De: Gus Van Sant. Com Bill Skarsgard, Dacre Montgomery, Colman Domingo, Al Pacino e Myha'la. Policial / Suspense, EUA, 2026, 106 minutos.
Vamos combinar que filmes sobre pessoas confinadas em um mesmo lugar podem facilmente se tornar entediantes, se não forem capazes de criar um senso de movimento frente ao cenário restrito. E, justiça seja feita à Refém Por Um Fio (Dead Man's Wire), mais recente produção do versátil diretor Gus Van Sant e que está em cartaz nos cinemas do País, que consegue manter a atenção do espectador, mesmo que o fiapo de história (real, aliás) verse sobre um sujeito revoltado que resolve sequestrar, mantendo como refém, o filho do CEO de uma empresa de crédito hipotecário que lhe teria gerado uma dívida milionária, após a compra de um terreno. Em tempos de crítica ao capitalismo tardio e a sua sanha selvagem de enriquecimento ilícito de poucos, o pleito de Tony Kiritsis (Bill Skarsgard) parece até justo. Ainda que a sua atitude extrema envolva um carnaval quase ao estilo do clássico Um Dia de Cão (1972).
Sim, porque para Kiritsis não basta apenas o perdão da dívida, já que ele resolve mobilizar uma série de canais de TV locais para uma retratação pública por ter sido enganado. Ele exige um pedido de desculpas em rede nacional - algo que ele repete, e repete e repete, mesmo quando acordos entre as partes são ensaiados, em meio ao contexto caótico. Como forma de nunca perder o controle em seu determinado objetivo, Kiritsis utiliza uma espécie de espingarda de cano cerrado acoplada à cabeça do jovem Richard Hall (Dacre Montgomery), que vira uma espécie de bode expiatório da coisa toda, já que seu pai M. L. Hall (Al Pacino), encontra-se no calor da Flórida, de férias, e portanto bem distante de Indianápolis. Estamos no mês de fevereiro de 1977, em um País que ainda se recuperava da tensão da Guerra do Vietnã e dos escândalos relacionados ao governo Nixon, que certamente abalaram à moral do estadunidense médio em sua busca pelo "sonho americano".
No caso de Kiritsis, o sonho era uma grande área de terras de sete hectares, em que ele pretendia investir em um centro comercial. O aporte de US$ 3 milhões feito pelo protagonista logo vira um pesadelo conforme as dívidas se acumulam - ele exige o perdão do valor atrasado há quatro anos, enquanto mantém a cabeça de Richard atada ao engenhoso sistema, que pode levar a um disparo acidental caso as coisas saiam do controle. Dada a tensão da coisa toda, o protagonista negocia com a polícia uma forma de sair do prédio da Meridian Mortgage, o que envolve o furto de uma viatura que levará a dupla até a casa de Kiritsis. Lá, como se enfiado dentro de um bunker particular, ele segue no seu intento. Como precaução, ele enche o próprio apartamento de explosivos, exigindo também a evacuação completa dos demais moradores.
E, bom, comentei no começo da resenha sobre movimento em um filme do gênero e, por mais que permaneçamos praticamente uma hora com a dupla dentro de seu apartamento, a real é que a coisa nunca se torna cansativa - até mesmo pelo carisma do protagonista, que parece ser bem relacionado não apenas com a polícia local (ele conhece os agentes, os chama pelos nomes), como também com a imprensa, aqui representada pelo radialista Fred Templo (Colman Domingo), com sua voz aveludada na hora de trazer as notícia do dia. Além dele, acompanhamos a jovem repórter Linda Page (Myha'la), que vê na matéria uma oportunidade de sair do tédio. Com ótima trilha sonora e filmado em um estilo setentista dessaturado, com imagens que parecem extraídas de arquivo, a produção tem uma cara meio documental, reforçada pelo caráter espetacular da coisa toda. E não é demais pensar que se algo assim ocorresse nos dias de hoje, seria motivo para um dia inteiro de farmação de views de criadores de conteúdo ansiosos pelos próximos cliques. Não é o melhor do Gus Van Sant? Certamente não. Mas dá pra se divertir bem aqui.
Nota: 7,5

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