terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Cinema - Foi Apenas Um Acidente (Yek Tasadef Sadeh)

De: Jafar Panahi. Com Vahid Mobasseri, Ebrahim Azizi, Mariam Afshari e Mohammad Ali Elyasmehr. Drama / Comédia, Irã / França / Luxemburgo, 2025, 103 minutos.

Quando a gente assiste a um filme como Foi Apenas Um Acidente (Yek Tasadef Sadeh), é meio que impossível não associá-lo à situação vivida pelo próprio diretor da obra, o iraniano Jafar Panahi. Perseguido pelo governo há quase duas décadas por atividades supostamente subversivas - com o seu cinema provocativo sendo veículo para críticas ao regime em vigor no País -, o realizador tem empreendido verdadeiros calvários para concluir cada um de seus projetos. E para tentar driblar a censura e as barreiras impostas pelos aiatolás e seu conservadorismo atroz. De histórias mirabolantes, como a do envio de uma cópia de Isso Não É Um Filme (2011), para o Festival de Cannes, em um pendrive escondido em um bolo, ao uso de metáforas e de metalinguagem em Sem Ursos (2022), suas produções têm sido um símbolo de resistência e de enfrentamento, enfim, um engenhoso exercício criativo em meio à proibição.

E talvez por isso, mesmo filmes que não pareçam assim tão inspiradores como este, que está em cartaz nas salas do Brasil e deverá ser figurinha certa na próxima edição do Oscar, faz com que passemos pano para as eventuais imperfeições. Afinal, frente a um cenário de ameaças - Panahi chegou a ser preso em 2022, passando sete meses encarcerado, sendo libertado após uma greve de fome -, uma obra que é uma alegoria para o medo e de como agir quando o algoz é confrontado, é, enfim, um ato de coragem. Na trama, o mecânico de automóveis Vahid (Vahid Mobasseri) é surpreendido pela chegada à oficina mecânica em que trabalha de um certo Eghbal (Ebrahim Azizi), sujeito que, no passado, teria lhe torturado por conta de diferenças étnicas em um flagrante caso de xenofobia. Vahid identifica o sujeito pelo barulho característico da perna mecânica de seu algoz, que perambula pelo ambiente acompanhado da esposa e da filha, após um acidente em que atropelam um cachorro.

 


Com medo e meio que sem saber direito o que fazer, Vahid resolve seguir Eghbal até a sua casa, encontrando o momento certo para abordá-lo, agredi-lo e conduzi-lo até uma isolada região desértica com o objetivo de enterrá-lo vivo. O ódio que carrega, resultado de uma sequência de humilhações vividas por ele, justificaria essa Lei de Talião improvisada (do "olho por olho, dente por dente?"). Em desespero, Eghbal garante haver um engano. Não tendo sido ele o carrasco que o manteve enclausurado - e Vahid não consegue ter certeza, porque tudo o que ele tem é o barulho da perna mecânica e a voz. Receoso de estar cometendo uma injustiça, ele desiste do seu intento, colocando o homem em um caixão à moda Festim Diabólico (1948), na intenção de descobrir se Eghbal é, de fato, quem é. O que resultará em um excêntrico road movie pelas ruas de Teerã, com a entrada em cena de outras figuras como a fotógrafa Shiva (Mariam Afshari), a noiva Goli (Hadis Pakbaten) e Hamid (Mohammad Ali Elyasmehr), um empregado de uma farmácia local. Todos previamente flagelados (ou não) por Eghbal.

Em linhas gerais, o que a obra - que venceu a Palma de Ouro do mais recente Festival de Cannes - parece questionar por cada um de seus poros é como fazer, em um cenário de tantas diferenças políticas, sociais, culturais (ou de polarização), para simplesmente tolerar o outro. A sua existência. Claro que se um lado é o violento e age com raiva, truculência e intolerância, o outro também deveria agir assim? É por esse caminho que resolvemos os problemas e pacificamos uma sociedade? Em longos diálogos, o quinteto completado pelo noivo de Goli, Ali (Majid Panahi, filho do diretor) vai pra lá e pra cá tentando tomar algum tipo de decisão. Para Hamid é matar, enterrar e pronto. Para os demais, como no caso da própria Shiva que, claramente, só quer seguir em frente com a sua profissão, a dúvida pairando no ar parece ser uma barreira. 

 

 

Em meio a choques e pequenas colisões, o grupo passará por outros suplícios urbanos, como propinas policiais, subornos aleatórios, a turbulência do trânsito, o capitalismo tardio ostensivo, um carro que entra em pane e até uma inesperada gravidez, com as implicações doentias de uma sociedade patriarcal - e tão guiada pela religião. Árida, excêntrica, caótica e inacreditavelmente divertida, essa é uma obra que repete os temas usuais de Panahi, que permanentemente precisa driblar as restrições, para a construção de uma experiência fragmentada, que olha para os traumas coletivos do Irã sem apontar um vilão em específico, já que o problema está no todo. No tecido. Nas entranhas. Com vidas - trabalho, relacionamento, famílias - sendo afetadas. Todos os dias. Com a coletividade meio que em pane, confusa, sem saber como agir. E sendo atropelada sem nem perceber.

Nota: 7,5 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Novidades em Streaming - Brincando com Fogo (Jouer Avec le Feu)

De: Delphine e Muriel Coulin. Com Vincent Lindon, Bejnamin Voisin e Stefan Crepon. Drama, França, 2024, 118 minutos.

"Quando dizem que não é político, é aí que você deve se preocupar". Ainda no começo de Brincando com Fogo (Jouer Avec le Feu) a primeira vez em que Pierre (o sempre ótimo Vincent Lindon) inquire seu filho Fus (Benjamin Voisin) a respeito de suas amizades, ele é incisivo. "Não quero você andando com fascistas", ele argumenta, com seu olhar forte mas melancólico, que transmite medo, mas ternura. "Perder" um jovem para um grupo masculinista de extrema direita - normalmente aqueles incels frustrados, consumidores de conteúdo red pill -, que compensa o seu fracasso na base do ódio, da violência e da truculência contra tudo e contra todos, especialmente minorias, afinal, não deve ser fácil. E parece ser justamente o que está acontecendo com Pierre, um trabalhador ferroviário que vê o seu filho mais velho a cada dia mais fascinado por esses ideais. O homem chega a ser alertado por um colega de trabalho, a respeito da presença de Fus tumultuando um protesto de operários, que desejam entrar em greve.

Em linhas gerais a obra das diretoras Delphine e Muriel Coulin aborda um certo desencanto com os tempos atuais - de avanço de ideais racistas, xenófobas, misóginas -, com o campo contrário tendo de funcionar como uma zona de contenção. Como se fosse uma espécie de Otávio, o personagem de Gianfrancesco Guarnieri em Eles Não Usam Black Tie (1982), Pierre é o socialista mais ou menos desiludido, que opera em um modo meio letárgico, quase no piloto automático em relação a sua vida. Prestes a se aposentar, deseja cuidar dos filhos - o mais novo, o afetuoso Louis (Stefan Crepon) está prestes a conseguir uma vaga no curso de Letras na prestigiada Sorbonne. "Ela ficaria orgulhosa", lembra o menino aludindo à falecida mãe, que padeceu aparentemente de um câncer. À Pierre, em meio a turnos de trabalho exaustivos na madrugada, restou cuidar dos meninos. O que ele tenta fazer da melhor forma.

 


Só que em certo dia, Pierre abre o notebook de Fus e fica estarrecido com o que vê. Não apenas ele está em perfis de grupos de extrema direita, como se se vangloria de compartilhar vídeos em que violências diversas ocorrem, especialmente contra imigrantes - com gritos nacionalistas e toda uma estética radicalista, que vai das cabeças raspadas às tatuagens tribais. Após uma discussão mais forte entre os dois, Pierre persegue Fus, ocasião em que descobre um gigantesco galpão abandonado que funciona como ponto de encontra dessa unidade neonazi. Lá dentro, um bando de machinhos tentam compensar a micropenia coletiva com sessões de brigas estilo Clube da Luta (1999), o que envolve gritedo, baba e suor. "Somos só bucha de canhão", "não é uma questão de esquerda ou direita", "estamos cansados do sistema", são frases prontas que Fus espalha, como se fosse um gerador de lero-lero do chatGPT, que só formula textos prontos e vazios que busquem amparar suas motivações.

Sem ofender a inteligência do espectador a obra é hábil em construir uma atmosfera de tensão crescente, mas sem ser necessariamente maniqueísta.  Estamos, afinal, falando de uma família, que cresceu indo a jogos de futebol, ou batendo bola no pátio de casa. Alternando instantes de amor e de ódio, como em qualquer relação de pai e filho. Então, é bastante natural que Pierre tente investir, ao menos até onde dá, no caminho do amor. Ao passo que Fus também é afetuoso à sua maneira com o irmão e com o próprio pai, o que faz com que percebamos o óbvio em uma produção como essa: o ser humano é um sujeito complexo e cheio de nuances. Pode ser bom ou mal ou os dois. O seu tio bolsonarista que cuida tão bem de sua tia não é a pior pessoa do mundo. Ao mesmo tempo em que alguém do campo progressista não está livre de falhas ou de dilemas éticos. Só que o que parece ser meio infalível é o destino de quem adere tão cegamente e de forma tão alienante a ideologias tão extremas. E exemplos nesse sentido, lamentavelmente, não faltam.

Nota: 9,0 

 

Cinema - Bugonia (Bugonia)

De: Yorgos Lanthimos. Com Emma Stone, Jesse Plemons e Aidan Delbis. Drama / Ficção Científica / Comédia, EUA / Canadá / Coréia do Sul / Irlanda / Reino Unidos, 2025, 118 minutos.

Teorias conspiratórias, crises climáticas, CEOs performáticos, tecnologia difusa, trabalho precarizado, incelismo cultural, distorção da realidade, corporações que vendem a doença e a cura, podcasts e opiniões sobre basicamente tudo. Vamos combinar que todo esse mal-estar contemporâneo, com suas divisões políticas, sociais e culturais, parece condensado nas irresistíveis cerca de duas horas de Bugonia (Bugonia). No novo filme de Yorgos Lanthimos - se você acompanha a carreira do diretor sabe que seu "método" é meio que o do estranhamento e o do choque - não parece haver mocinhos a quem possamos nos apegar ou mesmo torcer. Se por um lado o seboso Teddy (Jesse Plemons) parece um channer anárquico e alucinado que frequenta fóruns de internet em que doidinhos de bairro divagam sobre os mais aleatórios tipos de terraplanismo, por outro a empresária Michelle (Emma Stone) não fica atrás, com sua cultura corporativa de aparências e enriquecimento com base no sofrimento alheio.

Ao lado do primo autista Don (Aidan Delbis), Teddy elabora um audacioso plano: o de sequestrar Michelle, que ele acredita fielmente não apenas ser uma alienígena do galáxia de Andrômeda - numa clara alegoria sobre dominação - mas também a responsável direta por toda a dor causada a sua família. Teddy e Don são dois solitários que trabalham com apicultura e parecem ter genuíno apreço pelo meio ambiente, ao passo que Michelle é justamente uma das diretoras de um conglomerado farmacêutico de nome Auxolith, que fabrica inseticidas que, justamente, tem aniquilado as colmeias de abelhas. Uma ameaça, aliás, bastante real. Quando esses dois universos tão distintos colidem, o resultado é uma experiência provocativa que não alivia para as tragédias decorrentes do capitalismo, que parece não ter limites em sua sanha desenvolvimentista - mesmo que alguns fiquem pelo caminho -, nos fazendo também questionar se o caminho adotado pela dupla de abilolados representa é o ideal para a resolução dos problemas.

 


E, em alguma medida, creio que seja exatamente aí que o filme se torna mais profundo. Mais complexo. Ao mostrar que as pessoas podem ter nuances e traços distintos de personalidade. Afinal, seria muito cômodo e um tanto maniqueísta tornar Michelle a pobre sofredora sequestrada - meio como no caso do escritor de Louca Obsessão (1990) -, que está nas mãos de dois malucos do ancapistão que, se for preciso, vão praticar as piores torturas para alcançar seus objetivos, seja lá quais sejam exatamente. Tanto que antes de ela ser levada por Teddy e Don, já entendemos que ela é uma arrombada manipuladora, que se incomoda com a sua equipe ao gravar um vídeo institucional sobre diversidade (ela reclama do excesso do uso da palavra, o que parece deixar brecha pra outras interpretações), ao mesmo tempo em que soa como uma falsiane ao divulgar à nova política da empresa, que permite aos empregados saírem às 17h30. Mas desde que não haja pendências, claro! "Vocês decidem", sorri ela cativante, com seus olhos angulosos, que estampam uma série de capas de revistas do universo corporativo.

Com a mãe em coma - mais um efeito colateral das políticas literalmente tóxicas da Auxolith -, e uma fúria masculinista que vai no limite da metáfora, quando ele mesmo se aplica um medicamento redutor de libido, Teddy é retratado sim como o esquisitão de cabelos compridos, meio hippie sujo, meio troll de segunda categoria, mas que também parece ter sua parcela de razão ao evidenciar que o colapso ambiental global, se não for refreado, pode ser o símbolo do desastre futuro. À uma acuada Michelle, ele pede que retorne à Andrômeda. E simplesmente pare com essa devastação. O sentimento geral de paranoia decadente do mundo parece ampliado pela trilha sonora de cordas incômodas - cortesia do compositor Jerskin Fendrix, que deve ser nominado ao Oscar - e por um espírito bélico que escala, sem termos a certeza de onde tudo aquilo vai parar. O final, criticado por alguns, amado por outros (meu caso), é a cereja do bolo: seguimos disputando espaço, brigando (inclusive na internet) e tentando marcar posição, enquanto que manda no capital e toma as decisões nos aniquila pelas entranhas. Pode parecer meio niilista no geral. Até meio misantropo em alguns casos. Mas esse é o cinema de Lanthimos. Para o bom ou para o mal.

Nota: 8,5