De: Pauline Loquès. Com Théodore Pellerin, Salomé Dewaels, Camille Rutherford e Jeanne Balibar. Drama, França, 2025, 96 minutos.
Vamos combinar que, em muitos casos de filmes com pessoas que precisam lidar com doenças graves, as questões mais prosaicas do cotidiano são ignoradas em prol de uma narrativa melancólica mais direta sobre superação da dor. Quando Nino (o ótimo Théodore Pellerin, que tem uma energia meio Adam Driver francês, ainda que seja canadense) recebe, ainda no começo de Nino de Sexta a Segunda (Nino) o diagnóstico de um câncer na garganta, para além do seu olhar surpreso e desorientado - ele é apenas um jovem de 28 anos, sem um aparente histórico familiar -, ele é informado a respeito de, entre outras coisas, a possibilidade de congelar espermatozoides para o caso de, no futuro, desejar ter filhos. Naquele contexto, a médica lhe comunica sobre o quão invasivo é o tratamento que iniciará dali a três dias e sobre a necessidade de, urgentemente, tomar essa decisão.
Em alguma medida, é mais ou menos assim quando alguém morre. Ou é preso. Em obras de ficção as complexas logísticas que envolvem esse entorno muitas vezes são ignoradas. Mas não aqui. Nino sai de um andar do hospital para outro, onde se depara com uma longa fila de casais - certamente interessados em óvulos fecundados e inseminações artificiais -, para receber um copinho de uma enfermeira, que lhe dá um tempo de uma hora pra concluir o "serviço". A coisa toda é tão caótica que o protagonista não percebe, num primeiro momento, que perdeu as chaves de casa. E essa habilidade da diretora Pauline Loquès, em sua premiada obra de estreia, em metaforizar essa perda de rumo, de direção, de sentido ou meio que de tudo, depois do diagnóstico de uma doença severa, é meio que rara. Nino está desorientado em uma sexta-feira qualquer que, ainda por cima, antecede o seu aniversário. Com um diagnóstico agressivo debaixo do braço, que ele sequer tem coragem de verbalizar àqueles que o rodeiam.
Em conversa com sua carinhosa mãe (Jeanne Balibar), ele tenta investigar os motivos da trágica morte de seu próprio pai aos 44 anos, em circunstâncias nem sempre claras, ao mesmo tempo em que mente estar com depressão - apenas para esconder o câncer, o que evitará deixá-la preocupada. No apartamento do amigo e colega de trabalho (ou talvez candidato a namorado, não fica bem claro) Sofián (William Lebghil) que organiza uma festa surpresa, Nino trafega como uma espécie de ectoplasma pelos cômodos, talvez percebendo a inutilidade daqueles vínculos aleatórios que, agora, se esfarelam, frente à iminência provável da finitude. Ainda sem as chaves de casa - ele volta ao hospital, mas não as encontra, o que reforça a alegoria da falta de direcionamento que temos diante de situações do tipo -, o rapaz vai parar na casa de uma ex (Camille Rutherford), sendo surpreendido por ela justamente no instante em que pretendia lhe deixar um cartão postal. Que lhe alertava para os riscos das doenças sexualmente transmissíveis - o que podia estar na origem do seu tumor.
Em linhas gerais, para o espectador que talvez aguarde que esse filme aterrisse em local seguro pode ser frustrante ver apenas Nino zanzando em um final de semana, estando com amigos, com a ex, com a mãe, indo pra boate, ou mesmo frequentando o brechó da ex-colega de aula Zoé (papel da bela Salomé Dewaels) que ele encontra aleatoriamente no restaurante em que entra para tentar, em vão, se masturbar para reservar seu sêmen. Ao cabo, aqui temos aquele típico filme europeu, de fotografia cinza azulada, que reforça o sentimento de melancolia geral, de desalento, o que também é evidenciado pelas notas sutis mas agoniantes, da trilha sonora. Há, aqui e ali, um certo afeto geral no olhar para aqueles que acompanhamos, com direito a citações à Marina Abramovich e suas experiências artísticas essencialmente humanas. Muitas vezes basta um olhar para que saibamos tudo que envolve esta ou aquela pessoa. Não é preciso dizer muito. E, aqui, parece estar nos longos silêncios uma parte dessa força. Tá na Reserva Imovision.
Nota: 8,0

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