De: Geeta Gandbhir. Com Ajike Owens e Susan Lorincz. Documentário / Drama / Policial, EUA, 2025, 96 minutos.
Vamos combinar que em um País em que é possível comprar, no mercadinho da esquina, um pacote de Doritos e uma pistola, situações como a vista no assombroso documentário A Vizinha Perfeita (The Perfect Neighbor), não chegam à surpreender. Some-se a isso a ascensão desvairada de uma extrema direita preconceituosa em todas as frentes - representada pelo ditador Donald Trump e o seu discurso de ódio a absolutamente todas as minorias (negros, imigrantes, latinos, periféricos) - e o estrago parece inevitável. E se ter um vizinho, qualquer que seja, já pode ser problemático em vários sentidos - com privacidades invadidas e desrespeito generalizado ao outro -, ladear a porta com uma idosa de tendência fascista pode ser ainda pior. E é justamente isso que acompanhamos na obra dirigida por Geeta Gandbhir, que está disponível na Netflix, e deve ser figurinha fácil em sua categoria no Oscar desse ano.
A história é real e meio que se repete, em matéria de escalada de violência. O filme começa com a polícia sendo acionada em um caso de assassinato, em uma pequena cidade do Condado de Marion, no Sul da Flórida. Voltando no tempo, compreenderemos as motivações (bizarras, por sinal) do crime, que vitimou Ajike Owens, que foi assassinada a sangue frio por Susan Lorincz, uma daquelas tias branquelas do ZAP que, na falta do que fazer - um bingo, crochê, hidroginástica ou qualquer outra coisa -, resolve encrencar com a vizinhança inteira, depois de se mudar para o bairro, ocupado em sua maioria por uma comunidade negra. Sem esconder o racismo entranhado em suas vísceras podres - o que faz com que uma mulher de 58 anos pareça muito mais velha do que, de fato, é -, Susan começa a, paulatinamente, acionar a polícia local para se queixar de crianças que jogam bola e brincam perto de seu pátio.
Sim, meio que basicamente é isso: Susan, que reside ao lado de um terreno baldio, se ressente que a garotada utilize o gramado pra jogar futebol americano, correr, agitar. O que fará com que ela chama a polícia não uma, mas dez, quinze, trinta vezes. Cinquenta vezes, talvez. Com as tensões escalando a cada novo chamado e um mal-estar coletivo emergindo do lugar. Como se fosse uma espécie de Bruxa dos 71 da vizinhança - mas sem o charme da Dona Clotilde -, Susan é a tia chata, solitária e mal amada, que implica com todo mundo, não se furtando em utilizar xingamentos cheios de preconceitos. Na tentativa de proteger as crianças, mães e pais formam uma barreira de contenção. Às vezes até contragolpeiam de forma mais forte - como no episódio em que uma delas arremessa uma placa em direção a casa de Susan. O que resultará em repetidos constrangimentos - e fica claro que até mesmo os policiais percebem onde está o verdadeiro problema. Que parece meio que sem solução, já que a véia jura que vai mudar dali - mas nunca muda.
Tenso e de suspense crescente, o documentário é hábil em utilizar, em grande parte, as próprias câmeras corporais dos policiais para contar a história - o que resulta em uma experiência bastante naturalista e orgânica, com cenas que mesclam discussões de meio de rua, em meio a presença ingênua das crianças que, sim, podem ser meio sapecas (como no instante em que uma delas tem a ideia de colocar um cachorro dentro da caçamba da caminhonete de Susan). Aproveitando ainda pra discutir o absurdo de leis como a Stand-Your-Ground, que possibilita a alegação de legítima defesa em caso de uso de força na propriedade privada, a obra ainda evidencia como, em casos envolvendo violência cometida por brancos contra pretos, a ponta fraca sempre parecerá evidente. E, por mais revoltante que o projeto seja, já que uma mãe de quatro filhos é simplesmente assassinada a sangue frio por causa da bagunça feita pelos pequenos, fica a lição quando o assunto é a busca por justiça: o povo jamais deve se calar. Sob pena da normalização desse tipo de agressão.

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