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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Picanha em Série - O Segredo de Widow's Bay (1ª Temporada)

De: Katie Dippold. Com Matthew Rhys, Kate O'Flynn, Stephen Root e Dale Dickey. Suspense / Comédia, EUA, 2026, 400 minutos (aproximadamente).

Vamos combinar que a plataforma da Apple TV tem sido imbatível no quesito séries de qualidade - e não é diferente com a divertida, tensa e hypada O Segredo de Widow's (Widow's Bay), que faz aquela mistura de terror com suspense, que tem funcionado como um subgênero bastante efetivo, na atualidade. Como se fosse uma mistura de Ilha do Medo (2010) e Twin Peaks (1990 - 1991) - especialmente pela atmosfera enevoada e que evoca uma sensação de isolamento, de paranoia e de dúvida a respeito do que é real, sobrenatural ou psicológico -, com algumas pitadas de The White Lotus (2021 -) e de filmes como Tubarão (1975), a produção nos apresenta ao carismático e atrapalhado Tom Loftis (Matthew Rhys), prefeito da pacata Widow's Bay, uma ilha da Nova Inglaterra, que pretende instituir uma política de incentivo ao turismo. O que envolve tentar impressionar um jornalista do The New York Times, que vai até o local para escrever uma reportagem sobre aquele pacato e peculiar espaço.

E, enfim, a intenção de Tom pode ser a melhor possível, mas o grande problema é que muitos dos moradores acreditam que a ilha seja amaldiçoada, especialmente pelo amplo histórico de tragédias passadas, com desaparecimentos, mortes e casos bizarros que, inclusive, estão evidenciados no museu local. O que garante, aliás, sequências engraçadas, como aquela em que o prefeito tenta, de todas as formas, acobertar uma matéria sobre canibalismo (sim), que teria ocorrido décadas atrás no local. Mesmo com toda a controvérsia e com a ilha, aparentemente, despertando para o mal - não fica claro de quanto em quanto tempo isso ocorre, mas, mais adiante, entenderemos que o começo da maldição tem a ver com o fundador da cidade, um certo Richard Warren (Hamish Linklater) -, a reportagem é publicada e os turistas começam a chegar à ilha. Ao mesmo tempo em que tem início eventos estranhos, como o toque inesperado do sino da Igreja, uma névoa constante que se avizinha e o surgimento de inesperadas assombrações.

 


Alternando momentos mais cômicos, com outros de horror - como no momento em que o prefeito tem uma espécie de alucinação com Willy The Clown (um palhaço macabro) -, a série aposta em eventos simples, cotidianos, que farão a série de dez episódios evoluir. Por exemplo, no segundo episódio, os moradores da ilha instigam Tom a passar uma noite em uma pousada supostamente assombrada, como forma de garantir, de fato, que não há problema algum no local. E que não há motivo para medo. Já no quarto episódio, a excêntrica secretária de Tom, Patricia (a ótima Kate O'Flynn), que jura de pé junto ter se salvado de seres sobrenaturais no passado, resolve planejar a festa perfeita, como forma de mostrar que ela é uma ótima anfitriã (a despeito de ser uma figura desajeitada, introspectiva, burocrática e sem nenhuma graça). O que envolverá a utilização de um estranho guia de autoajuda cheio de clichês sobre o tema que, mais para frente, perceberemos ter outra função.

Outro personagem importante na série é Wyck (Stephen Root) que parece estar sempre um passo a frente no que diz respeito à famosa história da cidade, o que o faz entrar em conflito com Tom - especialmente por achar que a ilha está se "movimentando" e que aquele não seria um bom momento para receber turistas. Com idas e vindas no tempo, inclusive com um episódio que retorna ao século 18, para mostrar como se originam às tormentas e quais os sacrifícios necessários para que os habitantes sobrevivam à entidade demoníaca que governa a ilha das profundezas, a série ainda reserva uma ótima surpresa para o último episódio da temporada, deixando um excelente gancho para uma segunda (que talvez nem precisasse existir, de tão bem encaixada). Atmosférica, desconfortável e cheia de figuras extravagantes, complexas, imperfeitas e moralmente ambíguas, O Segredo de Widow's Bay ainda adiciona algumas discussões laterais sobre patriarcado, capitalismo tardio e uso da religião como ferramenta de dominação. Conjunto que a torna uma das ótimas surpresas da temporada.

Nota: 8,5

 

terça-feira, 30 de julho de 2024

Picanha em Série - The Boys (4ª Temporada)

De: Eric Kripke. Com Antony Starr, Erin Moriarty, Jack Quaid, Karl Urban e Karen Fukuhara. Comédia / Ação / Policial, EUA, 2024, 525 minutos.

Assistindo a quarta temporada de The Boys ficou mais fácil de entender por quê o nerdola reacionário e de extrema direita ficou rasgando o c* em desespero com o que viu. Porque por mais óbvia que fosse a temática da série ou o tipo de crítica que ela faz - algo que fica claro desde, sei lá, a primeira meia hora do episódio piloto -, é na mais recente safra de capítulos que é escancarada toda a cafonice, a hipocrisia, o falso moralismo, a picaretagem e a realidade paralela dos cidadãos de bem conservadores. Aquele mesmo sujeito que vota em Trump - ou Bolsonaro - sob o suposto véu do patriotismo, da higienização étnica e da quebra do status quo e que se retroalimenta da maior quantidade possível de fake news e de produtos genéricos, infantilizados e óbvios, é aqui retratado de uma forma exageradamente caricata, estereotipada e um tanto realista. Em uma sociedade em que marmanjos de quarenta anos de idade reclamam no Twitter sobre o avanço da cultura woke - ou seja lá o que for isso -, enquanto agem como adolescentes tardios que se regozijam com filmes de bonequinho e alimentos ultraprocessados, o tiro (com o perdão do trocadilho) não poderia ser mais certeiro.

Nesse sentido, não deve ser fácil para o nerdola básico que veste orgulhoso a sua camiseta engraçadona, em que se vê algum meme de supremacia branca, ver esse paradigma da luta óbvia do bem contra o mal, do nós ante eles, do heroi de capa virtuoso, loiro, branco e hétero que antagoniza o vilão sujo, periférico, pobre e maltrapilho sendo devidamente quebrado. Aliás, não apenas quebrado, mas ridicularizado. Tudo que envolve, afinal, a megacorporação Vought - que é simplesmente quem "fabrica", literalmente, os herois da série que, como uma espécie de milícia institucionalizada, agem violentamente sob a desculpa de garantir a segurança do cidadão de bem -, é brega, antiquado, retrógrado. As produções para o cinema são em série e maniqueístas. Não há novidade para além da abordagem do "bandido bom é bandido morto", com derivações para histórias motivacionais ou de superação dispostas em um discurso meritocrático que não vai para além do rasinho. Da mesma forma, os programas de TV são inodoros, insípidos e indolores, adotando aquele discurso moderno à moda Idade Média sobre anticomunismo, identidade de gênero, globalismo, grande despertar, Estado profundo, redpillagem e todo o combo que, a exceção dos doidinhos de bairro de redes sociais, ninguém acredita.

 


 

Sim, ao cabo The Boys reforça a ideia até meio clara de que a leitura da Bíblia alternada com visitas ao clube de tiro para, no futuro, poder praticar todo e qualquer tipo de violência meio sádica, não parece combinar. Muitas vezes a abordagem pode soar um tanto hiperbólica ou exagerada, mas, novamente, vendo os extremistas de direita dando piruetas de desgosto nas redes sociais ao perceberem que eles eram muito mais a piada e menos os cidadãos corretos e acima da média que acreditavam ser, é um escárnio pra lá de saboroso. Aliás, pra quem ainda não tinha se dado conta, em termos de vida real, que um sujeito vestido de Batman portando uma motosserra e vociferando um "viva la libertad carajo" ou um outro concedendo a esse primeiro uma medalha de imbrochável e incomível já seria algo ridículo o suficiente (e nada heroico), o Capitão Pátria (o ótimo Antony Starr, que merecia todos os prêmios possíveis por sua caracterização como protagonista) aparece para dobrar a aposta. A vida real muitas vezes pode superar a ficção. Mas as coisas misturadas e com os limites burlados podem ficar mais evidentes, naturalmente.

Aliás, sobre o Capitão Pátria, interessante notar como, a despeito de seu sugestivo nome, ele não deixa de ser uma mera criança mimada com superpoderes, que não hesitará em destruir toda a qualquer pessoa que tente se colocar em seu caminho. Por sinal, é nessa temporada que o ideal de "fuzilar adversário político", de tentar fazer "minorias se curvarem a maiorias" e por aí vai, é levada mais ao pé da letra. Como um sádico em uma escalada de poder, essa é a conversa que parece reger a existência desse sujeito - ainda que os episódios recém lançados evidenciem a perda da autoestima (especialmente por estar envelhecendo) e a necessidade constante de bajulação. Sendo incapaz de perder, o Capitão Pátria encarna o narcisista torpe, xucro, que só sabe conversar na linguagem da violência, do sangue, do raio laser e da morte. Em resumo, um projeto de fascista que se fantasia de super heroi - o que garante que ele seja seguido como um Messias por um séquito de alienados, opacos e que parecem ter sofrido uma permanente lavagem cerebral dos programas de notícias da própria Vought, que mistura Fox News com Jovem Pan, com doses inseguras de teorias conspiratórias sob um véu de suposta isenção.


 

Não por acaso, em certa sequência o Capitão Pátria simplesmente aniquila alguém que ousou lhe questionar, em público, diante do rebanho de rednecks bem alimentados, rosados, brancos e barbudos. "Posso sair na rua e atirar em alguém que eu não perderei votos", afirmou Donald Trump certa vez. É o que acontece nesse instante onde patriotas se regozijam em um tipo de anarquismo difuso que se pauta pelo ódio, pelo preconceito, pela intolerância, pela branquitude e pela heteronormatividade. A suposta diversidade, as causas sociais ou ambientais são apenas fachada - e a Vought sabe trabalhar esses aspectos muito bem. Em resumo, nessa quarta temporada esse combo de escrotidão geral da extrema direita é mais do que ampliado - com os vilões sendo paradoxalmente os mocinhos. Onde, supostamente, estariam os extremistas, os assassinos, os pedófilos, que costumam ser alvos de alguma nova teoria conspiratória em evolução, está justamente quem luta para tentar salvar a democracia. A gente já viu esse filme onde a vida imita a arte. Significa que do outro lado do balcão todo mundo é perfeito, incorruptível, heroico e ético? Não, definitivamente não. Kimiko (Karen Fukuhara), Franchie (Tomer Capom), MM (Laz Alonso), até a Luz Estrela (Erin Moriarty), todos têm esqueletos no armário, traumas do passado, escolhas erradas e arrependimentos e precisam lidar com eles. De arrancada, o controle pretendido pelo grupo liderado por Butcher (Karl Urban) poderia parecer mais vilanesco do que era - ainda mais com o apoio meio torto da CIA. Mas essa impressão se dissipa após meia hora da primeira temporada. E, dali adiante, só resta se divertir. Não apenas com o discurso pretendido e com a alegoria para os tempos que vivemos. Mas também com as sequências engraçadas, sangrentas, excêntricas, histriônicas. Talvez The Boys seja a melhor série da atualidade. Sem que ninguém tenha de ficar berrando num restaurante pra isso.

Nota: 9,0


terça-feira, 18 de junho de 2024

Picanha em Série - O Urso (The Bear)

De: Christopher Storer e Joanna Calo. Com Jeremy Allen White, Ebon Moss-Bachrach, Ayo Edebiri e Lionel Boyce. Drama / Comédia, EUA, 2022/2023, duas temporadas.

Um grupo de pessoas neuróticas que vive para o trabalho, que possui pouca (ou nenhuma) vida social, que se frustra com o caos econômico mas que parece acreditar em discurso meritocrático, que reclama do governo e de suas eventuais burocracias, impostos e outras exigências e que, em alguns casos, ainda possui uma família que destroi o teu psicológico - mas ainda assim tu te mantém próximo porque, né, é a família, fazer o quê. Tudo isso ainda meio que embalado em um uma narrativa de autoajuda, que utiliza metáforas do militarismo e alegorias do mundo esportivo para evidenciar que, mesmo em um mundo de adversidades, de individualismo e de problemas generalizados ainda é possível superar tudo isso e prosperar. Apresentação de slides daquele daquele coach messiânico, dissimulado e de índole duvidosa que ganha dinheiro em cima de incautos? Não, apenas a série O Urso (The Bear) que, em suas duas temporadas, conseguiu ganhar não apenas o apreço da crítica, mas também do público.

E quando eu falo de público não cito apenas os homens brancos, héteros, de classe média e conservadores - você já viu esse tipinho meio básico zanzando por aí em agências de publicidade ou em algum escritório apertado onde ele vive o sonho americano (ou brasileiro) de ganhar R$ 5 mil por mês -, que poderiam ser facilmente o alvo de uma série como essa. Há muitas pessoas - amigos meus, inclusive - do campo progressista, que caíram nesse golpe e que a estão propagando como algo muito realista ou mesmo profundo sobre esse ambiente tóxico e caótico (no caso, o do universo dos restaurantes e de suas rotinas eventualmente abjetas), ainda que já haja chefs de cozinha fazendo um contraponto à forma como tudo ali é retratado. Não vou nem citar que os personagens vistos são todos meio que unidimensionais - não há complexidade, o que aumenta a dificuldade de haver empatia. Especialmente pela dupla central, os primos Carmy (Jeremy Allen White) e Richie (Ebon Moss-Bachrach), duas pessoas miseráveis do ponto de vista psicológico e de personalidades bastante parecidas, que não sabem muito bem o que estão fazendo de suas vidas.


 

Para além dessas figuras que vão no limite entre o carisma meio canastrão e a dor profunda transmitida pelo olhar - especialmente nos raros momentos em que a coisa não tá excessivamente frenética (pra não dizer irritantemente confusa) - há outras personas orbitando a dupla, tendo especial destaque a jovem Sydney (Ayo Edebiri), que funciona direitinho como aquela pessoa meio sem experiência mas que, com muita força de vontade, poderá ajudar a colocar o The Beef, o restaurante herdado por Carmy e Ritchie de seu falecido irmão Michael (Jon Bernthal, absolutamente SEMPRE uma figura interessante) nos eixos. Sim, a série criada por Christopher Storer e produzida por, entre outros, Joanna Calo e Hiro Murai, fará de tudo para nos lembrar o tempo todo de que ter um restaurante, especialmente após a pandemia, parece ser um negócio péssimo. Muitos locais foram fechados na época e eu juro que lá pelas tantas imaginei que apareceria algum personagem aleatório pra dizer "olhaí o resultado do fique em casa".

Bom, posto tudo isso simplesmente pra quê o estresse? Ok, ok, não vou ser tão chato a esse ponto porque se não houvesse um sujeito fudido ferrado da cabeça e que já foi chef de cozinha renomado em outras paragens, que estivesse interessado em reabilitar um espaço gastronômico meio decadente, ainda que tradicional, talvez sequer houvesse série (como naquela brincadeira sobre se Breaking Bad fosse feita no Brasil não existiria Walter White e cinco temporadas porque era só ir até o SUS). Mas volto a dizer, pra quê? Trabalho, ao cabo, não é apenas pra que a gente possa ganhar o nosso dinheiro pra pagar os boletos e, enfim, sobreviver? É preciso mesmo esse massacre que exibe pessoas trabalhando de 14 a 18 horas dia, parecendo ainda ter certo orgulho disso? Em certa cena, por exemplo, Tina (Liza Colón-Zayas) recebe uma faca de presente de Carmy. E, uau, fez lembrar o pseudoinfluencer que ganha um sonho de valsa do chefe e publica no Insta. "Ciência, bebê", diz ela mais adiante, diante de uma panela nova. Oi? Tina, o que mais você faz da vida, além de suportar um bando de jovens instáveis na cozinha de um restaurante?


 

O auge de tudo é quando Carm, mesmo sendo uma espécie de incel do mundo gourmet, consegue se (re)aproximar de Claire, uma paixão de infância. Que, para a alegria dos cabaços de plantão, é lembrada por Richie e Michael como aquela esquisitinha que no passado era gordinha e de óculos e que, agora, tá a maior gata. É sério isso? O caso é que Claire, lá pelas tantas, tenta lembrar Carmy do que é a vida pra além daquele ambiente. "Eu nunca fui numa festa", diz ele, com uma naturalidade desconcertante, na noite em que ele, supostamente, vai então a sua primeira festa - algo que nem o maior nerdola anarcocapitalista, com pendor pro libertarianismo seria capaz de afirmar. No final dessa mesma noite, Carmy não convida a moça para a sua casa ou para um motel: ele resolve a levar para... o restaurante, claro. Onde mais? E ao chegar lá, depois das 23h, surpresa! A dupla encontra a galera simplesmente TRABALHANDO, discutindo sobre instalações, cabeamentos, equipamentos e qualquer outra coisa. Vida pessoal? Ir prum Bar? Assistir um filme? Esquece. Essa galera é o oposto dos personagens de Friends. Na série dos anos 90, as pessoas não trabalhavam. Aqui elas SÓ trabalham. Aliás, até nos filmes do Ari Kaurismaki, que tanto critica o ambiente de trabalho tóxico, o operário tem direito ao lazer escapista. Mas vejamos pelo lado bom: Carmy consegue beijar Claire pela primeira vez. Tendo o restaurante como cenário de fundo - aliás, o cenário ideal do liberal classe média que tem o sonho de empreender.

Ah, mas a série ao menos entretém, poderá dizer alguém. Sério? Ver um grupo de pessoas adultas gritando o tempo todo, proferindo palavrões no modo infinito e agindo de forma infantilizada mesmo quando próximos dos 40 anos? Às vezes a coisas é tão caótica, tão hiperbólica e maximalista do ponto de vista da BAGUNÇA, que a vontade é de simplesmente abandonar - sendo o auge da experiência nesse sentido, o sexto episódio da segunda temporada, uma das coisas mais intragáveis que já tive o desprazer de assistir. "Ãin, mas é pra ser uma metáfora para a vida, suas dores, medos, incertezas, dúvidas". Sim, mas talvez dê pra fazer isso com um pouco mais de sutileza. Com menos berro e instabilidade. Com menos discurso raso e superficial - sério, foi demais pra mim o Carmy perguntando, como se fosse um adolescente de doze anos, se Claire era "sua namorada". Ou ver o tio Jimmy (Oliver Platt) usando uma analogia com o beisebol pra reforçar um tipo de masculinidade torpe, redpillada e confusa. "Você quer ser o cara? Então seja o cara!". Uau, que diálogo! Pode haver um certo magnetismo sedutor nesse negócio de basicamente entregar seu corpo, sua mente, sua alma, seu sangue e suas vísceras para o seu trabalho. Há uma coisa no cinema de corpo que magnetiza. Mas aqui não. Eu não caio nessa. E espero que mais pessoas possam ser livres para falar a verdade sobre essa série lamentável. Em tempo: vem aí a terceira temporada. A notícia boa é que dá pra passar longe sem remorsos.

Nota: 3,5

quinta-feira, 22 de junho de 2023

Picanha em Série - Black Mirror (6ª Temporada)

Vamos combinar que talvez desde a terceira temporada a série Black Mirror já não nos comove tanto. Provavelmente a realidade anda tão dura, tão no limite do absurdo - em meio a guerras, pandemia e ascensão de grupos extremistas de direita -, que uma antologia que debate os limites do uso da tecnologia e na discussão de questões éticas, políticas e sociais da contemporaneidade, talvez não seja mais nenhuma novidade. Em meio a inovações como o Chat GPT, assistentes virtuais com recomendações personalizadas, deepfake, realidade aumentada e até mesmo stalkerwares (que permitem monitorar pessoas a distância), a impressão que temos nesta sexta temporada da série idealizada por Charlie Brooker foi a de que alguns episódios foram "menos Black Mirror que o padrão Black Mirror". É divertido de assistir? É. Dá pra passar sem ver? Talvez. Nós do Picanha assistimos aos cinco episódios e aqui damos o nosso veredicto.

Joan is Awful: esse aqui tem uma premissa sensacional que, infelizmente, na reta final soa meio apressado e até mesmo, vá lá, excessivamente debochado (ok, fazer graça pode ser uma boa, mas eu senti falta de uma imersão maior que nos conduzisse para além do rasinho em relação as consequências do que assistimos). Na trama Joan é uma CEO de uma empresa de tecnologia que é surpreendida quando percebe que os eventos de sua vida estão, literalmente, sendo recontados em uma série de uma plataforma de streaming (um certo Streamberry, que parece tanto a própria Netflix, que tem até o tradicional "tudum"). Ao contatar sua advogada, Joan descobre que essa bizarra experiência está acontecendo com ela, pelo simples fato de ela ter assinado os termos de uso da plataforma sem ter lido. Assim, uma espécie de computador quântico recria a sua história praticamente em tempo real, a partir dos dados fornecidos por ela nos seus dispositivos. É um episódio com o DNA Black Mirror, estrelado por Salma Hayek e Annie Murphy, que se estivesse na primeira temporada da antologia, talvez fosse ainda melhor. Nota: 8,0



Loch Henry: esse aqui tem um climinha de suspense adolescente genérico que não chega a empolgar tanto assim. É ok, só não inesquecível. Na história acompanhamos um casal de estudantes de Cinema, seus nomes são Davis e Pia, que, em visita a familiares em uma isolada cidade rural da Inglaterra tomam conhecimento da existência, no passado, de um certo Iain Adair - um notório serial killer que era famoso por torturar turistas. Como eles são acadêmicos da área, Pia sugere que seria legal fazer, quem sabe, um documentário, sobre esse episódio macabro. Em meio ao trabalho, a dupla descobre uma série de fitas VHS que contém segredos escabrosos que mudarão completamente o rumo da história que estão contando. Há uma surpresinha no final que subverte a ideia simples de suspense rural de horror com começo, meio e fim. Mas tudo fica meio que no quase. Nota: 6,5



Beyond the Sea: disparado o melhor episódio da temporada e, talvez se tivesse um pouco mais de metragem, poderia ser um filme isolado, descolado da antologia, talvez até com direito a elogios da crítica. Também é o mais Black Mirror de todos os episódios, ao misturar uma narrativa de viagens espaciais e réplicas robóticas de seres humanos na Terra. Na trama, os astronautas Cliff e David (Aaron Paul e Josh Hartnett) estão em uma missão espacial de seis anos, deixando nas suas casas cópias mecânicas de seus corpos, que lhes permite interagir, minimamente, com suas esposas e filhos. Só que a coisa desanda quando David fica preso na nave após a sua versão robô e a sua família serem assassinados por extremistas ligados a algum tipo de culto religioso. Incapaz de ver seu parceiro em estado catatônico dentro da nave, Cliff oferece a ele a oportunidade de ir a Terra utilizando o seu corpo - uma experiência que poderia ser terapêutica, já que David poderia "respirar" outros ares, pintar e... interagir com a esposa de Cliff. Claro que a coisa vai desandar e será impossível ficar alheio a um desfecho tão brutalmente impactante. Nota: 9,0



Mazey Day: o episódio mais curtinho da temporada mistura história de horror com tintas de realismo mágico, em meio a crítica ao universo sempre caótico de culto as celebridades e de clickbaits em páginas sensacionalistas. É uma trama meio convencional onde acompanhamos uma paparazzi que vê sua vida virar do avesso quando um famoso se suicida após ter fotos que revelavam um caso extraconjugal, vazadas. Disposta a abandonar a carreira, a fotógrafa Bo se vê atraída por um novo trabalho, que envolve a busca por um click que seja de uma certa Mazey Day, uma atriz que desapareceu após um atropelamento ocorrido na República Tcheca. Os limites éticos da profissão serão testados quando Bo decide ir até a clínica de reabilitação em que Mazey está internada. E será lá que ela será surpreendida por um acontecimento bizarro que alterará a vida de muitos. Nota: 6,5



Demon 79: sinceramente esse aqui eu penei pra concluir porque ôôô troço bem chato. Além de longo, o episódio não tem absolutamente nada de Black Mirror sendo apenas uma história de tintas políticas - essa parte é ok, gostei -, que envereda para o terror setentista. Na trama uma vendedora de loja que sofre com casos explícitos de racismo, encontra uma espécie de talismã do subsolo do departamento que trabalho. Após esfregar o amuleto, ele libera um demônio de nome Gaap, que surge vestido como Boney M. O sujeito diz a ela que será preciso assassinar três pessoas no intervalo de três dias para evitar que a Terra sofra uma espécie de apocalipse nuclear. A ideia é boa, mas por fim acaba sendo mal executada. Especialmente por apostar em um senso e humor meio excêntrico, que reduz o impacto dos temas que o episódio pretende discutir. Nota: 5,0




Média geral: 7,0

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Picanha em Série - Yellowjackets (1ª e 2ª temporadas)

De: Ashley Lyle e Bart Nickerson. Com Melanie Lynskey, Christina Ricci, Juliette Lewis e Tayny Cypress. Drama / Suspense, EUA, 2023, 524 minutos.

Abordar o trauma sem apelar para soluções previsíveis e ainda construir uma narrativa de suspense vigorosa, daquelas que prende a atenção do espectador de forma orgânica, sem forçar a barra. Esses são alguns dos méritos de Yellowjackets, série da Paramount+ que concluiu a sua segunda temporada recentemente - e que, admito, fui conferir por causa do hype (e também pela oportunidade de ver Christina Ricci, Juliete Lewis e Melanie Lynskey juntas em ação). Na trama, criada pela dupla Ashley Lyle e Bart Nickerson, acompanhamos duas linhas temporais - sendo a primeira em 1996, onde um trágico acidente de avião faz com que um time de futebol feminino de Nova Jersey fique preso e isolado por dezenove meses em uma floresta do Canadá. O outro segmento ocorre 25 anos depois, onde acompanhamos a vida de algumas das sobreviventes - com os acontecimentos do passado ainda assombrando as mulheres, agora adultas (com famílias, filhos e... traumas, muitos traumas).

Incapazes de simplesmente esquecer tudo que ocorreu 25 anos atrás - e quais as formas encontradas para sobreviver (e quem já viu qualquer material de divulgação da série, sabe do que estou falando) - Shauna (Melanie Lynskey), Misty (Christina Ricci), Tai (Tawny Cypress) e Natalie (Juliette Lewis) tocam suas vidas na medida do possível até o momento em que recebem uma espécie de cartão postal com um símbolo sinistro do passado - o que fará com que elas acreditem estar sofrendo algum tipo de chantagem. Quem afinal teria interesse de revirar esses esqueletos há tanto tempo enterrados? Tai, por exemplo, é candidata ao Senado e teme pelo uso político do caso para prejudicá-la. Ao mesmo tempo, as coisas não parecem ir tão bem assim em casa, especialmente quando seu filho pequeno passa a se comportar de forma estranha (com direito a desenhos sinistros, agressões a colegas na escola e pinturas macabras na porta de casa).



Para as demais também não parece haver interesse em reviver os episódios de duas décadas e meia atrás. O casamento de Shauna com Jeff (Warren Cole) pode até estar meio caído, o mesmo valendo para a conturbada relação com a filha Callie (Sarah Desjardins), mas nada se compararia a uma possível investigação que pudesse levar aos eventos que levaram à morte de Jackie (Ella Purnell), a melhor amiga de Shauna, na época do acidente. Já Misty é a "doidinha de bairro" frequentadora do 4Chan e outros fóruns online (especialmente um de detetives amadores) que parece se deliciar em investigar a vida e os objetivos de seus algozes. Natalie, por sua vez, é aquilo que a gente sempre espera da Juliette Lewis: a drogadita que ela interpreta como ninguém. Entre idas e vindas no tempo descobriremos como rituais místicos e florestas que parecem assombradas e dispostas a se "comunicar" com o grupo, levarão às jovens a situações limite como a prática de canibalismo e de rituais satânicos como modus operandi de sobrevivência. Especialmente no doloroso inverno que enfrentarão. A floresta passará a escolher quem morre, lembrará uma delas após uma inesperada perseguição. Será isso mesmo? Ou os traumas somados a perda de qualquer noção de realidade farão com que elas se comportem dessa forma?

Ao cabo, a série nos deixa sempre na dúvida se o que estamos vendo tem algo, efetivamente, de sobrenatural, ou se tudo não passa de efeitos tardios das mentes perturbadas das garotas. Não são poucas às menções à medicamentos para ansiedade ou depressão e a necessidade de terapias alternativas como forma de controlar os pânicos gerais. Tudo sendo ampliado quando o grupo de mulheres descobre que Lottie (Simone Kessell), uma jovem esquizofrênica que se vendia como líder espiritual do grupo, na época do isolamento, hoje sobrevive como uma espécie de coach espiritual em uma comunidade hippie de bem-estar coletivo. Aliás, Lottie poderá ser a chave para desvendar outras questões - especialmente após o sequestro de Natalie (que pretendia dar cabo da própria vida). Sim, parece haver muita coisa acontecendo ao mesmo tempo - entre alucinações, fugas da realidade e incertezas em relação ao que vemos. Mas é tudo muito bem costurado, editado e fotografado (as premiações estão aí pra comprovar). Com a cereja do bolo sendo a excelente trilha sonora noventista - de Veruca Salt à Radiohead, passando por Elliot Smith e Tori Amos. De ficar grudado na poltrona. E que venha a terceira temporada!

Nota: 8,5


terça-feira, 14 de março de 2023

Picanha em Série - The Last of Us (1ª Temporada)

De: Craig Mazin e Neil Druckmann. Com Bella Ramsey, Pedro Pascal, Gabriel Luna, Murray Batlett e Nick Offerman. Drama / Ficção científica, EUA, 2022, 522 minutos.

A história diz que nem Pedro Pascal nem Bella Ramsey, os astros que protagonizam The Last of Us, jogaram o jogo em que a série da HBO Max - que teve seu último episódio divulgado no mais recente domingo - é baseada. Então nesse caso, eu não tenho receio de afirmar que também não joguei o game, assistindo apenas alguns fragmentos de gameplayers meio espalhados (algo que também não tenho muita paciência). Nesse sentido estou apto a analisar o programa? Olha, se levar em conta que a maioria dos livros e quadrinhos em que os filmes são baseados eu não li, acho que sem problemas. Por que aqui eu não estou pra comparar um com o outro - e talvez isso até elimine algum tipo de vício inevitável de quem conferiu os dois. E, bom, desde a primeira dezena de temporadas de The Walking Dead que eu não acompanhava um drama pós-apocalíptico - que, aqui, envolve uma severa infecção fúngica que converte os seus hospedeiros em zumbis, resultando (surpresa!) no colapso da sociedade.

Ok, não há exatamente nada de novo nisso - e o próprio jogo de videogame já é um sucesso de dez anos de existência. Mas admito que em um cenário de humanidade ainda recolhendo os cacos de uma dolorosa pandemia, não deixa de ser interessante (re)elaborar as ideias em torno dessa temática. Como seria, afinal? A trama já abre de uma forma muito impactante com dois cientistas alertando, décadas atrás, sobre a possibilidade de bizarras mutações fúngicas que só seriam possíveis em um cenário de aquecimento global (e olha o aceno para a nossa atualidade aí). Corta para 2003 e o bicho já tá começa literalmente a pegar, com o surgimento das primeiros casos de Cordyceps e o caos tomando conta de uma cidadezinha do Texas (onde mais?). Em meio ao tumulto Joel (Pascal) terá de enfrentar a dor de ver o assassinato da própria filha Sarah (Nico Parker) em circunstâncias bastante traumáticas. Pesado é pouco. E tá só começando.


Corta para 2023 e Joel está em uma zona de quarentena em Boston, onde integra uma espécie de órgão de Governo (a Fedra). Após seu irmão Tommy (Gabriel Luna) tentar entrar em contato, o protagonista é enganado pelos Fireflies (Vagalumes), que se opõem ao Governo, numa negociação envolvendo uma bateria. A solução para que ele possa ter acesso a um caminhão que o leve até seu irmão? Conduzir a jovem Ellie (Ramsey), até um outro ponto do País na intenção de, quem sabe, produzir uma cura, já que a jovem parece ser imune a doença. É nesse ponto que a aventura da série em si começa. Com bem menos zumbis por metro quadrado do que em The Walking Dead e um foco muito maior nas relações e nas conexões humanas. Basta pensar, por exemplo, no "polêmico" (e comovente) terceiro episódio, onde um flashback exibirá a tocante relação entre Bill (Nick Offerman) e Frank (Murray Bartlett) e sua tentativa desesperada de sobrevivência - e mesmo de tentar levar uma vida normal - em meio ao caos. Emocionante, o episódio nos faz lembrar da importância da amizade, do amor, do afeto, de compartilhar momentos.

Claro que todos esses componentes não funcionariam tão bem se não fosse todo o aparato técnico que contribui para o clima de tensão proposto - com destaque para o desenho de produção que, a meu ver, é um dos pontos altos (e os cenários apocalípticos são tão bem elaborados, que a série me fez ter vontade de jogar o jogo, sendo que a última vez que peguei em um controle foi para zerar Resident Evil 4 do Play 2 - Candy Crush não conta). A fotografia que se alterna entre o escurecido - nas cenas noturnas -, e o levemente onírico, nos instantes de placidez (como no citado episódio 3) ou diurnos, também mexem com os sentimentos, o mesmo valendo para a trilha sonora. Mas, ao cabo, sobreviver aqui, é quase como uma alegoria bastante humana, afinal, quem não tem suas dores, traumas, arrependimentos? Coisas que poderia ter feito diferente e talvez não fez? Em um mundo devastado parece haver um maior espaço para esse tipo de reminiscência. Dessa necessidade de um certo senso comunitário. De se juntar por um bem maior - e o fortalecimento da amizade de Joel e Ellie estará no centro da narrativa como uma espécie de símbolo de tudo isso. Os próximos passos? A segunda temporada, já renovada, talvez ajude a determinar. Estamos no aguardo.

Nota: 8,5


sexta-feira, 29 de julho de 2022

Picanha em Série - Barry (Temporadas 1-3)

De: Alec Berg e Bill Hader. Com Bill Hader, Sarah Goldberg, Henry Winkler, Stephen Root e Anthony Carrigan. Comédia / Policial, EUA, 3 Temporadas, 2018-2022.

Vamos combinar que a premissa de Barry, exibida pela HBO Max, não poderia ser melhor. Na trama acompanhamos Barry Berkman (Bill Hader), um veterano da guerra do Afeganistão que, de volta aos Estados Unidos, atua como assassino de aluguel. Designado para um "trabalho" em Los Angeles - matar um personal trainer de nome Ryan (Tyler Jacob Moore), que seria o pivô de uma traição amorosa envolvendo alguém da máfia chechena -, Barry acabará em uma escola de teatro onde, por vias meio inesperadas, se incorporará ao grupo de atuação coordenado pelo excêntrico Gene Cousineau (Gene Winkler). No local, após uma aula improvisada, ele conhecerá a jovem aspirante a atriz Sally Reed (Sarah Goldberg, em ótima caracterização) e, bom, maravilhado com encantador mundo das artes ele passará, naturalmente, a se questionar sobre o seu propósito de vida. E, óbvio, se retirar do mundo do crime não será tarefa tão fácil, afinal, o rastro de violência o acompanhará. O que colocará em risco as pessoas ao seu redor.

E, é preciso que se diga que, a despeito dos componentes policialescos e de mistério de cada um dos 24 episódios distribuídos em três temporadas, o que temos aqui é uma excelente série de humor. Isso explica, por exemplo, o comportamento histriônico e cheio de ambiguidades de figuras como Monroe Fuches (Stephen Root) e NoHo Hank (Antonio Carriga) dois criminosos que vão no limite do cômico e do trágico com suas ações. E que serão os responsáveis por dificultar a saída de Barry desse contexto de violência. Fuches é o contratante do protagonista. NoHo é alguém que ficará incomodado quando, ainda no primeiro episódio, Barry encontrar  alguma dificuldade para colocar em prática o assassinato de Ryan. O resultado do impasse será o sequestro de Barry e Fuches pelos chechenos, sendo a salvação para ambos executar um último crime, que envolve a morte de um rival do cartel da Bolívia. Claro, tudo uma ótima desculpa pra manter esses universos tão distantes - o das artes e o do crime - de alguma forma conectados.

Em meio a tudo haverá ainda a onipresença dos investigadores de polícia Janice Moss (Paula Newesome) e Loach (John Pirruccello), que se empenham em juntar as pistas sobre a morte de Ryan: eles sabem que a máfia chechena está por trás, mas também parecem desconfiar de que há algo errado na história toda que, como não poderia deixar de ser, respingará em Cousineau e nos demais alunos, dos quais Ryan era colega (incluindo, obviamente, Barry). E tudo piorará quando o veterano professor de teatro se apaixonar por Janice. Indo de lá pra cá, o roteiro acompanha a rotina dos integrantes da escola de atores - especialmente Sally e sua eterna ambição em ser uma atriz de renome (o que envolve um sem fim de audiências fracassadas em emissoras de TV e atrações pouco empolgantes) -, enquanto Barry luta para manter a sua vida dupla em segredo. E não é preciso ser nenhum adivinho pra saber que, lá pelas tantas, a coisa desanda. E as linhas que correm em paralelo se encontram.

Divertida, caótica, levemente iconoclasta, a série já recebeu mais de 40 indicações ao Emmy. Misturando interpretações de Shakespeare com piadinhas sobre um bandido que se comunica apenas por gifs animados com imagens de gatinhos a atração discute, aqui e ali, questões morais e como certas decisões podem impactar a vida dos envolvidos - e as sequências de flashback de Barry na guerra, nos auxiliarão a compreender quais os seus traumas e, consequentemente, as suas motivações. Melhorando a cada temporada, a série chega a terceira em seu auge - o que pode ser comprovado pela hilariante sequência em que o protagonista utiliza um aplicativo para detonar uma bomba (sem muito sucesso) ou mesmo na ótima cena em que Sarah descobre que o show que ela protagoniza é cancelado pela plataforma de streaming que detém os direitos, apenas 12 horas depois de lançado (o que evidencia a dinâmica cruel da busca incessante por cliques que move a indústria de consumo moderna de cultura). Ninguém quer ter, afinal, uma sentença de morte decretada nesse meio. Mas, para evitá-las será necessário mais do que grandes interpretações.


quinta-feira, 5 de maio de 2022

Picanha em Série - Alguém em Algum Lugar (Somebody Somewhere)

De: Jay Duplass e Robert Cohen. Com Bridget Everett, Jeff Hiller, Murray Hill e Mike Hagerty. Comédia / Drama, EUA, 2021, 190 minutos.

Filmes e séries sobre desajustados sociais tentando se encaixar nesse mundo costumam render ótimas histórias - como comprova Alguém em Algum Lugar (Somebody Somewhere), uma das estreias do semestre na HBO Max. Com apenas sete episódios, a minissérie nos conduz ao coração dos Estados Unidos - mais precisamente no Estado do Kansas -, onde somos apresentados à Sam (a ótima Bridget Everett) mulher de meia idade que vive uma vidinha ordinária em uma cidade pacata, daquelas típicas do interior. De luto pela morte de uma de suas irmãs - em circunstâncias não muito claras -, Sam alterna sua existência entre um trabalho não muito empolgante e os conflitos familiares que envolvem sua irmã mais nova Tricia (Mary Catherine), seu pai Ed (Mike Hagerty) e sua mãe Mary Jo (Jane Drake Brody), gravitando também em seu entorno o cunhado Rick (Danny McCarthy) e outras figuras excêntricas.

Produzida pelos irmãos Jay e Mark Duplass (aliás, foi o que me atraiu para a série), a atração faz lembrar os filmes de Todd Solondz, mas com um pouco mais de otimismo. Sam, por exemplo, a despeito da mesmice e da resignação de seus dias, parece encontrar uma motivação para viver quando faz amizade com Joel (Jeff Hiller), colega de trabalho que se apresenta como um antigo colega de classe da protagonista. Aos trancos e barrancos eles vão vivendo, persistindo e encontrando na paixão pela música um ponto em comum - e não é por acaso que sequências como aquela em que a dupla canta Piece of My Heart da Janis Joplin sejam tão evocativas já que, ao cabo, a série nos faz lembrar que a arte também serve para nos socorrer nos momentos mais desalentadores. Aliás, há no último episódio uma outra sequência daquelas para guardar no coração, com Sam e Joel, acompanhados também de Fred (Murray Hill), entoando mais uma linda canção.

Sim, em um ou outro momento bate aquele sentimento de "ok, pra onde esse negócio vai me levar, afinal?", mas quando a gente percebe está rindo e se emocionando com aquelas figuras tão deslocadas, tão à margem, apenas por não se encaixarem em um certo padrão. Ou, minimamente, por não agirem como o esperado. Tricia, por exemplo, paga vale como representante da família de bem, temente à Deus, empresária de uma pequena loja de quinquilharias, que sequer percebe que o próprio marido (que às vezes mais parece o filho) a trai com a sua sócia. Todos eles arrogados como bastiões da moral e dos bons costumes. É esse tipo de incongruência que denuncia a hipocrisia da pequena cidade, da vida em comunidade, que se sobressai em cada fresta da narrativa, que aproveita seus acontecimentos pouco convencionais para discutir temas distintos, como, poder da amizade, culpa católica, vida de aparências e fuga do passado - com um olhar de incertezas para o futuro.

E, nesse sentido, é difícil não se identificar. Alternando ótimas piadas travestidas de comentários sociais - como na cena em que Sam e Fred estão decidindo em qual igreja entrar, se deparando com quatro opções distintas na mesma quadra -, com fragmentos mais comoventes, como os encontros recheados por música, a série é um prodígio sobre dizer muito, com pouco. Há uma mistura de vidas rurais - e de agricultura mesmo -, que se entranham em famílias conservadoras que vão se colidindo até encontrar força para persistir na amizade, nos encontros inusitados, no aleatório que dá cor a experiência. É algo trágico, sensível, nostálgico e engraçado em medidas iguais, condição ampliada pela fotografia empastelada, pelos figurinos interioranos e opacos e pelo comportamento geral meio torpe. Mas quando a gente vê já tá encantado e torcendo para que todos aqueles desajustados se encontrem no caminho. Nunca é tarde, afinal, para (re)começar. E sair da letargia dos dias.

Nota: 8,0


sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Picanha em Série - Mare of Easttown

De: Craig Zobel. Com Kate Winslet, Julianne Nicholson, Evan Peters, Jean Smart, Guy Pearce e Angourie Rice. Drama, EUA, 2021, 440 minutos (sete episódios).

Mare of Easttown é mais uma daquelas minisséries da HBO Max ideais para maratonar em um final de semana. Com apenas sete episódios de cerca de uma hora cada, a atração protagonizada por Kate Winslet - que, aliás, ganhou o Emmy pelo papel -, é mais uma daquelas que mistura drama familiar com suspense policial. Aliás, a plataforma de sreaming tem se especializado em utilizar um microcosmo - nesse caso uma pequena cidade do interior da Filadélfia em que absolutamente toda a população se conhece (ou até é parente entre si) -, para chafurdar nos segredos daquelas famílias que, apenas nas aparências, se comportam bem, frequentam a Igreja, possuem um caráter ilibado, sólido. E, a gente já tá careca de saber que, em muitos casos, o "cidadão de bem" raiz costuma ser um poço de hipocrisia. Sempre pronto a apontar o dedo para os problemas ou os erros dos outros, mas incapaz de olhar para os seus próprios equívocos. O castelinho de cartas, assim, não demora a desmoronar.

Na trama Kate Winslet é a Mare do título. Mulher de expressão eventualmente cansada e invariavelmente triste, atua como detetive, sendo uma das responsáveis por investigar, sem muito sucesso, o desaparecimento de uma jovem. Em meio ao burburinho provocado pela falta de efetividade policial - a mãe da moça desaparecida age de forma parecida com a da personagem de Frances McDormand em Três Anúncios Para Um Crime (2018) -, a situação se complica ainda mais quando outra jovem, de nome Erin (Cailee Spaeny), é encontrada morta, em meio a um matagal, após uma noite de festa. Um vídeo que viraliza aponta para um ato de violência que teria ocorrido pouco antes do crime, na noite anterior, envolvendo um grupo de jovens. Teriam eles conexão com o caso? Seria apenas uma coincidência? Por que Erin teria ligado para o pároco local antes de ser morta? E qual a participação de Dylan (Jack Mulhern), ex-namorada de Erin nessa história? São muitas as perguntas sem resposta. E sabe o que é pior e mais incrível ao mesmo tempo? As dúvidas só aumentarão!

E tudo isso por causa da ampla rede de relações interpessoais que existem nessa comunidade. Todos se conhecem. Todos são vizinhos, primos, amigos de todos. Há uma desconfiança meio generalizada. O que parece uma verdade absoluta agora, no instante seguinte já não é mais uma certeza. O possível criminoso do momento, perde força assim que uma nova prova surge. Enquanto Mare, as turras, se esforça para chegar a alguma conclusão, um novo desaparecimento acontece. Ao mesmo tempo em que ela precisa lidar com os próprios demônios. Os próprios traumas que estão guardados a sete chaves. É aquele tipo de narrativa que funciona porque vai nos dando as pistas aos poucos. De forma tópica. Uma atitude meio suspeita aqui. Um comportamento meio curioso ali. Uma arma que some e reaparece. Uma bicicleta que deveria estar no local do crime. Uma atitude extremada que quase resulta em uma nova tragédia. É o Estados Unidos pós-Trump em forma de minissérie. Tentando lamber suas feridas. Recomeçar. Em meio aos destroços, a devastação, às decisões equivocadas ou precipitadas.

Nesse combo há uma série de personagens secundários e relevantes para a trama, como a mãe de Mare, Helen (a ótima Jean Smart), o eu ex-marido Frank (David Denman, o eterno Roy de The Office), a melhor amiga Lori (Julianne Nicholson) e o interesse romântico Richard, um professor universitário vivido por Guy Pearce. Há ainda um segundo detetive designado para o caso de Erin chamado Colin Zabel (Evan Peters) que, em alguns casos, e dado o provincianismo da população local, parece mais atrapalhar do que ajudar. As discussões são variadas, passando por temas como maternidade, porte de armas, abuso de drogas, pedofilia, incesto, entre outros. Sim, é eventualmente pesado. E tenso em praticamente todos os minutos, com uma resolução daquelas de nos fazer saltar do sofá. Aliás, são muitas as surpresas do roteiro. Com ganchos que nos mantém com os olhos grudados na tela. Tudo isso talvez explique as 16 indicações para os prêmios Emmy - com quatro vitórias - obtidas pela atração dirigida por Craig Zobel que, dizem, poderá ser renovada para uma nova temporada. É aguardar.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Picanha em Série - The White Lotus

De: Mike White. Com Sydney Sweeney, Alexandra Daddario, Jake Lacy, Murray Bartlett e Jennifer Coolidge. Comédia dramática, EUA, 358 minutos, 2021.

Após assistir The White Lotus - mais uma dessas joias oferecidas no catálogo da HBO Max -, eu só posso dizer muito obrigado. Muito obrigado à plataforma de streaming por nos possibilitar acesso a tantos conteúdos de qualidade, como essa minissérie dirigida por Mark White. Como em muitos outros materiais semelhantes, o que rege a narrativa aqui é a mesquinharia, a futilidade e a hipocrisia das classes mais abastadas. A trama toda se passa num resort de luxo no Hawai e, de maneira bem resumida, trata das complexas relações - de poder, inclusive - entre os turistas e os empregados do local. E sobre como o privilégio branco se perpetua e se retroalimenta de uma forma praticamente infinita, com os ricos demonstrando uma insatisfação permanente, mesmo quando envolvidos em férias suntuosas, em locais paradisíacos. Sabe o tiozinho classe média que dá carteiraço por ter algum carguinho em algum órgão ou instituição meia boca e que se dá uma importância maior do que realmente tem? Bom, ele faria uma figuração perfeita nessa série.

Aliás, nesse sentido é uma série que nos gera o tempo todo um sentimento de profunda vergonha alheia, especialmente por não estabelecer limites no comportamento desconfortável, individualista e ordinário daqueles que acompanhamos. Por exemplo, um dos personagens, Shane (o ótimo Jake Lacy) está em lua de mel no resort. A despeito de estar bem instalado em um hotel à beira da praia, com piscina e tudo do bom e do melhor - pago com o dinheiro da mãe endinheirada (Molly Shannon) -, Shane não consegue saborear a experiência pelo fato de acreditar estar sendo enganado pela gerência do local (que o teria instalado em um quarto que não estaria plenamente de acordo com aquele que foi contratado). Mas aqui não estamos falando de um quarto ruim, ou mal situado. É um espaço amplo, confortável, com deck e vista para a praia, com mobiliário bonito, roupas e banheiros limpos. Mas o jovem encafifa que a instalação contratada pela mãe foi outra: premium. A mais gold de todas. E que lhe diferenciaria, portanto, em relação aos demais frequentadores do local.

Parece meio bizarro que Shane não consiga relaxar em momento algum e que se comporte dessa maneira por quase a totalidade do tempo? Não. Não, se pensarmos em como se age a nossa elite, que, em muitos casos, é incapaz de pensar no bem-estar coletivo - salvo as raras exceções em que participam de alguma ação de caridade na igreja do bairro (ou no Rotary) e que certamente não passará batida pelos discursos laudatórios da mídia. Acompanhando Shane, a bela esposa Rachel (Alexandra Daddario) se torna uma figura apagada. Jornalista de formação, é proibida pelo marido de trabalhar. Ainda mais como freelancer. Em uma pauta que ele próprio considerava ridícula. Assim, se torna a mera esposa troféu, que é levada pra lá e pra cá, enquanto o marido truculento sapateia pelo local, perseguindo de maneira quase enlouquecedora o gerente Armond (o maravilhoso Murray Bartlett) que, com um sorriso permanente no rosto, parece sempre disposto a atender os caprichos dessa burguesia vazia, infantilóide, solitária e infeliz.

E aqui eu estou falando de um recorte - e um arco narrativo - de uma série que possui ainda muitas outras camadas, e mais um outro tanto de figuras patéticas. Há a solteirona depressiva de terceira idade, que pretende jogar as cinzas da falecida mãe castradora no mar (Jennifer Coolidge), há o casal de meia idade em crise, que parece ser progressista só no discurso (Connie Britton e Steve Zahn) e que está o tempo todo em guerra com os filhos adolescentes (Sydney Sweeney e Fred Hechinger). Há os empregados que precisam lidar com os caprichos - e as loucuras - do local. Colocar em palavras a complexidade dos temas debatidos em The White Lotus é reduzir o impacto de discussões que podem ir de sexualidade reprimida e racismo estrutural, passando por abuso de poder (e de medicamentos) e até a misantropia dos nossos tempos. E tudo ainda embalado por uma trilha sonora maravilhosa, uma edição dinâmica e uma fotografia de cores quentes, que contribuem para a ampliação da sensação "febril" que parece nos envolver enquanto acompanhamos essa trama tão engenhosa. Vale cada fragmento. Cada segundo. Quase esqueço de comentar: ainda há o mistério que envolve uma morte. Pra quem gostou de Big Little Lies e Years and Years poderá ser mais uma ótima sessão. 

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Picanha em Série - The Flight Attendant

De: Batan Silva, Glen Winter, John Srickland, Marcos Siega, Susanna Fogel e Tom Vaughan. Com Kaley Cuoco, Michiel Huisman, Michelle Gomez e Rosie Perez. Drama / Comédia / Thriller, EUA, 2020, 340 minutos.

Vamos combinar que, não fossem as indicações ao Emmy e talvez The Flight Attendant passasse meio batida. Sim, é uma produção da HBO Max - o que costuma ser sinônimo de qualidade. Tem a Kaley Cuoco como protagonista - finalmente se vendo livre de encarnar a Penny de The Big Bang Theory. E ainda há a trama meio inusitada, um suspense meio rocambolesco à moda de um Hitchcock no aeroporto, com direito a assassinatos, flashbacks e um curioso senso de humor. A trama nos apresenta à comissária de bordo Cassie (Cuoco), uma alcoólatra que ocupa o seu tempo entre um voo e outro se relacionando com caras aleatórios. Em um desses encontros fortuitos, em uma noitada em Bangkoc, na Tailândia, ela conhece um certo Alex Sokolov (Michiel Huisman), passando a noite com ele. Após acordar com uma pesada ressaca, ela se depara com Alex morto na cama, ao seu lado, com um corte na garganta. Ela não lembra de nada. E resolve fugir, com medo da polícia, em um País que não tem lá uma fama muito boa quando o assunto é o sistema prisional.

A partir daí, a série de oito episódios se transforma num pequeno jogo de gato e rato, com Cassie tentando montar o quebra-cabeças que possa solucionar o que teria acontecido naquela noite. Ao mesmo tempo, o FBI passa a investigar a aeromoça, especialmente após ela tentar fugir na chegada aos EUA. Nas memórias da protagonista, o caos se estabelece. Permanentemente alcoolizada, as suas lembranças sobre os eventos no hotel surgem de forma episódica, com Alex "retornando à vida" para tentar auxiliá-la - o que, em muitos casos, confere a produção um clima exoticamente surrealista - tão violento quanto onírico. Também entra em cena, a melhor amiga da Cassie, a advogada Annie (a ótima Zosia Mamet) - um tipo de relação instável, repleta de segredos não revelados. E há ainda a colega de trabalho Megan (Rosie Perez), que parece ter uma vida dupla que envolve receptação de drogas, tráfico de informação e outros crimes.

Trata-se, ao cabo, de uma colcha de retalhos que segue o fio condutor da narrativa. E que é completado pela misteriosa Miranda (Michelle Gomez), que surge de forma difusa nas memórias de Cassie e que pode ser a chave para que os eventos ocorridos na Tailândia possam ser esclarecidos. É uma trama que parece complexa, mas que se desenvolve de forma fluída, em meio a doses cavalares de vodka e traumas de infância que vão sendo, aos poucos, esclarecidos. Especialmente no que diz respeito a complicada relação da protagonista com seu irmão Davey (T.R. Knight), um homossexual que sempre foi "renegado" pelo pai violento e conservador e que tenta uma aproximação com a irmã, a despeito de Cassie parecer uma figura tão egoísta quanto solitária (e as memórias de infância de ambos nos deixam, invariavelmente, com um gosto amargo na boca, condição que é ampliada pelo belíssimo desenho de produção e pela fotografia de saturação baixa, que reforçam o caráter melancólico de cada flashback).

E é por isso tudo que eu considerei meio curiosas as nominações ao Emmy nas categorias de comédia já que, em muitos casos, a série não é nada engraçada. Pelo contrário, debate sem falsos moralismos, temas como o alcoolismo (e o quão instável emocionalmente Cassie se torna a partir de seu hábito), a mitomania - a cena em que Cassie e Annie constatam a existência repleta de mentiras em que vivem é apenas melancólica -, os traumas de infância e a irresponsabilidade emocional. Com ótimas interpretações, a série escavoca os segredos da família de Alex, numa trama que envolve ainda grandes corporações e crimes como lavagem de dinheiro, empresas de fachada e espionagem corporativa. Tudo embalado num clima meio de realismo fantástico, com direito a coelhos gigantes que surgem inesperadamente e "mortos que falam" sem problema algum. Renovada para o segundo ano, foi uma das surpresas da temporada. É aguardar quais os caminhos que a série tomará, após as reviravoltas vistas nos capítulos finais.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Picanha em Série - Hacks

De: Desiree Akhavan, Lucia Aniello e Paul W. Downs. Com Jean Smart, Hannah Einbinder e Carl Clemons-Hopkins. Comédia, EUA, 2021, 310 minutos.

Eu confesso a vocês que tenho assistido poucas séries - dado o investimento de tempo necessário pra que acompanhemos esse tipo de produção. Mas fui atraído por Hacks não apenas pelo hype, mas também por ser uma comédia da HBO Max de apenas 10 episódios, de cerca de meia hora cada. Ou seja, algo relativamente tranquilo pra quem gosta de maratonar algo no final de semana. E, sinceramente, eu não paro de me impressionar com a HBO, já que Hacks é simplesmente espetacular. Da sua premissa, passando pelas piadas (e pelo roteiro engenhoso), tudo é divertido e leve, deixando espaço para algumas reflexões sobre temas como, feminismo, papel da mulher na sociedade, busca desenfreada pelo capital e conflitos geracionais. Indicada ao Emmy, Jean Smart dá vida a Deborah Vence, uma veterana comediante de formato stand up que, próxima dos setenta anos de idade, precisar oxigenar a sua carreira, que parece estar em decadência. É aí que ela contrata, meio a contragosto, a jovem Ava (Hannah Einbinder), com a intenção de atualizar o seu repertório de piadas. E, bom, se essa premissa por si só já é ótima, imagina o resto!

Como de praxe nesse tipo de produção, essa será a história a respeito de duas pessoas que são completamente opostas uma da outra que, aos poucos, se aproximarão, estabelecendo algum tipo de amizade. Sim, Deborah se torna a "patroa" meio involuntária de Ava, uma jovem meio petulante que, nos dias atuais, seria aquela cruza entre as gerações Z e millenial. Desse contraste, brotam algumas das grandes sacadas de Hacks. Mas também muitos momentos emocionantes - como aquele em que, no terceiro episódio, a jovem resgata materiais antigos da veterana (guardados em um porão), para se dar conta do pioneirismo desta em um universo povoado não apenas por homens, mas por homens misóginos, toscos e abusivos. Sim, Ava, como muitas jovens, tem o ímpeto de mudar o mundo, tornando-o um espaço mais adequado para as mulheres. Só que ela parece esbarrar apenas na "força do discurso", enquanto a sua atual empregadora, por mais eventualmente espalhafatosa que ela possa parecer, exercitaria esses ideias na prática, nos ainda ultraconservadores anos 70.

E isso, no fim, fará com que elas percebam que, sapatos de salto alto e tênis street a parte, elas não são assim tão diferentes. E admito que vê-las, em uma das primeiras sequências juntas, atacando uma a outra com as mais bárbaras agressões em formato de piadas irônicas (e baixas) é um dos grandes instantes da temporada. E que dá conta dessas semelhanças entre ambas. As épocas são diferentes mas, ao cabo, as intenções seguem as mesmas. E, conforme Ava mergulha no universo de Deborah, a jovem passa a mudar também o olhar para si, para os seus comportamentos e hábitos. Sim, pagar boletos, tomar café da manhã e utilizar hashtags pode ser cringe para essa as novas gerações. Mas vergonha alheia MESMO é ficar perguntando se o restaurante oferece leite de soja com o objetivo de pagar de ambientalista. Oi? Soja? E, nesse sentido, a série é certeira em seus comentários sociais, deixando espaço para a critica à "militância de sofá", representada pelo jovem que questiona comportamentos do passado, mas que os reproduz no presente (ainda que, sob outros formatos).

Alternando momentos engraçadíssimos, com outros mais comoventes, a série ainda é perspicaz ao se apropriar das mais variadas referências culturais para fazer graça - e, eu particularmente adoro a metalinguagem como característica. É o caso, por exemplo, do momento em que alguém revela o fato de certa pessoa estar trabalhando em um filme do Richard Linklater, mas que o resultado disso só será sabido em 12 anos. Fora isso há espaço para citações à Thelma e Louise (1991), Liberace, Selena Gomez que surgem de forma natural, enquanto a dupla central convive com outras figuras que influenciam diretamente em suas vidas - caso do ótimo assistente de Deborah, Marcus (Carl Clemons-Hopkins), do produtor Jimmy (Paul W. Downs) e da filha da comediante DJ (Kaitlin Olson). E, no mais, eu dispensaria a destrambelhada Kayla (Megan Stalter), que parece ter sido escalada apenas pra fazer o papel da "gordinha atrapalhada". Renovada para a segunda temporada, a série abocanhou diversas indicações ao Emmy, entre elas na categoria Série de Comédia. A premiação ocorre em 19 de setembro e, não vamos negar, já tem a nossa torcida!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Picanha em Série - O Gambito da Rainha (The Queen's Gambit)

De: Scott Frank. Com Anya Taylor-Joy, Harry Melling, Thomas Brodie-Sangster e Marielle Heller. Drama, EUA, 2020, 393 minutos.

Depois de muita resistência, em parte pelo ranço causado pelo hype insistente nas redes sociais (motivo pelo qual ainda não assisti produções renomadas como Game of Thrones e The Crown, por exemplo), em parte pelo total desinteresse por uma obra que retrate jogos de xadrez, decidi assistir à minissérie protagonizada pela maravilhosa Anya Taylor-Joy, (Fragmentado, Emma) na qual interpreta uma jovem enxadrista, órfã, atormentada pelo alcoolismo e por seu vício em calmantes. É preciso admitir que esta produção da Netflix consegue, em apenas oito episódios, entregar o que seja, talvez, o melhor drama de 2020.

Baseado no romance homônimo de Walter Tevis, publicado em 1983, O Gambito da Rainha (The Queen's Gambit) narra a história de Elizabeth Harmon, partindo desde a perda da mãe, o que a leva para um rígido orfanato, até a sua juventude, enquanto caminha para se tornar uma das maiores jogadoras de xadrez do mundo. O enredo, apesar de bastante simples, consegue transmitir ao público todo o glamour e complexidade dos anos 60 nos Estados Unidos. O visual da produção é encantador ao retratar a estética norte-americana da época, a moda, os carros, as decorações dos lares suburbanos, os uniformes colegiais e toda a ambientação de um povo que parecia não conseguir viver sem a possibilidade de um drink e um cigarro. Contudo, o maior valor da produção não reside em questões técnicas ou externas, mas na sensibilidade da protagonista e nas relações que são construídas ao seu redor. 



Beth Harmon passou boa parte da sua infância acostumada a passar suas noites em um quarto coletivo, com outras inúmeras órfãs, precisando agir e vestir-se da forma como todas eram ensinadas, afinal, alguém só iria adotá-la se seguisse um determinado padrão de boas notas e bom comportamento. O primeiro choque de realidade se dá quando Beth percebe que todas as jovens dali, sem exceção, deveriam tomar dois comprimidos, uma vitamina e um calmante. Dessa forma, o instituto exercia um poder de controle sobre as moças que ali estavam. Este também é o motivo pelo qual Jolene (Moses Ingram) se aproxima de Beth e, juntas, começam a criar um bonito laço de amizade. A jovem amiga de Beth, única negra no orfanato e, portanto, com menores chances de encontrar um lar, é uma óbvia referência ao racismo estrutural. É neste cenário, entre uma aula de canto e um um vídeo sobre boas maneiras, que Beth vai ao porão e vê o zelador Mr. Shaibel (Bill Camp), homem silencioso e solitário, jogando uma partida de xadrez. Aquele tabuleiro quadriculado e aquelas peças seguindo movimentos rígidos encantam a menina que, pela primeira vez na vida, consegue ver algum tipo de ordem, uma possibilidade de controlar algo no mundo.

Fora do orfanato depois de ser adotada por um casal americano em crise, Beth vê uma janela para poder seguir uma carreira no xadrez, mas é constantemente confrontada por um ambiente totalmente masculino e descrédulo, que não admitiria ter uma mulher como a melhor em um jogo amplamente dominado por homens. É em meio às várias disputas que a produção prende o espectador com cenas por vezes angustiantes, mas que transmitem toda a complexidade e, quem diria, emoção de um esporte que parece ser frio e calculista, apenas. A cada olhar penetrante dos jogadores, a cada nova estratégia utilizada pelo oponente, a cada movimento de peças somos levados a um universo peculiar e desconhecido, que gera hoje, no mundo, um crescimento exponencial na busca de filmes, livros e acesso aos sites de jogos de xadrez. As sequências nos torneios nos deixam apreensivos e preocupados com o rumo de partidas que, convenhamos, ninguém está entendendo.

Infelizmente Beth Harmon é apenas uma personagem. Porém, todo o processo de amadurecimento e conquista de perspectiva sobre o que realmente importa na vida é assustadoramente real. A personagem é daquelas que nos fazem lamentar a sua não existência em “carne e osso”, aqui, no nosso mundo. Apesar de todas as dificuldades enfrentadas para construir a sua brilhante carreira, Beth sofre, sobretudo, com os relacionamentos, seja com sua nova família (que nos presenteia com uma atuação brilhante e muito sensível da sua mãe adotiva), seja com seus colegas e oponentes enxadristas. A menina que aprendeu a se virar sozinha na infância precisa conviver com seus pares, aprender as nuances de cada personalidade e entender o que é preciso para ser realmente feliz: estar aberta aos outros, rir, chorar, beber e construir uma família, ainda que não seja somente de sangue. Isso ocorre de forma genial ao longo da minissérie, concluindo a narrativa com uma das cenas mais tocantes de 2020, sem sombra de dúvidas.

Ao unir fantasia, vícios, amores e uma realidade brutal, “O Gambito da Rainha” atinge o seu objetivo de forma plena e tocante. Não vou me abster do óbvio clichê: a obra é certeira, um verdadeiro xeque-mate. 


 


quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Picanha em Série - Pequenos Incêndios Por Toda a Parte (Little Fires Everywhere)

De: Lynn Shelton, Michael Weaver e Nzingha Stewart. Com Kerry Washington, Reese Whiterspoon e Joshua Jackson. Drama, EUA, 2020, 465 minutos.

Não li o incensado livro Pequenos Incêndios Por Toda a Parte (Little Fires Everywhere), mas a minissérie que adapta a obra da escritora norte-americana Celeste Ng - e que está disponível na plataforma de streaming da Amazon Prime -, é simplesmente imperdível. Trata-se de mais um daqueles dramas familiares, com uma narrativa que intercala idas e vindas no tempo, que revelarão personagens tomando decisões moralmente duvidosas praticamente o tempo inteiro. Tudo embalado por uma forte carga emocional, que vem a reboque de traumas do passado que precisarão ser superados, enquanto temas relevantes como racismo, sororidade, contrastes sociais, romantização da maternidade, xenofobia, poder transformador das artes e bullying são discutidos. E tudo isso sendo apresentado de forma fluída, com o impacto sendo gerado aos poucos e conforme a história distribuída em oito episódios se desenrola.

Tudo começa com um... incêndio. Os bombeiros explicam o caráter excêntrico da origem do fogo: pequenos focos por toda a parte. Como se gerado deliberadamente, premeditadamente. Enquanto os familiares se compadecem entre si, a história volta quatro meses no tempo para nos apresentar a Elena Richardson (Reese Whiterspoon), dondoquinha que vive uma vida de luxo e de abundância, numa espécie de híbrido de dona de casa - que precisa cuidar de quatro filhos já na adolescência -, com jornalista ocasional, que escreve histórias para um semanário local. Com uma suntuosa casa em Shaker Heights, que ela divide com o marido, o advogado Bill (Joshua Jackson), ela resolve alugar por um preço mais baixo do que o do mercado a outra residência da família. A locatária é a artista itinerante Mia Warren (Kerry Washington), que mora em um carro velho com a filha Pearl (Lexi Underwood). Aquilo que ela acredita ser um gesto quase filantrópico, será o início de uma escalada vertiginosa de acontecimentos que, aos poucos, abalarão o idílio que todos pretendiam estar envolvidos.


Figura misteriosa, Mia parece ter uma série de segredos relacionados ao passado. Mesmo sendo artista plástica de talento, parece nunca ter "acontecido". E por quê a insistência em viver uma vida nômade? Do que exatamente ela "foge"? Quem é o pai de Pearl e o que teria acontecido com ele? De alguma forma, essas dúvidas instigarão Elena a fazer uma verdadeira investigação sobre o passado de sua mais nova locatária. Pior, como forma de se aproximar ainda mais dela, a convidará para trabalhar em sua casa, dando a desculpa da oportunidade de ampliar os rendimentos. E os trabalhos poderão ser diversos: da preparação prosaica de refeições até a realização de fotografias em eventos bem típicos da burguesia (caso do aniversário de um ano da filha de uma amiga de Elena). Aliás, o aniversário em questão será simplesmente bombástico, o que nos arremessará para o passado de todos ali envolvidos, nos apresentando ainda uma personagem importante dentro da narrativa - no caso, a jovem garçonete Bebe Chow (Lu Huang), uma imigrante ilegal que trabalha no mesmo restaurante de Mia (ela intercala turnos).

E enquanto os "adultos" vão desnovelando um verdadeiro rocambole de fatos escabrosos que culminarão no inacreditável episódio final - com direito a cenas em um tribunal -. os jovens também vão vivendo seus dramas. Pearl respeita a sua mãe, mas não entende muitas coisas que acontecem em sua vida, o que lhe colocará em pé de guerra com ela um sem fim de vezes. Já a jovem Izzy (a ótima Megan Stott) não suporta a vidinha de faz de contas, organizadinha, com direito a fotinho de família padronizada que Elena pretende que todos ali vivam. Aliás, Izzy sonha em ser artista, em usar as roupas e o cabelo como queira e em viver sua sexualidade da forma que bem entender. Aliás, nenhum dos filhos de Elena pode viver como quer. E talvez nem ela, com seus quatro filhos e uma vida luxuosíssima, mas cheia de frustrações, talvez tenha vivido como efetivamente tenha sonhado. E os eventuais encontros com um namorado do passado, poderão ser o indicativo de pendências emocionais difíceis de serem superadas.

Trata-se ao final de uma série cheia de complexidades, bem conduzida, sem nenhum tempo para a "encheção de linguiça". Ao contrário, praticamente todas as sequências têm significado, mesmo que ela envolva a aparição aleatória de alguma personagem inesperada - como o homem que aparece nos pesadelos misteriosos de Mia -, ou algum tipo de provocação artística como aquela envolvendo bonecas e pretendida por Izzy na escola. Quem gosta de dramas familiares vai se deleitar. Aliás, a série caiu nas graças também da crítica e, mesmo tendo saído de mãos abanando da mais recente edição do Emmy, viu Kerry sendo indicadas na categoria Atriz em Minissérie ou Filme Para a TV. Já Reese, depois de Big Little Lies, parece que se especializou em interpretar a bitchiezinha fútil, que quer ver o circo pegar fogo. Ou a casa pegar fogo. Ou tudo incendiar. Afinal, o fogo, o ardor, a tensão das chamas, real ou não, pode ser também uma bela metáfora para o caos que parecerá sempre pronto a se instalar em Shaker Heights.

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Picanha em Série - I Know This Much Is True

De: Derek Cienfrance. Com Mark Rufallo, Melissa Leo, John Procaccino, Rosie O'Donell, Kathryn Hann, Juliette Lewis, Archie Panjabi e Rob Huebel. Drama, EUA 380 minutos, 2020.

"O amor cresce do perdão.
Da destruição vem a renovação.
A evidência de Deus existe nas nossas conexões uns com os outros."

Vamos combinar que a equação drama familiar + série da HBO dificilmente dá errado - e não é diferente com a absurdamente melancólica I Know This Much Is True. Dirigida poe Derek Cienfrance (dos dolorosos filmes Namorados Para Sempre e O Lugar Onde Tudo Termina), a minissérie é daquelas para deixar um gosto amargo na boca, tamanha a quantidade de tragédias por metro quadrado que se descortinam em tela. Aliás, por mais contraditório que isso possa parecer, ela combina direitinho com esse 2020 em que o sofrimento devastador parece não ter fim. A trama nos devolve para o começo dos anos 90, onde acompanharemos a vida dos irmãos gêmeos Dominick e Thomas Birdsey (ambos vividos por Mark Rufallo). Thomas parece sofrer de esquizofrenia e a série inicia com um episódio bastante traumático, onde o sujeito, numa espécie de surto que mistura extremismo religioso e teoria conspiratória, decepa o próprio braço, em meio a uma biblioteca lotada.

Este episódio será o ponto de partida para que compreendamos a natureza da relação conturbada dos dois irmãos e da relação deles com sua mãe (Melissa Leo) e com seu autoritário padrasto Ray (John Procaccino). Com uma doença terminal, a mãe morre deixando para Dominick um manuscrito escrito em italiano por seu avô e que poderá ser a chave para que segredos do passado possam ser esclarecidos. Enquanto pede a uma intérprete (vivida com a habitual excentricidade por Juliette Lewis), o sujeito tenta amparar Thomas, que, após o episódio do braço decepado acaba indo parar em uma prisão convencional - e não no instituto psiquiátrico que vinha sendo tratado. Por se sentir responsável pelo irmão, a situação gerará em Dominick uma profunda angústia - o que ele tentará, em partes, sanar com a ajuda de uma assistente social (Rosie O'Donell, muito bem em um papel sério) e com uma psiquiatra (Archie Panjabi).


Por que o que ocorre, afinal, é que, aos poucos, perceberemos que não apenas Thomas tem os seus problemas, os seus demônios: Dominick também os tem. E guarda uma mágoa e uma revolta que o faz explodir inclusive com as pessoas que ele ama, caso da ex-esposa Dessa (encarnada com a competência de sempre pela Kathryn Hahn). Aliás, parênteses: vocês estão vendo os nomes do elenco, né? E este acaba sendo um atrativo a parte, com nomes que emprestam envergadura ao projeto, que conta ainda com o multitarefas Rob Huebel (que aqui é o ex-cunhado, vendedor de carros e postulante a ator) e com a namorada de Dominick, Joy (Imogen Poots). Mas quem brilha mesmo é Rufallo, que constroi ambos os irmãos com suas características e personalidades próprias, nos fazendo crer que a dupla poderia de fato existir. Com temperamento intempestivo - especialmente pelo fato de o mundo não lhe sorrir -, Dominick é o oposto de Thomas, que em seu mundo particular surge inseguro e permanentemente amedrontado (apesar de ser bem mais obeso que o irmão). Aliás, as mudanças físicas de um para o outro são quase impactantes.

E se as interpretações renderiam horas e mais horas de elogios, o mesmo pode-se dizer da parte técnica. A fotografia granulada e empalidecida reforça o caráter sorumbático do projeto, bem como a melancolia permanente daquilo que assistimos. Já o desenho de produção contribui para que encaremos a recriação dos anos 90 com realismo, completado pela trilha sonora que nos permite aqui e ali ouvir músicas como Cherish da Madonna, ou Drive do The Cars - esta última que servirá de trilha sonora para um dos instantes mais comoventes da narrativa. Aliás, "instantes comoventes" é o que mais tem na série, que discute desde relações familiares, passando por traumas, consequências de nossas escolhas, luto e capacidade de persistir e de superar obstáculos, até chegar ao perdão. Aliás, "perdão" será quase uma palavra-chave nos momentos decisivos da série, especialmente uma impactante sequência envolvendo um velório. Servindo como microcosmo de algo maior que ocorre em nossa sociedade - tão individualista quanto hipócrita -, a série ainda pontua questões políticas, sociais, culturais e religiosas que podem TAMBÉM influenciar as nossas atitudes. Ou como seremos como pessoas, como sujeitos. É uma série pequena, com apenas seis episódios. Mas grande, enorme. Como as angústias daqueles que assistimos.

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Picanha em Série - After Life (Vocês Vão Ter Que Me Engolir)

Mais recente parceria do humorista britânico Ricky Gervais com a Netflix, a minissérie After Life - que recebeu no Brasil o horroroso subtítulo "Vocês vão ter que me engolir" - traz o criador da série The Office interpretando Tony, jornalista que, após perder a esposa vítima de câncer, vive um doloroso processo de luto onde a depressão decorrente torna sua existência - e das pessoas que o rodeiam - praticamente insuportável.

Quem conhece Gervais sabe que seu humor cáustico nem sempre é palatável, e não é surpresa ele usar um tema tão pesado para fazer suas piadas politicamente incorretas. No entanto, o que temos aqui é uma alta carga dramática com algumas pitadas de humor agridoce. Sim, há piadas que, não fosse a total liberdade dada pela Netflix a seu criador, jamais sairiam do papel - como aquela envolvendo uma criança, por exemplo. Já outras, envolvendo pessoas que fazem de tudo para "virar notícia" a serem publicadas no jornal da cidade, são absolutamente hilárias - e não cabe aqui revelá-las para não estragar parte do prazer em assistir à série.


Em episódios de vinte e poucos minutos somos apresentados a diversos personagens que, assim como nós, são influenciados pelo comportamento niilista e amargurado de Tony: o carteiro, o entregador de jornais viciado em drogas, uma "profissional do sexo", o pai portador de Alzheimer e a enfermeira que o cuida na casa geriátrica, seus colegas de trabalho, o chefe/cunhado, um terapeuta pouco convencional, o sobrinho, a viúva que sempre está no cemitério junto ao túmulo de seu marido, um homem com problemas mentais, dentre outros - galeria esta que me fez lembrar de filmes como Short Cuts e Magnólia, por exemplo. Mesmo não estando presente em "carne e osso", a personagem da esposa proporciona alguns dos momentos mais tocantes e divertidos da narrativa como, por exemplo, onde ela aparece em vídeo dando "instruções" para que o marido leve a vida adiante, e naqueles onde Tony aplica "pegadinhas" em sua amada - o que serve também para revelar o senso de humor peculiar do sujeito e também a relação entre os dois, algo importante para demonstrar a dimensão da perda e o porquê do mesmo tomar atitudes tão extremas e desesperadas.

Provavelmente o trabalho mais ambicioso de Gervais até o momento, After Life acerta o tom ao tratar de temas delicados e universais, demonstrando um enorme coração e muito carinho por seus vulneráveis personagens (muitos deles vivendo à margem da sociedade, diga-se). Quem segue o humorista pelas redes sabe de seu ativismo e seu apreço pelas pautas progressistas, o que certamente influencia no resultado e nas várias reflexões que, se por vezes parecem tropeçar em um sentimentalismo exagerado, na maior parte do tempo emocionam e instigam. Ademais, a trilha sonora que possui Elton John e Lou Reed - pra ficar só nestes dois - é boa pra caramba. Extrair gargalhadas e sorrisos das tragédias cotidianas é mais uma prova da importância do humor e da arte como catarse, tornando a existência algo menos doloroso para que, através da empatia, possamos cada um organizar a própria casa. E a partir disso, quem sabe, influenciar aqueles que estão ao redor.

  "A society grows great when old men plant trees, the shade of which they know they will never sit in."