quinta-feira, 30 de julho de 2026

Pitaquinho Musical - Fresno (Carta de Adeus)

Um disco que parece olhar com bastante carinho para os fãs de longa data, até mesmo por apostar em um estilo de rock mais cru, direto e sem firulas. Assim parece ser Carta de Adeus, décimo primeiro registro de inéditas dos gaúchos da Fresno. Deixando meio que de lado o caráter eletrônico e até dançante que marcaria trabalhos recentes como Vou Ter que Me Virar (2021) - reforçado pelo uso dos sintetizadores -, a banda adota o modo "menos é mais". O que significa preservar as letras existencialistas, os refrãos pegajosos e a mistura de gêneros como hardcore, emo e jangle pop, com um resultado bastante orgânico e que vai direto ao ponto em uma nova coleção de canções nostálgicas, agridoces e contemplativas. Aliás, algumas delas, como Logo Agora Que o Meu Mundo Girou e Tudo que Você quer já se inserem no panteão das grandes músicas de Lucas Silveira e companhia.

 


Em termos conceituais, a banda explicou nos materiais de divulgação que o álbum gira em torno de perdas, encerramentos e transformações - sejam elas em relacionamentos, fases da vida ou versões de si mesmo. Nesse sentido, o "adeus" é usado como uma metáfora muito mais ampla para despedidas, encerramentos de ciclos e a consciência de que qualquer encontro pode ser o último. "Tu nunca sabe se tá dizendo adeus ou se tu vai morrer amanhã", imagina Silveira em entrevista ao Correio 24 Horas. Já a ideia das cartas permite verbalizar aquilo que talvez não conseguíssemos dizer em voz alta, em um processo que dialoga ainda com a maturidade da própria banda, que já ultrapassa as duas décadas de carreira. "Ah, não vou mais desconversar / Não vou mais desprometer / Não há tempo pra perder / Nem pra mim nem pra você" divaga o vocalista em O Cantor e o Taxista, que parte de uma experiência real em uma letra sobre o sofrimento e de como ele pode ser relativo, se comparado ao de outras pessoas. É só um dos grandes momentos do disco.

Nota: 8,5 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Picanha em Série - O Segredo de Widow's Bay (1ª Temporada)

De: Katie Dippold. Com Matthew Rhys, Kate O'Flynn, Stephen Root e Dale Dickey. Suspense / Comédia, EUA, 2026, 400 minutos (aproximadamente).

Vamos combinar que a plataforma da Apple TV tem sido imbatível no quesito séries de qualidade - e não é diferente com a divertida, tensa e hypada O Segredo de Widow's (Widow's Bay), que faz aquela mistura de terror com suspense, que tem funcionado como um subgênero bastante efetivo, na atualidade. Como se fosse uma mistura de Ilha do Medo (2010) e Twin Peaks (1990 - 1991) - especialmente pela atmosfera enevoada e que evoca uma sensação de isolamento, de paranoia e de dúvida a respeito do que é real, sobrenatural ou psicológico -, com algumas pitadas de The White Lotus (2021 -) e de filmes como Tubarão (1975), a produção nos apresenta ao carismático e atrapalhado Tom Loftis (Matthew Rhys), prefeito da pacata Widow's Bay, uma ilha da Nova Inglaterra, que pretende instituir uma política de incentivo ao turismo. O que envolve tentar impressionar um jornalista do The New York Times, que vai até o local para escrever uma reportagem sobre aquele pacato e peculiar espaço.

E, enfim, a intenção de Tom pode ser a melhor possível, mas o grande problema é que muitos dos moradores acreditam que a ilha seja amaldiçoada, especialmente pelo amplo histórico de tragédias passadas, com desaparecimentos, mortes e casos bizarros que, inclusive, estão evidenciados no museu local. O que garante, aliás, sequências engraçadas, como aquela em que o prefeito tenta, de todas as formas, acobertar uma matéria sobre canibalismo (sim), que teria ocorrido décadas atrás no local. Mesmo com toda a controvérsia e com a ilha, aparentemente, despertando para o mal - não fica claro de quanto em quanto tempo isso ocorre, mas, mais adiante, entenderemos que o começo da maldição tem a ver com o fundador da cidade, um certo Richard Warren (Hamish Linklater) -, a reportagem é publicada e os turistas começam a chegar à ilha. Ao mesmo tempo em que tem início eventos estranhos, como o toque inesperado do sino da Igreja, uma névoa constante que se avizinha e o surgimento de inesperadas assombrações.

 


Alternando momentos mais cômicos, com outros de horror - como no momento em que o prefeito tem uma espécie de alucinação com Willy The Clown (um palhaço macabro) -, a série aposta em eventos simples, cotidianos, que farão a série de dez episódios evoluir. Por exemplo, no segundo episódio, os moradores da ilha instigam Tom a passar uma noite em uma pousada supostamente assombrada, como forma de garantir, de fato, que não há problema algum no local. E que não há motivo para medo. Já no quarto episódio, a excêntrica secretária de Tom, Patricia (a ótima Kate O'Flynn), que jura de pé junto ter se salvado de seres sobrenaturais no passado, resolve planejar a festa perfeita, como forma de mostrar que ela é uma ótima anfitriã (a despeito de ser uma figura desajeitada, introspectiva, burocrática e sem nenhuma graça). O que envolverá a utilização de um estranho guia de autoajuda cheio de clichês sobre o tema que, mais para frente, perceberemos ter outra função.

Outro personagem importante na série é Wyck (Stephen Root) que parece estar sempre um passo a frente no que diz respeito à famosa história da cidade, o que o faz entrar em conflito com Tom - especialmente por achar que a ilha está se "movimentando" e que aquele não seria um bom momento para receber turistas. Com idas e vindas no tempo, inclusive com um episódio que retorna ao século 18, para mostrar como se originam às tormentas e quais os sacrifícios necessários para que os habitantes sobrevivam à entidade demoníaca que governa a ilha das profundezas, a série ainda reserva uma ótima surpresa para o último episódio da temporada, deixando um excelente gancho para uma segunda (que talvez nem precisasse existir, de tão bem encaixada). Atmosférica, desconfortável e cheia de figuras extravagantes, complexas, imperfeitas e moralmente ambíguas, O Segredo de Widow's Bay ainda adiciona algumas discussões laterais sobre patriarcado, capitalismo tardio e uso da religião como ferramenta de dominação. Conjunto que a torna uma das ótimas surpresas da temporada.

Nota: 8,5

 

Tesouros Cinéfilos - O Abrigo (Take Shelter)

De: Jeff Nichols. Com Michael Shannon, Jessica Chastain, Tova Stewart e Shea Whigham. Drama / Suspense, EUA, 2011, 121 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM ALGUNS SPOILERS] 

"Amor, não há tempestade lá fora. Eu não mentiria pra você. Nós te amamos". Em uma das mais assombrosas sequências do maravilhoso O Abrigo (Take Shelter), que retorna à Netflix e que vale ser revisitado, Samantha (Jessica Chastain) argumenta de forma calma, calorosa e empática com seu marido Curtis (Michael Shannon), que está passando por mais uma severa crise de esquizofrenia paranoica. A tempestade, naquele caso, tem boas chances de ser simbólica - uma alegoria forte, potente, para as angústias do homem, que passou basicamente as duas horas da produção formidavelmente conduzida por Jeff Nichols, construindo um abrigo subterrâneo que protegeria a ele e a sua família de algum tipo de mal que poderia vir dos céus. E que em sua cabeça é simbolizado por uma severa tempestade em que a chuva se apresenta viscosa, oleosa. É necessário proteger aqueles que se ama. A qualquer custo.

E vamos combinar que, se hoje em dia o suspense psicológico - aquele que trata muito menos de fantasmas ou de assombrações gratuitas e mais dos distúrbios da mente e de como eles afetam não apenas aqueles que sofrem das doenças, mas as pessoas do entorno - está em alta, vide excelentes produções como Backrooms: Um Não-Lugar (2026), há quinze anos filmes como esse ensaiavam debates não apenas sobre comportamentos obsessivos e compulsivos, mas também sobre como lidar com eles. Afinal de contas, uma pessoa com crises de ansiedade, transtornos obsessivos compulsivos, depressão ou bipolaridade podem estar ao nosso lado. Ou, muitas vezes, sermos nós mesmos, por óbvio. Nesse sentido, a produção de Nichols parece ser também sobre compreensão. Solidariedade. O que faz com que Samantha permaneça até o fim com Curtis. Sem jamais abandoná-lo, num gesto de amor.

 


Claro, não significa ser ONG de ninguém, mas saber reconhecer o problema e buscar uma solução. E há algo que nem todo mundo percebe, num primeiro momento, quando a "loucura" (no melhor sentido da palavra) de Curtis, aliás, na ótima interpretação de Shannon, tem início: ele não tem uma psiquiatra próxima, ao alcance. E que possa lhe conduzir para uma terapia efetiva, restando às conversas com uma psicóloga local - mais uma conselheira de saúde do que qualquer outra coisa. Em linhas gerais Curtis tem uma vida classe média normal, com um trabalho na construção civil que lhe garante um bom salário e um plano de saúde, uma boa casa com jardim nos arredores de Ohio, uma esposa carinhosa e uma filha pequena que, a despeito de um severo problema de audição, encontra nos pais o amor necessário para enfrentar um mundo que nem sempre foi feito para os ouvintes.

Só que tudo isso não impede Curtis de ter uma série de visões de eventos estranhos - nuvens negras e pássaros pretos ameaçadores nos céus -, além de sonhos em que violências em sequência ocorrem, provocadas por homens desconhecidos e até por seu amistoso cachorro (o que faz com que ele prenda o animal na rua). Como forma de canalizar o mal-estar generalizado, o protagonista resolve fazer uma ampla reforma numa casa de equipamentos mantida pela família, gastando um dinheiro que eles não possuem e ainda utilizando, de forma indevida, o maquinário da empresa em que ele atua. O que resultará em um afastamento gradual das pessoas - familiares como o irmão, ou amigos. A revelação de que a mãe de Curtis foi diagnosticada com esquizofrenia em sua juventude, adiciona um componente a respeito da herança genética dos transtornos, o que poderia explicar, em partes, o comportamento obsessivo do homem. Repleta de metáforas e de alegorias que aludem à sobrecarga dos tempos modernos, ao capitalismo tardio, às crises climáticas e a ansiedade generalizada como um todo, essa é uma experiência que deixa o final em aberto, ambíguo, e que respeita a inteligência do fã de cinema. Não há solução fácil. Mas talvez juntos, seja possível superar a dor.

 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Novidades em Streaming - Dia D (Disclosure Day)

De: Steven Spielberg. Com Emily Blunt, Josh O'Connor, Colin Firth e Colman Domingo. Ação / Suspense / Drama / Ficção Científica, EUA, 2026, 146 minutos.

Sabe quando você está vivendo o seu dia normalmente e um colega de trabalho, um familiar ou mesmo um amigo, empunhando um celular, te convida a assistir um vídeo - um conteúdo qualquer - que você tem a mais absoluta certeza que não te impactará, mas você aceita ver para não fazer a desfeita? E que quando o conteúdo é finalizado você fica com aquela cara de "legal, vai avisando qualquer coisa" porque o troço não te pegou de nenhuma maneira? Confesso a vocês que foi exatamente esse o meu sentimento assistindo ao tão falado Dia D (Disclosure Day), talvez um dos piores filmes já concebidos por Steven Spielberg - que, todos sabemos, tem uma carreira sólida e uma excelente reputação entre público e crítica. Só que é sério mesmo que o grande tema central desse retorno do diretor aos filmes de extraterrestres envolve uma teoria da conspiração requentada e que já foi tema de produções do próprio Spielberg no passado?

Quando iniciou o falatório sobre o filme, que estreia para aluguel no streaming nesta segunda-feira, com direito a conjurações envolvendo o próprio Spielberg e o retorno de uma conspiração estranha que volta e meia reaparece, de que o realizador teria tido acesso sem precedentes a arquivos confidenciais do governo (e que talvez até filmasse, pasme, com ETs de verdade), as plateias mundo afora ficaram em choque. E empolgadas com a possibilidade de poder rever um Spielberg ativo, e próximo dos 80 anos, revivendo os anos de ouro do cinema de Objetos Voadores Não Identificados (OVNIs), e que entregou ao mundo clássicos como Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977), ET: O Extraterrestre (1982) e Guerra dos Mundos (2005). Só que o resultado geral alcança o auge do cringismo na sequência em que takes variados da população paralisada diante das telas (ou monitores de TV) reagindo às supostas imagens chocantes de seres de outro planeta são, enfim, depois de mais de duas cansativas horas de perseguições genéricas e de uma salada de roteiro mal engendrada, reveladas.

 


É sério mesmo que, em um mundo em que teorias da conspiração à moda chip chinês na vacina são meio que uma tarde de terça-feira qualquer do incel médio que se alimenta todos os dias de 4Chan, de Cheetos e de Coca Cola, devemos nos animar com a reativação dessa história de décadas atrás, que mais parece saída de um filme de espionagem e de ação que ficou meio perdido entre as décadas de 80 e 90? E que talvez também combinasse mais com o Spielberg de outrora, que ainda acredita que as grandes revelações do planeta serão televisionadas? Talvez os doidinhos de bairro loucos pra farmar seus canais com listas ao estilo "10 Sinais de que Spielberg acessou arquivos secretos da FBI (o sétimo é inacreditável)" talvez se animem com a história toda mas, no meu caso, eu só consegui sentir foi tédio. Vamos ver o novo filme do Spielberg? Sim, claro. Mas a minha reação ao final foi como se tivesse assistido ao pior videozinho do perfil de gosto duvidoso do amigo que te estende o celular e que jurava que tu ia gostar do conteúdo daquele humorista de stand up que finge neutralidade, mas que se destaca em um nicho bem específico (o dos reacionários de extrema direita que verbalizam todos os tipos de preconceitos por metro quadrado).

Não bastasse a frustração pelo ponto central da obra ser a mais batida das histórias de conspiração que se tem conhecimento e que, em geral, não acrescenta nada de novo, ainda vivi uma sensação meio vazia no transcorrer, enquanto acompanhava a movimentação daqueles sujeitos. Sujeitos, aliás, que não poderíamos nos importar menos, já que eles não têm história, não têm passado, não têm família, não comem e não dormem. E, como se desgraça pouca não fosse bobagem, essa é uma obra que, enquanto coloca no micro-ondas o tema dos segredos de Estado governamentais da terra do Tio Sam - que esconderia informações preciosas e relevantes da população durante décadas de presidentes republicanos e democratas (por que, né, nem esquerda nem direita) -, ainda reaproveita, como se ainda vivêssemos os anos de Guerra Fria e de corridas tecnológicas, narrativas paranoicas sobre ameaças comunistas (com citações à Rússia, à Coreia do Norte e até à crise dos mísseis em Cuba sendo resgatada como um paralelo com os tempos confusos que vivemos). "Não tenha medo do que você não conhece", lembra o especialista em cibersegurança Daniel Kellner (Josh O'Connor), em certa altura, como parte de um conjunto de revelações. O problema é que a gente conhece esse modus operandi do imperialismo até demais - e por isso o tememos.

 

 

Kellner é o sujeito que trabalha em uma corporação ligada ao Governo - seu nome é Wardex - e que rouba não apenas documentos e discos rígidos com revelações bombásticas que remontam ao famoso incidente de Roswell, ocorrido na década de 40, como também furta um dispositivo extraterrestre da instalação - dispositivo este, que permite comunicação telepática e outras habilidades psíquicas (inclusive com animais) e que nem sempre são simples de compreender. Sua história se cruzará, mais adiante, com a da apresentadora de TV Margaret (Emily Blunt), que também passa a ser perseguida após viralizar um vídeo em que ela fala uma língua estranhíssima ao vivo - o que fará com que a Wardex desconfie de suas habilidades de comunicação extraterrestres. Durante duas horas integrantes da tal companhia, liderados pela pouco convincente figura do CEO Noah (Colin Firth, canastríssimo), tentarão de forma remota localizar a dupla. O que resultará em algumas das mais repetitivas perseguições do cinema moderno. Enquanto os mocinhos tentam encontrar Hugo (Colman Domingo), outro desertor da companhia, um sem fim de discussões pouco aprofundadas sobre conspirações corporativas, papel da Igreja nas dinâmicas de poder, uso da tecnologia para fins escusos e crises políticas da modernidade (vem aí a terceira guerra, viu?) se intercalarão, em uma experiência que, sinceramente, nunca decola. É um filme que roda em torno de si e que sequer tem graça ou charme - e até as tentativas de humor são furadas (como na cena em que há uma longa tentativa de "atropelamento" de um celular). Eu juro que abri o vídeo do amigo Spielberg achando que vinha coisa boa. Mas talvez eu só tenha virado o tiozão que desconfia que tudo é IA e que tem pouco saco pra acreditar que algo do tipo faria o mundo parar. Provavelmente no mercadinho da esquina só se falaria de outra coisa.

Nota: 2,5 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Tesouros Cinéfilos - A.I. Inteligência Artificial (Artificial Intelligence: AI)

De: Steven Spielberg. Com Haley Joel Osment, Jude Law, Frances O'Connor, Sam Robard e Brendan Gleeson. Ficção Científica / Drama / Aventura, EUA / Reino Unido, 2001, 146 minutos.

Em que momento uma máquina deixa de ser apenas uma mera ferramenta utilitária e passa a ser "alguém" digno de consideração? Como seres de carne, osso e alma, seremos capazes de amar um robô, um equipamento eletrônico, um aplicativo? Ou esse é um tipo de sentimento possível apenas entre humanos ou, vá lá, animais? Vamos combinar que, no mundo das artes, esse tipo de pergunta não chega a ser exatamente uma novidade e há um sem fim de obras - filmes, livros, quadrinhos e peças de teatro -, que versam sobre o assunto, sendo alguns bastante conhecidos do público, como Blade Runner (1982) ou Ela (2013). E, enquanto reassistia ao clássico A.I Inteligência Artificial (Artificial Intelligence: AI), de Steven Spielberg, que completa 25 anos de lançamento em setembro, só conseguia pensar naquele meme sobre máquinas dominando o mundo, mas poupando todos aqueles que teriam sido gentis, educados e empáticos com o ChatGPT. Obrigado, GPT, você foi foda!

Afinal de contas, robôs tendo carinho por seres humanos não parece algo impossível de se imaginar - talvez seja só executar o prompt correto para que os sistemas sejam capazes de responder às emoções humanas de forma mais eficiente possível. Sim, atualmente o Black Mirror nem parece mais fazer tanto sentido, em um mundo em que as pessoas utilizam ferramentas online para consultas psicológicas, empresariais ou mesmo como parceiros amorosos (ou sexuais). Bom, no campo conhecido como "computação afetiva" não são poucos os estudos que possibilitam aos robôs identificarem expressões faciais, adaptar a conversa de acordo com o estado emocional da pessoa ou mesmo inferir se o sujeito está triste, irritado, ansioso ou feliz. Se enfiar a voz da Scarlett Johansson lá no meio certamente está feito o estrago e, bom, as máquinas não têm consciência, mas nós temos. E os limites parecem borrados, entre o otimismo e o ceticismo científico.

 


Na obra de Spielberg - que pegou o bonde andando das mãos de Stanley Kubrick -, a cena mais comovente da trama envolve o instante em que Monica (Frances O'Connor), simplesmente abandona David (Haley Joel Osment) no meio do mato, após um evento traumático quase desencadear a morte do filho real dela, Martin (Jake Thomas), afogado em uma piscina. Com uma doença severa e em processo lento de recuperação, não parecia haver muito otimismo quanto à recuperação de Martin. O que faz com que o marido de Monica, Henry (Sam Robards) aceite levar para casa um protótipo moderníssimo de robô - chamado de Meca - como forma de substituir o menino. Que, contra todos os prognósticos melhora, volta pra casa, e inicia uma disputa particular com o irmão humanoide. Na queda de braço, Martin leva a melhor, restando a David o mato. Enquanto ele suplica aos berros para Monica de que ele "pode ser real". Aliás, o "desculpe por não ser real" é a frase mais trágica dita pelo menino, que se vê em um lixão da indústria Cybertronics, que desenvolve os modelos eletrônicos.

Em uma segunda parte bastante movimentada em um submundo cyberpunk decadente, após o aquecimento global meio que destruir parte do mundo - uma realidade que ainda não tínhamos a dimensão até aquele momento -, David faz amizade, de forma meio aleatória, com o charmoso robô Joe (Jude Law), que funciona como um gigolô destinado à satisfação de mulheres solitárias. Após uma pequena temporada em uma espécie de circo itinerante em que uma multidão bastante agitada se reúne para assistir a destruição em massa de robôs desgarrados e inutilizados (um tipo de evento histriônico que talvez tivesse tração entre a extrema direita interessada em oprimir qualquer tipo de minoria, em uma alegoria óbvia), David e Joe conseguem escapar. Dando início a uma saga que visa encontrar a Fada Azul - sim, ela mesma, a dos livros do Pinóquio -, que lhe permitiria consolidar o desejo de ser um menino de carne e osso. E, portanto, digno do amor de Monica.

 

 

Com ótimo desenho de produção, efeitos especiais e trilha sonora, AI: Inteligência Artificial segue sendo uma obra ao mesmo tempo contemplativa e movimentada, que permite uma série de reflexões a respeito dos caminhos da tecnologia e de quais os limites éticos ou morais ligados ao tema. Seremos capazes de, no futuro, reproduzir a arquitetura de nossos cérebros de forma perfeita para que as emoções emerjam de robôs da forma mais natural possível? Ou emoções genuínas dependem muito mais da biologia, da coisa orgânica ou da consciência humana? Enquanto assistia ao terço final da produção - e me comovia profundamente com o último dia na Terra de David e Monica, em um dos finais mais emocionantes do milênio - refletia brevemente sobre a nossa experiência nesse plano. E de como, em tempos em que as nossas relações parecem cada vez mais mediadas por máquinas, esse ideal não pareça nada distante da realidade. Aliás, ele já está aí e talvez seja importante ser educado com o ChatGPT. Nunca se sabe. 

terça-feira, 21 de julho de 2026

Pitaquinho Musical - Iceage (For Love of Grace & the Hereafter)

Quem acompanha a carreira do Iceage sabe que, melodicamente, conforme os discos iam sendo entregues ao público, pouco restaria da crueza punk e urgente dos inaugurais New Brigade (2011) e You're Nothing (2013), que comoveriam a crítica do começo da década passada, alçando-os ao cargo de mais nova salvação do rock, com elogios da Pitchfork e um certo encantamento frente a atitude um tanto anarquista do vocalista Elias Rønnenfelt e seus asseclas. E, bom, não é novidade que todos nós amadurecemos e o polimento percebido a cada novo registro talvez tenha também a ver com isso - ainda que parte do público esteja saudando For Love of Grace & the Hereafter, o sexto álbum de inéditas dos dinamarqueses, como uma espécie de retorno às origens. E, sinceramente, não é, dadas as diferenças entre o caráter sombrio, sujo e soturno de inferninho garageiro dos primeiros trabalhos, em comparação com a energia primaveril e até mesmo comercial dos últimos. 

 


Em suma, o que antes era peso, caos e estranhamento, agora é refino, esmero e melodia. Sim, segue sendo a mesma banda de sempre, mas se canções como White Rune ou Rotting Heights, do primeiro álbum, pareciam saídas de alguma catacumba, músicas como Star ou Lifetime, de For Love... são tão palatáveis, que não fariam feio em algum disco de alguma banda hardcore comercial dos anos 90, como, sei lá, o Rancid. Repleto de ótimas canções em que divagações existenciais se alternam com temas sobre a complexidade dos relacionamentos e mesmo dilemas dos tempos modernos, o disco consegue ser sedutor e cheio de personalidade, com sua mescla de pós punk, indie e jangle pop alcançando seu auge nas ótimas Ember e The Weak - esta última a respeito do sentimento de resignação e até de desconexão que vivemos, em tempos em que a impressão que dá é a de que gastamos energia à toa (Sabes que esta cidade é uma guilhotina / Toda uma cidade de esperanças e sonhos decepados). Canetada!

Nota: 8,5 

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Novidades em Streaming - Backrooms: Um Não-Lugar (Backrooms)

De: Kane Parsons. Com Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Lukita Maxwell e Mark Duplass. Ficção Científica / Suspense, EUA, 2026, 110 minutos.

Vamos combinar que quando pensamos em memórias, sejam elas afetivas ou não, talvez nem sempre elas decorram de grandes acontecimentos. Muitas vezes aquilo que nos marca pode estar relacionado a fragmentos menores de fatos rotineiros que, por vezes, ressurgem como borrões em uma espécie de limbo em que nem tudo é claro ou evidente. Quem nunca passou por uma antiga casa de infância ou bairro em que viveu na juventude que simplesmente parecia maior - com outra geografia, outra dimensão, outra noção de espaço - quando era criança e que, hoje, parece resultar outra? E, mais, que sonhos teríamos tido nós naquele passado que, agora adultos, foram concretizados ou soterrados? Quais os traumas que carregamos? As dores? Os medos? Qual a bagagem que nos forma? De que forma nossas famílias, o ambiente e a sociedade nos moldam? Sim, parece um excesso meio filosófico para um filme pequeno, mas o caso é que todos esses temas parecem dialogar, em alguma medida, com o excelente Backrooms: Um Não-Lugar (Backrooms), que chega para aluguel na plataforma da Amazon.

Por sinal, não são apenas esses assuntos que possibilitam essas divagações existencialistas que orbitam a obra, mas também outros, relacionados à mídia, às corporações e ao capitalismo tardio. Sem que tudo soe apenas como uma grande salada de referências, tendo algum sentido genuíno em um momento em que um certo mal-estar generalizado à moda Byung-Chul Han atravessa a humanidade. Em alguma medida, a obra concebida pelo jovem Kane Parsons - um youtuber de apenas 20 anos, que teve grande projeção com os seus vídeos tão experimentais quanto inventivos, compartilhados na plataforma - parece uma mescla de Ruptura (2022 -), com Quero Ser John Malkovich (2000) e algumas pitadas da obra cult Cubo (1997), de Silent Hill (o game) e até da série Twin Peaks (1990 - 1991), especialmente o estranhamento surrealista desta última, que se amplia com a ótima trilha sonora. Ao cabo, o que se tem aqui é uma experiência de sensações - de medos inconscientes, de traumas familiares e de memórias doloridas que parecem retornar infinitamente para nos assombrar. Sim, no fundo há um filme. Mas também há um desconforto generalizado. Que burla os limites do mero cinema de suspense, com seus óbvios jump scares.

 


Na trama que se passa nos anos 90, o protagonista Clark (Chiwetel Ejiofor) é um arquiteto que nunca conseguiu se realizar em sua profissão, e que ocupa seus dias como gerente de uma loja de móveis que funciona em um amplo - e naturalmente opressivo - galpão. Enquanto precisa lidar com a decadência dos seus negócios, o que o força a produzir vídeos de propaganda constrangedores em que se veste de pirata (o mascote do empreendimento) em uma década pré-viralização, ele ainda luta para superar o alcoolismo, que resultou em um divórcio recente. O que faz com que ele procure ajuda da terapeuta Mary Kline (a ótima Renate Reinsve) que, mais adiante, também descobriremos ter os seus esqueletos no armário - resultado de um relacionamento conturbado com a sua mãe ultraprotetora e agorafóbica, que sequer deixava ela olhar para a rua quando criança (que dirá sair de casa).

Sem um lugar oficial para habitar, Clark opta por meio que morar na loja - há ali camas, televisão e outros objetos que possibilitam improvisar uma casa -, mas ele estranha o fato de a conta de luz parecer muito acima do valor. E quando ele chama um eletricista para verificar a chave geral, ele não apenas percebe a existência de um disjuntor sem muita função na caixa, como, mais adiante, após uma queda de energia repentina, constata um feixe de luz meio inexplicável, na parede. E que lhe possibilitará adentrar uma espécie de portal - um outro plano, um não lugar (como no subtítulo) infinito, como num tipo de pesadelo arquitetônico de Jorge Luís Borges, em que cadeiras e moveis se espalham de forma aleatória, galerias se alternam com espaços minúsculos e portinholas levam a cenários que parecem saídos de algum quadro de Salvador Dali (com estofados ou calçados enterrados pela metade, destroços de mobiliários aleatórios e roupas velhas e sujas pelos cantos). Fora as luzes piscantes e os zumbidos e barulhos diluídos e constantes.

 

 

Nesse enorme labirinto sem fim a pior surpresa é sempre a próxima e, em uma chamada telefônica, Clark alerta Mary para o fato de que está preso para sempre no local - em uma alegoria quase óbvia para os transtornos mentais e de como eles mexem com nosso inconsciente, de forma a dificilmente fazer com que nos libertemos deles (sem um bom acompanhamento, por óbvio). Excêntrica, bizarra e surpreendente a produção ainda tem fotografia e desenho de produção impecáveis - e, a menos que o pessoal da Academia esteja hibernando em um sono profundo, ambas deverão ser lembradas entre as indicadas em sua categoria no Oscar. Ao cabo, trata-se de uma obra bem ao estilo da A24 e desse onda de novos realizadores que, se não reinventam a roda, adicionam uma série de camadas complexas para assuntos já tão batidos em outros suspenses psicológicos. Crescer emocionalmente pode ser complicado por demais, ainda mais quando precisamos lidar com lembranças, perdas e um sentimento de paralisia que não nos deixa evoluir. Que uma obra tão honesta e tão bem feita nos permita pensar de forma adulta a respeito de tudo isso, é um grande mérito.

Nota: 9,0 

Pitaquinho Musical - Íris da Selva (Íris da Selva)

Discos como o homônimo lançado pela artista trans paraense Íris da Selva nos permitem perceber que ainda há tempo para se apaixonar pela MPB da moda de viola e da flauta, que une o rural e o urbano para falar de noites enluaradas, fitas de pipa que "beijam o sol", crianças que brincam nas ruas - algo que pode soar inocente e o puro, mas também visceral e político, ainda mais se investigarmos para além das melodias primaveris, bucólicas e contemplativas que regem o trabalho. Como é o caso, por exemplo, na sutil poética Tratado de Paz, que aborda corpo e identidade de gênero (Íris se apresenta como não-binária), em uma letra sobre autoaceitação e busca por identidade (Será difícil entender / Que eu não quero parecer / Com mais ninguém além de mim? / Será difícil aceitar / Não sou moça nem rapaz / Sou meu tratado de paz).

 


Já a singela Domingo de Tarde tem letra entre o esperançoso e o melancólico, trazendo o carimbó como um gênero que, aqui e ali, se espalha pelo registro, unido a outros como o folk e o rock rural. Ao cabo, como nos próprios materiais de divulgação da artista, são "canções que carregam a sensibilidade e a força das encantarias das águas em sua poética musical. A espiritualidade é seu elemento condutor e suas composições procuram descortinar o dia a dia , na busca de apresentar ao mundo sua percepção das delicadezas e entrelinhas da vida". Em tempos em que vida parece tão corrida, apressada, tecnológica, em que tudo parece "pra ontem", poder buscar a calma para apreciar um registro que olha para o íntimo mas sem soar piegas ou sem personalidade é algo a ser reconhecido. Íris consegue essa beleza no simples. Como fica evidente em Um Lugar Pra Ir, Bem e Algo Tão Doce.

Nota: 9,0 

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Tesouros Cinéfilos - Dia de Treinamento (Training Day)

De: Antoine Fuqua. Com Denzel Washington, Ethan Hake, Scott Glenn, Eva Mendes e Tom Berenger. Ação / Policial, EUA, 2001, 122 minutos.

"Me tornei policial pra prender traficantes, criminosos, não para me tornar um deles". Em um dos momentos mais impactantes do clássico moderno Dia de Treinamento (Training Day), que completa 25 anos de lançamento em 2026, o jovem e idealista policial Jake Hoyt (Ethan Hawke) tem um choque de realidade ao perceber que o almejado trabalho na Divisão de Narcóticos da delegacia de Los Angeles, talvez o obrigue a estar com um pé na antessala do crime se ele não "jogar o jogo", ao lado de um bando de policiais corruptos, punitivistas e reacionários. E que tem na figura quase caricata de Alonzo Harris (Denzel Washington), seu principal representante. Ao lado de Alonzo e de um esquadrão de oficiais, Hoyt acompanha a apreensão de US$ 4 milhões em dinheiro escondido na casa do traficante Roger (Scott Glenn), um veterano que parece ter algum tipo de vínculo com Alonzo.

Na ideia de quem possui um código de ética que respeita os ritos jurídicos e a ampla e irrestrita possibilidade de defesa, que parece ser o caso de Hoyt, a sequência deveria envolver grana apreendida, bandido preso, trâmites legais ocorrendo. Enquanto os policiais se regozijam em definir quanto do dinheiro recolhido ficará nas mãos deles - ainda mais no caso de Alonzo, que está enrolado até o pescoço depois de ser prometido de morte por um grupo ligado à máfia russa, após uma confusão em uma boate -, uma pistola é entregue a Hoyt. O objetivo? Assassinar Roger, alegando, posteriormente, legítima defesa. "Só porque usamos distintivos é diferente?", argumenta o bom homem, tentando demover Alonzo e os demais da ideia. "Você vai ser condecorado e subirá rapidamente na carreira", retruca o sujeito, para pasmaceira geral. "Tem gente que não dormiu na aula de ética", debocha um terceiro, enquanto um outro agoniza após levar um tiro forjado, em uma operação que quase dá errado. 

 


Sim, pode parecer complexo, mas a realidade é muito mais simples: quando Hoyt é designado para um dia de trabalho que será fundamental para a sua efetivação na divisão de narcóticos - até ali ele era apenas um burocrata trabalhando pro Estado e sonhando em galgar algumas posições -, ele jamais imaginaria encontrar um sujeito tão poucas ideias, que não faria feio no grupo de milicianos vistos em Tropa de Elite 2 (2010), por exemplo. Aliás, no primeiro encontro da dupla já há certo estranhamento, na medida em que Alonzo consegue ser machista já no diálogo inicial, ao tirar sarro do novato por ele ter sido treinado, anteriormente, por uma mulher. A violência ameaçadora com que o homem trata um grupo de adolescentes usuários de maconha que tá meio que só se divertindo na praça não ajuda, com tudo piorando com uma perseguição envolvendo um cadeirante (papel de Snoop Dog, uma das tantas participações especiais) e o uso de um falso mandado de busca para obter vantagens na casa da família de um traficante preso.

E como se desgraça pouca não fosse bobagem, Alonzo ainda obriga o calouro Hoyt a fumar maconha, sob a desculpa de que um "bom agente precisa ter os narcóticos no sangue", para que mais tarde saibamos que tudo é parte de um bem engendrado plano que pode prejudicar o sujeito. Repleto de cenas tensas típicas de filmes policiais do final da década de 90 e início da de 2000 (o instante em que Hoyt joga pôquer, após ser abandonado por Alonzo em um local boca braba é uma das melhores), a obra trata de um tema que, para nós, brasileiros, parece bastante familiar. Ainda mais se pensarmos no Rio de Janeiro, onde homens da lei e representantes de governo parecem muito mais próximos de operadores do tráfico do que do lado de quem deveria promover a segurança pública. Vencedor do Oscar por seu papel, Washington é fundamental em sua entrega de um sujeito sem nenhuma ética, mas cheio de carisma, enquanto o seu Monte Carlo roda pela fervilhante Los Angeles, sempre cheia de segredos no submundo. Por sinal, o papel é tão marcante que, em uma lista de grandes vilões da história do cinema, organizada pelo American Film Institute (AFI), Alonzo Harris obteve uma honrosa 50ª posição. Tá disponível na HBO Max e vale recordar.

 

quarta-feira, 15 de julho de 2026

A Volta ao Mundo em 80 Filmes - Costa Brava, Líbano (Líbano)

De: Mounia Akl. Com Nadine Labaki, Saleh Bakri e Nadia Charbel. Drama, Líbano / Catar / França / Espanha / Suécia / Dinamarca / Noruega / EUA, 2021, 106 minutos.

Talvez não possa haver metáfora mais adequada para a podridão do capitalismo tardio, que costuma colocar seus tentáculos em basicamente todos os aspectos de nossas vidas, do que um depósito de lixo emergindo na porta de nossas casas. E é mais ou menos isso o que ocorre com os protagonistas de Costa Brava, Líbano (Costa Brava, Lebanon) que, do dia para a noite, passam a conviver com uma estranha movimentação na propriedade vizinha, quando uma equipe do governo chega com maquinário pesado e uma estátua simbolicamente tosca do presidente, anunciando que construirão ali um novo aterro sanitário. Até aquele momento o casal Soraya (Nadine Labaki) e Walid (Saleh Bakri) vivia uma existência idílica em meio a natureza exuberante, junto às montanhas - sempre acompanhados das filhas Reem (Ceana e Geana Restom) e Tala (Nadia Charbel), além da avó Zeina (Liliane Khouri) -, até que a paz é interrompida.

O caso é que a distopia da diretora Mounia Akl - que foi a enviada do Líbano para o Oscar de 2022 e está disponível na Reserva Imovision - parte de um caso real envolvendo a dificuldade do País de dar conta do destino dos próprios resíduos em meio a um cenário de corrupção, para imaginar um futuro próximo em que viver na capital Beirute é praticamente impossível. É esse desejo de se refugiar e de meio que se afastar de tudo - quem nunca, né? -, que faz com que a família Badri vá para longe, habitando uma simpática casa de campo, com piscina e cultivos próprios de animais, frutas e hortaliças. Quando um grupo de funcionários do governo chega ao limite da propriedade e inicia a movimentação, um dos representantes explica: a área, que pertencia à irmã de Walid, foi vendida à administração pública e, depois de levantamentos ambientais de viabilidade, decide-se implantar ali um lixão. Com um sistema de reciclagem que reaproveitaria oitenta porcento dos resíduos.

 


Evidentemente que Walid, um ativista que conheceu Soraya - uma cantora precocemente aposentada aparentemente também pelos problemas ambientais do País - durante um protesto em que é agredido pela polícia, fica desgostoso com a situação. Ainda mais porque aquela nova conformação alterará profundamente a rotina da família - não apenas com os barulhos das escavadeiras e da música alta que ecoa da vizinhança, mas também pelo caráter invasivo dos operários, que parecem empenhados em espionar pelas frestas, especialmente quando a jovem Tala rodeia a piscina. Espécie de porta-voz do canteiro de obras, o engenheiro Tarek (François Nour) se aproxima dos habitantes dos vizinhos, estabelecendo vínculos variados entre o encantamento e a amizade, especialmente com Tala, que está tendo seu despertar sexual aflorado, além da idosa Zeina, que faz aquela linha da avó engraçada, ousada e até meio desbocada, estilo a Copélia da Artele Salles, no eterno Toma Lá da Cá.

Só que quanto mais o tempo passa, mais a rotina do quinteto vai sendo mudada: incêndios de difícil controle, água fétida saindo da torneira (em um tom sugestivamente vermelho de sangue) e mesmo a impossibilidade de ter privacidade, vão contribuindo para que a tensão geral também avance, ainda que Walid não acredite na consolidação do projeto, que poderia ser só mais um esforço de governo às vésperas da eleição. Aludindo a outras obras sobre pessoas ou grupos enfrentando forças financeiras e institucionais ou mesmo tentando preservar um estilo de vida mais simples e que funcionam quase como um subgênero atual - como no caso de Eu, Daniel Blake (2018), O Preço da Verdade (2019) ou o nacional Aquarius (2016) -, a produção discute temas ligados à degradação ambiental e a conflitos familiares mediados pelo capital. E ainda que nunca nos forneça uma solução mágica, nos faz refletir sobre o mundo não apenas que vivemos, de como nos adequamos a ele e o que queremos deixar para o futuro. Não por acaso, a diretora explicou que a família funciona como uma alegoria do País. E que fugir dos problemas, mesmo que simbolicamente eles sejam representados por enormes sacos de lixos azuis ameaçadores, não fará com que eles sumam.

Nota: 8,0

 

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Pitaquinho Musical - Madonna (CONFESSIONS II)

"Devemos dançar, celebrar e orar com nossos corpos. Essas são coisas que fazemos a milhares de anos - e são realmente práticas espirituais. Afinal, a pista de dança é um espaço ritualístico. É um lugar onde você se conecta com suas feridas, suas fragilidades. Curtir uma rave é uma arte. É ultrapassar seus limites e se conectar a uma comunidade com a mesma mentalidade". Vamos combinar que o manifesto lançado por Madonna no último mês de abril, já dava o tom: CONFESSIONS II, espécie de continuação natural do clássico moderno Confessions on a Dance Floor (2005), seria novamente, como muitas vezes foi na carreira da maior artista pop de todos os tempos, um veículo de exaltação não apenas da música, mas de corpos, de existências, de vidas. E que serve para lembrar que o ato de dançar, de mexer o corpo, não tem nada de superficial. Ao contrário, é uma espécie de transe capaz de alterar nossa consciência, modificar nossas personas. De, em meio à sombra, sermos quem desejamos de verdade, no nosso íntimo.

 


Nesse sentido, o décimo quinto registro de inéditas da artista, que chega seis anos depois do mediano Madame X (2019) - que meio que atirava para muitos lados, mas sem coesão ou mesmo alguma lógica -, opera como se fosse uma longa e meio que única faixa dançante, capaz de conferir à pista de dança esse caráter ao mesmo tempo idílico e espiritual, vibrante e caloroso. Ao cabo não se trata de reinventar a roda - há muita coisa no disco que a própria Madonna já exercitou artisticamente no passado -, mas de reafirmar esse senso de coletividade e da música como experiência universal. Especialmente em um momento de avanço do reacionarismo na sociedade e de preconceitos que parecem ganhar certo verniz de legitimidade na boca de políticos e líderes de extrema direita. Esse conceito existiria se não fossem os tempos brutos de perseguições à minorias? Difícil saber. O fato é que o disco pode até não ser perfeito do início ao fim - há, aqui e ali, uma outra faixa que incha a audição. Mas, verdade seja dita, é meio difícil ficar alheio a um lançamento tão cheio de personalidade como esse e que vai para além do hype. E com músicas tão gigantes como a etérea Good for the Soul, a quente One Step Away, a incendiária Danceteria, a pulsante (e linda) Bizarre e a comovente Fragile (a minha favorita do álbum). 

Nota: 8,5 

Novidades em Streaming - Surda (Sorda)

De: Eva Libertad. Com Miriam Garlo, Álvaro Cervantes, Elena Irureta e Joaquín Notário. Drama, Espanha, 2025, 99 minutos.

Um ótimo filme sobre empatia em relação aos deficientes auditivos, mas que jamais trata a sua protagonista com condescendência. Assim é Surda (Sorda), drama espanhol escrito e dirigido por Eva Libertad e que está disponível para aluguel na Amazon Prime e da Apple TV. Aqui temos, assim como ocorre em outras produções - como no caso de O Som do Silêncio (2019) e No Ritmo do Coração (2021) -, a experiência de uma mulher surda de nome Ángela (Miriam Garlo, irmã da diretora e que é, de fato, deficiente auditiva), em uma busca permanente por adaptação em um mundo de ouvintes. Por mais que seu amoroso marido Héctor (Álvaro Cervantes) e o seu grupo de amigos surdos se empenhem em tornar a sua existência o mais inclusiva possível - e não por acaso, grande parte dos diálogos da produção, transcorrem com o uso da língua de sinais.

Só que a rotina mais ou menos pacífica de Ángela e Héctor - ela uma respeitada ceramista e ele um agricultor familiar -, é alterada quando a protagonista descobre estar grávida. E não é que o casal não esteja feliz, a despeito do bem humorado diálogo com os amigas surdas assim que a notícia chega, que não se furtam em verbalizar a complexidade de se criar crianças e adolescentes nesse mundo (a dificuldade de comunicação, afinal, parece independer da deficiência), mas será nesse momento em que Ángela se deparará com o preconceito estrutural que ainda rege a nossa sociedade. Os próprios pais da protagonista Elvira (Elena Irureta) e Fede (Joaquín Notário), a despeito da gentileza permanente, não deixam de cometer deslizes ao se mostrarem incomodados com o anúncio da gravidez, especialmente diante da possibilidade de haver a possibilidade de o bebê também ser surdo, por questões genéticas.

 


As idas e vindas de Ángela e Hector entre hospitais e lojas de equipamentos especializados não ajudam em nada, dada a frieza dos atendentes e da total falta de capacidade do ser humano em geral - aliás, todos nós podemos nos incluir nessa - em saber lidar com PCDs. Em linhas gerais Ángela consegue executar a leitura labial e entender muito do que é dito, o que não evita instantes incômodos - "por quê ela está falando só com você e não comigo?", reclama ela diante da médica ginecologista, que lhe passa detalhes a respeito das possibilidades de uma mãe surda gerar um filho com a mesma condição. Aliás, o auge dessa complexidade envolve justamente o momento do parto, quando Héctor é levado junto à sala de cirurgia para tentar traduzir em tempo real as instruções da equipe hospitalar, em uma sequência que se estende bastante na aparente intenção de fazer com que o público perceba que a dor nesse instante é tão emocional quanto física.

Só que diferente do que poderia ocorrer com outras obras, o roteiro de Libertad evita o "coitadismo" na hora de caracterizar Ángela. Claro, ela se sente preterida em rodas de conversa, com tudo piorando quando ela descobre que a filha não será surda - sendo muito hábil em evidenciar a sua insatisfação sobre a sina da própria filha não ser a mesma dela (e não deixa de ser interessante notar como ela caracteriza esse desapontamento com o mero olhar ou leves inflexões de expressão). Longe de ser uma mãe amorosa, ela entre numa espécie de rota de disputa com Héctor, que se acentua com a depressão pós-parto, com a incomunicabilidade recorrente se tornando uma alegoria para um casal que começa a ver a deterioração de sua relação com a chegada de um filho (o que também pode ocorrer com ouvintes, por óbvio). Bonito, carismático e com ótima reflexões sobre empatia e respeito às diferenças, esse é um projeto que ainda usa o aparato técnico - especialmente a edição de som -, para fortalecer as suas ideias. Não por acaso, a obra recebeu uma série de premiações, podendo agora encontrar o carinho do público.

Nota: 8,0 

 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Novidades em Streaming - Beladona (Belladone)

De Alanté Kavaïté. Com Nadia Tereszkiewicz, Daphne Patakia, Dali Benssalah, Alexandra Stweart, Patrick Chesnais e Miou-Miou. Ficção científica / Drama, 2025, 95 minutos.

Vamos combinar que filmes sobre etarismo ou que confabulem a respeito do destino dos idosos, tem se tornado uma espécie de subgênero curiosamente recorrente - como evidenciam distopias recentes, como a enigmática produção japonesa Plano 75 (2022) ou o exuberante nacional O Último Azul (2025). Sim, em uma sociedade no limite entre o niilismo e a misantropia, o simples ato de permitir uma velhice digna parece certo exagero - e talvez não seja por acaso que, em um contexto tão pautado pela individualidade e pelo produtivismo infinito como um efeito do capitalismo tardio, ficções científicas do tipo tenham certa tração. Em Beladona (Belladone), que está disponível na Reserva Imovision, temos novamente este futuro próximo em que uma jovem chamada Gaëlle (Nadia Tereszkiewicz), é responsável por cuidar de um grupo de idosos refugiados em uma ilha.

Em geral não há muitas informações para além de um letreiro inicial que indica que, nessa realidade paralela, idosos com cerca de 80 anos são enviados para instituições. Para viver? Para morrer? Apartados de suas famílias? Cuidados pelo Estado? Pouco se sabe. E não demorará muito para que compreendamos que Gaëlle opera, em seu isolamento permanentemente preocupado, de forma meio clandestina. Só que sendo responsável por oito velhos, os problemas de saúde são inevitáveis, o que fará com que ela acione, via rádio, uma embarcação que navega em alto-mar, atraindo para o local a bela médica Aline (Daphne Patakia) e seu caloroso irmão David (Dali Benssalah), que, inicialmente, auxiliarão no socorro geral do grupo de anciãos. Como no caso de Pierre (Patrick Chesnais), um fã de literatura que mantém uma biblioteca em uma das habitações do local.

 


Em alguma medida a chegada à ilha de dois jovens tão bonitos, tão inteligentes e tão cheios de vida como Aline e David - a tiracolo ainda está a fofíssima filha de Aline -, parece reanimar o coletivo octogenário. Até mesmo retirando-os, ao menos momentaneamente, de certa resignação de quem, apenas, aguarda a morte como um destino inevitável. Não por acaso, Evy (Alexandra Stweart, uma bela senhora do alto dos seus oitenta e muitos anos), até se anima a usar um novo vestido que estava a muito guardado, como forma de despertar a atenção de David, que tem idade para ser seu neto. Já Olivier (Jean-Claude Drouot), que tem como hobby a pintura, anima-se a instigar Aline a posar para ele, para um novo quadro. Há um certo descontentamento geral de Gaëlle com toda aquela movimentação. Que rompe a lógica da rotina a que todos ali estavam acostumados.

[SPOILERS A PARTIR DAQUI] E tudo piora quando, após uma noite em que todos ali jantam animados - abusando da comida, da bebida e até de outros prazeres sensoriais -, os idosos começam a padecer um a um. Como médica, Aline parece ter explicações razoáveis para as mortes - problemas circulatórios, tumores e etc -, mas Gaëlle parece ter dificuldade em aceitar a finitude. O que a leva a culpar os forasteiros. De forma metafórica, a diretora Alanté Kavaïté espalha pela ilha a própria planta beladona que, se consumida em pequenas doses pode ter um sem fim de efeitos benéficos, sendo essencialmente venenosa em sua versão in natura - suas bagas e folhas. Essa dicotomia entre o homeopático e o tóxico, a celebração e a dor, ou mesmo entre a vida e a morte parece guiar a narrativa, que nos conduz a uma série de reflexões sobre dignidade na terceira idade, autoridade e excesso de zelo. É uma produção bem executada tecnicamente, com trilha sonora existencialista e cenários idílicos que reforçam o ideal contemplativo do todo. Ainda que não haja um grande ponto chave ou de virada, que aprofunde a questão. É bonito e carismático, mas só.

Nota: 7,0 

 

Novidades em Streaming - Águias da República (Republikens Örnar)

De: Tarik Saleh. Com Fares Fares, Zineb Triki, Lyna Khoudri, Amr Waked e Cherien Dabis. Drama / Suspense, Suécia / Dinamarca / Finlândia / França, 2025, 129 minutos.

"Faraó das telas". O apelido pode ser meio brega, mas define bem a condição de George Fahmy (Fares Fares), o protagonista de Águias da República (Republikens Örnar), que foi o enviado da Suécia para a última edição do Oscar e que está disponível na Reserva Imovision. George é um renomado ator egípcio que participa de uma série de produções de gosto meio duvidoso - aqueles tipos de filmes românticos e épicos bastante populares -, mas que consegue ultrapassar com certa tranquilidade o rígido código de regras de censura do País. Aliás, como galã de cinema que trafega em ambientes mais progressistas, o protagonista aparenta ter ideias opostas às do patriotismo nacionalista, religioso e militar que, aqui, são fortemente representados pelo general Abdul Fatah Al-Sisi, que governa o País com mão de ferro, perseguindo opositores, rivais políticos, imprensa e, claro, setores ligados às artes, a educação e a cultura.

Em geral George tenta ficar alheio a isso. Mas não consegue, especialmente após ser constrangido durante um almoço com seu filho, por um misterioso funcionário do governo que o observa à distância - mais tarde descobriremos que se trata de um certo Mansour (Amr Waked), que se comporta como um Robert Walker do clássico Pacto Sinistro (1951), de Alfred Hitchcock, com seu olhar desafiador e enigmático. Com tudo piorando após um encontro com um grupo de atores que se dizem favoráveis ao governo, atuando contra dissidentes que tentam manchar a imagem dos militares, instigando-o a fazer parte do coletivo. O protagonista evita o grupo, por acreditar haver contradições entre ser um artista e um patriota - ou ao menos o que eles imaginam ser um patriota (e, vamos combinar que, nessas horas a gente percebe que só muda o País no que diz respeito a esse aspecto).

 


Resumo da ópera, George tem seu contrato para um novo filme suspenso, com direito a sumiço do seu trailer que funciona como um camarim. De forma indireta sua família passa a ser ameaçada e até mesmo os amigos, como no caso da companheira de telas Rula (Cherien Dabis), que talvez fique sem contrato de trabalho após defendê-lo em uma entrevista em rede nacional. Já a jovem Donya (Lyna Khoudri), que tenta emplacar uma carreira no meio, também dependerá da decisão do sujeito de se juntar ou não a uma peça de propaganda financiada pelo governo, no sentido de limpar a sua imagem após os eventos decorrentes do golpe de 2013 no País (uma produção meio Dark Horse, o filme do pangaré, egípcio). Diante de tantas pressões ele aceita o papel. Mesmo não tendo nada a ver com Al-Sisi. Aliás, nem fisicamente nem do ponto de vista político, religioso e cultural.

Em meio as filmagens, Goerge se aproxima de Suzanne (Zineb Triki), a elegante e letrada esposa do ministro da defesa - com quem ele se identifica em um jantar, após citações à Shakespeare e indiretas a respeito de homens minúsculos que só sabem falar a língua da guerra. E como as coisas não estão muito bem com Donya que, verdade seja dita, só está com o sujeito pelo glamour e para provocar o pai militar, George passa a ter um caso com Suzanne. E, bom, se a intenção era obter sarna pra se coçar, aqui o sujeito obtém o kit completo. Tensa e com perseguições diversas - como no caso do filho estudante de um vizinho -, mas também divertida - a cena da compra do tadala é ótima -, a trama vai evidenciando como o mergulho nesse ambiente de violência estatal se torna um caminho meio que sem volta depois de certas decisões tomadas. Com chantagens e jogos de poder de parte a parte. Ao cabo, pode haver algo sedutor em aderir às esferas de poder. Mas George aprende, da pior forma possível, que o preço dessa proximidade pode ser alto. E devastador em igual medida.

Nota: 8,0 

  

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Novidades em Streaming - Obsessão (Obsession)

De: Curry Barker. Com Inde Navarrette, Michael Johnston, Cooper Tomlinson e Megan Lawless. Suspense, EUA, 2026, 109 minutos.

Vamos combinar que a gente chegou num ponto em que o público parece tão ansioso por um terror efetivamente bom que, quando aparece alguma coisa apenas mais ou menos, como esse Obsessão (Obsession), já fica todo mundo meio que... obcecado (com o perdão do trocadilho). E confesso que, enquanto assistia à sequência meio que aleatória em que Nikki (a, de fato, ótima Inde Navarrette) faz um sanduíche com os restos do gato morto de Bear (Michael Johnston), eu só conseguia lembrar da psicopata vivida por Glenn Close em Atração Fatal (1987), em uma década em que esses suspenses de paixões compulsivas que desencadeariam, mais adiante, uma série de eventos violentos, eram moda. E, vamos lá, o problema do segundo longa do Youtuber Curry Baker nem é o fato desse subgênero já ter existido antes, de forma muito efetiva. E, sim, porque ele nos exaure rondando um tema que poderia, aparentemente, ser melhor adaptado aos tempos em que vivemos.

Sim, não é que não existam mulheres obsessivas por seus parceiros, mas vamos combinar que essa ideia de casal que mantém um perfil único nas redes sociais porque a esposa não deixa o jovem ir pro churras com os parças, parece meio deslocada em um tempo em que a misoginia só cresce. Nesse sentido, Obsessão parece ser aquele filme pro incel redpill meio desavisado assistir com os amigos, pra depois ficar dizendo como a "dona patroa" é igualzinha à Nikki, já que o alecrim não pode ir nem na esquina sem que ele seja vigiado (sendo que, na grande maioria dos casos, parece ser o inverso o que acontece, com os homens de masculinidade frágil incidindo sobre roupas, atividades, comportamentos e, se deixar, até o voto de suas companheiras). "Ah, mas isso que a gente vê na tela é apenas uma projeção do comportamento cringe do próprio Bear e de suas obsessões, já que ele é o protagonista meio freak e de cabelo oleoso, que fica obcecado pela colega de trabalho", poderá alguém dizer. É uma interpretação talvez até mais esperada, já que parece haver uma Nikki "real" por baixo daquela camada alienada, que sofre uma maldição. E espero que o público capte essa nuance.

 


E, bom, como já dito, na trama Bear é o sujeito introspectivo e de poucas habilidades sociais, que mantém uma amizade com a galera do trampo, como no caso de Ian (Cooper Tomlinson) e Sarah (Megan Lawless) e está meio que na friendzone com Nikki, sua amiga de infância e paixonite à moda Apenas Mais Uma de Amor, do Lulu Santos, que ele precisa lidar diariamente quando a firma de instrumentos musicais em que todos trabalham, abre. Aliás, essa paixão é tão desequilibrada, que ele chega ao ponto de ensaiar com os amigos, o que e como deveria dizer para Nikki, no sentido de conquistá-la. Lembrando, Bear deve estar próximo dos 30 anos. E nunca deve ter procurado um terapeuta (ainda que sua dispensa esteja entupida de opioides). Aliás, mais uma falhazinha meio básica do roteiro: ninguém ali tem vida para além daquela rotina de solidão em quatro paredes, gatos que morrem aleatoriamente e tentativas frustradas de se relacionar - outras ocupações, famílias, tudo uma camada abaixo. Bear é o esquisitão e Nikki o considera um bom amigo, já tendo deixado isso meio que claro pra todo mundo. 

Mas o protagonista é insistente e resolve ir a uma loja de quinquilharias para jovens místicos, onde compra um artefato conhecido como Salgueiro do Desejo, que lhe possibilita um único pedido que pode ou não funcionar. Que a desigualdade do mundo acabe? Que as guerras cessem? Que o líder bizarro da extrema direita sucumba? Um bilhão de dólares? Bom, o próprio Baker já admitiu em entrevistas que, em um eventual mundo real em que essa peça existisse, nada faria muito sentido e o caos absoluto reinaria. Mas Bear quebra o item solicitando ao destino que Nikki "lhe ame mais do que tudo no mundo". O que instaurará o terror de um relacionamento que se inicia bem, com uma conexão boa ainda que gerada por linhas tortas, mas que evolui para a codependência absurdamente sufocante, o que deixará uma trilha de morte, sangue, vísceras e carne de gato no sanduíche. E de urina e vômito. Porque sim, né, terror psicológico tem dessas metáforas nem tão metafóricas.

 

 

E não é que não existam boas sequências de sustos, algumas no estilo de gerar medo onde, aparentemente, não existe nada. Nenhum motivo para temor. Seja numa madrugada em que Nikki acorda inesperadamente para olhar Bear dormindo - uma coisa meio O Exorcismo de Emily Rose  (2005), esse sim um filme apavorante -, ou quando ela forma uma espécie de barreira protetora de fita tape na entrada de casa para, supostamente, impedir o companheiro de sair. De ir longe. Com a gente compreendendo segundos depois a luta interior de Nikki - com a sua verdadeira personalidade afogada em uma espécie de limbo. Mas, voltando ao início, ao tentar uma abordagem dos problemas que podem haver em uma relação de chantagens emocionais, carências afetivas infinitas e intimidade tóxica, a obra consegue entreter com sua "possessão demoníaca" lateral e bateção de cabeça inesperada, ainda que mesmo esses eventos pareçam meio exagerados e infantis em alguma medida (talvez ela tenha tração maior com adolescentes, de fato, e nem sei se isso é bom). É um filme com méritos, mas bem de longe de ser a última bolacha do pacote, que parte da crítica anda vendendo.

Nota: 6,0 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

A Volta ao Mundo em 80 Filmes - Hanami (Cabo Verde)

De: Denise Fernandes. Com Sanaya Andrade, Dailma Mendes e Alice da Luz. Drama, Cabo Verde / Portugal / Suíça, 2024, 101 minutos.

A passagem em que as personagens discutem o conceito de "hanami", no filme caboverdiano de mesmo nome, é meio breve, quase imperceptível. O que não reduz o seu impacto. Extraída de um conceito japonês, hanami alude a ideia de contemplação frente à transitoriedade das coisas. É observar algo que pode ser belo, mesmo que fugidio. As pessoas, os lugares, os amores, as amizades, aquilo que realmente importa e meio que se modifica o tempo todo. Nos escapa. E todo esse ciclo de vida, de idas e vindas, de partidas e de retornos e de memórias que permanecem e escapam parece ser central na obra contemplativa da diretora Denise Fernandes, e que está disponível na Reserva Imovision. Para a protagonista de Hanami, Nana (Dailma Mendes na infância e Sanaya Andrade na adolescência) o caráter transformador da experiência humana tem início quando ela ainda é uma criança pequena: com sua mãe, Nia (Alice da Luz), lhe deixando para trás, em busca de uma vida melhor.

Em geral o que temos aqui é um fiapo de história que, não demora, se converte em um experimento imersivo, em que as amplas paisagens, a trilha sonora enigmática, os silêncios contínuos e todo o conjunto tão contemplativo quanto fantástico, ganha força conforme a narrativa se desenvolve. Nesse sentido, a obra funciona quase como um veículo permeado por divagações poéticas e geograficamente extensas, que são a alegoria perfeita para o sentimento que invade aqueles que acompanhamos. Tudo é amplo, mas íntimo, espalhado, mas discreto. Quando Nia deixa a filha ainda bebê na ilha que fica no sopé de um vulcão, a imagem de várias mulheres ao mesmo tempo amparando a pequena, nos permite lembrar do conceito de coletividade, de comunidade, especialmente no que diz respeito a ideia de criar uma criança. A rede de apoio recebe contornos reais. Pessoas de carne e osso que navegarão em volta dos mistérios de Nana.

 


E por mais reflexivo que o projeto seja, não são poucos os momentos em que a mera passagem do tempo recebe outras tintas, outros significados na rotina dos nativos do arquipélago escurecido e de natureza discreta que acompanhamos. Em um momento curioso, como forma de evidenciar a escassez material e financeira dos que ali residem, o tio de Nana (seu nome é Manuel) verbaliza todos os ingredientes que compõem a receita de um tiramisu. Para ao final de cada item citado, afirmar que eles não têm nada daquilo à disposição. O que não o impede de sonhar ser um confeiteiro - o que é corroborado pela volúpia com que as crianças consomem os doces que ele elabora. Da mesma forma, ruminações filosóficas sobre vasos quebrados que podem se tornar mais fortes após remendados - mais sólidos, ainda se unidos -, funcionam como uma metáfora quase espectral do ambiente. 

A paz e a tranquilidade que residem na rotina - de colher ovos pela manhã, ouvir os pássaros cantar e brincar de esconde esconde entre crianças -, é quebrada quando Nana passa a sofrer de uma severa e um tanto inexplicável febre. O que a leva ao pé da montanha na tentativa de obter uma cura - que pode vir, por exemplo, com a obtenção de uma planta conhecida como sabão de feiticeira (e que é solicitada por sua avó). No caminho, outras figuras excêntricas, como o avô Orlando, que opera como um curandeiro do local, além de um pesquisador da área de vulcões chamado sugestivamente de Kenji Mizoguchi - e certamente esse aspecto não é aleatório, dada a preferência do antigo diretor japonês por obras pictóricas, de fluidez lenta, de planos longos e cheios de simbolismos que, de quebra ainda conectam o conceito de hanami -, movimentam a trama, que se desenrola em direção ao mais esperado desfecho: o de que o mundo anda e cabe a nós sermos capazes de contemplar sua beleza. Justamente porque tudo é passageiro.