segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Novidades em Streaming - Morra, Amor (Die My Love)

De: Lynne Ramsay. Com Jennifer Lawrende, Robert Pattinson, Lakeith Stanfield, Sissy Spacek e Nick Nolte. Drama, EUA / Reino Unido, 2025, 119 minutos.

Quem se aventurou a ler Morra, Amor (Die My Love), obra de Ariana Harwicz na qual o filme de Lynne Ramsay - de Precisamos Falar Sobre o Kevin (2011) e Você Nunca Esteve Realmente Aqui (2017) - se inspira, encontrou um livro curto, mas denso, caudaloso, quase intransponível em alguns momentos. Como uma alegoria que busca desfazer a romantização da maternidade, o próprio texto árido e direto de Harcwicz se apresenta como uma experiência catártica, incômoda e cheia de ambiguidades, que converte à chegada de um filho a um tipo de cárcere socialmente imposto. Presa em casa com um bebê que provavelmente ela não desejava e que apenas serve para legitimar o que se espera em termos de papeis de gênero, a protagonista Grace (Jennifer Lawrence), embarca em uma espiral de loucura, medo e violência. E de contradições - entre ser a mamãe idealizada, tradicional e plena e ser uma mulher com desejos, anseios e sonhos (muitos deles suprimidos).

Sim, pode ser meio desafiador pra quem está acostumado a narrativas um pouco mais convencionais - especialmente aquelas que glorificam o núcleo familiar como um conjunto invariavelmente harmônico e perfeito. Mas quem se aventurar a olhar para além dessa camada mais superficial, encontrará uma obra incômoda, que nunca julga sua protagonista - uma mulher, aliás, que parece em luta interior constante. E não deixa de ser interessante notar como tanto no livro, quanto no filme, os protagonistas parecem mergulhados em uma espécie de sonho psicótico, enevoado e bucólico, em que a beleza da natureza frondosa do entorno da propriedade em que moram, colide com a escuridão interior da casa. Uma casa, aliás, que Grace e Jackson (Rober Pattinson) "herdam" de um tio que teria se suicidado no local. O que serve como reforço desse cenário de tensão e de perturbação crescentes.

 


Aliás, em uma das primeiras sequências, Grace avança por meio do capinzal como se fosse uma felina, observando as suas presas. No alpendre da casa, Jackson e o bebê chamam a mamãe que, estranhamente, se aproxima com uma faca grande na mão, daquelas de cortar carne. Em nenhum momento ela faz insinuação de que irá ferir o próprio filho - mas não deixa de ser curioso notar como bastam alguns minutos de filme para que já sejamos catapultados para o senso de desorientação que guiará a protagonista pelas próximas duas horas. Diferente de outras mães ela não tem saco para a paparicação de outras mulheres, quando vai de carrinho de bebê à tiracolo ao mercadinho da região. Também se irrita com o cachorro recém adotado, que não para de latir por nada nesse mundo. O marido distante, que muitas vezes ela sequer sabe direito onde está - só pra cumprir o padrão do homem médio que sobrecarrega a mulher -, também a deixa inquieta. "Minhas mãos estão em minha buceta porque você come todo mundo menos eu", esbraveja ela durante uma discussão. É só mais um tópico.

O prazer suprimido também fica evidente em seu desalento como escritora que precisa adiar projetos - sendo igualmente potente um instante em que a tinta de sua caneta se mescla com o leite que verte de seus seios. Os universos colidem. Paixão e fúria, tesão e ternura, agitação e calmaria. Não por acaso, como forma de quebrar essa lógica de uma existência padronizada, o surgimento de um misterioso motoqueiro da vizinhança (Lakeith Stanfield) funciona como projeção de desejo (inclusive erótico), de pulsão de fuga e de violência que nunca se concretiza (o que talvez explique o pedido de Grace para que o sujeito corte o próprio lábio). Como afirmei antes, tanto livro como filme, que está disponível na Mubi, permitem uma série de interpretações, ainda que nunca fujam da ideia de ruptura das tradições, que colocam frente a frente uma certa vida domesticada e uma alucinação guiada pelo desejo. Cortante, instável, sensual e magnética, essa é aquela produção que nos deixa pensando depois que os créditos sobem. O que não deixa de ser um mérito.

Nota: 8,0

 

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