segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Novidades em Streaming - F1: O Filme (F1: The Movie)

De: Joseph Kosinski. Com Brad Pitt, Damson Idris, Javier Barden e Kerry Condon. Ação / Drama, EUA, 2025, 155 minutos.

F1: O Filme (F1: The Movie) ou "como fazer os republicanos voltarem a gostar de cinema". Sério, fazia tempo que eu não assistia a algo tão brega - e tão bocejante - quando essa obra do diretor Joseph Kosinski, indicada ao Oscar. Em geral não tenho problemas com esses filmes à moda soft power estadunidense meio anos 90, com aquela energia Make America Great Again, mas vamos combinar que a história do veterano disfuncional e errático que nunca deu certo em lugar algum, que retorna para uma jornada redentora já nos deixa cansados só de pensar. A gente já viu essa trama umas duzentas vezes e o próprio Kosinski conseguiu fazer uma obra nesse formato mas que ao menos tinha coração (ou alma), que foi o caso de Top Gun: Maverick (2022). Aqui, é lugar comum em cima de lugar comum, com clichês como o do iminente aposentado que entra num embate com o novato, da mulher de meia idade que já não tá casada porque investiu na carreira ou dos chefões que perderão uma puta grana meu, se a coisa não for revertida.

E, veja bem, minha percepção poderia estar enviesada até mesmo por não gostar de automobilismo - o que não me impediu de apreciar demais produções como Rush: No Limite da Emoção (2013) ou Ford vs Ferrari (2019). Mas ver os personagens de Brat Pitt - o piloto da velha guarda que nunca aconteceu Sonny Hayes - e Damson Idris - Joshua Pearce, companheiro de Sonny na equipe APXGP, um aprendiz impetuoso e destemido que pode ser a nova promessa da Fórmula 1 -, disputando quem será o piloto principal em uma corrida decisiva em uma partida de pôquer foi demais pra mim. Na terceira ponta dessa mesa aleatória de Texas Hold'Em, de sujeitos que nunca gostam de perder e que provavelmente acreditam muito na meritocracia, está a diretora técnica da equipe de construtores Kate McKenna (Kerry Condon) porque, bom, porque é conveniente colocar uma mulher nesse papel porque já mata dois coelhos numa cajadada: faz um levíssimo aceno às questões de gênero, ao passo que permite que ela se torna o futuro par romântico (ou algo que o valha) de Sonny. 

 


Durante as duas horas e meia (sim, pra quê?) do filme, ocorre um sem fim de cenas de corrida, com closes dos rostos dos pilotos, na ideia de conferir alguma emoção a mais (só que não). A estas, se somam sequências de tensão total da equipe nos boxes porque, como não poderia deixar de ser em um projeto do tipo, Sonny, que é convidado pelo dono Rubén Cervantes (Javier Barden) para tentar salvar a equipe da falência, é o sujeito mais imprevisível do planeta. Sabe o ousado meio burro, truculento, tosco, que acha que vai vencer na marra? É mais ou menos ele. Mesmo sem pilotar um carro de Fórmula 1 desde os anos 90 - pra deixar a coisa ainda mais sem sentido -, Rubén acredita que Sonny possa ser a salvação da lavoura na reta final da temporada, que conta com investidores insatisfeitos e um futuro incerto. Como um senhor próximo dos 60 anos, mas que se comporta como um adolescente tardio, o personagem de Brad Pitt participa de apresentações aleatórias, como na Nascar ou outras categorias de baixo, o que lhe permite pagar as contas e manter algum tipo de prestígio.

Mas é claro que a chegada do sujeito à APXGP vai bagunçar a coisa toda. E provocar um certo caos. Ainda mais quando, durante uma corrida, Sonny não aceita ceder a sua posição para o promissor Joshua. Mais do que isso, ele resolve patifar praticamente toda e qualquer corrida - obrigando as entradas aleatórias do safety car - que, mais adiante, surgirão como a surpreendente estratégia do protagonista para tentar, pelo menos, chegar em algum momento entre os 10 primeiros. Sim, uma coisa meio Dick Vigarista sem talento. Com trilha invasiva, fotografia saturada, narrador de autódromo estilo Rock and Roll Racing e personagens sem muita personalidade e profundidade - o que se sabe de Sonny é que ele é um falido em todos os sentidos -, a obra se arrasta até que aconteça aquilo que todo o mundo sabe que vai acontecer no final. E que servirá direitinho para que a galera legendária do Café com Deus Pai, que assiste canais de Youtube de coachs financeiros de gosto duvidoso, que beta desenfreadamente no campeonato local e que acredita que o comunismo vai ser implantado no País em 72 horas, saia feliz da sala de cinema. Acreditando que, se persistir, vai vencer na vida. 

Nota: 2,5 

 

Novidades em Streaming - O Último Azul

De: Gabriel Mascaro. Com Denise Weinberg, Rodrigo Santoro e Miriam Socarras. Ficção Científica / Drama / Fantasia / Aventura, Brasil / México / Chile / Holanda, 2025, 87 minutos.

Talvez um pouco menos político ou panfletário do que no anterior (e ótimo) Divino Amor (2019), mas igualmente relevante em seu exame um tanto niilista de uma sociedade cheia de contradições, em que defensores da família tradicional brasileira poderão incorrer em apoio a políticas que, justamente, ignoram a pluralidade desse tipo de estrutura de parentesco. Aqui, a trama lembra um pouco o ainda não muito conhecido livro nacional Velhos Demais Para Morrer (2020), de Vinícius Neves Mariano, sobre uma sociedade que entra em colapso econômico após os idosos se tornarem a maioria da população. O que os obriga a fugir, para tentar burlar o seu destino. Em O Último Azul, o tema do etarismo também está no centro, em uma distopia semelhante à de Mariano, com os velhos sendo enviados a uma espécie de colônia comandada pelo governo, sob a desculpa de dar a eles uma velhice digna.

Nas aparências, as intenções do Estado parecem boas. Os empregados que conduzem os idosos se portam de forma gentil, a ponto de concederem distinções aos aposentados que alcançam a idade limite - e não deixa de ser excentricamente divertido ver Tereza (a ótima Denise Weinberg), chegando em casa depois de um dia de trabalho no frigorífico, se deparando com empregados do governo colocando uma espécie de coroa de louros banhada a ouro na fachada da modesta habitação da protagonista. Sim, isso pode sugerir algo simpático - "a senhora agora é um patrimônio vivo nacional", aponta a jovem que gruda a distinção. Mas não deixa de ser uma espécie de marcador que lembrará a todos a sua volta de que, ali, naquela casinha, reside uma velha. Que já deveria ter ido pra tal da colônia. Com tudo piorando quando Tereza se dá conta de que já deveria ter se aposentado de forma oficial há dois anos - ela está com 77 e a idade limite é 75.

 


Com receio, em um cenário de incerteza, Tereza, tenta buscar mais informações - sendo barrada em qualquer tentativa de deslocamento. "Sabotar a atividade produtiva nacional é crime grave", lhe lembra outro burocrata. A protagonista queria ainda fazer muita coisa - como por exemplo, voar de avião, algo que nunca teve oportunidade. Mas o simples ato de comprar uma passagem se torna pesaroso. Há a necessidade de aval de algum familiar - sendo a pessoa mais próxima a preocupadíssima filha Joana (Clarissa Pinheiro) que, pelo visto, não vê a hora de a velha ir pra Colônia. Sem muita alternativa, Tereza resolve desviar de sua rota. Pegando um barquinho para a pequena Itaquatioca, momento em que ela estabelece amizade com o enigmático barqueiro Cadu (Rodrigo Santoro), que lhe apresentará alguns mistérios da natureza profunda, como a existência de uma espécie de caracol mágico, capaz de revelar o futuro a quem tiver contato com a sua gosma. 

Nesse ponto, a obra também difere de Divino Amor, por apostar em elementos que unem o bucólico e o onírico como forma de dar andamento às ações mundanas. O que é reforçado por um desenho de produção de beleza naturalista e caótica em igual medida - como no momento em que a dupla passa por uma espécie de "cemitério" de pneus que fica na taipa do riacho -, e por uma trilha sonora de tintas envolventes. Simples, curiosa e divertida, a produção, que venceu o Grande Prêmio do Júri no mais recente Festival de Berlim e que chega à Netflix, expõe a insatisfação da população em geral com o afastamento obrigatório de seus familiares - "devolvam o meu avô", "gente velha não é mercadoria" dizem pixações nas paredes -, reservando para o terço final uma surpresa a respeito dos caminhos possíveis para driblar as imposições do Estado. Ao fim e ao cabo, os caminhos envolvem poder, religião e um ímpeto para a engambelação. Mas sem abrir mão do afeto. Nada mais Brasil real do que isso.

Nota: 8,5