quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Cinema - O Convite (The Invite)

De: Olivia Wilde. Com Olivia Wilde, Penelope Cruz, Seth Rogen e Edward Norton. Drama / Comédia, EUA, 2025, 107 minutos.

Por que temos o hábito de culpar os outros pela nossa infelicidade, se muitas vezes somos nós mesmos que fazemos certas escolhas? Por qual motivo a grama do vizinho parece ser sempre melhor que a nossa e temos dificuldades em ser felizes com o que temos? O que nos faz ficar casados com quem não amamos ou não transamos? Por quê tanto ressentimento? Ou tantos desejos reprimidos? São tantas as perguntas suscitadas por essa joia chamada O Convite (The Invite) - que é baseada na produção espanhola Sentimental (2020) - que mal temos tempos de respirar pra começar a responder. E a verdade é que talvez esse nem seja um filme que procure respostas já que as questões surgem - algumas verbalizadas pelas personagens, outras ficando meio que no ar - e, ao cabo, permanecem conosco, assim que os créditos sobem. Esfregadas em nossas caras, como se estivéssemos em uma sessão de terapia coletiva. Conjunta. Com aqueles que acompanhamos.

Indo na esteira de outras produções com pessoas confinadas em um mesmo ambiente e dispostas e amplas divagações sobre relacionamentos, traumas, dores, sonhos despedaçados e insatisfações - não é difícil pensar em clássicos como Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? (1966) ou mesmo em produções mais recentes, como, Deus da Carnificina (2011) -, a obra dirigida e estrelada por Olivia Wilde parte de uma provocativa sentença do escritor Oscar Wilde: "devemos estar sempre apaixonados e, por isso, não devemos casar". Sim, a frase pode ser exagerada e até chocante para aqueles mais afeitos às convenções, como no caso do matrimônio, mas ela não é definitiva. Ela serve, em alguma medida, de deixa para a situação vivida pelo casal central (e anfitrião) da noite que se seguirá - no caso, o professor de um conservatório Joe (Seth Rogen) e a artista aposentada precocemente Angela (Olivia Wilde), ambos claramente meio que frustrados com tudo.

 


Aliás, muita dessa desilusão parece ter a ver com a completa incapacidade de comunicação da dupla. Joe chega furioso em casa no final do dia, depois de ter dado aula, pego o metrô e percorrido um pesado trecho de bicicleta que destroi suas costas, para se deparar com uma Angela animada pela perspectiva de receber o casal que mora no apartamento de cima - os sensualíssimos Pina (Penelope Cruz) e Hawk (Edward Norton) -, que parecem ter uma vida sexual absolutamente movimentada e selvagem, deixando os anfitriões exasperados (e sem sono) a cada madrugada. Com tudo piorando quando descobrimos, mais adiante, que Joe e Angela não transam há um ano. Joe não queria a visita. Angela preparou um banquete, mas esqueceu de comprar vinho - para seu desespero. Ela quer a janela aberta, ele fechada. Ele quer beliscar a comida pois está com fome, ela não deixa. A desconexão é daquelas que salta os olhos e vale destacar a ferocidade dos diálogos, quase sempre com um caráter passivo agressivo e, verdade seja dita que produções desse subgênero só funcionam com um texto de excelência (e esse aqui é ótimo).

Quando Pina e Hawk chegam, tudo parece piorar para a dupla central. Além de sexies, descolados, progressistas e abertos à novas experiências, eles namoram há apenas um ano. Pina, uma terapeuta sexual que já foi casada, deixou uma vida de insatisfação pra trás. Hawk, um bombeiro aposentado (o que representa uma quebra de estereótipos) era seu paciente, que estava em vias de dar cabo de sua própria vida. Ao menos até os dois se encontrarem, se aproximarem. As conversas entre polos tão distintos e tão opostos no que diz respeito ao ponto em que seus relacionamentos estão, será a marca de uma experiência que consegue ser sutil, mas com envergadura. As horas passam naquele ambiente e a impressão que temos é a de que poderíamos ficar por horas ouvindo aquele quarteto em uma tensão que parece crescer mesmo em instantes mínimos - como no caso da descoberta do veganismo de Pina, ou da necessidade de abrir uma garrafa de vinho que vinha sendo guardada para alguma ocasião especial. E, honestamente, nem vale a pena falar muito mais a respeito. A obra tem ganho tração e pode chegar, inclusive, ao Oscar, naquela sempre bem recebida cota do filme alternativo. Vale cada segundo.

Nota: 9,0 

 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Pitaquinho Musical - Steve Lacy (Oh Yeah?)

Pense num encontro entre o Frank Ocean e o Beach House ou entre o Prince e o Dirty Projectors e talvez tenhamos algo próximo da sonoridade do Steve Lacy. Entre o sonhador e o etéreo - às vezes primaveril, noutras essencialmente urbano - Oh Yeah?, terceiro registro de inéditas do californiano e ex-integrante do ótimo coletivo The Internet, se apresenta como uma evolução natural daquilo que foi entregue no disco anterior, o elogiado Gemini Rights (2022), que tem o hit Bad Habit e o fez vencer um Grammy, mas sem abrir mão da simplicidade que é quase uma marca registrada. Aliás, é meio curioso perceber como a música de Lacy consegue ser minimalista, sutil - tendo sempre por base sempre o seu vocal ondulante em falsete -, mas ao mesmo tempo expansiva, ampla. Parece algo feito pra cantar sozinho no banho, ou em apresentações ao vivo, acompanhados daqueles que amamos. 

 


Sim, suas letras pode ser pueris ou até bobas, como no caso da sentimental The Feeling, sobre vulnerabilidade e busca de aceitação em um relacionamento (Quando transamos no tapete / Me faz flutuar como Alladin), mas há algo meio magnético ali. Uma cola que gruda e que faz com que a gente viaje, como se estivesse em um registro de essência psicodélica, que nos leva para o espaço e nos faz voltar em segundos. Um outro exemplo nesse sentido pode ser percebido na existencialista e sensual Pure Colour, que une o R&B e o trip hop em uma experiência lânguida, que tem participação de Erikah Badu. Já o folkzinho erótico e irônico Show You Me, parece algo que poderia estar no mesmo bloco musical da rádio indie, com nomes como Animal Collective (em seus momentos menos urgentes, como talvez no álbum Feels, 2005) e MGMT. Enérgico e envolvente, por vezes tenho a impressão de que esse disco ainda não foi percebido direito por crítica e público. Mas ele só melhora a cada novo play.

Nota: 9,0 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Novidades em Streaming - Milonga

De: Laura González. Com Paulina García, César Troncoso, Jean Pierre Noher e Laila Reyes. Drama, Argentina / Uruguai, 2023, 106 minutos.

Existe uma cena pequena, mas bastante significativa no minimalista, melancólico e sutil Milonga - o ótimo filme da diretora Laura González, que estreou na última semana na Reserva Imovision. Nela, Rosa (Paulina García) está pela primeira vez, desde que ficou viúva, em uma espécie de baile sensual da terceira idade típico da região uruguaia (e que ali recebe o nome de milonga, que também é o gênero musical tido como precursor do tango). É um momento de libertação pra Rosa, que está acompanhada de sua melhor amiga, a extrovertida, solar e desinibida Margarita (Laila Reyes), uma de suas maiores incentivadoras. Lá pelas tantas, a tímida protagonista ouve o barulho de um copo quebrando - e de um burburinho no ambiente, como consequência do episódio. É o suficiente para que um gatilho dispare e para que Rosa tenha de ir às pressas ao banheiro, após uma queda de pressão e do aumento da ansiedade.

Até aquela altura do campeonato, o espectador apenas desconfia dos motivos que levam Rosa a ter um comportamento bastante introspectivo, quase taciturno. Condição, aliás, que é agravada por um outro episódio traumático: no caso, a prisão de seu filho, em condições pouco claras. E, como se não bastasse o cárcere do rapaz, ainda parece haver um grande esforço não apenas dele, mas também de sua nora Alejandra (Clara Alonso), para que ela não o visite. E que não encontre também o neto, num provável caso de alienação parental. Mas se há um certo indício de que Rosa possa ter sofrido algum tipo de violência física e psicológica no passado - vinda, muito provavelmente, de um ex-marido controlador e agressivo -, por que seu filho a isola? São questões que perpassam a narrativa, mantendo o interesse sempre constante, em uma obra naturalista que tem o seu próprio tempo - econômico, metódico, sem pressa.

 


Rosa atualmente reside em uma grande casa uruguaia, com um amplo jardim que está meio abandonado. A caminhoneta do ex-marido não é mais necessária - e é depois de colocar o veículo à venda, que surge em sua vida Juan (César Trancoso, visto no inesquecível O Banheiro do Papa, 2007), um pintor bastante metódico, a ponto de organizar suas espátulas e pinceis com um ordenamento que vai quase no limite do transtorno. Rústico, mas amistoso, Juan faz amizade com Rosa, que indica a ele que quer modificar a cor do muro que ladeia a habitação (sai o brando pálido que era a cor preferida do falecido e entra o verde água, alegoria para os tempos de esperança). Com um radinho à tiracolo, Juan é adepto do tango - o que é a deixa para que ambos entrem no assunto das milongas e da possibilidade de irem juntos aos bailes incentivados por Margarita que, a despeito de ser uma senhora de 60 e poucos anos, não abre mão do salto alto e daquilo que ressalta sua feminilidade. Aliás, ela deseja que a amiga também se solte. Que desabroche. E talvez a parceria com Juan possa ser o caminho para isso. Será?

E, verdade seja dita, poucos filmes desse ano terão um desenrolar tão imprevisível e surpreendente em suas minúcias, em seus detalhes, como esse premiado projeto dos nossos vizinhos. Fosse um filme de Hollywood e talvez a onipresença magnética e prática de Juan, representasse uma possibilidade futura para quebra de padrões em relacionamentos - e para deixar para trás traumas, dores, luto e uma vida de sofrimento. Mas Milonga, com sua personalidade nunca óbvia, faz um importante alerta: para que as barreiras sejam, de fato, rompidas, há que se olhar para o futuro, sem ignorar aquilo que o passado ensina. Por muito pouco Rosa não entra num ciclo repetido que inicia em violências quase imperceptíveis e rotineiras - como na crítica à cor da sandália usada - até chegar à agressão à simpática Coquita, a cachorra da protagonista. O que culminará num hostil "vocês mulheres são todas iguais". No começo do filme, Rosa enfrenta dificuldades para tirar a aliança. Ao final, consegue trocar o chuveiro sozinha. Pode ser uma mensagem quase óbvia sobre independência feminina. Mas pra quem cresce em um ambiente patriarcal em que certos assuntos nunca são discutidos, não deixa de ser uma simbólica vitória. O que, ao som da linda La Cumparsita, de Geraldo Rodríguez, fica ainda melhor.

Nota: 9,0

 

Novidades em Streaming - Não Deseje Boa Sorte (Don't Sat Good Luck)

De: Julia Hart. Com Sunny Sandler, Melanie Lynskey, Max Greenfield e Jack Champion. Comédia / Drama, EUA, 2026, 95 minutos.

Preciso admitir que gosto demais quando vou assistir a um filme em que não estou dando absolutamente nada e saio surpreendido positivamente - o que é justamente o caso do carismático e comovente Não Deseje Boa Sorte (Don't Say Good Luck), uma das novidades da última semana na Netflix. Sem reinventar a roda, a diretora Julia Hart constroi uma fábula de amadurecimento, perda e superação que emociona sem forçação, ao nos fazer acompanhar a jornada de uma jovem de 17 anos - seu nome é Sophie (Sunny Sandler, filha de Adam e Jackie Sandler, que produzem a obra) -, que sonha com o papel principal em uma peça de teatro musical de Ensino Médio que reencena A Garçonete, ao mesmo tempo em que precisa lidar com o fato de a mãe, Elizabeth (a sempre ótima Melanie Lynskey), padecer de um câncer terminal.

Sim, é o típico drama hollywodiano em que dois eventos concomitantes e diametralmente opostos colidem, com os personagens tendo de tomar decisões difíceis a partir deles. Só que o que poderia ser apenas uma encenação vazia a respeito de empatia, luto e força de vontade para seguir em frente, aqui ganha tintas menos pesarosas, com a adição de alguns instantes de humor - Lynskey, aliás, sempre foi ótima nisso -, e com algumas soluções de roteiro inesperadamente engenhosas. Uma delas, por exemplo, sendo o fato de o pai de Sophie, o esforçado Ted (Max Greenfield) ser um atrapalhado integrante da Geração X, que tem sérias dificuldades com o seu aparelho celular. O que faz com que ele ligue sem querer para seus familiares (aquilo que o idoso faz quando esquece o telefone desbloqueado no bolso).

 


É num desses telefonemas ao acaso, que Sophie descobre, bem no momento em que subiria ao palco para a sua audição, que sua mãe é diagnosticada com a volta da doença (que parecia já estar sendo tratada), de forma agressiva. Só que o que poderia desequilibrar a protagonista na disputa pelo papel principal, se converte justamente no combustível: com uma atuação impecável, ela é selecionada para viver a protagonista Jenna, após impressionar a diretora de elenco Ms. Parker (Stephanie Beatriz, a eterna Rosa Diaz de Brooklyn Nine-Nine, uma das tantas participações especiais no projeto, sendo as outras as de Steve Buscemi e Bebe Neuwirth, como os avós impertinentes de Sophie, e do comediante Jon Lovitz, o confeiteiro principal na delicatessen tocada por Ted). E, bom, temos um filme de corrida contra o relógio, já que a trágica notícia é a de que Elizabeth tem poucos meses de vida. E será que ela terá tempo de assistir ao desempenho da filha na peça?

Tentando poupar a jovem das notícias mais trágicas, Elizabeth opta por esconder a gravidade da coisa toda. Sim, ela sabe que é câncer e que é sério. Mas não tem conhecimento de que há um prazo. Todo esse caos a atrapalha em suas sessões de atuação, o que a deixa bastante insegura - situação reforçada por seu par central de elenco ser justamente o jovem Jack (Jack Champion), por quem nutre uma paixonite adolescente. A situação fica tão séria conforme a trama avança, que até a amizade com a melhor amiga Carolyn (Scarlett Estevez) é abalada. Afetuosa e emocionante, a produção ainda evidencia o fato de as pessoas terem dificuldade em reagir diante de uma pessoa que sofre de uma grave doença. E, por muito pouco, a obra não converte um instante ao som de Firework, de Katy Perry, em um dos mais tocantes do ano. Mas às vezes a gente esquece que, além de drama, esse filme também é uma comédia. Para o bem ou para o mal.

Nota: 7,5 

 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Novidades em Streaming - O Afinador (Tuner)

De: Daniel Roher. Com Leo Woodall, Havana Rose Liu, Dustin Hoffman, Lior Raz e Jean Reno. Ação / Suspense / Drama / Romance, Canadá / EUA, 2026, 109 minutos.

"Afinador, se você precisar ganhar dinheiro de verdade, me liga". Niki (Leo Woodall), o protagonista de O Afinador (Tuner), filme recém chegado às plataformas de streaming para aluguel, sofre de hiperacusia - um distúrbio auditivo que se caracteriza por baixíssima intolerância ou sensibilidade excessiva a sons cotidianos de intensidade moderada ou baixa. Barulhos de trânsito, sons de talheres ou mesmo o ruído normal de uma conversa pode ser insuportável e estressante pra quem sofre da condição. O que faz com que Niki permaneça o tempo todo com fones de ouvido - como forma de atenuar o sofrimento. Só que o mesmo distúrbio faz com que ele seja um habilidoso afinador de piano, ofício que aprendeu com o veterano Harry Horowitz (Dustin Hoffman), um amigo de seu falecido pai, com quem tem conversas aleatórias sobre assuntos de almanaque (como a quantidade de mercúrio presente nos atuns).

Enfim, Harry é como se fosse um segundo pai para ele. Com a van do veterano, a dupla vai para lá e para cá na cidade, afinando pianos de ricaços que nem tanto apreço assim pelo instrumento - aliás, o sonho de Niki era ter sido um músico de sucesso, mas justamente o seu excesso de sensibilidade para sons como o das teclas do piano, o impediu. Certo dia, na casa de um ricaço, Niki é atrapalhado por um trio barulhento de operários israelenses que tenta, em vão, abrir um cofre com furadeiras e outros instrumentos. Nesse contexto, o protagonista se oferece para abrir o compartimento de forma silenciosa, a partir dos discretos ruídos feitos pela roldana da estrutura de segurança do local. Um clique aqui e outro ali e ele alcança seu objetivo - aliás, mais um aprendizado obtido com a ajuda de Harry, que havia esquecido a senha de seu próprio cofre, anteriormente.

 


E, claro, em um filme assim, para que a narrativa avance e desperte algum interesse é necessário algumas conveniências de roteiro. Em uma delas, Niki conhece a talentosa pianista Ruthie (Havana Rose Liu) com quem trava uma espécie de disputa musical que, mais adiante, se converterá em amizade e... paixão, claro (duas pessoas lindas sempre estão desimpedidas em qualquer filme de Hollywood, sabemos bem). Com mais de 80 anos, Harry acaba tendo um ataque cardíaco em outro momento e, como não há SUS num dos piores países do mundo, o tratamento gera uma dívida milionária. Niki mal e mal tem dinheiro pra se manter. Que dirá pra apoiar seu tutor. Quer dizer, há a oferta feita por Uri (o ótimo Lior Raz) e que está na frase que abre essa resenha, que é dita após ele ficar embasbacado com o fato de Niki ser capaz de abrir cofres de forma silenciosa. O que desbloqueia muitas possibilidades para o trio de larápios que, ao cabo, vive de pequenos golpes em casas de endinheirados.

Em linhas gerais, essa é aquela produção bem estruturada, com começo meio e fim bem delineados e que se vale do carisma de seus personagens como uma de suas forças. Niki passa a trabalhar com Uri e seus capangas e não é preciso ser nenhum expert para saber que, mais adiante, a coisa sairá do controle - ainda mais com tantos cofres abertos e tantas joias (como relógios) e grana rolando. Para o jovem protagonista o trambique é eficiente por permitir pagar o tratamento de seu amigo Harry - ainda que a esposa do homem, Marla (Tovah Feldshuh), desconfie de que há um esquema por trás de tanto dinheiro. Com boas surpresas e excelentes reviravoltas no roteiro, a obra ganha um pouquinho mais de força na reta final, especialmente depois do surgimento de Maissner (Jean Reno), um notável maestro que promete um emprego à Ruthie. Bom, o finde tá aí e pra quem procura um filme sem muita invencionice para assistir em família, talvez esse seja o ideal. Tá na Amazon Prime e na Apple TV.

Nota: 7,0 

 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Pitaquinho Musical - Kelela (new avatar)

Quando escuto um disco como o new avatar, terceiro registro de inéditas da Kelela, fico imaginado aquele tipo de noite que talvez nunca existiu direito - ao menos fora da minha mente de morador do pequeno povoado do sul global. Classudo, espectral, aconchegante e sofisticado esse é o tipo de projeto que nos joga para as luzes urbanas e cintilantes da cidade enquanto o carro roda; para a pista performática e eventualmente introspectiva das três da manhã e para a solidão do quarto em uma madrugada que já se conecta com o início da manhã. Sim, é meio tentador resumir o trabalho como uma mescla de R&B, soul e eletrônica, mas não deixa de ser interessante notar como Kelela parece disposta a explorar outros terrenos sonoros - o que pode ser percebido, aqui e ali, pela guitarra que emula uma espécie de shoegaze noventista e que, em alguma medida, funciona como justíssima homenagem à precursores do instrumento número um dos "rockistas" (que, verdade seja dita, teve seu embrião na música negra, antes da apropriação por um bando de brancos bem nascidos e que talvez a máxima subversão fosse fumar maconha escondido dos pais).

 


No comunicado que enviou à imprensa e que antecipava o anúncio do álbum, a artista fez questão de lembrar que não deseja que a música seja uma mera distração do que realmente está acontecendo no mundo. "Eu quero que ela faça sentido neste momento louco, enquanto ajuda as pessoas a entrar em contato com a beleza e a alegria que também estão experimentando", afirmou. Não por acaso, a ideia de um avatar como alegoria para a construção de novas formas de existência em meio ao caos político, social, cultural e religioso - com avanço da extrema direita e políticas de opressão à minorias (como no caso das pessoas negras e queer) -, surge como a metáfora óbvia de um trabalho em que a transformação e adaptação parecem estar no centro. O resultado é uma coleção de canções impactantes em sua sonoridade etérea e límpida, com menos refrãos óbvios e mais versos potentes, como no caso da abertura com idea 1 (inspirada na obra da escritora Octavia Butler), linknb (sobre pertencimento cultural) e don't piss me off (a respeito de raiva convertida em resistência). Enfim, um dos grandes discos do ano.

Nota: 9,0 

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Tesouros Cinéfilos - A Praga (The Plague)

De: Charlie Polinger. Com Everett Blunck, Kayo Martin, Kenny Rasmussen e Joel Edgerton. Drama / Suspense, EUA / Austrália, 2025, 98 minutos.

Em uma das primeiras cenas de A Praga (The Plague), o jovem Ben (Everett Blunck) está tentando se enturmar com os colegas adolescentes do acampamento de polo aquático em que acaba de chegar. Ele ainda é o novato tímido de olhar curioso e está meio que tateando aos poucos, buscando algum ponto de segurança em um contexto que talvez seja um dos piores do planeta: o de ser o desconhecido em um bando de crianças na faixa dos 12 e 13 anos que, a despeito da falta de maturidade, comportam-se como sujeitos autossuficientes e, eventualmente, arrogantes. Ao chegar com seu prato de comida ele já ouve alguma gracinha sobre ter escolhido o sabor de suco errado (uva ou laranja, há algum que é melhor). Mas tudo piora quando o coletivo se dá conta de que Ben possui um tipo de transtorno de som da fala, que faz com que ele omita certos fonemas (no caso ali, da dificuldade em verbalizar a palavra stop, que vira algo tipo ssóp).

Claro que isso já será motivo pra muita gaitada - com a frente desse bullying ainda preliminar sendo puxada pelo pequeno Jake (o ótimo Kayo Martin) que, a despeito de seu tamanho diminuto e da pouca idade, possui uma alta capacidade de uso de deboche e de ironia. E a coisa só não é pior para os lados de Ben porque existe um outro aluno - seu nome é Eli (o também excelente Kenny Rasmussen), que é o alvo principal do grupinho ali. Chamado pelos demais de praga - por conta de um severo problema dermatológico que descama a sua pele -, Eli vive isolado pelos colegas, mas sem necessariamente se impactar com isso (o que talvez sugira que ele tenha algum outro tipo de transtorno, como, talvez, de espectro autista). Ele segue sua vida meio que normalmente, ignorando os demais - e não deixa de ser divertido perceber como o roteiro brinca com essa ambiguidade envolvendo a complexidade de sua personalidade por meio da inclusão de detalhes simples, como o uso do clássico musical noventista Run Away de Real McCoy, que escapa de seu fone de ouvido.

 


Aliás, importante dizer que a trilha sonora, nesse filme de estreia do diretor Charlie Polinger e que ainda não chegou às plataformas de streaming, é um espetáculo à parte, com suas notas cortantes, experimentais, frias e desconfortáveis. É ela que, em muitos momentos da narrativa, funciona como uma espécie de fio condutor das tensões, que parecem sempre prontas a emergir (mesmo que essas ocorrências nunca pareçam maiores do que uma risadaria abobada por um comentário torto ou até por uma ereção inesperada de um colega). Em certa altura, por exemplo, após resolver auxiliar Eli a passar uma pomada em suas costas, auxiliando-o na alergia, Ben é isolado pelos demais da forma mais cruel que pode haver quando o assunto é a prática esportiva: nas disputas de polo aquático, ninguém passa a bola pra ele. A mão esticada permanece vazia, no vácuo, reforçando a ideia de solidão em meio aos demais.

Porque o bullying, verdade seja dita, em muitos casos não é agressão constante ou apupo o tempo todo. É sutileza na arte de abalar a moral do outro - o que pode ser perturbador e trágico para quem está amadurecendo, formando sua personalidade e também a ideia de masculinidade. Aliás, uma obra como essa pode não ser uma bandeira tão ostensiva ao apontar o dedo para o problema da cultura redpill que coopta jovens inceis pelo mundo, mas funciona como uma espécie de embrião a deixar os adultos - aqui representados pelo treinador Wags (Joel Edgerton) - sempre atentos. Hábil, a produção não converte aqueles jovens em sujeitinhos maniqueístas que são bons ou maus o tempo todo, sem nenhuma variação no traço de comportamento. Jake pode até ser o mais pestinha, mas isso não faz com que ele ignore completamente o novato ou ensaie algum tipo de amizade meio desajeitada com ele. Já Ben, mesmo sendo um jovem vulnerável e candidato óbvio da humilhação e das intimidações vindas dos demais, nunca é apresentado como coitadinho. O que é evidenciado por sua complexa relação com Eli. Ao cabo, aqui temos uma obra que respeita a inteligência do espectador, sem entregar todas as respostas de mão beijada. "Você acha que pode ser você mesmo e não dar a mínima para que os outros pensam?", argumenta um revoltado Ben quase ao final do filme? É a reflexão que fica.

 

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Novidades em Streaming - A Última Casa (The Last House)

De: Louis Leterrier. Com Wagner Moura, Greta Lee, Riley Chung e Noah Alexander Sosnowski. Ficção Científica / Suspense / Drama, EUA / França / Reino Unido, 2026, 112 minutos.

Devo admitir que foram dois os motivos que me fizeram dar play neste A Última Casa (The Last House) - a despeito da maior carinha de "melhor filme dos últimos tempos da última semana", que daqui mais ou menos um mês mais ninguém lembra que sequer existiu. Primeiro de tudo a presença do Wagner Moura - e não tem como não ficar curioso em vê-lo atuando, ainda mais em Hollywood, após a bem sucedida temporada de premiações de O Agente Secreto (2025). Depois, a temática, já que adoro essas ficções científicas especulativas, em que imaginamos realidades alternativas e como nos comportaríamos frente a elas - sendo aqui, no caso, a ideia de uma família forçadamente presa dentro de sua própria casa por forças malignas, como numa junção entre filmes de terror B e o cinema, com uma boa dose de boa vontade, de Luis Buñuel. Tá, admito que forcei porque não tem como uma produção da Netflix de 2026 ter o caráter alegórico e crítico à elite endinheirada do realizador de O Anjo Exterminador (1962) e O Discreto Charme da Burguesia (1972). Talvez não caibam nem na mesma frase.

Na trama de pegada ambientalista - como muitas da atualidade, aliás -, uma chuva persistente meio que joga todo o mundo pra dentro de suas próprias casas, já que a perspectiva é de temporal feio (e como gaúchos moradores do Vale do Taquari, sabemos bem o temor que isso pode representar). Entre essas pessoas está Jason (Wagner Moura), um engenheiro desempregado que ocupa seus dias pescando e que, após se resguardar de uma tempestade ao lado da esposa Ann e dos filhos Graham (Noah Alexander Sosnowski) e Ruth (Riley Chung) se vê impossibilitado de abrir qualquer porta ou janela de sua residência típica de subúrbio estadunidense. O estranhamento inicial joga o quarteto para um grande janelão da sala, onde, num modo meio Janela Indiscreta (1954) - mas sem um crime acontecendo - eles constatam que seus vizinhos estão meio que na mesma. Ninguém pode sair por quadras a fio, como se todas as casas estivessem seladas pela própria água, que adquire um efeito isolante.

 


Com uma boa relação entre si, o casal e os filhos ficam inicialmente preocupados, mas nunca exasperados - já que imaginam que, em algum momento, a coisa será desbloqueada. Só que os dias passam e, como não poderia deixar de ser, sem poder ir no mercadinho da esquina ou na farmácia, os estoques de comida, de medicamentos e de outros itens de abastecimento básico, vão aos poucos escasseando. E junto com eles surge também o estresse que, inevitavelmente, nos remete aos tempos pandêmicos - na metáfora mais inicialmente óbvia, ainda que soe um tanto tardia e deslocada no tempo, vamos combinar. E tudo piora quando, pouco a pouco, os Delgado (sim, o sobrenome tem essa pegada meio espanhola, já que, onde já se viu o povo da Terra do Tio Sam entender que brasileiro fala português, né?) percebem que não podem mais chegar tão perto assim das portas e das janelas em dias de chuva já que parece haver criaturas meio malvadonas do lado de fora, sentimento reforçado por um brutal ataque a uma vizinha que se vê inesperadamente na rua.

Esse medo que não se sabe bem do quê e que é sugerido no transcorrer da narrativa - Governo? Alienígenas? Grandes corporações? Tecnologia? Devastação ambiental? Especulação imobiliária? - poderia ser melhor explorado em um roteiro um pouco mais imaginativo, que não fosse centrado apenas na rotina da própria família em uma tentativa desesperada de sobrevivência. O que faz, aliás, com que a solução final pareça apenas pálida, lembrando o que ocorre em filmes como os do M. Night Shyamalan, que nunca são ruins, mas que dificilmente conseguem ser completamente satisfatórios. Lá pelas tantas há um cansaço na repetição de ideais - de sustos, de sistemas integrados para a sobrevivência (com a criação de hortas domésticas improvisadas e "pescaria" de animais convenientemente capturados pelo hábil engenheiro Jason). Há, aqui e ali, um ensaio de algo que poderia dar bom, como no instante em que Jason e um de seus vizinhos investem em uma comunicação improvisada por placas - que poderia reforçar a crítica ao individualismo e à falta de senso coletivo de nossos tempos, que faz com que nos isolemos cada vez mais. Ou mesmo no momento em que a família recorre aos DVDs e aos discos de vinil como um aceno ao básico pra ser feliz - com direito a um belo instante ao som Close To Me, do The Cure. Mas, em geral, fica tudo meio que no quase, sem nunca empolgar de fato.

Nota: 5,5 

 

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Pitaquinho Musical - The XCERTS (i think i want to go home now)

Vamos combinar que o mundo tá muito no erro quando uma banda bacana como o The XCERTS é simplesmente ignorada por tanto tempo. Bom, na lista de melhores discos de 2026 que você não ouviu, i think i want to gome home now (com minúsculas mesmo), o sexto registro de inéditas dos escoceses, tem lugar cativo. Com uma mistura saborosa de power pop e indie rock, com pitadas de noise e punk, o grupo faz música direta e sem firulas, que jamais soa apenas derivativa ou sem personalidade. Há ali uma urgência, um vigor que a gente quase esquece ser possível nos tempos atuais, em que gêneros musicais parecem tão mesclados (e que bom) e sem uma linha de divisão mais clara. Sim, sim, sim, não vai reinventar a roda e todos nós já ouvimos esse tipo de música melodiosa, que parece meio afogada em dor com seus vocais gritados e refrãos grudentos mas, verdade seja dita, é sempre bom ver a coisa bem feita já que, convenhamos, quem ganha é quem dá o play.

 


Repleto de letras existenciais e divagações contemplativas que, na real, sempre foram a marca registrada da banda - especialmente em discos de melodias mais atmosféricas, como no caso do ótimo Hold on to Your Heart (2018), que parece extraído da mesma fileira do The War On Drugs -, o álbum tem uma certa catarse em seu DNA. O que pode ser percebido, por exemplo, na desconfortável e pegajosa do it to myself, com sua letra urgente e vulnerável sobre admitir o sentimento de fragilidade (Quero saltar dentro do teu coração / Então eu posso desmoronar com segurança). Já a enérgica pretty ugly é naturalmente pesada, o que pode ser percebido para além da sonoridade, com seus versos sobres traumas familiares, decorrentes do diagnóstico de câncer do pai do vocalista Murray Macleod. Em linhas gerais, talvez esse seja um trabalho que não alcança o brilhantismo do inexplicavelmente esnobado There Is Only You (2014), que conta com as assombrosas Shaking in the Water e Teenage Lust. Mas chega perto. 

Nota: 8,0 

Novidades em Streaming - Hit Para Dois (Power Ballad)

De: John Carney. Com Paul Rudd, Nick Jonas, Marcella Plunkett e Peter McDonald. Comédia, EUA / Irlanda, 2026, 98 minutos

Vamos combinar que casos de plágio, cópia ou apropriação de melodias ou letras, no mundo da música, não chegam a ser novidade. Recentemente, por exemplo, após a apresentação da Shakira na Copa do Mundo, voltou à baila a discussão sobre ela ter, supostamente, pego para si o famoso refrão da canção Waka Waka (This Time for Africa) que bombou em 2010 - e até aí estava tudo bem ao menos até a banda camaronesa Golden Sounds reivindicar os direitos autorais que envolvem a música Zangalewa, lançada em 1986 (e vale procurar na internet porque as semelhanças são impressionantes). Bom, disputas jurídicas à parte, ambos os lados chegariam mais tarde a um acordo, com a colombiana meio que jurando de pé junto que a apropriação não foi deliberada e que, sim, foi resultado de um processo criativo envolvendo um sem fim de experiências culturais e influências sonoras mundo afora.

Bom, corta pra 2026 e temos Hit Para Dois (Power Ballad), filme de temática semelhante, com um quezinho de Letra e Música (2007) - ao menos no que diz respeito ao carisma dos envolvidos -, em que sai o integrante da banda dos anos 80 decadente (o ótimo papel de Hugh Grant) e entra o músico Rick Power (Paul Rudd), que nunca aconteceu no mainstream, até mesmo por causa de suas escolhas pessoais e de vida. Com uma filha pra criar e casado com a ex groupie Rachel (Marcella Plunkett), Rick é um celebradíssimo vocalista daquelas típicas bandas covers de casamento, que fazem sucesso cantando, entre outras, Celebration do Koll and the Gang e Maneater, da dupla Hall and Oates. Mas no íntimo dele, ele ainda parece sonhar com algum tipo de estrelato - o que culmina na constrangedora sequência inicial, em que eles cantam uma canção genérica e autoral de rock anos 90 meio Soul Asylum e que meio que ninguém pediu, se deparando com o inevitável esvaziamento da pista de dança logo após.

 


E se na produção de Marc Lawrence tínhamos uma Drew Barrymore irresistível, que ajudava o protagonista a retornar ao estrelato, deixando para trás as apresentações em feira agropecuárias, aqui temos Danny Wilson (Nick Jonas, que interpreta alguém que talvez dialogue um pouquinho a mais com a sua persona da vida real do que o imaginado, já que ele nunca retornaria aos anos de ouro dos Jonas Brothers), um cantor famoso por integrar uma boy band no passado e que agora está empenhado em construir uma carreira mais sólida como um músico mais... sério, por assim dizer. Em um encontro meio despretensioso em um casamento em que Danny era amigo do casal, ambos não apenas cantam juntos no palco improvisado da festa - em um vídeo que viraliza -, como se juntam na mesma madrugada para uma sessão de maconha regada ao compartilhamento de trechos de músicas, fragmentos, letras espalhadas e refrãos diversos. Nada muito sério, ao menos até ali, que não fossem dois músicos bebendo e se divertindo.

Hábil na construção das cenas que envolvem a concepção musical - suas melodias, ritmos, composições -, o diretor John Carney, que tem uma longa tradição de filmes com temáticas sonoras, se alonga de forma confortável nesses instantes íntimos, de músicos dedilhando violões, mostrando trechos ou partituras e outros elementos que poderiam passar batido por quem não se liga tanto nesse campo. E é em um desses momentos que Rick mostra um pedacinho de How to Write a Song (Withou You), que tinha potencial para ser um hit e nunca foi, por essas vicissitudes da vida. Meses após, Rick está em um shopping center e tem a impressão de ouvir uma melodia bastante conhecida no rádio e que... parece bastante a música dele mesmo! Divertida e charmosa, a obra acerta por não vilanizar em excesso nenhum dos lados - talvez, assim como Shakira, Danny não tenha feito algo deliberado - não deixando de evidenciar como o desejo por fama pode fazer com que esqueçamos das coisas simples, ou daquilo que realmente importa. E, honestamente, não pensei que fosse concluir a sessão com lágrimas nos olhos. E aconteceu. Mérito de um projeto pequeno, que tem seu valor.

Nota: 7,5 

 

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Novidades em Streaming - 8 Décadas de Amor (8)

De: Julio Medem. Com Ana Rujas, Javier Rey, Alvaro Morte e Carla Díaz. Drama, Espanha, 2025, 126 minutos

Quando concluí a sessão de 8 Décadas de Amor (8), o mais recente projeto do espanhol Julio Medem e que está disponível na Reserva Imovision, resolvi, de curioso, revisitar a resenha escrita por mim para Os Amantes do Círculo Polar (1998) - talvez o filme do diretor mais querido pelo público cinéfilo. Na primeira frase do texto, a seguinte sentença: "Coincidências, acontecimentos aleatórios, situações inesperadas. O mundo que parece às vezes dar uma volta inteira pra retornar ao mesmo lugar" - e, verdade seja dita, não deixa de ser interessante perceber como essas ideias seguem em vigor, quase 30 anos depois, nas obras do realizador. Em 8 Décadas de Amor - uma generosidade de quem concedeu o título em português, porque o correto seria nomear o filme de 8 Décadas de ÓDIO -, um casal tem suas vidas atravessadas por mais de oitenta anos de conflitos políticos, sociais, culturais, religiosos. Que nunca parecem solucionados - especialmente quando se está em espectros ideológicos (por assim dizer) opostos.

O amor nos tempos do cólera pode ser bastante complicado, já diria Gabriel Garcia Marquez. Mas não é diferente do amor nos tempos de guerra - ainda mais no caso da Espanha que, após a proclamação da Segunda República veria o País entrar em uma dura guerra civil que, de forma muito resumida, culminaria na ascensão ao poder do general Francisco Franco, que governaria a nação com mão de ferro de 1939 à 1975 (em uma ditadura complexa e repleta de controvérsias). Na trama, os personagens centrais Adela (Ana Rujas) e Octavio (Javier Rey) nascem no mesmo dia 14 de abril de 1931, uma data bastante simbólica já que esta marca justamente a proclamação da Segunda República Espanhola. Em lados políticos opostos - ele de família abastada e militar (que se tornaria adepta do franquismo), ela filha de professor e de origem humilde -, ambos terão seus destinos cruzados ainda na infância, quando o pai de Adela, integrante de um grupo revolucionário, assassina o pai de Octavio, durante uma pescaria.

 


Aliás, a frase dita pelo pai de Octavio - "para pescar algo bom é preciso paciência e esperança" -, meio que funciona como uma guia mestra para a narrativa. Uma metáfora para a nossa própria existência, com suas vicissitudes, medos, incertezas, desejos, anseios, coisas que ficam pelo caminho e sonhos que se concretizam ou não. Em linhas gerais um projeto que poderia ser cansativo e até confuso, dada a grande quantidade de saltos temporais, acontecimentos e reviravoltas, nunca deixa a peteca cair. Um mérito que também envolve o belo aparato técnico, com seus longos planos sequência, fotografia que se alterna entre o preto e branco dessaturado do passado e as cores vivas quase almodovarianas do presente, e o desenho de produção que parece bastante adequado a cada década apresentada. Com saltos no tempo entre os anos 40 até a atualidade, as vidas de Adela e Octavio se mesclarão em meio às feridas da ditadura franquista, traumas familiares que se espalham, transformações políticas e suas consequências e arrependimentos no que diz respeito à decisões tomadas.

E vale comentar que é só na quarta parte, já na década de 70, que o casal de conhece verdadeiramente, ainda que suas vidas já tenham sido cruzadas antes. Ela, em um casamento meio de fachada com um militar machista, ensaia uma outra vida possível em um trecho que, simbolicamente, é marcado por um momento em que ela dirige livremente ao som de uma versão de Be My Baby, das Ronettes, após fugir da Igreja (o feminismo se espalha em tempos de minissaia como alegoria para a revolução sexual). Ele, também insatisfeito com os rumos da vida, tenta de toda a forma se desvencilhar do militarismo tão traumático (ele estava no pátio de arma em punho no dia do fuzilamento do pai de Adela, em mais uma das tantas coincidências) e da ideologia de extrema direita com pendor reacionário, que tanto devasta sua família (sua mãe, por exemplo, tem um treco quando o rádio anuncia a morte de Franco). E sempre que tentam seguir em frente, o destino parece aproximá-los - com direito a um filho juntos, que também terá sua vida afetada por disputas políticas dos anos 90, que alcançam até ambientes supostamente lúdicos, como os do futebol. A cena final, em um almoço de família que termina em uma longa (e até engraçada) discussão, é a cereja do bolo de uma produção que aponta que, quando o assunto é o debate político, talvez só mude o País. Ou a década. Ou o século. E assim será eternamente.

Nota: 7,5

 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Novidades em Streaming - Uma Infância Alemã (Amrum)

De: Fatih Akin. Com Jasper Billerbeck, Laura Tonke, Lisa Hagmeister e Diane Kruger. Drama, Alemanha, 2025, 93 minutos.

Existe um filme da diretora australiana Cate Shrotland chamado Lore (2012), que conta a história de uma adolescente criada nas entranhas da ideologia nazista e que precisa atravessar uma Alemanha devastada após a guerra, com seus irmãos mais novos à tiracolo. Naquela obra, a protagonista se vê obrigada a encarar o abismo entre o mundo em que ela foi obrigada a acreditar - seu pai, um oficial nazista, e sua mãe, fogem após a queda de Adolf Hitler - e a realidade que ela encontra pelo caminho. Especialmente após o surgimento de um misterioso judeu em fuga, pelo caminho. Em alguma medida, esse nazismo lateralizado, que surge menos como o espetáculo histórico visto em tantos clássicos do cinema, mas mais como uma presença que mina as relações familiares, o cotidiano, e mesmo a formação moral e ética das pessoas, reaparece no excelente e recém lançado para aluguel nas plataformas de streaming Uma Infância Alemã (Amrum).

Com um fiapo de história que quase alude ao cinema iraniano - o que distancia, aliás, o sempre versátil diretor Fatih Akin dos dramas intensos sobre identidade e pertencimento, como Contra a Parede (2004) ou Em Pedaços (2017); da comédia calorosa de Soul Kitchen (2009) e da brutalidade suja e quase insuportável de O Bar Luva Dourada (2019) -, aqui, acompanhamos o adolescente integrante da juventude hitlerista Nanning (o ótimo Jasper Billerbeck) em uma peregrinação particular, em busca de pão branco, manteiga e mel. Um conjunto alimentar difícil de ser encontrado - ainda mais na isolada aldeia de Amrum, na costa norte de Alemanha, em um contexto de escassez gerada pelo conflito -, mas que permitirá alimentar a sua severa e ideologicamente fanática mãe Hille (Laura Tonke), que acaba de dar à luz, mas que está em uma espécie de greve de fome pessoal desde que a morte do führer foi anunciada no rádio. Um luto que ela ela tem dificuldade em aceitar.

 


Em suas andanças, Nanning vaga pela ilha, atolando os pés em bancos de lama, costeando o litoral e percorrendo estradas de terra em encontros espaçados com vizinhos, tios e outras figuras adultas que lhe permitam acessar os ingredientes que atendam os anseios gastronômicos da mãe. Como o menino que realiza uma jornada solitária pelo Irã rural de Onde Fica a Casa de Meu Amigo (1987) de Abbas Kiarostami, aqui temos um jovem em conflito entre as crenças familiares que formarão sua identidade e o entorno tensionado por outros pontos de vista políticos, sociais e culturais. Sendo a vizinha Tessa (Diane Kruger), uma produtora de batatas para quem Nanning trabalha, a representante máxima desse ponto de vista divergente. "A maldita guerra de Hitler está finalmente acabando" brada ela ao se deparar com a passagem de um grupo de refugiados poloneses que margeia a sua horta. Para desespero de Hille, que denuncia a mulher para os militares.

Apostando na sutileza, Akin constroi uma obra de fluidez narrativa lenta, em que a temática é tratada com grande sensibilidade e sem excesso de maniqueísmo - a ponto de nos comovermos e até torcermos, em alguma medida, não pelo pequeno nazista em si, mas para que o mundo seja capaz de moldá-lo para que ele tenha uma atitude positiva em relação a ele (como, inclusive, parece desejar seu pai, em uma carta direcionada ao jovem, após a tomada de Berlim). Em contrapartida, Hille é a figura histriônica que verbaliza um patriotismo de araque e um orgulho da "linhagem" da família, que não faria feio nas fileiras dos bebedores de Ypê (aliás, quando o assunto é o extremismo de direta e o comportamento das famílias de bem só muda o País - ou o século). O auge do auge é a mulher reprimindo o menino choroso, com um "seja homem", seguido de um "perdemos a guerra por causa de fracos como você". Quando a gente vive em uma bolha - seja uma ilha no norte da Alemanha ou uma comunidade rural do interior do RS - talvez seja difícil olhar para além do que ocorre a um palmo do nariz. Ainda mais quando o processo educacional familiar se retroalimenta em humilhação, violência, autoritarismo patriarcal e repressão emocional. Isso sim capaz de produzir sujeitos particularmente vulneráveis (pra não dizer fracos) à lógica fascista. 

Nota: 8,5  


quinta-feira, 30 de julho de 2026

Pitaquinho Musical - Fresno (Carta de Adeus)

Um disco que parece olhar com bastante carinho para os fãs de longa data, até mesmo por apostar em um estilo de rock mais cru, direto e sem firulas. Assim parece ser Carta de Adeus, décimo primeiro registro de inéditas dos gaúchos da Fresno. Deixando meio que de lado o caráter eletrônico e até dançante que marcaria trabalhos recentes como Vou Ter que Me Virar (2021) - reforçado pelo uso dos sintetizadores -, a banda adota o modo "menos é mais". O que significa preservar as letras existencialistas, os refrãos pegajosos e a mistura de gêneros como hardcore, emo e jangle pop, com um resultado bastante orgânico e que vai direto ao ponto em uma nova coleção de canções nostálgicas, agridoces e contemplativas. Aliás, algumas delas, como Logo Agora Que o Meu Mundo Girou e Tudo que Você quer já se inserem no panteão das grandes músicas de Lucas Silveira e companhia.

 


Em termos conceituais, a banda explicou nos materiais de divulgação que o álbum gira em torno de perdas, encerramentos e transformações - sejam elas em relacionamentos, fases da vida ou versões de si mesmo. Nesse sentido, o "adeus" é usado como uma metáfora muito mais ampla para despedidas, encerramentos de ciclos e a consciência de que qualquer encontro pode ser o último. "Tu nunca sabe se tá dizendo adeus ou se tu vai morrer amanhã", imagina Silveira em entrevista ao Correio 24 Horas. Já a ideia das cartas permite verbalizar aquilo que talvez não conseguíssemos dizer em voz alta, em um processo que dialoga ainda com a maturidade da própria banda, que já ultrapassa as duas décadas de carreira. "Ah, não vou mais desconversar / Não vou mais desprometer / Não há tempo pra perder / Nem pra mim nem pra você" divaga o vocalista em O Cantor e o Taxista, que parte de uma experiência real em uma letra sobre o sofrimento e de como ele pode ser relativo, se comparado ao de outras pessoas. É só um dos grandes momentos do disco.

Nota: 8,5 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Picanha em Série - O Segredo de Widow's Bay (1ª Temporada)

De: Katie Dippold. Com Matthew Rhys, Kate O'Flynn, Stephen Root e Dale Dickey. Suspense / Comédia, EUA, 2026, 400 minutos (aproximadamente).

Vamos combinar que a plataforma da Apple TV tem sido imbatível no quesito séries de qualidade - e não é diferente com a divertida, tensa e hypada O Segredo de Widow's (Widow's Bay), que faz aquela mistura de terror com suspense, que tem funcionado como um subgênero bastante efetivo, na atualidade. Como se fosse uma mistura de Ilha do Medo (2010) e Twin Peaks (1990 - 1991) - especialmente pela atmosfera enevoada e que evoca uma sensação de isolamento, de paranoia e de dúvida a respeito do que é real, sobrenatural ou psicológico -, com algumas pitadas de The White Lotus (2021 -) e de filmes como Tubarão (1975), a produção nos apresenta ao carismático e atrapalhado Tom Loftis (Matthew Rhys), prefeito da pacata Widow's Bay, uma ilha da Nova Inglaterra, que pretende instituir uma política de incentivo ao turismo. O que envolve tentar impressionar um jornalista do The New York Times, que vai até o local para escrever uma reportagem sobre aquele pacato e peculiar espaço.

E, enfim, a intenção de Tom pode ser a melhor possível, mas o grande problema é que muitos dos moradores acreditam que a ilha seja amaldiçoada, especialmente pelo amplo histórico de tragédias passadas, com desaparecimentos, mortes e casos bizarros que, inclusive, estão evidenciados no museu local. O que garante, aliás, sequências engraçadas, como aquela em que o prefeito tenta, de todas as formas, acobertar uma matéria sobre canibalismo (sim), que teria ocorrido décadas atrás no local. Mesmo com toda a controvérsia e com a ilha, aparentemente, despertando para o mal - não fica claro de quanto em quanto tempo isso ocorre, mas, mais adiante, entenderemos que o começo da maldição tem a ver com o fundador da cidade, um certo Richard Warren (Hamish Linklater) -, a reportagem é publicada e os turistas começam a chegar à ilha. Ao mesmo tempo em que tem início eventos estranhos, como o toque inesperado do sino da Igreja, uma névoa constante que se avizinha e o surgimento de inesperadas assombrações.

 


Alternando momentos mais cômicos, com outros de horror - como no momento em que o prefeito tem uma espécie de alucinação com Willy The Clown (um palhaço macabro) -, a série aposta em eventos simples, cotidianos, que farão a série de dez episódios evoluir. Por exemplo, no segundo episódio, os moradores da ilha instigam Tom a passar uma noite em uma pousada supostamente assombrada, como forma de garantir, de fato, que não há problema algum no local. E que não há motivo para medo. Já no quarto episódio, a excêntrica secretária de Tom, Patricia (a ótima Kate O'Flynn), que jura de pé junto ter se salvado de seres sobrenaturais no passado, resolve planejar a festa perfeita, como forma de mostrar que ela é uma ótima anfitriã (a despeito de ser uma figura desajeitada, introspectiva, burocrática e sem nenhuma graça). O que envolverá a utilização de um estranho guia de autoajuda cheio de clichês sobre o tema que, mais para frente, perceberemos ter outra função.

Outro personagem importante na série é Wyck (Stephen Root) que parece estar sempre um passo a frente no que diz respeito à famosa história da cidade, o que o faz entrar em conflito com Tom - especialmente por achar que a ilha está se "movimentando" e que aquele não seria um bom momento para receber turistas. Com idas e vindas no tempo, inclusive com um episódio que retorna ao século 18, para mostrar como se originam às tormentas e quais os sacrifícios necessários para que os habitantes sobrevivam à entidade demoníaca que governa a ilha das profundezas, a série ainda reserva uma ótima surpresa para o último episódio da temporada, deixando um excelente gancho para uma segunda (que talvez nem precisasse existir, de tão bem encaixada). Atmosférica, desconfortável e cheia de figuras extravagantes, complexas, imperfeitas e moralmente ambíguas, O Segredo de Widow's Bay ainda adiciona algumas discussões laterais sobre patriarcado, capitalismo tardio e uso da religião como ferramenta de dominação. Conjunto que a torna uma das ótimas surpresas da temporada.

Nota: 8,5

 

Tesouros Cinéfilos - O Abrigo (Take Shelter)

De: Jeff Nichols. Com Michael Shannon, Jessica Chastain, Tova Stewart e Shea Whigham. Drama / Suspense, EUA, 2011, 121 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM ALGUNS SPOILERS] 

"Amor, não há tempestade lá fora. Eu não mentiria pra você. Nós te amamos". Em uma das mais assombrosas sequências do maravilhoso O Abrigo (Take Shelter), que retorna à Netflix e que vale ser revisitado, Samantha (Jessica Chastain) argumenta de forma calma, calorosa e empática com seu marido Curtis (Michael Shannon), que está passando por mais uma severa crise de esquizofrenia paranoica. A tempestade, naquele caso, tem boas chances de ser simbólica - uma alegoria forte, potente, para as angústias do homem, que passou basicamente as duas horas da produção formidavelmente conduzida por Jeff Nichols, construindo um abrigo subterrâneo que protegeria a ele e a sua família de algum tipo de mal que poderia vir dos céus. E que em sua cabeça é simbolizado por uma severa tempestade em que a chuva se apresenta viscosa, oleosa. É necessário proteger aqueles que se ama. A qualquer custo.

E vamos combinar que, se hoje em dia o suspense psicológico - aquele que trata muito menos de fantasmas ou de assombrações gratuitas e mais dos distúrbios da mente e de como eles afetam não apenas aqueles que sofrem das doenças, mas as pessoas do entorno - está em alta, vide excelentes produções como Backrooms: Um Não-Lugar (2026), há quinze anos filmes como esse ensaiavam debates não apenas sobre comportamentos obsessivos e compulsivos, mas também sobre como lidar com eles. Afinal de contas, uma pessoa com crises de ansiedade, transtornos obsessivos compulsivos, depressão ou bipolaridade podem estar ao nosso lado. Ou, muitas vezes, sermos nós mesmos, por óbvio. Nesse sentido, a produção de Nichols parece ser também sobre compreensão. Solidariedade. O que faz com que Samantha permaneça até o fim com Curtis. Sem jamais abandoná-lo, num gesto de amor.

 


Claro, não significa ser ONG de ninguém, mas saber reconhecer o problema e buscar uma solução. E há algo que nem todo mundo percebe, num primeiro momento, quando a "loucura" (no melhor sentido da palavra) de Curtis, aliás, na ótima interpretação de Shannon, tem início: ele não tem uma psiquiatra próxima, ao alcance. E que possa lhe conduzir para uma terapia efetiva, restando às conversas com uma psicóloga local - mais uma conselheira de saúde do que qualquer outra coisa. Em linhas gerais Curtis tem uma vida classe média normal, com um trabalho na construção civil que lhe garante um bom salário e um plano de saúde, uma boa casa com jardim nos arredores de Ohio, uma esposa carinhosa e uma filha pequena que, a despeito de um severo problema de audição, encontra nos pais o amor necessário para enfrentar um mundo que nem sempre foi feito para os ouvintes.

Só que tudo isso não impede Curtis de ter uma série de visões de eventos estranhos - nuvens negras e pássaros pretos ameaçadores nos céus -, além de sonhos em que violências em sequência ocorrem, provocadas por homens desconhecidos e até por seu amistoso cachorro (o que faz com que ele prenda o animal na rua). Como forma de canalizar o mal-estar generalizado, o protagonista resolve fazer uma ampla reforma numa casa de equipamentos mantida pela família, gastando um dinheiro que eles não possuem e ainda utilizando, de forma indevida, o maquinário da empresa em que ele atua. O que resultará em um afastamento gradual das pessoas - familiares como o irmão, ou amigos. A revelação de que a mãe de Curtis foi diagnosticada com esquizofrenia em sua juventude, adiciona um componente a respeito da herança genética dos transtornos, o que poderia explicar, em partes, o comportamento obsessivo do homem. Repleta de metáforas e de alegorias que aludem à sobrecarga dos tempos modernos, ao capitalismo tardio, às crises climáticas e a ansiedade generalizada como um todo, essa é uma experiência que deixa o final em aberto, ambíguo, e que respeita a inteligência do fã de cinema. Não há solução fácil. Mas talvez juntos, seja possível superar a dor.

 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Novidades em Streaming - Dia D (Disclosure Day)

De: Steven Spielberg. Com Emily Blunt, Josh O'Connor, Colin Firth e Colman Domingo. Ação / Suspense / Drama / Ficção Científica, EUA, 2026, 146 minutos.

Sabe quando você está vivendo o seu dia normalmente e um colega de trabalho, um familiar ou mesmo um amigo, empunhando um celular, te convida a assistir um vídeo - um conteúdo qualquer - que você tem a mais absoluta certeza que não te impactará, mas você aceita ver para não fazer a desfeita? E que quando o conteúdo é finalizado você fica com aquela cara de "legal, vai avisando qualquer coisa" porque o troço não te pegou de nenhuma maneira? Confesso a vocês que foi exatamente esse o meu sentimento assistindo ao tão falado Dia D (Disclosure Day), talvez um dos piores filmes já concebidos por Steven Spielberg - que, todos sabemos, tem uma carreira sólida e uma excelente reputação entre público e crítica. Só que é sério mesmo que o grande tema central desse retorno do diretor aos filmes de extraterrestres envolve uma teoria da conspiração requentada e que já foi tema de produções do próprio Spielberg no passado?

Quando iniciou o falatório sobre o filme, que estreia para aluguel no streaming nesta segunda-feira, com direito a conjurações envolvendo o próprio Spielberg e o retorno de uma conspiração estranha que volta e meia reaparece, de que o realizador teria tido acesso sem precedentes a arquivos confidenciais do governo (e que talvez até filmasse, pasme, com ETs de verdade), as plateias mundo afora ficaram em choque. E empolgadas com a possibilidade de poder rever um Spielberg ativo, e próximo dos 80 anos, revivendo os anos de ouro do cinema de Objetos Voadores Não Identificados (OVNIs), e que entregou ao mundo clássicos como Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977), ET: O Extraterrestre (1982) e Guerra dos Mundos (2005). Só que o resultado geral alcança o auge do cringismo na sequência em que takes variados da população paralisada diante das telas (ou monitores de TV) reagindo às supostas imagens chocantes de seres de outro planeta são, enfim, depois de mais de duas cansativas horas de perseguições genéricas e de uma salada de roteiro mal engendrada, reveladas.

 


É sério mesmo que, em um mundo em que teorias da conspiração à moda chip chinês na vacina são meio que uma tarde de terça-feira qualquer do incel médio que se alimenta todos os dias de 4Chan, de Cheetos e de Coca Cola, devemos nos animar com a reativação dessa história de décadas atrás, que mais parece saída de um filme de espionagem e de ação que ficou meio perdido entre as décadas de 80 e 90? E que talvez também combinasse mais com o Spielberg de outrora, que ainda acredita que as grandes revelações do planeta serão televisionadas? Talvez os doidinhos de bairro loucos pra farmar seus canais com listas ao estilo "10 Sinais de que Spielberg acessou arquivos secretos da FBI (o sétimo é inacreditável)" talvez se animem com a história toda mas, no meu caso, eu só consegui sentir foi tédio. Vamos ver o novo filme do Spielberg? Sim, claro. Mas a minha reação ao final foi como se tivesse assistido ao pior videozinho do perfil de gosto duvidoso do amigo que te estende o celular e que jurava que tu ia gostar do conteúdo daquele humorista de stand up que finge neutralidade, mas que se destaca em um nicho bem específico (o dos reacionários de extrema direita que verbalizam todos os tipos de preconceitos por metro quadrado).

Não bastasse a frustração pelo ponto central da obra ser a mais batida das histórias de conspiração que se tem conhecimento e que, em geral, não acrescenta nada de novo, ainda vivi uma sensação meio vazia no transcorrer, enquanto acompanhava a movimentação daqueles sujeitos. Sujeitos, aliás, que não poderíamos nos importar menos, já que eles não têm história, não têm passado, não têm família, não comem e não dormem. E, como se desgraça pouca não fosse bobagem, essa é uma obra que, enquanto coloca no micro-ondas o tema dos segredos de Estado governamentais da terra do Tio Sam - que esconderia informações preciosas e relevantes da população durante décadas de presidentes republicanos e democratas (por que, né, nem esquerda nem direita) -, ainda reaproveita, como se ainda vivêssemos os anos de Guerra Fria e de corridas tecnológicas, narrativas paranoicas sobre ameaças comunistas (com citações à Rússia, à Coreia do Norte e até à crise dos mísseis em Cuba sendo resgatada como um paralelo com os tempos confusos que vivemos). "Não tenha medo do que você não conhece", lembra o especialista em cibersegurança Daniel Kellner (Josh O'Connor), em certa altura, como parte de um conjunto de revelações. O problema é que a gente conhece esse modus operandi do imperialismo até demais - e por isso o tememos.

 

 

Kellner é o sujeito que trabalha em uma corporação ligada ao Governo - seu nome é Wardex - e que rouba não apenas documentos e discos rígidos com revelações bombásticas que remontam ao famoso incidente de Roswell, ocorrido na década de 40, como também furta um dispositivo extraterrestre da instalação - dispositivo este, que permite comunicação telepática e outras habilidades psíquicas (inclusive com animais) e que nem sempre são simples de compreender. Sua história se cruzará, mais adiante, com a da apresentadora de TV Margaret (Emily Blunt), que também passa a ser perseguida após viralizar um vídeo em que ela fala uma língua estranhíssima ao vivo - o que fará com que a Wardex desconfie de suas habilidades de comunicação extraterrestres. Durante duas horas integrantes da tal companhia, liderados pela pouco convincente figura do CEO Noah (Colin Firth, canastríssimo), tentarão de forma remota localizar a dupla. O que resultará em algumas das mais repetitivas perseguições do cinema moderno. Enquanto os mocinhos tentam encontrar Hugo (Colman Domingo), outro desertor da companhia, um sem fim de discussões pouco aprofundadas sobre conspirações corporativas, papel da Igreja nas dinâmicas de poder, uso da tecnologia para fins escusos e crises políticas da modernidade (vem aí a terceira guerra, viu?) se intercalarão, em uma experiência que, sinceramente, nunca decola. É um filme que roda em torno de si e que sequer tem graça ou charme - e até as tentativas de humor são furadas (como na cena em que há uma longa tentativa de "atropelamento" de um celular). Eu juro que abri o vídeo do amigo Spielberg achando que vinha coisa boa. Mas talvez eu só tenha virado o tiozão que desconfia que tudo é IA e que tem pouco saco pra acreditar que algo do tipo faria o mundo parar. Provavelmente no mercadinho da esquina só se falaria de outra coisa.

Nota: 2,5 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Tesouros Cinéfilos - A.I. Inteligência Artificial (Artificial Intelligence: AI)

De: Steven Spielberg. Com Haley Joel Osment, Jude Law, Frances O'Connor, Sam Robard e Brendan Gleeson. Ficção Científica / Drama / Aventura, EUA / Reino Unido, 2001, 146 minutos.

Em que momento uma máquina deixa de ser apenas uma mera ferramenta utilitária e passa a ser "alguém" digno de consideração? Como seres de carne, osso e alma, seremos capazes de amar um robô, um equipamento eletrônico, um aplicativo? Ou esse é um tipo de sentimento possível apenas entre humanos ou, vá lá, animais? Vamos combinar que, no mundo das artes, esse tipo de pergunta não chega a ser exatamente uma novidade e há um sem fim de obras - filmes, livros, quadrinhos e peças de teatro -, que versam sobre o assunto, sendo alguns bastante conhecidos do público, como Blade Runner (1982) ou Ela (2013). E, enquanto reassistia ao clássico A.I Inteligência Artificial (Artificial Intelligence: AI), de Steven Spielberg, que completa 25 anos de lançamento em setembro, só conseguia pensar naquele meme sobre máquinas dominando o mundo, mas poupando todos aqueles que teriam sido gentis, educados e empáticos com o ChatGPT. Obrigado, GPT, você foi foda!

Afinal de contas, robôs tendo carinho por seres humanos não parece algo impossível de se imaginar - talvez seja só executar o prompt correto para que os sistemas sejam capazes de responder às emoções humanas de forma mais eficiente possível. Sim, atualmente o Black Mirror nem parece mais fazer tanto sentido, em um mundo em que as pessoas utilizam ferramentas online para consultas psicológicas, empresariais ou mesmo como parceiros amorosos (ou sexuais). Bom, no campo conhecido como "computação afetiva" não são poucos os estudos que possibilitam aos robôs identificarem expressões faciais, adaptar a conversa de acordo com o estado emocional da pessoa ou mesmo inferir se o sujeito está triste, irritado, ansioso ou feliz. Se enfiar a voz da Scarlett Johansson lá no meio certamente está feito o estrago e, bom, as máquinas não têm consciência, mas nós temos. E os limites parecem borrados, entre o otimismo e o ceticismo científico.

 


Na obra de Spielberg - que pegou o bonde andando das mãos de Stanley Kubrick -, a cena mais comovente da trama envolve o instante em que Monica (Frances O'Connor), simplesmente abandona David (Haley Joel Osment) no meio do mato, após um evento traumático quase desencadear a morte do filho real dela, Martin (Jake Thomas), afogado em uma piscina. Com uma doença severa e em processo lento de recuperação, não parecia haver muito otimismo quanto à recuperação de Martin. O que faz com que o marido de Monica, Henry (Sam Robards) aceite levar para casa um protótipo moderníssimo de robô - chamado de Meca - como forma de substituir o menino. Que, contra todos os prognósticos melhora, volta pra casa, e inicia uma disputa particular com o irmão humanoide. Na queda de braço, Martin leva a melhor, restando a David o mato. Enquanto ele suplica aos berros para Monica de que ele "pode ser real". Aliás, o "desculpe por não ser real" é a frase mais trágica dita pelo menino, que se vê em um lixão da indústria Cybertronics, que desenvolve os modelos eletrônicos.

Em uma segunda parte bastante movimentada em um submundo cyberpunk decadente, após o aquecimento global meio que destruir parte do mundo - uma realidade que ainda não tínhamos a dimensão até aquele momento -, David faz amizade, de forma meio aleatória, com o charmoso robô Joe (Jude Law), que funciona como um gigolô destinado à satisfação de mulheres solitárias. Após uma pequena temporada em uma espécie de circo itinerante em que uma multidão bastante agitada se reúne para assistir a destruição em massa de robôs desgarrados e inutilizados (um tipo de evento histriônico que talvez tivesse tração entre a extrema direita interessada em oprimir qualquer tipo de minoria, em uma alegoria óbvia), David e Joe conseguem escapar. Dando início a uma saga que visa encontrar a Fada Azul - sim, ela mesma, a dos livros do Pinóquio -, que lhe permitiria consolidar o desejo de ser um menino de carne e osso. E, portanto, digno do amor de Monica.

 

 

Com ótimo desenho de produção, efeitos especiais e trilha sonora, AI: Inteligência Artificial segue sendo uma obra ao mesmo tempo contemplativa e movimentada, que permite uma série de reflexões a respeito dos caminhos da tecnologia e de quais os limites éticos ou morais ligados ao tema. Seremos capazes de, no futuro, reproduzir a arquitetura de nossos cérebros de forma perfeita para que as emoções emerjam de robôs da forma mais natural possível? Ou emoções genuínas dependem muito mais da biologia, da coisa orgânica ou da consciência humana? Enquanto assistia ao terço final da produção - e me comovia profundamente com o último dia na Terra de David e Monica, em um dos finais mais emocionantes do milênio - refletia brevemente sobre a nossa experiência nesse plano. E de como, em tempos em que as nossas relações parecem cada vez mais mediadas por máquinas, esse ideal não pareça nada distante da realidade. Aliás, ele já está aí e talvez seja importante ser educado com o ChatGPT. Nunca se sabe. 

terça-feira, 21 de julho de 2026

Pitaquinho Musical - Iceage (For Love of Grace & the Hereafter)

Quem acompanha a carreira do Iceage sabe que, melodicamente, conforme os discos iam sendo entregues ao público, pouco restaria da crueza punk e urgente dos inaugurais New Brigade (2011) e You're Nothing (2013), que comoveriam a crítica do começo da década passada, alçando-os ao cargo de mais nova salvação do rock, com elogios da Pitchfork e um certo encantamento frente a atitude um tanto anarquista do vocalista Elias Rønnenfelt e seus asseclas. E, bom, não é novidade que todos nós amadurecemos e o polimento percebido a cada novo registro talvez tenha também a ver com isso - ainda que parte do público esteja saudando For Love of Grace & the Hereafter, o sexto álbum de inéditas dos dinamarqueses, como uma espécie de retorno às origens. E, sinceramente, não é, dadas as diferenças entre o caráter sombrio, sujo e soturno de inferninho garageiro dos primeiros trabalhos, em comparação com a energia primaveril e até mesmo comercial dos últimos. 

 


Em suma, o que antes era peso, caos e estranhamento, agora é refino, esmero e melodia. Sim, segue sendo a mesma banda de sempre, mas se canções como White Rune ou Rotting Heights, do primeiro álbum, pareciam saídas de alguma catacumba, músicas como Star ou Lifetime, de For Love... são tão palatáveis, que não fariam feio em algum disco de alguma banda hardcore comercial dos anos 90, como, sei lá, o Rancid. Repleto de ótimas canções em que divagações existenciais se alternam com temas sobre a complexidade dos relacionamentos e mesmo dilemas dos tempos modernos, o disco consegue ser sedutor e cheio de personalidade, com sua mescla de pós punk, indie e jangle pop alcançando seu auge nas ótimas Ember e The Weak - esta última a respeito do sentimento de resignação e até de desconexão que vivemos, em tempos em que a impressão que dá é a de que gastamos energia à toa (Sabes que esta cidade é uma guilhotina / Toda uma cidade de esperanças e sonhos decepados). Canetada!

Nota: 8,5 

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Novidades em Streaming - Backrooms: Um Não-Lugar (Backrooms)

De: Kane Parsons. Com Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Lukita Maxwell e Mark Duplass. Ficção Científica / Suspense, EUA, 2026, 110 minutos.

Vamos combinar que quando pensamos em memórias, sejam elas afetivas ou não, talvez nem sempre elas decorram de grandes acontecimentos. Muitas vezes aquilo que nos marca pode estar relacionado a fragmentos menores de fatos rotineiros que, por vezes, ressurgem como borrões em uma espécie de limbo em que nem tudo é claro ou evidente. Quem nunca passou por uma antiga casa de infância ou bairro em que viveu na juventude que simplesmente parecia maior - com outra geografia, outra dimensão, outra noção de espaço - quando era criança e que, hoje, parece resultar outra? E, mais, que sonhos teríamos tido nós naquele passado que, agora adultos, foram concretizados ou soterrados? Quais os traumas que carregamos? As dores? Os medos? Qual a bagagem que nos forma? De que forma nossas famílias, o ambiente e a sociedade nos moldam? Sim, parece um excesso meio filosófico para um filme pequeno, mas o caso é que todos esses temas parecem dialogar, em alguma medida, com o excelente Backrooms: Um Não-Lugar (Backrooms), que chega para aluguel na plataforma da Amazon.

Por sinal, não são apenas esses assuntos que possibilitam essas divagações existencialistas que orbitam a obra, mas também outros, relacionados à mídia, às corporações e ao capitalismo tardio. Sem que tudo soe apenas como uma grande salada de referências, tendo algum sentido genuíno em um momento em que um certo mal-estar generalizado à moda Byung-Chul Han atravessa a humanidade. Em alguma medida, a obra concebida pelo jovem Kane Parsons - um youtuber de apenas 20 anos, que teve grande projeção com os seus vídeos tão experimentais quanto inventivos, compartilhados na plataforma - parece uma mescla de Ruptura (2022 -), com Quero Ser John Malkovich (2000) e algumas pitadas da obra cult Cubo (1997), de Silent Hill (o game) e até da série Twin Peaks (1990 - 1991), especialmente o estranhamento surrealista desta última, que se amplia com a ótima trilha sonora. Ao cabo, o que se tem aqui é uma experiência de sensações - de medos inconscientes, de traumas familiares e de memórias doloridas que parecem retornar infinitamente para nos assombrar. Sim, no fundo há um filme. Mas também há um desconforto generalizado. Que burla os limites do mero cinema de suspense, com seus óbvios jump scares.

 


Na trama que se passa nos anos 90, o protagonista Clark (Chiwetel Ejiofor) é um arquiteto que nunca conseguiu se realizar em sua profissão, e que ocupa seus dias como gerente de uma loja de móveis que funciona em um amplo - e naturalmente opressivo - galpão. Enquanto precisa lidar com a decadência dos seus negócios, o que o força a produzir vídeos de propaganda constrangedores em que se veste de pirata (o mascote do empreendimento) em uma década pré-viralização, ele ainda luta para superar o alcoolismo, que resultou em um divórcio recente. O que faz com que ele procure ajuda da terapeuta Mary Kline (a ótima Renate Reinsve) que, mais adiante, também descobriremos ter os seus esqueletos no armário - resultado de um relacionamento conturbado com a sua mãe ultraprotetora e agorafóbica, que sequer deixava ela olhar para a rua quando criança (que dirá sair de casa).

Sem um lugar oficial para habitar, Clark opta por meio que morar na loja - há ali camas, televisão e outros objetos que possibilitam improvisar uma casa -, mas ele estranha o fato de a conta de luz parecer muito acima do valor. E quando ele chama um eletricista para verificar a chave geral, ele não apenas percebe a existência de um disjuntor sem muita função na caixa, como, mais adiante, após uma queda de energia repentina, constata um feixe de luz meio inexplicável, na parede. E que lhe possibilitará adentrar uma espécie de portal - um outro plano, um não lugar (como no subtítulo) infinito, como num tipo de pesadelo arquitetônico de Jorge Luís Borges, em que cadeiras e moveis se espalham de forma aleatória, galerias se alternam com espaços minúsculos e portinholas levam a cenários que parecem saídos de algum quadro de Salvador Dali (com estofados ou calçados enterrados pela metade, destroços de mobiliários aleatórios e roupas velhas e sujas pelos cantos). Fora as luzes piscantes e os zumbidos e barulhos diluídos e constantes.

 

 

Nesse enorme labirinto sem fim a pior surpresa é sempre a próxima e, em uma chamada telefônica, Clark alerta Mary para o fato de que está preso para sempre no local - em uma alegoria quase óbvia para os transtornos mentais e de como eles mexem com nosso inconsciente, de forma a dificilmente fazer com que nos libertemos deles (sem um bom acompanhamento, por óbvio). Excêntrica, bizarra e surpreendente a produção ainda tem fotografia e desenho de produção impecáveis - e, a menos que o pessoal da Academia esteja hibernando em um sono profundo, ambas deverão ser lembradas entre as indicadas em sua categoria no Oscar. Ao cabo, trata-se de uma obra bem ao estilo da A24 e desse onda de novos realizadores que, se não reinventam a roda, adicionam uma série de camadas complexas para assuntos já tão batidos em outros suspenses psicológicos. Crescer emocionalmente pode ser complicado por demais, ainda mais quando precisamos lidar com lembranças, perdas e um sentimento de paralisia que não nos deixa evoluir. Que uma obra tão honesta e tão bem feita nos permita pensar de forma adulta a respeito de tudo isso, é um grande mérito.

Nota: 9,0 

Pitaquinho Musical - Íris da Selva (Íris da Selva)

Discos como o homônimo lançado pela artista trans paraense Íris da Selva nos permitem perceber que ainda há tempo para se apaixonar pela MPB da moda de viola e da flauta, que une o rural e o urbano para falar de noites enluaradas, fitas de pipa que "beijam o sol", crianças que brincam nas ruas - algo que pode soar inocente e o puro, mas também visceral e político, ainda mais se investigarmos para além das melodias primaveris, bucólicas e contemplativas que regem o trabalho. Como é o caso, por exemplo, na sutil poética Tratado de Paz, que aborda corpo e identidade de gênero (Íris se apresenta como não-binária), em uma letra sobre autoaceitação e busca por identidade (Será difícil entender / Que eu não quero parecer / Com mais ninguém além de mim? / Será difícil aceitar / Não sou moça nem rapaz / Sou meu tratado de paz).

 


Já a singela Domingo de Tarde tem letra entre o esperançoso e o melancólico, trazendo o carimbó como um gênero que, aqui e ali, se espalha pelo registro, unido a outros como o folk e o rock rural. Ao cabo, como nos próprios materiais de divulgação da artista, são "canções que carregam a sensibilidade e a força das encantarias das águas em sua poética musical. A espiritualidade é seu elemento condutor e suas composições procuram descortinar o dia a dia , na busca de apresentar ao mundo sua percepção das delicadezas e entrelinhas da vida". Em tempos em que vida parece tão corrida, apressada, tecnológica, em que tudo parece "pra ontem", poder buscar a calma para apreciar um registro que olha para o íntimo mas sem soar piegas ou sem personalidade é algo a ser reconhecido. Íris consegue essa beleza no simples. Como fica evidente em Um Lugar Pra Ir, Bem e Algo Tão Doce.

Nota: 9,0