carisma e do charme. Aliás, ele sendo um astronauta naturalmente curioso que acorda do coma em uma nave espacial sabe-se lá onde ou em que ponto da galáxia, que faz o contraponto ideal ao estilo prudente e austero de Eva Stratt (a sempre ótima Sandra Huller), uma das líderes da Força Tarefa Petrova e que, mais adiante será uma espécie de chefe geral do Projeto Hail Mary. Um projetinho simples, aliás, que visa tentar salvar o mundo da mais nova desgraça que nos afeta - como se não bastassem às pandemias, as guerras e o avanço da extrema direita maluca. E que envolve o surgimento de um novo micro-organismo que tem uma habilidade única: se alimentar da luz solar. O que fará com que o sol se enfraqueça dentro de algumas décadas, se nada for feito. O que prejudicará não apenas a temperatura do globo - com uma nova Era Glacial à caminho -, mas também a nossa agricultura. Nossa capacidade de produzir alimento. Um desastre.

 


E pra tentar evitar essa tragédia que se avizinha, Stratt vai atrás do único sujeito possível pra salvar nosso mundinho de meu Deus: um professor de biologia de escola fundamental, que responde pelo nome de Ryland Grace (Gosling). Ocorre que Grace já foi motivo de chacota no meio acadêmico no passado, caindo em desgraça após escrever um artigo onde buscava evidenciar um fato que, de forma resumida, ia contra um consenso científico que existe até hoje: de que a existência de vida em outros planetas, ou mesmo em ambientes hostis, não exigiria necessariamente a presença de água. Da ligação entre oxigênio e hidrogênio. E como o tal micro-organismo - o nome oficial no livro e no filme é astrofágico - que se alimenta da luz solar navega entre Vênus e o Sol em um arco chamado de Linha de Petrova (em homenagem à Irina Petrova, a cientista que o descobre), talvez resida aí o segredo de sua resistência. O que caberá ao protagonista, um biólogo molecular de formação, descobrir.

Assim como ocorre no livro, no filme temos uma série de idas e vindas no tempo, que alternam entre o passado, quando o projeto estava sendo construído - com a participação de cientistas, engenheiros e pesquisadores de todo o mundo - e o presente (que talvez seja o futuro, claro), com Grace despertando na nave de um coma induzido de doze anos. E meio que não apenas aprendendo a sobreviver sozinho em uma nave. Mas também compreendendo qual a sua missão naquele local inóspito. O que ocorrerá em meio de flashbacks bem conduzidos, que unem uma ponta à outra, e que tanto na obra literária como no filme funcionam como uma espécie de recuperação paulatina da memória. Com cada nova lembrança operando como uma peça de quebra-cabeças. Uma ponte. Até o momento em que ele lembrará que está ao lado de um planeta chamado Tau Ceti, porque o dito parece ser resistente à ação dos astrofágicos, preservando sua luz natural. Cabendo a Grace descobrir os motivos e, mesmo estando há anos-luz de distância da Terra, tentar enviar algum sinal (ou até material) que explique os fatos.

 

 

Sim, pode parecer meio complicadinho lendo, mas não é. É simples: o Sol na Terra tá perdendo força, Grace está do lado do planeta que não perde luz mesmo com os astrofágicos tendo "contaminado" parte da galáxia. Só que quando Grace olha pela janelinha, percebe que não está sozinho: há uma enorme nave que lhe avizinha, chamada de Blip-A e que tentará fazer algum contato. E, bom, pra quem não leu o livro e pouco sabe da produção, vale se manter no escuro, com o perdão do trocadilho, para desvendar os acontecimentos. E as surpresas decorrentes deles. Mais leve, divertido e menos burocrático que o livro - que inicia muito bem e lá pelas tantas, não nego, dá uma aborrecida -, o filme não perde muito tempo com subtramas desnecessárias, focando-se no senso de amizade e de companheirismo entre Stratt e sua equipe (é linda a cena com a música Sign of The Times, de Harry Styles) e no esforço coletivo para superar as adversidades. Além de ter ótimos efeitos práticos, desenho de produção e trilha sonora. É o filme conforto de 2026 por excelência. Assim como foram os do Spielberg em décadas passadas. 

Nota: 8,0 

Pitaquinho Musical - Arlo Parks (Ambiguous Desire)

Existe algo de noturno, de noite prestes a acontecer, que se espalha por cada canto de Ambiguos Desire, novo registro de inéditas da sempre ótima Arlo Parks. Tomemos como exemplo uma canção como Heaven, uma balada eletrônica minimalista, de madrugada avançada, com uma linha de baixo catártica, e que parece personificar não apenas em termos de melodia, mas também nos versos (Vamos nos envolver / Adidas e gasolina / Meus amigos se espalhando pelas ruas), o conceito do disco. Conceito que, aliás, parece explorar uma certa euforia do coletivo, de sensação de pertencimento e de construção de memórias - com amigos, com pessoas que amamos. "Esse é um álbum que nasceu dessa descoberta tardia da madrugada como espaço emocional e sensorial e de tempo que se dissolve", comentaria a cantora em entrevista ao NME.

 


Outro bom exemplo nesse sentido é a envolvente Nightswimming, que tem uma batidinha enigmática e uma energia R&B noventista, mas sem deixar de lado a personalidade da artista, que com sua voz sussurrada e aconchegante parece tornar versos como "Quando o sol se põe entre as árvores / Estou sozinha pensando em nós dois", maiores do que parecem. Aliás, verdade seja dita que Parks também tem uma capacidade única em dar vida ou cor a certa banalidade do cotidiano. É o caso, por exemplo, de Get Go, uma das melhores disco, com sua letra que converte a pista de dança em uma alegoria para a superação de dores e decepções. Tudo banhado por um clima dançante inspirado em rádios piratas londrinas, no limite entre o melancólico e o onírico, o enfumaçado e o sofisticado. Ah, e em meio a tudo ainda há a parceria com o Sampha, em Senses, talvez uma das melhores canções lançadas no ano até o momento. Além da deliciosa What If I Say It?. Arlo Parks nunca erra. Não ia ser agora.

Nota: 9,0 

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Cinema - Exit 8 (8番出口)

De: Genki Kawamura. Com Kazunari Ninomiya, Yamato Kochi, Kotone Hanase e Naru Asanuma. Suspense / Drama, Japão, 2025, 95 minutos.

Vamos combinar que alegorias cinematográficas sobre a estagnação da vida, as dificuldades de seguir em frente ou o sentimento de seguir meio preso em uma mesma rotina não chegam a ser novidade. De obras divertidas como Feitiço do Tempo (1993), passando por experiências emocionais e sufocantes como O Show de Truman (1998) ou existencialistas como Sinédoque Nova York (2009), não foram poucas as produções que tornaram a repetição como um acontecimento ligado a outras travas - afetivas ou morais. E também há aqueles casos em que uma obra sobre pessoas enclausuradas em loopings temporais infinitos talvez sejam apenas um exercício de estilo, que leva o terror até o limite sem que haja uma grande explicação simbólica por trás. Onde a coisa ocorre apenas para nos deixar apreensivos, sem que haja um significado maior por trás - e, na cabeça me vem de imediato o clássico moderno cult Cubo (1997), que aterrorizou plateias da década de noventa, com os seus acontecimentos enigmáticos.

Talvez o curioso Exit 8 (8番出口) seja mais o estilo da segunda categoria. Ou talvez uma mescla das duas, especialmente pelas ocorrências do primeiro ato, chamado apenas de Homem Perdido (sendo este interpretado por Kazunari Ninomiya). Assim como faz, provavelmente, dia após dia, esse sujeito pega o metrô, se espreme entre as pessoas - com seus hábitos e estranhezas -, vai para o trabalho, almoça, volta, chega em casa, algumas horinhas de descanso, come, mija, assiste TV, dorme e volta no dia seguinte e novamente, para viver aquele dia repetidas vezes, por semanas, anos, décadas. Ao cabo, essa é a vida de qualquer pessoa. Rotina, tédio, vazio - e nem é preciso ser um grande conhecedor de metáforas para perceber que esses comportamentos mecânicos, cotidianos, quase como na música de mesmo nome de Chico Buarque (Todo o dia ela faz tudo sempre igual / Me sacode às seis horas da manhã) nos possibilitam identificação imediata.

 


Só que neste dia, em especial, o Homem Perdido recebe uma ligação de uma aparente ex-namorada, com uma notícia que lhe deixa em choque: ela está grávida. E, pior do que isso, como se abalo pouco fosse bobagem, ele ainda presencia um empresário irritado no metrô que, publicamente e sem nenhum constrangimento, apupa uma jovem mãe que, simplesmente, não consegue fazer com que seu bebê pare de chorar. Um assunto, queira ou não, se conecta ao outro: um filho que certamente representará um ponto de virada. Justamente antes de ele entrar em um longo corredor em L que se repete, se repete e se repete em uma infinidade de corredores em L que direcionam pra tal saída número oito. Apenas um outro sujeito sisudo passando. Cartazes espalhados pela parede. As mesmas portas e sistemas de ventilação. Placas com algumas informações e temos um sujeito preso em uma realidade embaralhada, dobrada, que se repete meio que sem explicação. E para fugir dali será necessário reconhecer pequenas anomalias do trajeto, mudando rotas que possam intervir nessa realidade paralela torta recém estabelecida. 

Parece complexo e em alguma medida talvez seja. E, como eu disse, talvez tenhamos aqui uma excelente ferramenta simbólica de como notícias ou acontecimentos inesperados são capazes de nos tirar da zona de conforto ou do lugar a que estamos acostumados. Sendo necessários novos movimentos para que possamos ir adiante. A chegada de um filho talvez seja um exemplo óbvio de como as coisas mudam profundamente nas nossas vidas - e de como pode haver um apego a um passado que não mais retornará. Ou vai ver que Exit 8 é apenas um filme inspirado em um jogo de videogame indie (lançado em 2023 e eu só soube disso após ver a obra), que brinca com nossos medos, temores, indecisões e incertezas. Reforçadas por temas ligados à avanços tecnológicos, redes sociais, burocracias, distopias políticas, alienação urbana e vigilância estatal. Em uma obra assim há margem para uma serie de interpretações. Com as possibilidades se ampliando conforme outras personagens - O Caminhante e o Menino - entram na trama, no transcorrer da história. Curioso, excêntrico, moderno e com ótimo, ainda que simples, aparato técnico - do desenho de produção à trilha sonora - esse é aquele tipo de projeto que alude à exaustão do mundo, ao mesmo tempo em que olha com ternura para aqueles que simplesmente insistem em existir. Vale conferir.

Nota: 8,0 

 

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Enzo (Enzo)

De: Robin Campillo. Com Eloy Pohu, Maksym Slivinskyi, Élodie Bouchez e Pierfrancisco Favino. Drama, França / Bélgica / Itália, 2025, 103 minutos.

Quem acompanha a carreira do diretor Robin Campillo sabe que seus filmes costumam ser atravessados por questões ligadas ao universo LGBTQIA+, algumas vezes de maneira mais explícita, como no ótimo 120 Batimentos por Minuto (2017), em outras de forma mais sutil, como no caso do recente Enzo (Enzo), que chega para aluguel nas plataformas da Apple TV e da Amazon Prime. No ponto central, independente da obra, parecem estar as ideias de pertencimento, desejo, exclusão e negação em diferentes graus. E que muitas vezes são exploradas em historias que tensionam esses temas que, inclusive, quebram em alguma medida o que prevê o status quo. E talvez não seja por acaso que no universo do protagonista que dá nome ao mais recente projeto do realizador haja uma predileção pelo trabalho na construção civil. Como pedreiro mesmo.

O que, inicialmente, parece ser uma forma de confrontar os pais Paolo (Pierfrancisco Favino) e Marion (Élodie Bouchez) - algo bastante natural para um adolescente de 16 anos como Enzo (Eloy Pohu) -, não demorará para soar como uma espécie de alegoria de expiação dos próprios desejos do rapaz. Talvez estar perto de homens suados em uma construção, para alguém que está amadurecendo e formando suas noções de sexualidade, seja algum tipo de propósito. Ou talvez não. Enzo, afinal, tem uma jovem namorada. Ou ao menos faz de conta que tem. Talvez para se exibir para os demais - em uma idade que a elaboração da masculinidade e da identidade parecem em eterno movimento. Mas quem parece lhe deixar efetivamente animado no canteiro de obras é Vlad (Maksym Slivinskyi), um ucraniano que está fugindo da guerra, enquanto busca uma existência mais digna na França.

 


E creio que seja que nesse ponto da mescla entre narrativa queer e debate político-social e imigração que o filme se perde um pouco. Ao cabo, alguns dos temas parecem mais importantes do que a forma como são trabalhados. Indo de lá para cá, entre a voluptuosa casa dos pais e sua rotina como aprendiz de servente, Enzo parece o típico jovem descompromissado no que diz respeito ao futuro (por mais contraditório que tudo possa ser, uma vez que ele já trabalha). Mas ao mesmo tempo em que seu irmão mais velho (Nathan Japy) parece pronto para entrar numa universidade, convivendo harmonicamente com seus colegas que também frequentam a casa dos pais, o protagonista parece apenas um revoltadinho pequeno-burguês, que tem alguma aptidão para as artes, e que soa apenas meio rebelde sem muita causa. Afinal, não deixa de ser bastante cômodo ser desobediente em meio a um sem fim de braçadas na piscina enorme do casarão da família (ou eu tô militando demais?).

E, bom, não é que não haja bons momentos, mas talvez esse fosse um filme bem melhor se fosse mais centrado na figura de Vlad que, ao lado do companheiro de trabalho Miroslav (Vladislav Holyk), vive de fato uma situação angustiante. Especialmente depois de o segundo receber uma ligação do governo, convocando-o para participar do conflito contra a Rússia. Só que Enzo, com o perdão do trocadilho, parece o legítimo Enzo - e talvez o interesse pelos ucranianos, pela sua rotina, as idas à boate e o convívio com pessoas de outros estratos sociais seja apenas uma fuga do mundo, frente a um cenário de privilégios. Há uma cena em que o chefe de Enzo fica embasbacado ao descobrir que ele vive em uma mansão com vista para o mar, que talvez custe alguns milhões de euros. E, sim, por mais que a obra trate das exclusões em suas mais variadas formas, o que falta aqui é um pouco mais de conflito. Algo que faça com que a gente se importe um pouco com um Enzo birrento. 

Nota: 6,0 

 

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Pitaquinho Musical - Yaya Bey (Fidelity)

"Diga o que pensa, pense no que diz / É um novo dia, não há como fugir de si mesmo". Vamos combinar que, muito provavelmente, não foi por acaso que a primeira canção escrita por Yaya Bey para Fidelity, seu quinto registro de inéditas, tenha sido justamente Blue. Ao cabo, ela parece uma música ao mesmo tempo vulnerável e resiliente, e que emerge em um momento em que a artista se sentia meio que no fundo do poço. Algo que ela mesma mencionou no material de divulgação, quando detalhou o fato de ter desabado emocionalmente, em um hotel de Miami, justamente na semana de lançamento de Do It Afraid (2024), seu trabalho anterior. Quem acompanha a carreira da cantora sabe que ela perdeu o pai em 2024, tendo ainda de lutar contra outras pressões da indústria - e que certamente tem a ver com o fato de ser uma mulher negra, buscando sobreviver nessa máquina trituradora de famosos que é o showbiz, com a sua avidez ininterrupta em busca da mais recente novidade.

 


E tudo isso talvez explique porque esse registro parece ser tão nostalgicamente anos noventa - com aquele R&B classudo, mesclado com pop caloroso e uma neo soul ao mesmo tempo contemporânea, urbana e melancólica -, mas com menos apego ao aparato comercial, de melodias acessíveis, ou refrãos cantaroláveis. Aqui, a artista bebe da fonte de cantoras daquela década, como Brandy ou Aaliyah, para apresentar uma coleção de canções discretas, quase sonolentas, em que os versos surgem minimalistas mas sensuais, quentes mas elegantes. O resultado são canções que fluem gostoso, ainda que sejam menos palatáveis, o que talvez exija alguma persistência do ouvinte que se acostumou com joias como as movimentadas Merlot and Grigio ou End of the World, do disco anterior. Em geral esse pode até ser um trabalho meio que de ressaca emocional. Mas é uma ressaca de boas canções, como Forty Days, Higher e a já citada Blue.

Nota: 8,0 


terça-feira, 12 de maio de 2026

Tesouros Cinéfilos - Melancolia (Melancholia)

De: Lars Von Trier. Com Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Alexander Skarsgård, John Hurt e Charlotte Rampling. Drama / Ficção Científica, Dinamarca / Suécia / França / Alemanha, 2011, 131 minutos.

Um filme catástrofe, mas sobre a nossa catástrofe interior. Não sobre um planeta que vai colidir com o nosso, mas como as nossas angústias colidem com o corpo físico. Nos deixando desabilitados ou mesmo incapazes de superar medos, incertezas ou dores. O consciente sendo simplesmente invadido pelo inconsciente. E toda a complexidade que envolve doenças como depressão ou ansiedade. Aliás, quem já sofreu com tais quadros, talvez tenha muito mais facilidade em compreender os motivos de Claire, a personagem de Charlotte Gainsbourg, sofrer tanto com aquilo que ela acredita ser a proximidade da morte. Para o espectador nunca fica exatamente claro o seu quadro de ansiedade - ainda que ele só aumente conforme o planeta sugestivamente chamado de Melancolia (Melancholia), se aproxima inapelavelmente da Terra. Azul, imenso, imprevisível, doloroso.

Sim, hoje em dia, após tantos debates a respeito da obra de Lars Von Trier - de Dogville (2003) -, já parece bastante claro o fato de que a catástrofe em vias de ocorrer no filme, é muito menos literal do que imaginamos. Aliás, o próprio diretor dinamarquês, em entrevistas, chegou a comentar que a ideia para o filme surgiu justamente das longas sessões de terapia com o seu psicólogo, quando tratava um severo caso de depressão. Aliás, o que o filme deixa claro, também, é que esse tipo de doença independe de condição social, de prestígio ou qualquer outra coisa. Não por acaso, o cenário é voluptuosa casa de campo de John (Kiefer Sutherland), o marido de Claire. E que servirá de palco para o casamento da irmã de Claire, Justine (Kirsten Dunst). O que parece mais uma medida desesperada de tentar fazer com que ela supere, de qualquer maneira, a depressão. Que, como todos sabemos, não se resolve com felicidade forçada. Ou meios sorrisos.

 


Não por acaso, Justine trafega por aquele ambiente como se estivesse deslocada. Como se fosse uma mera convidada. Ou algum tipo de participante involuntária de algum game, como aquele visto em Vidas em Jogo (1997). "Você está feliz?", as pessoas insistem em perguntar. O seu sorriso que consegue ser melancólico e doce em igual medida, entrega: mesmo quando ela se diverte, como na parte em que a limusine que a conduz para o casamento tranca no acesso, não parece ser algo natural. O mesmo valendo para a forma com que ela protela essa felicidade protocolar, que responde aos ritos sociais e ao que prevê as convenções, O que pode ser percebido no momento em que, ao invés de simplesmente entrar no salão de festas após mais de duas horas de atraso que exasperam os convidados, ela ainda optar por cumprimentar o seu cavalo preferido no estábulo. Ou mesmo indo simplesmente dormir, mais adiante - este, aliás, um dos mais tradicionais refúgios de pessoas em depressão.

Dividido em duas metades, uma para Justine e outra para Claire, a obra se ocupa de uma série de pequenos momentos que estabelecem diálogo com a proposta da produção - que, sim, pode parecer hermética em seus excessos de imagens oníricas ou cheias de simbolismos, mas que nunca soam essencialmente complexas apenas porque sim. O que fica evidente já na colagem inicial em que várias ocorrências alegóricas são despejadas em câmera lenta, com uma delas chamando bastante a atenção e que, muito provavelmente, servirá como guia daquilo que acompanharemos pelas próximas duas horas - que é o momento em que Claire surge em meio a um denso mato, em que tenta avançar enquanto é impedida por um emaranhado de raízes que emergem do solo. É como se caminhar fosse simplesmente impossível frente ao que ela sente. Numa metáfora bastante direta no que diz respeito ao tema da depressão.

 

 

E se na parte de Justine a chegada do planeta Melancolia parece apenas uma ideia meio distante - refutada ou não pelos cientistas ou por teóricos da conspiração -, o segmento de Claire aumenta a tensão, com a expansão da ideia de que outro corpo celeste vai simplesmente colidir com o nosso, sem margem para sobrevivência. E a forma como Claire surge acuada, aqui e ali, sem ter muito o que fazer, enquanto se empenha em apoiar a própria irmã que sofre, só evidencia o desgaste gerado em quem padece de quadros clínicos do tipo. Enigmática e visualmente exuberante - as cenas noturnas que parecem obter um contraste enevoado entre o sombrio e o iluminado -, a obra funciona quase como uma grande ópera da dor, em um microcosmo que avalia a aflição doméstica, mas sem ignorar a complexidade do mundo e do tecido social como um todo. Vencedora de vários prêmios, a produção está disponível na Mubi, e completa 15 anos de seu lançamento oficial no Festival de Cannes, agora em maio. Vale resgatar.

Pitaquinho Musical - Bemti (Adeus Atlântico)

Vamos combinar que, em política, muito se usa a palavra multilateralismo para definir as formas como diversas nações trabalham de forma cooperativa, na intenção de resolver seus problemas. E, bom, se fosse possível a utilização do mesmo substantivo na música, talvez ele pudesse ser definido por aquilo que artistas como o Bemti, conseguem em álbuns como Adeus Atlântico, seu terceiro registro de inéditas. Sim, porque se anteriormente o mineiro tinha como marca da MPB mais tradicional - como no anterior Logo Ali (2021) -, aqui temos a impressão de estar em um encontro sonoro global, tamanha a quantidade de referências utilizadas pelo artista. Reflexo de suas constantes viagens não apenas pelo interior do Brasil - de Rio de Janeiro à Bahia, passando pela sua própria terra natal -, e por países, como, Portugal e Inglaterra.

 


E ainda que siga tendo como base a viola caipira - espécie de marca registrada -, Bemti amplia as referências, incorporando, aqui e ali, elementos de britpop, new age, indie rock, psicodelia e até estilos em alta, atualmente, como o amapiano, da África do Sul. O resultado é um registro de raríssima beleza, capaz de navegar pelo rock rural de Sá e Guarabyra, como na irresistível e calorosa Quase Sertão, pelo folk alternativo à Bon Iver da faixa-título, e pelo soft rock oitentista de Euforia. Direto, orgânico, humano, onírico e altamente sofisticado, esse é daqueles álbuns pequenos, mas que só crescem a cada audição. E que materializam sentimentos ligados à memória, à saudade de casa e ao deslocamento contínuo, como parte da experiência humana. Se estiver em dúvida, comece por Miragem (Viver de futuro é ensaio / Preso na função dos triunfos / Dentro de um aquário / Que todo mundo vê). Seguramente uma das melhores canções lançadas em 2026.

Nota: 9,5 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Jovens Mães (Jeunes Mères)

De: Jean-Pierre e Luc Dardenne. Com Lucie Laruelle, Babette Verbeek, Elsa Houben, Janaïna Halloy Fokan e Samia Hilmi. Drama, França / Bélgica, 2025, 106 minutos.

Em uma das tantas sequências comoventes do ótimo Jovens Mães (Jeunes Mères), mais recente produção dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne e que chega para aluguel nas plataformas da Apple TV e da Amazon Prime, uma desesperada Ariane (a ótima Janaïna Halloy Fokan) explica à sua mãe o fato de nunca a ter reprovado por ser pobre. "Eu só não queria ter o filho", suplica aos prantos, após ter levado um tapa de Nathalie (Christelle Cornil), a sua genitora e avó da bebê que carrega, a contragosto, nos braços. A visita de Ariane a Nathalie tem um objetivo central: ela dá à sua mãe os motivos pelos quais ela pretende doar a filha a uma família de acolhimento. Alguém que poderá criá-la, exatamente como permite a Lei, com melhores condições. Ariane queria abortar. A mãe não permitiu. O que é apenas uma das tantas facetas problemáticas das pressões sociais que envolvem a maternidade.

Talvez poucas jovens mulheres admitam o fato de terem sido mães para agradar a família. Quem nunca ouviu dos pais sobre o desejo de ser avô ou avó - cedendo a esse tipo de situação apenas para não romper essa lógica familiar? E que envolve, em muitos casos, o discurso conservador do papel da mulher na sociedade? O filme dos Dardenne, um mosaico complexo a respeito das eventuais precariedades da maternidade, evidencia feridas sociais variadas em que temas, como, abandono, dependência afetiva, falta de maturidade emocional, relações tóxicas, autodestruição e problemas financeiros são salpicados, aqui e ali, por meio de cinco histórias diferentes, em que mães que, em muitos casos, sequer saíram da adolescência, precisam lidar com o peso dessa enorme responsabilidade. O que ocorre, em muitos casos, com pouca estrutura familiar e com, óbvio, o abandono dos parceiros (jovens meninos que só passarão a pensar sobre o significado de colocar um filho no mundo depois que a coisa acontece).

 


Em linhas gerais essa é uma experiência dolorida e que, mais uma vez, como costuma acontecer na filmografia dos Dardenne, olha para a juventude não como uma alegoria meio abstrata para futuro ou perda de inocência. E, sim, como um estado de formação urgente frente às pressões do mundo. Em suas obras, não são poucos os casos em que adolescentes, ou mesmo crianças, são levados à tomarem decisões que, até mesmo para os adultos, podem ser eticamente questionáveis - e basta pensar em obras essenciais como Rosetta (1999), O Filho (2002), A Criança (2004) ou mesmo a recente O Jovem Ahmed (2019), para que sejamos confrontados com questões ligadas à violências, traumas e solidão. Ou mesmo a temas ainda mais complexos, ligados à questões políticas ou sociais. Em Jovens Mães, as cinco jovens do filme buscam acolhimento em uma espécie de abrigo, o que também torna evidente a importância da sororidade. Enquanto lidam com um ambiente em permanente combustão.

E não deixa de ser impressionante perceber como um filme tão curto consegue ser dotado de tanta complexidade. Se na primeira cena da obra já somos impactados pelo desespero de Jessica (Babette Verbeek), que busca algum contato com a mãe biológica que lhe abandonou, ao mesmo tempo em que precisa lidar com a própria gravidez, no instante seguinte temos Perla (Lucie Laruelle), que tem uma relação turbulenta com seu namorado (e pai do seu bebê), ao mesmo tempo em que sonha em ter uma família mais "normal", como é da sua irmã. Sendo um tanto trágico que isso tenha de acontecer em meio a interrupção de uma adolescência. No caso, a dela própria. Já Julie (Elsa Houben) precisa lidar com o vício e suas recaídas - com a maternidade surgindo, estranhamente, como uma chance para um recomeço. E há ainda Naïma (Samia Hilmi), que parece um ponto mais luminoso da narrativa, ainda que ela não escape de um lado sombrio. Indicada à Palma de Ouro no Festival de Cannes, a obra venceria o prêmio nas categorias Melhor Roteiro e do Júri Ecumênico. E é sempre muito prazeroso ver qualquer filme da dupla, afinal, nunca saímos os mesmos de qualquer que seja a sessão.

Nota: 9,0 

 

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Pitaquinho Musical - Luca Argel (O Homem Triste)

Quem acompanha a carreira do brasileiro radicado em Portugal Luca Argel, sabe que ele é capaz de ser irônico e debochado - como no simples e divertido Conversa de Fila (2019), que é uma verdadeira coletânea de sambinhas cotidianos -, mas também sério e contemplativo como no político Sabina (2023), que é inspirado em texto de Luiz Antônio Simas. O que não costuma mudar no repertório do artista é o aceno à MPB clássica que, mesclada a outros ritmos, costumam conferir força as suas composições que, com O Homem Triste, parecem ainda mais urgentes e atuais. Ainda mais em tempos de machosfera, de masculinidade frágil, de ascensão da cultura redpill e de incels que acham que podem moldar as mulheres ao seu gosto. Geralmente alinhados à políticos de extrema direita que, com seu reacionarismo atroz, ampliam discursos de ódio e, consequentemente, casos de feminicídio e violência.

 


"Começou há quatro anos, com o nascimento do meu afilhado. Olhava para ele aprendendo a andar, a falar, até que um dia ele voltou da escola diferente. Mais agressivo, rejeitando alguns brinquedos, algumas roupas, algumas cores que ele antes gostava. [...] Fiquei me perguntando: como os meninos aprendem a ser homens? Que preço temos que pagar?", explicou Argel no material de divulgação. O resultado é um conjunto de canções que exploram o conceito do álbum, equilibrando à perfeição o peso do tema, com a suavidade pop das melodias. Algo que podemos perceber, por exemplo, na ondulante e inaugural faixa-título (Foi no jornal que aprendi ser homem / Foi na igreja e no futebol). Em outros pontos, os temas surgem de forma alegórica, como no reggae Primeiro Mar (O primeiro mar de todo mundo / Fica dentro de uma mulher) ou no sambinha spoken word Se Acabou (Votar, governar, falar bem alto / E beber, e sujar e não limpar / E fazer filhos e fugir / E cortar árvores, furar minas).

Nota: 8,5 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Honey, Não! (Honey, Don't!)

De: Ethan Coen. Com Margaret Qualley, Chris Evans, Aubrey Plaza e Charlie Day. Comédia / Policial, Reino Unido / EUA, 2025, 89 minutos.

Acho que o problema de filmes como Honey, Não! (Honey, Don't!), que acaba de chegar à Amazon Prime, é a expectativa gerada. Especialmente pelos nomes envolvidos na produção, a começar pelo diretor. Tudo bem que já vai fazer quase uma década que o Ethan Coen não entrega uma produção decente - vá lá, se considerarmos A Balada de Buster Scruggs (2018) um bom filme e há controvérsias -, mas a gente olha o nome dele ali e pensa em Fargo (1996), em O Grande Lebowski (1998) e em Onde Os Fracos Não Tem Vez (2007) e em tudo de legal que ele já faz ao lado do irmão Joel e fica meio que vivendo de passado. Ou vai ver os tempos são outros e esse tipo de humor meio nonsense, escrachado mas contido e estranhamente violento, que é a marca registrada da dupla, talvez já não caiba mais em uma década tão esquisita como essa. Enfim, a gente teria gostado mais desse último filme se ele tivesse sido lançado, sei lá, em 1994?

Honestamente não sei dizer e tudo piora quando um filme tão curtinho consegue ser tão confuso. Ou tão raso - com a profundidade de um pires -, com as eventuais boas ideias tão espalhadas aleatoriamente, que a gente não consegue se apegar em nada. No centro da trama há um pastor pentecostal, seu nome é Drew Devlin (Chris Evans), que parece estar envolvido em algum tipo de maracutaia com a máfia francesa, que é representada ali pela chefona do tráfico sexy Chère (Lera Abova). Enquanto leva, aqui e ali, algumas jovens de sua congregação para a cama (além do carisma, ele tem a lata do Chris Evans, não esqueçamos), ele é informado por Chère que o bicho tá pegando pro lado dele, especialmente após o assassinato de Mia Novotny (Kara Petersen), que parece ter sido premeditado. E não sei dizer se em 2026, haja alguém considere divertida uma sequência de sexo inesperadamente interrompido.

 


Aliás, a maioria das tentativas de humor do filme, envolvem instantes sexualmente constrangedores, até com o uso de rimas visuais óbvias, que acho que nem um estudante de cinema compraria a ideia - como no momento em que a detetive Honey (Margaret Qualley) e a policial MG Falcone (Aubrey Plaza) transam pela primeira vez. Para no take seguinte, após um corte, uma torneira surgir borbulhante, enquanto jorra água para a limpeza de brinquedos sexuais diversos. Sim, legal, eu sou total contra esse puritanismo que tem invadido nosso cinema, atualmente, mas desde que a coisa tenha algum nexo narrativo. E que não use de alegorias tão pouco inspiradas. Com tudo piorando no momento em que Honey sai para confrontar o namorado violento de sua sobrinha para, num ato de pura subversão (uau), colar um adesivo feminista em cima de outro do MAGA (óbvio), que estampava o carro do sujeito.

E que a questão política não faça muito sentido, é algo até meio normal. Só seria mais legal se as bandeiras levantadas fossem menos infantilizadas, ou não soassem como um debate de Twitter de 2017. Nós temos, afinal, uma investigadora e uma policial lésbicas - com a primeira tendo uma irmã com uma dúzia de filhos -, um reverendo golpista e hedonista e mais um punhado de gente no entorno e lá pelas tantas a gente já não se importa com ninguém. Há um esforço de estilização obviamente Irmãos Coen na fotografia, ou mesmo na montagem, mas, no fundo, quem são, de fato, aquelas pessoas? O centro de tudo está em Mia e a morte dela descambará para uma sequência de cenas de violência e de sangue jorrando que é meio que típico da dupla. Ou de Ethan. E lembra lá em cima, que falei dos nomes envolvidos? Vocês chegaram até aqui e leram na resenha: Margaret Qualley, que esteve impecável em A Substância (2024) e Aubrey Plaza e sua trajetória de respeito. Bom, elas também precisam pagar boletos. Ou vai ver se enganaram, como nós, com o nome no cartaz. Vai saber.

Nota: 3,5 

 

terça-feira, 5 de maio de 2026

Cine Baú - Interlúdio (Notorious)

De: Alfred Hitchcock. Com Ingrid Bergman, Cary Grant, Claude Rains e Leopoldine Konstantin. Suspense / Romance / Drama, EUA, 1946, 101 minutos

Uma das histórias que mais gosto sobre Interlúdio (Notorious) ocorreu em 1979, décadas depois do lançamento do clássico suspense de espionagem. Naquele ano, Alfred Hitchcock era homenageado na cerimônia Life Achiement Award, quando Ingrid Bergman, a estrela da obra de 1946, lhe deu um "presente" inusitado - no caso, a chave original que abria, no filme, a misteriosa adega do casarão de Alexander Sebastian (o ótimo Claude Rains) e que seria decisiva para uma grave descoberta: a de que os alemães refugiados no Rio de Janeiro, após a Segunda Guerra Mundial, guardavam uma quantidade generosa de minério de urânio, escondido em garrafas de vinho. Na obra-prima de mistério, essa é uma sequência de forte impacto. E que ganha mais força pela engenhosidade, com Devlin (Cary Grant), escolhendo beijar deliberadamente Alicia (Ingrid Bergman), como forma de tentar distrair o executivo Sebastian. Que, naquela altura, já estava casado com Alicia, como parte de um estratagema para desvendar os segredos dos alemães.

Evidentemente que a chave, essa peça tão pequena, possui extrema importância em Interlúdio. Então não deixa de ser divertido pensar em Hitchcock - que sempre teve um talento absurdo para converter objetos triviais do cotidiano em catalisadores de tensão dramática - recuperando o objeto tantos anos depois. Nos bastidores, há a garantia de que o Mestre do Suspense foi, de fato, surpreendido - a chave teria ficado por anos com Cary Grant, que teria presenteado Ingrid mais tarde. Foi quase como um contragolpe simbólico e meio inesperado. Um acerto de contas curioso. Hitchcock sempre teve esse apego à coisa prosaica, ao item cenográfico - seja a corda em Festim Diabólico (1948), o isqueiro em Pacto Sinistro (1951) a cortina em Disque M Para Matar (1954) ou à câmera fotográfica em Janela Indiscreta (1954). Elementos que criam tensão ou ameaça, mesmo que semioticamente eles não venham embutidos desse sentido. É como se a chave em sua mão fosse uma anedota.

 


E por mais que a chave seja fundamental para o andamento de Interlúdio - a cena em que Alicia luta para escondê-la nas mãos, tentando passá-la para Devlin em meio a um jantar no casarão de Sebastian está impressa de maneira inesquecível na retina do fã de cinema - o filme é muito mais do que isso. É um thriller de espionagem política que teve a ousadia de tratar do belicismo do pós-guerra, em um momento em que ainda havia um tanto de incerteza a respeito do uso de energia atômica (por assim, dizer). E, como se não bastasse esse pano de fundo em que o nazismo moribundo busca respirar na América do Sul, sendo observado a certa distância por Devlin - o agente do governo dos Estados Unidos que recruta Alicia, filha de um espião alemão condenado pela justiça, com quem ela tinha uma relação conturbada -, há ainda espaço para aquilo que Hitchcock faz de melhor, que é a narrativa clássica que coloca em conflito a paixão e o dever. O que resultará em um sem fim de sequências imprevisíveis, irônicas e psicologicamente tensas.

Afinal de contas, vamos combinar que não deixa de ser eticamente questionável o protagonista simplesmente empurrar o seu objeto de desejo, por quem ele se apaixona imediatamente, em direção a um grupo perigoso de alemães nazistas, esperando que tudo ocorra normalmente. O fato de Sebastian ser um antigo amigo do pai de Alicia, e alguém que tem completa devoção pela jovem, para irritação da mãe controladora do sujeito (vivida por Leopoldine Konstantin) - por sinal, outro arquétipo recorrente na filmografia de Hitchcock -, burla ainda mais a lógica, tornando incerto cada encontro e desencontro entre o casal. Conferindo uma fluidez um tanto lânguida à narrativa - reforçada pelas belas vistas da sacada do Copacana Palace no Rio de Janeiro -, a obra avança sem pressa, possibilitando ao público desvendar os mistérios aos poucos, percebendo nos detalhes os riscos vividos pelos protagonistas. Como é o caso da parte em que Sebastian revela com um sorriso torto e debochado, que assistia o casal com o seu binóculo, em meio a um encontro no clube de equitação. 

 

 

Aliás, esse é só mais um dos típicos instantes hitchcockianos de geração de suspense onde aparentemente não deveria haver nenhuma tensão maior - o mesmo valendo para o momento em que um certo Emil (Eberhard Krumschmidt), um atrapalhado alemão, dá bandeira a respeito do conteúdo de uma garrafa de vinho (aparentemente sendo "suicidado" mais adiante), em meio a um jantar.  Lembrado com carinho pelos fãs, Interlúdio integra uma série de listas de grandes filmes da história do cinema, como a do American Film Institute (AFI) - é o 38º em uma lista de 100 Suspenses - tendo recebido ainda duas indicações ao Oscar (nas categorias Roteiro Original e Ator Coadjuvante para Rains). Não por acaso, sua engenhosidade sedutora, que faz com que uma garrafa de vinho se converta em peça-chave e evidência criminal - a bebida alcoólica, aliás, renderia outro capítulo -, pavimentaria o caminho para que o diretor construísse uma sólida carreira, com clássicos que permanecem até hoje no coração dos cinéfilos.


Pitaquinho Musical - Grace Ives (Girlfriend)

Vamos combinar que, em alguma medida, talvez o disco anterior de Grace Ives, Janky Star (2022), fosse um pouco mais hermético, com tintas mais experimentais. O que talvez pudesse afastar aquele ouvinte mais ocasional. Digamos que o "problema" foi solucionado com Girlfriend, o recente terceiro trabalho de estúdio, que parece uma experiência mais solta, mais direta. E sem abrir mão do bedroom pop sofisticado e lo-fi, mas com algumas doses da eletrônica minimalista, que costumam caracterizar seu som. Mais convidativa, após um período meio conturbado de uso de substâncias (nas entrevistas, ela não deixa claras quais), a artista nova-iorquina abre espaço para melodias cantaroláveis e mais emocionalmente abertas. É o caso da imediatamente grudenta Fire 2, que equilibra com perfeição os arranjos bem polidos, com as letras metafóricas sobre esgotamento e vulnerabilidade.  

 


Aliás, curioso pensar como a radiofônica e calorosa Lullaby, que encerrava o registro anterior, já parecia apontar para esse novo direcionamento. Proposital ou não, Grace Ives está mais palatável. Ela saiu do fundo poço, daquela sensação de teias de aranha pelo caminho. Como comprovam as refrescantes My Mans, Dance With Me e Stupid Bitches. Não que não haja espaço para algum estranhamento, afinal, essa meio que sempre foi uma das características da cantora - aquela coisa de quebra, de imprevisibilidade. Mas mesmo em canções como a onírica Now I'm, que abre o álbum, parece haver espaço para algum tipo de conforto, de espontaneidade. Claro que, mesmo assim, o disco nunca percorre um caminho óbvio, havendo espaço para a eletrônica mais contagiante, como em Avalanche ou para a contemplação, como em Drink Up.

Nota: 8,5 

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Ágon: O Corpo e a Luta (Agon)

De: Giulio Bertelli. Com Alice Bellandi, Sofija Zobina e Yile Yara Vianello. Drama, Itália / França / EUA, 2025, 100 minutos.

Ágon: O Corpo e a Luta (Agon) trata de um assunto que, aqui e ali, a gente vê pincelado, especialmente em tempos de Olimpíadas: o treinamento para atletas de elite, independente da modalidade, é pesado. Num nível quase excruciante de exigência. E de abnegação. Participar desse tipo de disputa, afinal, exige foco. Seja no judô, na esgrima ou no tiro de carabina. Alcançar uma medalha é para poucos. Lidar com a  derrota - ou pior, a dor de uma lesão, de um cancelamento (algo típico dos nossos tempos) ou de um trauma profundo - é para menos pessoas ainda. Ao cabo, quando a gente assiste aos Jogos Olímpicos em toda a sua beleza e exuberância, dificilmente a gente imagina o que acontece por trás. Quais as cobranças. Quais as pressões exercidas - por governos, por patrocinadores, pelo público. E o que a estreia de Giulio Bertelli faz, é nos jogar para esse ambiente. Mas nunca de uma forma cômoda.

"Como velejador offshore, eu sei como é passar pela dor das lesões e da recuperação, lidar com a mídia ou simplesmente com a complexidade de administrar essa máquina que é o esporte profissional. Mas também havia a vontade de contar o lado B, a solidão, a espera", comentou Bertelli, um privilegiado herdeiro da Prada - ele é filho da designer de moda Miuccia Prada -, em entrevista ao site Harper's Bazaar. E, evidentemente, como fica claro na obra que chega à Mubi, a sua condição de nepobaby não significou acomodação. Ou achar que o jogo já estava ganho. Com elegância e até quebrando uma certa lógica do que se espera de um cinema mais óbvio, o diretor adota um estilo quase documental - de fotografia granulada, ângulos oblíquos e câmera no rosto (ou em close até mesmo de partes mais "desconfortáveis") -, pra registrar a preparação de três atletas para os fictícios jogos de Ludoj, de 2024.

 


Inspirado no terrível acidente ocorrido com o esgrimista da União Soviética Vladimir Smirnov, em 1982, o filme recupera essa história para contar o drama de outra atleta, a esgrimista Giovana Falconetti (Yile Yara Vianello), quando seu florete perfura a máscara de uma adversária em meio às oitavas de final dos Jogos. Em meio a explicações sobre padrões de segurança da malha metálica dos equipamentos e sobre regulamentos técnicos gerais - em um tipo de detalhamento dificilmente visto em uma produção de cinema (talvez em documentários) - a atleta vive o dilema de prosseguir ou não na disputa. Tudo enquanto, óbvio, nas redes sociais, ela sofre todo o tipo de pressão em comentários sempre bem ponderados (contém ironia), por prosseguir mesmo frente ao dilema ético gerado pelo acidente. Na década vigente isso é parte da engrenagem, diga-se.

Aliás, as redes sociais e toda a distração proporcionada por elas na era moderna parecem parte intrínseca da narrativa - não sendo poucos os momentos em que sequências reais de treinamentos, se mesclam com jogos de videogame, conversas em redes sociais ou disputas online, que meio que burlam os limites entre a realidade e a ficção. Afinal, o que é real ou mesmo viver, existir, para alguém que tem como única rotina treinar, treinar e treinar? Não é por acaso que, em certa altura, uma das atletas está em uma boate, sendo praticamente impossível ouvir qualquer tipo de conversa no ambiente. Como se estivessem mudas para suas próprias vontades e desejos, recebendo todo o tipo de atenção e pressão por performance, as protagonistas parecem se ver como bonecos de ventríloquos alienados e manipulados por todos os lados. O que é reforçado pela burocracia que envolve meio que tudo, como na parte em que a judoca Alice Bellandi (que interpreta ela mesma, ampliando o naturalismo da experiência) precisa entregar uma série de documentos pra participar de uma competição. 

 
 
 
No filme, por sinal, Alice sofre uma grave lesão que lhe obriga a correr contra o relógio para a próxima competição e a cena em que ela passa por uma invasiva cirurgia no joelho é meio que gráfica até demais - sendo parte das formas com que Bertelli encontra para evidenciar as agruras das jovens, que contrastam com as capas de revistas e as expectativas geradas ao serem alçadas ao posto de "próxima promessa" do esporte. É o caso, por exemplo, da atiradora de carabina Alex Sokolov (Sofija Zobina) que, a despeito do seu discurso pacifista, vê sua vida virar de cabeça para baixo, quando tem um vídeo viralizado em que ela aparece em uma caça à animais selvagens. Espada, luta, tiro. Certamente não é por acaso que o realizador centra essas histórias em esportes de de força. De exigência e disciplina quase militares. É preciso superar muita coisa. Ainda mais sendo mulher. Os gritos de felicidade - ou por um golpe bem dado - podem facilmente se converter em urros de desespero. E pouca gente estará do outro lado para acolhê-las. 

Nota: 8,0 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Pitaquinho Musical - The New Pornographers (The Former Site Of)

Fosse o The New Pornographers um clube de futebol e talvez ele fosse aquele time azeitadinho que entra e sai temporada joga sempre da mesma forma, mantendo a qualidade. Ao cabo, pode-se dizer que o pop sofisticado dos canadenses pouco de modifica no transcorrer dos anos, com pequenas subidas ou descidas eventuais e, em seu décimo trabalho, The Former Site Of, temos mais uma coleção de canções de uma polidez aconchegante, sempre no modo irônico na abordagem de temas, como, imprevisibilidade do cotidiano, passagem do tempo, desgaste emocional e nostalgia. Tudo com aquele clima agridoce, em que as melodias calorosas contrastam com as letras reflexivas - o que pode ser percebido já no título do projeto. Aliás, o que faz total sentido, já que os integrantes do coletivo - A. C. Newman, Neko Case e companhia -, já estão mais próximos dos 60 anos, fora os quase 30 de carreira.

 


Não por acaso, músicas como Spooky Action funcionam ao mesmo tempo como metáforas existencialistas - na ideia de que partículas podem permanecer conectadas mesmo à distância -, ao passo em que também soam como reflexões sobre a importâncias das relações humanas, dos laços sólidos e das conexões, especialmente nestes tempos embrutecidos que vivemos (Enchendo minhas botas com poeira estelar / Enchendo meus bolsos com pedras). E tudo construído com aquela energia brilhosa, cheia de harmonia entre vocal e instrumental. Há uma série de outros momentos de beleza, como no caso de Votive ou mesmo a faixa-título. Há uma curiosidade sobre esse registro, que é o de que o grupo cogitou mudar de nome, depois de o baterista de longa data, Joe Seiders, ser preso por posse de material de abuso sexual infantil. Enfim, o sujeito foi desligado após o lamentável episódio. Com a banda mantendo a confiança em seu material, mesmo frente a esse lamentável caso.

Nota: 8,0 

Cinema - Caso 137 (Dossier 137)

De: Dominik Moll. Com Léa Drucker, Guslagie Malanga, Jonathan Turnbull e Stanislas Merhar. Drama / Policial, França, 2025, 115 minutos.

Ainda no começo de Caso 137 (Dossier 137), a investigadora Stephanie Bertrand (Léa Drucker) encontra um gato inusitadamente preso junto a um gradil, na base de um prédio. É meio que impossível saber como ele foi parar lá, mas Stephanie se esforça para retirá-lo daquela prisão. Adotando, em seguida, o bichano. E, bom, nem é preciso ser nenhum grande expert na interpretação de alegorias cinematográficas para compreender que aquele instante fortuito, talvez aluda à condição da própria protagonista. Afinal, ela tem uma ingrata tarefa como funcionária da Inspetoria Geral da Polícia Nacional: investigar excessos, exageros e eventuais crimes cometidos pela própria polícia. Por seus pares, no caso. O que em um contexto de protestos, como os ocorridos no final de 2018, na França, pode tornar esse trabalho um tanto mais complicado. De mãos atadas dentro de um sistema.

Ocorre que em um desses protestos perpetrados pelo grupo conhecido como Coletes Amarelos - em tese um grupo que não era ligado a nenhum lado político mas que, naquele contexto, reivindicava melhores condições de trabalho, aumento do poder de compra da população e a redução de preços de combustíveis (sim, só muda o País) - um jovem de apenas 20 anos acaba gravemente ferido na cabeça - por um disparo de flash ball -, após uma desastrosa ação policial (eu falei que só muda o País?). Quando recebe Joëlle (Sandra Colombo), a mãe do jovem, pela primeira vez em seu escritório para um depoimento, Stephanie não tem muito material, que não seja a revolta e o desespero de uma mãe que precisa lidar com um filho na UTI e com o genro, Rémi (Valentin Campagne), que também participava dos protestos - assim como sua filha e um outro filho -, preso por desacato.

 


A situação é nebulosa e Joëlle explica que eles nunca haviam antes participado de ações do tipo. Após perseguições e bombas de gás lacrimogêneo disparados pela polícia, a família acaba separada entre si. Até a ocorrência da tragédia. E há ainda um detalhe que deixa Stephanie meio esbugalhada da cabeça: a família Girard, Joëlle e seus filhos, reside na mesma Saint-Dizier em que moram seus pais. Que, mais tarde, ela descobrirá, possuem algum tipo de vínculo entre si, como muitas vezes ocorre em cidades pequenas. O conflito de interesses de lado a lado fica pra depois, com a protagonista empenhada em descobrir qualquer pista que possa lhe levar aos autores dos disparos. E em quais circunstâncias eles teriam ocorrido. Houve afinal excesso de violência? Abuso de poder? Ou os jovens teriam cometido algum ato ilícito? Com tudo piorando no contexto social de uma França fraturada, onde os próprios policiais como força de Estado também estavam engajados, via sindicato, na busca por condições melhores de trabalho.

Construindo esse quebra-cabeças sem pressa, o diretor Dominik Moll, de A Noite do Dia 12 (2022), brinda o espectador com uma série de instantes que permitem uma evolução vagarosa, de lento cozimento - quase ao estilo da burocracia jurídica -, com a entrada, aqui e ali, de outros personagens que fazem o caso evoluir. Da mesma forma, vídeos gravados durante a manifestação, imagens das câmeras de segurança e mesmo depoimentos de figuras-chave auxiliam nessa elaboração que, ao cabo, também funciona como veículo de denúncia da crise polícia a que estamos expostos há mais de uma década. O que se intensifica com o avanço de grupos extremistas de direita, que naturalizam a violência e o medo, utilizando-a inclusive como veículo de reforço de suas ideias. Talvez por isso que uma briga filmada na rua, entre dois homens desconhecidos, nem surpreenda. Ou mesmo a alienação completa, quando a mãe de Stephanie adere aos vídeos de gatinhos nas redes sociais, como uma espécie de refúgio. O mundo segue brutal e as pessoas inseguras. "Por que as pessoas odeiam tanto a polícia?", pergunta o exasperado filho da protagonista em certa altura. Talvez ele ainda não perceba que essa estrutura também contribui para essa fissura. Talvez até demais.

Nota: 8,0 

 

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Cine Baú - O Destino Bate à Sua Porta (The Postman Always Rings Twice)

De: Tay Garnett. Com Lana Turner, John Garfield e Cecil Kellaway. Suspense / Drama, EUA, 1946, 113 minutos.

Lançado no mesmo ano de Interlúdio (1946), O Destino Bate à Sua Porta (The Postman Always Rings Twice) parece um filme mais Hitchcock do que o próprio Hitchcock. Cheio de reviravoltas engenhosas e diálogos espirituosos, o clássico de Tay Garnett, que completa 80 anos de lançamento em maio, é poucas vezes lembrado como um dos grandes suspenses da história. E é preciso que se diga que ele merecia mais crédito, até mesmo pelo caráter um tanto imprevisível dos acontecimentos. Sim, em linhas gerais a narrativa, inspirada em um romance de James M. Cain - que receberia diversas adaptações -, parece até convencional: casal de amantes se une para planejar o assassinato do marido da adúltera, com o objetivo de herdar o restaurante deste. Só que, nesse caso, as coisas saem totalmente de controle. Primeiro quando uma das tentativas dá errado despertando a atenção dos investigadores locais. Depois, quando em uma nova ação, o resultado também não é o desejado.

E não é que Cora Smith (Lana Turner) não emane a energia da femme fatale assim que ela surge em cena pela primeira vez - em roupas curtas e alvíssimas, de pernas de fora, com um olhar enigmático e inquisidor para o novo visitante, um certo Frank Chambers (John Garfield), um forasteiro que chega ao restaurante de beira de estrada junto à uma empoeirada rodovia nos arredores de Los Angeles, interessado em uma vaga de emprego. Recebido com entusiasmo pelo dono da lancheira, o carismático e otimista Nick (Cecil Kellaway) - um homem mais velho que, por acaso, é também o marido de Cora -, Frank começa a trabalhar com o casal. Recebendo ordens poucos simpáticas da mulher. Isso até o instante em que ele comete uma ousadia: a beija após uma discussão. Que evoluirá para uma paixão. Os dois resolvem fugir, com Cora deixando um bilhete pedindo a separação. Só que ela nem chega na parada de ônibus e já meio que se arrepende, ao perceber que a vida com um pobretão como Frank não promete um futuro dos melhores.

 


Mas mesmo assim eles se gostam e elaboram um plano para dar cabo de Nick, que sempre toma um banho demorado de banheira, com direito à cantoria no final do dia. A ideia é que Cora espalhe bolinhas de gude pelo banheiro, para que uma queda seja simulada. Só que tudo desanda quando um policial passa por lá fazendo uma ronda de rotina. Com tudo piorando quando um gato é eletrocutado - o que causa uma queda de energia. Nick até cai em meio a isso, mas sobrevive e, bom o plano é deixado meio que de lado. Frank vai a Los Angeles pra trabalhar nas docas, mas acaba reencontrando um atabalhoado Nick, que quer que ele volte pra propriedade - que leva o bucólico nome de Twin Oaks -, para um anúncio: ele quer vender a propriedade pra que ele e Cora se mudem para o Norte do Canadá, para cuidarem da irmã adoentada do idoso. Essa é a deixa para que, em desespero, a dupla resolva colocar um novo plano de assassinato em prática: esse envolvendo a queda do carro de um penhasco após uma noite de bebedeira.

Sim, são muitas ocorrências em sequência e não deixa de ser um deleite acompanhar uma dupla de criminosos tão destrambelhada, num esforço para colocar a sua ideia mirabolante em prática. Apaixonados, Cora e Frank volta e meia encontram uma brecha para um banho de mar daqueles que funciona como uma alegoria do fortalecimento da paixão de ambos. E as imagens tanto da praia, como do deserto ventoso - o que faz com que uma placa caia, necessitando de reparos -, geram uma tensão meio torta, como se não soubéssemos o momento exato em que a violência explodirá (se é que ela explodirá, dadas as trapalhadas do casal central). Outro ponto interessante é perceber como Nick não apenas jamais desconfia das intenções da dupla, como ainda age como um sujeito amistoso em tempo integral e até eventualmente estúpido - o que torna tudo mais complexo e, não nego, divertido. Enfim, uma experiência com boas surpresas, que garante duas horinhas de entretenimento - ainda que tudo possa soar limpinho demais, no auge da aplicação do Código Hays.

 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Foi Um Disco que Passou em Minha Vida - Belle and Sebastian (Tigermilk)

Ser um pós adolescente alto, gordo, com óculos e cabelos estranhos, e com a autoestima lá no chão. Tudo isso às portas de um milênio que se iniciava, com uma série de decisões sobre futuro a serem tomadas - enquanto beijos eram negados e transas pareciam eternamente adiadas. Mais ou menos assim era ser o homem médio de 18 anos, em 1999. Só que todo esse turbilhão de sentimentos parece ambíguo, quando revisito Tigermilk, o primeiro disco do Belle and Sebastian, que completa 30 anos de lançamento em junho. Em partes porque a reclusão juvenil do inverno gaúcho de outrora, talvez tenha me permitido absorver o máximo possível de uma série de paixões que preservo até hoje - cinema, música, literatura -, e, aliás, reconheço esse privilégio. Mas também por estas mesmas experiências terem contribuído para que me tornasse quem sou. Sinceramente a gente nem entendia direito as letras de Stuart Murdoch e companhia - algo solucionado, em partes, com o Michaelis inglês-português ao lado. Mas havia um aconchego geral nas melodias, como um abraço caloroso de alguém que te diz: "ok, entendo tua dor e vem pra cá ser esquisito junto comigo".

E a verdade é que todo esse magnetismo indie do coletivo, que tornava evidentes às vulnerabilidades que eram confrontadas com um senso de humor corrosivo e verborrágico, possibilitou aos tímidos de plantão - ao menos do ponto de vista do amor ou dos desejos - um tipo de refúgio. Naquelas letras cheias de referências ao ambiente escolar e às suas estruturas de poder, fazer parte dos "não populares" era jogar um jogo em que começávamos atrás. E ter uma banda que olhava com carinho, com uma ternura adocicada e (quase) primaveril para o time dos desajustados era conquistar uma pequena vitória. "Passear nos ônibus da cidade por passatempo é triste / Por que você não me conduz ao fim da vida", canta a banda na abertura The State I Am In, canção sobre busca de identidade a algum sentido em meio a dilemas morais e afetivos, que evoluem para um irmão confessando ser gay no dia de um casamento e alegorias sobre pessoas feridas (ou "aleijadas") sendo libertadas de suas muletas.

 


Aliás, uma das grandes habilidades do grupo formado inicialmente por Stuart David, Isobel Campbell e outros foi a de dar voz aos feios, aos desajustados sociais, aos queers, ou a qualquer pessoa que não se encaixava num status quo ou que não correspondia às expectativas sociais impostas não apenas para aquele Reino Unido pré-Brexit, mas para qualquer País que experimentava certos avanços econômicos. Uma das grandes canções do disco, a magnética She's Losing It, com seu refrão grudento e sonoridade primaveril - um tipo de contraste que sempre foi uma das marcas -, trata de trauma ligado à abusos sexuais e de como as amizades entre aqueles que estão à margem podem ser o caminho para o processo de cura (Chelsea foi a garota que sofreu um abuso / Isso mudou sua filosofia em 82 / Ela sempre diz: "Olho por olho e dente por dente" / Quem precisa de garotos quando Lisa está por perto?). Por sinal, tudo com um senso de humor meio torto. E uma simplicidade comovente.

Diga-se de passagem, o apelo universal do disco, com seu instrumental sem firulas, refrãos que ficam e poesia de verve literária e cheia de referências, talvez não fosse por acaso. A história é que o álbum meio que brotou a partir de um trabalho de conclusão do curso de música no Stow College, de Glasgow - e era pra ser só um single, mas Murdoch se mostrou tão hábil nas composições que gestou o primeiro trabalho de estúdio meio que sem querer querendo. Tanto que a tiragem inicial teria sido apenas de 1000 unidades - com a banda sendo abraçada pelos indies no final dos anos 90, contexto em que a (bendita seja) gravadora Trama lançaria não apenas este, mas os três álbuns seguintes do grupo, os igualmente ótimos If You're Feeling Sinister (1996, que tem Get Me Away From Here I'm Dying, que meio que define o sentimento dos ouvintes) e The Boy With Arab Strap (1998), além do fraco Fold Your Hands Child, You Walk Like a Peasant (2000). Mas a delicadeza folk pop introspectiva exibida em Tigermilk, com sua crueza imprevisível, segue imbatível, fazendo os olhos dos fãs marejarem. Tanto que músicas como We Rule the School, My Wandering Days Are Over e Mary Jo (até hoje a melhor de todas), seguem inesquecíveis. Provando que os estranhos também dançam, amam, sonham.

 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Pitaquinho Musical - Courtney Barnett (Creature of Habit)

Vamos combinar que tem muita gente saudando o Creature of Habit, quinto disco de Courtney Barnett, como se fosse uma espécie de retorno às origens da artista australiana. E talvez isso fosse meio inevitável, já que o anterior e, menos caloroso, Things Take Time, Take Time (2021) havia sido gestado em um contexto ainda de pandemia, com o mundo todo meio borocoxô (a talvez fizesse pouco sentido um álbum excessivamente irônico, com letras debochadas sobre questões cotidianas aleatórias). Bom, corta pra 2026 e, por mais que estejamos caminhando rumo ao apocalipse, talvez nos reste sorrir - ou seguir como os músicos do Titanic, tocando enquanto tudo afunda. O que faz com que versos como "Eu sei que eu tenho um coração sensível / Estou sempre analisando ele / E quando o jogo para os urubus / Eles também não o querem", da irresistível Sugar Plum funcionem em toda a sua graça melancólica e adocicada.

 


Em linhas gerais as melodias estão também mais expansivas, quase radiofônicas - tanto que canções como Wonder, ou Same não fariam feio em algum bloquinho indie mais festivo, com bandas de slacker rock e folk. Claro que os temas mais contemplativos - de autoanálise, de incertezas, de bloqueios e de mudanças de percurso -, também estão lá, mesmo em instantes de fluidez. Um bom exemplo nesse sentido pode ser percebido na hilária e central Mantis, sobre a vez em que ela encontrou um louva-a-deus no batente da porta de casa, com esse evento meio aleatório se tornando matéria-prima para uma canção sobre paciência e perseverança frente ao sentimento de resignação (Me sentindo um pouco alienada / Estou flutuando sem rumo / Mas com os pés concretados / Debaixo desta criatura de hábito). "É uma espécie de recalibragem de rota", Barnett teria dito em entrevistas. O resultado é um disco iluminado, com um brilho e um polimento que soam despretensiosos, mas no fim são cheios de personalidade.

Nota: 8,5
  

Cinema - Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra (Good Luck, Have Fun, Don't Die)

De: Gore Verbinski. Com Sam Rockwell, Haley Lu Richardson, Juno Temple e Zazie Beetz. Comédia / Ficção Científica, EUA / Alemanha, 2025, 134 minutos.

Um filme que mais parece uma coletânea de episódios perdidos de Black Mirror, em uma temporada não tão satisfatória. Mais ou menos dessa forma é possível resumir a experiência com o pretensiosamente estranho Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra (Good Luck, Have Fun, Don't Die), obra dirigida por Gore Verbinski (dos três primeiros Piratas do Caribe), e que está em cartaz nos cinemas. Na trama, Sam Rockwell é um homem que alega ter vindo do futuro para um alerta geral: o de que as redes sociais e, mais ainda, a inteligência artificial, será a nossa ruína (ah, vá?). A menos que ele consiga recrutar um grupo ideal de voluntários - que ele pretende extrair de uma unidade da rede de restaurantes Norms - para uma jornada épica até o quarto de um adolescente nerd (daqueles que se entopem de Cheetos) da vizinhança, para impedir um apocalipse tecnológico.

Ok, as intenções podem ser boas a despeito da verborragia infinita e esquisita desse homem do futuro, que mais parece um morador de rua em roupas metalizadas - que, de quebra, ainda ameaça explodir tudo já que seu corpo está revestido de dinamite -, com a história melhorando sensivelmente após o sujeito recrutar aqueles que lhe auxiliarão na missão. Especialmente pelo fato de boa parte desse coletivo ter, em seu passado, alguma história meio trágica envolvendo o uso da tecnologia. Não por acaso, um dos bons momentos da trama envolve o casal de professores Mark (Michael Peña) e Janet (Zazie Beetz), que precisam lidar com alunos adolescentes que simplesmente não prestam mais atenção nas aulas - com o pescoço direcionado ao feed do Insta, com seus conteúdos de gosto duvidoso e rolagem infinita. Com o caos sendo estabelecido quando Mark simplesmente ousa encostar na tela do celular de um dos jovens. O que os converte em zumbis com uma sanha meio mortífera.

 


Sim, parece estranho e meio que é. Sendo necessária uma suspensão da descrença em absoluto para que haja qualquer tipo de apreciação. Mínima que seja. Quando adentra o restaurante, como um cauboi de filme sci-fi de segunda linha, o tal homem do futuro é confundido com um doidinho de bairro qualquer, que pretende incomodar as pessoas do local. O que atrai a atenção da polícia, obrigando o protagonista, Mark, Janet e outros, como a jovem Ingrid (Haley Lu Richardson), a buscarem uma fuga alternativa pelos fundos. Com evoluções pela madrugada sombria, em meio a becos, ruas mais escuras que o normal, e moradores de rua com um pendor para alguma violência, além de sujeitos mascarados com uma energia no limite entre o anarquismo e a milícia. Para Ingrid, aderir ao grupo representa uma oportunidade de superar a perda do namorado para uma espécie de aparato tecnológico de realidade virtual, que lhe permite "viver" uma outra vida que não a sua - algo que meio que já vimos mais de uma vez em Black Mirror. E como se desgraça pouca não fosse bobagem, Ingrid ainda sofre de uma curiosa doença, que a torna intolerante a dispositivos eletrônicos e redes de wi-fi. 

Há ainda outros integrantes nesse coletivo todo torto de salvação do mundo - como é o caso de Susan (Juno Temple), uma mãe enlutada pela perda do filho em um tiroteio em massa, desses que ocorrem dia sim dia também nas escolas dos Estados Unidos. Como forma de superar a dor, ela é estimulada a adquirir uma espécie de clone do menino - mas a cópia tem uma personalidade um tanto diferente do filho. O que a faz investir em outra tecnologia, esta mais precisa - um tipo de avatar em IA que replica a voz do menino. Todas essas pessoas estão devastadas - e irritadas, em alguma medida - com a tecnologia e os caminhos tomados por ela, o que as estimula a se tornarem voluntárias da missão. O objetivo é acoplar um pendrive que evitará o desastre futuro (representado pelo avanço desenfreado da tecnologia) e os vídeos de péssimo gosto feitos por IA. Alienação, excesso de mediação digital e consequente afastamento da realidade, anestesia emocional, perda de identidade, vigilância e paranoia contemporâneas. Esses são alguns dos temas que se espalham por essa comédia de ficção científica bem intencionada, mas, infelizmente, pouco profunda. Lá pelas tantas dá uma cansada, não dá pra negar.

Nota: 6,5

 

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Novidades em Streaming - Armand e os Limites das Famílias (Armand)

De: Halfdan Ullmann Tøndel. Com Renate Reinsve, Ellen Dorrit Petersen e Thea Lambrechts Vaulen. Drama, Noruega / Holanda / Alemanha / Reino Unido / Suécia, 2024, 117 minutos.

Precisamos falar sobre o Armand. Ou sobre Elizabeth. Ou vai ver necessitamos falar sobre muitas outras pessoas que navegam no universo sombrio do excelente drama Armand e os Limites das Famílias (Armand) - estreia do diretor Halfdan Ullmann Tøndel, que é neto de Ingmar Bergman e Liv Ulmann. Quando o filme, que venceu a Câmera de Ouro do Festival de Cannes, começa, temos a impressão de que será uma daquelas narrativas clássicas de pessoas adultas debatendo assuntos muito sérios à portas fechadas, com as revelações ocorrendo aos poucos. Bom, em partes é isso. Mas ao mesmo tempo tem-se aqui uma obra de sutilezas, repleta de ambiguidades e que não tem nenhuma pressa em acontecer. Ou mesmo fornecer qualquer evidência para uma conclusão mais óbvia. Aliás, em alguma medida, essa pode ser aquela produção de que frustra o espectador - especialmente pelo caráter surrealista do terço final.

Na trama, a atriz Elizabeth (Renate Reinsve) é chamada às pressas para a escola em que estuda seu filho Armand, um menino de apenas seis anos. Recebida pela professora Sunna (Thea Lambrechts Vaulen), ela é orientada a aguardar a chegada dos pais de um outro menino - de nome Jon - Sarah (Ellen Dorrit Petersen) e Anders (Endre Hellestveit), para uma reunião. No centro da história uma grave acusação: a de que Armand teria praticado algum tipo de violência, inclusive sexual, contra seu colega, que foi encontrado no banheiro da escola após a agressão. Para Elizabeth algo inconcebível. Para os pais de Jon uma agressão que precisa ser melhor investigada e que toma ares de preconceito a respeito do suposto estilo de vida mais livre de Elizabeth. Aliás, Sarah a acusa de ter se exibido (ou abraçado) seu filho de forma inadequada em visitas à sua casa (os meninos não são apenas amigos, mas também primos, já que Sarah é irmã de Thomas, ex-marido de Elizabeth, que teria morrido um acidente de trânsito).

 


Aliás, Thomas tem papel importante na tentativa de juntar os pontos que possam conduzir a algum tipo de explicação mais plausível para os acontecimentos - ele seria um sujeito violento com Elizabeth? O filho pequeno teria aprendido alguma coisa sobre esse tipo de comportamento ao presenciar agressões em casa? Ele teria de fato se suicidado, como tudo indica, ou a sua morte foi em decorrência de um acidente verdadeiramente? Pelo lado de Sarah e Anders a coisa também permanece no campo das incertezas. "Ele foi educado de forma não convencional" verbaliza a mulher que, claramente se incomoda com a presença magnética de Elizabeth que, ao pisar na escola mostra uma determinação que parece ainda mais evidente, a cada passo dado com as sandálias de salto. Que por sinal, contrastam com o aspecto soturno dos próprios corredores da escolas, sombrios e claustrofóbicos, com a contraluz surgindo aqui e ali de forma tímida.

Hábil, o diretor aposta ainda em uma série de alegorias que reforçam o caráter embaraçoso, caótico, invasivo e confuso da situação. Há, por exemplo, um alarme de incêndio estragado que não para nunca de tocar. Quando tem uma crise de riso frente ao absurdo da situação - o diretor a estende quase ao limite do aceitável - Elizabeth parece se tornar ao mesmo tempo uma figura patética, miserável e digna de pena. Há ainda uma diretora de departamento que tem um problema crônico de sangramento no nariz. Há ali algum tipo de incômodo onipresente. Ou um pedido de socorro sufocado, que é reforçado justamente pelos instantes mais alegóricos (com suas danças estilizadas e coreografias imprevisíveis). Sim, esse nunca será um daqueles filmes óbvios, claros, com pessoas boas e más milimetricamente calculadas. Nos corredores e bastidores as pequenas violências parecem sempre prontas a emergir. Assim como os segredos do passado, que retornam e bagunçam ainda mais. Não temos como ter certeza. O ser humano é complexo e esse filme fortalece essa ideia com maestria. Deixando margem para um sem fim de interpretações depois que sobem os créditos.

Nota: 8,5 

 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Tesouros Cinéfilos - A Última Ceia (The Monster's Ball)

De: Marc Forster. Com Halle Berry, Billy Bob Thornton, Heath Ledger e Peter Boyle. Drama, EUA, 2001, 111 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM SPOILERS] 

A cena em que Sonny (Heath Ledger) tira a própria vida na frente do pai, o policial Hank (Billy Bob Thornton), e do avô Buck (Peter Boyle), em A Última Ceia (Monster's Ball) segue sendo uma das mais impactantes da história moderna do cinema. Ela acontece meio que do nada. Sem que esperássemos aquela solução extrema - mesmo que o jovem habitasse um lar totalmente disfuncional. E como se drama pouco fosse bobagem, instantes antes de dar um tiro no próprio peito, Sonny ainda inquire seu pai, perguntando a ele se, alguma vez, ele já o tinha amado. "Não, eu nunca te amei" é a resposta seca. Perturbado, o rapaz o retruca dizendo um "pois eu sempre te amei" para, segundos depois, restar apenas o corpo atirado por sobre a poltrona, com uma enorme mancha de sangue inundando a camiseta branca. Buck era um pai horrível, como ele mesmo admite em certa altura. Mas há tempo para que a rota seja recalculada? Para que, frente a tantas tragédias, os cacos sejam recolhidos?

A Última Ceia está completando 25 anos de lançamento neste mês e segue ressoando, com sua narrativa sobre racismo, misoginia e violência psicológica - e de como esses comportamentos se perpetuam de geração em geração. "Ele puxou a mãe dele", verbaliza, a respeito do neto, um frio Buck, um idoso decadente que mal consegue se movimentar direito em direção ao banheiro, mas nunca perde a capacidade de reafirmar seus preconceitos. "O que esses 'negros' fazem no meu quintal?", pergunta à Hank, em certa altura, referindo-se a uma dupla de adolescentes da vizinhança, que mantinha algum grau de amizade com Sonny. Hank aprende a ser um intolerante incorrigível daqueles do interior dos Estados Unidos - a ação se passa no Estado da Geórgia - e que, nos dias atuais, vestiria com orgulho o bonezinho Make America Great Again. Grandão de arma na mão. Incapaz de chorar a morte do próprio filho por suicídio. Ou de compreender, ao menos inicialmente, que é parte do problema.

 


E, é preciso que se diga, essa obra que segue pungente em um País tão dividido pelo ódio - reforçado por seu bizarro, alaranjado, virulento e tirânico presidente - nem sempre é de fácil depuração. Tanto que, muitas vezes, consideraremos as decisões dos personagens, quaisquer que sejam, no mínimo questionáveis. Estamos, afinal, falando do ser humano em toda a sua complexidade. Com seus medos, desejos, incertezas e incoerências. Há uma cena quase ao final em que Leticia (Halle Berry, que venceria o Oscar pelo papel) descobre, por meio de desenhos engavetados, que os algozes do seu marido preso há onze anos (Sean Combs, que Deus o tenha) e enviado para a cadeira elétrica por assassinato, são justamente Hank e o falecido Sonny, que também tentava emplacar uma carreira na delegacia local. Naquela altura do campeonato, Leticia já havia tido com Hank talvez o mais quente, acolhedor e carinhoso sexo em anos, vindo de um sujeito que, inclusive, tinha tentado salvar a vida de seu filho de apenas 10 anos Tyrell (Coronji Calhoun), que havia sido atropelado em uma noite chuvosa.

Esse é o momento em que Leticia, endividada e despejada previamente, senta na varanda e olha reflexiva para o quintal, onde jazem de forma suntuosa os corpos de ambos os filhos da dupla, mais o do pai de Hank. Ficam só os dois. Tentando recomeçar. Hank é gentil com ela, após uma saída noturna para buscar seu sorvete preferido. O mesmo homem racista de outrora, agora parece disposto a um relacionamento com uma mulher preta. E isso depois de anunciar a aposentadoria, comprar um posto de gasolina e tentar ainda uma aproximação do pai dos meninos enxotados de seu quintal, que trabalha como mecânico nas redondezas (papel pequeno, mas bonito, de Mos Def). Sim, hoje em dia as pessoas podem achar que é muita forçação um preconceituoso incorrigível se ajeitar na vida, depois de tanto levar porrada. Mas estamos falando de uma obra de 25 anos atrás, quando estes temas ainda surgiam, aqui e ali, como pequenos ensaios hollywoodianos sobre o tema (vale o mesmo para o sempre impactante A Outra História Americana, lançado três anos antes). Ao cabo, trata-se de uma obra robusta, com ótimas interpretações e que segue ressoando frente ao impacto dos acontecimentos.