terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Cinema - A Única Saída (Eojjeolsuga Eobsda)

De: Park Chan-wook. Com Lee Byung-hun, Son Ye-jin, Park Hee-soon e Lee Sung-min. Comédia / Drama / Policial, Coréia do Sul, 2025, 139 minutos.

De Tempos Modernos (1936) à Parasita (2019) não foram poucos os filmes que nos mostraram ser possível fazer a crítica ao capitalismo - e sua sanha devorada -, mas sem abrir mão do tom ácido, debochado. Aliás, talvez essa seja uma escolha bastante certeira na hora de abordar o tema - com todo o respeito às obras sisudas. A gente ri de nervoso frente ao absurdo. Mas também compreende bem as metáforas - mesmo que o ato de superar candidatos a uma vaga de emprego, se torne uma luta meio que literal demais pela sobrevivência. E esse é justamente o caso de A Única Saída (Eojjeolsuga Eobsda), obra do diretor Park Chan-wook - do recente e ótimo Decisão de Partir (2022) -, que está em cartaz nos cinemas e que, em alguma medida, repete as ideias apresentadas no excelente O Corte (2005) do grego Costa-Gavras. As duas produções, aliás, foram inspiradas em um romance do escritor Donald Edwin Westlake, de 1997.

Na trama, Man-soo (Lee Byung-hun) vive uma vida de comercial de margarina. É feliz ao lado da esposa e dos dois filhos, tem uma casa ajardinada que lhe permite fazer aquele churrasco gostoso no final de semana a ponto de ele sussurrar, que tem "tudo", após um abraço coletivo em família. Bom, isso até a fábrica de papel que ele trabalha ser vendida para um grupo de investidores estrangeiros que pretendem fazer um corte de 20 por cento da força de trabalho. Pouco importa o fato de Man-soo, com seus 25 anos de dedicação à firma, ser um dos mais experientes - ele tenta argumentar com os novos diretores. "Eles não te deram a enguia, te deram?", pergunta um colega, dando a entender que o peixe em formato de cobra é não apenas um sinal de que ele está prestes a ser demitido, como também a alegoria sexual inevitável, que alude à ponta mais fraca dessa equação. O operário padrão, o chão de fábrica, é sempre quem se ferra nesses casos. Sem muita margem pra negociar com o patrão.

 


Desesperado, Man-soo entra pra uma espécie de mentoria ridícula dessas que, ao invés de ajudar, parece gerar mais pressão. A ideia é que ele volte ao mercado de trabalho em três meses - e as dolorosas entrevistas de emprego, com salas cheias de sujeitos arrogantes de terno e gravata, parecem piorar tudo (e a cena em que o protagonista tenta simplesmente ver o rosto de um de seus interlocutores, sendo atrapalhado por uma luz estourada do sol que vem da rua, é só mais uma metáfora para o sofrimento do homem). Em família, a ideia é cortar todos os gastos supostamente excessivos - aulas de dança, a conta da Netflix -, e começar a pensar na venda da casa e do carro como forma de evitar dívidas. A esposa Mi-ri (Son Ye-jin) volta a trabalhar em um consultório odontológico. Até os cachorros têm de ser doados momentaneamente, para desespero das crianças. Tudo parece complicado até Man-soo enxergar uma luz no fim do túnel. O que lhe exigirá uma tomada de decisão extrema.

[SPOILERS A PARTIR DAQUI] Em meio a tantas humilhações, o sujeito decide que quer a vaga de um gerente da empresa concorrente Moon Paper - o que envolve dar cabo de um certo Seon-chul (Park Hee-soon), que é o detentor do posto. Só que não basta apenas isso: para ficar com o cargo, ele precisa provar que é o melhor em sua área - que é o momento em que ele leva a noção de capitalismo tardio e de selvageria do mercado de trabalho ao limite, atraindo os outros postulantes para uma vaga fictícia, criada por ele. O que lhe permitirá colocar em prática um plano diabólico de... assassinato! Repleto de sequências excêntricas que evidenciam a completa inaptidão do sujeito para o seu propósito - tentativas falhas, fugas aleatórias, emboscadas que não funcionam a contento -, o filme avança como uma experiência desalentadora e pessimista, mas também hilária e ácida sobre o absurdo de, em tempos de automação de tudo, ainda estarmos disputando um espaço que nos garanta o mínimo de dignidade. Que ele seja em uma fábrica de papel, talvez seja só mais uma das ironias.

Nota: 8,5

 

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